quarta-feira, 12 de outubro de 2016

DESAFIO DO ALÉM

DESAFIO DO ALÉM (The haunting, 1963, Argyle Enterprises, 112min) Direção: Robert Wise. Roteiro: Nelson Gidding, romance "The haunting of Hill House", de Shirley Jackson. Fotografia: Davis Boulton. Montagem: Ernest Walter. Música: Humphrey Searle. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/John Jarvis. Produção: Robert Wise. Elenco: Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn, Fay Compton. Estreia: 18/9/63

Em 1999, acreditando que a tecnologia que tornava qualquer efeito visual imaginado possível de ser mostrado nas telas de cinema, os produtores de Hollywood resolveram que era uma boa ideia realizar um remake do clássico "Desafio do além", um dos mais assustadores filmes de terror da década de 60 e um dos preferidos de ninguém menos que Martin Scorsese. Com o título alterado para "A casa amaldiçoada", um elenco que incluía Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Lily Taylor e a direção de Jan De Bont - vindo dos sucessos "Velocidade máxima" (94) e "Twister" (96) e do fracasso de "Velocidade máxima 2" (97) - o filme acabou naufragando nas bilheterias e foi massacrado pela crítica. Merecido! Ao substituir o poder de sugestão do original, que buscava o medo através de ruídos fora de lugar e ameaças invisíveis, a refilmagem acabou por perder em inteligência e sobriedade - elementos que fizeram do primeiro filme uma obra obrigatória aos fãs de filmes de terror.

A trajetória de "Desafio do além" até transformar-se em um clássico indiscutível do gênero começou quando o cineasta Robert Wise, ainda na fase de pós-produção de seu "Amor, sublime amor" (que lhe daria o Oscar de melhor direção), leu, na revista Time, a resenha de um livro escrito por Shirley Jackson, chamado "The haunting of Hill House". Intrigado com a trama criada pela autora, Wise imediatamente recomendou-a para o roteirista Nelson Gidding - com quem já havia trabalhado em "Quero viver" (58) - e decidiu que sua adaptação seria o filme que ele ainda devia, por contrato, à MGM. O estúdio concordou com a ideia, mas foi na Inglaterra que Wise obteve melhor receptividade ao projeto - leia-se um orçamento um pouquinho maior - e tal situação acabou levando a produção para Londres e para a escalação de dois de seus atores, Claire Bloom e Richard Johnson. A eles uniram-se Julie Harris (que aceitou o papel principal, a da atormentada Eleanor Lance, por ter interesse em parapsicologia) e Russ Tamblyng (obrigado pelo estúdio a cumprir contrato) e, surpreendendo a quem esperava dele algo mais ambicioso depois de sua versão musical e moderna de "Romeu e Julieta" - um dos filmes mais premiados da história da Academia - Wise entregou uma produção simples e intimista, mais preocupada com a construção delicada do suspense do que com os efeitos mirabolantes que fariam a desgraça do filme de três décadas depois.


A história de "Desafio do além" segue à risca os elementos mais clássicos das tramas de casas mal-assombradas e fantasmas mal-intencionados: para buscar provas para seus experimentos sobre paranormalidade, o dr. Markway (Richard Johnson) decide reunir, em uma mansão dita assombrada, um grupo de pessoas estranhas entre si e que podem lhe ajudar em seus objetivos. Sobrinho de um dos herdeiros da propriedade, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn) serve como a voz da razão; modernosa, médium e lésbica, Theodora (Claire Bloom) é a mais favorável a acreditar na força do além; e Eleanor (Julie Harris, que usou a própria depressão como elemento em sua interpretação) é uma mulher sem rumo na vida desde a morte da mãe e que aceita o desafio como forma de encontrar uma razão para a vida. Aos poucos, enquanto Theodora tenta aproximar-se de Eleanor - que se mantém violentamente afetada pelo passado trágico da casa, que já fez quatro vítimas mulheres em oitenta anos de existência - fatos inexplicáveis começam a tomar conta do ambiente, levando todos à certeza de que há uma forte conexão entre Eleanor e o local (ou seus fantasmas).

Fugindo do óbvio e apostando na sutileza da trama, Robert Wise criou um espetáculo que sugere muito mais do que mostra, para sorte de todos que preferem o medo oriundo da mente mais do que de sangue escorrendo pela tela - e até mesmo a opção do diretor em filmar em preto-e-branco colabora para tal sensação de claustrofobia. A direção de arte primorosa, que faz da casa um personagem a mais, é um dos pontos altos do filme, em especial uma tétrica escada em caracol que serve de cenário para o clímax. Abrindo mão de sua ideia inicial - a de localizar a narrativa inteira dentro da cabeça de Eleanor - o roteiro de Nelson Gidding se ampara basicamente na força da história, na direção firme de Wise e na atuação de seu elenco, levando a sério uma trama para a qual é imprescindível uma dose generosa de imaginação e dedicação - justamente o que faltou em sua versão moderna, que apoiou-se no visual e deixou de lado o que há de humano e mais assustador no enredo: o que existe além do que os olhos podem ver.

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