domingo, 30 de outubro de 2016

A PROFECIA

A PROFECIA (The omen, 1976, 20th Century Fox, 111min) Direção: Richard Donner. Roteiro: David Seltzer. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Stuard Baird. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte: Carmen Dillon. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Harvey Bernhard. Elenco: Gregory Peck, Lee Remick, David Warner, Billie Whitelaw, Harvey Stephens, Patrick Thoughton, Martin Benson. Estreia: 06/6/76 (Inglaterra)

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Ave Satani")
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original

Em 1976, filmes de terror não eram mais objetos de desprezo pelos produtores de Hollywood, especialmente se envolvessem a eterna discussão sobre a existência ou não do demônio. Com o sucesso de bilheteria e crítica de "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73) - que chegaram até a ganhar Oscar - qualquer estúdio que prezasse por sua conta bancária passou a ver o gênero como uma galinha dos ovos de ouro. A 20th Century Fox, no entanto, quase deixou a sua escapar: o roteiro de "A profecia", escrito por David Seltzer (unica e exclusivamente por motivos financeiros, como ele mesmo assume), havia sido rejeitado pelo estúdio e estava nas mãos da Warner Bros quando Richard Donner - então um diretor apenas de filmes para a televisão - decidiu que tinha total condição de fazer dele a sua estreia como cineasta. Empolgado com a história, convenceu o chefão Alan Ladd Jr. (filho do eterno Shane, de "Os brutos também amam") a recuperar os direitos de filmagem - aproveitando que a Warner optou por uma sequência de "O exorcista" - e, com um ator do porte de Gregory Peck como protagonista, criou aquele que seria seu primeiro grande sucesso comercial, em uma carreira que inclui "Superman, o filme" (78), "Os goonies" (85) e a cinessérie "Máquina mortífera" (que começou em 1987). Mas até que o filme finalmente estreasse, na estratégica data de 6 de junho de 1976 (666), ninguém poderia ter a certeza de que a empreitada daria certo - ou se ao menos chegaria às telas.

Como acontece frequentemente quando se trata de filmes de terror icônicos - caso de "O exorcista", principalmente - acontecimentos nos bastidores de "A profecia" deixaram muita gente com os nervos à flor da pele. O fato de Gregory Peck ter aceito o papel principal - de um embaixador que perdeu o filho recém-nascido e anos mais tarde se vê obrigado a tomar uma decisão que pai nenhum gostaria de tomar - foi o primeiro sinal de que um filme diferente estava por vir: o filho do ator havia cometido suicídio em 1975, e muitos não imaginavam que ele pudesse querer viver na tela uma história tão forte em termos emocionais. Foi o "sim" de Peck, no entanto, que avalizou o projeto junto aos produtores e a nomes como o de Lee Remick - indicada ao Oscar por "Vício maldito" (62). Com o prestigiado ator no elenco - com o salário diminuído, mas com um contrato que lhe renderia 10% da bilheteria do filme - Donner mostrava a todos que seu primeiro trabalho para o cinema não seria um filme de terror qualquer. E então começaram os tétricos incidentes.

Coincidência ou não, uma série de eventos estranhos tomou conta dos bastidores das filmagens. Aviões diferentes que levavam Gregory Peck e o roteirista David Seltzer para Londres foram atingidos por raios com poucas horas de diferença; o produtor Harvey Bernhard escapou por pouco de ser atingido por outro raio, quando estava em Roma; cães escalados para o filme atacaram seus treinadores sem razão aparente; o diretor Richard Donner foi atropelado e o hotel onde estava hospedado na capital inglesa foi alvo de um atentado à bomba praticado pelo IRA; um avião que deveria estar levando Peck de Israel para Los Angeles caiu, matando os cinco passageiros japoneses que estavam a bordo; e a namorada do técnico em efeitos visuais John Richardson foi decapitada em um acidente automobilístico em uma estrada da Holanda, perto de uma cidade chamada Ommen. Não foi por acaso que o Vaticano declarou-se francamente contra a produção e muitos roteiristas anteriores a Seltzer se recusaram a tomar parte no projeto. Mal sabiam que, apesar de tudo, "A profecia" se tornaria um dos maiores sucessos de bilheteria de 1976, daria origem a sequências e daria o único Oscar da carreira do músico Jerry Goldsmith - além de um desnecessário remake em 2006.


Acertadamente assumindo um tom sério e realista "A profecia" começa com uma tragédia familiar: Robert Thorn (Gregory Peck), embaixador dos EUA em Roma, descobre que seu filho recém-nascido morreu logo após o parto e, para impedir que sua esposa, Katherine (Lee Remick), saiba do acontecido, aceita assumir a paternidade de um bebê órfão, oferecido pelo dedicado padre que cuida da maternidade. Alguns anos depois, já alocados em Londres, estranhos acontecimentos começam a cercar a família, a partir do suicídio da jovem babá do pequeno Damien (Harvey Stephens) e da chegada do perturbado Padre Brennan (Patrick Troughton), que procura o político para alertá-lo sobre as reais origens do menino - que estaria ligado a uma profecia a respeito da chegada do anticristo. A princípio cético, aos poucos Thorn passa a desconfiar de que a verdade pode ser muito mais aterradora do que ele poderia supor, e, com a ajuda do fotógrafo (David Warner), parte em busca de uma solução menos trágica do que gostaria.

Pontuado pela oscarizada trilha sonora de Jerry Goldsmith e cercado de uma atmosfera sinistra que enfatiza o tom cru da narrativa, "A profecia" é um perfeito exemplar dos melhores filmes de terror já realizados em Hollywood. Sem apelar para alívios cômicos ou para sangue em excesso, Richard Donner acaba por construir um conto macabro e tenso, em que o público é conduzido por um caminho repleto de sustos e revelações macabras, que se aproveitam de uma base religiosa bastante conhecida - o Livro do Apocalipse - para atingir um nível perturbador e realista. Com interpretações seguras e inspiradas de Gregory Peck (em papel recusado por Charlton Heston, Roy Scheider e William Holden) e Lee Remick - além do estreante Harvey Stephens no papel do demoníaco Damien - e uma edição concisa e eficiente, é um clássico absoluto do gênero, capaz de causar tensão mesmo nesses tempos em que efeitos visuais e orçamentos milionários parecem mais importantes do que boas histórias. Um filme de terror que se leva a sério, o que faz uma imensa diferença!

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