quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A MARCA DA MALDADE

A MARCA DA MALDADE (Touch of evil, 1958, Universal Pictures, 95min) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, romance "Badge of evil", de Whit Masterson. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Aaron Stell, Virgil Vogel. Música: Henry Mancini. Figurino: Bill Thomas. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy, Alexander Golitzen/John P. Austin, Russell A. Gausman. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Marlene Dietrich, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Joanna Moore. Estreia: 23/4/58




Em uma cena do filme “Ed Wood” (94), dirigido por Tim Burton, o protagonista – conhecido pela alcunha pouco lisonjeira de “o pior diretor de todos os tempos” – encontra um arrasado Orson Welles sentado em uma mesa de bar, afogando as mágoas. Em uma rápida conversa, o cineasta considerado gênio já em seu filme de estreia, o incensado “Cidadão Kane” (41), reclama dos rumos de sua carreira, enfatizando que está em vias de começar um filme em que Charlton Heston fará o papel de um mexicano (!!). A conversa entre os dois cineastas (separados pela diferença de talento mas unidos pela paixão com que desenvolviam seus filmes) provavelmente nunca aconteceu, mas é bastante ilustrativa: tanto Wood, com seus filmes de fundo de quintal, como Welles, com obras-primas como “Soberba” (42), sofreram nas mãos dos produtores, que, passando por cima de qualquer ambição autoral de ambos, não hesitavam em impor suas próprias ideais acerca dos resultados finais. No caso de Wood, o problema até não era tão grande – quase ninguém assistia a seus filmes, sempre tidos como o mais absoluto exemplo de cinema trash – mas Welles realmente tinha do que se queixar. Desde que se tornou o gênio mais admirado de Hollywood por seu primeiro filme, o diretor caiu em desgraça junto aos estúdios, que, não sabendo lidar com sua personalidade forte, passaram a interferir ferozmente em seus trabalhos seguintes. Mesmo com o apoio de nomes de peso da indústria a seu lado – como a estrela Rita Hayworth, com quem era casado durante as filmagens de “A dama de Shangai” (42) – seu brilhantismo não era o suficiente para que ele mantivesse uma carreira sólida e estável.

“A marca da maldade” – o tal filme com Charlton Heston no papel de mexicano – é um perfeito exemplo dessa intromissão dos estúdios no trabalho do cineasta, que renegou a versão final imposta pelo estúdio à época de sua estreia, com alterações em número suficiente para que ele mesmo deixasse uma carta com informações expressas de sua visão do filme. Tal carta, de posse do ator Charlton Heston até o final da década de 90, serviu de guia para uma nova montagem, que seguia à risca suas orientações e estreou, já com aura de clássico injustiçado, em 1998. De pequenos detalhes – como a mudança dos créditos para o final do filme, como forma de não prejudicar o belo plano-sequência de abertura, com três minutos de duração – até outras modificações mais ligadas à edição, as novidades acabaram por dar ao filme um ritmo mais interessante e um tom ainda mais sombrio e pessimista – coisas que a Universal, obviamente, não considerava comerciais. Aliás, até mesmo a simples presença de Welles como ator (papel para o qual foi exclusivamente contratado no início do projeto) já era algo temerário, uma vez que, apesar de sua fama de gênio, seu nome não era necessariamente um chamariz de público.






Vindo de fracassos consecutivos de bilheteria – incluindo duas adaptações da obra de Shakespeare, “Macbeth” (48) e “Othello” (52) – Welles foi chamado pela Universal para trabalhar apenas como ator, mas o estúdio acabou convencido por Charlton Heston, então já consagrado por sucessos como “Os dez mandamentos” (56), de Cecil B. de Mille, para contratá-lo também como roteirista e diretor (mas, ainda assim, sem os salários cumulativos para tais funções). Assumindo a tripla responsabilidade, Welles recomeçou quase do zero: pegou o roteiro escrito por Paul Monash – por sua vez baseado em um romance barato chamado “Badge of evil”, de Whit Masterson – e iniciou seu processo de transformar alguns elementos da trama a fim de servir melhor à sua visão da narrativa. Apesar do afirmado na cena do filme de Tim Burton, não foi o estúdio quem optou por fazer de Charlton Heston um policial mexicano, e sim o próprio Welles, que inverteu as nacionalidades do casal protagonista e transferiu o cenário da ação de uma pequena cidade californiana para a fronteira México/EUA. Reservando para si um papel crucial – o do asqueroso chefe de polícia Quinlan, que lhe tornou ainda mais volumoso fisicamente – e oferecendo uma pequena participação para a amiga Marlene Dietrich, o cineasta ainda conseguiu com que Janet Leigh diminuísse seu salário apenas pela possibilidade de trabalhar com ele, ao contrário do que sugeria seu agente. Sorte da futura Marion Crane, que cravou sua imagem em mais um importante exemplar do grande cinema americano.

Charlton Heston (um tanto estranho em sua caracterização) vive Mike Vargas, um detetive mexicano que está em vias de desbaratar uma quadrilha de traficante de drogas comandada por um misterioso criminoso chamado Grandi, que não hesita em mandar-lhe recados ameaçadores ou sequer matar inocentes para demonstrar seu poder. Bem no dia de seu casamento com a destemida Susan (Janet Leigh), Vargas se vê envolvido na investigação de um atentado à bomba que matou um casal dentro de um carro, praticamente na sua frente. Enquanto tenta descobrir os culpados pelo crime, ele enfrenta a oposição explícita de um policial do México, o Capitão Hank Quinaln (Orson Welles), que não é exatamente um primor de honestidade: grotesco em seus modos heterodoxos (pra dizer o mínimo), Quinlan bate de frente com Vargas quando percebe que o mexicano não irá fechar os olhos diante de suas arbitrariedades, que incluem forjar provas e torturar suspeitos. Quem acaba de vítima da batalha é Susan, que, sozinha em um hotel afastado, sofre as consequências do embate.

Com um roteiro que privilegia o clima e a as imagens mais do que as reviravoltas da história - uma forma que Welles encontrou de impedir estragos ainda maiores caso o filme lhe fosse tirado das mãos, como de fato o foi - "A marca da maldade" é um show de visual e interpretações. Welles em pessoa é o maior destaque, com seu Quinlan absolutamente monstruoso tanto em forma quanto em alma, mas é preciso destacar o trabalho competente de Janet Leigh e o brilhantismo da atuação de Akim Tamiroff, na pele do imprevisível Joe Grandi e ao fascínio que sempre acompanha a presença de Marlene Dietrich, aqui como Tanya, uma cartomante que parece saber bem mais do que deveria. É o conjunto de todos esses fatores que faz do filme mais um trabalho irrepreensível de Orson Welles, mostrando ser muito mais do que o criador de "Cidadão Kane" - o que já não seria pouca coisa.

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