segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MARATONA DA MORTE

MARATONA DA MORTE (Marathon man, 1976, Paramount Pictures, 126min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: William Goldman, romance de William Goldman. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jim Clark. Música: Michael Small. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/George Gaines. Produção: Sidney Beckerman, Robert Evans. Elenco: Dustin Hoffman, Laurence Olivier, Roy Scheider, William Devane, Marthe Keller. Estreia: 06/10/76

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier) 

Pode-se dizer, sem medo de errar, que existe o cinema policial e o cinema policial americano dos anos 70, com características próprias que o diferenciam substancialmente de outros exemplares do gênero. Não apenas pelo visual inconfundível - fotografia granulada, figurino típico da época - mas também e principalmente pelo estilo seco e direto de contar uma história, apostando na inteligência do espectador e apontando para temas relevantes e realistas. Al Pacino foi um dos grandes ícones do período, estrelando obras-primas como "Um dia de cão" (75) e "Serpico" (73), ambos dirigidos por Sidney Lumet. Não por acaso, Pacino, com seu jeito de homem comum, foi a primeira escolha do cineasta inglês John Schlesinger para protagonizar "Maratona da morte", adaptação do romance de William Goldman que tinha todos os elementos necessários a um eletrizante exemplar do gênero. O problema é que o produtor do filme, o todo-poderoso da Paramount Pictures, Robert Evans, não era exatamente um fã de Pacino - a quem tentou demitir das filmagens de "O poderoso chefão" (72) e apelidou maldosamente de "anão" - e vetou a ideia de Schlesinger, indicando outro pequeno grande ator para o papel do frágil protagonista Babe Levy: Dustin Hoffman.

Repetindo a parceria com o diretor que havia lhe dado o inesquecível Ratzo de "Perdidos na noite" (69), Hoffman entrega mais uma memorável atuação, tornando crível até mesmo o fato de, aos 38 anos, interpretar um estudante universitário muitos anos mais jovem - algo que já havia feito com propriedade em sua estreia nas telas, "A primeira noite de um homem" (67). Ele está completamente à vontade como Thomas "Babe" Levy, um rapaz que cursa a faculdade de História como forma de honrar a memória do pai, que cometeu suicídio após ter a reputação arruinada pela perseguição política no período do infame macarthismo - a caça aos comunistas que tomou conta dos EUA nos anos 50. Inteligente e dedicado, ele vê sua pacata rotina completamente alterada quando o inesperado retorno de seu irmão mais velho, Doc (Roy Scheider), acaba em uma tragédia que o transforma em alvo de uma misteriosa organização que tem ligações com o temível Christian Szell (Laurence Olivier), um criminoso nazista que abandona seu exílio para buscar, em Nova York, um valioso tesouro em diamantes. Nessa situação ambígua e aflitiva, ele não consegue confiar nem mesmo na nova namorada, a suíça Elsa Opel (Marthe Keller), que parece saber mais do que aparenta.


Inserindo aos poucos as informações a respeito de seus personagens e sua trama - uma aposta arriscada que o público atual, mal acostumado com roteiros quase didáticos - Schlesinger não poupa a plateia de cenas bastante violentas e uma dose de crueldade quase excessiva. Sua sequência mais famosa, em que Szell tortura Babe com uma broca de dentista, por exemplo, chegou a ter sua duração cortada na edição final, depois de reclamações sobre seu conteúdo, apesar de figurar, hoje em dia, em seletas listas que elegem as melhores cenas da história do cinema. Boa parte de sua tensão vem da forma como o cineasta constrói sua narrativa, com cortes secos e um senso de desorientação que aproxima a audiência do protagonista, uma pessoa normal diante de um turbilhão de violência inesperado e angustiante. O roteiro, adaptado pelo próprio William Goldman - que modificou, a contragosto, o final da história - não facilita as coisas para o público, que passa quase metade do filme sem ter a menor ideia de como personagens tão díspares - um estudante, um criminoso nazista e um executivo constantemente em viagens ao exterior - podem estar conectados. A paciência, porém, oferece um prêmio a partir da entrada de Laurence Olivier em cena: seu Christian Szell, é, sem dúvida, uma de suas maiores criações no cinema - e isso que ele fez todas as suas cenas sob forte medicação para tratamento de um câncer que todos acreditavam que seria fatal. Não apenas Olivier sobreviveu à doença como levou um Golden Globe e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho - e só morreu em 1989, aos 82 anos de idade.

A presença de Olivier no elenco de "A maratona da morte", no entanto, quase não aconteceu. Preocupados com seu estado de saúde precário, os executivos da Paramount não sentiam-se seguros em tê-lo em seu elenco. Foi preciso que Robert Evans apelasse aos veteranos David Niven e Merle Oberon para que eles pressionassem uma companhia de seguros londrina para que o grande intérprete shakespereano finalmente pudesse assinar contrato para interpretar o cruel Christian Szell. Demonstrando seu talento acima do normal, Olivier não deixou que sua condição médica ficasse em seu caminho - nem sua dificuldade de lembrar seus diálogos, consequência dos efeitos colaterais de seus remédios para dor - e entregou uma performance assustadora que ficou em 34º lugar em uma enquete feita pelo AFI (American Film Institute) sobre os maiores vilões na ocasião do centenário do cinema. Seu trabalho consegue até mesmo ofuscar a intensa atuação de Dustin Hoffman - em um de seus melhores momentos na carreira, diga-se de passagem - e disfarçar o ritmo um tanto lento da primeira hora de duração do filme. Não é injusto dizer que "A maratona da morte", apesar de suas qualidades, deve boa parte de sua permanência na memória graças à potência de Olivier como ator, em um show inesquecível. O filme como um todo pode não agradar a todo mundo, mas sua atuação chega a ser milagrosa.

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