segunda-feira, 10 de outubro de 2016

VÍCIO MALDITO

VÍCIO MALDITO (Days of wine and rose, 1962, Jalem Productions, 117min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: JP Miller. Fotografia: Phillip H. Lathrop. Montagem: Patrick McCormack. Música: Henry Mancini. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Joseph Wright/George James Hopkins. Produção: Martin Manulis. Elenco: Jack Lemmon, Lee Remick, Charles Bickford, Jack Klugman, Alan Hewitt. Estreia: 26/12/62

5 indicações ao Oscar: Ator (Jack Lemmon), Atriz (Lee Remick), Canção Original ("Days of wine and roses"), Figurino em P&B, Direção de Arte em P&B
Vencedor do Oscar de Canção Original ("Days of wine and roses")

As primeiras cenas e o nome do diretor Blake Edwards, o mesmo de "Bonequinha de luxo" (61), nos créditos de abertura dão a impressão de que, apesar do título em português já entregar o jogo, o filme "Vício maldito" seguirá o caminho dos dramas românticos adocicados de que Hollywood é pródiga desde tempos imemoriais: o relações públicas Joe Clay (Jack Lemmon), cuja maior parte do trabalho consiste em arrumar acompanhantes de luxo para seus clientes, se apaixona perdidamente pela bela e jovem secretária Kirsten Amesen (Lee Remick) e, depois de um tempo, os dois acabam se casando mesmo com a relutância do pai da moça, Ellis (Charles Bickford). Porém, já nessas primeiras sequências pode-se perceber que Joe tem um problema sério com o álcool, apesar de nem mesmo ele notar tal dependência, mas Kirsten é uma doce e ingênua abstêmia cujo único vício é em chocolate. A forma com que essa história de amor se transforma em pesadelo é, no entanto, o que faz do filme de Edwards mais um contundente retrato de uma chaga social das mais dilacerantes, o alcoolismo. Ao contrário do que fez Billy Wilder em 1945, com seu "Farrapo humano" - vencedor dos Oscar de filme, diretor, roteiro e ator para Ray Milland - e seu mergulho nos dramas de um escritor que convivia com a doença como se ela fosse uma amiga insidiosa, "Vício maldito" insere a tragédia em um universo bem mais prosaico: a classe média americana, ilusoriamente protegida de tais desvios de conduta e moral.

Quando a segunda fase do filme chega, Joe e Kirsten já estão casados e são pais de uma menina. Ele está com problemas no trabalho - e não percebe que, apesar de parecer, não é isso que o empurra para a garrafa, e sim o contrário: sua crise profissional é consequência de sua doença e, como desgraça pouca é bobagem, sua esposa, para lhe fazer companhia, começa também a beber "socialmente". Não é preciso muita imaginação para saber que tal ideia não é das mais brilhantes, e logo em seguida, Kirsten e Joe estão juntos em farras etílicas, desabando financeiramente e entrando em uma espiral de desespero que não tem como acabar bem. Nem mesmo quando ele finalmente percebe o estado lastimável em que se encontra - ao ver sua imagem refletida na vitrine de uma loja - e recorre à ajuda do AA, as coisas não parecem ser simples: cada vez mais entregue à bebida, Kirsten passa a afastar-se do marido, que não consegue administrar sua vontade cada vez maior de manter-se sóbrio ao lado da mulher que ama - e que iniciou sua autodestruição a seu lado.


Baseado em um texto escrito para a televisão por J.P. Miller em 1958 - então dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Cliff Robertson - "Vício maldito" é praticamente um corpo estranho na filmografia de Blake Edwards, conhecido como o criador do Inspetor Closeau da série de filmes "A pantera cor-de-rosa", iniciada no ano seguinte. Sem espaço para nenhum tipo de humor, o roteiro vai escorregando, a cada cena, mais para o fundo do poço, sem melindres ao mostrar a forma triste com que o casamento e a vida do casal central se transforma, pouco a pouco, gole a gole, em um imenso turbilhão emocional, capaz de destruir o amor-próprio, a felicidade conjugal, a família e a carreira em uma sombra indefinível e dolorosa. Jack Lemmon, recém saído do extraordinário "Se meu apartamento falasse" - outro filme de Billy Wilder a sair consagrado da cerimônia do Oscar - entrega uma performance arrebatadora, comprovando seu talento sem igual em viver tipos tão díspares quanto o músico travestido de "Quanto mais quente melhor" (59, sintomaticamente também assinado por Billy Wilder) e um atormentado alcoólatra. Sua atuação rendeu-lhe mais uma indicação ao prêmio da Academia, assim como à sua parceira de cena, Lee Remick, que entrega uma interpretação também bastante forte e contundente. Enquanto Remick brilha principalmente no terço final do filme, quando sua personagem submerge na doença, Lemmon entrega ao público algumas cenas de cortar o coração - em uma delas, destroi a estufa de flores do sogro em busca de uma garrafa que possa lhe tirar o desespero por um gole.

E talvez a força de "Vício maldito" - além de seu tema e de sua qualidade dramática - venha de uma equipe que sabia do que estava falando. Não apenas o roteirista J.P. Miller sofria de alcoolismo, o que confere uma veracidade dolorosa a cada diálogo, mas também Blake Edwards teve um passado difícil em relação à bebida, e Jack Lemmon, que teve uma mãe alcoólatra, confessou que antes de tornar-se astro flertou com o perigo em forma de garrafa. Como se isso não bastasse, Johnny Mercer, o compositor da canção-tema do filme - que ganhou o Oscar da categoria - morreu sem ter se recuperado da doença, assim como o poeta inglês Ernest Dowson, que escreveu o belo "Vitae suma brevis", cujos versos "São curtos os dias de vinhos e de rosas. Por um instante, emergimos de um sonho de névoas. Mas o caminho logo se fecha, dentro do mesmo sonho." servem de ilustração para a trágica história de amor contada no filme. Dowson morreu aos 33 anos, em 1900, vítima de complicações decorrentes do alcoolismo. Assim como Joe e Kirsten, ele aprendeu da pior maneira possível a tragédia dos paraísos artificiais.

Nenhum comentário: