domingo, 9 de outubro de 2016

O VENTO SERÁ TUA HERANÇA

O VENTO SERÁ TUA HERANÇA (Inherit the wind, 1960, Stanley Kramer Productions, 128min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Nedrig Young (como Nathan E. Douglas), Harold Jacob Smith, peça teatral de Jerome Lawrence, Robert E. Lee. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knutdson. Música: Ernest Gold. Direção de arte: Rudolph Sternad. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Dick York, Donna Anderson, Harry Morgan. Estreia: 25/6/60 (Festival de Berlim)

4 indicações ao Oscar: Ator (Spencer Tracy), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Tudo começou em 1925, em uma pequena cidade do Tennessee chamada Dayton, quando um professor do ensino médio chamado John Thomas Scopes foi preso, acusado de violar uma lei estadual que proibia o ensino da Teoria da Evolução, do cientista Charles Darwin. Levado à julgamento, o caso passou a ser conhecido nacionalmente como o "Julgamento do Macaco" e dividiu furiosamente os moradores da cidade (a maioria deles fundamentalistas religiosos). Trinta anos mais tarde, o caso chegou à Broadway, em uma peça teatral escrita por Jerome Lawrence e Robert E. Lee que ganhou dois Tony Awards no ano seguinte. Foi apenas questão de tempo até que Hollywood se interessasse - através do diretor e produtor Stanley Kramer - pelo tema e pela adaptação da peça. Com um elenco liderado por dois vencedores do Oscar (Spencer Tracy e Fredric March) e um astro de musicais se arriscando em um filme dramático (Gene Kelly), Kramer acabou por fazer, com "O vento será tua herança" uma espécie de ensaio para aquele que se tornaria sua maior obra-prima, "Julgamento em Nuremberg", lançado em 1961 também com a participação de Tracy.  Porém, se "Julgamento em Nuremberg" se tornaria um clássico absoluto no subgênero "filmes de tribunal", a transposição da história de John Scopes para as telas não conseguiu fugir de uma pequena cota de problemas.

O primeiro deles surgiu logo na pré-produção, quando Kramer contratou o roteirista Nedrick Young para ser um dos autores da adaptação do texto teatral, ao lado de Harold Jacob Smith: encrencado com a justiça americana devido a suas tendências comunistas e consideradas subversivas, Young foi uma escolha ousada do cineasta, que de cara conseguiu a antipatia dos mais conservadores. Apesar de tal atitude ser compatível com as ideias da própria essência do filme - o desafio a regras arbitrárias que fomentam o preconceito e a discriminação - a reclamação de parte da comunidade hollywoodiana foi tanta que até mesmo Moss Hart, o então presidente da Liga dos Autores da América, se viu obrigado a um posicionamento, que chegou à Kramer através de um telegrama louvando sua coragem em não impedir um artista de trabalhar apenas por suas questões políticas. Munido de ainda mais ousadia, Kramer passou então a escalar seu elenco - e surpreendeu a todo mundo quando escolheu Gene Kelly para um papel sério, sem espaço para acrobacias musicais. Diante da recusa inicial do ator, Kramer arriscou-se ainda mais: acenou com a chance de colocar o astro de "Cantando na chuva" ao lado de nomes respeitados, como Spencer Tracy e Fredric March. Era uma tentação grande demais, e Kelly voltou atrás na recusa - sem desconfiar que o diretor ainda nem oferecera o projeto aos atores que haviam lhe servido de isca.


Porém, a confiança de Kramer no material era tanta que acabou justificada. Tanto Tracy quanto March - ambos duplamente já premiados com o Oscar na ocasião - embarcaram no projeto com entusiasmo de iniciantes e entregaram performances que mesmo nas filmagens já empolgavam os técnicos e colegas de elenco: muita gente, ouvindo falar de seus desempenhos, iriam conferir os trabalhos como se estivessem no teatro, chegando a aplaudir em cena aberta (e, obviamente, estragando os takes). Mas o fato é que, além do tema interessante e ainda relevante nos dias cada vez mais obscurantistas de hoje, o elenco de "O vento será tua herança" é sua maior qualidade - Spencer Tracy chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Burt Lancaster, em "Entre Deus e o pecado". Com sua postura ao mesmo tempo afável e venerável, o veterano astro nem parece precisar fazer muito esforço para convencer no papel de Henry Drummond, o advogado famoso que chega à pequena Hillsboro (substituindo a original, Dayton) para defender o jovem professor Bertram Cates (Dick York) contra a possibilidade de uma condenação por pura ideologia. Contando com o apoio do ambicioso jornalista E.K. Hornbeck (Gene Kelly, ótimo), ele não precisa enfrentar apenas o tribunal, e sim quase uma cidade inteira - seus únicos aliados são os jovens alunos de Cates.

Do outro lado do ringue, Fredric March dá vida ao promotor Matthew Harrison Brady, advogado cristão que prega uma conduta mais rígida e religiosa - o que lhe deu estofo suficiente para concorrer três vezes à presidência dos EUA. Velho amigo de Drummond, o eloquente promotor acaba por usar o tribunal como púlpito, inflamando os já fanáticos moradores da cidade - e usando até mesmo a filha do pastor, Rachel Brown (Donna Anderson), namorada de Cates, para atingir seu objetivo de condenar o rapaz. É óbvio que o roteiro é muito mais simpático à causa de Drummond - Brady é quase tratado de forma caricata em alguns momentos - mas a elegância da direção de Kramer impede que o filme resvale na crítica moralizadora e/ou rasa. Os diálogos inteligentes superam qualquer tipo de doutrinação e o elenco faz sua parte em dar credibilidade e consistência a questões cada vez mais importantes em um mundo dividido pela religião. "O vento será tua herança" é um filme imperdível para qualquer fã de cinema inteligente e relevante.

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