sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O SÉTIMO SELO

O SÉTIMO SELO (Det sjunde inseglet, 1957, Svensk Filmindustri, 96min) Direção: Ingmar Bergman. Roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça teatral "Pintura sobre madeira". Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Lennart Wallen. Música: Erik Nordgren. Figurino: Manne Lindholm. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Max Von Sydow, Gunnar Bjornstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson. Estreia: 16/02/57

Impactantes imagens em preto-e-branco, reflexões angustiadas e existenciais acerca de Deus e da morte e um clima que equilibra a morbidez da Peste Negra com a vida despreocupada e feliz de um grupo de artistas mambembes cuja maior preocupação é sobreviver a cada dia em contato com a simplicidade da natureza. São esses os elementos que fazem de "O sétimo selo" um dos mais icônicos trabalhos do diretor sueco Ingmar Bergman. Antes mesmo de consagrar-se como um dos cineastas mais influentes da Europa ao tratar de temas complexos e intimistas - normalmente em filmes estrelados por sua esposa Liv Ullman - Bergman fascinou crítica e público com uma trama repleta de simbolismos que reflete algumas de suas obsessões mais caras, como religião, metafísica e altas doses de existencialismo. Não à toa, entrou indelevelmente na lista dos mais importantes realizadores do cinema mundial, iniciando uma jornada frequentemente densa e pessoal - e paradoxalmente, universal.

Dono de uma temática pouco comercial e a princípio um tanto mórbida, "O sétimo selo" só saiu do papel graças ao sucesso de crítica do filme anterior de Bergman, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), uma comédia romântica, vejam só, que incentivou os financiadores suecos a apostarem no talento do cineasta então relativamente jovem (tinha menos de 40 anos de idade) e com ideias bem particulares a respeito do mundo que o cercava. Baseado em uma peça de sua autoria chamada "Pintura sobre madeira", transmitida pelo rádio em 1954, Bergman recheou seu filme com imagens buscadas na memória afetiva - seu pai era um rígido pastor luterano e pregava em uma igreja cujos murais inspiraram o futuro cineasta - e em suas próprias questões espiritualistas, que abarcavam não somente a religião, mas a humanidade em si (e o que faz do homem o que ele realmente é). Complexo e belo na exata medida, a obra acabou saindo do Festival de Cannes com o prêmio especial do júri e iniciou uma carreira vitoriosa que faz dela um dos mais adorados, imitados e citados filmes da história do cinema, tendo inspirado desde Woody Allen até Schwarzenegger (em "O último grande herói", de 1993). Nem mesmo o mundo do rock ficou impune à obra, como bem pode confirmar Van Halen, que batizou uma de suas canções em homenagem ao filme.


Aproveitando o filme para lidar com seu medo quase patológico da morte, Bergman utiliza sua trama para fazer desfilar, diante do público, uma série de sequências antológicas, valorizadas pela fotografia expressionista de Gunnar Fischer e pelas atuações inesquecíveis de Max Von Sydow (em seu primeiro trabalho com o diretor, com a exceção de uma ponta em "Morangos silvestres") e Bengt Ekerot (no papel icônico da Morte). Von Sydow vive Antonius Blok, um cavaleiro que, depois de passar anos lutando nas Cruzadas, retorna a seu país e o encontra assolado pela Peste Negra. Testemunhando cenas brutais de execuções à mulheres consideradas bruxas e fiéis de autoflagelando em nome de Deus, Blok vê surgir à sua frente a Morte em pessoa. Sabendo que ela sempre esteve à sua volta, ele aproveita a oportunidade para questioná-la a respeito de suas dúvidas existenciais, propondo que eles joguem uma partida de xadrez enquanto isso. Nesse meio-tempo, ele conhece uma família de artistas mambembes que o faz ver um outro lado da vida, menos sombrio e repleto de esperanças no futuro.

Sem medo de apostar na inteligência e na sensibilidade do público, levantando questões sem a intenção de respondê-las explicitamente, Ingmar Bergman leva seu estilo poético e lúdico até as últimas consequências. Inserindo momentos leves e dotados de um insuspeito senso de humor em meio a divagações existenciais das mais densas, o cineasta mergulha a plateia em uma viagem sensorial e mística que, felizmente, jamais descamba para a religiosidade rala ou piegas. "O sétimo selo" é um filme inteligente e brilhante em seus questionamentos metafísicos e existenciais, além de deslumbrar também por seu visual extraordinário. Um Bergman dos melhores - e por incrível que possa parecer, um dos mais acessíveis.

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