sábado, 2 de maio de 2015

A PROFESSORA DE PIANO

A PROFESSORA DE PIANO (La pianiste, 2001, Arte France Cinéma/Bavaria Film International, 131min) Direção: Michael Haneke. Roteiro: Michael Heneke, romance de Elfried Jelinek. Fotografia: Christian Berger. Montagem: Nadine Muse, Monika Willi. Figurino: Annette Beaufays. Direção de arte/cenários: Christoph Kanter/Hans Wagner. Produção executiva: Yvon Crenn, Christine Gozlan, Michael Katz. Produção: Veit Heiduschka. Elenco: Isabelle Huppert, Annie Girardot, Benoit Magimel, Susanne Lothar, Udo Samel. Estreia: 14/5/01 (Festival de Cannes)

O público que lotou as salas de cinema para assistir ao tenebroso "Cinquenta tons de cinza" deveria recorrer ao cineasta austríaco Michael Haneke para entender com mais precisão os confusos desvãos da mente sadomasoquista. Ao eleger como protagonista uma singela musicista que mora com a mãe - com quem mantém uma relação de amor e ódio - e que busca na dor uma válvula de escape para dominar sua solidão e repressão sexual, o diretor (indicado ao Oscar em 2013 pelo devastador "Amor") criou polêmica e deu à extraordinária Isabelle Huppert um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Baseado em um livro de Elfried Jelinek, "A professora de piano" estreou no Festival de Cannes de 2001 e, a despeito de seu tema controverso, agradou à crítica graças à elegância e sutileza com que ele foi tratado. Não é um filme para qualquer público - é lento, inteligente e construído sem exageros, além de ter um final em aberto que pode incomodar - mas é, inegavelmente, um belíssimo conto sobre o amor e a obsessão.

Erika Kohut, interpretada com devastador minimalismo por Isabelle Huppert, é uma professora de piano solteira e solitária que substituiu uma relação conjugal com a dedicação a seus alunos, a quem trata com igual frieza e altos níveis de exigência. Morando com a mãe (Annie Girardot) - o pai está internado em um manicômio - ela tampouco tem talento suficiente para apresentar-se em concertos, contentando-se em ser a estrela de recitais domésticos, onde é aplaudida entusiasticamente pela alta sociedade. Em uma dessas apresentações ela conhece o jovem Walter Klemmer (Benoit Magimel), um rapaz cuja paixão pela música não esconde o desejo que passa a sentir por ela, para seu próprio espanto. O que Walter não sabe é que, por debaixo da aparente elegância e sofisticação de Erika se esconde uma mulher torturada por uma luxúria inusitada: sem que ninguém desconfie, ela frequenta sex-shops para assistir a vídeos pornô, cheira lenços sujos de sêmen de desconhecidos, pratica automutilação sexual e lida de forma doentia com a dubiedade de sua vida pessoal.


O encontro entre Erika e Walter deflagra uma inesperada relação, desmedida e baseada na rejeição e no desejo reprimido. Incapaz de viver um relacionamento saudável, a professora se entrega a um jogo de dominação doentia, a ponto de escrever uma carta com suas exigências ao jovem candidato a amante, que, pego de surpresa com tamanho detalhismo põe em dúvida seus próprios sentimentos. Não é de espantar que tanto Benoit Magimel quanto Isabelle Huppert tenham sido premiados no Festival de Cannes - de onde o diretor Michael Haneke saiu também com o prêmio especial do júri. Enquanto Magimel transmite com exatidão toda a vastidão de sentimentos de um personagem cuja passividade se transforma em uma raivosa violência no terço final, Huppert entrega uma interpretação avassaladora como Erika, cujo silêncio e modos reservados escondem um furacão indomável. Imprevisível e perigosa, a sua professora de piano é uma das personagens mais psicologicamente complexas que o cinema já ofereceu, e o trabalho de Isabelle é absolutamente irretocável, tanto em seu olhar quase vazio quanto em seus momentos de crueza e maldade - a maneira como lida com uma aluna de quem sente inveja e ciúme é de arrepiar, assim como a naturalidade com que usa uma lâmina de barbear para cortar a vagina pouco antes de sentar-se à mesa para jantar como se nada tivesse acontecido.

É lógico que os fãs de "Cinquenta tons de cinza" não iriam compreender todo o alcance psicológico e a densidade dramática de "A professora de piano", que utiliza o sexo como gatilho para uma série de elocubrações que passam longe de qualquer superficialidade. Quando Haneke filma cenas sensuais entre seus personagens não é com a intenção de excitar a plateia e sim incomodá-la, deixá-la desconfortável e tensa. Seus objetivos são atingidos com louvor, em sequências nunca menos que constrangedoras, que afastam qualquer tipo de relação entre sexo e prazer sem culpa. Só por levantar a questão do sadomasoquismo sem brincadeiras e sem preconceitos, o cineasta já mereceria aplausos fervorosos. Por unir a isso a atuação exemplar de Isabelle Huppert sua obra torna-se obrigatória e imperdível.