quarta-feira, 6 de maio de 2015

DO INFERNO

DO INFERNO (From hell, 2001, 20th Century Fox, 122min) Direção: Albert Hughes, Allen Hughes. Roteiro: Terry Hayes, Rafael Yglesias, graphic novel de Alan Moore, Eddie Campbell. Fotografia: Peter Deming. Montagem: George Bowers, Dan Lebental. Música: Trevor Jones. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Thomas M. Hammell, Albert Hughes, Allen Hughes. Produção: Jane Hamsher, Don Murphy. Elenco: Johnny Depp, Heather Graham, Ian Holm, Robbie Coltrane, Ian Richardson, Jason Flemyng, Joanna Page, Mark Dexter. Estreia: 08/9/01 (Festival de Veneza)

Um dos personagens mais fascinantes da crônica policial universal - e que deu origem a livros, filmes, peças de teatro, estudos, teses e todo tipo de material possível e imaginável - não poderia deixar de ser retratado em uma das manifestações artísticas mais cultuadas do final do século XX, as graphic novels. Tendo Jack, o Estripador como personagem principal - e revelando sua identidade logo nas primeiras páginas, com base em uma teoria que muitos consideram incorreta e sem sentido - o livro "Do inferno", escrito e desenhado por Alan Moore e Eddie Campbell chegou às livrarias em 1991, com mais de 570 páginas recheadas de informações e detalhes históricos capazes de fazer salivar qualquer interessado no assunto, por mais cético que seja a respeito de suas conclusões. Centrando sua trama nos pensamentos de Jack e em suas razões para assassinar as prostitutas londrinas que frequentavam a zona pobre da Londres de 1888, o livro parecia um desafio a qualquer roteirista de cinema, que se veria em maus lençóis para adaptar ao gosto do público médio uma história tão sangrenta e, pior ainda, sem um herói para se torcer. No entanto, como a terra do cinema tem seus meios - e um tema assim não poderia passar em brancas nuvens pelos ambiciosos produtores - o Festival de Veneza de 2001 serviu de plataforma para o lançamento de sua versão cinematográfica, dirigida por dois irmãos afro-americanos (Albert e Allen Hughes) e estrelada por um dos atores mais populares do cinema americano, Johnny Depp. Não, Depp - queridinho das adolescentes desde que fazia a telessérie "Anjos da lei" - não interpretava Jack. Aliás, Jack nem era mais o protagonista da história. Na versão da 20th Century Fox quem dava as cartas era Frederick Abberline, um dos inspetores responsáveis pela caça ao serial killer. Coisas de Hollywood.

No filme dos Irmãos Hughes - estiloso, plasticamente estonteante e visceralmente violento, ainda que disfarce tal violência com uma fotografia apropriadamente escurecida - Abberline assume a protagonização da história, sendo promovido de sua função no livro e tendo sua personalidade alterada, uma vez que chamou para si características de outro personagem importante da narrativa literária (um vidente chamado Robert Lees que foi limado do roteiro final). Interpretado por Depp, o inspetor ganhou novas nuances (vício em ópio, por exemplo, o que cai como uma luva na mania do ator em sempre interpretar excêntricos ou drogados) e até uma insinuação de romance com a prostituta Mary Kelly (Heather Graham), que, a despeito da descrição de suas colegas feitas em todo e qualquer artigo escrito sobre o assunto, é bonita, limpa e jovem. Assumindo o papel que foi oferecido anteriormente a Daniel Day Lewis, Jude Law, Brad Pitt e até Sean Connery, Depp oferece ao filme o que a graphic novel não tinha - um herói com passado dramático com quem o público possa se identificar - mas tira do projeto o que ele poderia ter de melhor: personalidade.


Ao optar por um ritmo repleto de camadas que exploravam todas as linhas investigativas do caso de Jack, os autores da graphic novel criaram uma obra única e fascinante, mas os fãs do livro tiveram que contentar-se com uma adaptação narrativa nos moldes clássicos, ou seja, sem maiores ousadias ou surpresas. Na Londres de 1888, uma série de assassinatos mexe com a imaginação popular e com a segurança pública: prostitutas estão sendo violentamente mortas e mutiladas por um criminoso que parece ter conhecimento de anatomia humana e tem um sombrio senso de humor, deixando recados à polícia a respeito de seus feitos. Auto-intitulado Jack, o Estripador, ele acaba por tornar-se a missão do Inspetor Abberline (Depp) - cujos métodos pouco ortodoxos de investigação incluem visões promovidas pelo uso constante de ópio. Seguindo as pistas deixadas pelo psicopata, ele chega até Sir William Gull (Ian Holm), médico da família real e membro da comunidade maçônica londrina que aparenta saber muito mais do que deixa antever seu cuidado excessivo com o jovem príncipe Edward Albert (Mark Dexter) - que mantém uma misteriosa relação com uma jovem prostituta chamada Ann Crook (Joanna Page) e pode ser a chave do mistério.

Apesar de diluir todas as informações da obra original para que elas caibam em um filme de duas horas e de tirar dela sua essência, a versão para o cinema de "Do inferno" tem muitas qualidades, especialmente quando o assunto é visual. A fotografia de Peter Deming e a reconstituição de época que praticamente esfrega na cara do público a pobreza e a tristeza de um lado menos turístico de Londres são excepcionais, assim como a noção dos irmãos Hughes em explorar da melhor maneira possível os detalhes históricos da trama mesmo que seu desfecho não seja reconhecido como verdadeiro. Uma adaptação fiel seria genial, mas dentro do cinema comercial e suas exigências, é um filme policial clássico - com direito até mesmo a um final açucarado que quase põe tudo a perder e alguns exageros facilmente perdoáveis - capaz de agradar a quem tem paciência para produtos com ritmo menos alucinante. E nem Johnny Depp e seus excessos conseguem estragar o programa.

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