segunda-feira, 4 de maio de 2015

DIA DE TREINAMENTO

DIA DE TREINAMENTO (Training day, 2001, Warner Bros, 122min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: David Ayer. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: Conrad Buff. Música: Mark Mancina. Figurino: Michele Michel. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Jan Pascale. Produção executiva: Bruce Berman, Davis Guggenheim. Produção: Jeffrey Silver. Elenco: Denzel Washington, Ethan Hawke, Scott Glenn, Tom Berenger, Harris Yulin, Raymond J. Barry, Cliff Curtis, Dr. Dre, Eva Mendes, Snoop Dogg, Macy Gray. Estreia: 02/9/01 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Ator (Denzel Washington), Ator Coadjuvante (Ethan Hawke)
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington) 

Um dos atores negros mais importantes de sua geração e certamente da história do cinema americano, Denzel Washington construiu sua carreira interpretando homens de personalidade forte, frequentemente desafiando o sistema e o preconceito, em especial como o ativista Steve Biko de "Um grito de liberdade" e o ícone máximo "Malcolm X", trabalhos que lhe deram indicações ao Oscar - prêmio que veio pela primeira vez como coadjuvante, por seu desempenho como um escravo fugido que se alista no Exército americano durante a Guerra de Secessão, em "Tempo de glória". Não deixou de ser uma surpresa, portanto, que seu Oscar de melhor ator principal tenha chegado por "Dia de treinamento", onde ele interpreta Alonzo Harris, um policial da divisão de narcóticos de Los Angeles que, apesar de dominador e intenso, joga do lado oposto da lei. Corrupto, violento e amoral, Alonzo Harris é a antítese de todos os personagens vividos por Washington até então e, talvez justamente por isso, é um dos mais empolgantes de sua vitoriosa trajetória.

Marcando história pelo fato de pela primeira vez um ator negro ser premiado com o Oscar por um filme dirigido por um cineasta também negro, Antoine Fuqua, "Dia de treinamento" na verdade poderia ter sido bem diferente do produto que acabou nas telas. Antes que Denzel assume o papel do veterano policial, nomes fortes recusaram a missão: Bruce Willis, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson, Gary Sinise e Tom Sizemore pularam fora do projeto antes mesmo do início das filmagens, assim como Matt Damon, Tobey Maguire e até mesmo o rapper Eminem rejeitaram o papel de Jake Hoyt, o parceiro jovem e ingênuo do nada exemplar protagonista - que, no roteiro original, deixava claro à plateia as origens de seu comportamento nocivo, coisa que desapareceu da montagem final definida pelo romancista policial James Ellroy como "pura perda de tempo". Apesar dessa crítica nada gentil do autor de "Los Angeles, cidade proibida", porém, o filme de Fuqua - que já tinha no histórico o visualmente atraente mas oco de conteúdo "Assassinos substitutos" - cumpre o que promete: é um thriller intenso e ritmado, com atuações intensas e uma história interessante o bastante para prender a atenção da primeira à última cena.


O filme acompanha o primeiro dia do jovem Jake Hoyt (Ethan Hawke, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) na divisão de narcóticos de Los Angeles. Seu objetivo é trabalhar no escritório da corporação, mas para isso ele precisa passar ao menos 24 horas nas ruas da cidade, ao lado do veterano Alonzo Harris (Denzel Washington exercitando seu lado arrogante e cínico com visível prazer), que há mais de uma década frequenta as calçadas dos bairros mais perigosos e violentos. Pai de uma filha recém-nascida, Hoyt aos poucos começa a perceber que a má fama de Alonzo não é apenas lenda e testemunha atrocidades que o deixam tão chocados quanto revoltados: ameaçado de ter sua carreira destruída e sua família morta se revelar qualquer deslize, ele se vê envolvido em chantagem, corrupção, tráfico de drogas e homicídio e passa a questionar suas chances de terminar o dia com vida.

Dirigido com segurança por Fuqua - que imprime ao filme uma tensão palpável e uma violência crível que utiliza os clichês do gênero a seu favor - "Dia de treinamento" é um policial politicamente incorreto, que não tem medo de retratar latinos e negros como traficantes e vilões, seguindo o caminho inverso do cinema comercial americano de seu tempo, sempre pisando em ovos para não se indispor com nenhuma comunidade. Chegando às últimas consequências em seu desenvolvimento, o roteiro de David Ayer - que se tornaria especialista em tramas semelhantes nos anos seguintes - praticamente coloca o espectador no banco de trás do carro de Alonzo, sentindo na pele todo o drama de Hoyt em sua tentativa de sobreviver ao pior dia de sua vida. Essa cumplicidade entre plateia e herói é o grande trunfo do filme - além da atuação de Washington - e o que faz com que ele se sobressaia a tantas outras produções similares. É um belo entretenimento, para adultos que buscam diversão longe dos blockbusters inconsequentes oferecidos por Hollywood.

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