sábado, 30 de maio de 2015

FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO

FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO (Fahrenheit 9/11, 2004, Fellowship Adventure Group, 122min) Direção e roteiro: Michael Moore. Montagem: Kurt Engfehr, T. Woody Richman, Christopher Seward. Música: Jeff Gibbs. Produção executiva: Agnes Mentre, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Jim Czarnecki, Kathleen Glynn, Michael Moore. Estreia: 17/5/04 (Festival de Cannes)

Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

Quando subiu ao palco que premiou os vencedores do Oscar 2002 para receber sua estatueta de melhor documentário do ano por "Tiros em Columbine", o cineasta Michael Moore foi aplaudido entusiasticamente pela plateia de celebridades quando vociferou um discurso incendiário contra o então presidente George W. Bush. Em seu agradecimento, Moore declarou que fazia documentários porque gostava da verdade e tinha vergonha de viver um país governado por um presidente eleito de forma fictícia (referindo-se ao controverso pleito que derrotou Al Gore) que inventou uma guerra fictícia no Iraque apenas para saciar seus desejos gananciosos. Não é preciso dizer que tal polêmica acendeu no mundo todo uma curiosidade quase desesperada pelo trabalho seguinte do diretor, "Fahrenheit 11 de setembro", que investigava as relações econômicas de Bush com o Oriente Médio - e consequentemente com Osama Bin Laden, o terrorista que articulou o ataque às Torres Gêmeas em 2001. Feito para alertar a população sobre as reais intenções do presidente - e impedir sua reeleição - o filme acabou estreado no Festival de Cannes de 2004, seis meses antes que os eleitores americanos fossem às urnas, mas acabou, apesar de sua contundência, falhando em seu principal objetivo: Bush continuou na Casa Branca mandando jovens inocentes a guerras inúteis. Porém, o propósito do diretor em atingir o maior número possível de espectadores - a ponto de encorajar inclusive downloads ilegais - não pode ter sido atingido com mais sucesso: com uma renda de mais de 200 milhões de dólares de arrecadação mundo afora, "Fahrenheit 11 de setembro" é um dos documentários mais influentes e bem-sucedidos da história. Nada mais merecido.

Se "Tiros em Columbine" já era empolgante e chocante em seu estudo sobre a obsessão americana por armas de fogo - um tema deflagrado pelos assassinatos cometidos por dois adolescentes em uma escola de ensino médio que também inspiraram o elogiado "Elefante", de Gus Van Sant  - "Fahrenheit 11 de setembro" consegue ser ainda mais contundente, pelo fato de focar sua artilharia no dirigente do país mais poderoso do mundo sem dó nem piedade. Retratando Bush como um misto de ganancioso sanguinário e frio e um boçal apatetado e manipulado por interesseiros empresários do ramo do petróleo, Moore foi o responsável pelo ataque mais direto e agressivo jamais realizado pelo cinema a um presidente - mas o faz de forma tão direta e com tantas informações relevantes que é impossível não acabar a sessão concordando com toda a sua fúria. Manipulador? Talvez. Exagerado? Provavelmente. Mas, assim como Oliver Stone fez em "JFK" - um dos melhores filmes dos anos 90 - Michael Moore tem o dom de apresentar suas ideias de maneira tão fascinante que não é dada ao público sequer a chance de questioná-las. E, mesmo que não se conheça os detalhes da história dos EUA ou não se tenha um interesse em particular sobre o assunto, é um desafio até mesmo tirar os olhos da tela enquanto absurdos cada vez maiores desfilam por ela.


A eleição de Bush à presidência - surpreendente até mesmo para os eleitores que já haviam sido noticiados da vitória de seu rival Al Gore pelas emissoras de TV - é que dá o pontapé inicial ao filme, mostrando de cara as manobras políticas e econômicas que permitiram a ele chegar à Casa Branca e manter em pauta os interesses financeiros de sua família, mesmo que a custo da vida de milhares de americanos. Em seguida, o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 serve como ponto de partida para um estudo detalhado e indignado sobre como o governo usou a maior tragédia do século até agora para manter a população em constante estado de tensão, medo e paranoia - e assim justificar a invasão ao Iraque e esconder toda a sujeira que envolve a relação do então presidente com empresas de petróleo que lhe rendem milhares e milhares de dólares. Ao mesmo tempo em que expõe de forma clara e didática os meandros da estrutura de poder banhada pela ganância, Moore também mostra aos espectadores o outro lado da moeda, através de depoimentos categóricos que se contradizem quando confrontados com a realidade: é o caso da ufanista dona-de-casa que diariamente iça a bandeira do país em frente à sua casa, acredita piamente nas práticas militares do governo e manda o próprio filho para a guerra - só para depois desabar ao perdê-lo em uma batalha. E também questiona o fato de nenhum congressista - com exceção de um único, democrata - ter filhos no front, já que são favoráveis à guerra.

Ilustrando suas teorias com imagens chocantes dos conflitos no Oriente Médio e sublinhando as ironias da situação com cenas que dispensam quaisquer comentários - como o próprio Bush impassível em uma escola infantil ao saber dos atentado em Nova York e Britney Spears afirmando confiar no presidente durante uma entrevista para a TV - "Fahrenheit 11 de setembro" é um petardo dos maiores já lançados pelo cinema americano contra o status quo. É triste, é inacreditável, é revoltante. E é um dos melhores documentários da história do cinema.

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