sexta-feira, 8 de maio de 2015

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (The royal Tenenbaums, 2001, Touchstone Pictures, 110min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco. Produção executiva: Rudd Simmons, Owen Wilson. Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin. Elenco: Gene Hackman, Anjelica Huston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Owen Wilson, Luke Wilson, Bill Murray, Danny Glover, Seymour Cassel, Alec Baldwin. Estreia: 05/10/01 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Gene Hackman) 

Era uma vez uma família de pequenos gênios que, não conseguindo lidar com o tamanho de seus talentos, cresceu à sombra de seus precoces feitos, levando uma vida adulta triste e frustrada até que seu pai, de quem viveram afastados por décadas, reaparece alegando uma doença terminal e uma vontade férrea de reconciliação. Essa trama, um tanto banal a princípio, é a base para um dos filmes mais estranhos, criativos e surpreendentemente comoventes de 2001 - apesar de ser, a rigor, uma comédia: dirigido por Wes Anderson e co-escrito por ele e o ator Owen Wilson, "Os excêntricos Tenenbaums" aprimora o estilo de seu diretor - depois do pouco conhecido "Pura adrenalina" e do cultuado "Três é demais" - ao contar a história desses bizarros personagens incapazes de lidar com sua decadência de forma divertida e emocionante, com toques discretos de melancolia e cinismo. Contando com um elenco formado por atores premiados com o Oscar - Gene Hackman, Anjelica Huston e Gwyneth Paltrow - e colaboradores habituais - Owen Wilson, seu irmão Luke, Bill Murray - Anderson criou um espetáculo de estilo personalíssimo, capaz até mesmo de chamar a atenção da Academia de Hollywood, que lhe deu a oportunidade de concorrer ao Oscar de melhor roteiro original - que perdeu para "Assassinato em Gosford Park". Essa mesma Academia, que ignorou o desempenho exemplar de Gene Hackman como o patriarca Royal Tenenbaum, mais de uma década depois se encantaria com "O Grande Hotel Budapeste", obra da maturidade do cineasta -  mas os fãs já conheciam esse talento há muito tempo.


A história da família Tenenbaum é narrada pela voz de Alec Baldwin, que dá o tom exato entre fábula e comédia de costumes à sua estranha trajetória. Quando crianças, os três filhos de Royal e Etheline Tenenbaum (Gene Hackman e Anjelica Huston) demonstram talentos incomuns para sua idade, transformando-se rapidamente em pequenas celebridades: o mais velho, Chas, desenvolve habilidades incomuns para as finanças e a química; a filha adotiva, Margot, escreve peças de teatro aplaudidíssimas; e o caçula Richie chama a atenção como prodigioso jogador de tênis. A separação de seus pais, porém, abala suas estruturas emocionais e intelectuais e os joga em uma espécie de arremedo deles mesmos. Vinte e dois anos depois da separação, os três irmãos vivem prostrados diante de suas vidas medíocres: Chas (Ben Stiller) acaba de perder a esposa e tenta cuidar sozinho dos dois filhos pequenos, versões em miniatura de si mesmo. Margot (Gwyneth Paltrow) deixou o teatro de lado e vive em depressão ao lado do marido, o brilhante psiquiatra Raleigh St. Clair (Bill Murray), com idade para ser seu pai. E Richie (Luke Wilson), depois de abandonar a carreira durante uma crise emocional em uma partida, saiu em viagem pelo mundo em um barco de pesca. Quando seu pai retorna à mansão onde todos foram criados, dizendo estar sofrendo de um câncer terminal - às vésperas do casamento de Etheline com o contador Henry Sherman (Danny Glover) - a família se vê obrigada a encarar os fantasmas do passado para finalmente conseguir olhar para a frente.

A trama soa como um dramalhão dos mais carregados no açúcar, mas Anderson não é um diretor dado a sentimentalismos baratos, e aplica em seu roteiro toda a criatividade visual que se tornaria sua marca registrada. A mansão da família, que serve como principal cenário, por exemplo, é de uma sofisticação visual impressionante, refletindo em cada detalhe todos os paradoxos temporais e psicológicos da trama, repleta de camadas e piadas escondidas (como o fato de todos os irmãos terem sido inspirados em personalidades reais, como o tenista Bjorn Borg, a cantora alemã Nico e no escritor Cormac McCarthy). A história de amor proibido entre Richie e sua irmã adotiva Margot dá o toque romântico ao roteiro, que ainda encontra espaço para explorar os dramas de Eli Cash (Owen Wilson), vizinho da família que se torna famoso como romancista especialista em desmistificar heróis americanos - e cujo maior sonho era ser um Tenenbaum. Fugindo do piegas até mesmo nos embates dramáticos entre pai e filhos, o filme de Anderson é conduzido como um delicado acerto de contas banhado em uma ironia rara e inteligente que transpira até mesmo nos figurinos irreverentes - os três irmãos, por exemplo, usam, mesmo na fase adulta, o mesmo estilo de roupas que usavam na infância.

E se o roteiro e a direção de "Os excêntricos Tenenbaums" são um show de sutileza e minimalismo, o mesmo pode ser dito a respeito do extraordinário elenco reunido por Wes Anderson. Gene Hackman levou o Golden Globe de melhor ator em comédia ou musical por seu trabalho como Royal Tenenbaum - no qual ele inspirou-se na própria relação distante com os filhos - e Anjelica Huston mais uma vez mostra que não é preciso lágrimas em profusão para emocionar. E os três irmãos gênios - Ben Stiller, Gwyneth Paltrow e Luke Wilson - estão no tom perfeito, entrando com presteza no jogo do cineasta, dono de um estilo tão peculiar que muitas vezes pode soar artificial. No entanto, quem se deixa cativar por sua exuberância não tem do que reclamar. A família Tenenbaum é, sem dúvida, o exemplo perfeito do seu cinema que a tantos encanta.

Um comentário:

Paulo [ALT] disse...

Se eu soubesse o quanto era excelente, teria assistido antes contigo. Amei. E em nenhum momento achei ter soado superficial. Aquela estranheza deles (melhor dizer excentricidade para não ofendê-los, né? hehe) é tão cativante que você compra toda a história por mais vibrante e louca que seja. Esquece que não é realidade. É uma viagem. Amei mesmo.

Zukm.t
ppb
bjooooooooooo