quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ONDAS DO DESTINO

ONDAS DO DESTINO (Breaking the waves, 1996, Argus Film Produktie, 159min) Direção: Lars Von Trier. Roteiro: Lars Von Trier, Peter Asmussen. Fotografia: Robby Muller. Montagem: Anders Refn. Figurino: Manon Rasmussen. Produção executivo: Lars Jonsson. Produção: Peter Albaek Jensen, Vibeke Windelov. Elenco: Emily Watson, Stellan Sgarsgaard, Katrin Cartlidge, Jean-Marc Barr, Adrian Rawlins, Sandra Voe, Udo Kier. Estreia: 18/5/96 (Festival de Cannes)

Vencedor do Grande Prêmio do Júri - Festival de Cannes 96
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Emily Watson)

Um estudo sobre a repressão sexual, o amor, a hipocrisia, a religião, o desejo e o preconceito, "Ondas do destino" tornou-se conhecido mundialmente, anos depois de sua estreia no Festival de Cannes de 1996, de onde saiu vencedor do Grande Prêmio do Júri, como o primeiro de uma trilogia cujas heroínas mantinham uma inocência estoica mesmo diante das maiores provações - trilogia essa encerrada com "Os idiotas" (98) e "Dançando no escuro" (00). Mesmo que muitas de suas obras seguintes ainda explorem a figura feminina quase até o limite do sadismo - o que frequentemente lhe confere uma negativa aura de misoginia - foi a dramática história de Bess McNeill, com todas as suas ressonâncias religiosas e psicológicas, que lhe abriu as portas do mercado internacional, a ponto de dar à sua atriz principal, a espetacular Emily Watson, uma indicação ao Oscar - que ela perdeu para Frances McDormand, pelo ótimo mas bem mais palatável "Fargo".

A estória se passa em uma pequena comunidade do interior da Escócia, regida firmemente pelos dogmas ortodoxos de Igreja cujos pastores não hesitam em segregar as mulheres e julgar quem merece ou não ser enterrado como cristão e usufruir do paraíso. É nesse ambiente que vive Bess (Emily Watson em uma interpretação avassaladora), uma jovem com sérios problemas psicológicos que se apaixona e resolve se casar com um estrangeiro, Jan (Stellan Skarsgaard), que trabalha em uma das plataformas de exploração de petróleo distantes do vilarejo. Os dois vivem um princípio de casamento dos mais felizes e sexualmente satisfatórios, até que o rapaz volta ao mar e a deixa solitária e carente. Em suas conversas com Deus - nas quais ela mesma responde suas questões existenciais - ela pede encarecidamente que seu marido retorne ao lar, mas entra em desespero quando seu desejo é atendido tragicamente: Jan volta para casa, mas tetraplégico e impedido de viver uma vida normal. Para manter-se próxima do marido, a jovem acaba acatando um pedido inusitado seu: ele pede que ela faça sexo com outros homens e conte a ele, em detalhes, todas as relações.


Apaixonada e cada vez mais desequilibrada emocionalmente, Bess passa a envolver-se sexualmente com vários homens da aldeia, sem importar-se com as regras morais da localidade e com o desprezo que começa a experimentar na pele: humilhada e agredida nas ruas, ela acredita, masoquisticamente, que seus sacrifícios carnais são os responsáveis por manter Jan vivo, apesar das negativas dos médicos e de sua cunhada, única pessoa em quem ela pode confiar. Gradualmente se transformando em exemplo de má conduta - uma Geni sem o Zepelim - Bess continua dialogando com seu Deus, que ela afirma ter-lhe prometido a cura do marido através de seu sacrifício pessoal. É quando sua família, sem ter outra alternativa, resolve que é hora de mandá-la de volta ao sanatório que ela frequentou anteriormente.

Fotografado com uma técnica especial que lhe permite uma imagem granulada que enfatiza o desconforto e a angústia trêmula da trama criada por Von Trier, "Ondas do destino" se beneficia da atuação desconcertante de Emily Watson para incomodar a plateia, como ele faria com muito mais força em sua obra futura: utilizando sem nenhuma espécie de pudor o sexo como força motriz da via-crucis de sua protagonista, o diretor discute a hipocrisia de uma sociedade puritana através de metáforas religiosas - não seria Bess uma Maria Madalena moderna? - e faz de sua protagonista a portadora de um estoicismo quase pueril, que contrasta com o puritanismo quase cruel das pessoas que a rodeiam. Sua inocência - que faz do sexo quase um ato religioso - a faz muito mais humana que a rigidez dos seus algozes, em tese dignos do respeito e do amor de Deus. Esse paradoxo - polêmico, provocativo, instigante - eleva ainda mais as qualidades cinematográficas do filme, valorizado também por uma trilha sonora fascinante que incluiu Elton John e David Bowie comentando cada um dos capítulos da triste saga de Bess McNeill.

Uma obra-prima dos anos 90, "Ondas do destino" é o antídoto perfeito para a mesmice do cinema norte-americano, com suas heroínas de plástico e seus dramas pasteurizados. Sua linguagem pode não agradar a todo mundo, mas pode ser uma experiência única e inesquecível.

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