terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA (Jeffrey, 1995, The Booking Office, 92min) Direção: Christopher Ashley. Roteiro: Paul Rudnick, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Jeffery J. Tufano. Montagem: Cara Silverman. Música: Stephen Endelman. Direção de arte/cenários: Michael Johnston/Andrew Baseman. Produção executiva: Kevin McCollum. Produção: Mark Balsam, Mitchell Maxwell, Victoria Maxwell. Elenco: Steven Weber, Sigourney Weaver, Patrick Stewart, Victor Garber, Christine Baranski, Camryn Manheim, Kathy Najimy, Nathan Lane, Olympia Dukakis. Estreia: 04/8/95

Filmes como "Meu querido companheiro" (90) e "E a vida continua" (92) retrataram, com uma boa dose de melancolia e realismo, a devastação causada pela AIDS na comunidade gay norte-americana. A doença, que espalhou paranoia, preconceito e dor entre os homossexuais - até que assumiu o status de epidemia a ultrapassar os limites da sexualidade para encontrar suas vítimas - é também o motor propulsor de "Jeffrey, de caso com a vida", que, apesar do tema sombrio é, surpresa, uma comédia. Baseado em uma peça off-Broadway lançada em 1993, o filme de Christopher Ashley - que também comandou a montagem nos palcos - o filme brinca com os clichês relativos ao mundo gay sem desrespeitá-lo e, através da ironia e do humor debochado, tenta fazer um inventário das relações amorosas entre homens. Em alguns momentos até consegue atingir seus objetivos, mas acaba preso a uma irregularidade que o impede de se tornar melhor do que é.

Jeffrey, o protagonista vivido com gosto e carisma por Steven Weber - que em seguida seria corajoso o bastante para substituir Jack Nicholson em uma versão para a TV de "O iluminado", escrita pelo próprio Stephen King em formato de minissérie - é um ator desempregado que, para ganhar a vida, trabalha como garçons em eventos. Traumatizado com uma sequência de aventuras sexuais frustradas pelo medo da contaminação pelo vírus da AIDS, ele toma uma decisão radical: abdicar totalmente de sexo. Essa categórica decisão não é bem-vista nem por seus pais liberais nem tampouco por seu melhor amigo, Sterling (Patrick Stewart), cujo amante Darius (Bryan Batt) é soropositivo. Todos eles acreditam que o rapaz não precisa do celibato e sim de um novo amor. Esse novo amor surge na pele de Steve Howard (Michael T. Weiss), que ele conhece na academia e por quem imediatamente sente-se atraído. A atração e o apoio dos amigos, porém, não são o suficiente para Jeffrey, que tem medo de envolver-se em uma relação amorosa que pode acabar em dor e sofrimento.


É preciso louvar a coragem do dramaturgo e roteirista Paul Rudnick em transformar um tema tão pesado quanto a AIDS em uma comédia leve e despretensiosa: a sombra da doença paira densa sobre os personagens do filme, sempre lembrando-os de sua existência perniciosa, mas os diálogos e o desenvolvimento da trama fogem com destreza do dramalhão, até mesmo quando ele esmurra com força a porta. Patrick Stewart, por exemplo, usou a tristeza que sentiu ao ler o roteiro como elemento para uma cena dramática de "Jornada nas estrelas: generations" (94). Mas, talvez como maneira de exorcizar o tema, Rudnick preenche suas cenas com um humor ácido e recheado de referências culturais típicas do universo gay, como filmes musicais, programas de auditório cafonas e as mães exageradamente liberais - caso da personagem interpretada pela sempre sensacional Olympia Dukakis, que vive a mãe de um homem gay que se tornou lésbica (!!) e que está em vias de fazer uma operação de mudança de sexo.

Contada de forma episódica - o que enfraquece o desenvolvimento de seus personagens, até mesmo os principais - "Jeffrey" tem a seu favor também a participação especial de nomes consagrados em papéis pequenos. Sigourney Weaver brilha como uma espécie de palestrante de autoajuda a quem o protagonista recorre em seu desejo de aprovação - e que se mostra preconceituosa e arrogante. Patrick Stewart - ícone da série "Star Trek" e dos filmes "X-Men" - vive um gay extremamente afetado mas muito carinhoso e dedicado aos amigos e ao amante. Christine Baranski interpreta uma milionária que dá festas beneficentes como quem troca de sapatos. Victor Garber faz uma ponta como um viciado em sexo que participa do grupo que Jeffrey passa a frequentar. E Dukakis, como já citado, brilha como uma mãe orgulhosa do rebelde rebento. Essas participações dão credibilidade ao filme de Ashley - iniciante em cinema - e disfarçam suas inconsistências dramáticas. A criatividade de muitos momentos - criados para o palco e que nem sempre funcionam na transição para a tela grande - se perde na falta de coesão do resultado final, mas mesmo assim é refrescante ver a praga da AIDS sob um novo - e menos fatalista - ângulo.

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