domingo, 22 de fevereiro de 2015

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS (Welcome to the dollhouse, 1996, Sony Pictures Classics, 88min) Direção e roteiro: Todd Solondz. Fotografia: Randy Drummond. Montagem: Alan Oxman. Música: Jill Wisoff. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Susan Block. Produção executiva: Donna Bascom. Produção: Todd Solondz. Elenco: Heather Matarazzo, Eric Mabius, Brendan Sexton III, Matthew Faber, Angela Pietropinto, Bill Buell, Victoria Davis, Daria Kalininia. Estreia: 10/9/95 (Festival de Toronto)

Antes que o termo bullying saísse dos corredores e banheiros escolares para entrar como um furacão nos lares americanos - e depois se espalhasse mundo afora, alertando pais e professores sobre um mal aparentemente silencioso mas potencialmente mortal - um cineasta independente de olhar feroz sobre a hipocrisia reinante do lado de dentro das cercas brancas das casas dos subúrbios americanos criou uma pequena pérola sobre o assunto. Porém, ao invés de utilizar-se de artifícios sentimentaloides para comover e chocar sua audiência, Todd Solondz - que anos depois voltaria a provocar o público com o polêmico "Felicidade" - resolveu tratar do assunto da forma menos previsível possível: como comédia. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, "Bem-vindo à casa de bonecas" não é uma comédia histérica, que busca a cumplicidade incondicional da plateia ao mostrar as humilhações sofridas por sua protagonista. Construído sobre um humor mordaz e crítico, o filme desnuda uma sociedade que não apenas permite a crueldade contra aqueles a quem julga inferiores, como também compactua com ela mesmo sem ter a plena consciência disso.

Sucesso no Festival de Sundance de 1996, "Bem-vindo à casa de bonecas" apresentou ao público e à crítica o estilo preciso e seco de Solondz, que não hesita em destruir sistematicamente cada tijolo das instituições mais caras aos americanos, como a família e a educação, seus dois principais alvos nesse seu primoroso trabalho de estreia. Quase como um John Waters de sua geração, com seus cenários banhados no kitsch e seus personagens carregados nas tintas da caricatura - e ainda assim críveis e humanos - ele desenha um mundo particular facilmente reconhecível pelo espectador médio, mas o faz de maneira distorcida, sem enfeites, quase como um documentário, seco e sem firulas melodramáticas. Se existe a identificação, ela é justamente por causa de seu método quase brutal de apontar a câmera para cenas que, em produções mais comerciais, estariam envoltas em uma trilha sonora açucarada ou uma fotografia enfeitada com filtros poéticos e românticos. Sua crueza - que poderia ser facilmente confundida com insensibilidade - é, possivelmente, o maior dos méritos de seu filme.


A protagonista de "Bem-vindo à casa de bonecas", vivida com surpreendente naturalidade pela ótima Heather Matarazzo, é Dawn Wiener, uma menina de onze anos e meio que vive no subúrbio de uma pequena cidade do estado de Nova York. Filha do meio de um típico casal de classe média, ela não consegue destacar-se em casa, espremida entre seu irmão mais velho - líder de uma banda de garagem mas não exatamente talentoso - e uma caçula que é o sonho de quaisquer pais-clichê: loura, de olhos azuis, feminina e adoravelmente carinhosa. Na escola, é vítima de todos as humilhações possíveis e imagináveis, vinda tanto dos colegas - meninos ou meninas - quanto dos professores. Feia, mal-vestida, não particularmente inteligente e desajeitada até mesmo ao caminhar, ela só encontra paz quando se esconde no clubinho que construiu no pátio de casa, ao lado do único amigo que tem - também ele vítima de achincalhes diários. A vida de cão da garota - cujos pontos altos são os ataques do marginal oficial da escola, Brendon (Brendan Sexton III) - parece alcançar um objetivo, porém, quando ela se apaixona por Steven (Eric Mabius), que entra na banda de seu irmão: com vãs esperanças de conquistá-lo, Dawn vê seus dias encontrarem um significado quando está ao lado dele, que logicamente mal percebe sua existência.

Ao utilizar-se de uma certa crueldade para conseguir humor, Solondz chega no limite do politicamente correto, arrancando do espectador risos nervosos em situações extremas - Brendan ameaça estuprar Dawn, por exemplo, marcando lugar e hora para isso, e ela vai a seu encontro, pateticamente. Mas é inteligente o bastante para explicitar o quanto o bullying é, na verdade, um círculo vicioso e uma forma de autoproteção. Até mesmo Dawn, que sofre diariamente por não ser o exemplo estético esperado pelo mundo ocidental encontra formas de exorcizar suas frustrações, disparando impropérios a quem considera mais fraco - até que elas atingem um nível tal que somente uma atitude radical pode transformar alguma coisa (ou não). O roteiro simples e direto de Solondz, desprovido dos grandes acontecimentos que são essenciais no manual do cinemão comercial, faz apenas uma crônica sobre a vida de uma menina comum que percebe que jamais será especial. É doloroso. É triste. E é um gol de placa de Todd Solondz fazer com que isso não fique na mente do espectador como uma ferida. O humor de viés de seu filme faz refletir e pode até emocionar. Uma pérola do cinema independente americano.

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