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quarta-feira

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (Shane, 1953, Paramount Pictures, 118min) Direção: George Stevens. Roteiro: A.B. Guthrie Jr., romance de Jack Schaefer. Fotografia: Loyal Griggs. Montagem: William Hornbeck, Tom McAdoo. Música: Victor Young. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Emile Kuri. Produção: George Stevens. Elenco: Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Brandon De Wilde, Jack Palance, Ben Johnson. Estreia: 23/4/53

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator Coadjuvante (Jack Palance, Brandon De Wilde), Roteiro, Fotografia em cores
Vencedor do Oscar de Fotografia em cores 

Um dos mais icônicos westerns já realizados em Hollywood, "Os brutos também amam" começou como uma produção despretensiosa e que era vista como um filme menor pelo próprio estúdio que a realizava - no caso, a Paramount Pictures. O orçamento era pequeno, o elenco não era de primeira linha (em termos de estrelato) e o diretor, George Stevens quase desistiu do projeto quando não pode contar com os primeiros atores que havia imaginado - e ficou mais de um ano na sala de edição para que seu perfeccionismo permitisse um lançamento oficial. No entanto, nenhum desses empecilhos chegou a estragar o que se tornaria um clássico quase instantâneo, e que permaneceu no inconsciente coletivo como uma pequena obra-prima do gênero. Mais intimista do que épica, a história do misterioso Shane e sua amizade com uma família lutando contra injustiças sociais surpreendeu público e crítica ao substituir - sem prejuízo de espécie alguma - os vastos horizontes de John Ford e os heróis machistas de John Wayne por um olhar minimalista e um protagonista sensível a ponto de conquistar o amor e admiração de uma família inteira.

Baseado em um best-seller de Jack Schaefer publicado em 1949 e logo comprado pela Paramount, "Os brutos também amam" chegou às mãos de George Stevens através de seu filho, que o apresentou à história depois de um trabalho de faculdade. Encantado com o livro, decidiu imediatamente transformá-lo em filme e chegou a escolher os dois protagonistas masculinos: Montgomery Clift no papel-título e William Holden como o pai de família pressionado a abandonar sua fazenda. Quando os dois atores desistiram do filme (e Ray Milland foi apenas cogitado), Stevens chegou perto de desistir, mas, em última tentativa, recorreu à lista de contratados do estúdio e, em cerca de três minutos já havia decidido seu elenco: Alan Ladd, Van Hefflin e Jean Arthur. Mas seus problemas ainda não haviam acabado: Jean Arthur estava aposentada e não tinha a menor vontade de retomar a carreira. Agindo mais como amigo do que como cineasta, Stevens enfim convenceu-a a aceitar o papel feminino da trama. Afinal de contas, seriam apenas 48 dias de filmagem, certo? Errado. O atraso no cronograma oficial (de 48 para 75 dias) estourou o orçamento inicial (de 1.9 milhão de dólares) para quase três milhões, e os executivos da Paramount chegaram a tentar vender o filme para o milionário Howard Hughes. Hughes, excêntrico e apaixonado por cinema, não demonstrou interesse até assistir um copião e voltar atrás na decisão - mas então foi o estúdio quem resolveu manter o filme para si. O resto é (quase) história.


As filmagens de "Os brutos também amam" acabaram em outubro de 1951, mas os planos da Paramount em lançá-lo no começo de 1952 foram por água abaixo quando Stevens, demonstrando um perfeccionismo que beirava o exagero, levou mais de um ano para finalmente considerá-lo pronto. A essa altura, outro clássico do gênero já havia sido lançado e feito enorme sucesso: dirigido por Fred Zinnemann e estrelado por Gary Cooper e Grace Kelly, "Matar ou morrer" conquistou o público e a crítica, arrebatando prêmios (Oscar e Golden Globe entre eles) e estabelecendo novas regras para o western, como um protagonista corajoso, mas humano, e um enfoque mais familiar às tramas, inclusive com personagens femininas mais presentes e não apenas espectadoras passivas. Quando "Os brutos também amam" finalmente estreou, a plateia já estava familiarizada com as novidades e abraçou o filme com um carinho surpreendente. A Academia de Hollywood reiterou o sucesso de bilheteria e o indicou a seis Oscar, incluindo melhor filme e diretor - para sua surpresa, o escritor A. B. Guthrie Jr., vencedor do Pulitzer, foi lembrado na categoria de roteiro, ainda que, antes de sua experiência na adaptação de "Shane", jamais tivesse sequer lido um script.

A trama de "Os brutos também amam" é simples e eficiente: o misterioso pistoleiro Shane (Alan Ladd) chega à uma pequena fazenda do Wyoming e conquista a confiança de seu proprietário, Joe Starrett (Van Heffling), e de sua família, a esposa Marion (Jean Arthur) e o filho pequeno, Joey (Brandon de Wilde, indicado ao Oscar de coadjuvante). Aos poucos, Shane começa a perceber que a única coisa que estraga a paz da família é a pressão que vem sofrendo do despótico Ryker (Emile Meyer), que insiste em desalojá-los para ficar com suas terras e criar gado. Starrett tenta resolver as coisas na base do diálogo, principalmente entre seus vizinhos, também ameaçados por Ryker. As coisas ficam mais complicadas quando Ryker contrata um matador de aluguel, Wilson (Jack Palance, também indicado ao Oscar de coadjuvante), para matar Starrett. Corajoso e sentindo-se em dívida com a família que o acolheu, Shane toma o lugar do amigo em um duelo, que finalmente irá resolver o dilema.

Utilizando de alguns elementos clássicos do western, "Os brutos também amam" não abandona a figura do cavaleiro solitário, dos fazendeiros honestos e do mal encarnado em uma pessoa - no caso, o maléfico Wilson, vestido de preto dos pés à cabeça e pouco afeito a conversa. Porém, ao misturar tais elementos com outros - a aproximação hesitante entre Shane e Marion, a admiração do pequeno Joey pelo visitante, a amizade sincera entre Shane e Starrett -, George Stevens acabou por construir um filme que transcende facilmente os limites do gênero. Não à toa, seu filme foi uma das maiores inspirações de "Logan" (2017), uma produção que dificilmente a plateia identificaria como faroeste. Ao inspirar diretores dos mais variados gêneros (até Woody Allen declarou-se fã inveterado), "Os brutos também amam" é um filme que atravessa gerações com a mesma força dramática e poesia visual que encantou as audiências de seu lançamento. Imortal e sempre emocionante, é também um dos maiores westerns da história do cinema.

segunda-feira

PRECIPÍCIOS D'ALMA

PRECIPÍCIOS D'ALMA (Sudden fear, 1952, Joseph Kaufman Productions, 110min) Direção: David Miller. Roteiro: Lenore Coffee, Robert Smith, estória de Edna Sherry. Fotografia: Charles Lang. Montagem: Leon Barsha. Música: Elmer Bernstein. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Edward G. Boyle. Produção executiva: Joan Crawford. Produção: Joseph Kaufman. Elenco: Joan Crawford, Jack Palance, Gloria Grahame, Bruce Bennett, Virginia Hudson. Estreia: 07/8/52

4 indicações ao Oscar: Atriz (Joan Crawford), Ator Coadjuvante (Jack Palance), Fotografia em preto-e-branco, Figurino em preto-e-branco

A velha Hollywood dos grandes estúdios estava em seus estertores na década de 1950, quando os grandes astros e estrelas de cinema já não mais mantinham longos contratos e precisavam batalhar para a manutenção de seus status junto ao público. Foi uma época, antes que os anos 1960 chegassem - e com eles uma nova forma de ver e fazer filmes - , em que nomes da era de ouro do cinema norte-americano partiam em busca de novas soluções para continuarem relevantes junto a uma plateia cada vez mais jovem e menos afeita ao estilo que vinha sendo imposto durante anos. A forma encontrada por Joan Crawford, por exemplo, foi certeira: sem contrato na Warner e mais de cinco anos depois de seu último sucesso ("Alma em suplício", de 1945, que lhe rendeu um Oscar), Crawford admitiu que era hora de tomar as rédeas de sua carreira e começar a agir também por trás das câmeras. Colocou, então, as mãos na massa e surgiu mais um êxito comercial em sua vitoriosa trajetória: "Precipícios d'alma" não só foi um sucesso de bilheteria como lhe rendeu uma terceira indicação à estatueta da Academia - contra sua arqui-rival Bette Davis.

Responsável por boa parte das escolhas artísticas do filme, Crawford cercou-se de gente talentosa - o diretor de fotografia Charles Lang, o músico Elmer Bernstein, a corroteirista Lenora Coffee e os principais nomes do elenco - e escolheu um material perfeito para sua imagem e alcance dramático. Só não conseguiu convencer os dois primeiros atores a quem ofereceu o protagonista masculino do filme: nem Clark Gable nem Marlon Brando aceitaram a proposta, e quem ficou com o papel foi o quase desconhecido Jack Palance, que, no ano seguinte, encarnaria o vilão do antológico "Os brutos também amam". Mesmo de dona da situação, Crawford não conseguiu evitar, porém, um clima tenso nos bastidores - principalmente porque ele era causado por ela mesma e Gloria Grahame, que deixavam claro para todos que não gostavam uma da outra. A situação só não partiu para a agressão física propriamente dita porque o restante da equipe interviu antes que fosse tarde demais.

Apesar do título nacional - "Precipícios d'alma" - soar como um infame melodrama, o filme do pouco conhecido David Miller (também escolha de Crawford) está muito mais para um filme de suspense psicológico do que para uma romântica história de amor. Os quinze minutos inicias até dão essa impressão: Crawfor interpreta Myra Hudson, uma bem-sucedida dramaturga que desperta, logo de cara, a ira do ator Leslie Blaine (Jack Palance) ao recusá-lo para um papel em sua nova peça de teatro. Sem concordar com o que Myra alega - que ele não é capaz de transmitir paixão em seu desempenho -, Blaine resolve convencê-la do contrário: durante uma viagem de trem, acaba por seduzí-la, e o romance nascente entre os dois lhe dá a oportunidade de conhecer um lado luxuoso da vida. Tudo parece correr bem até, que, de repente, entra em cena a bela Irene Neves (Gloria Grahame), parte do passado de Blaine, que parece disposta a retomar seu lugar na sua vida.

A mudança de tom bem antes da metade do filme não é um empecilho para que "Precipícios d'alma" envolva a plateia, muito pelo contrário: quando as reais intenções de Blaine ficam claras para o espectador, o filme de Miller ganha força e possibilita uma interpretação intensa à Crawford. Sua personagem, que começa forte e dona de grande personalidade, transforma-se gradualmente em uma mulher romântica... para depois ressuscitar sua antiga força para dar o troco em quem merece. O ato final é quase sem diálogos, em um incrível trabalho de direção e montagem, que permite ao espectador mergulhar aflito enquanto espera o desenlace de uma situação, um desfecho tenso e magistralmente dirigido e interpretado. Indicado ainda aos Oscar de ator coadjuvante (Jack Palance), fotografia e figurino (ambas na subcategoria de filmes em preto-e-branco), "Precipícios d'alma" pode não ser um filme dos mais lembrados de Joan Crawford - ao menos não no nível de "Alma em suplício", que lhe rendeu um Oscar, ou "O que terá acontecido a Baby Jane?", que a colocou ao lado de Bette Davis em um confronto épico - mas envolve o espectador e mantém o interesse até os minutos finais. E, afinal de contas, não é isso que conta quando se fala em entretenimento?

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...