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sábado

COCKTAIL

 


COCKTAIL (Cocktail, 1988, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Heywood Gould, romance de sua autoria. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Neil Travis. Música: J. Peter Robinson. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Hilton Rosemarin. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Tom Cruise, Bryan Brown, Elisabeth Shue, Gina Gershon, Kelly Lynch. Estreia: 29/7/88

Em 1989, Tom Cruise já havia começado sua transição de galã juvenil para ator respeitado pela crítica e pela indústria - o que confirmou-se com sua indicação ao Oscar por "Nascido em 4 de julho", dirigido por Oliver Stone. Antes de abandonar seu status de símbolo sexual, porém, deu de presente a seus fãs um último trabalho capaz de explorar seu sorriso e seu carisma. Baseado no romance homônimo de Heywood Gould, também autor do roteiro pouco inventivo - e que foi premiado com o Framboesa de Ouro da categoria -, "Cocktail"se enquadra nos tradicionais dramas românticos de fundo moralista que tanto fizeram sucesso na década de 1980, mas que, valorizado por uma embalagem atraente (belas locações na Jamaica, trilha sonora de hits, elenco de jovens astros em ascensão) o levou a arrecadar polpudos 170 milhões de dólares ao redor do mundo. Uma prova inconteste do apelo de Cruise junto ao público, o filme do neozelandês Roger Donaldson - vindo do ótimo "Sem saída" (1987), que deu a Kevin Costner um de seus melhores papéis no cinema - o coloca novamente ao lado de um ator veterano como forma de contraste entre duas gerações. Se em "A cor do dinheiro" (1986) a dupla era com Paul Newman (que ganhou o Oscar por seu desempenho), e em "Rain Man" (lançado pouco meses depois de "Cocktail") o encontro foi com Dustin Hoffman (igualmente oscarizado por seu trabalho), o filme de Donaldson promove o encontro de Cruise com o australiano Bryan Brown - que pouco tem a fazer com um personagem atolado em clichês.

A trama é simples e inspirada na própria experiência do roteirista por trás dos balcões de bares: Brian Flanagan (interpretado por Cruise) é um jovem ambicioso que abandona sua pequena cidade natal com o objetivo de vencer no mercado financeiro de Nova York. Seus planos logo se mostram mais complicados do que pareciam, e ele se vê trabalhando como bartender ao lado do experiente Douglas Coughlin (Bryan Brown), que lhe serve como mentor e melhor amigo. Aos poucos, esbanjando carisma e dedicação, Brian se torna um dos mais conhecidos profissionais do ramo e, mudando o rumo de seus desejos de sucesso, se une a Douglas no objetivo de abrir um negócio próprio. As coisas não saem como planejado e, depois de abandonar Manhattan - culpa de uma briga com seu futuro sócio -, o rapaz começa uma vida nova na Jamaica, onde novamente se destaca com suas coreografias elaboradas e seu sorriso cativante. É lá que ele conhece a jovem Jordan (Elisabeth Shue), com quem inicia um apaixonado romance. Mais uma vez, no entanto, tudo vira do avesso em sua vida quando Douglas reaparece, rico, bem casado e disposto a apagar as rusgas do passado - o que pode ameaçar o nascente relacionamento com a doce Jordan.

 

Apesar de depender quase unicamente do sorriso e do carisma de Cruise - algo que o então jovem galã não economizava, para alegria dos fãs -, "Cocktail" nem sempre teve tal trunfo em mãos. Antes que Cruise acertasse sua participação no filme, atores de vários tipos físicos, idades e perfis foram cotados para liderar o elenco - um forte indício da falta de personalidade de um projeto que, segundo o próprio Heywood Gould, deu origem a 40 diferentes versões do roteiro. Dessa forma, nomes como Robin Williams, Charlie Sheen, John Travolta, Rob Lowe, Jeff Bridges, Matthew Broderick e Mel Gibson chegaram a ser pensados - Keanu Reeves, Tom Hanks e Bill Murray só foram deixados de lado por conflitos com outros compromissos. Da mesma forma, o papel do mentor do protagonista também teve sua lista de possíveis intérpretes, que iam de Paul Newman e Dustin Hoffman (que voltariam a contracenar com Cruise) a Jack Nicholson, Harrison Ford, Tommy Lee Jones, Joe Pesci e Michael Caine (que pulou fora do barco para integrar o elenco do hilário "Os safados", ao lado de Steve Martin. E até mesmo a atriz para viver a doce heroína do filme, Jordan, foi objeto de discussão, com Elisabeth Shue batendo nomes fortes como Demi Moore, Jennifer Jason Leigh, Jennifer Grey, Sarah Jessica Parker, Daryl Hannah e, pasmem, Jodie Foster.

É inegável que, sob a luz da nostalgia, "Cocktail" é uma sessão da tarde deliciosa, descompromissada, leve e agradável. Como cinema, porém, é apenas um veículo para explorar a popularidade de Tom Cruise - e sob esse ponto de vista, o filme é um sucesso. A bilheteria expressiva ajudou o estúdio (a Touchstone Pictures), a ascensão do astro (que em breve focaria a carreira em produções mais sérias) e o público, que lotou salas de exibição para acompanhar uma história quase maniqueísta, fotografada de forma tão solar e romântica que mal deixava vislumbrar seu moralismo quase ingênuo. No frigir dos ovos, a química entre Cruise, Brown e Shue - somada à trilha sonora que incluía até mesmo uma canção original dos Beach Boys - foi o suficiente para as plateias menos exigentes e serviu para reafirmar a posição de seu astro como um dos nomes mais fortes do cinema hollywoodiano dos então vindouros anos 1990.

terça-feira

MORRENDO E APRENDENDO


MORRENDO E APRENDENDO (Heart and souls, 1993, Universal Pictures, 104min) Direção: Ron Underwood. Roteiro: Brent Maddock, S.S. Wilson, Gregory Hansen, Erik Hansen, estória de Gregory Hansen, Erik Hansen, Brent Maddock, S.S. Wilson, curta-metragem de Gregory Hansen. Fotografia: Michael Watkins. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Marc Shaiman. Figurino: Jean-Pierre Dorleac. Direção de arte/cenários: John Muto/Anne Ahrens. Produção executiva: Cari-Esta Albert, James Jacks. Produção: Sean Daniel, Nancy Roberts. Elenco: Robert Downey Jr., Kyra Sedgwick, Tom Sizemore, Charles Grodin, Alfre Woodard, Elisabeth Shue, David Paymer. Estreia: 13/8/93
 

O sucesso avassalador de "Ghost: do outro lado da vida", que em 1990 pegou até mesm a Paramount de surpresa, ao tornar-se um enorme êxito comercial e concorrer ao Oscar de melhor filme (além de ter arrebatado duas estatuetas), fez com que os estúdios de Hollywood começassem a prestar mais atenção em roteiros que explorassem, de uma forma ou outra, a espiritualidade. Nenhum deles resultou em um filme memorável - até mesmo o esperado "A mulher do açougueiro", estrelado pela mesma Demi Moore, fracassou retumbantemente -, mas algumas produções acabaram injustamente renegadas, tidas como subprodutos oportunistas enquanto, na verdade, tinham qualidades o bastante para, no mínimo, fazer uma bela carreira como cult. É o caso de "Morrendo e aprendendo", emocionante e divertida comédia dramática dirigida por Ron Underwood que passou praticamente em branco nos cinemas - e, no caso de países como Inglaterra e Hungria, foi lançado diretamente em vídeo: com um roteiro bem amarrado, atuações precisas e um tom acertadamente nostálgico, o filme cativa logo nos primeiros minutos e, se não chega a ser uma obra-prima ou um marco na carreira dos envolvidos, ao menos não faz feio em sua tentativa de emocionar aos mais sensíveis.

Originado de um curta-metragem de nove minutos dirigido pelo corroteirista Gregory Hansen, "Morrendo e aprendendo" chegou aos cinemas quando seu astro, Robert Downey Jr., já estava devidamente reconhecido como um dos mais promissores astros de sua geração - prestígio alcançado pelos prêmios conquistados por seu desempenho em "Chaplin" (1992). Isso não impediu, no entanto, que naufragasse solenemente nas bilheterias e se tornasse, com o tempo, um dos trabalhos menos lembrados do ator - que, apesar dos pesares, o considera um de seus filmes preferidos. Não é para menos: anos antes de atingir o status de grande astro com "Homem de ferro" (2008), ele teve a oportunidade de exercitar seu timing cômico, seu carisma e seus dotes dramáticos, com um protagonista que, em outros tempos, poderia muito bem ter sido interpretado por Cary Grant. E isso que ele só aparece depois de meia hora de projeção.

 

"Morrendo e aprendendo" começa em 1959, quando duas situações completamente opostas confluem em uma terceira. Em um delas, um trágico acidente com um ônibus causa a morte do motorista e dos quatro passageiros. Em outra, um casal comemora o nascimento do primeiro filho, Thomas, ocorrido quase ao mesmo tempo. Presos à Terra mesmo depois da morte, as vítimas acabam se tornando anjos da guarda do menino, que pelos próximos sete anos, conviverá com eles com naturalidade e segurança - pelo menos até que eles percebam que sua presença está atrapalhando o desenvolvimento natural da criança. Sempre presentes em sua vida, mesmo que invisíveis, os quatro espíritos acabam por voltar à ciência de Thomas anos mais tarde, quando Thomas já é um adulto bem sucedido profissionalmente - ainda que com sérios problemas em assumir um compromisso com a bela namorada, Anne (Elisabeth Shue): procurados pelo motorista do ônibus, Hal (David Paymer), eles descobrem que deveriam ter aproveitado seu tempo ao lado do rapaz para resolver as pendências deixadas no momento de suas mortes. Com os dias contados antes de partirem definitivamente, eles precisam, então, contar com a ajuda do incrédulo jovem para limpar as arestas de suas vidas - o que não é exatamente tarefa das mais fáceis.

Milo Peck (Tom Sizemore), um ladrão de galinhas, embarcou no ônibus depois de arrumar encrenca com um de seus contratantes - que lhe pagou para roubar, de uma criança, uma revista em quadrinhos rara e valiosa. Harrison Winslow (Charles Grodin) sofria com uma timidez atroz, que o impedia de fazer carreira como cantor lírico. Julia (Kyra Sedgwick) estava em crise no relacionamento com o namorado, a quem amava apesar de não ter a coragem de dar um passo definitivo. E Penny Washington (Alfre Woodard), uma mãe solteira, tinha dúvidas a respeito de sua competência materna em cuidar sozinha de três crianças. Com a possibilidade de usar o corpo de Thomas para encerrarem seus ciclos terrenos, os quatro partem em busca de redenção, em uma jornada que envolve risos, lágrimas e música. Para sorte do espectador, cada etapa dessa trajetória é apresentada de forma lúdica e orgânica: até mesmo as coincidências que surgem no caminho dos personagens soam plausíveis - responsabilidade de um roteiro sem medo de mergulhar na emoção e de protagonistas adoráveis, capazes de conquistar o público sem fazer muito esforço. Dirigido com sensibilidade por um Ron Underwood que acabara de assinar "Amigos, sempre amigos" (1991) - que deu o Oscar de coadjuvante a Jack Palance - e passaria à televisão já no começo dos anos 2000, "Morrendo e aprendendo" é uma delícia de sessão da tarde, um filme despretensioso e leve que mostrava, já em 1993, o imenso talento de Downey Jr..

segunda-feira

SEGREDOS DE UMA NOVELA


SEGREDOS DE UMA NOVELA (Soapdish, 1991, Paramount Pictures, 97min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Robert Harling, estória de Robert Harling, Andrew Bergman. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Garth Craven. Música: Alan Silvestri. Figurino: Nolan Miller. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Lee Poli. Produção executiva: Herert Ross. Produção: Alan Greisman, Aaron Spelling. Elenco: Sally Field, Kevin Kline, Whoopi Goldberg, Elisabeth Shue, Robert Downey Jr,, Cathy Moriarty, Gary Marshall, Teri Hatcher, Kathy Namiji. Estreia: 31/5/91

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde gozam de relativo prestígio junto ao público e à crítica, as telenovelas produzidas nos EUA não são exatamente um veículo nobre para atores. Normalmente apresentadas no horário vespertino, as novelas norte-americanas (ao contrário das séries, hoje alçadas a filé mignon das emissoras) frequentemente apelam para tramas rocambolescas e inverossímeis, anos e mais anos de duração e um tom que raramente escapa do dramalhão mais cafona. A julgar pela comédia "Segredos de uma novela", seus bastidores também não são nada tranquilos: exageros cômicos à parte, o filme de Michael Hoffman - que posteriormente assinaria o romântico "Um dia especial" (1996), o shakespereano "Sonho de uma noite de verão" (1999) e o subestimado "A última estação" (2009) - retrata o dia-a-dia da produção de uma dessas novelas tão populares quanto inacreditáveis de forma ao mesmo tempo debochada e carinhosa. Co-produzido por Aaron Spelling - ele mesmo vindo do mundo da televisão, onde produziu sucessos como "As panteras" e  "Barrados no baile" - e estrelado por um elenco de sonhos, "Segredos de uma novela" diverte enquanto dura, mas, assim como os produtos que critica, é provável que desapareça da memória do espectador tão logo acabe sua sessão.

Longe de querer ser a obra definitiva sobre o assunto - soa bem mais como uma descompromissada sessão da tarde do que um tratado a respeito de teledramaturgia popular -, o filme de Hoffman brinca com as percepções do público a respeito de astros, estrelas, roteiristas e produtores sem preocupar-se com a fidelidade absoluta - e acerta em cheio ao utilizar-se de metalinguagem como forma de enfatizar  os absurdos que circundam a criação de uma obra aberta. Ao criticar as reviravoltas que abundam nas produções televisivas, o roteiro também faz uso delas para efeito histriônico: na trama criada pelo dramaturgo Robert Harling e desenvolvida por ele e Andrew Bergman, há espaço para romances interrompidos, maternidades escondidas, traições e sexualidades duvidosas - tudo revelado ao vivo, diante de um público ávido por ser surpreendido a cada capítulo.

A protagonista do filme é Celeste Talbert (Sally Field,  estrela absoluta da telenovela "The sun also sets", no ar há anos com espantosos índices de audiência e prêmios acumulados pela crítica. Idolatrada pelos fãs, Talbert parece estar entrando em seu inferno astral: abandonada pelo marido, ela ainda precisa lidar com a velada perseguição do jovem produtor David Barnes (Robert Downey Jr.), que seduzido pela promessa de uma noite de amor com a ambiciosa Montana Moorehead (Cathy Moriarty), procura um jeito de aumentar seu papel na novela mesmo ameaçando sua coerência interna. Protegida pela roteirista principal, Rose Schwartz (Whoopi Goldberg), Talbert tenta não se deixar abater pela crise, mas vê as coisas se complicarem ainda mais quando, para seu desespero, seu antigo amante, Jeffrey Anderson (Kevin Kline), volta à cena como seu novo par romântico, o que traz à luz um passado traumático e um segredo que pode abalar sua popularidade. Não bastasse tudo isso, ela começa a sentir o peso da idade, principalmente quando sua sobrinha, Lori Craven (Elisabeth Shue), passa a disputar com ela, involuntariamente, o posto de atriz preferida pelas plateias, e ilustrar capas de revistas.

Criada por Robert Harling durante os bastidores das filmagens de "Flores de aço" - baseado em uma peça de sua autoria, e estrelado por Sally Field em 1989 -, a trama de "Segredos de uma novela" foi desenvolvida pelo próprio Harling e pelo roteirista/cineasta Andrew Bergman, que poucos anos depois cometeria o infame "Striptease" (1996), com Demi Moore. Brincando com os excessos dramáticos atrelados às produções televisivas (onde parece não haver limites para a falta de verossimilhança), eles não hesitam em forçar situações que, por um lado refletem o tom do gênero, e por outro fazem rir desse mesmo tom. Field, ela mesma um ícone da televisão norte-americana dos anos 1960, com "A noviça voadora" e figurinha fácil nas telinhas nas últimas décadas, com participações em "Plantão médico" e papel central em "Brothers and sisters", está precisa em seu timing cômico, e encontra em Kevin Kline o parceiro ideal: seu Jeffrey Anderson é o retrato perfeito do ator de teatro respeitado (mas sem sucesso popular) que encontra na teledramaturgia barata a forma de sobreviver de sua arte. A presença de Kline, um dos grandes e mais subestimados atores de Hollywood, não apenas valoriza o filme de Hoffman, mas acrescenta sabor aos bastidores em si - não fosse ele a interpretar Anderson o papel poderia ter ficado com Burt Reynolds, que, por coincidência ou não, é ex-namorado da própria Sally Field. Uma ironia que seria bem-vinda ao propósito da produção - mas que não aconteceu por receio do próprio Reynolds.

A energia caótica de "Segredos de uma novela" é um trunfo: reuniões de diretoria - com ideias absurdas jorrando de mentes mais interessadas em índices de audiência do que integridade artística -, intrigas rocambolescas, ressentimentos pouco disfarçados e a fogueira das vaidades queimando tudo à sua volta fazem da produção um entretenimento cujo teor narcisista é facilmente perdoável. Mesmo que o roteiro por vezes exagere na superficialidade - o que talvez seja uma crítica a mais à indústria - e não permita que parte do elenco tenha seu potencial explorado a contento - caso de Robert Downey Jr., Elisabeth Shue e até mesmo Whoopi Goldberg -, o saldo final é no mínimo agradável. Rindo do que acontece por trás das câmeras de um programa de televisão, o filme acaba, de certa forma, homenageando sua capacidade de reinvenção e perenidade junto ao público. A sensação de assistí-lo é, de certa forma, a mesma de tomar um café da tarde junto a seus personagens mais queridos - e suas idiossincrasias mais extraordinárias.

terça-feira

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon Beaufoy. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Pamela Martin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Matthew Flood Ferguson. Produção: Danny Boyle, Christian Colson, Robert Graf. Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Andrea Riseborough, Bill Pullman, Elisabeth Shue, Nathalie Morales, Sarah Silverman, Alan Cumming, Eric Christian Olsen. Estreia: 02/9/17 (Festival de Teluride)

Nada como um casal de verdade para comandar, diante dos olhos do público, uma batalha tão representativa sobre a disputa de gêneros quanto a protagonizada, em 1973, por dois jogadores de tênis populares e radicalmente diferentes quanto Billie Jean King e Bobby Riggs. Um dos mais importantes episódios esportivos - e por que não políticos? - da história dos EUA, a partida que uniu o país defronte a uma quadra de tênis ganhou, em "A guerra dos sexos", um retrato ao mesmo tempo irônico e emocionante nas mãos de Jonathan Dayton e Valerie Farris, diretores do já clássico "Pequena Miss Sunshine" (2006). Com um roteiro preciso de Simon Beaufoy - Oscar por "Quem quer ser um milionário? "(2008) - e atuações exemplares de Emma Stone e Steve Carell, o filme acabou sendo um inesperado fracasso de bilheteria e passou quase despercebido pelas cerimônias de premiação (Stone e Carell foram indicados apenas ao Golden Globe, sendo ignorados pelo Oscar e demais associações de críticos). Na verdade, tal resultado tão pouco auspicioso não reflete sua qualidade: sem apelar para o humor fácil ou o ativismo barato, o filme de Dayton e Farris diverte na mesma medida em que faz uma análise atualíssima sobre os papéis masculinos e femininos no final do século XX - e que encontra eco fortíssimo nas reivindicações sobre igualdade salarial no esporte, assunto mais do que em voga nessas primeiras décadas do XXI.

A trama começa em 1970, quando a famosa e vitoriosa Billie Jean King (Emma Stone) bate de frente com Jack Kramer (Bill Pullman), o organizador de um torneio mundial de tênis feminino cujo prêmio máximo é apenas 1/8 do prêmio oferecido ao campeão do campeonato masculino. Criando uma liga própria para mulheres, juntamente com outras jogadoras, Billie Jean acaba se tornando uma espécie de porta-voz de um movimento que pede equiparação de pagamento a homens e mulheres. Sua luta encontra resistência entre os executivos do esporte - todos homens que pregam a inferioridade de talento e força física das jogadoras em relação aos ídolos do chamado "sexo forte". É com essa gana de provar que existe igualdade entre os gêneros que Billie Jean aceita o desafio de Bobby Riggs (Steve Carell) para uma partida a ser transmitida internacionalmente. Jogador já aposentado - depois de uma carreira brilhante -, Briggs é um apostador compulsivo e vive sustentado pela esposa Priscilla (Elisabeth Shue), mas não resiste a bravatas pouco sutis e misóginas. E é para defender seu gênero que Billie Jean entra na quadra e se torna um ícone feminista.


Porém, fora das quadras, a jovem tenista também tem seus problemas pessoais. O casamento com Larry (Austin Stowell) está ameaçado por sua atração pela cabeleireira Marilyn Barnett (Andrea Riseborough) - e esta relação, se chegar até os meios de comunicação pode atrapalhar sua imagem diante do público. Além disso, Bobby tem a seu lado um séquito de atletas e jornalistas conservadores, o que lhe dá uma certa vantagem psicológica. O roteiro de Beaufoy acerta em tratar o romance entre Billie e Marilyn com naturalidade - inclusive dourando um pouco a pílula, uma vez que o relacionamento acabou em 1981 de forma pouco agradável (com Marilyn processando a jogadora). A direção de Dayton e Farris também foge do sensacionalismo e da polêmica, centrando seu foco muito mais na disputa entre os protagonistas (dentro e fora da quadra) e no trabalho irrepreensível de seus dois atores centrais. Emma Stone - que quase foi substituída por Brie Larson mas recuperou o papel a tempo - alterna os estados de espírito de sua personagem com extrema segurança, e Steve Carell parece ter nascido para interpretar Bobby Riggs: sua verve e seu timing cômico são precisos e dão a leveza necessária para não tornar a narrativa algo panfletário ou desinteressante. Da mesma forma, o elenco coadjuvante brilha sem roubar a atenção da dupla principal - e conta com nomes conhecidos como Bill Pullman e Elisabeth Shue.

Engraçado, importante e absolutamente atual, "A guerra dos sexos" talvez tenha fracassado nas bilheterias justamente por não se dobrar ao óbvio e ao cômodo. Não provoca gargalhadas fáceis nem tampouco tenta forçar a simpatia da plateia a um assunto bastante explosivo. É apenas um (bom) filme, contado com inteligência e sensibilidade, e que pode provocar discussões bastante saudáveis e pertinentes. Em uma época na qual poucos filmes tem a coragem de sair da zona de conforto, é um alento dos mais divertidos e simpáticos. Não vai mudar a história do cinema nem a vida do espectador, mas é muito mais relevante do que obras pretensamente sérias e politicamente corretas que conseguem enganar crítica e público. Um filme a ser descoberto e aplaudido!

segunda-feira

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III (Back to the future - Part III, 1990, Universal Pictures, 118min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Margie Stone McShirley, Jim Teegarden. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan. Estreia: 25/5/90

Quando Robert Zemeckis e Bob Gale resolveram que o sucesso estrondoso de "De volta para o futuro" (85) merecia uma continuação, se depararam com uma situação atípica dentro da indústria hollywoodiana: ao invés de experimentarem um bloqueio criativo, eles foram brindados com uma profusão de ideias, que expandiam o universo de viagens no tempo a ponto de dar material não apenas para uma, mas duas sequências. Então, com o aval da Universal Pictures, entusiasmada com a centena de milhares de dólares arrecadados pelo primeiro filme, diretor e roteirista tomaram a decisão então inédita de rodar dois filmes simultaneamente, para que estreassem com o intervalo de um ano entre um e outro. Assim, a história do adolescente que precisava voltar trinta anos no passado para garantir que sua existência não fosse apagada acabava por se transformar em uma trilogia das mais amadas de sua época, repleta de personagens adoráveis, diálogos bem escritos e cenas que entraram para o inconsciente coletivo. Uma pena que seu encerramento, "De volta para o futuro - parte III" seja o menos empolgante da série, deixando no ar uma ligeira sensação de anti-clímax.

Depois de dedicar os dois primeiros filmes à família de Marty McFly (Michael J. Fox) - tanto em 1955 quanto em um 1985 alternativo - o roteiro do terceiro capítulo volta seus olhos para o outro protagonista da história, o cientista Emmett Brown (Christopher Lloyd, sempre ótimo), dessa vez remetendo os personagens para o Velho Oeste, mais precisamente para o ano de 1885, onde Brown está levando uma vida pacífica e tranquila, segundo uma carta escrita de próprio punho para ele mesmo, no futuro. A complicação começa, porém, quando ambos descobrem, em 1955, que apenas uma semana depois de ter escrito a carta, o cientista será assassinado por um conhecido criminoso local. Para impedir que tal tragédia ocorra, Marty convence o amigo a deixá-lo retornar no tempo mais uma vez. É assim que ele chega a uma Hill Valley em seus primórdios e, assumindo o pseudônimo de Clint Eastwood, conhece seus antepassados, Seamus (também Michael J. Fox) e Maggie McFly (Lea Thompson), o apavorante "Mad Dog" Tannen (Thomas F. Wilson) e a professora Clara Clayton (Mary Steenburgen), que, tão logo chega no local, desperta uma inesperada paixão no solitário Emmett Brown.


Como uma grande homenagem a um dos gêneros mais queridos de Hollywood, "De volta para o futuro - parte III" abarca uma infindável coleção dos maiores ícones do western. Do nome adotado por Marty quando chega à Hill Valley até o clímax em uma estrada de ferro, todos os elementos mais clássicos do faroeste desfilam pela tela, de forma mais ou menos explícita. Há o saloon onde se encontram os valentões e McFly dá de cara com Mad Dog pela primeira vez; há os bailes ao ar livre onde a comunidade confraterniza em momentos de paz; há os figurinos típicos, com direito a um extravagante conjunto vestido pelo protagonista ("Deve ter roubado de algum chinês morto!"); há ataques indígenas e, finalmente, há a moldura esplendorosa do Monument Valley, cenário arquetípico facilmente reconhecível até mesmo por aquela plateia que jamais ouviu falar em John Ford. Para aproximar-se de um público mais jovem e menos afeito à nostalgia, Zemeckis reveste todos esses ingredientes com um atraente senso de humor e aventura que disfarça sua real intenção: realizar um faroeste à moda antiga, mas com os recursos da (então) moderna tecnologia cinematográfica. Ao mesmo tempo em que brinca com os demais filmes da série - com cenas e situações que dialogam diretamente com os capítulos anteriores - o diretor injeta sangue novo à mitologia do enredo, mostrando a construção da torre do relógio (peça-chave nos três filmes), apresentando os pioneiros McFly nos EUA e o início da rivalidade entre a família do protagonista e os Tannen - que um século mais tarde ainda estará bem viva, como mostram as brigas entre George e Biff. Sem perder em momento algum o senso de humor e a coerência interna com o universo criado em 1985, o filme só não é perfeito por estender-se demais.

Com uma trama sem a quantidade de acontecimentos dos dois primeiros filmes - tão movimentados que chegavam a dar um nó na cabeça do espectador - e a história principal centrada no romance entre Brown e Clara Clayton, "De volta para o futuro - parte III" se ressente de uma edição mais enxuta, capaz de limar alguns excessos. O clímax do filme, por exemplo, em um trem à toda velocidade, mais cansa o público do que o encanta, e o desfecho da história, mesmo que necessário, estende-se mais do que deveria: não deixa nenhuma ponta solta, o que é admirável, mas demora a ponto do quase tédio. Por mais que o público goste de Marty McFly e Emmett Brown, sua despedida poderia ser bem mais ágil e divertida. É um final agradável, simpático e coerente, mas que não chega a estar à altura dos dois primeiros filmes, o que, de certa forma, era uma missão quase impossível.

domingo

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II (Back to the future - Part II, 1989, Universal Pictures, 108min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Linda De Scenna. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan, Billy Zane. Estreia: 22/11/89

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois do acachapante - e de certa forma inesperado - sucesso de "De volta para o futuro" (85), era até previsível que sua equipe (o diretor Robert Zemeckis, o roteirista Bob Gale e o produtor Steven Spielberg) caísse na tentação de realizar uma continuação. A novidade, contudo, surgiu quando a Universal Pictures anunciou que, para economizar custos e dar conta da enorme quantidade de ideias que surgiam na mente de seus criadores, seriam realizados, de uma só vez, duas sequências para a divertida história do adolescente Marty McFly e suas viagens pelo tempo. Os dois filmes seriam lançados com um espaço de tempo de apenas seis meses entre eles e formariam, no final, uma trilogia que contava, segundo os próprios Zemeckis e Gale, uma única história em três partes. Ocupado com as demoradas filmagens de seu premiado "Uma cilada para Roger Rabbit" (88), o cineasta deu tempo de sobra para que Bob Gale desenvolvesse os dois capítulos finais da série - separados também por tons e ambientações diferentes - e os produtores lidassem com os problemas relativos a contratos e negociações. E em uma série de filmes com roteiros tão complexos, jamais poderia imaginar que a maior dificuldade de levar "De volta para o futuro - parte II" para os cinemas fosse cair justamente no elenco coadjuvante.

Mesmo com todos os atores tendo assinado contratos para eventuais continuações do primeiro filme, a produção de "De volta para o futuro - parte II" emperrou de cara quando Crispin Glover, que no primeiro filme interpretou George McFly, o pai do protagonista, decidiu que não iria participar das sequências por não concordar com o salário oferecido - segundo ele, apenas metade do que receberiam outros membros do elenco de apoio, como Lea Thompson (sua mulher, Lorraine) e Thomas F. Wilson (seu rival, Biff Tannen). Rodadas de negociações foram gastas até que o estúdio resolvesse que Glover não estava sendo minimamente razoável e desistisse de contar com sua participação, substituindo-o por um dublê em todas as cenas em que fosse imprescindível sua presença. Outro problema no elenco dizia respeito à Claudia Wells, que vivia Jennifer, a namorada de Marty no original - e que era, de acordo com as cenas finais, parte importante do enredo do segundo filme, relacionado aos filhos do protagonista. Com a mãe diagnosticada com câncer, Wells abandonou a carreira de atriz e deixou os produtores com um abacaxi a descascar. Felizmente, nesse caso as coisas foram mais fáceis: Elisabeth Shue - que seis anos depois concorreria ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Despedida em Las Vegas" - assumiu o papel e deixou aliviados todos aqueles que esperavam ansiosamente para voltar a um dos mais queridos filmes dos anos 80.

A trama de "De volta para o futuro - parte II" começa exatamente onde acabou o original: o Dr. Emmett Brown (Christopher LLoyd, ainda mais à vontade no papel) procura o adolescente Marty McFly (Michael J. Fox) procurando ajuda para resolver um problema com seus filhos no ano de 2015. Arrastando uma atônita Jennifer junto com eles, a dupla chega ao futuro para tentar impedir que o filho de McFly, Junior (novamente Fox), seja preso e condenado devido à má influência de Griff Tannen (Thomas F. Wilson), filho de Biff, inimigo declarado da juventude de seu pai. A questão demora um pouco a ser resolvida - e faz com que Marty tenha contato ainda com sua filha, Marlene (Fox em terceiro papel), com Jennifer mais velha e com ele mesmo em uma rotina pouco entusiasmante. A situação sofre um baque, porém, quando, em 2015, Biff descobre o segredo do DeLorean máquina do tempo e, em um lance de mestre, viaja para o passado para entregar a ele mesmo jovem um almanaque com todos os resultados esportivos do século. Quando retorna a 1985, então, Marty e Brown precisa lidar com uma devastadora realidade alternativa, onde Biff é um milionário ao estilo Donald Trump e casado com sua mãe. Para evitar essa tragédia, ele convence Brown a voltar mais uma vez a 1955 e impedir o encontro dos dois Biffs - enquanto tenta impedir também um encontro consigo mesmo, o que pode causar irreparáveis danos à linha temporal.


Apostando na inteligência da plateia e entregando uma trama repleta de detalhes que vão se completando no decorrer da narrativa, "De volta para o futuro - parte II" consegue ser tão divertido e empolgante quanto o primeiro filme, por mais que tenha perdido o sabor de novidade. Ao recriar sequências do original - como a corrida de skate (dessa vez voador) - Zemeckis conduz a plateia à sua própria viagem no tempo, em especial quando recria detalhadamente o baile "Encanto submarino" e faz com que o protagonista fique sempre a um passo de esbarrar em uma outra versão de si mesmo, em um delicioso suspense no qual o espectador embarca sorridente e seduzido. Brincando também com situações banais transformadas em piadas - "Tubarão 19", anuncia a marquise do cinema, com um realista monstro em 3D assustando os transeuntes e Biff Tannen uma cópia idêntica de Donald Trump quase trinta anos antes que o milionário fosse eleito presidente - e com um roteiro que não dá trégua em seu vai-e-volta, o diretor faz uso exemplar dos efeitos visuais indicados ao Oscar (a cena da reunião familiar é sensacional) e não perde jamais o fio da meada, demonstrando total domínio de seus personagens e sua história.

Apontado por alguns como confuso demais para um filme de verão, "De volta para o futuro - parte II" é, na verdade, a prova irrefutável de que não é necessário subestimar a inteligência da plateia para conquistá-la. Exigindo mais do público do que a vasta maioria das produções a chegar às telas no meio do ano nos EUA - sempre a temporada mais lucrativa - o filme de Zemeckis consegue alcançar o equilíbrio perfeito entre ação, comédia e ficção científica, sem que para isso tenha que sacrificar a coerência interna da história ou a complexidade de seus personagens. É uma continuação exemplar, que honra seu primeiro capítulo e abre a porta para seu final com o máximo de respeito e ousadia possíveis. Não é à toa que Robert Zemeckis é um dos mais bem-sucedidos diretores de sua geração.

quarta-feira

UM DIVÃ PARA DOIS

UM DIVÃ PARA DOIS (Hope Springs, 2012, Columbia Pictures/Mandate Pictures, 100min) Direção: David Frankel. Roteiro: Vanessa Taylor. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Steven Weisberg. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Jason Blumenthal, Nathan Kahane, Jessie Nelson, Steve Tisch. Produção: Todd Black, Guymon Casady. Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carrell, Jean Smart, Elisabeth Shue, Mimi Rogers. Estreia: 08/8/12


Kay e Arnols Soames estão comemorando 31 anos de casamento. Dessa relação sólida e tranquila, nasceram dois filhos e um conforto que transformou-se em comodismo. Dormindo em quartos separados e sem assuntos em comum, o casal parece ter aposentado definitivamente sua vida sexual e afetiva. Mas Kay não quer entregar os pontos facilmente e, depois de ler o livro de um terapeuta de casais extremamente bem-sucedido, gasta quatro mil dólares de suas economias pagando um intensivo de sete dias em uma cidade costeira do Maine para recuperar seu casamento. A princípio decidido a não acompanhar a esposa no que considera uma loucura, Arnold acaba por ceder e eles começam, então, um período onde terão que trazer à tona assuntos que aprenderam a esconder com o passar dos anos. Com essa sinopse, “Um divã para dois” poderia servir para um drama-cabeça do sueco Ingmar Bergman, uma comédia intelectualizada de Woody Allen ou um filme erótico metido a profundo de Bernardo Bertolucci. Mas, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones nos papéis principais e a direção de David Frankel (de “O diabo veste Prada”), é apenas uma comédia dramática com bons momentos, bom elenco e a dose de previsibilidade comum a uma produção comercial e despretensiosa. Não muda a vida de ninguém, mas é garantia de um passatempo bastante agradável.
É lógico que ter Meryl Streep ajuda e muito. Já que o roteiro não foge do banal e da superficialidade, o talento da atriz em tirar leite de pedra acaba por tornar-se a principal razão para assistir-se ao filme. Mestre do minimalismo, Streep consegue convencer tanto nos momentos de humor – sutil às vezes, quase de mau-gosto de vez em quando – quanto naqueles em que sua capacidade de falar com os olhos lembra a plateia dos motivos que a levam a ser considerada a melhor atriz americana de sua geração. Ciente das vontades e do objetivo de Kay em salvar seu casamento e recuperar os dias de paixão com o marido, o público torna-se seu cúmplice, entendendo sem fazer esforço o que se passa por sua cabeça diante das constrangedoras perguntas formuladas pelo dr. Bernard Feld (Steve Carrell, bastante contido). Em contraste com a quase insensibilidade do marido (Tommy Lee Jones mais uma vez em um papel seco e no limite do brutal), Streep é uma flor de delicadeza, capaz de ultrapassar seus limites morais para reencontrar a felicidade doméstica (inclusive tentando praticar o sexo oral que aprendeu a fazer lendo um livro escrito por gays para ajudarem mulheres como ela). Mas que as feministas não preparem suas reclamações: se Kay corre atrás do prejuízo, Arnold também percebe, um tempo depois, que precisa fazer a mesma força. O filme não tem viés feminista nem machista. É apenas inconsequente.



Kay não é uma dona-de-casa que viveu para os filhos – apesar de não ter uma “carreira”, trabalha fora e tem condições suficientes para uma vida independente, se assim o quisesse. Arnold não é um homem mau, é apenas uma cria de sua geração, em que ser o provedor basta para ser considerado um bom pai de família. Amor e sexo quase não entram na sua equação, e ele acha que nunca ter traído Kay com outra mulher faz dele um exemplo a ser seguido. Ambos tem suas razões, ambos tem suas culpas. Ao longo do caminho, deixaram de lado suas vontades e seus desejos, assim como a disposição de falar sobre eles. Tudo parecia feliz. Mas, como bem lembra o terapeuta, para curar um desvio de septo é preciso quebrar o nariz; e para quebrar o nariz é preciso que isso seja feito de forma rápida. Kay é a catalisadora desse desejo de mudança. Arnold demora a acompanhá-la. É uma visão um tanto simplista a respeito das características de gênero, mas é preciso entender que estamos falando de um filme hollywoodiano com pretensões puramente comerciais e dirigido por um cineasta apenas correto e sem ambições sociológicas. “Um divã para dois” não se propõe a ser um estudo sobre as relações homem/mulher. Ele quer ser apenas uma boa comédia, aspiração que ocasionalmente alcança.
O maior acerto do filme é, sem dúvida, direcionar seu foco nos atores. Mesmo relegando a ótima Elisabeth Shue a uma única cena e Mimi Rogers a uma participação que nem chega a ser considerável, Frankel explora sem medo o talento superlativo de Streep e Tommy Lee Jones – que chega até mesmo a sorrir e dançar em uma cena, fato raro em uma carreira repleta de personagens carrancudos e ranzinzas. Sem apelar para o humor que se poderia esperar de Steve Carrell – o que não deixa de ser uma pena, já que o ator é sensacional quando tem um bom material em mãos, que o digam “Pequena Miss Sunshine” e “Amor à toda prova” – o cineasta só erra feio quando prefere manter-se no trivial e perde a oportunidade de discutir com mais afinco as questões levantadas pela trama: desde o princípio dá para imaginar o desfecho da história, e o roteiro nada faz para mudar essa percepção. Essa falta de ousadia é o que, afinal, impede “Um divã para dois” de ser uma comédia memorável, mantendo-a no nível de um entretenimento divertido, mas nunca brilhante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...