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quinta-feira

ENTRE FACAS E SEGREDOS

 


ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives out, 2019, Lionsgate, 130min) Direção e roteiro: Rian Johnson. Fotografia: Steve Yedlin. Montagem: Bob Ducsay. Música: Nathan Johnson. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: David Crank/David Schlesinger. Produção executiva: Tom Karnowski. Produção: Ram Bergman, Rian Johnson. Elenco: Daniel Craig, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Christopher Plummer, Toni Collette, Chris Evans, Don Johnson, LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Riki Lindhome, Jaden Martell, Eddi Patterson, K Callan, Frank Oz, Noah Segan. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

É impossível ser apresentando a Benoit Blanc sem que o personagem mais famoso de Agatha Christie venha à mente. Claramente calcado no belga Hercule Poirot - presença em 33 romances e 54 contos da escritora inglesa -, o detetive criado pelo diretor e roteirista Rian Johnson para seu "Entre facas e segredos" não envergonha sua maior fonte de inspiração: excêntrico, inteligente e sofisticado, Blanc também encontrou em Daniel Craig seu intérprete ideal e teve a suprema sorte de fazer sua primeira aparição nas telas em uma produção que consegue ser uma empolgante história de detetive, uma deliciosa comédia e um belo (ainda que descompromissado) estudo de personagens. Indicado a um merecido Oscar de roteiro original (que perdeu para o impecável "Parasita") e o pontapé inicial do que promete ser uma bem-sucedida série de filmes, "Entre facas e segredos" se beneficia ainda de um elenco impecável, que reúne nomes consagrados (Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis), novatos promissores (Ana de Armas, Katherine Langford) e astros populares (Chris Evans, Toni Collette). Lançado no Festival de Toronto, em setembro de 2019, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria do ano - com mais de 300 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - e confirmou Johnson (de "Star Wars: os últimos Jedi") como um dos novos (e originais) talentos de Hollywood.

A trama criada por Johnson começa quando Harlan Thrombey (Christopher Plummer), famoso escritor de romances policiais, é encontrado morto no dia seguinte à festa em comemoração a seus 85 anos de idade. Apesar de todas as evidências levarem a crer que o escritor cometeu suicídio, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é misteriosamente contratado para fazer uma investigação mais aprofundada, para surpresa da disfuncional família da vítima - todos com sólidos motivos para ficarem satisfeitos com o desaparecimento do patriarca. Richard (Don Johnson), seu genro, acabara de ter um romance extraconjugal descoberto pelo sogro, que o obrigava a contar a verdade à esposa, Linda (Jamie Lee Curtis); Walt (Michael Shannon), seu filho caçula, fora demitido do cargo de responsável pela editora da família, que ocupava mesmo com conflitos de interesse com o pai; sua nora, Joni (Toni Collette), tivera desmascarado seu esquema de embolsar duas vezes o pagamento da universidade da filha adolescente; e seu neto, Ramson (Chris Evans) fora deserdado depois de um sério desentendimento. Enquanto conversa com os suspeitos e se aproxima da família, Blanc conta com a ajuda da amiga e cuidadora de Harlan, a brasileira Marta Cabrera (Ana de Armas) - que parece saber muito mais do que aparenta, mas teme por sua família de imigrantes.

 


Ao utilizar-se de vários elementos que fizeram a glória das histórias policiais clássicas - uma mansão que é parte integrante da narrativa, uma vítima de índole duvidosa, uma série de suspeitos pouco afeitos à verdade, pistas falsas, reviravoltas constantes e um detetive fascinante - "Entre facas e segredos" conquista a plateia sem muito esforço. Basta poucos minutos para que o público já esteja envolvido na trama e com sua própria versão da verdade definida - o que, logicamente, muda conforme a ação vai se desenvolvendo. A edição inteligente, que usa e abusa de flashbacks intrigantes e reveladores, é um destaque extra, ao enfatizar as várias camadas do belo roteiro. E se Daniel Craig tem a chance de um novo personagem a ser explorado em uma série de filmes - "Glass Onion" estreou em 2022 e outros capítulos devem vir com o tempo -, o elenco de coadjuvantes de peso não fica atrás. Antes de sua indicação ao Oscar pelo polêmico "Blonde" (2022), a cubana Ana de Armas apresenta um misto de carisma e inocência que justifica a atenção de Hollywood a seu nome; Jamie Lee Curtis mostra que a maturidade lhe fez muito bem; Toni Collette mais uma vez rouba a cena sempre que aparece; e Chris Evans surpreende ao explorar com sagacidade sua imagem de galã irônico e mordaz. Mérito da direção firme de Rian Johnson - com um belo timing cômico a serviço de uma boa história -, a química impecável do elenco mostra-se providencial para prender a atenção do espectador, e a direção de arte reflete visualmente as características exuberantes da trama e dos personagens, repletos de idiossincrasias e segredos.

Divertido e sagaz como os melhores livros de Agatha Christie, "Entre facas e segredos" é um presente aos fãs do gênero. Anos-luz à frente das modernas adaptações da obra da escritora dirigidos por Kenneth Branagh - que matam suas maiores qualidades em busca de um público mais afeito a redes sociais do que a telas de cinema -, o filme de Rian Johnson é a prova de que enredos espertos, diretores competentes e atores talentosos são muito mais importantes do que pretensas rupturas narrativas e visuais. Tradicional e clássico na estrutura e no desenvolvimento - mas com a agilidade do bom cinema  norte-americano comercial -, é capaz de conquistar, sem contraindicações, qualquer tipo de público que goste de ser seduzido por uma boa trama de mistério e bom-humor.

segunda-feira

007 - OPERAÇÃO SKYFALL

007 - OPERAÇÃO SKYFALL (Skyfall, 2012, 143min ) Direção: Sam Mendes. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan, personagens criados por Ian Fleming. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Stuart Baird, Kate Baird. Música: Thomas Newman. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Anna Pinnock. Produção executiva: Callum McDougall. Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson. Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Albert Finney, Ben Wishaw, Rory Kinnear. Estreia: 23/10/12 (Londres)

5 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Skyfall"), Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Canção ("Skyfall"), Edição de Som (empatado com "A hora mais escura")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Skyfall")

 Quando a sessão acaba uma certeza fica na mente do espectador: para se assistir ao festival de adrenalina que é "007 - Operação Skyfall" não é preciso ser fã de James Bond nem ao menos ter conhecimento além do estritamente básico sobre a saga do agente secreto mais famoso do cinema e da literatura - sim, afinal de contas ele nasceu da imaginação de Ian Fleming muito antes de assumir as feições de Sean Connery. O filme de Sam Mendes - surpreendentemente o mesmo homem que assinou "Beleza americana", "Estrada para Perdição" e "Foi apenas um sonho", obras extraordinárias mas bastante diferentes do que ele mostra aqui - é uma aventura que equilibra com precisão cenas extremamente bem dirigidas de ação, uma história interessante e algumas cenas que traem seu talento em buscar a emoção de suas personagens. Em suma, é um programa imperdível para os fãs de 007 e para quem gosta de um bom entretenimento.

Independente das outras aventuras do espião, "Skyfall" tem uma história empolgante e repleta de momentos inspiradores, que comprovam o acerto dos produtores em escalar Mendes para a direção. Oriundo do meio teatral inglês, o cineasta tem uma visão elegante e esteticamente apurada, o que dá à nova aventura de 007 um visual arrebatador, desde a fotografia espetacular do veterano Roger Deakins até à edição ágil mas nunca cansativa de Stuart Baird. O roteiro mescla com segurança tanto sequências de tirar o fôlego com uma trama inteligente e que dá espaço suficiente para o desenvolvimento de suas personagens - em especial a chefe de Bond, M, vivida pela sempre ótima Judi Dench e que aqui tem a chance de mostrar porque é uma das maiores atrizes britânicas de sua geração, acompanhada por um Ralph Fiennes em vias de tornar-se ator fixo da série e por um Daniel Craig cada vez mais à vontade no papel central.


Mesmo que a premissa do roteiro não seja exatamente um primor de originalidade - em tempos de "Missão impossível" e os filmes da série Bourne inventar entrechos geniais é um exercício inglório para qualquer escriba - a forma como a trama é desenvolvida jamais deixa a peteca cair. O que começa como uma busca desesperada por um arquivo que promete desmascarar todos os agentes secretos do MI6 (e consequentemente causar suas mortes) chega a um final apoteótico que remete às origens de James Bond - não sem antes passar pelos planos megalomaníacos de sempre do vilão da vez, aqui representado - e muito bem, diga-se de passagem - pelo assustador Javier Bardem, deitando e rolando com uma personagem das mais interessantes dos últimos anos - e que quase foi parar nas mãos de Kevin Spacey. Os duelos entre Bond e Silva (o vilão) são de prender a respiração, tanto nas disputas físicas quanto nos diálogos, bem escritos na medida certa para um filme-evento.

É difícil não sair satisfeito de uma sessão de "007 - Operação Skyfall". Tudo funciona à perfeição, desde o elenco e a direção até à trilha sonora - com destaque para o oscarizada canção-tema de Adele que abre o filme depois de uma sequência de tirar o fôlego - o ritmo e a parte técnica. É uma diversão de primeira linha, que mostra ao espectador em cada cena onde foi parar seu gigantesco orçamento. Agrada aos fãs e conquista aos neófitos sem maiores dificuldades. Ah, se todos os blockbusters fossem assim....

sexta-feira

UM ATO DE LIBERDADE

UM ATO DE LIBERDADE (Defiance, 2008, Paramount Vantage, 137min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Clayton Frohman, Edward Zwick, livro "Defiance: the Bielski Partisans", de Nechama Tec. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Veronique Melery. Produção executiva: Marshall Herskovitz. Produção: Pieter Jan Brugge, Edward Zwick. Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Mark Feuerstein, Mia Wasikowska, Alexa Davalos, Allan Corduner. Estreia: 31/12/08

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Levando-se em conta de que trata-se de uma história real que retrata um período muitas vezes destacado pela Academia de Hollywood com um punhado de estatuetas - a saber, a luta dos judeus pela sobrevivência durante os trágicos anos da dominação nazista na II Guerra Mundial - foi uma surpresa que "Um ato de liberdade", dirigido pelo experiente Edward Zwick, tenha passado quase em branco no Oscar 2009, tendo sido lembrado apenas pela trilha sonora de James Newton Howard. Realizado com a competência habitual do cineasta e estrelado por um Daniel Craig no auge da popularidade graças a seu trabalho como James Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", o filme também não agradou nas bilheterias, tornando-se mais uma obra a amargar o injusto título de fracasso apesar de suas inúmeras qualidades. Porém, quem passar por cima desses dois pontos negativos em seu currículo, encontrará todos os elementos que constroem um belo filme: sensibilidade, ritmo, ótimos atores e uma história das mais poderosas.

Inspirado em fatos reais, "Um ato de liberdade" começa em 1941, quando os alemães invadem um vilarejo da Bielorússia e dizimam parte da população, como parte da ocupação nazista. Sobreviventes do ataque, quatro irmãos resolvem manter-se escondidos na floresta, mesmo sabendo que comida e armas são artigos de luxo. Aos poucos, o irmão mais velho, Tulvia (Daniel Craig) passa a liderar um grupo cada vez maior de foragidos que, como eles, também procuram proteção na densidade da mata. Ponderado e cerebral, ele bate de frente com seu irmão Zus (Liev Schrieber), passional e de sangue quente, que propõe que eles se unam em armas contra o exército germânico. Nesse meio tempo, a comunidade de refugiados começa a formar suas próprias regras, inclusive com casamentos e novas lideranças - o que aproxima outro dos irmãos, Asael (Jamie Bell), da tímida Chaya (Mia Wasikowska).

Dotado de um ritmo que equilibra com talento cenas de grande suspense e violência com outras de registro mais sutil e delicado, "Um ato de liberdade" pode causar estranheza ao grande público justamente por essa aparente indecisão de enfoque. No entanto, o roteiro co-escrito pelo diretor tenta aprofundar com o máximo de clareza possível as personalidades dissonantes dos irmãos protagonistas, cujas diferenças acabam se tornando o maior dos conflitos da trama: é essa disputa nem sempre sutil pela liderança do grupo cada vez maior de sobreviventes do holocausto que empurra a narrativa e mantém o suspense, além de gerar a grande questão do filme: até que ponto o ser humano pode tolerar a violência sem que também apele para o sangue? Essa dúvida, lançada já no primeiro encontro entre Tulvia e Zus, é o cerne do filme de Zwick e, apesar de não ser respondida satisfatoriamente - afinal, não há uma resposta definitiva para isso - dá margem a interpretações acima da média de seu excelente elenco.

Longe da pressão de segurar uma superprodução de Hollywood, Daniel Craig está sensacional como Tulvia Bielski, um homem dividido entre o desejo de vingança e a responsabilidade de liderar um grupo cada vez maior de pessoas - de todos os sexos, idades e classes sociais. Zwick foi inteligente em entregar a ele - ligado a filmes de ação - o personagem mais reflexivo da trama, e deixar que Liev Schrieber, um ator de amplos recursos mas ainda não devidamente louvado por isso, ficasse com o impulsivo e vingativo Zus dono de algumas das cenas mais empolgantes do filme. No meio deles, o ótimo Jamie Bell - que estreou com o pé direito no papel título de "Billy Elliot", de Stephen Daldry - e a ainda iniciante Mia Wasikowska se destacam como par romântico e alívio à tanto sofrimento e dor fotografados com extrema competência por Eduardo Serra, que mantém do início ao fim o tom escuro, úmido e quase sem esperanças dos personagens no visual realista e cru, valorizado também pelo figurino e pela direção de arte discreta e eficiente, que desaparece diante da força da história.

"Um ato de liberdade" é, no fim das contas, um belo filme que equilibra com maestria ação, drama e história, oferecendo ao público duas horas de uma narrativa séria e clássica. Pode não marcar ou surpreender, mas é, acima de tudo, uma produção caprichada e com algo a dizer.

SYLVIA - PAIXÃO ALÉM DAS PALAVRAS

SYLVIA - PAIXÃO ALÉM DAS PALAVRAS (Sylvia, 2003, BBC Films/British Film Council, 110min) Direção: Christine Jeffs. Roteiro: John Brownlow. Fotografia: John Toon. Montagem: Tariq Anwar. Música: Gabriel Yared. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel, Robert Jones, Tracey Scoffield. Produção: Alison Owen. Elenco: Gwyneth Paltrow, Daniel Craig, Blythe Danner, Michael Gambon, Jared Harris. Estreia: 17/10/03

Uma dos maiores ícones da poesia americana de todos os tempos, Sylvia Plath passou a maior parte de sua vida intelectual à sombra do marido, o também poeta Ted Hughes, com quem se casou e teve dois filhos antes de cometer suicídio inalando gás de cozinha - um final previsível para uma história de amor, ciúmes, adultério e frequentes crises de depressão. Dirigido pela neozelandesa Christine Jeffs, o filme "Sylvia, paixão além das palavras" tenta dar um pouco de luz à trajetória de Plath, retratando seu relacionamento com Hughes desde seu primeiro encontro, em 1956, na Inglaterra, até sua trágica morte, em 1963, aos 30 anos de idade. Mesmo sem a densidade psicológica e sensível que Stephen Daldry imprimiu ao seu "As horas" - em que uma das protagonistas era a escritora Virginia Woolf, também suicida - o filme de Jeffs consegue ser satisfatoriamente sóbrio e respeitoso ao rejeitar o enfoque sensacionalista da história e dedicar-se à compreensão do drama de sua protagonista, interpretada por uma Gwyneth Paltrow discreta e paradoxalmente visceral.

Mostrando que o Oscar por "Shakespeare apaixonado" não foi apenas uma questão mercadológica como muitos afirmaram, Paltrow entrega, como a torturada Sylvia Plath, um trabalho de carga dramática intensa e febril inédito em sua carreira. Mesmo quando em seus momentos mais iluminados, a Sylvia criada por Paltrow não consegue esconder, em seu belo e plácido semblante, os demônios que a martirizam e que a fizeram conviver desde cedo com severas crises de depressão suicida. Dona de uma beleza clássica, Gwyneth empresta à poeta a delicadeza que torna ainda mais incompreensível o mundo de pesadelos em que ela vivia presa. A opção acertada do roteiro em situar a ação em um recorte de tempo onde tais pesadelos encontraram um ninho mais do que confortável para se multiplicarem - o casamento com Hughes - joga o espectador em meio a um turbilhão passional sublinhado pela bela trilha sonora de Gabriel Yared e pelo desempenho exemplar de Daniel Craig - antes de tornar-se James Bond e já demonstrando uma presença cênica de impacto e inteligência.


De posse de um papel ingrato - o roteiro não faz questão de demonizar Ted Hughes, mostrando-o como um adúltero quase compulsivo que não se importa em arriscar seu casamento e sua família para dormir com uma das alunas e depois com uma amiga do casal - Daniel Craig faz o possível e o impossível para dar-lhe um mínimo de simpatia, e por incrível que pareça, atinge seus objetivos. Mesmo diante de um poeta mulherengo e (de acordo com o filme) auto-centrado, o público não consegue deixar de ver nele um ser humano normal, repleto de incoerências e cercado por uma atmosfera de tristeza e opressão emocional que ao mesmo tempo lhe serve de inspiração para suas louvadas obras e o impele a buscar desesperadamente por uma forma de respirar. Sua química com Gwyneth Paltrow é essencial para que a atmosfera claustrofóbica que cerca o casal funcione à perfeição, em cenas que tanto exploram a sexualidade dos dois (em cenas belamente fotografadas) quanto as dificuldades que os levam ao inferno compartilhado. Mesmo prejudicados por um ritmo um tanto lento - e por cenas que tentam poetizar o dia-a-dia dos protagonistas - os dois atores estão em um momento inspirado de suas carreiras.

Sem o glamour de uma produção hollywoodiana - o filme é co-produzido pela inglesa BBC - "Sylvia, além das palavras" se concentra mais no conteúdo do que na forma, ainda que nem de longe seja desleixado ou visualmente pobre. Ilustrando sua narrativa com poesias da própria biografada, a cineasta Christine Jeffs busca no vazio dos olhos de Gwyneth Paltrow a maior explicação para seus desvarios melancólicos - e eles transmitem, silenciosamente, tudo que é preciso saber sobre sua atormentada alma. Mesmo que não seja tão repleto de matizes quanto o de Nicole Kidman como Virginia Woolf, o trabalho de Paltrow é um dos mais consistentes de sua trajetória artística, infelizmente ignorado por todas as cerimônias de premiação da temporada.

terça-feira

MILLENNIUM, OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The girl with the dragon tattoo, 2011, Columbia Pictures/MGM Pictures, 158min) Direção: David Fincher. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Stieg Larsson. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Atticus Ross, Trent Reznor. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/K.C. Fox, Erik Videgard. Produção executiva: Anni Faurbye Fernandez, Ryan Kavanaugh, Mikael Wallen, Steven Zaillian. Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Soren Staermose, Ole Sondberg. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson, Goran Visjnic. Estreia: 12/12/11

5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem

“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?

Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.

Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.


Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.


A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.

Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...