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terça-feira

REENCARNAÇÃO

 


REENCARNAÇÃO (Birth, 2004, New Line Cinema/Fine Line Features, 100min) Direção: Jonathan Glazer. Roteiro: Jonathan Glazer, Jean-Claude Carrière, Milo Addica. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Sam Sneade, Claus Wehlisch. Música: Alexandre Desplat. Figurino: John Dunn. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Ford Wheeler. Produção executiva: Xavier Marchand, Mark Ordesky, Kerry Ordent. Produção: Lizie Gower, Nick Morris, Jean-Louis Piel. Elenco: Nicole Kidman, Cameron Bright, Danny Huston, Lauren Bacall, Anne Heche, Arliss Howard, Peter Stormare, Cara Seymour, Ted Levine. Estreia: 08/9/2004 (Festival de Veneza)

Um dos filmes mais polêmicos da temporada 2004 de cinema começou sua trajetória de controvérsias já em sua estreia, no Festival de Veneza, quando foi recebido com vaias e críticas contundentes por parte da imprensa. Em pouco tempo, uma cena em que sua estrela, Nicole Kidman, dividia (nua) uma banheira com uma criança (igualmente sem roupa) tornou-se motivo de gritaria entre os mais conservadores, e acabou por eclipsar o que a própria atriz chamou de uma história sobre luto e vulnerabilidade. Dirigido por Jonathan Glazer - que vários anos depois seria indicado ao Oscar por "Zona de interesse" (2023) - e tendo entre seus corroteiristas o experiente Jean-Claude Carrière, "Reencarnação" demorou a ser visto sem a capa de imoral, imposta por uma parcela conservadora da plateia, e ter suas qualidades reconhecidas pelo público. É um filme que se equilibra com razoável destreza entre o drama psicológico e o suspense, amparado por um visual sóbrio e uma trilha sonora que reflete o tom inquietante de sua premissa - além de contar com uma das mais profundas e subestimadas atuações de Kidman, então recém premiada com o Oscar por "As horas" (2002).

De cabelos curtíssimos e uma elegância à toda prova, Kidman interpreta a delicada Anna, uma mulher arrasada pela morte repentina e precoce do marido, vítima de um ataque cardíaco. Depois de um ano de sofrimento e luto, ela finalmente parece estar disposta a prosseguir sua vida ao casar-se com um antigo apaixonado, Joseph (Danny Huston). Seus planos, porém, são interrompidos quando entra em cena o pequeno Sean (Cameron Bright), um menino de dez anos de idade que alega ser a reencarnação de seu falecido marido. Munido de informações a respeito de seu relacionamento com Anna que são apenas do conhecimento do casal, o garoto insiste em manter contato com a jovem viúva, que, para angústia de sua família - atônita com a situação -, passa a levar a sério a possibilidade de ter reencontrado o amor de sua vida. Se aproximando cada vez de Sean, Anna passa a questionar seu novo relacionamento e as escolhas de sua vida, enquanto Joseph tenta provar a ela que tudo não passa de um absurdo sem tamanho.

 

Se existe um adjetivo que acompanha "Reencarnação" em cada minuto, esse adjetivo é "elegante". Não apenas devido aos ambientes chiques de Nova York onde circulam seus personagens ou à sofisticação inerente à Nicole Kidman, no auge de sua fase mais etérea. Tampouco é responsabilidade apenas da fotografia de enquadramentos discretos de Harris Savides ou da trilha sonora marcante de Alexandre Desplat. A elegância do filme de Glazer advém principalmente de seu ritmo plácido, quase contemplativo, que reflete em imagens a alma melancólica de sua protagonista. Dotado de expressões minimalistas que transmitem de forma sutil o turbilhão de sua Anna, o rosto de Nicole Kidman é o instrumento perfeito do diretor para contar sua história, repleta de silêncios e mistérios que vão se revelando sem pressa diante dos olhos do público e de seus familiares - entre as quais uma subaproveitada Lauren Bacall. O único (e grande) senão é a mudança radical de rumo no terço final, quando a trama toma rumos que mudam tudo que se poderia imaginar até então. Para alguns uma reviravolta muito bem-vinda; para outros o enfraquecimento de um interessante estudo sobre a quebra de paradigmas e certezas absolutas.

Fascinante em seu modo de desenrolar a narrativa, provocando o espectador até o limite de seu conservadorismo - segundo a atriz Christina Applegate o roteiro final amenizou consideravelmente o teor sexual da trama, com a chegada de Nicole Kidman ao projeto -, "Reencarnação" já demonstrava em Jonathan Glazer um diretor sensível e atento aos detalhes visuais e dramáticos de seus trabalhos. Ao fugir do óbvio - como o fez em "Zona de interesse" quase duas décadas mais tarde -, ele imprime uma personalidade própria a seu filme, mesmo correndo o risco de ser incompreendido ou simplesmente taxado de chato. "Reencarnação" é lento. É sutil. E é ousado. Pode não ser um grande filme (talvez lhe falte coragem de encerrar dignamente), mas é um filme ainda subestimado por boa parte do público acostumado a mais do mesmo.

segunda-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

sábado

DOGVILLE

DOGVILLE (Dogville, 2003, Zentropa Entertainment, 178min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Peter Grant/Simone Grau. Produção: Vibeke Windelov. Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Chloe Sevigny, Lauren Bacall, Patricia Clarkson, James Caan, Hariett Andersson, Jean-Marc Barr, Jeremy Davies, Ben Gazzarra, Philip Baker Hall, Zeljko Ivanek, John Hurt, Stellan Skarsgaard, Udo Kier. Estreia: 19/5/03 (Festival de Cannes)

Um diretor que assina filmes como “Ondas do Destino”, “Os Idiotas” e “Dançando no Escuro” não pode ser considerado alguém com muita fé na bondade inerente ao ser humano. Dito isto, é possível entender ainda mais as implicações sociais, psicológicas e religiosas de outra de suas obras consideradas de difícil digestão.“Dogville”, de Lars Von Trier, é possivelmente a mais radical e desconcertante experiência cinematográfica de 2003. E por mais de uma razão.

Pode-se começar pela total e absoluta ruptura de linguagem cinematográfica, que se afasta abruptamente do normal, do mainstream, do comercial... O termo “suspensão da realidade” talvez seja a palavra de ordem aqui. Não há cenários elaborados, não há truques corriqueiros de cinema hollywoodiano, não há deuses ex-machina salvadores. Há Atores (assim mesmo, com A maiúsculo), há a total crença no texto e nas ideias revolucionárias (na falta de palavra melhor), há a história forte e de importante ressonância política, ainda que mal disfarçada por uma metáfora facilmente decodificável. Quem é Grace (Nicole Kidman, ainda em sua fase de boa atriz) senão a representação de povos menos favorecidos que são escravizados pelos colonizadores donos da bola? Quem são os moradores do lugarejo chamado Dogville senão os próprios donos da bola, os colonizadores que exploram aqueles que precisam incondicionalmente de sua ajuda? Nem Michael Moore faria melhor e seria mais incisivo.



A história é simples como convém: uma pequena cidade do Colorado, chamada Dogville, recebe, com suspeitas, a jovem Grace (Nicole Kidman), que se esconde de um grupo de gângsters por motivos que não quer revelar. Influenciados por Tom (Paul Bettany), o intelectual do lugar, os habitantes da cidade aceitam a presença da bela jovem, que, agradecida, passa a ajudar a todos os moradores com suas rotinas diárias. Apaixonado por Grace, Tom não percebe, porém, que a moça começa a ser cada vez mais explorada por todos conforme mais dúvidas vão surgindo a respeito de seu passado. Abusada fisicamente, sexualmente e psicologicamente, Grace se submete a tudo em um resignado silêncio, até que a verdade a seu respeito finalmente aparece e ameaça destruir toda a cidade.

“Dogville” pode ser considerado a colação de grau do Dogma 95, criado por Trier e seus contemporâneos para manter a pureza do cinema enquanto sétima arte. Ao reunir teatro e cinema em um mesmo pacote, o diretor incorreu na ira dos puristas, que não conseguem render-se ao novo, ao experimental. Não é um filme fácil, em nenhuma hipótese.  O ritmo é lento, a ação é psicológica e não física (o que a falta de cenários só corrobora) e pode aborrecer os mais ansiosos por barulhos e correrias. Se o objetivo é diversão, é mais garantido recorrer aos blockbusters que abarrotam as videolocadoras. Ao menos, eles têm finais felizes e produções mais caras e elaboradas. E as imagens finais do grande filme de Lars Von Trier, ao som de “Young Americans”, uma das mais críticas canções de David Bowie são a prova inconteste de que finais felizes não podem ser mais anacrônicos do que em um mundo à mercê de grandes e auto-centradas potências.

terça-feira

O ESPELHO TEM DUAS FACES

O ESPELHO TEM DUAS FACES (The mirror has two faces, 1996, TriStar Pictures, 126min) Direção: Barbra Streisand. Roteiro: Richard LaGravenese, roteiro original de "Le miroir a deux faces", de André Cayatte, Gérard Oury. Fotografia: Andrzej Bartkowiak, Dante Spinotti. Montagem: Jeff Werner. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Tom John/John Alan Hicks. Produção executiva: Cis Corman. Produção: Arnon Milchan, Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Jeff Bridges, Lauren Bacall, Pierce Brosnan, Mimi Rogers, George Segal, Brenda Vaccaro, Elle Macpherson. Estreia: 16/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall), Canção Original ("I finally found someone")
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)

Todo mundo em Hollywood - e até mesmo muita gente fora de lá - sabe que Barbra Streisand não é uma pessoa exatamente fácil de lidar. Histórias a respeito de seu egocentrismo e de seu perfeccionismo não faltam a quem teve a oportunidade de trabalhar com ela (e até mesmo seu ex-marido e pai de seu filho, o ator Elliot Gould, quando indagado a respeito do pior emprego que tivera respondeu prontamente: "fui casado com Barbra Streisand!"). Em 1996, o diretor de fotografia Dante Spinotti foi mais uma vítima da atriz/cantora/diretora/produtora: em meio às filmagens de "O espelho tem duas faces", foi demitido (devido às famosas divergências artísticas) e substituído por Andrzej Bartkowiak, assim como já havia acontecido com o ator Dudley Moore, que perdeu seu lugar no elenco para George Segal.

Levando em consideração toda essa dança das cadeiras, é de admirar que "O espelho tem duas faces" funcione tão bem. Apesar de não ser nem de longe o melhor momento das carreiras de Streisand e seu galã Jeff Bridges, é uma comédia romântica que tem na inteligência seu maior trunfo e que, nadando contra a corrente da eterna obsessão de Hollywood pela juventude eterna, aposta em um casal de protagonistas maduros, interpretados por atores de verdade e não por símbolos sexuais inexpressivos. Bridges - que ficou com o papel para o qual Harrison Ford foi pensado - e Barbra Streisand, segundo reza a lenda desmentida por eles mesmos, tiveram rusgas nos bastidores, mas isso não transparece no resultado final. O filme seguinte de Streisand após sua tentativa frustrada de ganhar um Oscar como diretora - o drama "O príncipe das marés" - é engraçado, romântico e dono de brilhantes diálogos. E isso é mais do que é oferecido normalmente aos fiéis fãs do gênero.

Gregory Larkin (Jeff Bridges exercitando seu timing cômico com razoável sucesso) é um professor de Matemática que, a despeito de seu charme junto às mulheres, passou por repetidas frustrações amorosas. Buscando uma companhia feminina que não atrapalhe o funcionamento de sua rígida rotina (ou seja, uma mulher sem atrativos sexuais que o desviem de seus objetivos profissionais), ele publica um anúncio em uma revista. Quem responde o anúncio é Claire Morgan (Mimi Rogers), que acredita que Larkin é o par perfeito para sua irmã mais velha, Rose (Barbra Streisand exagerando um tantinho em sua performance). Dona de uma baixíssima auto-estima - principalmente devido às críticas de sua mãe Hannah (Lauren Bacall), uma ex-beldade - Rose dá aulas de Literatura na Universidade de Columbia e seu discurso sobre as falsas esperanças criadas em relação ao amor romântico convence Larkin de que é ela quem ele procura. Depois de um tempo como amigos, eles se casam, mas tem expectativas diferentes em relação ao casamento: enquanto Gregory realmente deseja apenas uma companhia, Rose anseia por amor e paixão, justamente o que ele repudia. Quandoa situação torna-se insustentável, o improvável casal precisa saber o que fazer com seu relacionamento.



Streisand não é uma diretora genial ou mesmo inventiva. A forma como conduz a narrativa de seu filme é clássica, privilegiando enquadramentos que lhe favoreçam esteticamente ou até mesmo apelando para alguns exageros dramáticos (a cena em que cobre um espelho depois da rejeição de Larkin é um exemplo dessa afirmação, com a música de Marvin Hamlisch soando fora de propósito). Mas não há como elogiar sua segurança em comandar seu elenco, dos protagonistas aos coadjuvantes: Lauren Bacall dá um show como Hannah, a mãe que vê sua beleza esvair-se com o tempo e se vinga destruindo o amor-próprio da filha (suas falas são as melhores e a viúva de Humphrey Bogart conquistou sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho) e Mimi Rogers nunca esteve tão radiante e engraçada. Dando apoio a um Jeff Bridges leve como poucas vezes se viu nas telas e uma Streisand menos eficiente do que em "O príncipe das marés" mas ainda assim uma atriz competente e sensível, os atores secundários do filme pontuam com correção um roteiro que diverte e emociona na medida certa. É um filme romântico para adultos que preferem finais felizes.

Inspirado em um pouco conhecido filme francês, o roteiro de Richard LaGravenese (que também adaptou "As pontes de Madison" para as telas) conquista pelos diálogos espertos e pelo romantismo assumido. Mesmo que sua cena final de certa forma desminta propositalmente o discurso de Rose em uma de suas aulas (com Puccini tocando em alto e bom som na noite nova-iorquina) é impossível ficar imune ao charme da história contada por Barbra Streisand, que, pelo jeito, sabe exatamente o que quer de seus colaboradores. Se todos os que agem com essa certeza quase ditatorial assinassem filmes com a qualidade de "O espelho tem duas faces", seria bem mais fácil perdoá-los.

domingo

LOUCA OBSESSÃO

LOUCA OBSESSÃO (Misery, 1990, Castle Rock Entertainment, 107min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: William Goldman, novella de Stephen King. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Rob Reiner, Andrew Scheinman. Elenco: James Caan, Kathy Bates, Lauren Bacall, Richard Farsnworth, Frances Sterngahen. Estreia: 30/11/90

Oscar de Melhor Atriz (Kathy Bates)
Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Kathy Bates) 

Em 1986 o cineasta Rob Reiner provou, no singelo "Conta comigo", que Stephen King não é apenas um escritor de histórias de terror. Quatro anos depois, no entanto, ele voltou a adaptar o mais famoso autor do gênero, dessa vez aproveitando seu talento em provocar medo e aflição no excepcional "Louca obsessão". Baseado em uma novela de King, o filme de Reiner não é apenas um exercício de angústia e medo: é antes de tudo um show de Kathy Bates, entregando a interpretação de sua vida em um trabalho que lhe rendeu um merecidíssimo Oscar de Melhor Atriz.

Primeira atriz a levar uma estatueta por um filme de terror/suspense, Bates é a principal razão para se assistir a "Louca obsessão", ainda que o filme seja um ótimo trabalho de direção e adaptação. Na época uma atriz desconhecida, ela despontou para a fama graças à sua meticulosa atuação como Annie Wilkes, uma enfermeira aposentada - por motivos que o filme revela em seu terço final - que, apaixonada pela obra do famoso escritor Paul Sheldon (James Caan), vê a chance de sua vida quando presencia um acidente de carro sofrido por ele durante uma nevascaLevando-o para sua fazenda isolada e cuidando dele com toda a dedicação, ela sofre um grande golpe quando descobre que Misery Chastain, a personagem criada pelo autor - e venerada por ela - morre no capítulo final de seu último livro. Possessa, ela tranca o escritor em seu quarto e o obriga a escrever um novo romance, ressuscitando sua heroína. A princípio recusando-se a ceder à chantagem, Sheldon logo percebe que sua vida corre grande perigo e resolve acatar as ordens de sua "fã número 1" enquanto pensa em uma maneira de salvar a própria pele.

"Louca obsessão" é uma pequena obra-prima do gênero. O roteiro enxuto de William Goldman segue ao máximo a trama de Stephen King - apenas atenuando um pouco a violência original em uma cena - sem buscar inovações desnecessárias. Concentrando-se basicamente na relação entre Wilkes e Sheldon - com poucas e interessantes cenas à disposição dos ótimos coadjuvantes Richard Fansworth e Frances Sternhagen - Goldman estabelece o conflito entre eles de maneira extremamente satisfatória, dando aos dois atores a chance de trabalhos fascinantes. Mas ainda que James Caan esteja corretíssimo como Paul Sheldon, é Kathy Bates quem comanda o espetáculo, em uma atuação consagradora. Não foi à toa que vários atores recusaram o papel de Sheldon (entre eles Warren Beatty) por perceberem claramente que o papel de Annie Wilkes era extremamente mais passível de uma grande interpretação. Ficando com um papel que interessava a Anjelica Huston e foi oferecido a Bette Midler, Bates tornou-se uma das atrizes mais requisitadas e respeitadas do cinema hollywoodiano. Não era para menos.


Bates dá a Annie Wilkes uma vida e uma alma que poucas intérpretes conseguiriam dar. Em algumas cenas, ela consegue até mesmo ficar bonita, delicada e meiga, enquanto em outras torna-se o mal encarnado. As oscilações de humor de Wilkes são, aliás, o grande trunfo de Rob Reiner, que conduz o espectador a uma viagem assustadora e imprevisível como a própria personalidade de sua protagonista. Sua dualidade anjo/demônio é que seduz o espectador, que dificilmente acaba o filme sem admirar incondicionalmente o talento imenso de Bates.


"Louca obsessão" não é um filme de terror comum. É um trabalho exemplar de direção e interpretação, capaz de manter-se na memória do espectador por um bom tempo. E só por ter revelado Kathy Bates ao mundo já merece todos os aplausos que obteve.

quarta-feira

PALAVRAS AO VENTO


PALAVRAS AO VENTO (Written on the wind, 1956, Universal Pictures, 99min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: George Zuckerman, baseado em romance de Robert Wilder. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Russell F. Schoengarth. Música: Frank Skinner. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack, Dorothy Malone. Estreia: Dezembro/56

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Stack), Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone), Canção Original ("Written on the wind")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone)


Em 2002, o cineasta Todd Haynes dirigiu "Longe do paraíso", um dramalhão à moda antiga que deu à Julianne Moore uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Elogiadíssimo pela crítica, o filme foi esnobado pelo público, provavelmente porque - assim como a comédia romântica "Abaixo o amor", estrelado por Renée Zellweger e Ewan McGregor - exigia da plateia um entendimento de sua proposta mais do que seu resultado final. Enquanto "Abaixo" homenageava os romances bobinhos de Rock Hudson e Doris Day, a obra de Haynes emulava os melodramas de Douglas Sirk, que, nos anos 50, serviu ao público americano uma série de filmes com histórias que, sob uma aparência de folhetins telenovelescos, escondia uma contundente crítica à sociedade hipócrita e preconceituosa da época.

Dentre seus filmes, um dos mais significativos - e dos mais bem-sucedidos em suas intenções estéticas e ideológicas - é justamente "Palavras ao vento", baseado em um romance de Robert Wilder. Em um tom absolutamente melodramático, Sirk conta a trágica história de uma família incapaz de lidar com seus problemas de ordem pessoal e sentimental, o que leva todos a uma tragédia que deixaria qualquer grego de orelhas em pé.

O filme centra seus dramas em quatro personagens envolvidos em um quadrilátero amoroso: Kyle Hadley (Robert Stack, que décadas depois faria "Apertem os cintos, o piloto sumiu" e assumiria de vez sua veia de canastrão) é um jovem milionário inseguro que nutre um misto de admiração e inveja por seu melhor amigo, Mitch Wayne (Rock Hudson, no auge da carreira, em talento e beleza). Por julgar-se inferior ao amigo de infância - a quem julga mais merecedor do amor de seu pai, inclusive - ele se entregou à bebida, fazendo da garrafa sua companhia mais constante. Tentando mudar de vida, ele se casa com a bela Lucy Moore (Lauren Bacall), mesmo desconfiando que Mitch é apaixonado por ela. O casamento dos dois é fadado ao fracasso, uma vez que Kyle nem ao menos tenta manter uma relação madura. Mesmo tentando manter-se fiel ao marido, Lucy acaba se aproximando de Mitch, o que desperta o ciúme doentio de Marylee (Dorothy Malone), irmã caçula de Kyle que passa seus dias envolvendo-se sexualmente com desconhecidos mas que nutre uma paixão doentia por Mitch. Quando ela começa a desconfiar que seu amado está envolvido com a cunhada, ela não hesita em criar uma intriga que os leva à violência e à morte.

A impressão que se tem quando se assiste a "Palavras ao vento" é que a trama é apenas um pequeno elemento dentre todo um conjunto de estilo do cineasta. Quase grotescamente fake, os cenários, os figurinos e até mesmo a trilha sonora contribuem para o clima opressivamente pré-fabricado que cerca suas personagens. Nada no filme soa real ou verossímil, estando sempre a um passo do exagero quase caricatural. Não deixa de ser um paradoxo bastante interessante, no entanto, que seu elenco atue assumindo valentemente sua condição de dramalhão, ou seja, as emoções parecem verdadeiras, ainda que vividas em um cenário claramente de mentira. Sirk parece querer dizer que em sua época as pessoas sofrem, sim, mas escondem seu sofrimento em um castelo de plástico lindamente decorado. Não é de se admirar que até mesmo o cineasta tenha deixado de lado o "detalhe" da homossexualidade latente de Kyle, bastante clara no livro e inexistente no filme - ao menos no sentido mais óbvio.

"Palavras ao vento" é mais que um filme, é uma experiência de estilo. Alguns adoram, outros rechaçam violentamente. Mas é inegável que tem importância capital dentro da história do cinema americano, uma vez que pode ser considerado quase um precursor de obras-primas como "Beleza americana", que também desvendava a fragilidade das aparências em relação aos sentimentos. Visto por esse ângulo, é um filme que merece ser conhecido e admirado, além de reconhecido como uma inteligente crítica aos valores morais de sua sociedade.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...