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terça-feira

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

segunda-feira

TERAPIA DE RISCO

TERAPIA DE RISCO (Side effects, 2013, Endgame Entertainment/FilmNation Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 106min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh). Música: Thomas Newman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Rena DeAngelo. Produção executiva: Douglas E. Hansen, Michael Polaire, James D. Stern. Produção: Scott Z. Burns, Lorenzo di Bonaventura, Gregory Jacobs. Elenco: Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Ann Dowd, Mamie Gummer. Estreia: 08/02/13

Em “Contágio” (11), Steven Soderbergh já havia, de leve, provocado uma discussão a respeito da ganância da indústria farmacêutica, mas deu à trama a mesma importância que aos outros focos do filme – irresponsabilidade da mídia, o pânico diante de uma epidemia, o avanço da barbárie diante do imprevisto. Em seu trabalho seguinte, “Terapia de risco”, ele volta a esbarrar no assunto – dessa vez enfatizando os remédios antidepressivos – mas novamente desvia de uma discussão relevante e instigante para abraçar um gênero específico (no caso o suspense) e contar uma história que, a despeito de seu começo promissor, descamba para uma série de reviravoltas forçadas e inverossímeis. Mais uma vez o Soderbergh comercial – que assinou coisas terríveis como “Magic Mike” e alguns bons entretenimentos, como “Onze homens e um segredo” – ganhou do Soderbergh artista criativo e socialmente ativo – que ganhou a Palma de Ouro em Cannes por “sexo, mentiras e videotape” e o Oscar de melhor diretor por “Traffic”. Quem acabou perdendo foi o público.
Não que o grande público se incomode com o fato de o roteiro abandonar a chance de discutir um problema sério como o abuso de remédios controlados e a forma como a indústria que os fabrica conduz sua comercialização. O problema é que os dois primeiros terços do filme conduzem a narrativa por um caminho específico para, de uma hora para outra – com o objetivo de espantar a plateia – distorcer a trama de forma a fazê-la caber em um final-surpresa que enfraquece todo o tom sério e excitante que vinha sendo mostrado até então. Em resumo, “Terapia de risco” tem um começo promissor e um final decepcionante que não faz jus à carreira de seu diretor.
A trama tem início quando o jovem Martin Taylor (Channing Tatum) sai da cadeia, depois de quatro anos preso pelo crime de tráfico de informações financeiras. Quem o espera do lado de fora do presídio é sua esposa, Emily (Rooney Mara, de “Os homens que não amavam as mulheres, irreconhecível e sempre ótima atriz), que teve sua vida completamente desestruturada com a condenação do marido. Depois de perder o bebê que esperava e ter tido seu estilo de vida radicalmente transformado, a jovem acabou por tornar-se dependente de antidepressivos e, mesmo com a volta do marido, parece não dar sinais de melhora. Pelo contrário, duas tentativas de suicídio a levam até o doutor Jonathan Banks (Jude Law), que depois de algumas consultas propõe a ela que tome parte nos experimentos de uma nova droga que está sendo testada em pacientes em avançado estado de depressão. Emily aceita fazer parte do teste, mas um dos efeitos colaterais – sonambulismo – acaba por fazê-la cometer um homicídio. No banco dos réus, ela acaba por tornar-se alvo de uma polêmica: quem é, afinal, o responsável pelo crime? Ela, a indústria farmacêutica ou seu médico?



Esse ponto de partida – que toma boa parte dos dois terços iniciais do filme – é empolgante, inteligente e prende a atenção do público sem fazer esforço, graças em boa parte às interpretações do elenco e da direção segura e sóbria de Soderbergh. As coisas começam a degringolar quando Banks, sentindo-se acuado diante das acusações de irresponsabilidade e negligência médica, passa a investigar o passado de Emily e chega até sua médica anterior, Victoria Seibert (Catherine Zeta-Jones), uma mulher bem-sucedida que parece ter muito mais a esconder do que mostra em um primeiro olhar. A real ligação entre Emily e Victoria – o grande segredo do filme – vem à tona perto do final, e é aí que o roteiro põe tudo a perder. Sem querer estragar a surpresa dos que se arriscarem a uma sessão (e no final das contas até vale uma espiada, em especial pelo elenco), é um desfecho que parece jogado na tela, sem a preocupação básica de parecer realista.
Ok, Steven Soderbergh já fez coisas muito piores – “Magic Mike” à frente – mas é sempre triste ver um cineasta capaz de pequenas obras-primas como “Irresistível paixão” e “Traffic” se deixar cair na vala dos diretores puramente comerciais, optando pela mediocridade em detrimento da criatividade e da ousadia. “Terapia de risco” é um filme de gênero e logicamente deve seguir diretrizes já estabelecidas e consagradas, mas isso não justifica o golpe baixo que é dado nas expectativas do espectador que espera mais do que ser simplesmente pego de surpresa por um roteiro quase preguiçoso. Felizmente o elenco faz o que pode para manter o interesse. E consegue. Porém, Soderbergh poderia voltar a ser o diretor inteligente que um dia se propôs a ser.

quinta-feira

O TERMINAL

O TERMINAL (The terminal, 2004, DreamWorks SKG/Amblin Entertainment, 128min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Sacha Gervasi, Jeff Nathanson, estória de Sacha Gervasi, Andrew Niccol. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Anne Kuljian. Produção executiva: Jason Hoffs, Andrew Niccol, Patricia Witcher. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Chi McBride, Diego Luna, Zoe Saldana. Estreia: 09/6/94

Um dos mais bem sucedidos cineastas da história, Steven Spielberg pode se gabar de ter em seu currículo êxitos impressionantes de bilheteria, como "Tubarão", "Caçadores da Arca Perdida", "ET, o extraterrestre" e "Jurassic Park, parque dos dinossauros" - entre tantos outros - e filmes generosamente premiados e louvados como "A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan", mas nem essa admirável lista de sucessos o impede de, vez ou outra, tropeçar em suas boas intenções e experimentar o amargo sabor da frustração. Foi o que aconteceu com "O terminal", simpática comédia dramática estrelada de 2004 que, apesar de não ter sido um desastre comercial do porte de outros malogros do diretor, como o subestimado "Além da eternidade", ficou muito aquém do que se poderia esperar de um novo encontro entre o cineasta e Tom Hanks, um dos mais populares astros de sua geração - e com quem já havia trabalhado em "Ryan" e "Prenda-me se for capaz". Com uma bilheteria doméstica de menos de 80 milhões de dólares (contra um orçamento de cerca de 60 milhões), o filme também encontrou uma recepção apenas morna da crítica e acabou sendo relegado a segundo plano na carreira do diretor. Uma injustiça, uma vez que é agradável o suficiente para manter a atenção do público do início ao fim e apresenta mais uma inspirada atuação de Hanks, voltando a fazer humor - mas dessa vez de forma bem mais sutil do que no início de sua vitoriosa trajetória.

Ligeiramente inspirado na história real de um iraniano que em 1988 teve seu visto de entrada na Inglaterra negado por ter tido seu passaporte e certificado de refugiado roubados e que acabou por morar no aeroporto Charles De Gaulle - na França - enquanto sua saúde mental se deteriorava, o roteiro de "O terminal" prefere deixar de lado as consequências trágicas da trama para manter sua narrativa no terreno mais leve da comédia de situações. Essa opção, acertada, permite a Spielberg exercitar um lado pouco conhecido de sua filmografia, normalmente marcada por blockbusters milionários ou pesados dramas de guerra. Seguindo o ritmo de "Prenda-me se for capaz", seu filme anterior, o cineasta imprime um registro ameno à história de Viktor Navorski (Hanks), um cidadão de um fictício país do leste europeu chamado Krakozhia que chega aos EUA justamente quando seu país sofre um golpe de estado e fica à mercê das decisões políticas da ONU para poder ou voltar para casa ou entrar como turista em Nova York. Prejudicado pelas ambições do chefe de segurança da alfândega do aeroporto, Frank Dixon (Stanley Tucci), Navorski acaba por se conformar com seu destino e faz de uma ala em reformas do JFK seu novo lar.


Enquanto seu personagem em "Náufrago" era obrigado a conviver com um novo modo de vida desprovido de quaisquer luxos e confortos de uma sociedade civilizada quando se via sozinho em uma ilha deserta, em "O terminal" o Viktor Navorski de Tom Hanks também precisa se acostumar com uma nova situação de vida: empreiteiro em seu país de origem, ele não vê outra alternativa em seu novo cotidiano a não ser buscar comida através de moedas coletadas em máquinas de devolução de carrinhos de carga, dorme em bancos de espera e aprende inglês comparando as traduções dos guias de viagem que carrega em sua bagagem. Tal condição se transforma, porém, quando ele supera a barreira do idioma e inicia uma série de relações interpessoais dentro do aeroporto que transformam seu dia-a-dia: assim, ele ajuda o jovem latino Enrique Cruz (Diego Luna) a conquistar a bela Dolores Torres (Zoe Saldana) - que trabalha no setor de imigração - faz amizade com o paranoico faxineiro Gupta Rajan (Kumar Pallana) e até se apaixona pela bela comissária de bordo Amelia Warren (Catherine Zeta-Jones). Tais encontros acabam por mudar seu destino.

Apesar da química entre Hanks e Zeta-Jones não ser das mais convincentes - um problema que dificilmente pode ser creditado à dupla de atores, sempre eficientes - e parecer um tanto arrastado em seus quinze minutos finais, quando Navorski finalmente parte em busca de cumprir sua missão nos EUA, "O terminal" não deixa de ser um filme extremamente simpático e delicado, capaz de agradar a todos os tipos de público. Não deixa de ser um paradoxo, portanto, que justamente quando tenta cativar todas as camadas da plateia, o cineasta mais popular de sua geração falhe na missão. É inexplicável, no entanto, a quase indiferença com que o filme foi tratado por crítica e público. Talvez por ser uma obra de Spielberg - alguém acostumado a elevar o nível do cinema comercial americano - a plateia esperasse mais uma obra-prima, ou no mínimo, algo que ficasse marcado na memória como a maioria de seus filmes. Não foi a intenção do cineasta, como se percebe pela despretensão - e jamais desleixo - da produção, que, caprichando na direção de arte ao reconstruir o aeroporto JFK, trata tudo com sutileza e um bom-humor muito adequado. É uma sessão da tarde reforçada, com a assinatura de um grande diretor em um momento de pouca ambição. Vale a pena fazer justiça e reconsiderar tanto desinteresse pelo divertido resultado final.

segunda-feira

NOVIDADES NO AMOR





NOVIDADES NO AMOR (The rebound, 2009, The Film Company, 95min) Direção e roteiro: Bart Freundlich. Fotografia: Jonathan Freeman. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Clint Mansell. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Ford Wheller/Carolyn Cartwright. Produção executiva: Michael Goguen, Neil Sacker. Produção: Bart Freundlich, Mark Gill, Robert Katz, Tim Perell, Mario Zvan. Elenco: Catherine Zeta-Jones, Justin Bartha, Art Garfunkel, Joanna Gleeson, Sam Robards. Estreia: 16/9/09 (México)


Tirando o fato de que parte de uma premissa um tanto absurda - Catherine Zeta-Jones como uma mulher traída pelo marido - a comédia romântica "Novidades no amor" não deixa de ser um passatempo competente para quem gosta do gênero. Quem não tem paciência para mais uma história de amor com pitadas de humor, porém, provavelmente irá se aborrecer nos primeiros trinta minutos. Mesmo simpático e conduzido com mão leve pelo diretor e roteirista Bart Freundlich (que por trás das câmeras também atende por Sr. Julianne Moore), o filme não acrescenta nada ao gênero, apresentando sem vergonha todos os clichês possíveis - e muitos deles inclusive utilizados também em "Terapia do amor", com Meryl Streep e Uma Thurman, com quem compartilha a narração de um romance entre uma mulher mais velha com um jovem judeu que não consegue sair da barra da saia da mãe.

"Novidades no amor" já começa com o desmoronamento da vida perfeita de Sandy (Zeta-Jones, bela e luminosa), que descobre a infidelidade do marido com quem mantinha um casamento de comercial de margarina. Decepcionada e extremamente magoada, ela resolve tentar um recomeço em Nova York (onde mais?), levando a tiracolo os dois filhos pequenos. Logo que arruma um emprego (sem maiores dificuldades, o que já compromete um pouco a verossimilhança da trama), ela passa a contar com a ajuda de uma surpreendente babá: o jovem Aram (Justin Bartha, o noivo de "Se beber, não case"), que trabalha no café localizado debaixo do apartamento onde passa a morar. As crianças adoram o rapaz, que sofre com a pressão dos pais (a ótima Joanna Gleason e o músico Art Garfunkel) para encontrar um emprego decente e que lhe deixe com um melhor status. Machucado pelo fim de seu casamento - a noiva queria apenas um green card - Aram dedica quase todo seu tempo livre cuidando dos filhos de Sandy, até que o inevitável (e previsível) acontece: os dois se apaixonam perdidamente.


É difícil não simpatizar com "Novidades no amor". Mesmo que cada cena dê a impressão de já ter sido vista antes - apenas com outros atores - o roteiro leve e bem-humorado de Freundlich consegue anular o fato de que, a bem da verdade, nele não existe nada de novo. Porém, é inegável que a química entre Justin Bartha e os atores mirins é verdadeira e que o romance entre os protagonistas, apesar da previsibilidade, convence, graças ao esforço dos atores. Bartha cria um Aram apaixonante e Zeta-Jones mostra, mais uma vez, que por trás de uma beleza estonteante, existe uma atriz capaz de transitar entre o drama e a comédia com a mesma desenvoltura. Mesmo quando Sandy começa a questionar o futuro de seu novo relacionamento - e o filme ameaça assumir uma seriedade da qual parecia fugir - a ex-mulher de Michael Douglas sai-se muito bem, dando a medida exata de cada sentimento.

Sério candidato a frequentador assíduo de futuras sessões da tarde, "Novidades no amor" é um passatempo agradável, que não ofende a inteligência nem tampouco busca ser reconhecido como um grande filme. É só mais uma história de amor tendo Nova York como cenário. Para muitos espectadores é o que basta.

sexta-feira

O AMOR CUSTA CARO

O AMOR CUSTA CARO (Intolerable cruelty, 2003, Universal Pictures, 100min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Robert Ramsey, Matthew Stone, estória de Robert Ramsey, Matthew Stone, John Romano. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes (Joel e Ethan Coen). Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Nancy Haigh. Produção executiva: Sean Daniel, James Jacks. Produção: Ethan Coen, Brian Grazer. Elenco: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Billy Bob Thornton, Geoffrey Rush, Cedric the Entertainer, Richard Jenkins. Estreia: 30/9/03

O advogado Miles Massey (George Clooney) é famoso por nunca ter perdido um único caso em sua especialidade: divórcios. Criador do mais popular pacto pré-nupcial conhecido, Massey consegue o impossível sem maiores esforços, e contando com sua defesa, os homens podem ficar tranqüilos em relação a seus bens, mesmo em ruidosas separações. A vida boa e pacata de Massey começa a dar pra trás, no entanto, quando ele tem que enfrentar no tribunal a bela Marilyn Rexroth (Catherine Zeta-Jones), que busca uma compensação financeira coerente com a humilhação de ter sido traída por seu marido. Assim que os dois se vêem, saltam fagulhas, mas Massey ainda é um profissional e ganha a causa. Sentindo-se traída, a estonteante e ambiciosa Marilyn promete vingança e usar o fascínio que ela desperta no advogado não parece estar fora de seus planos

É difícil acreditar que este filme, tão linear, simples e sem maiores arroubos de criatividade visual e de edição é um produto dos irmãos Coen. Quase nada do que fez a fama dos diretores de “Fargo” e “Arizona nunca mais” está aqui. Mas veja bem, quase nada. Ainda dá pra entrever seus delírios em detalhes, como a extraordinária seqüência em que o personagem de Clooney (claramente se divertindo em seu papel de arrogante e presunçoso advogado sedutor) impede um assassinato – uma cena, aliás, com um final irônico típico dos seus criadores. Outro detalhe nitidamente do estilo Coen de cinema: o personagem do advogado mentor de Clooney, que vive sem intestino (!!).

         

Mas o fato é que desta vez os diretores, especializados em tipos bizarros e em demolir tradicionais gêneros hollywoodianos, pegaram leve e acertadamente preferiram contar a divertida história de amor e ódio entre Miles e Marilyn sem maiores arroubos de criatividade, que poderiam desviar a atenção da vingança urdida pela vítima (uma vingança de deixar qualquer um com um baita sorriso no rosto). Outro acerto da dupla foi na escolha dos protagonistas: Clooney nunca esteve tão à vontade em cena, brincando com sua própria imagem de galã e Zeta-Jones, recém saída do Oscar de coadjuvante por “Chicago” cala a boca de qualquer detrator com uma atuação cínica, debochada e mais do que tudo, extremamente sensual. A química entre os dois é excepcional, e amparados por um roteiro engraçado e surpreendente, eles fazem de “O amor custa caro” um exemplar muitos níveis acima de seus congêneres. Bravo!

CHICAGO

CHICAGO (Chicago, 2002, Miramax Films, 113min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, peça teatral de Maurine Dallas Watkins, músicas de Bob Fosse, Fred Ebb. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Martin Walsh. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gord Sim. Produção executiva: Jennifer Berman, Sam Crothers, Julia Goldstein, Neil Meron, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Craig Zadan. Produção: Martin Richards. Elenco: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Queen Latifah, Colm Feore, Taye Diggs, Dominic West, Christine Baranski, Lucy Liu. Estreia: 27/12/02

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Rob Marshall), Atriz (Renée Zellweger), Ator Coadjuvante (John C. Reilly), Atriz Coadjuvante (Queen Latifah, Catherine Zeta-Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Canção ("I move on"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Richard Gere), Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Vencedor de 3 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Renée Zellweger), Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Melhor Elenco

O "Chicago" que todo mundo conhece e admira, vencedor de 6 Oscar e o maior sucesso de bilheteria da história da Miramax poderia ter sido bem diferente. Alvo do interesse dos estúdios hollywoodianos desde sua estreia nos palcos da Broadway em 1975, o musical - que chegou aos cinemas dirigido com energia e criatividade por Rob Marshall, cujo currículo tinha de marcante somente uma versão para a TV do chatinho "Annie" - demorou quase três décadas para fazer a transição dos palcos para as telas, e entre as intenções e a realização muita coisa mudou. Entre Bob Fosse (que dirigiu e coreografou a versão teatral da trama em sua estreia) e Marshall (que efetivamente comandou o espetáculo de 2002) até mesmo Nicholas Hytner esteve interessado em dirigir e na lista de atores que estiveram envolvidos com o projeto, em um momento ou outro da produção, estão nomes como Madonna, Goldie Hawn, Kathy Bates, Nicole Kidman, Charlize Theron, Cameron Diaz, Whoopi Goldberg, Hugh Jackman, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Toni Collette, Marisa Tomei, Gwyneth Paltrow, Winona Ryder e até (ufa!) Britney Spears. Como às vezes o tempo é uma bênção, é impossível não se deixar conquistar pelo elenco que finalmente assumiu os papéis criados por Maurine Dallas Watkins e adaptados pelo ótimo Bill Condon.

A trama de "Chicago" se passa nos anos 20, quando o teatro de vaudeville estava em seu auge. Ser uma estrela dos palcos é o sonho maior de Roxie Hart (Renee Zelwegger), que, no entanto, precisa levar uma vida sem sal de dona-de-casa ao lado do marido, o mecânico Amos (John C. Reilly). Quando ela conhece o sedutor Fred Casely (Dominic West) sua sorte parece estar começando a mudar: porém, ao contrário das promessas que o rapaz faz (de que vai apresentá-la às pessoas certas no show business) ele quer apenas levá-la pra cama. Quando ela descobre isso, não vê outra alternativa senão matá-lo. Na cadeia, ela conhece seu maior ídolo, a atriz Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que aguarda julgamento pelo assassinato duplo de sua irmã e seu amante. Para escapar da condenação à forca, Roxie contrata (com o financiamento do pobre marido) o famoso e competente Billy Flynn (Richard Gere), que também defende Velma. As duas passam, então, a disputar a atenção do advogado e as manchetes dos jornais.



Talvez a maior qualidade de "Chicago" seja mesmo seu roteiro: Bill Condon (que dirigiu o sensacional "Deuses e monstros", de 1998) consegue o feito raro de manter o tom irônico de suas primeiras cenas até os créditos de encerramento, sempre entregando à plateia diálogos inteligentes e sarcásticos, seja em falas ou canções, todas elas absolutamente bem encaixadas na história, por si só interessante o bastante. A química entre as duas protagonistas (ambas indicadas ao Oscar, mas apenas Zeta-Jones premiada, de forma um tanto estranha, como coadjuvante) é extraordinária e é perceptível sua entrega ao trabalho. Todos os belos números musicais são dirigidos com extrema competência por Marshall e belissimamente fotografados por Dion Beebe, que dá uma atmosfera de sonho a todos eles. A ideia genial do cineasta - e que deu rumo à adaptação para o cinema - foi fazer com que todos os números sejam originários da imaginação fértil de Roxie, que, assim vê a carcereira Mamma Morton (Queen Latifah, ótima) como uma sofisticada crooner e a execução de uma companheira de prisão como uma apresentação de mágica. É particularmente feliz a ideia de Marshall conduzir a entrevista coletiva de Roxie e Billy como se ela fosse um títere (e a execução da cena é, no mínimo, antológica).

Beneficiando-se do sucesso de "Moulin Rouge" - cujos elogios e popularidade abriu as portas para que novos musicais pudessem ser produzidos pela terra do cinema - "Chicago" conquista principalmente por não ousar demais como o filme de Baz Luhrmann. É um filme claramente moderno, mas com uma linguagem tradicional, que peca apenas por não surpreender em termos estilísticos. Rob Marshall segue à risca a cartilha de Bob Fosse, com coreografias excepcionais e um apurado visual, brincando muito mais com as pequenas ironias que cercam suas personagens do que com o gênero em si, como fez o filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor. Proporciona brilhantes momentos-solos a seus atores (John C. Reilly deita e rola com "Mr.Cellophane" mas Richard Gere mostra sua fragilidade artística com "Razzle Dazzle") e revela em Marshall um cineasta atento aos detalhes e às sutilezas de um projeto tão ambicioso. E além de tudo - e o que é ainda melhor - diverte sem tratar a audiência como débil mental.

Muita gente torceu o nariz para o generoso número de Oscar para "Chicago" - em especial os fãs de seus rivais na briga pela estatueta "As horas" e "Gangues de Nova York". Mas é inegável que é um trabalho de primeira grandeza, realizado com um talento incomum e que remete aos bons tempos de uma Hollywood glamourosa e que tinha no entretenimento sua principal preocupação.

segunda-feira

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem 
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.



“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

terça-feira

ALTA FIDELIDADE

ALTA FIDELIDADE (High fidelity, 2000, Dogstar Films/New Crime Productions/Touchstone Pictures/Working Title Films, 113min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, Scott Rosenberg, romance de Nick Hornby. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Mick Audsley. Música: Howard Shore. Figurino: Laura Cunningham Bauer. Direção de arte/cenários: David Chapman, Therese Deprez/Larry Lundy. Produção executiva: Liza Chasin, Alan Greenspan, Mike Newell. Produção: Tim Bevan, Rudd Simmons. Elenco: John Cusack, Iben Hjejle, Jack Black, Lisa Bonet, Todd Louiso, Joan Cusack, Natasha Gregson-Wagner, Lili Taylor, Bruce Springsteen, Sara Gilbert, Tim Robbins, Joelle Carter, Catherine Zeta-Jones. Estreia: 31/3/00

Se existe algum escritor moderno que merece ser considerado "pop" esse autor é o inglês Nick Hornby. Bem-humorado, direto e totalmente mergulhado em universo cultural que é a cara dos anos 80/90, Hornby é o autor de alguns dos livros mais deliciosamente divertidos e irônicos do final do primeiro milênio e, como tal, sua prosa não escapou dos olhares gananciosos de Hollywood. Sendo que pouca gente assistiu à adaptação de "Febre de bola" lançada em 1997 e estrelada por Colin Firth, pode-se considerar que seu primeiro grande contato com o sucesso cinematográfico foi "Alta fidelidade", a versão de Stephen Frears para aquele que muitos consideram seu melhor trabalho. Apesar do relativo fracasso de bilheteria (mal cobriu seu custo em terras ianques), o filme protagonizado pelo ótimo John Cusack é uma das melhores comédias românticas da história e um programa obrigatório para aqueles que gostam de diversão inteligente.

Trocando (sem maiores prejuízos) o cenário da trama de Londres para Chicago (assim como a nacionalidade do protagonista), o roteiro co-escrito pelo próprio Cusack segue quase à risca o romance que lhe deu origem, que também originou a peça de teatro "A vida é feita de som e fúria". Ao deixar intactas suas maiores qualidades (o humor bem sacado, o mergulho sem medo no universo pop, o romantismo visto por uma ótica masculina e quase cafajeste), o filme de Frears presta reverência à sua origem sem nunca deixar de aparentar um frescor interno: da forma que está, a história parece ter nascido para a tela grande, tamanha sua identificação com a linguagem cinematográfica.



Rob Gordon (em atuação antológica de John Cusack) é o feliz proprietário de uma loja de discos de vinil chamada Championship Vynil, localizada em Chicago. Fanático por músicas pop e por fazer listas que enumeram suas preferências em vários setores da vida, ele sofre um golpe inesperado quando é abandonado por sua namorada, a bela Laura (Ibjen Hjejle) e fica sozinho ao lado de Harry (Jack Black) e Dick (Todd Louiso), seus funcionários e únicos amigos. Desesperado por esse revés emocional, Gordon faz, então, a lista mais importante de sua vida e resolve entrar em contato com as cinco mulheres que mais o fizeram sofrer por amor. Com isso, ele tenciona compreender porque seus relacionamentos invariavelmente acabam da mesma forma dolorosa. Assim, ele procura seu amor de infância que o trocou por um colega de escola, a namorada da faculdade (Joelle Carter) - que ele mesmo abandonou porque ela não queria sexo-, a esplendorosa Charlie (Catherine Zeta Jones em ótima forma) - que o trocou por um homem menos imaturo - e a deprimida Sarah (Lily Taylor), que também o chutou. Finalmente, ele resolve reconquistar Laura, ao mesmo tempo em que vive um rápido romance com a cantora Marie de Salle (Lisa Bonet).

Ao utilizar o batido - mas sempre eficaz - recurso de fazer seu protagonista dialogar com a câmera, tendo o espectador como confidente e ouvinte, Frears conquista a audiência logo na primeira cena, com um close sofrido de John Cusack desnudando seu coração partido e vociferando contra as músicas de amor. Aqui Cusack está no melhor papel de sua vida, um Ferris Bueller que, em vez de matar aula, resolve viver sua vida amorosa sem amarras apertadas. Seu Rob Gordon pode até parecer egoísta em determinados momentos, quase insensível e galinha, mas a sensibilidade do ator (também produtor executivo do filme e da trilha musical) faz com que o público inteiro se solidarize com ele... e torça para um final feliz entre ele e sua amada Laura.

Sem apelar para piadas fáceis e grosseiras, "Alta fidelidade" ainda tem tempo para apresentar coadjuvantes memoráveis (o asqueroso Harry vivido por Jack Black em seu melhor momento é um exemplo), de contar com participações especialíssimas de Bruce Springsteen e Tim Robbins e ainda por cima legar uma extraordinária trilha sonora, em que convivem harmonicamente Bob Dylan, Elvis Costello, Stevie Wonder e Stereolab, além de uma surpreendente versão da bela "Let's get it on" de Marvin Gaye na voz de... Jack Black (!!!)

"Alta fidelidade" é cinema pop, com tudo o que isso tem de bom e agradável. Um cult de nascimento!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...