BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16
Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.
Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).
Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.
A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!
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segunda-feira
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JULIE & JULIA
JULIE & JULIA (Julie & Julia, 2009, Columbia Pictures, 118min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, livros de Julie Powell e Julia Child e Alex Prud'homme. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Richard Marks. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Donald J. Lee Jr., Scott Rudin, Dana Stevens. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark, Amy Robinson, Eric Steel. Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Kelly Lynch, Frances Sternhagen, Linda Emond. Estreia: 30/7/09
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Meryl Streep)
Primeiro foram livros e peças de teatro. Depois, ideias vinham de notícias de jornal e de biografias de celebridades e/ou políticos. Mais adiante, histórias em quadrinhos (adultos ou não). Hollywood nunca pode se queixar da falta de material original para suas adaptações - fossem elas bem-sucedidas ou não, fieis à origem ou não. Mas, com o advento da Internet um novo manancial de ideias apareceu no horizonte de roteiristas e produtores: parcialmente inspirado em um blog (devidamente transformado em livro e publicado de acordo com a tradição),"Julie & Julia" também inovou ao utilizar-se de um livro de receitas (dos mais prestigiados e populares, mas ainda assim de receitas) como parte de sua trama. Adaptados pela veterana Nora Ephron, os livros de Julie Powell e Julia Child chegaram às telas e conquistaram público e crítica: com mais de 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e premiado com o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical de 2009, "Julie & Julia" é uma deliciosa história de amor à gastronomia... ou, sendo ainda mais correto: são duas histórias de amor à gastronomia!
Amparada por uma inspiradíssima Meryl Streep (que arrebatou sua 16ª indicação ao Oscar por seu papel) e por uma então ainda promissora Amy Adams (que já havia concorrido à estatueta de coadjuvante justamente por um filme ao lado de Streep, "Dúvida", de 2008), Nora Ephron exercita seu habitual senso de humor e sofisticação ao narrar duas histórias paralelas que, mesmo separadas por meio século, se conectam através da paixão pela culinária e por detalhes que, enfatizados sutilmente pela edição, as tornam muito mais próximas do que poderiam supor. Obviamente mirando em um público-alvo mais adulto do que a maioria das comédias hollywoodianas, o roteiro de Ephron
evita piadas fáceis e até mesmo escapa da polêmica que seria revelar as atividades de Julia Child para o governo norte-americano - depois do lançamento do livro, mas antes das filmagens, já se sabia que a famosa autora havia servido de informante durante seu período na França, mas tal fato é apenas mencionado de passagem em um curto diálogo. Tais complicações políticas não interessam à trama engendrada pela diretora/roteirista, que prefere focar sua atenção no crescimento pessoal de suas protagonistas oferecido por sua entrega à cozinha - que surgem como válvula de escape e se tornam parte indissociável de suas vidas pessoais.
Julie Powell (Amy Adams dando um banho de carisma) é uma jovem aspirante a escritora que passa seus dias em um frustrante e monótono emprego burocrático que a deprime - a despeito de sua relação apaixonada com o marido, Eric (Chris Messina). Como forma de fixar um objetivo que possa arrancar-lhe do marasmo, ela desafia a si mesma a cozinhar, por um ano inteiro, todas as receitas do primeiro e mais famoso livro da escritora Julia Child - e registrar suas tentativas em um blog, que não demora a tornar-se um fenômeno de popularidade. Durante o processo, Julie começa a tornar-se obcecada pela história de Child (Meryl Streep), uma americana que, casada com o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), transforma sua estada em Paris, a partir de 1949, em uma maneira de traduzir para suas conterrâneas as sofisticadas receitas francesas que aprendeu na tradicional Cordon Bleu. Dedicada e talentosa, ela acaba por publicar seu livro de receitas, apresentar programas de culinária na TV e se transformar em um nome conhecido internacionalmente - e, décadas depois, inspirar Julie a encontrar um sentido para sua vida. O segredo de Ephron em seu roteiro é fazer com que suas duas personagens centrais passem pelas mesmas dificuldades, mas logicamente de acordo com sua época e contextos histórico e social. Esse artifício de utilizá-las como espelho uma da outra funciona muito bem, especialmente porque a química entre Adams e Streep é perfeita: mesmo que elas jamais contracenem, existe uma sensação de unidade entre as duas que é palpável, graças à direção leve e aos desempenhos acima da média de ambas - amparadas também por seus excelentes colegas de cena Stanley Tucci e Chris Messina.
Como é normal no cinema de Nora Ephron, não há nada de espetacular ou catártico em "Julie & Julia". Seu roteiro fluido e por vezes surpreendentemente emocionante segue sem sustos por um caminho que pode até parecer previsível, mas que encanta justamente por oferecer ao público o conforto da simplicidade. Streep (que conta com a ajuda de ângulos especiais para dar a impressão de ser do real tamanho da gigantesca Julia Child) mais uma vez é maior que o filme, ainda que sua personagem pareça caricatural com seu jeito de falar e se movimentar. A maior surpresa, porém, é a segurança de Amy Adams em não se deixar intimidar pela presença da celebrada atriz e fazer de sua Julie Powell uma personagem interessante e repleta de nuances a ponto de quase roubar a cena. Se Streep foi indicada ao Oscar, Adams ficou de fora da seleção da Academia injustamente: é seu olhar cheio de esperança, otimismo e às vezes desespero que fazem do filme de Nora Ephron a delícia que é - e sua dupla com Chris Messina é simplesmente adorável. Que venham novas colaborações!
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Meryl Streep)
Primeiro foram livros e peças de teatro. Depois, ideias vinham de notícias de jornal e de biografias de celebridades e/ou políticos. Mais adiante, histórias em quadrinhos (adultos ou não). Hollywood nunca pode se queixar da falta de material original para suas adaptações - fossem elas bem-sucedidas ou não, fieis à origem ou não. Mas, com o advento da Internet um novo manancial de ideias apareceu no horizonte de roteiristas e produtores: parcialmente inspirado em um blog (devidamente transformado em livro e publicado de acordo com a tradição),"Julie & Julia" também inovou ao utilizar-se de um livro de receitas (dos mais prestigiados e populares, mas ainda assim de receitas) como parte de sua trama. Adaptados pela veterana Nora Ephron, os livros de Julie Powell e Julia Child chegaram às telas e conquistaram público e crítica: com mais de 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e premiado com o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical de 2009, "Julie & Julia" é uma deliciosa história de amor à gastronomia... ou, sendo ainda mais correto: são duas histórias de amor à gastronomia!
Amparada por uma inspiradíssima Meryl Streep (que arrebatou sua 16ª indicação ao Oscar por seu papel) e por uma então ainda promissora Amy Adams (que já havia concorrido à estatueta de coadjuvante justamente por um filme ao lado de Streep, "Dúvida", de 2008), Nora Ephron exercita seu habitual senso de humor e sofisticação ao narrar duas histórias paralelas que, mesmo separadas por meio século, se conectam através da paixão pela culinária e por detalhes que, enfatizados sutilmente pela edição, as tornam muito mais próximas do que poderiam supor. Obviamente mirando em um público-alvo mais adulto do que a maioria das comédias hollywoodianas, o roteiro de Ephron
evita piadas fáceis e até mesmo escapa da polêmica que seria revelar as atividades de Julia Child para o governo norte-americano - depois do lançamento do livro, mas antes das filmagens, já se sabia que a famosa autora havia servido de informante durante seu período na França, mas tal fato é apenas mencionado de passagem em um curto diálogo. Tais complicações políticas não interessam à trama engendrada pela diretora/roteirista, que prefere focar sua atenção no crescimento pessoal de suas protagonistas oferecido por sua entrega à cozinha - que surgem como válvula de escape e se tornam parte indissociável de suas vidas pessoais.
Julie Powell (Amy Adams dando um banho de carisma) é uma jovem aspirante a escritora que passa seus dias em um frustrante e monótono emprego burocrático que a deprime - a despeito de sua relação apaixonada com o marido, Eric (Chris Messina). Como forma de fixar um objetivo que possa arrancar-lhe do marasmo, ela desafia a si mesma a cozinhar, por um ano inteiro, todas as receitas do primeiro e mais famoso livro da escritora Julia Child - e registrar suas tentativas em um blog, que não demora a tornar-se um fenômeno de popularidade. Durante o processo, Julie começa a tornar-se obcecada pela história de Child (Meryl Streep), uma americana que, casada com o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), transforma sua estada em Paris, a partir de 1949, em uma maneira de traduzir para suas conterrâneas as sofisticadas receitas francesas que aprendeu na tradicional Cordon Bleu. Dedicada e talentosa, ela acaba por publicar seu livro de receitas, apresentar programas de culinária na TV e se transformar em um nome conhecido internacionalmente - e, décadas depois, inspirar Julie a encontrar um sentido para sua vida. O segredo de Ephron em seu roteiro é fazer com que suas duas personagens centrais passem pelas mesmas dificuldades, mas logicamente de acordo com sua época e contextos histórico e social. Esse artifício de utilizá-las como espelho uma da outra funciona muito bem, especialmente porque a química entre Adams e Streep é perfeita: mesmo que elas jamais contracenem, existe uma sensação de unidade entre as duas que é palpável, graças à direção leve e aos desempenhos acima da média de ambas - amparadas também por seus excelentes colegas de cena Stanley Tucci e Chris Messina.
Como é normal no cinema de Nora Ephron, não há nada de espetacular ou catártico em "Julie & Julia". Seu roteiro fluido e por vezes surpreendentemente emocionante segue sem sustos por um caminho que pode até parecer previsível, mas que encanta justamente por oferecer ao público o conforto da simplicidade. Streep (que conta com a ajuda de ângulos especiais para dar a impressão de ser do real tamanho da gigantesca Julia Child) mais uma vez é maior que o filme, ainda que sua personagem pareça caricatural com seu jeito de falar e se movimentar. A maior surpresa, porém, é a segurança de Amy Adams em não se deixar intimidar pela presença da celebrada atriz e fazer de sua Julie Powell uma personagem interessante e repleta de nuances a ponto de quase roubar a cena. Se Streep foi indicada ao Oscar, Adams ficou de fora da seleção da Academia injustamente: é seu olhar cheio de esperança, otimismo e às vezes desespero que fazem do filme de Nora Ephron a delícia que é - e sua dupla com Chris Messina é simplesmente adorável. Que venham novas colaborações!
terça-feira
A CHEGADA
A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment, 116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som
Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.
Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.
Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.
Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som
Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.
Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.
Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.
Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!
quinta-feira
ANIMAIS NOTURNOS
ANIMAIS
NOTURNOS (Nocturnal animals, 2016, Focus Features, 116min) Direção: Tom
Ford. Roteiro: Tom Ford, romance "Tony & Susan", de Austin
Wright. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joan Sobel. Música: Abel
Korzeniowski. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Shane
Valentino/Meg Everist. Produção: Tom Ford, Robert Salerno. Elenco: Amy
Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Armie
Hammer, Laura Linney, Isla Fisher, Michael Sheen, Ellie Bamber, Karl
Glusman, Robert Aramayo, Jena Malone. Estreia: 02/9/16 (Festival de
Veneza)
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Michael Shannon)
Os créditos de abertura de "Animais noturnos" - estranhos, desconfortáveis, quase agressivos ao olhar - já preparam o espectador para o que virá nas próximas duas horas: em seu segundo filme como cineasta, o estilista Tom Ford não brinca em serviço e apresenta ao público um dos mais claustrofóbicos estudos sobre a culpa e o desespero produzidos por Hollywood nos últimos anos. Não quer dizer que seja completamente bem-sucedido em tudo que ambiciona dizer, mas é preciso reconhecer sua coragem em nadar contra a corrente do cinemão médio americano e realizar uma obra tão perturbadora e ao mesmo tempo tão visualmente atraente. Baseado no romance "Tony & Susan", de Austin Wright, Ford forjou um exercício de estilo que equilibra lampejos de brilhantismo com um ritmo claudicante que quase põe tudo a perder. Calorosamente aclamado no Festival de Veneza - onde teve seus direitos de distribuição comprados pelo valor recorde de 10 milhões de dólares - e indicado a surpreendentes oito estatuetas no BAFTA (o Oscar britânico), "Animais noturnos" não é nem a obra-prima que muitos aplaudem nem a fraude que outros tantos denunciam: é um filme acima da média, mas com sérios defeitos que o impedem de atingir a todas as notas a que se propõe.
Alternando liberdade criativa e fidelidade à sua fonte original, Tom Ford repete a estrutura do livro de Wright ao mesmo tempo em que acrescenta outras nuances a uma trama já naturalmente densa e repleta de simbolismos: a protagonista é Susan Morrow (Amy Adams em mais uma interpretação extraordinária), dona de uma galeria de arte sofisticada e bem frequentada. Casada com um executivo bonito e igualmente bem-sucedido (Armie Hammer), ela não consegue deixar de lado uma constante solidão, que se agrava com as viagens do marido e a distância dos filhos. Em uma dessas crises de melancolia, ela recebe o manuscrito de um livro escrito por Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), com quem foi casada anos antes, em uma relação que acabou de forma bastante traumática. Junto com o livro, chega uma nota, onde Tony pede à ex-mulher que o leia e dê sua opinião. Temerosa com as possíveis intenções de Tony - que saiu do relacionamento extremamente magoado e ofendido - ela inicia a leitura e se vê envolvida em uma história repleta de uma inesperada violência.
No livro de Tony, chamado "Animais noturnos", o protagonista é Edward Sheffield (também interpretado por Gyllenhaal), um homem comum que, em viagem de férias com a mulher e a filha adolescente, é abordado na estrada por três desconhecidos que transformam sua vida em um pesadelo. Tendo a família sequestrada e depois morta, Edward se une a um policial da pequena cidade onde ocorreu o crime, Bobby Andes (Michael Shannon, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) - também passando por um grave problema pessoal - para buscar justiça pelas próprias mãos. Seu silencioso desespero encontra eco em Susan, que começa a perceber nas entrelinhas do romance uma sórdida e sutil vingança do homem a quem amava contra alguns dos acontecimentos que aceleraram sua separação. Conforme o livro vai chegando ao seu final - e seu reencontro com Tony se aproxima - a mulher segura e confiante vai dando lugar a uma outra, triste e consumida por uma série de arrependimentos.
Como todo artista consciente da força das imagens, Tom Ford faz de seus "Animais noturnos" um show visual, graças à belíssima fotografia de Seamus McGarvey e a direção de arte sofisticada de Shane Valentino. Mas, mais do que simplesmente enfeitar a tela com uma cuidadosa seleção de cores e contrastes, ele as utiliza como ferramentas para enfatizar ideias e pensamentos, o que é, sem dúvida, um dos maiores méritos de seu filme. Ao contrário de muitas obras que soam redundantes por não confiar na potência dos enquadramentos e da edição, "Animais noturnos" usa e abusa de silêncios e de pequenos detalhes que vão compondo o quadro geral proposto pelo roteiro. Conforme vai iluminando a história entre Susan e Edward - e de como ela é a base para o livro dele - o cineasta vai também empurrando o público rumo à uma conclusão que, longe de ser facilmente digerida, é igualmente brutal e desconcertante - o que seria impossível sem o elenco impecável escolhido a dedo. Se Aaron Taylor-Johnson (como um dos criminosos) saiu vencedor do Golden Globe e Michael Shannon recebeu uma indicação ao Oscar, eles são apenas peões em um jogo de xadrez comandado por dois atores em momentos brilhantes da carreira: Jake Gyllenhaal e Amy Adams.
Em um espetacular trabalho de interpretação, tanto Adams quanto Gyllenhaal encaram o desafio de trazer à luz dois personagens complexos, ricos em nuances e psicologicamente ambíguos de forma irretocável: enquanto Adams (injustamente esquecida pelo Oscar também por seu trabalho arrebatador em "A chegada") cria duas Susans distintas - um passado romântico e sonhador e um presente carente e solitário - com uma coerência impressionante, Gyllenhaal explora com meticulosidade um jovem repleto de sonhos profissionais pouco práticos e um personagem criado na sua imaginação, bem mais propenso a explicitar sua revolta através da violência. O uso constante de metáforas e símbolos pode até excessivo em determinados momentos, mas a garra do casal central de atores e a maneira sutil com que conduzem seus personagens praticamente anula os pecados do filme de Ford. Corajoso, inteligente e dono de uma personalidade rara no cinemão, "Animais noturnos" também é exagerado, pretensioso e de uma crueldade poética. Incoerências que fazem dele, no mínimo, um filme muito interessante mesmo àqueles que não concordem com seu estilo único.
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Michael Shannon)
Os créditos de abertura de "Animais noturnos" - estranhos, desconfortáveis, quase agressivos ao olhar - já preparam o espectador para o que virá nas próximas duas horas: em seu segundo filme como cineasta, o estilista Tom Ford não brinca em serviço e apresenta ao público um dos mais claustrofóbicos estudos sobre a culpa e o desespero produzidos por Hollywood nos últimos anos. Não quer dizer que seja completamente bem-sucedido em tudo que ambiciona dizer, mas é preciso reconhecer sua coragem em nadar contra a corrente do cinemão médio americano e realizar uma obra tão perturbadora e ao mesmo tempo tão visualmente atraente. Baseado no romance "Tony & Susan", de Austin Wright, Ford forjou um exercício de estilo que equilibra lampejos de brilhantismo com um ritmo claudicante que quase põe tudo a perder. Calorosamente aclamado no Festival de Veneza - onde teve seus direitos de distribuição comprados pelo valor recorde de 10 milhões de dólares - e indicado a surpreendentes oito estatuetas no BAFTA (o Oscar britânico), "Animais noturnos" não é nem a obra-prima que muitos aplaudem nem a fraude que outros tantos denunciam: é um filme acima da média, mas com sérios defeitos que o impedem de atingir a todas as notas a que se propõe.
Alternando liberdade criativa e fidelidade à sua fonte original, Tom Ford repete a estrutura do livro de Wright ao mesmo tempo em que acrescenta outras nuances a uma trama já naturalmente densa e repleta de simbolismos: a protagonista é Susan Morrow (Amy Adams em mais uma interpretação extraordinária), dona de uma galeria de arte sofisticada e bem frequentada. Casada com um executivo bonito e igualmente bem-sucedido (Armie Hammer), ela não consegue deixar de lado uma constante solidão, que se agrava com as viagens do marido e a distância dos filhos. Em uma dessas crises de melancolia, ela recebe o manuscrito de um livro escrito por Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), com quem foi casada anos antes, em uma relação que acabou de forma bastante traumática. Junto com o livro, chega uma nota, onde Tony pede à ex-mulher que o leia e dê sua opinião. Temerosa com as possíveis intenções de Tony - que saiu do relacionamento extremamente magoado e ofendido - ela inicia a leitura e se vê envolvida em uma história repleta de uma inesperada violência.
No livro de Tony, chamado "Animais noturnos", o protagonista é Edward Sheffield (também interpretado por Gyllenhaal), um homem comum que, em viagem de férias com a mulher e a filha adolescente, é abordado na estrada por três desconhecidos que transformam sua vida em um pesadelo. Tendo a família sequestrada e depois morta, Edward se une a um policial da pequena cidade onde ocorreu o crime, Bobby Andes (Michael Shannon, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) - também passando por um grave problema pessoal - para buscar justiça pelas próprias mãos. Seu silencioso desespero encontra eco em Susan, que começa a perceber nas entrelinhas do romance uma sórdida e sutil vingança do homem a quem amava contra alguns dos acontecimentos que aceleraram sua separação. Conforme o livro vai chegando ao seu final - e seu reencontro com Tony se aproxima - a mulher segura e confiante vai dando lugar a uma outra, triste e consumida por uma série de arrependimentos.
Como todo artista consciente da força das imagens, Tom Ford faz de seus "Animais noturnos" um show visual, graças à belíssima fotografia de Seamus McGarvey e a direção de arte sofisticada de Shane Valentino. Mas, mais do que simplesmente enfeitar a tela com uma cuidadosa seleção de cores e contrastes, ele as utiliza como ferramentas para enfatizar ideias e pensamentos, o que é, sem dúvida, um dos maiores méritos de seu filme. Ao contrário de muitas obras que soam redundantes por não confiar na potência dos enquadramentos e da edição, "Animais noturnos" usa e abusa de silêncios e de pequenos detalhes que vão compondo o quadro geral proposto pelo roteiro. Conforme vai iluminando a história entre Susan e Edward - e de como ela é a base para o livro dele - o cineasta vai também empurrando o público rumo à uma conclusão que, longe de ser facilmente digerida, é igualmente brutal e desconcertante - o que seria impossível sem o elenco impecável escolhido a dedo. Se Aaron Taylor-Johnson (como um dos criminosos) saiu vencedor do Golden Globe e Michael Shannon recebeu uma indicação ao Oscar, eles são apenas peões em um jogo de xadrez comandado por dois atores em momentos brilhantes da carreira: Jake Gyllenhaal e Amy Adams.
Em um espetacular trabalho de interpretação, tanto Adams quanto Gyllenhaal encaram o desafio de trazer à luz dois personagens complexos, ricos em nuances e psicologicamente ambíguos de forma irretocável: enquanto Adams (injustamente esquecida pelo Oscar também por seu trabalho arrebatador em "A chegada") cria duas Susans distintas - um passado romântico e sonhador e um presente carente e solitário - com uma coerência impressionante, Gyllenhaal explora com meticulosidade um jovem repleto de sonhos profissionais pouco práticos e um personagem criado na sua imaginação, bem mais propenso a explicitar sua revolta através da violência. O uso constante de metáforas e símbolos pode até excessivo em determinados momentos, mas a garra do casal central de atores e a maneira sutil com que conduzem seus personagens praticamente anula os pecados do filme de Ford. Corajoso, inteligente e dono de uma personalidade rara no cinemão, "Animais noturnos" também é exagerado, pretensioso e de uma crueldade poética. Incoerências que fazem dele, no mínimo, um filme muito interessante mesmo àqueles que não concordem com seu estilo único.
segunda-feira
GRANDES OLHOS
GRANDES
OLHOS (Big eyes, 2014, The Weinstein Pictures/Tim Burton Productions,
106min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott
Karaszewski. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: JC Bond. Música:
Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick
Heinrichs/Craig Lewis. Produção executiva: Katterli Frauenfelder, Derek
Frey, Jamie Patricof, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Scott
Alexander, Tim Burton, Larry Karaszewski, Lynette Howell. Elenco: Amy
Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Jason Schwartzman, Terence Stamp,
Jon Polito. Estreia: 13/11/14
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Amy Adams)
Interpretada por uma sensacional Amy Adams – vencedora do Golden Globe e injustamente esnobada pela Academia – a protagonista Margaret é introduzida ao público em 1958, quando, demonstrando uma coragem admirável para a época, abandona o marido abusivo e parte com a filha pequena para São Francisco, disposta a ganhar a vida sem depender da bondade alheia. Ao salário ganho em uma fábrica de móveis ela tenta adicionar uma grana extra pintando retratos de eventuais clientes em uma feira de rua – já imprimindo nas telas a sua assinatura pessoal. É nessa feira que ela trava conhecimento com Walter Keane (Christoph Waltz), também pintor e que, depois de uma temporada em Paris, usa suas memórias afetivas como temática de sua obra. Em pouco tempo os dois acabam se casando – como forma de proteger a guarda da menina, ameaçada pelo ex-marido – e não demora muito para que Keane comece a perceber que o trabalho de sua mulher chama muito mais a atenção do que o seu. Astuciosamente – e com a ajuda do jornalista Dick Nolan (Danny Huston), que narra a história em off – ele toma para si a autoria dos quadros e passa a administrar o êxito financeiro que vem deles. Dono de uma ambição tão grande quanto seu mau-caráter e seu senso de marketing pessoal, o medíocre Keane se torna um sucesso comercial incontestável: ainda que rechaçados pela crítica séria, representada pelo inclemente John Canaday (Terence Stamp), os quadros de Keane (na verdade a incansável e inconsolável Margaret) são cobiçados até por gente influente como as atrizes Natalie Wood e Joan Crawford e o empresário italiano Dino Olivetti.
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Amy Adams)
O diretor Tim Burton tem,
aparentemente, algumas obsessões que fazem de seu cinema algo único dentro de
uma indústria cada vez menos afeita a riscos financeiros desnecessários. Sua
filmografia, coerente e por vezes quase previsível, começou a conquistar fãs
com o humor negro de “Os fantasmas se divertem” (88) – a história de um casal
de ectoplasmas tentando livrar-se dos novos proprietários de sua casa
recém-comprada – e atingiu o ápice com a sua visão sombria pero no mucho do homem-morcego em “Batman” (89) e “Batman, o
retorno” (92). Depois disso, com o bolso cheio de dólares e a liberdade
artística que somente o dinheiro pode comprar em Hollywood, começou uma
carreira repleta de altos e baixos, onde sucessos de crítica ignorados pelo
público – “Ed Wood” (94) – e êxitos comerciais massacrados pela imprensa –
“Alice no País das Maravilhas” (10) – tinham em comum apenas sua predileção por
personagens exóticos e pelo visual criativo (além da participação frequente de
seus parceiros habituais Johnny Depp e Helena Bonham Carter). O fim do
casamento com Carter e o fracasso de seu “Sombras da noite” (12), porém, o
empurraram em direção a uma obra que, a rigor, difere muito de sua filmografia.
Baseado em fatos reais e isento dos excessos que frequentemente eclipsavam
outros aspectos de seus filmes, “Olhos grandes” é um Tim Burton quase atípico –
algo assim como o foram “História real” na carreira de David Lynch e “Kundun”
na trajetória de Martin Scorsese.
Dialogando muito mais com a
melancolia carinhosa de “Ed Wood” – sintomaticamente escrito pelos mesmos Larry
Alexander e Scott Karaszewski – do que com a histeria quase infantil de “A
fantástica fábrica de chocolates” (05), “Olhos grandes” revela em Burton um
cineasta plenamente capaz de extrair emoção e interesse de histórias comuns,
protagonizada por gente de carne e osso cujas preocupações não são evitar
invasões alienígenas – como no horroroso “Marte ataca” (96) – ou vingar-se
sanguinariamente dos algozes de seus familiares – caso de “Sweeney Todd: o
barbeiro demoníaco da Rua Fleet” (08) – mas simplesmente sobreviver em um mundo
tão glamouroso quanto cruel: o das artes plásticas. Visualmente o mais sutil de
seus filmes, “Olhos grandes” concentra sua atenção basicamente na história de
Margaret Keane, a autora de uma série de quadros que, sempre apresentando
crianças com olhos tristes e desproporcionalmente grandes, tornou-se coqueluche
nos EUA dos anos 60. Sem recorrer a fantásticas reconstituições de época e/ou
criar mundos imaginários – artifícios que fizeram com que “A lenda do Cavaleiro
Sem Cabeça”, “Sweeney Todd” e “Alice no País das Maravilhas” fossem premiados
com o Oscar de melhor direção de arte – Burton apresenta ao público um filme
simples e encantador.
Interpretada por uma sensacional Amy Adams – vencedora do Golden Globe e injustamente esnobada pela Academia – a protagonista Margaret é introduzida ao público em 1958, quando, demonstrando uma coragem admirável para a época, abandona o marido abusivo e parte com a filha pequena para São Francisco, disposta a ganhar a vida sem depender da bondade alheia. Ao salário ganho em uma fábrica de móveis ela tenta adicionar uma grana extra pintando retratos de eventuais clientes em uma feira de rua – já imprimindo nas telas a sua assinatura pessoal. É nessa feira que ela trava conhecimento com Walter Keane (Christoph Waltz), também pintor e que, depois de uma temporada em Paris, usa suas memórias afetivas como temática de sua obra. Em pouco tempo os dois acabam se casando – como forma de proteger a guarda da menina, ameaçada pelo ex-marido – e não demora muito para que Keane comece a perceber que o trabalho de sua mulher chama muito mais a atenção do que o seu. Astuciosamente – e com a ajuda do jornalista Dick Nolan (Danny Huston), que narra a história em off – ele toma para si a autoria dos quadros e passa a administrar o êxito financeiro que vem deles. Dono de uma ambição tão grande quanto seu mau-caráter e seu senso de marketing pessoal, o medíocre Keane se torna um sucesso comercial incontestável: ainda que rechaçados pela crítica séria, representada pelo inclemente John Canaday (Terence Stamp), os quadros de Keane (na verdade a incansável e inconsolável Margaret) são cobiçados até por gente influente como as atrizes Natalie Wood e Joan Crawford e o empresário italiano Dino Olivetti.
Quando Margaret resolve dar um basta
na farsa – que a impediu por anos de obter seu próprio lugar ao sol mesmo
fugindo de seu estilo clássico – “Olhos grandes” muda de registro. O tom quase
ingênuo mostrado até então dá lugar a um viés mais sombrio, transformando
definitivamente Walter Keane no vilão cuja maldade se disfarçava através de um
verniz de simpatia e sorrisos constantes. Um gigantesco painel oferecido à
Unicef serve como pomo da discórdia e, mais uma vez fugitiva de um casamento
fracassado, a protagonista põe as cartas na mesa, revelando as mentiras
contadas ao povo americano por anos. Uma batalha nos tribunais – com marido e
mulher tentando provar, cada um à sua maneira, a autoria das pinturas – dá início
ao terceiro e final ato, em que ficam evidentes dois pontos: o carisma delicado
de Adams e o histrionismo às raias do patético de Christoph Waltz. Merecido
vencedor de seu primeiro Oscar de coadjuvante, por “Bastardos inglórios” – mas
nem tanto pelo segundo, por “Django livre” – o ator austríaco repete
perigosamente os trejeitos de seus trabalhos anteriores, tornando a cena em que
Keane assume simultaneamente os papéis de advogado de defesa e testemunha um
deslize que quase compromete o filme como um todo. Mesmo que o caráter bufão de
Keane justifique o abuso do ator de caretas e um pretenso humor, a sequência
destoa nitidamente do restante da narrativa proposta pelo diretor, de um
naturalismo que só cede ao lúdico quando Margaret passa a ver em todas as
pessoas os olhos grandes de seus quadros. Felizmente, a cena é rápida o
bastante para que não esconda do público as outras (muitas) qualidades do
filme.
Bem distante de sua zona de conforto,
Tim Burton acertou em cheio em dar um bem-vindo respiro de normalidade à sua
carreira tão excêntrica. Assim como ele, a figurinista Colleen Atwood e o
músico Danny Elfman – parte de seu leal time de colaboradores – apresentam
trabalhos discretos e eficientes que mostram outro lado de seu talento. Todos
estão em estado de graça, apelando para a beleza quase invisível da
simplicidade – que, afinal de contas, era o maior encanto das crianças de
Margaret Keane. Um belo e emocionante filme sobre o amor à arte e aos ideais
estéticos acima das convenções da moda e do sucesso comercial. No fundo, um
filme sobre a carreira do próprio Tim Burton.
sexta-feira
TRAPAÇA
TRAPAÇA (American hustle, 2013, Columbia Pictures/Annapurna
Pictures/Atlas Entertainment, 138min) Direção: David O. Russell.
Roteiro: David O. Russell, Eric Warren Singer. Fotografia: Linus
Sandgren. Montagem: Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Crispin Struthers.
Música: Danny Elfman. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de
arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Matthew
Budman, Bradley Cooper, George Parra, Eric Warren Singer. Produção:
Megan Ellison, Jonathan Gordon, Charles Roven, Richard Suckle. Elenco:
Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy
Renner, Robert DeNiro, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea
Whigham, Alessandro Nivola. Estreia: 12/12/13
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Ator (Christian Bale), Atriz (Amy Adams), Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Roteiro Original, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Amy Adams), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence)
Em 1999 o cineasta David O. Russell realizou um dos primeiros filmes americanos a tratar sobre a guerra no Golfo, a comédia de ação "Três reis", que demonstrava um senso de humor afiado e uma criatividade que seria ainda mais perceptível no bizarro "Huckabees, a vida é uma comédia", lançado cinco anos depois. Depois disso, de uma hora pra outra, o nova-iorquino tornou-se um queridinho absoluto da Academia. "O vencedor", de 2010, deu a Christian Bale e Melissa Leo os Oscar de coadjuvante, além de ter indicado Amy Adams na mesma categoria. "O lado bom da vida", de 2012, premiou Jennifer Lawrence como melhor atriz - e indicou também Bradley Cooper a melhor ator e Robert DeNiro e Jackie Weaver a coadjuvantes. Ambos concorreram aos Oscar de filme, direção e roteiro. Coroando uma fase sem igual, Russell repetiu o feito na cerimônia de 2014: "Trapaça", seu trabalho seguinte, concorreu a dez estatuetas, incluindo as cinco principais - além de, como aconteceu no ano anterior, ter todos os seus quatro atores principais entre os finalistas nas categorias de interpretação. Isso tudo - mais o Golden Globe de melhor comédia/musical e o prêmio de melhor filme pela Associação de Críticos de Nova York - levantou uma importante questão: o filme era assim tão bom?
Se depender do resultado negativo dos mesmos acadêmicos que o homenagearam com uma dezena de indicações e o deixaram sair da cerimônia de mãos vazias, a resposta é um sonoro "não". Porém, é impossível negar que, apesar de sua vontade explícita de ser um clássico instantâneo, "Trapaça" é uma obra até divertida, desde que vista sem maiores expectativas. Seu maior problema é a ambição: enquanto seus dois filmes anteriores eram calcados basicamente em personagens, sua terceira obra consecutiva a chegar ao Oscar é recheada de pretensões estilísticas que infelizmente cansam mais do que encantam. Bebendo diretamente na fonte do cinema enérgico e marginal de Martin Scorsese, incluindo narrações em off de mais de um personagem, Russell apenas confirma que não tem talento para sair de sua zona de conforto. A narrativa é confusa, lenta e alguns personagens são simplesmente irritantes. Ironicamente, o cineasta disputou a estatueta de melhor diretor com o próprio Scorsese, que estava no páreo pelo irônico "O lobo de Wall Street" - no qual se reinventava novamente. Ambos perderam para Alfonso Cuarón e seu soporífero "Gravidade", mas, por mais difícil que seja de acreditar, o aprendiz com sua versão light dos filmes de golpe parecia ter mais chances que o mestre com seu sarcasmo e ousadia.
A trama de "Trapaça" é complexa como convém a um filme que trata de golpes financeiros, mas narrada de forma convencional, sem maiores arroubos de criatividade, preocupando-se mais com as relações interpessoais de seus personagens, interpretados por atores em momentos de rara inspiração, ainda que por vezes forçados. Christian Bale está mais uma vez irreconhecível como Irving Rosenfeld, um golpista que, em 1977, é forçado a trabalhar ao lado do agente do FBI Ritchie DiMaso (Bradley Cooper) como forma de ter seus crimes perdoados. Casado com a perua Rosalyn (Jennifer Lawrence) - acostumada com os luxos que uma vida de crime proporciona - Rosenfeld conta com a ajuda de sua amante, Sydney (Amy Adams), para tentar jogar o político Carmine Polito (Jeremy Renner) e outros figurões atrás das grades. Logicamente nem tudo sai como o planejado, o que leva todos a situações inesperadas - e a um final inteligente o bastante (mas quase previsível) para justificar os momentos menos ágeis do roteiro.
No fundo, a profusão de indicações de "Trapaça" ao Oscar teve mais a ver com os valores de produção - por se passar no final da década de 70 os figurinos e os cenários mereceram cuidado especial - e o elenco do que exatamente por suas qualidades inovadoras. Parte de um subgênero do cinema hollywoodiano - os filmes de roubo - a obra de Russell segue sua cartilha à risca, criando personagens simpáticos em sua marginalidade e uma trama rocambolesca na medida exata para prender a atenção e não confundir o público. Se Amy Adams utiliza a sensualidade pela primeira vez em sua carreira em um interpretação impecável e Bale mais uma vez mostra que é um ator extraordinário, os coadjuvantes Bradley Cooper e Jennifer Lawrence (protagonistas do filme anterior do diretor) não fazem feio, ainda que a elogiada Lawrence talvez exagere um pouco nas tintas de sua personagem - culpa dela, da direção ou do excesso de expectativa em torno de seu nome?
Em resumo, "Trapaça" é filme razoável mas jamais brilhante, simpático mas nunca encantador. O excesso de indicações ao Oscar talvez tenha representado mais um exemplo de alucinação coletiva que acomete frequentemente a Academia do que um atestado de suas qualidades. Apenas um passatempo com mais ambições do que acertos. E além do mais, tem Robert DeNiro em um papel decente, o que não é sempre que acontece ultimamente.
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Ator (Christian Bale), Atriz (Amy Adams), Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Roteiro Original, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Amy Adams), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence)
Em 1999 o cineasta David O. Russell realizou um dos primeiros filmes americanos a tratar sobre a guerra no Golfo, a comédia de ação "Três reis", que demonstrava um senso de humor afiado e uma criatividade que seria ainda mais perceptível no bizarro "Huckabees, a vida é uma comédia", lançado cinco anos depois. Depois disso, de uma hora pra outra, o nova-iorquino tornou-se um queridinho absoluto da Academia. "O vencedor", de 2010, deu a Christian Bale e Melissa Leo os Oscar de coadjuvante, além de ter indicado Amy Adams na mesma categoria. "O lado bom da vida", de 2012, premiou Jennifer Lawrence como melhor atriz - e indicou também Bradley Cooper a melhor ator e Robert DeNiro e Jackie Weaver a coadjuvantes. Ambos concorreram aos Oscar de filme, direção e roteiro. Coroando uma fase sem igual, Russell repetiu o feito na cerimônia de 2014: "Trapaça", seu trabalho seguinte, concorreu a dez estatuetas, incluindo as cinco principais - além de, como aconteceu no ano anterior, ter todos os seus quatro atores principais entre os finalistas nas categorias de interpretação. Isso tudo - mais o Golden Globe de melhor comédia/musical e o prêmio de melhor filme pela Associação de Críticos de Nova York - levantou uma importante questão: o filme era assim tão bom?
Se depender do resultado negativo dos mesmos acadêmicos que o homenagearam com uma dezena de indicações e o deixaram sair da cerimônia de mãos vazias, a resposta é um sonoro "não". Porém, é impossível negar que, apesar de sua vontade explícita de ser um clássico instantâneo, "Trapaça" é uma obra até divertida, desde que vista sem maiores expectativas. Seu maior problema é a ambição: enquanto seus dois filmes anteriores eram calcados basicamente em personagens, sua terceira obra consecutiva a chegar ao Oscar é recheada de pretensões estilísticas que infelizmente cansam mais do que encantam. Bebendo diretamente na fonte do cinema enérgico e marginal de Martin Scorsese, incluindo narrações em off de mais de um personagem, Russell apenas confirma que não tem talento para sair de sua zona de conforto. A narrativa é confusa, lenta e alguns personagens são simplesmente irritantes. Ironicamente, o cineasta disputou a estatueta de melhor diretor com o próprio Scorsese, que estava no páreo pelo irônico "O lobo de Wall Street" - no qual se reinventava novamente. Ambos perderam para Alfonso Cuarón e seu soporífero "Gravidade", mas, por mais difícil que seja de acreditar, o aprendiz com sua versão light dos filmes de golpe parecia ter mais chances que o mestre com seu sarcasmo e ousadia.
A trama de "Trapaça" é complexa como convém a um filme que trata de golpes financeiros, mas narrada de forma convencional, sem maiores arroubos de criatividade, preocupando-se mais com as relações interpessoais de seus personagens, interpretados por atores em momentos de rara inspiração, ainda que por vezes forçados. Christian Bale está mais uma vez irreconhecível como Irving Rosenfeld, um golpista que, em 1977, é forçado a trabalhar ao lado do agente do FBI Ritchie DiMaso (Bradley Cooper) como forma de ter seus crimes perdoados. Casado com a perua Rosalyn (Jennifer Lawrence) - acostumada com os luxos que uma vida de crime proporciona - Rosenfeld conta com a ajuda de sua amante, Sydney (Amy Adams), para tentar jogar o político Carmine Polito (Jeremy Renner) e outros figurões atrás das grades. Logicamente nem tudo sai como o planejado, o que leva todos a situações inesperadas - e a um final inteligente o bastante (mas quase previsível) para justificar os momentos menos ágeis do roteiro.
No fundo, a profusão de indicações de "Trapaça" ao Oscar teve mais a ver com os valores de produção - por se passar no final da década de 70 os figurinos e os cenários mereceram cuidado especial - e o elenco do que exatamente por suas qualidades inovadoras. Parte de um subgênero do cinema hollywoodiano - os filmes de roubo - a obra de Russell segue sua cartilha à risca, criando personagens simpáticos em sua marginalidade e uma trama rocambolesca na medida exata para prender a atenção e não confundir o público. Se Amy Adams utiliza a sensualidade pela primeira vez em sua carreira em um interpretação impecável e Bale mais uma vez mostra que é um ator extraordinário, os coadjuvantes Bradley Cooper e Jennifer Lawrence (protagonistas do filme anterior do diretor) não fazem feio, ainda que a elogiada Lawrence talvez exagere um pouco nas tintas de sua personagem - culpa dela, da direção ou do excesso de expectativa em torno de seu nome?
Em resumo, "Trapaça" é filme razoável mas jamais brilhante, simpático mas nunca encantador. O excesso de indicações ao Oscar talvez tenha representado mais um exemplo de alucinação coletiva que acomete frequentemente a Academia do que um atestado de suas qualidades. Apenas um passatempo com mais ambições do que acertos. E além do mais, tem Robert DeNiro em um papel decente, o que não é sempre que acontece ultimamente.
segunda-feira
ELA
ELA
(Her, 2013, Annapurna Pictures, 126min) Direção e roteiro: Spike Jonze.
Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Jeff Buchanan, Eric
Zumbrunnen. Música: Arcade Fire. Figurino: Casey Storm. Direção de
arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Chelsea
Barnard, Natalie Farrey, Daniel Lupi. Produção: Megan Ellison, Spike
Jonze, Vincent Landay. Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy
Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher. Estreia: 12/10/13
(Festival de Nova York)
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.
Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.
Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.
Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.
Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.
Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.
Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.
Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.
Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.
quinta-feira
O MESTRE
O MESTRE (The master, 2012, The Weinstein Company, 144min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Mihai Malaimare Jr.. Montagem: Leslie Jones, Peter McNulty. Música: Johnny Greenwood. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: David Crank, Jack Fisk/Amy Wells. Produção executiva: Ted Schipper, Adam Somner. Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Madisen Beaty. Estreia: 01/9/12 (Festival de Veneza)
3 indicações ao Oscar: Ator (Joaquin Phoenix), Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Amy Adams)
O cinema de Paul Thomas Anderson não é para qualquer um. A forma
bastante peculiar com que o cineasta trata de personagens
complexas/problemáticas não é exatamente o que os fãs de produções
mainstrean procuram quando se dispõem a frequentar salas de exibição.
Posto isso, é bom que o espectador saiba exatamente o que esperar quando se dispuser a assistir a "O mestre", um dos mais complexos trabalhos do cineasta que, desde seu
segundo longa, "Boogie nights", se tornou uma espécie de queridinho da
crítica mas nunca chegou a emplacar um enorme sucesso de bilheteria
- justamente por não se render a concessões comerciais. Erroneamente
descrito por gente mal-informada como uma crítica à Cientologia - culto
bastante popular nos EUA e especialmente em Hollywood, onde tem
seguidores fervorosos como Tom Cruise e John Travolta - a trama criada
por Anderson vai mais fundo do que simplesmente expor as entranhas de
qualquer culto ou religião, dando ênfase muito mais à alma de seu
protagonista, torturado por questões pessoais mal resolvidas e uma
insegurança cruel em relação a como tratar de sua própria vida.
Vivido por um sensacional Joaquin Phoenix na única atuação masculina de 2012 que era capaz de tirar o Oscar das mãos de Daniel Day-Lewis, o veterano da Marinha americana Freddie Quell é uma das mais fortes personagens criadas por Paul Thomas Anderson - e isso que estamos falando do homem por trás de crias antológicas como Dirk Diggler e Jack Horner, de "Boogie nights", Frank McKey, de "Magnólia" e Daniel Plainview, de "Sangue negro" (este último criado pelo romancista Upton Sinclair mas adequado perfeitamente à obra do cineasta). Sofrendo de um alcoolismo crônico oriundo de seu stress pós-guerra e incapaz de manter-se em qualquer emprego - além de ter sérios problemas de relacionamento com as pessoas que o rodeiam - ele acaba, em uma de suas crises, invadindo o iate de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), criador e líder de um culto chamado A Causa. Percebendo em Freddie uma alma presa a questões traumáticas de seu passado, Dodd também vê no jovem um grande potencial e o aceita junto a seu grupo e sua família. O comportamento errático e violento de Freddie, porém, vai entrar em rota de colisão com as regras e ensinamentos de Dodd, que se vê pressionado a tomar uma séria decisão entre manter ou não o rapaz junto dele.
"O mestre" é o típico filme que é muito melhor quando assistido do que quando resumido em palavras - e que cresce a cada revisão. Apesar da história ser interessante por si só, são as imagens cuidadosamente planejadas de Paul Thomas Anderson e a atuação de seus magníficos atores que dão a ele seu status de grande obra. Mesmo que o ritmo por vezes seja claudicante - e exija um nível de paciência extra de seus espectadores - a narrativa de Anderson é instigante o suficiente para prender a atenção, em especial porque, assim como em seus trabalhos anteriores, o roteiro nunca escorrega para o previsível, tanto em termos visuais quanto em níveis de história. Como poucos cineastas de seu tempo, Paul Thomas Anderson tem o dom de mexer em feridas adormecidas de suas personagens, que sofrem para atingir uma redenção que nem sempre existe, e o faz com maestria admirável. Em "O mestre", enquanto questiona a possibilidade das pessoas em ser donas da própria vida (sem depender de muletas de quaisquer tipos, incluindo aí e principalmente a religião) ele brinda o público com interpretações esplêndidas de seu elenco - outra característica marcante de sua filmografia.
É simplesmente hipnotizante, por exemplo, a cena em que Lancaster Dodd tem seu primeiro embate psicológico com Freddie Quell, com uma espécie de interrogatório que leva a uma catarse emocional empolgante: só por essa cena Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman já poderiam sair da cerimônia do Oscar com suas estatuetas douradas debaixo do braço. O mesmo pode ser dito da sequência em que os métodos e o culto de Dodd são questionados pelo convidado de uma festa - cena que tem consequências aterradoras que certamente justificam a má-vontade com que os cientologistas receberam o filme nos EUA. É essencial dizer, no entanto, que "O mestre" não é um filme sobre a Cientologia e nem tampouco critica qualquer espécie de grupo religioso. O filme - que poderia tranquilamente figurar entre os finalistas ao Oscar principal - é mais um impactante estudo psicológico de Paul Thomas Anderson, caminhando para se tornar um dos maiores cineastas americanos em atividade.
3 indicações ao Oscar: Ator (Joaquin Phoenix), Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Amy Adams)
Vivido por um sensacional Joaquin Phoenix na única atuação masculina de 2012 que era capaz de tirar o Oscar das mãos de Daniel Day-Lewis, o veterano da Marinha americana Freddie Quell é uma das mais fortes personagens criadas por Paul Thomas Anderson - e isso que estamos falando do homem por trás de crias antológicas como Dirk Diggler e Jack Horner, de "Boogie nights", Frank McKey, de "Magnólia" e Daniel Plainview, de "Sangue negro" (este último criado pelo romancista Upton Sinclair mas adequado perfeitamente à obra do cineasta). Sofrendo de um alcoolismo crônico oriundo de seu stress pós-guerra e incapaz de manter-se em qualquer emprego - além de ter sérios problemas de relacionamento com as pessoas que o rodeiam - ele acaba, em uma de suas crises, invadindo o iate de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), criador e líder de um culto chamado A Causa. Percebendo em Freddie uma alma presa a questões traumáticas de seu passado, Dodd também vê no jovem um grande potencial e o aceita junto a seu grupo e sua família. O comportamento errático e violento de Freddie, porém, vai entrar em rota de colisão com as regras e ensinamentos de Dodd, que se vê pressionado a tomar uma séria decisão entre manter ou não o rapaz junto dele.
"O mestre" é o típico filme que é muito melhor quando assistido do que quando resumido em palavras - e que cresce a cada revisão. Apesar da história ser interessante por si só, são as imagens cuidadosamente planejadas de Paul Thomas Anderson e a atuação de seus magníficos atores que dão a ele seu status de grande obra. Mesmo que o ritmo por vezes seja claudicante - e exija um nível de paciência extra de seus espectadores - a narrativa de Anderson é instigante o suficiente para prender a atenção, em especial porque, assim como em seus trabalhos anteriores, o roteiro nunca escorrega para o previsível, tanto em termos visuais quanto em níveis de história. Como poucos cineastas de seu tempo, Paul Thomas Anderson tem o dom de mexer em feridas adormecidas de suas personagens, que sofrem para atingir uma redenção que nem sempre existe, e o faz com maestria admirável. Em "O mestre", enquanto questiona a possibilidade das pessoas em ser donas da própria vida (sem depender de muletas de quaisquer tipos, incluindo aí e principalmente a religião) ele brinda o público com interpretações esplêndidas de seu elenco - outra característica marcante de sua filmografia.
É simplesmente hipnotizante, por exemplo, a cena em que Lancaster Dodd tem seu primeiro embate psicológico com Freddie Quell, com uma espécie de interrogatório que leva a uma catarse emocional empolgante: só por essa cena Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman já poderiam sair da cerimônia do Oscar com suas estatuetas douradas debaixo do braço. O mesmo pode ser dito da sequência em que os métodos e o culto de Dodd são questionados pelo convidado de uma festa - cena que tem consequências aterradoras que certamente justificam a má-vontade com que os cientologistas receberam o filme nos EUA. É essencial dizer, no entanto, que "O mestre" não é um filme sobre a Cientologia e nem tampouco critica qualquer espécie de grupo religioso. O filme - que poderia tranquilamente figurar entre os finalistas ao Oscar principal - é mais um impactante estudo psicológico de Paul Thomas Anderson, caminhando para se tornar um dos maiores cineastas americanos em atividade.
sábado
O VENCEDOR
O VENCEDOR (The fighter, 2010, Closest to the bone Productions, 116min) Direção: David O. Russell. Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson, estória de Paul Tamasy, Eric Johnson, Keith Dorrington. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Pamela Martin. Música: Michael Brook. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Gene Serdena. Produção executiva: Darren Aronofsky, Keith Dorrington, Eric Johnson, Tucker Tooley, Leslie Varrelman, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo. Estreia: 10/12/10
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Amy Adams/Melissa Leo), Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
“O vencedor” não é apenas o primeiro da série de três filmes do cineasta David O. Russell que conquistou a Academia de Hollywood a ponto de chegarem a concorrer aos Oscar de filme, direção e roteiro: é, também, o que melhor soube se aproveitar do estilo despojado e espontâneo do diretor, depois tornado regra e, consequentemente, diluído nos bastante inferiores “O lado bom da vida” (12) e “Trapaça” (13). Baseado no drama real do lutador de boxe Dicky Ecklund – uma lenda em sua comunidade e que viu sua carreira escorrer pelo ralo graças ao vício em heroína – o filme de Russell faz uso inteligente das atuações viscerais e orgânicas de seu elenco principal (seu principal destaque) ao contar uma história onde o esporte divide espaço com as relações familiares de um clã tão disfuncional e problemático quanto interesseiro. Deixando sua câmera circular por um ambiente suburbano quase palpável em sua decadência, o cineasta acerta no registro que beira o documental, mas peca em deixar que tanta liberdade atrapalhe o ritmo da narrativa. No fim das contas, “O vencedor” é um filme acima da média, mas bastante irregular.
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Amy Adams/Melissa Leo), Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
“O vencedor” não é apenas o primeiro da série de três filmes do cineasta David O. Russell que conquistou a Academia de Hollywood a ponto de chegarem a concorrer aos Oscar de filme, direção e roteiro: é, também, o que melhor soube se aproveitar do estilo despojado e espontâneo do diretor, depois tornado regra e, consequentemente, diluído nos bastante inferiores “O lado bom da vida” (12) e “Trapaça” (13). Baseado no drama real do lutador de boxe Dicky Ecklund – uma lenda em sua comunidade e que viu sua carreira escorrer pelo ralo graças ao vício em heroína – o filme de Russell faz uso inteligente das atuações viscerais e orgânicas de seu elenco principal (seu principal destaque) ao contar uma história onde o esporte divide espaço com as relações familiares de um clã tão disfuncional e problemático quanto interesseiro. Deixando sua câmera circular por um ambiente suburbano quase palpável em sua decadência, o cineasta acerta no registro que beira o documental, mas peca em deixar que tanta liberdade atrapalhe o ritmo da narrativa. No fim das contas, “O vencedor” é um filme acima da média, mas bastante irregular.
Um diretor adepto do naturalismo – o
que contraria a condução de seu trabalho mais conhecido até então, a comédia de
guerra “Três reis” (00), realizada dentro dos padrões mais tradicionais do
gênero – Russell frequentemente deixa que o trabalho de seus atores comande a
dinâmica das cenas de seus filmes, e tal tendência fica extremamente clara em
“O vencedor”, uma obra totalmente calcada em seus (ótimos) atores e que em
determinados momentos sofre de uma evidente fragilidade de estrutura dramática.
A opção estética de Russell em tratar sua história em forma semi-documental
remete à maior das obras-primas sobre o mundo do boxe, o brilhante “Touro
indomável” (80), de Martin Scorsese (que também privilegia a energia dos atores
em detrimento de um andamento mais convencional), mas é covardia comparar os
dois filmes: enquanto Scorsese mergulha fundo na alma e nos demônios de Jake La
Motta (interpretação inesquecível de Robert DeNiro), Russell prefere se manter
à margem dos dramas de seu protagonista – que surpreendentemente, não é Dicky
Ecklund, e sim seu irmão mais jovem, Micky Ward, interpretado com segurança por
Mark Wahlberg – como uma espécie de voyeur
de luxo. É inegável que tal opção combina com seus métodos de direção, mas
também é flagrante que é somente em alguns (raros) momentos em que se permite
um pouco mais de emoção que o filme realmente conquista seu público.
Na maior parte do tempo “O vencedor”
acompanha a complicada tentativa de Micky em tornar-se um campeão de boxe, a
despeito da pressão exercida sobre ele por sua mãe, a ambiciosa e por vezes
cruel Alice (Melissa Leo) e pelo resto de sua família – um grupo de irmãs
cafonas e histéricas e seu patético irmão mais velho, Dicky, que passa os dias
enchendo o organismo de drogas enquanto relembra um passado que considera
glorioso. Considerando-se os donos de Micky, Dicky e Alice armam uma cruzada
impiedosa contra sua nova namorada, Charlene (Amy Adams), uma garçonete que não
tem medo de enfrentar a corja que cerca o rapaz e o conduz em direção ao
sucesso no esporte. Dividindo seu tempo entre as brigas entre os dois lados da
questão (com muita gritaria, tapas e desaforos) e as batalhas de Micky dentro
dos ringues, “O vencedor” flui sem maiores problemas – graças à edição
competente também indicada ao Oscar – mas poucas vezes chega a realmente
encantar. Para sorte de Russell, seu elenco se responsabiliza por segurar (e
muito bem) as pontas.
Na pele de Charlene, Amy
Adams foi indicada à estatueta de coadjuvante feminina, mas perdeu para sua
colega de cena Melissa Leo, que rouba a cena sempre que surge na pele da
peruíssima e desagradável Alice. Brilhante, Leo teve sua vitória contestada
devido à feroz campanha feita por ela junto aos membros eleitores – algo não
exatamente proibido pelas regras da Academia, mas no mínimo constrangedor –
porém é difícil não reconhecer sua entrega ao papel, especialmente quando precisa
fazer frente à interpretação impecável de Christian Bale, que levou o Oscar de
ator coadjuvante. Macérrimo na pele de Dicky, o ator inglês confirma com sua
atuação o que todo mundo já conseguia antever desde sua estreia aos onze anos
de idade, em “Império do sol” (87): o fato de que, por trás de sua tão falada
arrogância (que o digam os técnicos agredidos por ele nas filmagens de “O
exterminador do futuro 4”), existe um ator excepcional, capaz de equilibrar
grandes produções comerciais como a trilogia do Batman dirigida por Christopher
Nolan com obras menos imponentes e centradas em personagens mais próximos da
realidade. A cena em que Melissa e Bale abrem seus corações cantando “I started
a joke” é um exemplo perfeito de como “O vencedor” poderia ter sido ainda
melhor se lhe tivesse sido permitido ser mais emocional do que racional.
Para os fãs de boxe “O vencedor” não
irá decepcionar – as lutas são bem filmadas, ainda que não cheguem perto da
energia de outros filmes com a mesma temática, como “Rocky, um lutador” (76) e
“Menina de ouro” (04). Mas é um filme indeciso entre abraçar o lado emotivo de
sua história ou focar na glória (ou na decadência) de um esporte cujas
possibilidades dramáticas são imensas. Ficando no meio-termo acaba por tornar-se
apenas mais um dentre muitos, a despeito de sua calorosa receptividade junto à
Academia – que, além dos prêmios de Leo e Bale, ainda lhe indicou às estatuetas
de filme, direção, roteiro, atriz coadjuvante (Amy Adams) e edição. Um exagero
que o tempo há de deixar ainda mais explícito, apesar das qualidades do filme.
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