Mostrando postagens com marcador DONALD SUTHERLAND. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DONALD SUTHERLAND. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

ASSÉDIO SEXUAL


ASSÉDIO SEXUAL (Disclosure, 1994, Warner Bros., 128min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Paul Attanasio, romance de Michael Crichton. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Stu Linder. Música: Ennio Morricone. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Peter Giuliano. Produção: Michael Crichton, Barry Levinson. Elenco: Michael Douglas, Demi Moore, Donald Sutherland, Caroline Goodall, Roma Maffia, Dylan Baker, Dennis Miller. Donal Logue. Estreia: 28/11/94

Não tinha como dar errado. Em 1994, quando foi lançado, o filme "Assédio sexual" apresentava todos os ingredientes de um grande sucesso: além do tema polêmico, contava com a assinatura de Barry Levinson (diretor oscarizado por "Rain Man", de 1988, e indicado novamente à estatueta, por "Bugsy", de 1991), uma história criada por Michael Crichton (cujo "Jurassic Park" acabava de ser adaptado às telas por Steven Spielberg e se tornava uma das maiores bilheterias da história) e a presença de dois astros de primeira grandeza, Michael Douglas e Demi Moore. E não deu - pelo menos em parte. Com mais de 200 milhões de dólares de arrecadação mundial, a produção deu o que falar em mesas de bar, em artigos de jornal e em reuniões de família, colocando em pauta um assunto ainda delicado (cuja interessante inversão de papéis ajudou no marketing espontâneo) e reforçando a popularidade de seus atores principais. Porém, à parte sua controvérsia e o talento dos envolvidos, o filme de Levinson não deixa de ser uma decepção àqueles que procuram um bom drama de tribunal: superficial e com sérios problemas de foco, "Assédio sexual" é um passatempo correto, mas que perdeu a chance de se tornar um clássico de seu tempo.

Não deixou de ser uma jogada de mestre mudar o foco do romance "Disclosure", de Michael Crichton, para buscar as plateias que lotaram as salas de exibição para ver Michael Douglas sofrendo as consequências de seu caso extraconjugal em "Atração fatal" (1987) ou Demi Moore despertando a luxúria do milionário Robert Redford em "Proposta indecente" (1993) - ambos dirigidos, por coincidência ou não, por Adrian Lyne. Cientes de que o público formaria filas para ver a normalmente delicada Demi assediando sem meias-palavras o frequentemente garanhão Douglas, os produtores transformaram uma subtrama do livro de Crichton em tema principal - e relegaram a história central do romance, que girava em torno de intrigas corporativas em uma empresa de tecnologia, a segundo plano. A estratégia se mostrou acertada em termos comerciais, mas, como efeito colateral, enfatizou a fragilidade com que o escritor desenvolveu o tema. Nem mesmo um roteirista experiente como Paul Attanasio - indicado ao Oscar por "Quiz show: a verdade dos bastidores" (1994) - foi capaz de disfarçar a inconsistência de tamanha alteração de foco: o que era para ser o grande trunfo do filme acabou esvaziado por uma reviravolta anticlimática que funcionou nas páginas mas se despedaçou nas telas.

 

A trama do filme gira em torno de Tom Sanders (Michael Douglas), gerente de uma importante empresa de tecnologia de Seattle, às vésperas de uma fusão milionária que a colocará dentre as grandes companhias do mundo. No dia em que esperava ser promovido a vice-presidente, porém, o pacato Tom, pai de família correto e leal, é pego de surpresa ao reencontrar uma antiga namorada, Meredith Johnson (Demi Moore): não apenas ela vai trabalhar na mesma empresa que ele, como é anunciada no cargo que seria seu. Frustrado e com medo de perder o emprego ao qual se dedica incansavelmente, Tom entra em uma situação ainda mais delicada quando, depois do expediente, em uma reunião com a bela e decidida executiva, é quase forçado a fazer sexo com ela. No dia seguinte, a coisa fica pior: invertendo completamente os fatos, Meredith o acusa de assédio sexual - e caberá a ele provar que uma mulher linda, sensual e poderosa teria necessidade de obrigar um homem a envolver-se com ela. Nem mesmo seu antigo chefe, Bob Garvin (Donald Sutherland), acredita em sua versão, e as consequências do embate poderão acabar com sua carreira e sua família.

Não há grandes problemas em "Assédio sexual", assim como tampouco há grandes qualidades. A impressão que se tem é que todos estão no piloto automático. A direção de Barry Levinson é burocrática - mesmo a comentada cena do assédio não se decide entre ser quente ou incômoda. Michael Douglas faz muito pouco além do corriqueiro, sem oferecer muitas nuances a sua performance, correta mas sem brilho. Nem a trilha sonora do celebrado Ennio Morricone consegue ser marcante, sublinhando apenas com eficiência as sequências propostas pelo roteiro mas nunca chegando à excelência que lhe é costumeira. Quem acaba se beneficiando desse resultado morno é Demi Moore, que se destaca mesmo com uma personagem tão maniqueísta quanto Meredith Johnson. Na pele da antagonista principal - papel para o qual foram consideradas Michelle Pfeiffer, Geena Davis e Annette Bening -, Demi coroava um período fértil para uma carreira que pouco depois cairia em um melancólico limbo, alavancado por fracassos de bilheteria como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997). Linda e esforçada, é ela quem se sobressai em uma produção apenas mediana e sem brilho.

sábado

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA (A dry white season, 1989, MGM Pictures, 106min) Direção: Euzhan Palcy. Roteiro: Colin Welland, Euzhan Palcy, romance de André Brink. Fotografia: Pierre-William Glenn, Kelvin Pike. Montagem: Glenn Cunningham, Sam O'Steen. Música: Dave Grusin. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: John Fenner/Peter James. Produção executiva: Tim Hampton. Produção: Paula Weinstein. Elenco: Donald Sutherland, Susan Sarandon, Marlon Brando, Janet Suzman, Zakes Mokae, Jurgen Prochnow, Winston Ntshona. Estreia: 10/9/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Marlon Brando)

No final dos anos 90, Hollywood parecia ter despertado para a questão do apartheid na África do Sul. Na época, Nelson Mandela ainda cumpria pena, mas filmes como "Um grito de liberdade" (87), de Richard Attenborough - que deu a primeira indicação ao Oscar a Denzel Washington - e "Um mundo à parte" (88), de Chris Menges - prêmio de melhor atriz em Cannes para Barbara Hershey - lidavam abertamente com questões ligadas ao tema. O final dessa trilogia informal, "Assassinato sob custódia", foi lançado em 1989, depois de um processo de produção de cerca de cinco anos, que incluiu uma troca de estúdio (a Warner abandonou o projeto, que foi parar na MGM), a negociação de pagamento mínimo aos atores do elenco (Marlon Brando entre eles) e boatos de espionagem por parte do governo da África do Sul durante as filmagens no Zimbabue. Primeiro filme de um grande estúdio a ser dirigido por uma mulher negra (Euzhan Palcy, nascida na Martinica), a adaptação do romance do sul-africano André Brinks, lançado em 1979 e banido em seu país de origem, é um filme intenso e doloroso, mas que esbarra em um ritmo irregular. Mesmo assim, é de suma importância política e social, ao retratar, sem meias-palavras, a crueldade do regime e a conivência da justiça em um período de extrema violência e preconceito racial.

Lançado no Festival de Toronto de 1989, "Assassinato sob custódia" conquistou elogios calorosos e teve, a seu favor, a publicidade em torno do retorno de Marlon Brando ao cinema, nove anos depois do malfadado "A fórmula" (80). Trabalhando quase de graça, o veterano ator não apenas chamou a atenção do público - ávido por voltar a vê-lo - como também conquistou uma indicação ao Oscar de coadjuvante (a única do filme). Seu desempenho é curto, mas crucial para a trama, apesar de ter sido filmado em apenas oito dias e ter dado trabalho à diretora: não apenas os dois entraram em conflito em razão de uma cena que acabou cortada da montagem final, como Brando alegou ter reescrito algumas cenas e as dirigido pessoalmente. Além disso, deu declarações contrárias à MGM pelo corte final do filme, que, segundo ele, passa a impressão de que "o apartheid é coisa de um passado muito remoto e não atual e presente". Problemas à parte, a presença de Marlon Brando no elenco do filme é apenas uma de suas várias qualidades - e vale mais por sua estatura icônica dentro da indústria do que por seu tempo de tela. O real protagonista é Ben Du Toit, um professor sul-africano, de olhos azuis e de classe média interpretado por Donald Sutherland em registro discreto mas eficiente - mas antes que surja a reclamação de mais um white savior em filmes do gênero, é bom que se destaque que, apesar de ser os olhos da plateia, Ben é apenas uma peça em uma engrenagem de homens e mulheres em busca de justiça - sejam eles brancos ou negros.


Du Toit é jogado em meio à tragédia do apartheid menos velado quando o filho de onze anos de idade de seu jardineiro, Gordon (Winston Ntshona), é sequestrado pelas forças policiais do governo. Em sua trajetória para localizar o menino, Gordon acaba sendo assassinado - tendo sua morte ocultada pelos meios oficiais e declarada natural. Indignado, Ben se une à jornalista britânica Melanie (Susan Sarandon) para tentar jogar luz nas reais condições das prisões do país, onde tortura e assassinato são acontecimentos triviais. Um velho amigo de Gordon, Stanley (Zakes Mokae), é seu guia pelos meandros da sociedade dividida da África do Sul - e irá lhe servir também de apoio quando outras mortes começam a acontecer a seu redor e até sua família, amigos e colegas de trabalho resolvem lhe virar as costas. Em sua descida rumo ao desconhecido, ele conta com seu apego à verdade e à certeza de estar lutando do lado certo da batalha. Seu maior empecilho nisso é o Capitão Stoltz (Jurgen Prochnow), que não mede esforços ou estratégias para apagar os vestígios de seus crimes de ódio.

Assim como "Um grito de liberdade" tratava dos desdobramentos da morte do ativista Steve Biko, "Assassinato sob custódia" se utiliza de um crime bárbaro para mergulhar o espectador em um mundo onde as leis e a igualdade racial só existem na teoria. Durante a primeira metade do filme, a diretora conta sua história com placidez, ainda que revoltosa, como se preparando o público para sua metade final. A partir daí, quando Du Toit e Stanley percebem que a única maneira de desvendar toda a lista de atrocidades que os cerca é jogando com armas menos leais e claras, o filme acelera o ritmo, engrena uma sucessão de sequências impactantes e passa a revelar o caráter real de alguns de seus personagens, conduzindo a um final realista e triste. Pontuado pela bela trilha sonora de Dave Grusin e valorizado por um elenco coadjuvante formado por atores sul-africanos que dão um tom de veracidade ainda maior à trama, o filme de Euzhan Palcy - que posteriormente dedicou-se mais à carreira de documentarista - é um petardo emocional verdadeiro e pungente. Apesar de parecer, em alguns momentos, um telefilme, é um prato cheio para aqueles que gostam de unir o útil ao agradável e procuram entretenimento com substância. Um filme subestimado e muito importante, lançado, ironicamente, na mesma temporada em que "Conduzindo Miss Daisy" - criticado por seu retrato romantizado do racismo - ganhou o Oscar de melhor filme. A Academia, como sempre, perdendo o trem da história!

quarta-feira

CIDADÃO X

CIDADÃO X (Citizen X, 1995, HBO Pictures, 105min) Direção: Chris Gerolmo. Roteiro: Chris Gerolmo, livro de Robert Cullen. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Edelman. Figurino: Maria Hruby. Direção de arte/cenários: Jószef Romvári/Lóránt Jávor. Produção executiva: Laura Bickford, Matthew Chapman, David R. Ginsburg. Produção: Timothy Marx. Elenco: Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey DeMunn, Imelda Staunton, Joss Ackland. Estreia: 25/02/95

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Filmes, Séries ou Minisséries (Donald Sutherland)

O mais famoso e cruel assassino serial da história da Rússia, Andrei Chikatilo, acumulou mais de 50 mortes no período compreendido entre 1978 e 1992. Suas vítimas eram predominantemente menores de idade, meninos e meninas que violentava, assassinava e mutilava enquanto era incansavelmente caçado pela polícia, incapaz de acreditar que seu país pudesse ser o cenário de tamanhas atrocidades. Finalmente preso e condenado, Chikatilo virou manchete pelo mundo todo, e não demorou para que sua história se mostrasse material ideal para uma adaptação para o cinema. Para surpresa de muitos, porém, quem passou à frente dos grandes estúdios de Hollywood foi a televisão: produzido pela HBO - anos antes de tornar-se uma marca famosa pela qualidade de seus produtos - o telefilme "Cidadão X" estreou nos EUA exatamente um ano depois do desfecho da aterrorizante trajetória do monstro russo, e, com um elenco de grandes atores e a ousadia de não aliviar a violência da trama, acabou por mostrar-se uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero.


Fazendo algumas modificações na história original - principalmente em relação à dinâmica entre o principal investigador do caso e seus superiores - o roteiro de "Cidadão X" começa com a descoberta do corpo de uma adolescente em uma floresta. Insatisfeito com a forma com que sua equipe lidou com o caso, o dedicado Viktor Bukarov (Stephen Rea) pede que façam uma busca mais rigorosa no local do crime, à procura de mais indícios. Para sua surpresa, outros sete corpos são localizados enterrados nas proximidades, o que logo lhe deixa claro de que são todas vítimas de um mesmo assassino. Disposto a investigar a fundo o caso, ele conta com o apoio do Coronel Mikhail Fetisov (Donald Sutherland), que, sabendo como lidar com os meandros da política comunista e suas idiossincrasias, lhe oferece toda a ajuda possível, inclusive um encontro com um experiente psiquiatra, Alexandr Bukhanovsky (Max Von Sydow), que traça o perfil psicológico do criminoso a ser caçado, a quem passam a chamar de Cidadão X. Anos e anos se passarão, no entanto, antes que Viktor finalmente consiga por as mãos no monstruoso homicida, que se esconde sob a personalidade de um respeitável homem comum, funcionário de uma fábrica e discreto pai de família.



Ao optar por revelar a identidade do assassino logo no começo do filme - em impressionante atuação de Jeffrey DeMunn - e focar na quase obsessiva investigação de Viktor e seus problemas com as autoridades policiais russas, "Cidadão X" corria o risco de ver seu suspense diluído e, portanto, o interesse diminuído por parte da plateia. Porém, com um roteiro inteligente e uma edição sóbria - que sublinha os momentos de tensão sem que pareçam óbvios ou excessivamente sanguinolentos - a trama é conduzida sem sobressaltos, se equilibrando entre o enredo policial e uma (nem tão) sutil crítica à burocracia da Rússia comunista pré-Perestroika. Stephen Rea mais uma vez brinda o espectador com uma interpretação minimalista, sem maiores arroubos de genialidade, mas consistente o bastante para servir como os olhos da plateia diante da série de horrores que testemunha. Donald Sutherland ganhou um Golden Globe por seu desempenho como o chefe de Rea, mas é Max Von Sydow que praticamente rouba a cena, mesmo aparecendo em poucas mas cruciais sequências: seu embate com o cruel Chikatilo, já no terço final do filme, é de arrepiar, assim como todas as cenas em que o vilão se prepara para dar o bote em suas presas. Mesmo sem inovar na estética ou na narrativa, Chris Gerolmo consegue manter a tensão até o minuto final, que mostra o destino do serial killer com extrema elegância e sutileza.

Apesar da linguagem televisiva - e de conseguir driblar suas limitações com criatividade e bom senso - "Cidadão X" é, antes de tudo, uma excelente história, contada de forma correta e sóbria, com um elenco acima de qualquer crítica. Pode incomodar àqueles que procuram uma obra-prima do gênero, mas aqueles que o encararem como o que ele realmente é - um telefilme acima da média, realizado com extremo cuidado e talento - podem se surpreender e ver que a HBO já estava, na metade dos anos 90, a caminho de sua excelência técnica e criativa. Uma bela opção para quem gosta do gênero.

sexta-feira

GENTE COMO A GENTE

GENTE COMO A GENTE (Ordinary people, 1980, Paramount Pictures, 124min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Judith Guest. Fotografia: John Bailey. Montagem: Jeff Kanew. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva, Phillip Bennett/William Fosser, Jerry Wunderlich. Produção: Ronald L. Schwary. Elenco: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton, Judd Hirsch, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh. Estreia: 19/9/80

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Atriz (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Judd Hirsch), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Redford)), Atriz/Drama (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Revelação Masculina (Timothy Hutton) 

Em 1979, a Academia de Hollywood achou por bem oferecer suas mais valiosas estatuetas - melhor filme, direção, roteiro e ator - a um pequeno drama familiar chamado "Kramer vs Kramer", que também deu a uma então jovem Meryl Streep o prêmio de atriz coadjuvante. A preferência dos votantes por produções mais intimistas e voltadas para sentimentos comuns a uma parcela mais significativa da plateia se manteve no ano seguinte, quando a estreia do ator Robert Redford atrás das câmeras também saiu da cerimônia do Oscar carregado de homenagens. Passando por cima de obras superlativas, como "Touro indomável" (de Martin Scorsese) e "O homem elefante" (de David Lynch), o delicado "Gente como a gente" conquistou as láureas de melhor filme, diretor, roteiro adaptado (de um romance de Judith Guest) e ator coadjuvante (para o estreante Timothy Hutton, na época com apenas 20 anos de idade).

Em termos puramente cinematográficos, talvez realmente tenha sido um exagero da Academia optar pelo filme de Redford em detrimento das obras-primas de Scorsese e Lynch, mas não é difícil compreender suas razões, principalmente se for levada em conta a tendência da época em dar mais atenção a sentimentos discretos do que a grandes explosões de violência e dor. No final dos anos 70, os eleitores da Academia pareciam mais dispostos a abraçar famílias desfeitas do que grandes espetáculos - em uma espécie de surpreendente introspecção que não duraria por muitos anos, uma vez que já em 1982, com "Gandhi", de Richard Attenborough, eles voltaram a prestigiar gigantescas produções. E a obra de Guest, um romance devastador sobre a dor da perda, a incapacidade de lidar com o vazio existencial e o esfacelamento de um núcleo familiar aparentemente perfeito, serviu como uma luva para tais preferências conservadoras do Oscar. O resultado - nada surpreendente depois da chuva de Golden Globes (cinco no total, incluindo um prêmio de revelação masculina para Hutton, que também saiu como melhor coadjuvante) - espelhou também a escolha do National Board of Review e a Associação de Críticos de Nova York. Como se pode ver, não apenas a Academia se deixou seduzir pela sensibilidade de Redford em abordar temas tão difíceis.


"Gente como a gente" lança seu olhar curioso para dentro do lar da família Jarrett - ou o que sobrou dela após a morte do filho mais velho, Buck, em um acidente de barco. Desde o trágico acontecimento, seu irmão caçula, Conrad (Timothy Hutton), não se cansa de sentir-se culpado, o que o levou até mesmo a uma tentativa de suicídio. Já em casa depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico, ele tenta retomar a rotina escolar e de treinos na equipe de natação, mas esbarra na frieza da própria mãe, Beth (Mary Tyler Moore), que tinha preferência pelo filho morto e demonstra desprezo e apatia pelo rapaz. Seu sofrimento em relação a isso é amenizado em parte pelas atenções do pai, Calvin (Donald Sutherland) - também aterrorizado pelos acontecimentos - e por seu novo terapeuta, Berger (Judd Hirsch, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que luta para fazê-lo compreender melhor o mundo a seu redor e perceber as coisas como elas realmente são. É graças a ele que o jovem Conrad se sente capaz de iniciar um tímido relacionamento com Jeannine (Elizabeth McGovern) mesmo quando não se sente totalmente apto a isso. Apesar de tudo, porém, é a falta de comunicação com Beth que o devasta - a ponto de ter a certeza absoluta de que não é amado por ela.

Dirigindo seu primeiro filme com ritmo europeu - lento, discreto, delicado - e evitando ao máximo o sentimentalismo barato que poderia vir com uma trama tão repleta de sofrimento, Robert Redford mostrou-se um cineasta interessado em questões relevantes e sinceras. Sua carreira posterior, no comando de uma série de filmes politicamente responsáveis e pungentes, demonstra seu cuidado em narrar histórias onde o maior interesse reside nos personagens e em seus fantasmas interiores. Surge daí seu talento em extrair de seus atores performances memoráveis. Usando sua experiência como ator para melhor orientar seu elenco, Redford consegue a façanha de criar personagens repletos de nuances e complexos a ponto de evitar o que mais se teme em filmes do gênero: o maniqueísmo. Beth, se aparenta uma frieza quase desprezível em relação ao filho mais jovem, tem seus momentos de dor, escondidos sob uma carapaça que nem mesmo a doçura do rapaz consegue romper. Calvin está no meio de um fogo cruzado, entre a mulher por quem se apaixonou e o filho que tenta ajudar (mas quem fará isso por ele?). E Conrad, sentindo-se culpado pela morte do irmão e pela decepção que causou à mãe, vê na autodestruição o caminho mais correto a seguir. São todos personagens fortes e verossímeis, tratados com respeito pelo roteiro de Alvin Sargent, também premiado com o Oscar. Pode não ser um filme espetacular ou que fez o cinema avançar como técnica, mas "Gente como a gente" tem qualidades redentoras e, assistido com o coração aberto, é emocionante e inesquecível.

terça-feira

JOGOS VORAZES - EM CHAMAS

JOGOS VORAZES: EM CHAMAS (The Hunger Games: Catching Fire, 2013, LionsGate, 146min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Simon Beaufoy, Michael deBruyn, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Jo Willems. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias. Produção executiva: Suzanne Collins, Joseph Drake, Michael Paseornek, Louise Rosner, Ali Shearmur. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Philip Seymour Hoffman, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Lenny Kravitz, JeffreY Wright, Amanda Plummer, Jena Malone, Toby Jones, Lynn Cohen. Estreia: 18/11/13

Já está virando meio tradição dentro da indústria hollywoodiana: talvez por não precisar apresentar seus personagens e poder partir direto pra ação, talvez porque seus criadores sabem que a exigência do público aumenta ou talvez porque existe uma maior familiaridade com o material, os segundos capítulos da maioria das franquias cinematográficas contemporâneas conseguem ser melhores que o original. Foi assim com o "Homem-aranha 2" de Sam Raimi, com o "Batman, o cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan e com "X-Men 2", de Bryan Singer. E foi assim também com "Jogos vorazes, em chamas", continuação do mega bem-sucedido filme de 2012 , baseado na trilogia escrita por Suzanne Collins. Agora sob a batuta de Francis Lawrence - cujo currículo inclui o interessante "Constantine" e a adaptação de "Eu sou a lenda" com Will Smith - a história de Katniss Everdeen em sua luta pela sobrevivência em um jogo de vida ou morte cada vez mais violento (e com intenções sociopolíticas nada justas) e empolgante.

Conforme dito acima, "Em chamas" tem a vantagem de não precisar perder tempo explicando sua trama e apresentando seus personagens - e para isso é crucial que a audiência já tenha assistido ao primeiro capítulo. Quando o filme começa, com eventos que acontecem um ano após o término do filme original, Katniss (Jennifer Lawrence, tornada queridinha de Hollywood pelo Oscar de melhor atriz conquistado por "O lado bom da vida") e seu parceiro Peeta Mellark (Josh Hutcherson), vencedores da 74ª edição dos jogos do título, começam uma turnê por todos os distritos, como forma de aproximar-se da população e dar credibilidade ao governo. Porém, ao perceber a desilusão do povo em relação os problemas sociais que os cercam, o casal (forjado para vencer os jogos) passa a questionar a liderança do Presidente Snow (Donald Sutherland). Temendo uma revolução liderada por Katniss, o presidente cria uma nova regra, que obriga todos os vencedores prévios a lutar novamente - sua intenção é acabar com a vida da jovem, impedindo assim que ela se torne a voz de um levante popular.



Acrescentando à série rostos conhecidos - Amanda Plummer, Jeffrey Wright, Jena Malone como novos competidores e Philip Seymour Hoffman como o novo diretor do torneio - "Em chamas" é mais violento do que seu primeiro capítulo, já apontando a direção que os dois últimos filmes tomarão: cada vez mais acossado, o vilão vivido por Donald Sutherland não hesita em transformar seu governo em uma carnificina e os jogos em uma série de armadilhas cruéis e traiçoeiras. Enquanto aprofunda também a relação entre Katniss e Peeta, o roteiro embaralha as cartas de forma a confundir a plateia até os minutos finais: em um golpe de mestre, a trama cerca a protagonista de aliados e inimigos sem deixar claro nem a ela nem ao público quem é quem - e qual é a sua real missão para acabar com os desmandos de um governo exponencialmente mais sádico. Para isso cresce a importância de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), que deixa de ser apenas um mentor bêbado para mostrar sua verdadeira face em relação à revolução - enquanto outros personagens transitam entre o bem e o mal aguardando a oportunidade de tomar um partido definitivo.

Sob a forma de um filme de ação direcionado ao público infanto-juvenil - o que explica a violência apenas moderada considerando as possibilidades da trama - Lawrence aproveita a história de Suzanne Collins para, exatamente como aconteceu no primeiro, discutir temas de relevância, como desigualdade social, fascismo e manipulação por parte da mídia. Logicamente, por tratar-se de uma produção cujo público-alvo não estar exatamente disposto a querelas políticas, o subtema é tratado apenas superficialmente (ainda que seja bastante claro para qualquer pessoa minimamente esclarecida), como pano de fundo para uma obra que oferece exatamente aquilo que sua plateia deseja: cenas de ação bem realizadas, um triângulo amoroso eficiente, personagens cativantes (interpretados por atores de qualidade inquestionável, como Philip Seymour Hoffman e Jeffrey Right) e um ritmo incapaz de cansar, apesar dos longos 146 minutos de projeção. Somadas a um criativo visual - refletido no figurino irreverente de Trish Summerville - e um roteiro redondinho - co-escrito por Simon Beaufoy, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" - essas qualidades fazem com que o único problema do filme seja justamente ter que esperar até o próximo capítulo - que, segundo mais uma nova tradição imposta pela busca por lucros, será dividido em dois filmes.

quinta-feira

JOGOS VORAZES



JOGOS VORAZES (The hunger games, 2012, LionsGate, 142min) Direção: Gary Ross. Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins, Billy Ray, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Christopher S. Capp, Stephen Mirrione, Juliette Wellfling. Música: James Newton Howard. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias. Produção executiva: Robin Bissell, Suzanne Collins, Louise Rasner-Meyer. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Heinsworth, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Stanley Tucci, Elizabeth Banks, Wes Bentley. Estreia: 12/3/12

Com o final da série "Harry Potter" e a iminente chegada do último capítulo da saga "Crepúsculo" - dividido em dois filmes para aproveitar até a última gota das aventuras vampiras estreladas pelos tenebrosos Kristen Stewart e Robert Pattinson - os estúdios de Hollywood estavam desesperadamente ansiosos por uma nova possibilidade de franquia infanto-juvenil. Pois os executivos não demoraram a poder dormir tranquilos: com mais de 150 milhões de dólares arrecadados em seu fim-de-semana de estreia, o filme "Jogos vorazes", adaptado de uma trilogia escrita por Suzanne Collins já foi considerado um enorme sucesso logo de cara - e suas continuações só encheram ainda mais os cofres dos produtores.. A melhor notícia, porém, é que o filme é muito bom. Apesar de ter como público-alvo uma plateia adolescente (idade dos protagonistas), é capaz de agradar aos adultos dispostos a um bom entretenimento por acrescentar à receita ingredientes que nunca estiveram presentes nos filmes de Bella e Edward: inteligência, talento e discussões bem mais sérias do que se poderia esperar de um passatempo hollywoodiano.

Dirigido por Gary Ross - que dirigiu o encantador "A vida em preto-e-branco" e o correto mas superestimado "Seabiscuit, alma de herói" - "Jogos vorazes" tem a seu favor uma heroína carismática (interpretada pela ótima Jennifer Lawrence, já então indicada ao Oscar por "Inverno da alma" e prestes a ser premiada por "O lado bom da vida"), um assunto momentoso (a febre dos reality shows + a violência) e uma história interessante o bastante para manter a plateia atenta durante toda a sua longa duração (mais de 140 minutos que passam rapidamente diante dos olhos do público). Ainda que demore a realmente começar - o que só acontece pela metade da projeção - o faz de maneira a apresentar devidamente suas personagens centrais e coadjuvantes (uma coleção de tipos bizarros vividos por gente do calibre de Donald Sutherland, Stanley Tucci e Woody Harrelson) antes da pancadaria. E para aqueles pais que se preocupam com o excesso de violência dos livros, um aviso: está tudo muito bem dosado no roteiro, sem exagero de nenhuma espécie - a Lionsgate não seria irresponsável de arriscar uma classificação etária que prejudicasse sua bilheteria, afinal de contas...


Para quem não sabe, "Jogos vorazes" se passa em um futuro distópico onde não existe mais a América do Norte e sim uma grande nação dividida em distritos. Como castigo pela rebelião ocorrida décadas antes - e que resultou em uma guerra - cada um de 12 distritos deve, anualmente, ceder um casal de adolescentes para participar de um reality show com o mesmo nome do filme: nesse jogo, eles não lutam por dinheiro ou glória, e sim pelas próprias vidas, sendo assistidas fielmente por milhares de espectadores. Na edição de número 74 dos famigerados jogos, a adolescente Katniss Everdeen (Lawrence) entra como voluntária, para impedir a irmã caçula de participar da caçada humana. A seu lado entra o jovem Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de "Minhas mães e meu pai"), apaixonado por ela mas sem esperanças de ser correspondido. Conforme o jogo avança, porém, os dois percebem que forjar um romance pode ajudá-los a chegar ao final da disputa.

Qualquer semelhança com os Big Brothers da vida não é apenas casual. A crítica feroz que os livros de Collins fazem ao gênero não é disfarçada no filme de Ross, apesar do relativo senso de humor com que o tema é tratado em alguns momentos (em especial quando está em cena o sempre competente Stanley Tucci no papel de um Pedro Bial mais exótico e menos chato). Filmado em ângulos ousados para um produto que poderia facilmente ser tratado apenas como tal e com uma escolha de elenco acima de qualquer crítica (Woody Harrelson novamente rouba as cenas em que parece), "Jogos vorazes" mereceu todo o sucesso que fez. O roteiro se equilibra bem entre a ação, o romance e o drama, conduzindo tudo para um final devidamente climático e uma porta escancarada para os capítulos seguintes. Quem leu os livros sabe o que esperar.

quarta-feira

EPIDEMIA

EPIDEMIA (Outbreak, 1994, Warner Bros, 127min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Laurence Dworet, Robert Roy Pool. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: William Hoy, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Neil Travis. Música: James Newton Howard. Figurino: Erica Edel Phillips. Direção de arte/cenários: William Sandell/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Duncan Henderson, Anne Kopelson. Produção: Gail Katz, Arnold Kopelson, Wolfgang Petersen. Elenco: Dustin Hoffman, Rene Russo, Morgan Freeman, Kevin Spacey, Cuba Gooding Jr., Donald Sutherland, Patrick Dempsey. Estreia: 06/3/95

Um filme sobre um ameaçador vírus capaz de matar em poucas horas - e que está perigosamente se espalhando pelos EUA - dirigido por Ridley Scott, estrelado por Robert Redford e Jodie Foster e chamado "Hot zone" estava em preparação na Fox quando a notícia de que uma produção similar estava em andamento na Warner. O fato de dois filmes semelhantes estarem em desenvolvimento nem é tão raro em uma terra de poucas ideias realmente originais quanto Hollywood, mas tornou-se uma batalha aberta, com os dois estúdios ansiosos pela primazia nas bilheterias. Porém, ao contrário do que acontece na maioria das vezes (quando mais de um filme sobre o mesmo assunto realmente chega a estrear e disputar público), "Epidemia", a produção da Warner, dirigida por Wolfgang Petersen e estrelada por Dustin Hoffman e René Russo acabou por abortar o trabalho de Scott, Redford e companhia e chegar sozinho às telas. Embalado pela epidemia do vírus Ebola na África poucos meses antes - um marketing macabro mas bastante eficiente - o filme se deu bem nas bilheterias, rendendo quase 200 milhões de dólares mundo afora.

Ficando com o papel que seria de Harrison Ford em uma primeira versão do roteiro, Dustin Hoffman faz sua estreia em um filme de ação na pele de Sam Daniels, um coronel do exército norte-americano encarregado de investigar o surgimento de uma epidemia de febre hemorrágica oriunda da África. Como responsável pelo USAMRIID (Instituto de Pesquisa Médica para Doenças Infecciosas dos EUA), ele alerta as autoridades sobre o possível alcance da doença em território americano, mas vê seus conselhos ignorados por seu superior, o General Billy Ford (Morgan Freeman), que afasta a possibilidade de uma epidemia em seu país. O que Daniels não sabe é que o mesmo Ford, em conluio com outro general, Donald McClintock (Donald Sutherland) já sabia da existência de um vírus semelhante, surgido no Zaire em 1967 - e que ambos juraram ter extinguido depois da ordem de explodir a aldeia que apresentava a doença, em uma ação secreta do governo. Vinte e cinco anos depois, porém, o vírus está de volta, transmutado, mais potente e ameaçando o país, onde chegou através de um pequeno macaco contrabandeado. Quando uma pequena cidade torna-se o centro da epidemia, cabe a Daniels impedir que a mesma decisão seja tomada: com a ajuda do jovem Major Salt (Cuba Gooding Jr.) e da ex-mulher Robby (René Russo) - cientista por quem ainda é apaixonado - ele tem que localizar o hospedeiro, encontrar uma cura e salvar a vida de centenas de pessoas.


Dividindo seu foco entre as pesquisas científicas, a busca pelas causas da epidemia, as conspirações governamentais de gabinete e as trágicas consequências da epidemia, o filme de Wolfgang Petersen surpreendentemente não se torna uma obra sem personalidade. O roteiro equilibrado permite à plateia que se envolva com cada uma das histórias contadas, que, unidas, formam um conjunto coeso e bastante interessante, especialmente porque escapa do sensacionalismo quase inevitável do tema. Petersen evita inclusive imagens muito gráficas, preferindo a sugestão ao invés do óbvio: claro que há cenas que mostram as vítimas agonizando e com o corpo perdendo sangue profusamente, mas até mesmo nesses momentos há uma elegância e uma discrição que o afasta dos slasher movies sanguinolentos. Não interessa ao diretor apavorar o público com imagens cruéis e sim prendê-lo na poltrona com uma história de tensão e ação com inteligência acima da média. E isso ele consegue sem fazer muita força.

A maior qualidade de "Epidemia", no entanto, vem do fato de ele conseguir ser um filme de puro entretenimento a respeito de um assunto sério e assustador. Sem a intenção de ser didático, ele é apenas um filme de ação, realizado com toda a competência de que um cineasta como Petersen é capaz. Além do mais, apresenta um elenco de competência indiscutível - além de Hoffman, Morgan Freeman e Donald Sutherland, há ainda um Kevin Spacey pré-consagração - e um senso de ritmo dos mais felizes. O terço final, quando Daniels está em vias de encontrar o macaco hospedeiro e o governo já está mandando aviões acabarem com a pequena cidade onde a epidemia está se descontrolando, é um primor de suspense, enfatizado pela trilha sonora de James Newton Howard e pela edição soberba, capaz de deixar qualquer espectador com a respiração suspensa. E, além de tudo, não é sempre que o público tem a chance de testemunhar um dos maiores atores do cinema - Dustin Hoffman - brincar de herói de filme de ação. Um diferencial a mais em um filme que cumpre o que promete.

segunda-feira

SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO

SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO (Six degrees of separation, 1993, MGM Productions, 112min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: John Guare, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Dennis Bradford/Gretchen Rau. Produção executiva: Ric Kidney. Produção: Arnon Milchan, Fred Schepisi. Elenco: Donald Sutherland, Stockard Channing, Will Smith, Ian McKellen, Mary Beth Hurt, Bruce Davison, Richard Masur, Heather Graham, Anthony Michael Hall. Estreia: 08/12/93

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Stockard Channing)

Em 1983, um jovem negro de 19 anos de idade chamado David Hampton penetrou na alta sociedade de Manhattan e, se fazendo passar por filho do ator Sidney Poitier, conseguiu ludibriar personalidades como Melanie Griffith, Gary Sinise e Calvin Klein e gente da alta sociedade nova-iorquina, como o reitor de uma faculdade de jornalismo e um famoso urologista. Alegando ser amigo de seus filhos que estavam na universidade, ter sido assaltado ou ter perdido a bagagem em voo de avião, ele se hospedava nos apartamentos de suas vítimas e, uma vez tendo-as conquistado, até conseguia que lhes emprestassem dinheiro. Farsa descoberta, o rapaz foi preso e banido de Nova York - até morrer, vítima de complicações relacionadas ao vírus da AIDS, em 2013. Sua história - quase absurda demais para ser verdade - chegou aos ouvidos do dramaturgo John Guare, que não resistiu à tentação de levá-la para os palcos. A peça "Seis graus de separação" estreou em novembro de 1990, foi indicada ao Tony de melhor espetáculo do ano e, pouco menos de três anos depois, chegava também às telas de cinema, adaptada pelo próprio Guare, dirigida por Fred Schepisi e estrelada pela mesma atriz que lhe deu vida na Broadway, Stockard Channing, que acabou indicada ao Golden Globe e ao Oscar por sua interpretação.

Mais conhecida como a encrenqueira Rizzo de "Grease, nos tempos da brilhantina" (78), Channing está brilhante no papel de Ouisa Kittredge, uma sofisticada e quase fútil socialite nova-iorquina que trabalha, ao lado do marido, Flan (Donald Sutherland) negociando valiosas obras de arte para colecionadores que dispensam o intermédio de galerias. Com os três filhos na universidade, eles vivem em um mundo de luxo e conforto - ainda que também se utilizem dos privilégios da aparência social - cuja rotina de jantares e festas é quebrado uma noite com a chegada em sua casa de Paul (Will Smith em seu primeiro papel de destaque em Hollywood), um jovem que, alegando ter sido assaltado em frente a seu prédio, apresenta-se como amigo de seus filhos. Enquanto é auxiliado pelo casal - e por um convidado sul-africano que está de passagem pela cidade, o milionário Geoffrey Miller (Ian McKellen) - Paul conta a eles sua história de vida, terminando por afirmar-lhes ser filho do primeiro casamento de Poitier. Fascinados com a situação - e com a possibilidade de fazerem parte de uma possível filmagem do musical "Cats" que está presumivelmente sendo produzida pelo ator - os Kittredge se deixam envolver com a lábia e a simpatia do rapaz, a ponto de convidá-lo a passar a noite em sua casa. Depois que a noite acaba mal, porém, eles chegam à conclusão de que Paul não é exatamente quem eles pensavam.


Em um encontro com um casal de amigos, os também ricaços Kitty (Mary Beth Hurt) e Larkin (Bruce Davison), os Kittredge ficam abismados quando descobrem que o mesmo golpe foi aplicado em seus amigos e resolvem ir à polícia. Para sua surpresa, o caso não é novo, e um médico da cidade, Dr. Fine (Richard Masur) surge para comprovar a afirmação. Com um misto de curiosidade/preocupação/senso de aventura, o grupo de "vítimas" resolve investigar a fundo e tentar descobrir a origem de Paul, seus objetivos em penetrar na alta sociedade e seu paradeiro. Para isso, contam com a ajuda - a princípio contrafeita - dos filhos e de Trent (Anthony Michael Hall), um antigo amigo dos jovens, que parece ter sido o ponto de partida da farsa, que chega a um patamar ainda maior quando ele ressurge espalhando por Manhattan que é um filho rejeitado de Flan Kittredge.

Escrito com um sarcástico senso de humor mergulhado em uma tocante melancolia e uma feroz crítica à futilidade da refinada sociedade de Manhattan - e do mundo todo, de uma maneira ou outra - "Seis graus de separação" consegue manter um equilíbrio perfeito entre o humor sutil e o drama delicado, sem jamais pesar a mão para nenhum lado. Ao narrar sua história como uma anedota inconsequente do jet-set nova-iorquino (o que dá vazão a uma memorável explosão final de Ouisa em um jantar chique), Guare enfatiza toda a diferença cultural que afasta os bem-nascidos como os Kittredge dos renegados como Paul, que anseiam desesperadamente por um mundo de luxo, arte, conforto e atenção. Para isso é fundamental, portanto, a atuação madura de Will Smith, brindando a plateia com um personagem que, à parte o carisma de sempre, em nada lembra seus papéis posteriores. Com um misto de desamparo, ginga e obsessão, ele constroi um Paul sempre surpreendente, que vai revelando camada por camada conforme a trama se desenvolve - também é notável o trabalho de edição de Peter Honess, que mantém a atenção do público sempre constante.

"Seis graus de separação" é um filme que cativa aos poucos, se revelando, em seu final, uma produção muito mais inteligente e instigante do que parecia em seus primeiros minutos. Uma pérola pouco conhecida capaz de conquistar o mais exigente espectador.

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Don't look now, 1973, Casey Productions/Eldorado Films, 110min) Direção: Nicolas Roeg. Roteiro: Alan Scott, Chris Bryant, estória de Daphne Du Maurier. Fotografia: Anthony Richmond. Montagem: Graeme Clifford. Música: Pino Donaggio. Direção de arte: Giovanni Soccol. Produção executiva: Anthony B. Unger. Produção: Peter Katz. Elenco: Donald Sutherland, Julie Christie, Hilary Mason, Clelia Matania. Estreia: 09/12/73

É difícil um filme de suspense ganhar o espectador logo nas primeiras cenas sem que para isso precise apelar para a sanguinolência explícita. E já de cara o perturbador "Inverno de sangue em Veneza" fisga o público, com uma engenhosa edição que diz, apenas com imagens sublimes de crianças brincando em um gramado e uma trilha sonora espetacular de Pino Donaggio, que vem desgraça pela frente. Não demora muito e a plateia é testemunha de tal desgraça: a filha pequena do arquiteto John Baxter (Donald Sutherland) morre afogada praticamente diante dos olhos terrificados do pai e do irmão. Assim começa um dos filmes mais aclamados do cineasta inglês Nicolas Roeg, adaptado de um conto da escritora Daphne Du Maurier - a mesma autora de "Rebecca, a mulher inesquecível" e "Os pássaros", que aprovou de tal maneira a forma cinematográfica que sua estória recebeu que não hesitou em escrever uma carta ao diretor, cumprimentando-o pelo tom funesto que ele imprimiu à trama.

O tom funesto, aliás, não fica apenas na primeira e chocante sequência de "Inverno de sangue em Veneza". A morte da pequena Christine é apenas o ponto de partida para uma viagem angustiante a ruas escuras e pouco convidativas da cidade italiana do título nacional. Fugindo da tentação de mostrar Veneza como um paraíso turístico, Roeg a retrata como o cenário de um pesadelo psicológico, onde cegas videntes, premonições assustadoras e serial killers convivem pacificamente com igrejas em processo de restauração e imagens misteriosas se esgueirando em becos escuros com intenções ainda mais tenebrosas. Roeg se utiliza da fotografia estilizada de Anthony Richmond - que apresenta momentos de grande beleza plástica - e da edição repleta de elipses temporais de Graeme Clifford para traduzir em imagens uma narrativa densa que mantém o suspense até as cenas finais, que completam o complexo quebra-cabeça armado desde seu princípio.


Depois da morte de sua filha, John aceita o trabalho de restaurar uma igreja em Veneza e vai para a Itália acompanhado da esposa, Laura (Julie Christie). Seu objetivo, além do interesse no emprego, é tentar superar o trauma da perda, mas a coisa não parece que vai ser assim tão fácil quando eles encontram duas irmãs em um restaurante da cidade. Uma das irmãs, cega e medium, afirma a Laura ter contato com a menina morta. Além disso, insiste que John também o dom da mediunidade e que precisa sair urgente da cidade, por sua vida estar correndo sério risco. Nesse meio-tempo, o arquiteto passa a ter visões de uma menina vestida com a mesma capa de chuva vermelha que sua filha usava na ocasião de sua morte - e, por coincidência ou não, o casal começa a esbarrar constantemente nas duas velhas irmãs.

Apesar de seu ritmo um tanto lento ser um risco ao espectador menos dado a experimentações estéticas e formais, "Inverno de sangue em Veneza" tem, inegavelmente, o poder de manter o suspense até seu clímax, que também foge do padrão do gênero. Intercalando cenas de extremo poder dramático com momentos de uma aparente paz de espírito entre o casal central - incluindo uma cena de sexo bastante longa e que acabou sendo uma das sequências mais comentadas do filme - Roeg conduz com sutileza uma trama forte e tensa que só vai fazer sentido totalmente em seus momentos finais. Pode ser que a audiência sinta-se incomodada, mas não é essa a intenção de uma obra de arte?

quinta-feira

KLUTE, O PASSADO CONDENA

KLUTE, O PASSADO CONDENA (Klute, 1971, Warner Bros, 114min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Andy Lewis, David E. Lewis. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Carl Lerner. Música: Michael Small. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John Mortensen. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Jane Fonda, Donald Sutherland, Roy Scheider, Charles Cioffi, Dorothy Tristan, Rita Gam. Estreia: 23/6/71

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jane Fonda)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jane Fonda)

No início dos anos 70, poucas atrizes eram consideradas tão "perigosas" quanto Jane Fonda. Suas ideias fortes e polêmicas a respeito de temas controversos como o movimento feminista e os protestos contra a guerra do Vietnã - que chegaram a lhe render o apelido nada elogioso de "Hanoi Jane" -  não apenas deixavam sua já difícil relação com seu pai Henry, um notório conservador, ainda mais complicada, como também lhe rendiam muitas antipatias. Por esse motivo, havia uma certa aura de apreensão na noite de 10 de abril de 1972, quando foram entregues as estatuetas do Oscar aos melhores do ano de 1971. Era esperado que a então caçula do clã Fonda, uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz por seu desempenho no policial "Klute, o passado condena", fosse fazer um discurso político se levasse o prêmio. Porém, se no filme de Alan J. Pakula ela não decepcionou ninguém - nem aos produtores, que a viram sagrar-se vencedora - seu discurso provavelmente deixou muita gente surpresa. Contrariando todas as expectativas, Jane foi concisa e elegante: "Há muita coisa a ser dita, mas eu não as direi hoje esta noite."

Por mais que em muitas de suas pautas políticas Jane estivesse coberta de razão, ela não poderia ter sido mais feliz em sua discrição na entrega do Oscar. O que estava sendo celebrado aquela noite era seu trabalho fascinante como Bree Daniel, uma garota de programa de luxo que comandava a ação do policial cerebral de Alan J. Pakula, um cineasta que como poucos de sua geração, conseguiu captar com perfeição o espírito paranoico de seu tempo - após "Klute" ele assinaria ainda os contundentes "A trama" e "Todos os homens do presidente", que deixariam claro ao público sua inclinação em desvendar o que se passa por trás das portas fechadas não só de pessoas comuns mas também daqueles que governam o país mais influente do mundo. Bree, a personagem de Fonda, é uma mulher que procura na prostituição uma forma de ganhar a vida enquanto não se acerta como atriz ou modelo e não faz disso um drama - ainda que tente equilibrar suas dúvidas existenciais com uma terapeuta. Sua vida aparentemente tranquila sofre uma reviravolta inesperada, porém, quando ela conhece John Klute (Donald Sutherland), um detetive particular que chega até ela em busca de um possível cliente seu misteriosamente desaparecido.


Klute é interpretado por Sutherland - vindo do sucesso da comédia de guerra "MASH", dirigida por Robert Altman - em notas sutis. Na pele de um detetive do interior, desacostumado a maiores violências e pouco à vontade com o ritmo acelerado de Nova York, o ator foge do exagero, preferindo seguir um minimalismo que combina à perfeição com o clima sóbrio e quase claustrofóbico imposto por Pakula. O roteiro não se prende à tentativa de criar um suspense convencional, revelando o criminoso bem antes do final, optando por contar mais a história da relação entre o sóbrio Klute e a sensual e insegura Bree - que a princípio assustada com a aproximação do investigador, que chega a grampear seus telefonemas, logo se vê atraída por suas maneiras delicadas e gentis. A diferença radical entre seus protagonistas e a forma com que eles lidam com ela é que segura "Klute, o passado condena" e o afasta do rótulo fácil de filme policial. Os elementos do gênero estão todos presentes (assassinatos misteriosos, telefonemas assustadores, suspeitos mal-intencionados), mas interessa mais ao cineasta o estudo de seus personagens do que viradas espetaculares na trama.

E, para sorte de Pakula, o que não falta em "Klute" são bons atores. Se Sutherland está discreto, pontuando com eficiência e sensibilidade um espetáculo que tem a violência como tema (mas não como chamariz) e Roy Scheider mostra porque era um dos vilões preferidos dos diretores de sua época pré-"Tubarão", Jane Fonda brilha radiante em mais uma atuação irretocável. Dona de um estilo de interpretação que valoriza mais os pequenos detalhes que criam a personagem do que gestos espalhafatosos, Fonda conquista o espectador pelo olhar, que diz coisas diferentes a cada momento: angústia em suas sessões de terapia, audácia em seus primeiros encontros com Klute e fragilidade logo adiante e principalmente uma certa desesperança em perceber como seus sonhos de estrelato fogem de suas mãos a cada audição frustrada. Seu Oscar foi mais do que merecido, embora o filme possa decepcionar a quem procura uma trama policial comum. Se não for esse o caso, é um belo drama de suspense que vale a pena conferir - nem que seja para aplaudir Jane, uma ausência cada vez mais sentida na tela grande.

sexta-feira

QUERO MATAR MEU CHEFE

QUERO MATAR MEU CHEFE (Horrible bosses, 2011, New Line Cinema, 98min) Direção: Seth Gordon. Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley, Jonathan Goldstein, estória de Michael Markowitz. Fotografia: David Hennings. Montagem: Peter Teschner. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Carol Ramsey. Direção de arte/cenários: Sheperd Frankel/Jan Pascale. Produção executiva: Richard Brener, Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny. Produção: Brett Ratner, Jay Stern. Elenco: Jason Bateman, Jason Sudeikis, Charlie Day, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx, Donald Sutherland, Julie Bowen. Estreia: 08/7/11


A primeira lembrança que vem à mente é a comédia semi-clássica “Como eliminar seu chefe”, a pérola kitsch estrelada por Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton na já longínqua década de 80. Porém, apesar do título nacional e da temática semelhante, não há como comparar a quase inocência do filme de Fonda com a coragem desbragada de “Quero matar meu chefe”, lançado pelo cineasta Seth Gordon no rastro do imenso sucesso das chamadas “comédias adultas” que encheram os cofres dos estúdios a partir de “Se beber, não case” e “Missão madrinha de casamento”. Grandes êxitos comerciais e até, condescendentemente, de crítica – o primeiro levou um Golden Globe e o segundo chegou a concorrer a dois Oscar – os filmes que deram suporte a atores como Bradley Cooper e Melissa McCarthy foram os sinalizadores de um tipo de humor que parecia ter ficado no passado, em detrimento de filmes menos agressivos à suscetibilidade de um público cada vez mais conservador – paradoxalmente, enquanto as comédias encaretavam cada vez mais, as produções com doses cavalares de violência extrema tornavam-se progressivamente mais virulentas. Aproveitando o que parecia ser uma certa permissividade em relação ao que poderia ou não soar engraçado aos olhos e ouvidos de uma plateia média, “Quero matar meu chefe” acertou em cheio, misturando em doses exatas piadas no limiar do mau-gosto, humor físico e uma ironia fina – cortesias de um roteiro equilibrado, um ritmo admirável e, a cereja do bolo, um elenco coadjuvante de primeira linha. Não é de surpreender que tenha deixado os executivos da Warner com um sorriso de orelha a orelha – a ponto de uma continuação muito inferior ter surgido dois anos depois.
Enquanto no filme de 1981, as moçoilas vividas por Fonda, Tomlin e Parton eram secretárias que, cansadas das humilhações diárias impostas por seu patrão imaginavam maneiras de eliminá-lo dentro de um humor ingênuo e apropriado à fama de suas atrizes centrais, em “Quero matar meu chefe” a sutileza dá lugar ao escracho puro e simples, em uma sucessão de tiradas hilariantes que não poupam nada nem ninguém – e dá-lhe citações a filmes famosos (“Pacto sinistro”, de Hitchcock, à frente), personagens de quadrinhos (“Demita o Professor Xavier!”, dispara o cruel Colin Farrell, referindo-se a um funcionário cadeirante) e diálogos sem meias-palavras travadas entre a até então pudica Jennifer Aniston e seu assistente tímido e apavorado com o assédio. Tendo como um dos produtores o também cineasta Brett Ratner – de “X-Men: o confronto final”, entre outros – o filme de Gordon faz rir tanto aqueles que preferem um humor verbal menos óbvio quanto aqueles que buscam na comédia uma forma de desligar o cérebro para rir das próprias desgraças. Em outras palavras, é um filme sem contra-indicações.



Nick (Jason Bateman, com ótimo timing cômico) vive para o trabalho, tendo abdicado de toda e qualquer outra atividade há oito anos, com o claro objetivo de ser promovido e melhorar a qualidade de vida. Seus planos vão por água abaixo, porém, quando seu chefe, Harken (Kevin Spacey), resolve dar o cargo de vice-presidente de vendas a ele mesmo – acumulando assim duas funções e dois salários, não sem antes humilhar o funcionário e chantageá-lo com a ameaça de destruir seus futuros planos profissionais. Kurt (Jason Sudeikis) é um mulherengo contumaz que adora o trabalho em uma indústria química e o patrão (Donald Sutherland), mas quando este morre e deixa como herdeiro seu único filho, o agressivo, viciado em cocaína e egoísta Pellit (Colin Farrell), sua rotina vira de cabeça pra baixo – o novo diretor da empresa não hesita em contratar serviços mais baratos nem que tenha que sacrificar trabalhadores escravos, e deseja cortar as gorduras nos gastos da companhia (“Demita os gordos!”, declara sem pena). E Dale (Charlie Day, irresistível) é um rapaz romântico que acaba de ficar noivo e que sofre com o violento assédio sexual que sofre da patroa, a ninfomaníaca (Jennifer Aniston), que não hesita em deixar bem claro que, caso eles não transem antes do casamento, a cerimônia pode nem mesmo acontecer. Dale, coitado, nem mudar de emprego consegue: fichado na polícia como criminoso sexual por ter urinado em um parque infantil à noite (com o local deserto!!), ele é incapaz de arrumar uma posição melhor do que assistente de dentista.
Sofrendo com suas vidas profissionais, os três amigos resolvem, então – depois de chegarem à conclusão de que buscar um novo posicionamento no mercado é algo pouco encorajador em sua idade – tomar uma atitude drástica: assassinar seus patrões. A idéia, surgida no meio de uma bebedeira, toma ares de um plano real quando eles procuram um “assessor para assassinatos”, o misterioso Motherfucker Jones (Jamie Foxx), que lhes dá as diretrizes básicas do projeto: cada um irá matar o chefe do outro, para afastar suspeitas. E é aí que começa a bagunça: as particularidades de cada uma das possíveis vítimas vão sendo arquivadas mentalmente pelo trio de homicidas novatos e, como se poderia esperar de uma comédia, nada sai conforme o planejado e sequências divertidíssimas acompanham a aventura dos pobres assalariados: desde a invasão da casa de Pellit – quando eles encontram uma decoração absurdamente cafona e uma quantidade bizarra de cocaína – até o encontro acidental entre Dale e Harken na frente de sua mansão, que culmina com um bizarro caso de ressuscitação médica, Seth Gordon entrega ao público uma sucessão de situações bem amarradas e sinceramente engraçadas, capaz de fazer rir até o mais cínico espectador – e nem mesmo o final pouco criativo consegue diminuir a qualidade do filme.
Mas, como não poderia deixar de ser, um roteiro inspirado não seria o bastante se o elenco não correspondesse a ele. Se o trio de protagonistas demonstra uma química admirável – Charlie Day, da série “It’s Always sunny in Philadelphia” rouba todas as cenas em que aparece – o mesmo pode ser dito dos coadjuvantes, um grupo de atores consagrados que demonstra uma bem-vinda e corajosa dose de autogozação. Jennifer Aniston deixa de lado as mocinhas sofridas de suas comédias românticas e constrói uma Diana quase cruel em sua obsessão de traçar o empregado quase pueril – Aniston não tem medo de recitar diálogos cabeludos ou de fazer cenas francamente a um passo do vulgar (como aquela em que tenta seduzir Kurt apenas comendo alimentos de formato fálico). Colin Farrell abandona o porte de galã e ator sério ao encarar com deboche consumado o egocêntrico Pellit, construído visualmente de forma a deixar o ator irlandês a milímetros do grotesco – uma careca disfarçada por fios penteados para o lado, olhos arregalados de paranoia, um barrigão proeminente. E Kevin Spacey faz de seu Harken um canalha impenitente que somente ele é capaz de fazer sem o menor esforço: Spacey, um dos melhores atores americanos de sua geração, faz do personagem uma espécie de primo do executivo de cinema que ele interpretou em “O preço da ambição” (1994) e um ensaio para o venal protagonista de série “House of cards”. Não bastasse esse trio de ouro, Donald Sutherland, Jamie Foxx e Ioan Gruffud – da primeira versão de “Quarteto fantástico”, em participação especial como o primeiro profissional contratado pelos protagonistas e que se revela outro tipo de trabalhador – completam o elenco de uma comédia que tem a mais importante característica de um exemplar do gênero: não tem medo de ser engraçada.
Em uma época em que as comédias se dividem entre a fina ironia dos filmes de Woody Allen e a franca grosseria de coisas como “As bem-armadas”, “Quero matar meu chefe” se situa em um inteligente meio-termo: não ofende a inteligência do espectador nem tampouco exige dele uma série de elocubrações e referências intelectuais. É diversão pura e simples, valorizada por um elenco acima de qualquer crítica e uma direção com senso de ritmo. Uma das melhores comédias de sua temporada.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...