Mostrando postagens com marcador ROBERT DOWNEY JR.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ROBERT DOWNEY JR.. Mostrar todas as postagens

sexta-feira

OS VINGADORES


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, Marvel Studios/Paramount Pictures, 143min) Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, estória de Joss Whedon, Zak Penn. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Jeffrey Ford, Lisa Lassek. Música: Alan Silvestri. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Jon Favreau, Alan Fine, Jeremy Latcham, Stan Lee, Patricia Whichter. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow. Estreia: 04/5/2012

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais 

Primeiro filme da Marvel a ultrapassar a inacreditável marca de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, "Os Vingadores" foi a coroação, sem espaço para dúvidas, de um projeto iniciado em 2008 com "Homem de ferro" - e que, por quatro anos, dominou o mercado do cinema comercial hollywoodiano. Com um orçamento estratosférico de estimados 220 milhões de dólares e um elenco repleto de indicados e vencedores do Oscar, o filme de Joss Whedon - diretor de episódios de séries de TV alçado à tela grande em uma prova de fogo - levou multidões às salas de exibição ao elevar à máxima potência uma receita com poucas chances de erro. Com um marketing agressivo que tornava impossível ignorar sua presença maciça e uma contagem regressiva que contava com outros cinco longas-metragens muito bem sucedidos financeiramente, a produção entregou a seu público-alvo exatamente o que ele esperava. Mas, para além disso, é um filme satisfatório ou apenas mais uma peça mercadológica esquecível e fugaz?

Logicamente quem vai ao cinema assistir a "Os Vingadores" não tem a menor intenção de testemunhar uma revolução narrativa ou estética, e vendo por esse prisma o filme de Joss Whedon é um sucesso: tudo que surge na tela é milimetricamente planejado para seguir a cartilha dos filmes de ação, estabelecendo com extrema clareza os dois opostos - bem e mal - e honrando seu orçamento em sequências espetaculares que renderam uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Sem precisar apresentar seus protagonistas - coisa que os cinco filmes anteriores já fizeram com êxito -, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, utiliza boa parte de suas quase duas horas e meia para contar uma história (exagerada e inverossímil como se poderia esperar) através de explosões (pouco excitantes), lutas (bem coreografadas) e piadas (algumas inteligentes, outras apenas razoáveis). Com um elenco à vontade e entrosado, Whedon conduz uma sinfonia de destruição, onde a trama importa menos que o barulho, mas o faz com uma convicção tão plena que é difícil não se deixar envolver. Pode soar cansativo para aqueles menos entusiastas, porém alcança um patamar dos maiores dentro do gênero - principalmente em termos comerciais.

 


A trama de "Os Vingadores" tem ligação direta com as histórias dos primeiros filmes do universo criado pela Marvel, especialmente "Thor" (2011): o irmão do herdeiro do trono de Asgard, o invejoso Loki (Tom Hiddleston) chega à Terra e, com o objetivo de dominar o planeta, rouba o Tesseract - artefato alienígena de poder ilimitado - de dentro das instalações da S.H.I.E.L.D.. Com a ajuda do exército de uma raça conhecida como Chitauri, seu plano começa a incomodar Nick Fury (Samuel L. Jackson), o diretor da agência, que parte então para o ataque e reúne o maior grupo de super-heróis do mundo para evitar o pior. O encontro entre o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o Capitão América (Chris Evans), o cientista Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) - e depois o Arqueiro Verde (Jeremy Renner) - precisa de ajustes, mas, ao deixar de lado suas diferenças, formam um time que irá salvar a humanidade de uma ameaça devastadora.

Último capítulo da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel, "Os Vingadores" é um filme-pipoca assumido, sem nenhuma intenção a não ser oferecer o mais puro entretenimento a sua plateia, que o aprovou sem ressalvas. Justiça seja feita, tem qualidades notáveis, especialmente no que diz respeito a seu elenco: todos, sem exceção, parecem se divertir a valer com seus personagens, e muitos deles fogem de respeitáveis carreiras de prestígio para se entregarem à mais lúdica das brincadeiras. Plenamente satisfatório dentro de seus objetivos, é um nítido produto de marketing, mas que ao menos respeita seus fãs e tenta conquistar espectadores menos afeitos ao gênero. Lançado quando ainda não havia um certo desgaste em sua fórmula, jogou à estratosfera as expectativas para os filmes subsequentes - nem todos tão bem recebidos quanto ele.

terça-feira

MORRENDO E APRENDENDO


MORRENDO E APRENDENDO (Heart and souls, 1993, Universal Pictures, 104min) Direção: Ron Underwood. Roteiro: Brent Maddock, S.S. Wilson, Gregory Hansen, Erik Hansen, estória de Gregory Hansen, Erik Hansen, Brent Maddock, S.S. Wilson, curta-metragem de Gregory Hansen. Fotografia: Michael Watkins. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Marc Shaiman. Figurino: Jean-Pierre Dorleac. Direção de arte/cenários: John Muto/Anne Ahrens. Produção executiva: Cari-Esta Albert, James Jacks. Produção: Sean Daniel, Nancy Roberts. Elenco: Robert Downey Jr., Kyra Sedgwick, Tom Sizemore, Charles Grodin, Alfre Woodard, Elisabeth Shue, David Paymer. Estreia: 13/8/93
 

O sucesso avassalador de "Ghost: do outro lado da vida", que em 1990 pegou até mesm a Paramount de surpresa, ao tornar-se um enorme êxito comercial e concorrer ao Oscar de melhor filme (além de ter arrebatado duas estatuetas), fez com que os estúdios de Hollywood começassem a prestar mais atenção em roteiros que explorassem, de uma forma ou outra, a espiritualidade. Nenhum deles resultou em um filme memorável - até mesmo o esperado "A mulher do açougueiro", estrelado pela mesma Demi Moore, fracassou retumbantemente -, mas algumas produções acabaram injustamente renegadas, tidas como subprodutos oportunistas enquanto, na verdade, tinham qualidades o bastante para, no mínimo, fazer uma bela carreira como cult. É o caso de "Morrendo e aprendendo", emocionante e divertida comédia dramática dirigida por Ron Underwood que passou praticamente em branco nos cinemas - e, no caso de países como Inglaterra e Hungria, foi lançado diretamente em vídeo: com um roteiro bem amarrado, atuações precisas e um tom acertadamente nostálgico, o filme cativa logo nos primeiros minutos e, se não chega a ser uma obra-prima ou um marco na carreira dos envolvidos, ao menos não faz feio em sua tentativa de emocionar aos mais sensíveis.

Originado de um curta-metragem de nove minutos dirigido pelo corroteirista Gregory Hansen, "Morrendo e aprendendo" chegou aos cinemas quando seu astro, Robert Downey Jr., já estava devidamente reconhecido como um dos mais promissores astros de sua geração - prestígio alcançado pelos prêmios conquistados por seu desempenho em "Chaplin" (1992). Isso não impediu, no entanto, que naufragasse solenemente nas bilheterias e se tornasse, com o tempo, um dos trabalhos menos lembrados do ator - que, apesar dos pesares, o considera um de seus filmes preferidos. Não é para menos: anos antes de atingir o status de grande astro com "Homem de ferro" (2008), ele teve a oportunidade de exercitar seu timing cômico, seu carisma e seus dotes dramáticos, com um protagonista que, em outros tempos, poderia muito bem ter sido interpretado por Cary Grant. E isso que ele só aparece depois de meia hora de projeção.

 

"Morrendo e aprendendo" começa em 1959, quando duas situações completamente opostas confluem em uma terceira. Em um delas, um trágico acidente com um ônibus causa a morte do motorista e dos quatro passageiros. Em outra, um casal comemora o nascimento do primeiro filho, Thomas, ocorrido quase ao mesmo tempo. Presos à Terra mesmo depois da morte, as vítimas acabam se tornando anjos da guarda do menino, que pelos próximos sete anos, conviverá com eles com naturalidade e segurança - pelo menos até que eles percebam que sua presença está atrapalhando o desenvolvimento natural da criança. Sempre presentes em sua vida, mesmo que invisíveis, os quatro espíritos acabam por voltar à ciência de Thomas anos mais tarde, quando Thomas já é um adulto bem sucedido profissionalmente - ainda que com sérios problemas em assumir um compromisso com a bela namorada, Anne (Elisabeth Shue): procurados pelo motorista do ônibus, Hal (David Paymer), eles descobrem que deveriam ter aproveitado seu tempo ao lado do rapaz para resolver as pendências deixadas no momento de suas mortes. Com os dias contados antes de partirem definitivamente, eles precisam, então, contar com a ajuda do incrédulo jovem para limpar as arestas de suas vidas - o que não é exatamente tarefa das mais fáceis.

Milo Peck (Tom Sizemore), um ladrão de galinhas, embarcou no ônibus depois de arrumar encrenca com um de seus contratantes - que lhe pagou para roubar, de uma criança, uma revista em quadrinhos rara e valiosa. Harrison Winslow (Charles Grodin) sofria com uma timidez atroz, que o impedia de fazer carreira como cantor lírico. Julia (Kyra Sedgwick) estava em crise no relacionamento com o namorado, a quem amava apesar de não ter a coragem de dar um passo definitivo. E Penny Washington (Alfre Woodard), uma mãe solteira, tinha dúvidas a respeito de sua competência materna em cuidar sozinha de três crianças. Com a possibilidade de usar o corpo de Thomas para encerrarem seus ciclos terrenos, os quatro partem em busca de redenção, em uma jornada que envolve risos, lágrimas e música. Para sorte do espectador, cada etapa dessa trajetória é apresentada de forma lúdica e orgânica: até mesmo as coincidências que surgem no caminho dos personagens soam plausíveis - responsabilidade de um roteiro sem medo de mergulhar na emoção e de protagonistas adoráveis, capazes de conquistar o público sem fazer muito esforço. Dirigido com sensibilidade por um Ron Underwood que acabara de assinar "Amigos, sempre amigos" (1991) - que deu o Oscar de coadjuvante a Jack Palance - e passaria à televisão já no começo dos anos 2000, "Morrendo e aprendendo" é uma delícia de sessão da tarde, um filme despretensioso e leve que mostrava, já em 1993, o imenso talento de Downey Jr..

segunda-feira

SEGREDOS DE UMA NOVELA


SEGREDOS DE UMA NOVELA (Soapdish, 1991, Paramount Pictures, 97min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Robert Harling, estória de Robert Harling, Andrew Bergman. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Garth Craven. Música: Alan Silvestri. Figurino: Nolan Miller. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Lee Poli. Produção executiva: Herert Ross. Produção: Alan Greisman, Aaron Spelling. Elenco: Sally Field, Kevin Kline, Whoopi Goldberg, Elisabeth Shue, Robert Downey Jr,, Cathy Moriarty, Gary Marshall, Teri Hatcher, Kathy Namiji. Estreia: 31/5/91

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde gozam de relativo prestígio junto ao público e à crítica, as telenovelas produzidas nos EUA não são exatamente um veículo nobre para atores. Normalmente apresentadas no horário vespertino, as novelas norte-americanas (ao contrário das séries, hoje alçadas a filé mignon das emissoras) frequentemente apelam para tramas rocambolescas e inverossímeis, anos e mais anos de duração e um tom que raramente escapa do dramalhão mais cafona. A julgar pela comédia "Segredos de uma novela", seus bastidores também não são nada tranquilos: exageros cômicos à parte, o filme de Michael Hoffman - que posteriormente assinaria o romântico "Um dia especial" (1996), o shakespereano "Sonho de uma noite de verão" (1999) e o subestimado "A última estação" (2009) - retrata o dia-a-dia da produção de uma dessas novelas tão populares quanto inacreditáveis de forma ao mesmo tempo debochada e carinhosa. Co-produzido por Aaron Spelling - ele mesmo vindo do mundo da televisão, onde produziu sucessos como "As panteras" e  "Barrados no baile" - e estrelado por um elenco de sonhos, "Segredos de uma novela" diverte enquanto dura, mas, assim como os produtos que critica, é provável que desapareça da memória do espectador tão logo acabe sua sessão.

Longe de querer ser a obra definitiva sobre o assunto - soa bem mais como uma descompromissada sessão da tarde do que um tratado a respeito de teledramaturgia popular -, o filme de Hoffman brinca com as percepções do público a respeito de astros, estrelas, roteiristas e produtores sem preocupar-se com a fidelidade absoluta - e acerta em cheio ao utilizar-se de metalinguagem como forma de enfatizar  os absurdos que circundam a criação de uma obra aberta. Ao criticar as reviravoltas que abundam nas produções televisivas, o roteiro também faz uso delas para efeito histriônico: na trama criada pelo dramaturgo Robert Harling e desenvolvida por ele e Andrew Bergman, há espaço para romances interrompidos, maternidades escondidas, traições e sexualidades duvidosas - tudo revelado ao vivo, diante de um público ávido por ser surpreendido a cada capítulo.

A protagonista do filme é Celeste Talbert (Sally Field,  estrela absoluta da telenovela "The sun also sets", no ar há anos com espantosos índices de audiência e prêmios acumulados pela crítica. Idolatrada pelos fãs, Talbert parece estar entrando em seu inferno astral: abandonada pelo marido, ela ainda precisa lidar com a velada perseguição do jovem produtor David Barnes (Robert Downey Jr.), que seduzido pela promessa de uma noite de amor com a ambiciosa Montana Moorehead (Cathy Moriarty), procura um jeito de aumentar seu papel na novela mesmo ameaçando sua coerência interna. Protegida pela roteirista principal, Rose Schwartz (Whoopi Goldberg), Talbert tenta não se deixar abater pela crise, mas vê as coisas se complicarem ainda mais quando, para seu desespero, seu antigo amante, Jeffrey Anderson (Kevin Kline), volta à cena como seu novo par romântico, o que traz à luz um passado traumático e um segredo que pode abalar sua popularidade. Não bastasse tudo isso, ela começa a sentir o peso da idade, principalmente quando sua sobrinha, Lori Craven (Elisabeth Shue), passa a disputar com ela, involuntariamente, o posto de atriz preferida pelas plateias, e ilustrar capas de revistas.

Criada por Robert Harling durante os bastidores das filmagens de "Flores de aço" - baseado em uma peça de sua autoria, e estrelado por Sally Field em 1989 -, a trama de "Segredos de uma novela" foi desenvolvida pelo próprio Harling e pelo roteirista/cineasta Andrew Bergman, que poucos anos depois cometeria o infame "Striptease" (1996), com Demi Moore. Brincando com os excessos dramáticos atrelados às produções televisivas (onde parece não haver limites para a falta de verossimilhança), eles não hesitam em forçar situações que, por um lado refletem o tom do gênero, e por outro fazem rir desse mesmo tom. Field, ela mesma um ícone da televisão norte-americana dos anos 1960, com "A noviça voadora" e figurinha fácil nas telinhas nas últimas décadas, com participações em "Plantão médico" e papel central em "Brothers and sisters", está precisa em seu timing cômico, e encontra em Kevin Kline o parceiro ideal: seu Jeffrey Anderson é o retrato perfeito do ator de teatro respeitado (mas sem sucesso popular) que encontra na teledramaturgia barata a forma de sobreviver de sua arte. A presença de Kline, um dos grandes e mais subestimados atores de Hollywood, não apenas valoriza o filme de Hoffman, mas acrescenta sabor aos bastidores em si - não fosse ele a interpretar Anderson o papel poderia ter ficado com Burt Reynolds, que, por coincidência ou não, é ex-namorado da própria Sally Field. Uma ironia que seria bem-vinda ao propósito da produção - mas que não aconteceu por receio do próprio Reynolds.

A energia caótica de "Segredos de uma novela" é um trunfo: reuniões de diretoria - com ideias absurdas jorrando de mentes mais interessadas em índices de audiência do que integridade artística -, intrigas rocambolescas, ressentimentos pouco disfarçados e a fogueira das vaidades queimando tudo à sua volta fazem da produção um entretenimento cujo teor narcisista é facilmente perdoável. Mesmo que o roteiro por vezes exagere na superficialidade - o que talvez seja uma crítica a mais à indústria - e não permita que parte do elenco tenha seu potencial explorado a contento - caso de Robert Downey Jr., Elisabeth Shue e até mesmo Whoopi Goldberg -, o saldo final é no mínimo agradável. Rindo do que acontece por trás das câmeras de um programa de televisão, o filme acaba, de certa forma, homenageando sua capacidade de reinvenção e perenidade junto ao público. A sensação de assistí-lo é, de certa forma, a mesma de tomar um café da tarde junto a seus personagens mais queridos - e suas idiossincrasias mais extraordinárias.

domingo

HOMEM DE FERRO 2


HOMEM DE FERRO 2 (Iron Man 2, 2010, Paramount Pictures/Marvel Studios, 124min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Justin Theroux, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: John Debney. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Susan Downey, Jon Favreau, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Denis L. Stewart. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jon Favreau, Don Cheadle, Sam Rockwell, John Slattery, Clark Gregg, Paul Bettany, Kate Mara. Estreia: 26/4/2010

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Não foi surpresa para ninguém quando, mesmo com o primeiro "Homem de ferro" ainda em cartaz, um segundo capítulo foi confirmado pela Marvel. Com uma renda doméstica superior a 300 milhões de dólares (e uma bilheteria mundial de quase o dobro), a adaptação das aventuras de Tony Stark, o bilionário tornado super-herói, deu o pontapé inicial para a criação de um universo cinematográfico próprio, que daria origem a uma série de filmes extremamente bem-sucedidos em termos comerciais e de crítica. Confirmando a regra de quem em time que está ganhando não se mexe, o estúdio manteve Jon Favreau na direção, Robert Downey Jr. no papel-título (dessa vez com um salário compatível com sua importância no projeto) e Gwyneth Paltrow na pele de sua secretária/interesse amoroso Pepper Potts. A única baixa foi a substituição de Terrence Howard por Don Cheadle - uma intriga de bastidores que foi assunto por um bom tempo em publicações sobre o tema. Com um orçamento um pouco mais generoso que o primeiro filme e as expectativas nas alturas, "Homem de ferro 2" chegou às telas na primavera norte-americana de 2010 e, novamente para nenhuma surpresa, transformar-se em um dos campeões de bilheteria do ano. A boa notícia é que, apesar de seguir quase à risca o manual de roteiros de Hollywood, o filme de Favreau conseguiu manter o frescor do material original e revelou-se um entretenimento à altura, graças, em boa parte, ao enxuto e bem estruturado roteiro de Justin Theroux

Indicado por Downey Jr., com quem havia trabalhado no script da comédia "Trovão tropical" (2009), Theroux teve a vantagem de não precisar voltar às origens do personagem, tão bem contadas no primeiro capítulo. Dessa vez, a história se ampara em três frentes: na primeira, Stark precisa lidar com a pressão do governo norte-americano que insiste para que ele compartilhe de sua tecnologia para colaborar na defesa do país. Na segunda, ele se vê frente a frente com o desgaste de sua saúde, prejudicada por sua exposição ao material radoiativo que o mantém vivo. E, por fim, uma parte do passado de sua família vem à tona quando o físico russo Ivan Vanko - filho de um cientista que fora sócio de seu pai nas indústrias Stark - chega ao país para unir-se a Justin Hammer, seu principal rival nos negócios, e vingar-se do fato de ter sido deportado do país, acusado de traição. As três tramas caminham paralelamente durante o filme, para se encontrarem no ato final - que consegue ser mais empolgante que o original graças aos efeitos indicados ao Oscar e por sua integração natural ao enredo.


 E se a saída de Terrence Howard por questões salariais e artísticas - o estúdio sugeriu um corte de 80% do seu cachê, em relação ao primeiro filme, quando o ator teve um pagamento maior que o de Robert Downey Jr., e diminuição de seu personagem devido à insatisfação do diretor com seu desempenho - os acréscimos a essa segunda parte da saga do Homem de Ferro fizeram a festa para os espectadores.Na pele do principal vilão, Ivan Vanko, o primeiro acerto: em alta depois de sua indicação ao Oscar de melhor ator por "O lutador" (2008), Mickey Rourke entrou no elenco como um grande atrativo - mas depois da estreia reclamou a quem quisesse ouvir que suas melhores cenas haviam sido cortadas, e que tal situação havia tornado inútil toda a sua preparação anterior às filmagens (o que incluiu uma viagem à Rússia e treinamento físico específico). Para viver o rival de Stark, o empresário Justin Hammer, a escolha inicial de escalar Al Pacino foi substituída pela presença de Sam Rockwell, mais jovem e de maior diálogo com a plateia juvenil. E por fim, o melhor da festa: a presença de Scarlett Johansson como Natasha Romanov - que, como todo fã dos quadrinhos sabe, é o nome civil da Viúva Negra, personagem cuja importância vai se tornando cada vez maior no decorrer do lançamento dos outros filmes da Marvel. Anteriormente reservado para Emily Blunt, o papel ficou vago quando a atriz não conseguiu conciliar o trabalho com as filmagens de "As viagens de Gulliver", e não faltaram nomes cogitados para seu lugar: Angelina Jolie, Jessica Biel, Gemma Arterton e Jessica Alba estavam entre os boatos - assim como Natalie Portman (que depois estrelaria "Thor", de Kenneth Branagh) e Brie Larson (a Capitã Marvel em pessoa). Johansson tingiu os cabelos de ruivo, envolveu-se em treinamentos físicos antes e durante as filmagens, e surgiu como mais um elo do Homem de Ferro com a S.H.I.E.L.D. - que se tornará ponto crucial nos filmes seguintes da série.

Mais do que apenas um filme realizado para encher os cofres da Marvel - a esta altura já bem recheado -, "Homem de ferro 2" é, mais do que tudo, uma produção que estabelece ainda mais as fundações do universo cinematográfico da produtora, oferecendo ao público tudo que uma superprodução escapista e milionária pode oferecer. Tem bons momentos de humor (em boa parte graças ao carisma de Downey Jr., cada vez mais à vontade no papel principal), cenas de ação caprichadas e personagens coadjuvantes que não estão em cena como meros figurantes. Para quem gosta do gênero é um programa dos mais satisfatórios - em compensação, os detratores do cinemão comercial hollywoodiano continuarão torcendo o nariz para seus efeitos mirabolantes, piadas irônicas e mitologia própria. É uma questão de gosto - e os mais de 620 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo deixa bem claro que muita gente aprova as aventuras de Tony Stark.

quinta-feira

MULHER NOTA MIL


MULHER NOTA 1000 (Weird science, 1985, Universal Pictures, 94min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Chris Lebenzon, Scott Wallace, Mark Warner. Música: Ira Newborn. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção: Joel Silver. Elenco: Anthony Michael Hall, Kelly LeBrock, Ilan Mitchel-Smith, Bill Paxton, Robert Downey Jr., Suzanne Snyder, Judie Aronson, Robert Rusler. Estreia: 02/8/85

Não houve adolescente dos anos 1980 que não tenha sido afetado por John Hughes. Diretor de filmes seminais como "Gatinhas e gatões (1984) e "Curtindo a vida adoidado" (1986), ele não apenas virou referência obrigatória a qualquer cineasta com pretensões de adentrar o terreno das comédias românticas teen como revelou nomes que atravessaram a década extremamente populares - como Molly Ringwald e Matthew Broderick. Nenhum filme com sua assinatura, porém, foi tão bem-sucedido em retratar as dúvidas, dores e amores juvenis quanto "Clube dos cinco" (1985), hoje considerado um clássico do gênero. O que pouca gente sabe, no entanto, é que, se não fosse uma de suas comédias menos ambiciosas, sua obra-prima poderia nem existir. Explica-se: "Clube dos cinco" só foi aprovado pelos executivos da Universal Pictures mediante a promessa de Hughes dirigir, antes, um filme de apelo mais fácil junto às plateias. Surgia assim, "Mulher nota mil", uma comédia que pode ser descrita como uma mistura de "Frankenstein" com "Porky's" - por mais que essa cruza possa soar estapafúrdia.

Os dois protagonistas de "Mulher nota mil" são Gary (Anthony Michael Hall) e Wyatt (Ilan Mitchel-Smith), estudantes do ensino médio, nerds de carteirinha e, como não poderia ser diferente, totalmente sem jeito quando se trata de relações amorosas. Frustrados em suas tentativas de serem percebidos pelo sexo oposto como algo mais que alvos dos valentões da escola, os dois adolescentes aproveitam um fim de semana sem os pais na casa de Wyatt para fazer uma experiência no computador do rapaz. Inspirados por uma sessão antiga de "Frankenstein", eles alimentam o aparelho com imagens do que consideram a mulher dos seus sonhos. O que parecia não estar funcionando, porém, se converte em realidade depois de uma tempestade elétrica que faz nascer a estonteante Lisa (Kelly LeBrock, a dama de vermelho em carne e osso): a encarnação dos sonhos lúbricos dos garotos, a bela e pouco recatada nova hóspede acaba por servir como mestre de cerimônias de um mundo completamente desconhecido por eles, repleto de festas, bebidas e uma autoconfiança com a qual eles apenas sonham.

 

Com o roteiro escrito em apenas dois dias, "Mulher nota mil" é, logicamente, nada mais do que uma diversão rápida e despretensiosa. O que faz dele especial é justamente o toque de mestre de Hughes em fazer de seus personagens tipos adoráveis e de fácil identificação com o público. Anthony Michael Hall, que colaborou com o diretor em "Gatinhas e gatões" e "Clube dos cinco", antes de fazer uma série de escolhas erradas que o levaram ao ostracismo, é a perfeita imagem do nerd adolescente desesperado, enquanto Ilan Michael-Smith (que abandonou a carreira nos anos 1990 para assumir como professor de Inglês em uma universidade do Texas) representa um lado mais doce e gentil. A química dos dois jovens atores com Kelly Le Brock é precisa - LeBrok, que ganhou o papel para o qual também foram testadas Demi Moore e Robin Wright, não precisa fazer muito mais do que ser linda e atraente, o que ela faz sem esforço. No elenco jovem não deixa de ser curioso perceber Bill Paxton e Robert Downey Jr. em papéis secundários - o primeiro como o irmão mais velho de Wyatt, e o segundo como um dos algozes da dupla de protagonistas.

"Mulher nota mil" é uma sessão da tarde à moda antiga. Seu visual oitentista, sua trilha sonora de rock e a presença de atores que eram a cara da época são deliciosamente cafonas, e a trama, que descamba para o escatológico e o surreal na segunda metade, impede que ele se leva a sério demais. Uma série de TV inspirada no filme e estrelada por Vanessa Angel, estreou em 1994 e durou cinco temporadas, apesar de não ser muito lembrada pelo público. Talvez porque sua essência pertença definitivamente aos anos 1980 e porque a mágica de John Hughes não funcione tão bem sem que ele esteja no comando criativo do projeto. Considerado um filme menor na carreira do cineasta, é um antídoto perfeito para qualquer filme que exija mais do cérebro do espectador.

domingo

O OUTRO LADO DA NOBREZA


O OUTRO LADO DA NOBREZA (Restoration, 1995, Miramax Films, 117min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Rupert Walters, romance de Rose Tremain. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti. Produção executiva: Kip Hagopian. Produção: Sarah Black, Cary Brokaw, Andy Paterson. Elenco: Robert Downey Jr., Sam Neill, Meg Ryan, David Thewlis, Ian McKellen, Polly Walker, Hugh Grant. Estreia: 29/12/95

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as performances cinematográficas de Robert Downey Jr. - de Charles Chaplin ao Homem de Ferro, passando por comédias românticas, filmes de ação e a sensacional performance cômica indicada ao Oscar de coadjuvante em "Trovão tropical" (2008) - nenhuma é mais exuberante que Robert Merivel, o protagonista de "O outro lado da nobreza". Lançada em 1995, um dos anos mais produtivos da carreira do ator, e praticamente esquecido entre sua filmografia, a adaptação do romance de Rose Tremain chegou a ganhar dois Oscar (figurino e direção de arte) e contava com um elenco de nomes conhecidos do grande público - Hugh Grant, Meg Ryan, Sam Neill. Porém, com uma direção burocrática de Michael Hoffman e um roteiro que não consegue escapar da superficialidade, passou quase em branco pelo público e tampouco entusiasmou a crítica. E em comparação com seus trabalhos mais aplaudidos, o desempenho de Downey Jr. parece um tanto perdido, tentando encontrar o foco em um filme que tenta abraçar vários temas sem aprofundar-se a contento em nenhum deles.

Michael Hoffman não é um cineasta dos mais geniais, sempre apresentando produções no máximo simpáticas - como se pode afirmar depois de filmes como "Segredos de uma novela" (1991), "Um dia especial" (1996) e sua adaptação de "Sonho de uma noite de verão" (1999). Em "O outro lado da nobreza" não é diferente. Apesar do capricho na ambientação e da nítida ambição de criar uma obra relevante, Hoffman não consegue imprimir o tom de seriedade necessário para dar à trama, que retrata um dos períodos mais nefastos da História como forma de purgação e amadurecimento para o protagonista. O arco dramático soa bastante artificial e apressado, a despeito de atravessar anos e precipitar acontecimentos catalisadores que, da forma como apresentados, jamais transmitem o grau de importância que terão no desfecho da história. O roteiro de Rupert Walters tenta, em pouco menos de duas horas, estabelecer relações cruciais - mas esbarra em uma pressa que prejudica o envolvimento do espectador. Some-se a isso a personalidade hesitante de Robert Merivel - um bon vivant irresponsável que parece nunca estar completamente dedicado aos acontecimentos a seu redor - e o filme falha em sua principal pretensão: emocionar. 

 

A trama começa quando, em 1663, o estudante de Medicina Robert Merivel é chamado à corte do Rei Charles II (Sam Neill) para tratar de um de seus cachorrinhos preferidos. O jovem aspirante a médico salva a vida do animalzinho e cai nas graças do monarca, tornando-se parte de sua corte e deslumbrando-se com as vantagens de sua nova posição. As coisas começam a mudar quando o rei ordena que Merivel se case com a sensual Celia (Polly Walker), sua amante, para agradar outra de suas conquistas amorosas. As advertências de Charles para que o médico não se apaixone por sua esposa de mentirinha caem no vácuo, e, descoberto em seus sentimentos, Merivel se vê diante da vida que abandonara e, sem saber saber que rumo tomar, ele retoma a amizade com Pearce (David Thewliss) - um colega de faculdade que sempre pautou sua vida pela ética profissional. Nesse momento, a Peste Negra começa a espalhar-se pela Europa - e Merivel volta a ter seu caminho cruzado com o Rei e Celia depois de ter experimentado uma nova paixão com Katharine (Meg Ryan), uma jovem tratada como mentalmente insana e que lhe fez redescobrir as coisas boas da vida.

A trajetória de Merivel é plenamente compreensível, e seu amadurecimento é, apesar dos problemas de roteiro e direção, soam verossímeis. O problema é que "O outro lado da nobreza" parece tão deslumbrado por sua impecável reconstituição de época que esquece de dar atenção a elementos cruciais em uma narrativa. Atores como Hugh Grant e Ian McKellen são deixados de lado com personagens mal desenvolvidos, e a química inexistente entre Robert Downey Jr. e Meg Ryan também não ajuda a deixar as coisas menos complicadas. O filme de Michael Hoffman não é um filme ruim, mas tampouco é memorável a ponto de fazer diferença nas carreiras dos envolvidos. Pode agradar aos menos exigentes - mas dificilmente se tornará um favorito.

terça-feira

HOMEM DE FERRO


HOMEM DE FERRO (Iron Man, 2008, Paramount Pictures/Marvel Studios, 125min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: Ramin Djawadi. Figurino: Rebecca Bentjen, Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: J. Michel Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Avi Arad, Peter Billingsley, Louis D''Esposito, Ross Fanger, Jon Favreau, Stan Lee, David Maisel. Produção: Avi Arad, Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jon Favreau, Paul Bettany, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Clark Gregg, Samuel L. Jackson. Estreia: 14/4/2008 (Sydney)

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Efeitos Visuais

No mundo do cinema, assim como na vida, há males que vem pra bem. Se tivesse sido realizado lá em 1990, quando surgiram as primeiras notícias a respeito, um filme estrelado pelo Homem de Ferro provavelmente não repetiria o sucesso de "Batman" (1989), dirigido por Tim Burton. Primeiro porque o super-herói da Marvel não tinha o mesmo impacto do homem morcego, e segundo - e mais importante - seu intérprete ideal ainda não estava pronto para o desafio. No começo da década de 1990, Robert Downey Jr. tateava em busca de uma personalidade artística própria e estrelava desde comédias românticas inócuas - como "O céu se enganou" (1989) - até filmes de ação pouco inspirados - a exemplo de "Air America: loucos pelo perigo" (1990), ao lado de Mel Gibson. Na década seguinte, conheceria a glória do prestígio - com uma indicação ao Oscar de melhor ator, por "Chaplin" (1992), e o início de um período em que quase sucumbiu às drogas. Foi somente depois de provar que seu talento estava intacto apesar dos altos e baixos que Downey Jr. finalmente encontrou o papel de sua vida: depois de ver o ator na comédia policial "Beijos e tiros" (2005), o ator/diretor Jon Favreau, escolhido para finalmente tocar adiante o projeto estrelado pelo multimilionário Tony Stark, encontrou nele o intérprete ideal. Era 2007, e a carreira de Downey Jr. nunca mais seria a mesma - assim como a história da Marvel no cinema.

Primeiro filme totalmente financiado da Marvel Studios - e o primeiro de um acordo com a Paramount Pictures - e rodado a um custo estimado de 140 milhões de dólares, "Homem de ferro" foi beneficiado pelo destino. Tivesse realmente sido produzido pela Universal Pictures em 1990, teria sido dirigido por Stuart Gordon, não exatamente um cineasta acostumado a grandes produções. Se mais tarde, em 1996, quando a 20th Century Fox assumiu o projeto, ele tivesse ido adiante, a presença de Nicolas Cage no papel principal poderia tanto ser um pró (ele recém havia recebido um Oscar por "Despedida em Las Vegas" e "A rocha" era um sucesso prestes a acontecer) quanto um contra (não demoraria para que Cage se tornasse um ator de apelo duvidoso nas bilheterias). Dois anos depois, foi a vez de Tom Cruise demonstrar interesse no personagem, mas novamente nada aconteceu. Em 1999, para a feliz ilusão dos cinéfilos, ninguém menos que Quentin Tarantino se viu envolvido na concepção de um roteiro e em um possível contrato como diretor, mas em seguida os direitos foram transferidos para a New Line Cinema e, com eles tal possibilidade. Joss Whedon, fã do personagem e diretor de episódios de séries de televisão, como "Buffy: a caça-vampiros", chegou perto de finalmente dar uma cara a Stark e companhia - mas só se uniria de vez ao universo Marvel com "Os vingadores" (2012). A última tentativa da New Line em levar "Homem de ferro" adiante foi com Nick Cassavetes - conhecido por dramas como "Loucos de amor" (1998) e "Diário de uma paixão" (2004), porém foi somente com a retomada da Marvel que as coisas finalmente aconteceram.

 

De posse dos direitos do personagem, a Marvel percebeu que, a menos que ela mesma tomasse as rédeas, seu tão estimado projeto jamais veria a luz dos refletores. Foi assim que Jon Favreau - mais conhecido como ator - ganhou sua tão sonhada chance de assumir o comando do filme: escalado para dirigir "Capitão América: o primeiro vingador" (que só chegaria às telas em 2011), Favreau optou por contar a história do multimilionário Tony Stark em direção à glória como o aclamado Homem de Ferro, e levou o desafio a sério. Com a Industrial Light & Magic contratada para supervisionar os efeitos visuais (acabou sendo o último trabalho do mestre Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria) e vários escritores das revistas do personagem chamados para evitar discrepâncias em relação a suas origens, Favreau acertou em mesclar um tom mais sério a uma atmosfera leve e atualizar a história. Nos quadrinhos, Stark se torna o Homem de Ferro durante sua participação na Guerra do Vietnã, mas o roteiro do filme fez uma alteração crucial para uma maior comunicação com as plateias do século XXI, e transferiu parte da ação para o Afeganistão. Acertando em cheio em aproximar protagonista e público, Favreau teve ainda mais sorte em contar com Downey Jr. na pele de Tony Stark, um milionário filantropo, mulherengo, amante de aventuras e inventor - baseado no empresário Howard Hughes - que, depois de escapar por pouco de ser morto por um grupo terrorista, passa a se dedicar a aprimorar sua armadura de Homem de Ferro com o objetivo de lutar contra o mal.

Downey Jr. - que recebeu módicos 500 mil dólares por seu trabalho, menos inclusive do quanto foi pago a Terrence Howard, seu colega de elenco - é o corpo e a alma de "Homem de ferro". Mesmo ao lado de nomes fortes como Jeff Bridges, ele conduz o ritmo e o tom quase debochado do filme, conquistando o público sem fazer muito esforço. Clive Owen e Hugh Jackman - que chegaram a ser cogitados para o papel - podem ser excelentes atores, mas Downey nasceu para viver o Homem de Ferro, segundo palavras de seu próprio criador, Stan Lee. Seu talento não apenas para dar vida ao personagem, mas também para improvisar boa parte de suas falas durante as filmagens - para desespero do ortodoxo Bridges e da premiada Gwyneth Paltrow, que interpreta Pepper Potts, secretária e interesse romântico do herói - justifica o sucesso do filme junto à crítica e às mais exigentes plateias. O roteiro pode não apresentar nada de novo (em especial aos fãs dos quadrinhos) e os efeitos visuais não chegam a surpreender, mas o desempenho do ator, que teve sua carreira retomada com gás total, é motivo mais que suficiente para que até mesmo o espectador menos interessado no gênero dê uma conferida. É entretenimento de primeira, e o pontapé inicial da vitoriosa criação do Universo Cinematográfico Marvel!

quarta-feira

O JUIZ

O JUIZ (The judge, 2014, Warner Bros/Team Downey, 141min) Direção: David Dobkin. Roteiro: Nick Schenck, Bill Dubuque, estória de David Dobkin, Nick Schenck. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Mark Livolsi. Música: Thomas Newman. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Bruce Berman, Robert Downey Jr., Herb Gains, Jeff Kleeman. Produção: David Dobkin, Susan Downey, David Gambino. Elenco: Robert Downey Jr., Robert Duvall, Billy Bob Thornton, Vera Farmiga, Vincent D'Onofrio, Jeremy Strong, Balthazar Getty, David Krumholtz, Grace Zabriskie, Denis O'Hare. Estreia: 04/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Para marcar a estreia de sua produtora em sociedade com a esposa, Susan, o ator Robert Downey Jr. deixou de lado os heróicos personagens que vinham marcando sua carreira nos últimos anos - Sherlock Holmes e Homem de Ferro - para viver um homem comum, rodeado de problemas pessoais e que se vê, inesperadamente, diante de circunstâncias que não apenas o desafiam no lado profissional mas principalmente o obrigam a lidar com fatos familiares de um passado pouco agradável. Primeiro filme dramático do cineasta David Dobkin - que tem no currículo as comédias "Penetras bons de bico" e "Eu queria ter a sua vida" - e um filme de tribunal com todos os ingredientes necessários para conquistar a atenção do público, "O juiz" estreou sem muito alarde nos EUA, mas recobrou o fôlego com a indicação de Robert Duvall ao Oscar de coadjuvante. Mesmo que o veterano ator tenha tido poucas chances de faturar sua segunda estatueta - a primeira veio em 1983 por "A força do carinho" - seu desempenho como Joseph Palmer, o rígido juiz de uma pequena cidade do interior que é acusado de assassinato e passa a ser defendido pelo filho com quem mantém uma relação de estranhamento, é o maior destaque de um filme correto, mas que sofre de uma narrativa simples e esquemática ao extremo.

Downey Jr., bom ator como sempre, vive Hank Palmer, um bem-sucedido advogado de Chicago, nem sempre afeito às regras éticas que deveriam reger sua profissão. No meio de um caso importante, ele recebe a notícia da morte de sua mãe, a quem não vê há anos, e viaja para acompanhar seu funeral. Passando por um complicado caso de divórcio, Hank não tem a menor intenção de ficar com sua família, mas vê seus planos mudarem radicalmente quando seu pai - respeitado e, sem que ninguém saiba, morrendo de câncer - é acusado de matar um homem a quem havia condenado no passado. Mesmo contra a vontade do veterano jurista, com quem tem uma relação complicada que remete à sua juventude rebelde, ele assume sua defesa, o que acaba por forçá-los a uma nova etapa de seu relacionamento.


Equilibrando - nem sempre com muito sucesso - o drama familiar com a trama policial que envolve o julgamento, "O juiz" peca em muitos momentos por desviar o foco da história com tramas paralelas pouco interessantes, como aquela que envolve Hank com uma namorada de adolescência, Samantha (Vera Farmiga). Esses desvios da rota central não apenas tornam o filme mais longo do que o necessário - quase duas horas e meia de projeção - como enfraquecem o que a obra tem de mais forte (ainda que um tanto clichê): o relacionamento entre pai e filho, afastados pelos temperamentos arredios e reunidos pela paixão pela lei e pelo direito. Robert Duvall dá mais um show como o independente e por vezes seco Joseph Palmer, um homem forte que, por forças das circunstâncias acaba dependendo justamente do filho com quem tem mais arestas a aparar, e Downey Jr. comprova o que todo mundo sempre soube: é um ator que sai-se bem tanto em blockbusters descerebrados quanto em dramas que exigem mais do que simplesmente efeitos visuais.

Um filme capaz de agradar a todos os tipos de público, "O juiz" não ofende a inteligência de ninguém e pode até emocionar aos mais sensíveis. Quando foca na relação familiar, apresenta um show de atuações, mas quando parte para o filme de tribunal não apresenta maiores novidades. No fim das contas, não é um grande filme, mas é um digno representante do gênero.

sexta-feira

CHEF

CHEF (Chef, 2014, Aldamisa Entertainment/Kilburn Media, 114min) Direção e roteiro: Jon Favreau. Fotografia: Kramer Morgenthau. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: Denise Pizzini/Bryan John Venegas. Produção executiva: Molly Allen, Marina Bespalov, James D. Brubaker, Craig Chapman, Philip Elway, Gleb Fetisov, Jerry Fruchtman, Peter Fruchtman, Karen Gilchrist, Jere Hausfater, Mark C. Manuel, Ted O'Neal, Jason Rose, Dylan Russell, Anne Sheehan, Tim Smith, Scott Steindorff, Boris Teterev, Oleg Teterin. Produção: Sergei Bespalov, Jon Favreau. Elenco: Jon Favreau, John Leguizamo, Bobby Cannavale, Emjay Anhony, Sofía Vergara, Dustin Hoffman, Scarlett Johansson, Oliver Platt, Amy Sedaris, Robert Downey Jr.. Estreia: 07/3/14 (South by Southwest Film Festival)

É impossível não traçar um paralelo entre o diretor e roteirista Jon Favreau e o protagonista de sua comédia dramática "Chef", o chefe de cozinha Carl Casper: cineasta criado no universo do cinema independente - no qual estrelou e coproduziu o cultuado "Swingers, curtindo a noite" em 1996 - ele aos poucos foi se introduzindo no miolo da indústria, acabando por assinar o ambicioso (e bem-sucedido) "Homem de ferro", lançado em 2008 com todo o aparato de uma super-produção. Em 2010 dirigiu a sequência das aventuras do super-herói com ainda mais êxito e em 2011 arriscou-se no ousado "Cowboys & Aliens", que decepcionou a crítica e não fez metade do barulho que se esperava. Acuado pelo sucesso e pela ambição de seus filmes mais populares, Favreau resolveu então voltar às origens e lançar um filme pequeno e despretensioso que mostrasse suas qualidades de criador sem o apoio de efeitos visuais. Em "Chef" - o filme escolhido para tal retorno - o protagonista passa por situação semelhante: de promessa ele passa ao sucesso. Do sucesso ele cai em desgraça. Da desgraça nasce um homem ainda mais talentoso e feliz.

Sim, a trama parece clichê - e até é, de certa forma. Mas "Chef" é dotado de uma leveza, de uma despretensão e de uma empatia tão grande que é difícil não embarcar sem reservas na história (cortesia também de um elenco muito bem escalado) e de uma edição ágil que transporta a audiência a uma viagem bem-humorada de redescobrimento pessoal e reunião familiar. Quem promove tal viagem é o personagem interpretado pelo próprio Jon Favreau, que dá vida à Carl Casper, o chef de cozinha de um respeitado restaurante bem frequentado de Los Angeles. Sentindo-se preso a menus sem a criatividade ou a ousadia que lhe marcaram o início da carreira, ele não consegue convencer seu patrão, Riva (Dustin Hoffman) a variar as ofertas da casa e acaba entrando em rota de colisão com o crítico mais influente da Internet, Ramsey Michel (Oliver Platt), que percebe sua estagnação profissional e faz uma resenha destruidora em seu site. Furioso, Carl faz uma cena histérica em pleno restaurante - fato que vai parar na rede e causa sua demissão - e, sem enxergar uma saída para a crise que se instala em sua vida, aceita viajar com a ex-mulher, Inez (Sofía Vergara) e o filho pequeno, Percy (Emjay Anthony) para Miami. É lá que ele finalmente aceita a ideia de Inez de recomeçar do zero e passa a ser o orgulhoso dono de um food-truck. Com a ajuda do amigo Martin (John Leguizamo) e do filho pequeno - com quem passa a ter uma relação mais profunda e de admiração - Carl redescobre o prazer de cozinhar, especialmente quando seu negócio se transforma em sucesso absoluto graças ao poder das redes sociais.


Utilizando de forma inteligente a forma com que a Internet interfere na vida das pessoas mesmo que elas não percebam - fazendo ao mesmo tempo um elogio e uma crítica às redes sociais - "Chef" busca (e consegue) a cumplicidade da plateia contando apenas com seu roteiro dinâmico e moderno e com a química entre seus atores. Fugindo da tentação de acrescentar um toque de romance à trama - a atração entre o protagonista e a recepcionista do restaurante, Molly (Scarlett Johansson) não vai além de umas poucas cenas - e mergulhando o público no universo dos bastidores da culinária (uma febre que o sucesso dos reality shows do gênero apenas comprova), o filme ainda aproveita do tempero latino da presença de John Leguizamo e Sofía Vergara (linda como sempre) no elenco para rechear suas cenas com uma trilha sonora contagiante e uma fotografia exuberante e colorida, que toma conta da história a partir do momento em que a vida de Casper sai do escuro da depressão para a vitalidade de uma nova vida. Sem forçar a mão no drama nem exagerar na comédia, Favreau equilibra sua narrativa com maestria, e o resultado é deliciosamente agradável.

Com um elenco repleto de rostos conhecidos do grande público - até o Homem de Ferro em pessoa, Robert Downey Jr., dá as caras em uma participação especial como um rival do protagonista - "Chef" é uma lufada de ar fresco na carreira de Jon Favreau como diretor, mostrando seu talento em retratar pessoas simples em situações corriqueiras. Não muda a vida de ninguém, mas é simpático e solar, otimista e radiante. Em um mundo às vezes tão sombrio e pesado, um filme assim soa como um oásis no deserto.

sábado

OS PICARETAS

OS PICARETAS (Bowfinger, 1999, Universal Pictures, 97min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Steve Martin. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Richard Pearson. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Jackson DeGovia/K.C. Fox. Produção executiva: Karen Kehela, Bernie Williams. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Eddie Murphy, Heather Graham, Robert Downey Jr., Terence Stamp, Christine Baranski, Jamie Kennedy, Adam Alexi-Malle. Estreia: 13/8/99

Quando o cineasta Frank Oz dirigiu Steve Martin ao lado de Michael Caine em "Os safados" (88) - refilmagem livre de "Dois farristas irresistíveis", com Marlon Brando e David Niven - a comédia norte-americana ganhou um clássico instantâneo, um filme repleto de humor inteligente e irônico que misturava a tradicional fleuma britânica de Caine com a picardia ianque e quase vulgar de Martin. Cineasta ciente dos meandros da comédia - um gênero que frequentemente escorrega no mau-gosto ou simplesmente na falta de graça - Oz voltou a colaborar com Martin em outras ocasiões, como no apenas simpático "Como agarrar um marido", mas foi somente em 1999 que os dois voltaram a acertar a mão juntos. Tendo os bastidores do cinema como pano de fundo e a adição luxuosa de Eddie Murphy ao time vencedor, "Os picaretas" não só fez mais sucesso que os outros filmes de Murphy lançados quase à mesma época - "Até que a fuga nos separe" e "O professor aloprado 2" - como recebeu elogios rasgados da crítica, que encantou-se com a mordacidade carinhosa com que a indústria de Hollywood foi retratada. Recheado de piadas engraçadíssimas, atuações inspiradas e um cinismo irresistível, "Os picaretas" é uma comédia sem contra-indicações.

O próprio Steve Martin escreveu a história de Robert K. Bowfinger, um produtor de filmes B que, decadente e sem perspectivas profissionais imediatas, vê sua grande chance de sair do marasmo quando põe os olhos no roteiro de um amigo, uma ficção científica chamada "Chuva gorda". Entusiasmado com a possibilidade de voltar aos sets de filmagens, ele reúne um grupo de antigos colaboradores - como a dedicada atriz Carol (Christine Baranski) e o leal Dave (Jamie Kennedy) - para levar a novidade adiante, mas percebe que, para conseguir competir como gente grande com produções de orçamentos milionários, precisa necessariamente de um grande astro. Entra em cena, então, Kit Ramsey (Eddie Murphy), um dos mais populares atores do momento: sem que ninguém saiba, Bowfinger resolve filmar o ator em seu dia-a-dia e forçar situações em sua rotina para encaixar no script. Assim, Ramsey - um astro paranoico e mulherengo que acredita estar sendo perseguido por extra-terrestres - entra à sua própria revelia na bagunça, que fica ainda mais complicada com a chegada de um sósia seu, o tímido Jiff (também Murphy), que serve como dublé nas cenas perigosas.


Criando situações cada vez mais insanas e contando com um elenco de personagens hilariantes, Martin fez do roteiro de seu "Os picaretas" uma comédia de muitas risadas, fato raro em uma Hollywood tomada por filmes formulaicos e pouco ousados, que tentam arrancar gargalhadas com piadas sobre fluidos corporais e constrangimentos dos mais variados. Sua trama, reta e simples, busca o humor na identificação com as várias referências (diretas ou não) com o mundo a que retrata - e a graça da piada fica ainda maior quando se sabe de onde ela vem. Daisy, a personagem de Heather Graham, por exemplo, pode ser apenas a ambiciosa moça do interior que sonha em tornar-se atriz e assim vai pulando de cama em cama para conseguir atingir seus objetivos como pode ser uma sátira à Anne Heche, que teve um caso com Martin e ficou famosa no final da década de 90 ao envolver-se com Ellen De Generes. Rindo ainda da moda dos astros em terem um guru espiritual - aqui representado pelo personagem do sempre sinistro Terence Stamp - e do vício em sexo do personagem de Murphy (que encaixou o filme em sua complicada agenda apenas por ser fã de Steve Martin), "Os picaretas" é, ainda, uma homenagem aos que fazem cinema por amor, sendo assim uma espécie de "Ed Wood" - filmaço de Tim Burton sobre o pior diretor de todos os tempos - que não se leva a sério.

Superando de longe a média das comédias lançadas em sua época, "Os picaretas" é uma pérola de humor que consegue ao mesmo tempo ser sofisticado e popular, um equilíbrio raro e louvável conquistado pela experiência de Oz - que recentemente havia marcado outro golaço com o sucesso "Será que ele é?", estrelado por Kevin Kline - e pelo talento de Martin e Eddie Murphy, este último em um de seus melhores trabalhos nas telas. Com um elenco coadjuvante afiadíssimo (com destaque para a sempre incrível Christine Baranski e uma participação especial de Robert Downey Jr. como um executivo da indústria de cinema) e uma história espertíssima que brinca com o cinema e com aqueles que o fazem, não deixa de ser também uma bela homenagem à sétima arte.

domingo

FERIADOS EM FAMÍLIA

FERIADOS EM FAMÍLIA (Home for the holidays, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Paramount Pictures, 103min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: W. D. Richter, conto de Chris Radant. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Barbara Drake. Produção executiva: Stuart Kleinman. Produção: Jodie Foster, Peggy Rasjki. Elenco: Holly Hunter, Robert Downey Jr,. Anne Bancroft, Charles Durning, Dylan McDermott, Geraldine Chaplin, Steve Guttenberg, Cynthia Stevenson, David Straithairn, Claire Danes. Estreia: 03/11/95

Em sua segunda incursão como diretora, Jodie Foster não quis afastar-se muito da temática de sua estreia, o drama doméstico "Mentes que brilham". "Feriados em família", uma crônica agridoce sobre as difíceis porém indeléveis relações entre pais, filhos e irmãos mostra que a atriz/diretora/produtora amadureceu artisticamente ainda mais nos quatro anos que separam seus dois trabalhos, mas esbarra em uma certa frieza que contrasta com o calor humano demonstrado em seu primeiro filme. Equilibrando um senso de humor amargo com um elenco de grandes atores, ela constrói um retrato sem exageros de um núcleo familiar cuja união está nas diferenças e, apesar da irregularidade, comprova que sua transição para o lado de trás das câmeras não foi apenas um capricho vaidoso.

Baseado em um conto de Chris Radant, "Feriados em família" se passa no mais tradicional feriado norte-americano, o Dia de Ação de Graças, quando - ao menos segundo o cinema hollywoodiano - todas as diferenças acumuladas durante o ano todo são exorcizadas em volta da farta mesa de jantar. E para a protagonista Claudia Larson (Holly Hunter) a coisa não será nada fácil: além de encarar as eternas discussões familiares, ela está passando por uma das piores crises da sua vida. Não só perdeu o emprego e saiu dele trocando um inesperado beijo com seu sexagenário ex-patrão como acaba de receber da única filha, a adolescente Kitt (Claire Danes), a notícia de que ela está decidida a perder a virgindade com o namoradinho. Chegando na pequena cidade onde moram seus pais, ela precisa enfrentar a insistência da mãe, Adele (Anne Bancroft), de que se entenda com um amigo de infância apaixonado por ela, Russell (David Straithairn) e voltar a ser tratada como adolescente pelo pai, Henry (Charles Durning). Sua pressão só diminui com a chegada do irmão caçula, Tommy (Robert Downey Jr.), homossexual assumido que traz à tiracolo um amigo, Leo Fish (Dylan McDermot), por quem ela logicamente sente-se atraída.


Não bastasse tudo isso, a reunião familiar fica completa quando entra em cena Glady (Geraldine Chaplin) - que mantém escondido um segredo há décadas e não se importa em revelá-lo à hora da refeição - e a terceira filha de Adele e Henry, a reprimida Joanne (Cynthia Stevenson), que se orgulha de ter uma família sólida ao lado do marido Walter (Steve Guttenberg) e mantém uma relação de desprezo com a vida sexual do irmão. A noite torna-se cada vez mais tumultuada quando as diferenças passam a ser resolvidas da pior maneira possível - o que inclui até um inesperado banho de recheio de peru. Nesse meio tempo, Claudia não consegue evitar a aproximação com Leo - a quem julga ser o novo parceiro do irmão, que também tem uma revelação a fazer a todos no final do feriado.

Ao contrário do que fez em "Mentes que brilham", Jodie Foster não busca a emoção da plateia com "Feriados em família". Sua opção pelo humor - sutil, quase imperceptível em sua discrição - mostra um distanciamento bastante saudável em relação às complicadas teias familiares descritas no roteiro, que vai tornando-se mais interessante à medida em que a trama realmente começa a mostrar seus desdobramentos e os personagens vão se despindo de suas cascas e mostrando suas dores e delícias. São nesses momentos, em que a individualidade de cada um vem à tona, que o filme mostra a que veio e Foster deixa claro seu maior talento como cineasta: dirigir atores. Sendo um drama centrado em personagens - mais do que em acontecimentos - "Feriados em família" depende quase que exclusivamente do elenco e sua escolha não poderia ter sido mais feliz: não há um único elo fraco entre todos os atores que, cada um à sua maneira, transmite toda a gama de sentimentos necessários para manter aceso o interesse da plateia.

Holly Hunter e Anne Bancroft - ambas premiadas com o Oscar por trabalhos anteriores e atrizes consagradas - roubam a cena sem precisar muito esforço, enquanto Robert Downey Jr. (que fez o filme inteiro à base de heroína, para tristeza de Foster) comprova que sempre foi um ator de imenso talento, felizmente reconhecido e recuperado a tempo de tornar-se popular. E não deixa de ser delicioso ver em cena uma atriz como Geraldine Chaplin, perfeita em seu timing de tia maluca que é bem menos demente do que todos pensavam. É ela, junto com todos os atores que transformam a sensação de assistir-se a "Feriados em família" em uma noite de (bom) teatro.

sábado

RICARDO III

RICARDO III (Richard III, 1995, Mayfair Entertainment International, 104min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Ian McKellen, Richard Loncraine, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Paul Green. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Tony Burrough. Produção executiva: Maria Apodiacos, Ellen Dinerman Little, Ian McKellen, Joe Simon. Produção: Stephen Bayly, Lisa Katselas Paré. Elenco: Ian McKellen, Annette Bening, Robert Downey Jr., Jim Broadbent, Kristin Scott Thomas, Nigel Hawthorne, John Wood, Maggie Smith, Jim Carter, Dominic West. Estreia: 20/8/95 (Brasil)

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.

McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.


Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.

Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.

domingo

ONLY YOU

ONLY YOU (Only you, 1994, TriStarPictures, 108min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Diane Drake. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Stephen Rivkin. Música: Rachel Portman. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção: Robert N. Fried, Norman Jewison, Charles Mulvehill, Cary Woods. Elenco: Marisa Tomei, Robert Downey Jr., Bonnie Hunt, Joaquim de Almeida, Fisher Stevens, Billy Zane, John Benjamin Hickey. Estreia: 17/9/94 (Festival de Toronto)

Quando ganhou o inesperado Oscar de atriz coadjuvante por seu desempenho em "Meu primo Vinny" (92), Marisa Tomei ganhou junto a incômoda missão de provar que seu prêmio não havia sido mais um dos inúmeros enganos acumulados pela Academia em seu histórico de erros. Filmes como o fraco "Coração indomável" (93) e o esquecível "O jornal" (94) não ajudaram nesse sentido, mas é inegável que o simpático "Only you", dirigido pelo veterano Norman Jewison foi o mais perto que ela chegou, nos anos 90, de comprovar seu talento para a leveza das comédias românticas. Usando de muitos elementos clássicos, flertando com obras icônicas do gênero, como "A princesa e o plebeu" - além de uma citação direta de "Casablanca" (43) - e tendo as belezas da Itália como cenário, o filme não chegou a ser um sucesso de bilheteria, mas conquista a plateia pela simpatia do elenco e pelo roteiro, com reviravoltas em número suficiente para manter a atenção até o último minuto.

Sendo nada mais do que uma simples comédia, "Only you" não pretende oferecer mais do que um simples e divertido entretenimento, mas entrega ao espectador quase duas horas de um romantismo derramado, ilustrado pela fotografia do mestre Sven Nykvist - colaborador habitual de Ingmar Bergman e Woody Allen - e pontuado pela discreta trilha sonora de Rachel Portman. Polvilhando seu roteiro com tiradas de um humor sutil, Diane Drake construiu uma trama capaz de conquistar até mesmo o mais ferrenho detrator do gênero, especialmente por não deter-se na eterna fórmula do "moça encontra rapaz, se apaixona e luta por seu amor até o final feliz". Ok, alguns desses elementos estão presentes na história, mas tão bem misturados que é difícil resistir. Senão, vejamos: desde criança a professora Faith (Marisa Tomei, encantadora) ouve o mesmo nome quando procura saber, via meios sobrenaturais, quem é sua alma gêmea. Em uma brincadeira na tábua dos mortos com o irmão, Damon Bradley surge pela primeira vez. Alguns anos depois, uma cigana de parque de diversões reitera a informação, deixando a adolescente obcecada com esse desconhecido que promete ser seu grande amor.


Já adulta, Faith está de casamento marcado e aparentemente feliz quando, ao atender o telefone do noivo, ouve do outro lado da linha o nome de sua cara-metade: excitada, ela ignora o fato de Bradley estar de viagem para Veneza e, com a companhia da cunhada, Kate (Bonnie Hunt) - que está passando por uma fase infeliz no casamento - pega o primeiro avião para a Itália. Depois de inúmeros desencontros, ela finalmente dá de cara com o rapaz, um morador de Nova York que está na Europa a serviço (Robert Downey Jr.). Bonito, sedutor e romântico, ele é o sonho encarnado, e Faith está resolvida a cancelar o casamento e apostar em uma vida ao lado de seu novo grande amor quando descobre que as coisas não são exatamente como ela esperava.

Um dos maiores méritos de "Only you" é sua capacidade de surpreender o público, levando-o para várias direções antes de finalmente dar sua história por encerrada. Brincando com o mito do  do homem mediterrâneo através do flerte de Kate com o sedutor Giovanni (Joaquim de Almeida) e com a obsessão feminina pela busca do amor romântico, o filme de Norman Jewison - também autor do delicioso "Feitiço da lua" (87) - é uma divertida viagem pelos meandros do destino guiada por uma dupla central atraente e de excelente química. Tomei, que anos mais tarde voltaria a ser levada a sério como atriz, com mais duas indicações ao Oscar - por "Entre quatro paredes" (01) e "O lutador" (08) - não foi um erro da Academia. Ela sempre foi uma atriz deliciosa de se assistir.

terça-feira

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA (Short cuts, 1993, Fine Line Features/Spelling Films International, 187min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Robert Altman, Frank Barhydt, contos de Raymond Carver. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Geraldine Peroni. Música: Mark Isham. Figurino: John Hay. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Susan J. Emshwiller. Produção executiva: Scott Bushnell. Produção: Cary Brokaw. Elenco: Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Julianne Moore, Matthew Modine, Anne Archer, Fred Ward, Jennifer Jason-Leigh, Chris Penn, Lily Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins, Lily Tomlin, Tom Waits, Frances McDormand, Peter Gallagher, Annie Ross, Lori Singer, Lyle Lovett, Buck Henry, Huey Lewis. Estreia: 05/9/93 (Festival de Veneza)

 
Indicado ao Oscar de Diretor (Robert Altman)

Desde que recuperou o prestígio e as boas graças da indústria e do público com "O jogador" (92), que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes e uma indicação ao Oscar de diretor, Robert Altman entrou em uma boa fase sem precedentes em sua carreira. Qualquer projeto que levasse sua assinatura no começo da década era garantia de entusiasmadas expectativas por parte da indústria e dos fãs - situação que acabou com "Pret-a-porter" (95), malfadada tentativa de desvendar os bastidores do mundo da moda que fracassou nas bilheterias e desagradou a gregos e troianos. Antes disso, porém, Altman encantou a crítica com um ambicioso projeto que reunia contos de Raymond Carver em um único filme, misturando seu próprio estilo de cinema (uma tênue linha narrativa abarcando inúmeros personagens independentes entre si) com a prosa minimalista e frequentemente poetica do escritor norte-americano. "Short cuts, cenas da vida" resultou em uma produção longa (três horas de duração que soam exatamente como três horas de duração), irregular e calcada basicamente em seu vasto elenco de ótimos atores, porque, apesar de todos os aplausos, é um filme cansativo e que vai do nada pra lugar nenhum.

É fácil de entender porque os atores gostam de trabalhar com Altman: é perceptível que o veterano cineasta lhes dá a liberdade de improvisar e criar em cima de personagens com uma carga humana muitas vezes inexistente no cinema comercial americano. É também fácil de compreender o entusiasmo com que a crítica muitas vezes recebe seus trabalhos: diretores autorais, com uma visão especial do mundo e da própria indústria são raros, especialmente depois que a era dos visionários deu lugar à era dos efeitos especiais e dos lucros milionários. Porém, para gostar de Robert Altman é preciso, mais do que tudo, gostar do seu estilo peculiar de cinema. Quem procura filmes com tramas bem amarradas ou narrativas estruturadas do modo convencional corre o sério risco de decepcionar-se com a obra do diretor, normalmente avessa a tais regras. Altman é o típico caso de amar ou odiar. E talvez "Short cuts" seja um de seus mais radicais exercícios.


Justamente por não ter uma espinha dorsal rígida - os detratores diriam que falta uma trama central - "Short cuts" depende muito da boa-vontade do espectador em seguir todas as histórias contadas pelo roteiro, que se cruzam sutil e aleatoriamente pelos subúrbios de uma Los Angeles ameaçada tanto por fenômenos naturais (terremotos, enxames de moscas) quanto pelos problemas de relacionamento entre famílias e amigos. Se existe um incidente que dá o empurrão inicial em tudo pode-se dizer que é o atropelamento do pequeno Casey (Zane Cassidy), filho da dona-de-casa Ann (Andie MacDowell) e do comentarista de telejornal Howard (Bruce Davison) - cujo pai, Paul (Jack Lemmon dando olé em cena), abandonou a família anos antes e retorna como se nada tivesse acontecido. Quem atropela o menino e o manda para o hospital sem que saiba das consequências do seu ato é a garçonete Doreen Piggot (Lily Tomlin), que, ironicamente, é casada com um chofer particular que luta contra o alcoolismo, Earl (Tom Waits). Sua filha, Honey (Lily Taylor) é casada com um aprendiz de maquiador de cinema, Bill (Robert Downey Jr.), que é o melhor amigo de Jerry Kaiser (Chris Penn), casado com Lois (Jennifer Jason Leigh), que trabalha como atendente em uma empresa de sexo por telefone.

E assim por diante. Duas dezenas de personagens desfilam pela tela, repletos de problemas cotidianos e dramas pessoais que se equilibram entre o banal e o surreal. Há casamentos em crises, ex-maridos truculentos, pescadores que continuam seu passatempo a despeito do cadáver de uma jovem a poucos metros, traições extraconjugais e até mesmo uma Julianne Moore em nu frontal em uma cena que espanta pela naturalidade: enquanto discute com o marido a respeito de um possível adultério passado, ela - totalmente nua da cintura pra baixo - Moore passa a ferro a roupa amarrotada por acidente. Assim é o cinema de Altman: banal, simples, direto. Enquanto uma jovem violoncelista sofre com a tristeza do mundo e um padeiro se revolta com o que considera um desrespeito a seu trabalho, a terra treme, a vida segue e raivas enrustidas explodem com violência. Nem sempre o trabalho do cineasta é palatável. Mas quem gosta de fugir do feijão-com-arroz do cinemão americano pode se interessar bastante.

segunda-feira

O CÉU SE ENGANOU

O CÉU SE ENGANOU (Chances are, 1989, TriStar Pictures, 108min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Perry Howze, Randy Howze. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: Harry Keramidas. Música: Maurice Jarre. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Robert R. Benton. Produção executiva: Andrew Bergman, Neil Machlis. Produção: Mike Lobell. Elenco: Robert Downey Jr., Cybill Sheperd, Mary Stuart Masterson, Ryan O'Neal, Christopher McDonald, Josef Sommer. Estreia: 10/3/89

Indicado ao Oscar de Canção Original ("After all")


A vida não poderia estar indo melhor para o jovem advogado Louie Jeffries (Christopher McDonald): sua carreira está no rumo certo, é feliz em seu casamento com a bela Corinne (Cybil Sheperd) - apesar de saber que seu melhor amigo (Ryan O'Neal) é apaixonado por ela, conforme ele mesmo confessou no dia da cerimônia - e acaba de descobrir que será pai pela primeira vez. Sua imensa felicidade, porém, acaba no capô de carro, que o atropela a caminho de sua comemoração de um ano de casamento. Desesperada, sua alma chega ao céu implorando para que seja mandada de volta - além de sua linda esposa, seu fiel amigo e seu futuro bebê, ele também tem como provar um caso de corrupção envolvendo um juiz de Direito que pode decidir o futuro de um caso seu. Em sua pressa, ele não percebe que, mesmo furando a enorme fila que se forma no local, não irá voltar à Terra no mesmo corpo e na mesma personalidade e sim, reencarnado em outra pessoa. Sem tomar uma vacina que o faria esquecer sua vida anterior, Louie volta como Alex Finch. Vinte anos mais tarde, Alex, formado como jornalista (e na pele de Robert Downey Jr.), tenta um lugar ao sol e conhece a bela e determinada Miranda (Mary Stuart Masterson), estudante de Direito que se apaixona por ele. Na primeira visita à casa dela, porém, Alex se vê relembrando de cada detalhe da residência e leva um susto a descobrir que ela é filha de Corinne, ou seja, de si mesmo. Decidido a reconquistar a mulher que ama, ele precisa convencê-la do absurdo de sua história e afugentar a liberada Miranda (ao mesmo tempo em que também tem que lidar com o fato de ter uma filha disposta a tudo para seduzir o homem por quem é apaixonada).

Essa história, absurdamente fantasiosa mas deliciosamente leve e simpática, é a trama de "O céu se enganou", comédia romântica dirigida pelo mesmo Emile Ardolino que pegou Hollywood de surpresa com o êxito de "Dirty dancing, ritmo quente" (87) e depois faria ainda mais sucesso comandando Whoopi Goldberg em "Mudança de hábito" (90). Sem tentar inventar a roda e contando principalmente com o carisma e o talento ainda em fase de lapidação de Robert Downey Jr. - muitos anos antes que ele se tornasse o garoto-problema de Hollywood e depois desse a volta por cima como o Homem de Ferro - o cineasta, que morreu aos 50 anos em 1993, vítima de complicações relativas à AIDS trata sua história com naturalidade e bom-humor, em um estilo narrativo que muito lembra as comédias despretensiosas dos anos 40. Tal opção reflete-se também na escolha acertada da trilha sonora - que conta com a bela canção-título na voz de Johnny Mattis, a já clássica "Forever young", de Rod Stewart e "After all", balada indicada ao Oscar interpretada por Cher e Peter Cetera - e na escalação da bela Cybill Sheperd para o papel principal feminino.

Sheperd, ex-musa de Peter Bogdanovich em "A última sessão de cinema" (71) e então protagonista da telessérie "A gata e o rato" - que revelou Bruce Willis e estava em sua última temporada - está bela e etérea na pela de Corinne Jeffries, desfilando pela tela com a graça e a elegância das estrelas da antiga Hollywood. Não é difícil acreditar que tanto Downey Jr. quanto Ryan O'Neal sejam apaixonados por ela, mesmo que o roteiro por vezes trate sua personagem com certa leviandade. E o roteiro, como não poderia deixar de ser, esconde suas falhas na química perfeita entre o elenco, o tom despretensioso da direção e alguns momentos de humor realmente engraçados, principalmente quando se trata das tentativas desesperadas de Alex em fugir de Miranda e conquistar Corinne. O inegável talento de Robert Downey Jr. para o humor físico, que em boa parte lhe ajudou a conquistar o papel-título de "Chaplin" (92), pelo qual foi merecidamente indicado ao Oscar, está evidente em cada sequência, demonstrando claramente que sua ascensão rumo à realeza do cinema americano era iminente - ascensão esta interrompida por suas constantes lutas com a justiça e retomada com louvor com o sucesso reconquistado a partir de "Trovão tropical" (08).

"O céu se enganou" é mais uma sessão da tarde de categoria. Simples, divertida e ligeira, ela é também uma mostra do início da carreira de Downey Jr. e uma das poucas chances de testemunhar a beleza de Cybill Sheperd antes que ela desaparecesse das telas grandes e só voltasse a atuar com destaque em outro seriado de TV, que levava o seu nome e ficou no ar entre 1995 e 1998. Juntos, eles - coadjuvados com correção por Ryan O'Neal e Mary Stuart Masterson - são a principal atração do filme, que não machuca ninguém e ainda consegue entreter sem fazer muita força.

sexta-feira

TROVÃO TROPICAL

TROVÃO TROPICAL (Tropic Thunder, 2008, Dreamworks Pictures, 107min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Ben Stiller, Justin Theroux, Etan Cohen, estória de Justin Theroux e Ben Stiller. Fotografia: John Toll. Montagem: Greg Hayden. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Jeff Mann/Daniel B. Clancy. Produção executiva: Justin Theroux. Produção: Stuart Cornfeld, Eric McLeod, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Robert Downey Jr., Jack Black, Tom Cruise, Nick Nolte, Matthew McConaughey, Steve Coogan, Jay Baruchel, Brandon T. Jackson. Estreia: 13/8/08

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Downey Jr.)

Normalmente, quando Hollywood olha para o próprio umbigo e retrata seus bastidores, opta por fazê-lo em dramas autocomplacentes ou cinebiografias de qualidade variadas. Raramente ele busca o riso do espectador, mas quando isso acontece, coisas sensacionais como "Um cilada para Roger Rabbit", de Robert Zemeckis, "Ed Wood", de Tim Burton e "Os picaretas", de Steve Martin - que brincam com a fogueira das vaidades sem perder o carinho por ela - surgem e encantam o espectador inteligente, com piadas certeiras sobre o universo do cinema. Outro exemplar imperdível do gênero é "Trovão tropical", a hilariante comédia com que Ben Stiller provou que tem razoável poder de fogo na indústria, com uma arrecadação doméstica que ultrapassou os 100 milhões de dólares: a despeito de seu orçamento milionário ter ultrapassado os 90 milhões, o filme de Stiller foi um êxito incontestável de bilheteria.

Incontestável e merecido. "Trovão tropical" é uma comédia excepcional e corajosa, que não poupa ninguém dos bastidores do cinema, apontando sua metralhadora giratória para os atores comerciais com ambições mais sérias, para produtores gananciosos, agentes irresponsáveis, cineastas metidos a autorais, os prêmios da Academia e até mesmo para a força do cinema americano ao redor do mundo. Irônico e debochado, o roteiro - escrito a partir de uma história imaginada por Stiller e pelo ator Justin Theroux - tira sarro de tudo e de todos a partir de uma premissa que, não fosse totalmente coerente com o universo retratado, seria de um absurdo sem igual: o "Trovão tropical" do título é um filme produzido pelo excêntrico Les Grossman (Tom Cruise, irreconhecível e muito engraçado), que quer realizar o seu próprio épico sobre a guerra do Vietnã e para isso não mede esforços para reunir uma equipe invejável. O diretor,  Damien Cockburn (Steve Coogan), é um cineasta cult, metido a intelectual e os atores não ficam atrás: o conceituado Kirk Lazarus (Robert Downey Jr) é um veterano vencedor de 4 Oscar adepto do "método" (a ponto de fazer um tratamento dermatológico e escurecer a pele para interpretar um soldado negro), o outrora astro de filmes de ação Tugg Speedmn (o próprio Stiller) quer salvar a carreira depois de uma mal-sucedida investida em um drama pelo qual ambicionava um Oscar, e Jeff Portnoy (Jack Black) tenciona deixar pra trás sua carreira de comediante em um papel sério - e enfrenta problemas com seu vício em drogas.


A bagunça começa quando Damien morre ao pisar em uma mina escondida e os atores, julgando que estão sendo testados pela produção, continuam atuando sem perceber que estão sendo perseguidos por nativos do lugar - que tampouco sabem que eles são apenas atores e não soldados americanos com objetivos militares. Enquanto isso, em Hollywood, Rick Peck (Matthew McConaughey), o agente de Speedman, tenta de todas as maneiras possíveis, proporcionar a seu cliente os luxos a que está acostumado - mesmo batendo de frente com a arrogância do produtor Grossman, que nem de longe imagina que Speedman foi pego como refém de um grupo violento de soldados asiáticos.

Equilibrando com inteligência um humor visual com referências espertas ao mundo das celebridades - não é preciso muito conhecimento de causa para reconhecer em Jeff Portnoy um pouco de Eddie Murphy, por exemplo - "Trovão tropical" conquista por não ter medo de rir das entranhas da própria Hollywood, com seu egocentrismo e sua tendência a louvar mercenários em detrimento de reais artistas - ainda que mesmo esses sejam alvo de piadas inclementes. Além disso, dá a Robert Downey Jr. um dos papéis essenciais à sua carreira - que surgiu juntamente com "Homem de ferro" e "Zodíaco" em sua ressurreição artística. Merecidamente indicado a um Oscar de coadjuvante (que perdeu para a impressionante atuação de Heath Ledger em "Batman, o cavaleiro das trevas"), Downey é, dentre tantas coisas boas, a maior qualidade de "Trovão tropical". E isso não é pouco!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...