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segunda-feira

O PIANO


O PIANO (The piano, 1993, CiBy 2000/Jan Chapman Productions/The Australian Film Comnission, 121min) Direção e roteiro: Jane Campion. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Michael Nyman. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Meryl Cronin. Produção: Jan Chapman. Elenco: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Anna Paquin, Kerry Walker. Estreia: 15/5/93 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino

Vencedor de  3 Oscar: Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original

Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Atriz (Holly Hunter)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Holly Hunter)

Quando estava procurando uma atriz para viver Ada McGrath, a protagonista de seu próximo filme, a neozelandesa Jane Campion entrou em contato com o agente Steve Dontanville oferecendo o papel a uma de suas clientes, Sigourney Weaver. Sabendo que Weaver estava disposta a um período de descanso na carreira, para cuidar da filha pequena, Dontanville nem chegou a ela, sugerindo à Campion outra de suas agenciadas, Holly Hunter. - isso depois de uma série de possibilidades, que incluía Anjelica Huston, Jennifer Jason Leigh, Isabelle Huppert, Juliette Binoche e Madeleine Stowe. Meses mais tarde, quando "O piano" já havia se transformado em fenômeno - com duas vitórias no Festival de Cannes, três Oscar e dezenas de outros prêmios - a cineasta declarou, em uma entrevista, que Weaver era o tipo ideal para interpretar Ada, e surpreendeu a heroína da série "Alien", abismada com a ideia de não ter sido sequer consultada por seu agente. O fato é, que, a despeito do grande talento de Weaver, é praticamente impossível imaginar outra atriz no lugar de Hunter: avassaladora em seus silêncios expressivos e em seu trabalho físico, a então queridinha dos cineastas independentes americanos entrou com louvor no rol das maiores atrizes de seu tempo. E em um filme que, com uma visão feminina sobre o amor e o sexo, deixou desconfortável a parcela mais puritana das plateias internacionais.

Tratando a nudez, o sexo e a violência como partes indissociáveis das relações interpessoais, "O piano" se passa nos confins da Nova Zelândia do século XIX. É lá, em um cenário tão fascinante quanto inóspito, que chega a sensível Ada (Holly Hunter, avassaladora) para casar-se com Alistar Srewart (Sam Neill), a quem jamais conheceu pessoalmente e foi prometida por sua família. Junto com Ada estão sua filha pequena, Flora (Anna Paquin) e seu inestimável piano, que lhe serve como meio de comunicação e refúgio. Muda, Ada leva um choque de realidade quando se vê diante de um lugar que contrasta violentamente com seu espírito culto e delicado. Para piorar as coisas, seu marido, bruto e pouco afeito a sutilezas, vende seu piano para um vizinho, o exótico e misterioso George Baines (Harvey Keitel), que adotou o modo de viver dos nativos locais. Sentindo-se irremediavelmente atraído por Ada, ele propõe a Stewart que sua mulher lhe dê aulas de música em troca de terras desejadas pelo empresário. As lições de piano, no entanto, servem para que o surpreendentemente romântico Baines se aproxime do objeto de seu desejo, a quem ele deseja conquistar aos poucos, demonstrando um lado vulnerável e inesperado. Porém, o nascente romance entre os dois acende uma faísca que pode levar a uma tragédia.


 

Primeiro filme dirigido por uma mulher a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes - que dividiu com o chinês "Adeus, minha concubina", de Chen Kaige - e vencedor do Oscar de roteiro original, "O piano" foi também um inesperado sucesso popular, conquistando principalmente o público feminino, que viu na história de Ada um reflexo sofisticado da sexualidade através do olhar de uma mulher (Campion foi, à época, recém a segunda diretora a ser indicada na categoria, pela Academia). Ao apresentar cenas de nudez frontal de Holly Hunter e Harvey Keitel - nenhum deles dentro do padrão de beleza hollywoodiana - e sequências de sexo pouco discretas, o filme desafia a mesmice do cinema comercial, exibindo a sexualidade de forma madura e sem filtros. Pontuados pela belíssima trilha sonora de Michael Nyman, os momentos de intimidade entre os protagonistas soam como um sopro de verdade diante dos malabarismos eróticos da maioria da produção americana dos anos 1990. O despertar do amor entre Ada e Baines, visto pelas lentes do diretor de fotografia Stuart Dryburgh, surge como um oásis no meio da vastidão neozelandesa, quase hostil à sensibilidade, e consegue inclusive disfarçar o incômodo de ser fruto de um começo - e aqui há espaço para a polêmica - abusivo. Antes de entregar-se ao amor de Baines, a silenciosa pianista se vê obrigada a abrir mão do próprio corpo para recuperar seu instrumento musical, e nem mesmo a paixão quase cega de seu futuro amante justifica seus atos, por mais que se tente romantizar a situação. É uma questão desconfortável que o roteiro de Campion prefere ignorar.

Porém, se o desenvolvimento do romance entre os protagonistas é passível de discussão, não o são as maiores qualidades do filme. Holly Hunter está simplesmente devastadora como Ada, e seu Oscar é, provavelmente, um dos mais justos da história (no mesmo ano ela concorreu à estatueta de coadjuvante por seu trabalho em "A firma"), e Harvey Keitel surpreende em um papel a anos-luz de distância daqueles durões a que estão todos acostumados. A pequena Anna Paquin, que bateu nada menos que cinco mil candidatas ao papel da imprevisível Flora e levou um surpreendente Oscar, está igualmente fascinante, não se deixando intimidar pela presença gigantesca de Hunter. Dono de cenas de grande potência dramática - enfatizadas pela melancólica música e pelo desolador e cruel cenário, "O piano" é, sem dúvida, um dos filmes fundamentais de sua época, mesmo que hoje em dia soe um tanto questionável em termos morais. Apesar do viés distorcido do amor - ou talvez por causa disso, vai saber -, é uma história forte, contada com paixão e sensibilidade.

quarta-feira

A DESPEDIDA


A DESPEDIDA (Blackbird, 2019, Millenium Media/Busted Shark Productions/Eclectic Pictures, 97min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Christian Torpe, roteiro original de sua autoria. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Kristina Hetheringon. Música: Peter Gregson. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: John Paul Kelly/Caroline Smith. Produção executiva: Boaz  Davidson, Andrey Georgiev, Jeffrey Greenstein, Andrew Kotliar, Avi Lerner, Bryan Lord, Heidy Jo Markel, Joshua Sason, Trevor Short, Jonathan Yunger, Elizabeth Zavoyskiy. Produção: David Bernardi, Sherryl Clark, Rob Van Norden. Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Lindsay Dunca, Rainn Wilson, Bex-Taylo-Klaus, Anson Boon. Estreia: 06/9/2019 (Festival de Toronto)

Portadora de uma doença degenerativa incurável, mulher reúne a família em um último fim-de-semana, com o objetivo de aparar as arestas de suas relações e despedir-se daqueles a quem ama. A sinopse do filme "A despedida" soa tão genérica quanto seu título nacional, mas a boa notícia é que, apesar dos clichês abundantes, o remake do dinamarquês "Coração mudo" (2014), comandado por Roger Michell, é uma produção bastante digna e capaz de comover o público com facilidade - principalmente pela união de um elenco que conta com duas vencedoras do Oscar e atores com prestígio e experiência suficientes para evitar o dramalhão fácil. Nem sempre consegue escapar das armadilhas de uma trama assumidamente emocional, mas dotado de um ritmo agradável e um roteiro que trata de um assunto pesado - a eutanásia - com uma leveza inesperada, o filme é uma bela surpresa, ainda que pouco marcante, o que se refletiu em sua repercussão quase nula desde sua estreia no Festival de Toronto de 2019.

Escrito pelo mesmo Christian Thorpe do filme original, o roteiro de "A despedida" apresenta seus personagens aos poucos - e só expõe a situação principal depois que o espectador já os conhece o bastante para apreciar suas reações diante de um dilema dos mais dilacerantes. Lily (Susan Sarandon, sempre excepcional) e Paul (Sam Neill) formam um casal apaixonado e leal, que criou suas duas filhas com amor e liberdade. A mais velha, Jennifer (Kate Winslet) cresceu uma mulher um tanto controladora, que não abre muito espaço para espontaneidade em sua vida, para incômodo do marido, Michael (Rainn Wilson), e do filho adolescente Jonathan (Anson Boon). A caçula, Anna (Mia Wasikowska), mais rebeldes e desajustada, vive em constantes altos e baixos, o que interfere inclusive no seu relacionamento com a namorada, Chris (Bex Taylor-Klaus). Sofrendo de uma doença que em pouco tempo lhe deixará completamente incapaz de uma vida normal, Lily decide cometer suicídio assistido, contando com a ajuda do marido, que é médico, e para despedir-se adequadamente de todos a quem ama, organiza um fim-de-semana em sua bela casa no litoral - uma espécie de Natal adiantado, que conta também com a presença da sempre fiel e melhor amiga Liz (Lindsay Duncan). Reunido, o grupo tenta ignorar a tensão de uma morte anunciada - o que traz à tona ressentimentos, segredos e sentimentos até então disfarçados sob a aparência de uma família feliz.


 

Não há novidades em "A despedida": o tema, os personagens, os conflitos, tudo parece já ter sido explorado em outras produções mais ou menos bem-sucedidas. Mas é inegável que no filme de Michell - o homem por trás do delicioso "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) - as engrenagens funcionam com uma delicadeza ímpar. Por mais que as coisas aconteçam de acordo com os manuais de roteiro (com direito a reviravoltas e um equilíbrio sutil entre drama e algum humor), é difícil não se deixar envolver com o drama proposto, principalmente por jogar luz sob um tema ainda doloroso e polêmico. A produção acerta em não se deixar levar por um tom fúnebre - para o que colabora a luminosa fotografia de Mike Eley, que tira proveito da beleza natural de West Sussex como contraponto à angústia da trama. Também não atrapalha nem um pouco ter em cena atores tão à vontade quanto o elenco escolhido - um time de excelentes intérpretes, que aproveitam cada linha de diálogo para brilhar. Se Susan Sarandon e Kate Winslet não precisam provar mais nada há algum tempo, sobra para Rainn Wilson e Bex Taylor-Klaus chamarem a atenção: ele distante anos-luz de seu mais célebre personagem - o Dwight da série "The office" - e ela oferecendo nuances inesperadas as uma personagem que poderia facilmente cair no estereótipo barato.

"A despedida" não é um filme que fica na memória. Talvez seja sintomático que, apesar do tema, do gênero e do elenco brilhante, tenha sido solenemente ignorado em todas as cerimônias de premiação que tanto apreciam seu estilo. Porém, ao abraçar com sensibilidade e honestidade uma história com tantas possibilidades de cair no grotesco ou no sentimentaloide mais ofensivo, se torna um programa de rara inteligência e sutileza. E claro, contar com um elenco tão fabuloso apenas ajuda a tornar tudo bem mais palatável. É um filme com (grandes) qualidades e (alguns) defeitos - a falta de originalidade sendo o mais óbvio. Mas é, acima de tudo, um filme digno ainda que por vezes um tanto superficial.

domingo

O OUTRO LADO DA NOBREZA


O OUTRO LADO DA NOBREZA (Restoration, 1995, Miramax Films, 117min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Rupert Walters, romance de Rose Tremain. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti. Produção executiva: Kip Hagopian. Produção: Sarah Black, Cary Brokaw, Andy Paterson. Elenco: Robert Downey Jr., Sam Neill, Meg Ryan, David Thewlis, Ian McKellen, Polly Walker, Hugh Grant. Estreia: 29/12/95

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as performances cinematográficas de Robert Downey Jr. - de Charles Chaplin ao Homem de Ferro, passando por comédias românticas, filmes de ação e a sensacional performance cômica indicada ao Oscar de coadjuvante em "Trovão tropical" (2008) - nenhuma é mais exuberante que Robert Merivel, o protagonista de "O outro lado da nobreza". Lançada em 1995, um dos anos mais produtivos da carreira do ator, e praticamente esquecido entre sua filmografia, a adaptação do romance de Rose Tremain chegou a ganhar dois Oscar (figurino e direção de arte) e contava com um elenco de nomes conhecidos do grande público - Hugh Grant, Meg Ryan, Sam Neill. Porém, com uma direção burocrática de Michael Hoffman e um roteiro que não consegue escapar da superficialidade, passou quase em branco pelo público e tampouco entusiasmou a crítica. E em comparação com seus trabalhos mais aplaudidos, o desempenho de Downey Jr. parece um tanto perdido, tentando encontrar o foco em um filme que tenta abraçar vários temas sem aprofundar-se a contento em nenhum deles.

Michael Hoffman não é um cineasta dos mais geniais, sempre apresentando produções no máximo simpáticas - como se pode afirmar depois de filmes como "Segredos de uma novela" (1991), "Um dia especial" (1996) e sua adaptação de "Sonho de uma noite de verão" (1999). Em "O outro lado da nobreza" não é diferente. Apesar do capricho na ambientação e da nítida ambição de criar uma obra relevante, Hoffman não consegue imprimir o tom de seriedade necessário para dar à trama, que retrata um dos períodos mais nefastos da História como forma de purgação e amadurecimento para o protagonista. O arco dramático soa bastante artificial e apressado, a despeito de atravessar anos e precipitar acontecimentos catalisadores que, da forma como apresentados, jamais transmitem o grau de importância que terão no desfecho da história. O roteiro de Rupert Walters tenta, em pouco menos de duas horas, estabelecer relações cruciais - mas esbarra em uma pressa que prejudica o envolvimento do espectador. Some-se a isso a personalidade hesitante de Robert Merivel - um bon vivant irresponsável que parece nunca estar completamente dedicado aos acontecimentos a seu redor - e o filme falha em sua principal pretensão: emocionar. 

 

A trama começa quando, em 1663, o estudante de Medicina Robert Merivel é chamado à corte do Rei Charles II (Sam Neill) para tratar de um de seus cachorrinhos preferidos. O jovem aspirante a médico salva a vida do animalzinho e cai nas graças do monarca, tornando-se parte de sua corte e deslumbrando-se com as vantagens de sua nova posição. As coisas começam a mudar quando o rei ordena que Merivel se case com a sensual Celia (Polly Walker), sua amante, para agradar outra de suas conquistas amorosas. As advertências de Charles para que o médico não se apaixone por sua esposa de mentirinha caem no vácuo, e, descoberto em seus sentimentos, Merivel se vê diante da vida que abandonara e, sem saber saber que rumo tomar, ele retoma a amizade com Pearce (David Thewliss) - um colega de faculdade que sempre pautou sua vida pela ética profissional. Nesse momento, a Peste Negra começa a espalhar-se pela Europa - e Merivel volta a ter seu caminho cruzado com o Rei e Celia depois de ter experimentado uma nova paixão com Katharine (Meg Ryan), uma jovem tratada como mentalmente insana e que lhe fez redescobrir as coisas boas da vida.

A trajetória de Merivel é plenamente compreensível, e seu amadurecimento é, apesar dos problemas de roteiro e direção, soam verossímeis. O problema é que "O outro lado da nobreza" parece tão deslumbrado por sua impecável reconstituição de época que esquece de dar atenção a elementos cruciais em uma narrativa. Atores como Hugh Grant e Ian McKellen são deixados de lado com personagens mal desenvolvidos, e a química inexistente entre Robert Downey Jr. e Meg Ryan também não ajuda a deixar as coisas menos complicadas. O filme de Michael Hoffman não é um filme ruim, mas tampouco é memorável a ponto de fazer diferença nas carreiras dos envolvidos. Pode agradar aos menos exigentes - mas dificilmente se tornará um favorito.

quarta-feira

PARA SEMPRE

PARA SEMPRE (The vow, 2012, Screen Gems/Spyglass Entertainment, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Jason Katims, Abby Kohn, Marc Silverstein, estória de Stuart Sender. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Melissa Kent, Nancy Richardson. Música: Michael Brook, Rachel Portman. Figurino: Alex Kavanaugh. Direção de arte/cenários: Kallina Ivanov/Jaro Dick. Produção executiva: Susan Cooper, J. Miles Dale, Austin Hearst. Produção: Gary Barber, Roger Birnbaum, Jonathan Glickman, Paul Taublieb. Elenco: Rachel McAdams, Channing Tatum, Jessica Lange, Sam Neil, Scott Speedman, Wendy Creyston. Estreia: 09/02/12

Dois fatores específicos justificam a bilheteria doméstica acima dos 120 milhões de dólares do apenas razoável "Para sempre", estreia do diretor Michael Sucsy no cinema depois do sucesso de "Grey Gardens" - estrelado por Jessica Lange e Drew Barrymore - na televisão americana: o romantismo incurável de uma considerável parcela do público (que salvo raras exceções lota as salas quando o assunto são histórias de amor) e o carisma de sua dupla central, formada por atores em franca ascensão dentro da indústria: Channing Tatum (em vias de arrastar multidões aos cinemas com "Anjos da lei" e "Magic Mike") e Rachel McAdams (bela, encantadora e boa atriz a ponto de estrelar um dos melhores Woody Allens desde sempre, "Meia-noite em Paris"). Só mesmo essas duas razões podem explicar o êxito de uma produção que, a despeito de ser visualmente atraente, não acrescenta nada de novo ao gênero. Baseado em uma história real, o roteiro não escapa das armadilhas, e é preciso aplaudir a força do casal de protagonistas em tentar dar veracidade e emoção à coleção de clichês que desfilam pela tela.

"Para sempre" conta um história que lembra a comédia "Como se fosse a primeira vez", lançada no final dos anos 90. Porém, enquanto no divertido filme estrelado por Adam Sandler e Drew Barrymore  o tom cômico levava a trama sem maiores sobressaltos, nessa versão melodramática a missão é bem mais difícil: um acidente de carro leva a jovem Paige (Rachel McAdams) a uma amnésia parcial que a faz esquecer completamente os últimos quatro anos de sua vida, justamente o período em que se relacionou com o apaixonado Leo (Channing Tatum). A condição médica da moça acaba servindo perfeitamente aos planos de seus pais (Sam Neill e Jessica Lange, fazendo o possível com o pouco que lhes é oferecido pelo roteiro), que tinham-na visto afastar-se do seio familiar anos antes, depois de abandonar a faculdade de Direito para ingressar em uma Escola de Arte (e de ter rompido com eles devido a um fato mantido em segredo por todos). Sem lembrar-se de seu casamento com Leo - e nem mesmo de tê-lo conhecido - Paige recomeça sua vida se reaproximando do ex-noivo, Jeremy (Scott Speedman), mas o rapaz não tem o menor plano de deixar o amor de sua vida escapar e faz de tudo para reconquistá-la, apesar de tudo lhe dizer que a batalha já está perdida.


A sucessão de clichês que inunda "Para sempre" chega a ser desanimadora. Tudo bem que dramas românticos não são exatamente cenários apropriados para experimentos estilísticos ou artísticos, mas nada justifica a preguiça da direção ou do roteiro, apoiado basicamente em cenas pretensamente emocionantes que só funcionam para aqueles que adoram esbaldar-se em histórias de amor. No entanto, mesmo que não exista aqui a química notável que havia entre a mesma Rachel McAdams e Ryan Gosling em "Diário de uma paixão" - o melhor exemplo de um romance clichê que conseguiu sobressair-se à sua origem literária menor (livro de Nicholas Sparks) graças ao elenco bem escalado e à sensibilidade de um cineasta talentoso - é visível o esforço e a garra do casal de protagonistas, infelizmente subaproveitados ao extremo. McAdams, por exemplo, fica o filme todo sendo usada como um joguete, de lá pra cá - e nem é bom comentar "o grande segredo" que a levou a romper com os pais, de uma frivolidade inacreditável.

Feito exclusivamente para quem não consegue sobreviver sem um dramalhão romântico, "Para sempre" é capaz de suprir as expectativas de seu público-alvo. É bonito, é direto e simples. Mas está muito longe de ser inesquecível, principalmente por não apresentar nada de novo à audiência - que, por sua vez, provavelmente não irá se importar com tanta fragilidade artística.

UMA LONGA QUEDA

UMA LONGA QUEDA (A long way down, 2014, Wildgaze Films/BBC Films, 96min) Direção: Pascal Chaumeil. Roteiro: Jack Thorne, romance de Nick Hornby. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chril Gill, Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Chris Oddy/Kate Guyan. Produção executiva: Christoph Daniel, Nick Hornby, Zygi Kamasa, Marc Schimdheiny, Thorsten Schumacher, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Pierce Brosnan, Toni Collette, Imogene Poots, Aaron Paul, Sam Neil, Rosamund Pike. Estreia: 10/02/14 (Festival de Berlim)

No começo dos anos 2000 não havia autor mais em voga dentro de Hollywood do que o inglês Nick Hornby. Com seu talento incomum para contar histórias simples protagonizadas por pessoas de carne e osso e recheadas de referências à cultura pop, ele viu dois de seus livros serem adaptados com enorme sucesso para as telas: "Alta fidelidade", estrelado por John Cusack chegou aos cinemas em 1999, e "Um grande garoto", com Hugh Grant em uma de suas melhores atuações, foi lançado em 2002 e chegou a concorrer ao Oscar de roteiro. Depois disso, ele viu seu "Febre de bola" ser transfigurado em uma adaptação pouco feliz em um filme quase ignorado pelo público e inverteu o caminho que costumava trilhar, passando de autor de romances transportados para a tela a roteirista de livros alheios - o que lhe rendeu indicações ao Oscar por "Educação" (2009) e "Brooklyn", que concorre à estatueta em 2016. Isso não significa, no entanto, que os produtores tenham esquecido sua obra. Um exemplo disso é "Uma longa queda", que mesmo sem ter a mesma qualidade quase impecável dos filmes estrelados por Cusack e Grant, ainda consegue ser um passatempo agradável e dono de um humor irônico e agradável - apesar de ter como tema central um assunto pouco palatável à grande audiência: o suicídio.

Tudo começa em uma noite de Ano-novo, quando Martin (Pierce Brosnan), um famoso apresentador de talk show chega ao topo de um prédio de Londres disposto a acabar com a própria vida, depois de um escândalo de sedução de uma menor que acabou com sua carreira. Antes mesmo de criar coragem para chegar às vias de fato, ele percebe a chegada de Maureen (Toni Colette), a mãe solteira de um rapaz doente, que também tem a intenção de acabar com seus problemas se atirando de cima do edifício. A eles juntam-se, logo em seguida, a rebelde Jess (Imogen Poots), filha de um influente político e que acaba de ser abandonada pelo namorado, e JJ (Aaron Paul, da série "Breaking bad"), um entregador de pizza que revela sofrer de câncer cerebral. Frustrados em seus planos, os quatro acabam por fazer um pacto que consiste em ajudar-se mutuamente e tentar resolver seus problemas. Antes do novo encontro, marcado para o Dia dos Namorados, porém, eles tornam-se muito mais próximos do que poderiam imaginar.


Mesmo sem o frescor romântico pop de "Alta fidelidade" e o sarcasmo niilista de "Um grande garoto", o resultado final de "Uma longa queda" é extremamente simpático e divertido, principalmente devido à química entre seus quatro atores centrais. Toni Collete, sempre ótima, volta a viver uma suicida saída da imaginação de Hornby (em "Um grande garoto" ela vivia a depressiva mãe do adolescente desajustado que dava título ao romance e ao filme) e conquista o espectador sem precisar fazer muito esforço. Pierce Brosnan sai-se muito bem na pele da constrangida celebridade em desgraça e Aaron Paul tem sua melhor chance no cinema como um jovem cheio de segredos que descobre o amor onde menos poderia esperar (e substitui à altura a escolha inicial, Emile Hirsch). E a jovem inglesa Imogen Poots - conhecida como a namorada de Anton Yelchin no remake de "A hora do espanto" - mostra-se talentosa o bastante para quase roubar a cena dos parceiros mais experientes. Nem mesmo a queda de ritmo no meio do filme prejudica a coesão atingida pelo cineasta francês Pascal Chaumeil - que dirigiu o simpático "Como arrasar um coração" e morreu aos 54 anos, em agosto de 2015 - e do roteiro delicado de Jack Thorne, oriundo de séries da televisão britânica. Sem buscar a lágrima ou o riso fáceis, o filme cativa principalmente pela sutileza, artigo raro em produções comerciais - não chega a ser surpresa que o filme tenha passado quase em branco pelas telas de cinema.

"Uma longa queda" não é um grande filme. Tem seus defeitinhos de ritmo e em algumas vezes parece quase superficial. Mas é agradável do início ao fim, não trata o espectador como bobo e tem um elenco que justifica plenamente uma sessão de hora e meia. Uma pedida excelente para uma tarde chuvosa ou momentos de tédio. Mais um filme digno da obra literária de Nick Hornby, um dos mais interessantes escritores de sua geração.

domingo

O ENCANTADOR DE CAVALOS

O ENCANTADOR DE CAVALOS (The horse whisperer, 1998, Touchstone Pictures, 172min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Eric Roth, Richard LaGravenese, romance de Nick Evans. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Hank Corwin, Freeman Davies, Tom Rolf. Música: Thomas Newman, Gwil Owen. Figurino: Judy L. Ruskin. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Rachel Pfeffer. Produção: Patrick Markey, Robert Redford. Elenco: Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Sam Neil, Dianne Wiest, Chris Cooper, Scarlett Johanssen, Cherry Jones, Kate Bosworth. Estreia: 15/5/98

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("A soft place to fall")

Quem conhece a filmografia de Robert Redford como cineasta sabe muito bem que o galã transformado em diretor oscarizado - pelo belo "Gente como a gente", de 1980 - tem um ritmo todo particular de contar as histórias que escolhe apresentar à plateia. Foi assim, por exemplo, com "Nada é para sempre" (92), que ilustrava uma trama familiar e fraternal com o ritmo suave da pesca, e com "Quiz show, a verdade dos bastidores" (94), que escancarava a corrupção da televisão americana em plenos anos 50 como um cerebral filme de detetives da década de 70. Não houve surpresa nenhuma, portanto, quando ele lançou "O encantador de cavalos", seu filme seguinte: baseado em um romance de Nick Evans que teve seus direitos comprados por Redford antes mesmo de ser publicado, o filme se desenvolve lentamente diante dos olhos do espectador, oferecendo a ele a oportunidade de envolver-se gradualmente com a trama, os personagens e as belas imagens captadas pela câmera do veterano Robert Richardson - Oscar por "JFK", de Oliver Stone. A quem está acostumado com a edição quase alucinante da maioria do filmes pós-anos 80, pode parecer chato e enfadonho - o estilo convencional do cineasta muitas vezes é assim considerado - mas aqueles que aceitarem experimentar podem se surpreender com uma bela e emocionante história de amor e reparações sentimentais.

Logo nos primeiros minutos de projeção Redford já mostra que não está disposto a brincadeiras, com uma impressionante sequência que mostra um trágico acidente envolvendo um caminhão e dois cavalos em um estrada coberta de uma neve escorregadia e traiçoeira. O resultado do desastre - dirigido com sensibilidade e delicadeza que equilibram suas consequências funestas - é a morte da adolescente que cavalgava um dos animais (que também acaba se tornando uma vítima fatal) e a amputação de parte da perna da outra menina, a tímida Grace (Scarlett Johansson em início de carreira). Seu cavalo, Pilgrim, sobrevive, mas fica extremamente ferido a ponto de tornar-se sério candidato à eutanásia. Quem impede tal desfecho é Annie (Kristin Scott Thomas), editora-chefe de uma revista nova-iorquina que acredita que matar o animal seria o golpe de misericórdia no sofrimento de sua filha, Grace. Disposta a curar o cavalo - e consequentemente ajudar na recuperação da garota, com quem vive um relacionamento difícil - ela viaja até Montana com o objetivo de convencer o famoso "encantador de cavalos" Tom Booker (Redford em pessoa, pela primeira vez sendo dirigido por ele mesmo) a aceitar o trabalho de recuperar a saúde de Pilgrim.


Não é preciso ser especialista para adivinhar que Booker não apenas irá tratar do cavalo, mas também irá consertar a relação entre mãe e filha, colaborar na autoaceitação de Grace em sua nova condição, questionar o modo de vida urbano e estressante de Annie e, lógico, envolver-se romanticamente com ela, que passa por um período conturbado no casamento com Robert (Sam Neill). Nadando contra a corrente do cinema comercial americano, porém, Redford trata dessa sessão de terapia conjunta e atípica sem pressa, de forma quase contemplativa e onírica, que valoriza cada fotograma, cada expressão de seus atores - e entre os coadjuvantes estão os ótimos Dianne Wiest e Chris Cooper - e cada deslumbrante cenário de Montana. É óbvio que essa decisão em levar a história a seu próprio tempo estica a duração do filme a quase três horas de duração, o que pode incomodar aos mais inquietos, mas é louvável a coragem de Redford em desafiar as normas ao assinar uma produção que ainda por cima tem a ousadia de contar uma história de amor pudica e discreta, ao contrário dos amores histéricos que frequentam as salas de exibição. Tudo bem, sua química com Kristin Scott Thomas - uma das maiores atrizes de sua geração - não é das melhores, mas o fato de seu relacionamento sustentar-se basicamente em olhares e intenções faz dele um dos mais maduros e interessantes da década, apesar do fracasso do filme nas bilheterias (talvez justamente por romper os padrões comerciais do gênero).

E é interessante também como Redford encontra um generoso espaço em seu drama romântico para mostrar o tratamento que seu personagem oferece ao cavalo de Grace - e que, afinal, dá título ao filme. As cenas em que Tom Booker e Pilgrim interagem - e posteriormente incluem a menina em sua relação - são emocionantes na medida certa, evitando o sentimentalismo fácil ao mesmo tempo em que conquistam o público com sua delicadeza ímpar, enfatizada pela bela fotografia e pela trilha sonora de Thomas Newman. "O encantador de cavalos" é um filme para plateias adultas, que estão cansadas das fórmulas desgastadas expostas com ritmo de videoclipe. É suave, maduro e muito bonito.

quinta-feira

UM GRITO NO ESCURO

UM GRITO NO ESCURO (A cry in the dark, 1988, Cannon Entertainment/Golam-Globus Produtcion, 120min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: Fred Schepisi, Robert Caswell, romance "Evil angels", de John Bryson. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Jill Bilcock. Música: Bruce Smeaton. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte: Wendy Dickson, George Liddle. Produção executiva: Yoram Globus, Menahem Golam. Produção: Verity Lambert. Elenco: Meryl Streep, Sam Neil, Lauren Sheperd, Bethany Ann Pricket, Brian James. Estreia: 03/11/88 (Austrália)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes - Melhor Atriz (Meryl Streep)

Um dos mais chocantes e infames casos judiciais da história australiana chegou às telas de cinema pouco tempo depois de seu desfecho, no final dos anos 80. Dirigido com economia de emoções por Fred Schepisi, que optou acertadamente por um viés mais documental e menos melodramático - talvez por acreditar que a trama em si já é forte o bastante para precisar de mais firulas sentimentais - "Um grito no escuro" rendeu à Meryl Streep sua oitava indicação ao Oscar e uma inédita premiação como melhor atriz no Festival de Cannes. Nada mais justo. Como é de seu costume, Streep entrega mais uma atuação arrebatadora - ainda que sua personagem passe longe de ser carismática - na pele de Lindy Chamberlain, uma mãe de família que, no início dos anos 80, viu sua vida virar de cabeça pra baixo com a trágica morte de sua filhinha de dez semanas.

Esposa de um pastor adventista e mãe de família devotada, Lindy vai passar um fim-de-semana com todos - dois meninos e a pequena Azaria - em um acampamento no deserto australiano, frequentado por turistas e lar de aborígenes locais. Para seu desespero, depois de colocar o bebê para dormir em uma das tendas, ela vê um dingo (espécie de cão selvagem típico da região) carregá-lo para dentro da mata. Apesar das buscas imediatas, a escuridão da madrugada impede a localização tanto do animal quanto do bebê, que é dado como morto até que suas roupinhas são finalmente encontradas repletas de manchas de sangue. O que a princípio é estabelecido como uma tragédia sem precedentes - afinal, até então os dingos não tinham histórico de atacar seres humanos - logo se transforma, porém, em um caso de polícia. Desconfiando de algumas incongruências na história contada por Lindy (além do fato de ela mostrar-se fria o suficiente em relação à morte da filha para detonar um ataque sem precedentes da opinião pública), a justiça a acusa formalmente de assassinato, com a cumplicidade do marido, Michael (Sam Neil). Sem compreender o estoicismo de Lindy - que se ampara na fé para suportar a dor da perda - nem mesmo os dogmas de sua religião (cercada de lendas preconceituosas pela população que a colocam até mesmo em um ritual de magia negra), o público se encarrega de julgar por si mesmo e fofocas e boatos tornam-se verdades absolutas. Tal situação leva Lindy - grávida novamente na ocasião de seu julgamento - a tornar-se alvo de severas e cruéis críticas.


Contando com um roteiro que se dedica apenas a contar a história, sem julgamentos de valor ou insinuações tendenciosas - apesar do desfecho se encarregar de concluir o caso de forma sóbria e sem maiores espaços para dubiedades - "Um grito no escuro" se mantém em um ritmo ágil, graças ao roteiro, que põe na boca de personagens secundários toda a gama de preconceitos e fofocas que circundaram o caso sem nunca perder de vista o foco principal: a luta de Lindy para provar sua inocência a despeito do tratamento quase cruel que recebeu até mesmo de pessoas que nunca tiveram contato com ela - e de jornalistas que abusaram de sua confiança para reiterar suas opiniões pré-estabelecidas. Meryl Streep tira de letra o desafio de levar às telas uma personalidade tão conflitante quanto a de Lindy Chamberlain: sem tentar buscar a simpatia do público, a atriz (que nunca deu sua opinião a respeito do caso, preferindo interpretá-la sem emitir qualquer julgamento) criou uma protagonista quase fria em sua bravura, capaz de cair na gargalhada quando agredida na rua ou demonstrar tédio em pleno julgamento, mas que também emociona em sua fé inabalável mesmo quando tudo parece lhe estar perdido. Caprichando no sotaque como sempre e utilizando uma sinistra peruca negra para compor a personagem, ela rouba o filme com uma das personagens mais difíceis de sua carreira.

Mas apesar de sua atuação irretocável, "Um grito no escuro" é mais do que simplesmente Meryl Streep. É também um aviso do perigo que a mídia e a opinião pública, quando mal direcionadas, representam para a liberdade individual. É o retrato dos males do preconceito e, acima de qualquer coisa, um filme de primeira qualidade, capaz de prender o espectador na cadeira até seus minutos finais sem apelar para nada mais do que um roteiro conciso, uma direção sóbria e um elenco de atores em dias inspirados. Pode revoltar aos mais sensíveis às injustiças, mas é quase imperdível!

terça-feira

JURASSIC PARK - PARQUE DOS DINOSSAUROS

JURASSIC PARK, PARQUE DOS DINOSSAUROS (Jurassic Park, 1993, Universal Pictures/Amblin Entertainment, 127min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Michael Crichton, David Koepp, romance de Michael Crichton. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Jackie Carr. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Kathleen Kennedy, Gerald R. Molen. Elenco: Sam Neil, Richard Attenborough, Laura Dern, Jeff Goldblum, Ariana Richards, Joseph Mazzello, Samuel L. Jackson, Wayne Knight. Estreia: 11/6/93

Vencedor de 3 Oscar: Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Quando Steven Spielberg deixa de lado sua vontade de ser um cineasta sério ele não brinca em serviço. Pouco antes de ganhar seus sete Oscar por "A lista de Schindler", ele brindou seu público sedento por um bom filme-pipoca com uma legítima obra-prima do gênero: além de ganhar 3 merecidos prêmios da Academia (efeitos visuais, som e efeitos sonoros), "Jurassic Park" ainda foi responsável por quebrar recordes e mais recordes de bilheteria, tornando-se um dos maiores fenômenos da história do cinema. Apesar da maciça campanha de marketing que tornou impossível ignorar o filme no verão americano de 1993, vale dizer que a obra de Spielberg que trouxe os dinossauros de volta à Terra mereceu cada centavo que arrecadou ao redor do globo.

Baseado em um romance de Michael Crichton, "Jurassic Park" tem como protagonista o milionário John Hammond (o cineasta Richard Attenborough, brincando de ator) que, ambicioso, cria o parque temático do título, que recriou dinossauros a partir de cadeias do DNA conservados em âmbar. Para dar legitimidade à sua criação e conseguir o aval de seus advogados, ele chama dois paleontólogos, Alan Grant (Sam Neil) e Ellie Sattler (Laura Dern) e um cientista, Ian Malcolm (Jeff Goldblum) que, ao lado dos dois netos do magnata, farão a primeira excursão pelo parque. No entanto, um funcionário ganancioso, em uma tentativa de trair o patrão, acaba causando um desastre e todos os animais criados no parque ficam à solta, em busca de alimento: os seres humanos.



É inegável que a intenção de Spielberg  com "Jurassic Park" é tão-somente divertir o espectador. Se as personagens não são exatamente profundos e seus dramas são quase raros isso importa muito pouco diante do impressionante resultado final. Poucas vezes o cinema escapista teve um representante tão digno. Em sequências aterrorizantes, o diretor utiliza a mágica trilha sonora do mestre John Williams para grudar o público na poltrona, com taquicardia certa. Os efeitos visuais são impecáveis até hoje - como sempre, a parte técnica da obra do diretor não fica nunca aquém de perfeita - e o ritmo, especialmente na segunda metade não deixa espaço para as personagens (e os espectadores, por conseguinte) respirarem.

As subtramas de "Jurassic Park", por sinal, não deixam de manter o estilo "família" de Steven Spielberg. A mais divertida delas une Alan Grant - um solteirão nada confortável perto de crianças - aos dois netos de Hammond, sofrendo pelo divórcio dos pais e sendo perseguidos avidamente por tiranossauros-rex famintos. Logicamente, a aventura que ele compartilha com os meninos mudará sua maneira de encarar uma possível paternidade, bem ao gosto do diretor, que, de leve, ainda desperta uma discussão moral e ética a respeito das possibilidades do ser humano em brincar de ser Deus - obviamente sem forçar a plateia a maiores elocubrações mentais. Da plateia só o que ele espera é que embarque sem reservas em sua montanha-russa desgovernada.

"Jurassic Park" não é filme para mudar a vida de ninguém. Mas é fascinante - a cena em que Alan e Ellie dão de cara com os primeiros dinossauros, ao som da música de John Williams, é um primor, reiterando o poder que a sétima arte tem em encantar os espectadores. E é também um dos melhores filmes de entretenimento produzidos por Hollywood em toda a sua história. Infelizmente, perdeu seu vigor, por conta de suas desnecessárias continuações.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...