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domingo

TUDO POR JUSTIÇA


TUDO PELA JUSTIÇA (Out of the furnace, 2013, Relativity Media/Scott Free Productions, 116min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Scott Cooper, Brad Ingelsby. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Melissa Lombardo. Produção executiva: Riza Aziz, Robbie Brenner, Ron Burkle, Jason Colbeck, Joe Gatta, Joey MacFarland, Christian Mercuri, Tucker Tooley, Jeff Waxman, Brooklyn Weaver. Produção: Michael Costigan, Jeniffer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Ryan Kavanaugh, Ridley Scott. Elenco: Christian Bale, Woody Harrelson, Casey Affleck, Willem Dafoe, Forest Whitaker, Sam Shepard, Zoe Saldana. Estreia: 09/11/13

Em 2009, Scott Cooper dirigiu "Coração louco", que finalmente deu o esperado e merecido Oscar de melhor ator a Jeff Bridges. Com o prestígio em alta, ele foi procurado por ninguém menos que Ridley Scott e Leonardo DiCaprio, que lhe ofereceram o roteiro de um filme que eles queriam produzir - depois de pensarem por um tempo em assumir como diretor e astro, respectivamente. Cooper adorou a história, escrita por Brad Ingelsby, mas achou que poderia fazer alguns ajustes para melhorá-la, incluindo nela alguns elementos de sua própria experiência de vida. Com o ator Christian Bale em mente para o papel principal, ele transformou "The Low Dweller" em "Out of the furnace" e, para sua surpresa, o Batman mais aplaudido do cinema se mostrou muito interessado no projeto. Em Hollywood, porém, agendas são um problema, e Bale, mesmo encantado com a possibilidade de protagonizar o novo filme de Cooper, tinha inúmeros compromissos profissionais a cumprir. Cooper não queria fazer o filme sem seu astro, e somente em abril de 2012 as filmagens começaram - e o que parecia o capricho de um cineasta em começo de carreira mostrou-se um tiro certeiro: na pele de Russell Baze, o trágico protagonista de "Tudo pela justiça", Bale mais uma vez demonstra um talento incomparável e justifica a espera de seu diretor. Uma pena, porém, que pouca gente testemunhou tal revelação.

Lançado sem alardes no final de 2013, em plena temporada de estreias que sonhavam com os tapetes vermelhos das cerimônias de premiação, "Tudo por justiça" passou em brancas nuvens, tantos pelas salas de exibição - que ficavam lotadas com "Frozen" e "Jogos vorazes: em chamas" - quanto pelos eleitores da Academia (que preferiram homenagear Bale por um produto mais vendável e mais festivo, o esquecível "Trapaça"). A falta do devido estardalhaço em relação à sua estreia, porém, é injustificável: não apenas o filme de Cooper é um drama familiar violento e profundamente tocante como é um dos melhores trabalhos de direção de atores do ano, com personagens construídos com extremo cuidado e interpretados por atores em grandes momentos de inspiração. Um mergulho na forma de fazer cinema à moda antiga, "Tudo por justiça" relembra os suspenses cerebrais que fizeram a fama de Robert DeNiro e Al Pacino nos anos 70 - nada de tramas rocambolescas ou efeitos visuais estonteantes, apenas pessoas reais (ainda que douradas pelo verniz da arte) tentando encontrar uma forma de respirar e sobreviver a algo tão difícil quanto a vida. Não foi à toa que Cooper desistiu de usar a trilha sonora composta por Eddie Vedder, considerada potente demais: o que interessa ao jovem diretor são seus personagens e seus dramas, com o mínimo de interferência externa.


O protagonista da história é Russell Baze (Bale, brilhante em seu minimalismo), um homem honesto e batalhador que vive sua vida em função de trabalhar na fábrica de aço de sua pequena cidade do interior, cuidar do pai inválido e doente, namorar a bela Lena (Zoe Saldana) e tentar impedir que seu irmão caçula, Rodney (Casey Affleck), se deixe levar pelo desânimo depois de uma temporada no Iraque. Um exemplo de caráter, Russell tem sua vida virada de cabeça para baixo depois de um trágico acidente de carro, que o leva para a cadeia. Anos mais tarde, voltando ao convívio de todos, ele vê que nada mais é como antes: seu pai morreu, Lena casou-se com o xerife da cidade (Forest Whitaker) e seu irmão está envolvido em um violento submundo de brigas de rua - um universo cruel que o põe em rota de colisão com o psicótico Harlan DeGroat (Woody Harrelson). Quando Rodney desaparece e a justiça parece não se importar com o caso, Russell toma conta da situação e parte para a revanche - mesmo que isso vá contra todos os seus princípios.

Scott Cooper não tem pressa em contar sua história - sua opção em acentuar o drama em detrimento da ação pode não agradar aos fãs de filmes policiais, mas é um grande acerto em termos dramáticos. Ao oferecer ao público personagens verossímeis e repleto de nuances, seu roteiro percorre caminhos menos óbvios do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana. Não que a trama seja ousada ou surpreendente, mas a maneira como o diretor a conduz (com ritmo próprio, sem sobressaltos e com uma violência relativamente moderada) não deixa de ser corajosa. Até mesmo seu desfecho - anticlimático de certa forma, coerente de outra - vai de encontro às regras comerciais do cinema norte-americano. Esse apreço de Cooper pelo desenvolvimento dos personagens e as consequências de seus atos é o maior mérito de seu filme, principalmente porque permite ao elenco - em especial Bale e Woody Harrelson - momentos fascinantes. Se Casey Affleck nem sempre convence no papel do irmão rebelde (Channing Tatum, Max Irons, Garret Hedlund e Taylor Kitsch foram considerados para o papel antes da decisão final, tomada em conjunto por diretor e astro), o restante dos atores dispensa comentários - a não ser que se lastime o pouco tempo em cena de Whitaker e do sempre competente Willem Dafoe. "Tudo pela justiça" pode não ter tido o sucesso que merecia, mas é um filme a ser descoberto e apreciado não pelo que se espera dele (um policial violento), mas sim pelo que ele é (um drama familiar devastador). Um belo programa!

sábado

MANCHESTER À BEIRA-MAR

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester by the sea, 2016, Amazon Studios/K Period Media/Pearl Street Films, 137min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Jennifer Lame. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Ruth De Jong/Florencia Martin. Produção executiva: Declan Baldwin, Josh Godfrey, John Krasinski, Bill Migliore. Produção: Lauren Beck, Matt Damon, Chris Moore, Kimberly Steward, Kevin J. Walsh. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges, Gretchen Mol, Matthew Broderick. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Kenneth Lonergan), Ator (Casey Affleck), Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Casey Affleck), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Casey Affleck) 

A cerimônia de entrega do Oscar 2017 ficou marcada pela maior gafe da história do prêmio, quando os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway divulgaram o filme errado como vencedor da principal estatueta - uma situação constrangedora resolvida ainda no palco e diante dos olhos de milhões de pessoas ao redor do mundo. Porém, antes disso, outro momento desconfortável havia acontecido sem que houvesse tanto alarde: ao ser anunciado como o melhor ator do ano por seu desempenho em "Manchester à beira-mar", Casey Affleck recebeu o troféu das mãos da melhor atriz do ano anterior, Brie Larson (por "O quarto de Jack") - e ela simplesmente se recusou a cumprimentá-lo com mais efusão do que um simples aperto de mãos. Explica-se: acusado de assédio sexual por diversas mulheres envolvidas no falso documentário "I'm still here", com Joaquin Phoenix, Affleck batia de frente com o envolvimento de Larson em campanhas contra tais atitudes. O gesto da atriz - cujo Oscar aconteceu justamente por uma personagem vítima de cárcere privado e abuso - passou quase em branco, mas acabou por manchar a trajetória de um filme que, desde sua estreia, no Festival de Sundance mostrou-se uma das mais premiadas produções da temporada - com Affleck sendo eleito melhor ator não apenas pela Academia, mas também pelo Golden Globe, pelo BAFTA e algumas das mais importantes associações de críticos dos EUA.

A ironia é que Affleck nem era a primeira escolha para o papel principal do filme, dirigido por Kenneth Lonergan, conhecido por suas produções independentes - e indicações ao Oscar de roteiro por "Conte comigo" (2000) e "Gangues de Nova York" (2003): quando a ideia da história surgiu, durante as filmagens de "Os agentes do destino" (2011), em um jantar entre Matt Damon (astro do filme) e John Krasinski (também ator, casado com a estrela da produção, Emily Blunt). Krasinski deu a ideia do roteiro a Damon, que gostou tanto da possibilidade de transformá-la em filme que se dispunha inclusive a dirigir e ficar com o papel principal. Lonergan, seu amigo de longa data, aceitou a proposta de escrever o roteiro, mas compromissos anteriores atrasaram tanto o projeto que, quando finalmente colocou seu ponto final na trama, Matt Damon é quem estava com a agenda cheia. Se mantendo no papel de produtor, ele sugeriu Casey Affleck para liderar o elenco. E a coisa tomou forma: com um custo de 8 milhões e meio de dólares e filmado em apenas 32 dias, "Manchester à beira-mar" foi a primeira produção distribuída pela Amazon Studios e arrecadou mais de 60 milhões de dólares mundo afora - graças principalmente ao fato de ter se tornado queridinho dos críticos desde sua estreia.



"Manchester à beira-mar" é um drama no melhor sentido da palavra: sem medo de apostar nos sentimentos mais primais do público, Kenneth Lonergan não poupa sofrimento a seus personagens, e carrega junto cada um na plateia a um mundo triste e solitário - mas felizmente temperado com um sutil senso de humor e uma espécie de otimismo que escapa até mesmo nos momentos mais difíceis, uma característica do diretor. Seu protagonista, Lee Chandler, é um Jó moderno, um homem de quem tudo foi tirado sem piedade e que leva sua vida no piloto automático - por motivos que vão sendo revelados aos poucos e justificam plenamente sua apatia diante da rotina e seu comportamento agressivo. Separado da mulher, Randi (Michelle Williams, brilhante e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e trabalhando como um silencioso e ranzinza zelador de um prédio em Boston, longe de seus últimos vínculos familiares, com o irmão, Joe (Kyle Chandler), e o sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Quando Joe morre em decorrência de uma doença cardíaca, Lee descobre que, por uma determinação em seu testamento, deve ficar com a guarda do rapaz. Logicamente Patrick não quer deixar a cidade de Manchester - onde tem amigos, uma banda e duas namoradas - e Lee não tem intenções de voltar ao cenário de sua tragédia particular: está estabelecido o impasse.

Unanimemente aplaudido por seu desempenho no papel central, Casey Affleck na verdade não faz muito mais do que desfilar pela tela de forma apática e desanimada - uma característica do personagem, é claro, mas basta uma conferida em outras de suas atuações, inclusive na que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, em "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford" (2007), para perceber que não há muita diferença. Sem carisma o bastante para conectar a audiência a seu sofrimento, Affleck acaba por transformar um roteiro poderoso (vencedor da estatueta em sua categoria) em um drama apenas interessante, valorizado muito mais pelo elenco secundário do que por seu protagonista. Apesar de aparecer pouquíssimo em cena, Michelle Williams simplesmente rouba o filme, em um momento em que finalmente todo o drama represado pela sutileza de Lonergan vem à tona - são lágrimas necessárias para transformar o árido caminho de Lee em algo menos duro para a plateia, e Michelle cumpre a missão com louvor mesmo diante de um quase invisível Casey Affleck, mais um (dentre vários) casos de alucinação coletiva junto aos membros da Academia. "Manchester à beira-mar" não é um filme bom por causa de Affleck: ele é bom apesar dele.

domingo

INTERESTELAR

INTERESTELAR (Interstellar, 2014, Paramount Pictures/Warner Bros/Legendary Entertainment, 169min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jontahan Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Gary Fettis, Helen Kozora-Tell. Produção executiva: Jordan Goldberg, Jake Myers, Kip Thorne, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Lynda Obst, Emma Thomas. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Ellen Burstyn, David Oyelowo, Wes Bentley, William Devane, Casey Affleck, Topher Grace. Estreia: 26/10/14

5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais 

Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.

Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.


A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.

Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.

UM SONHO SEM LIMITES

UM SONHO SEM LIMITES (To die for, 1995, Columbia Pictures Corporation, 106min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Buck Henry, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Carol Lavoie. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Jonathan Taplin. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Nicole Kidman, Matt Dillon, Joaquin Phoenix, Casey Affleck, Illeana Douglas, Dan Hedaya, Kurtwood Smith, Wayne Knight, Alison Folland. Estreia: 20/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman)

No livro "To die for", de Joyce Maynard, a protagonista - que sonha desesperadamente tornar-se famosa - declara que, se um filme fosse feito a respeito de sua vida, ela gostaria de ser interpretada pela atriz Nicole Kidman (à época do lançamento ainda conhecida mais como a esposa de Tom Cruise do que por seus dotes dramáticos). Coincidência ou destino, anos depois, quando o cineasta Gus Van Sant viu Meg Ryan pular fora da adaptação do romance de Maynard foi Kidman quem o procurou, ávida pela chance de estrelar o filme, por cujo roteiro ela havia se apaixonado perdidamente. Seu assédio a Van Sant funcionou e o Hollywood viu surgir uma estrela de primeira grandeza. Mesmo ignorada pelo Oscar, Nicole abocanhou o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical, recebeu elogios unânimes da crítica e, pela primeira vez desde que aportou no cinema americano mostrou que era bem mais do que um rosto lindo e um corpo desejável: ela era uma intérprete de verdade.

Vindo do fiasco crítico e comercial de "Até as vaqueiras ficam tristes" (93), um western lésbico estrelado por Uma Thurman, o diretor Gus Van Sant não poderia ter escolhido melhor o material para sua volta ao trabalho. Ácido e momentoso, o romance de Maynard brincava com o culto à celebridade, o desejo irracional por fama a qualquer custo e o desmoronamento da instituição do casamento com um humor delicioso, tom mantido no roteiro enxuto de Buck Henry, que consegue jogar com o suspense, o erotismo, o documentário e a comédia sem nunca embaralhar os gêneros. É crédito também de Henry - e um poucão da atuação de Kidman - conseguir fazer com que o público sinta-se conectado à protagonista apesar de todos os seus pecados e crimes. Poucas vezes o cinema americano mostrou uma personagem central feminina tão amoral, ambiciosa e fria como Suzanne Maretto. E poucas vezes o público ficou tão encantado com uma personagem desse naipe.


Morando na pequena cidade de New Hampshire, Suzanne Stone (uma Kidman loira e perigosa em sua sensualidade latente) tem como maior objetivo da vida ser famosa e sabe o que fazer para realizar seu intento. Em seu caminho para ser a âncora do telejornal local, porém, ela esbarra justamente na única pessoa que deveria estar a seu lado: o marido, Larry (Matt Dillon). Boa-praça e querido por todos, ele é o herdeiro de um pequeno restaurante na cidade, tem uma relação de extremo afeto com a família e é apaixonado pela esposa até o limite da quase cegueira. Com ambições bem menores do que as dela, ele deseja fazer uma reforma em seu negócio, ter filhos e viver uma tranquila e pacata vida de casado. Apavorada com tal possibilidade, Suzanne aproveita que está fazendo um documentário sobre a adolescência para a TV local para seduzir um de seus entrevistados, o rebelde Jimmy Emmett (Joaquin Phoenix), e convencê-lo a tirar Larry da jogada.

Uma femme fatale das mais atrevidas e cínicas, Suzanne Maretto chora cinicamente quando precisa mostrar-se arrasada, usa e abusa do poder de sedução para enlouquecer jovens no auge da testosterona, mente sobre o que for preciso e recorre até ao homicídio para conquistar seus objetivos. Sua absoluta falta de pudor acaba fazendo com que a personagem escape da esfera do trágico para atingir o cômico, o que é um acerto e tanto do roteiro e da direção. Ao dar leveza à trágica história que conta, Van Sant permite ao público um respiro de alívio que, mesmo sendo de viés, o afasta da tensão e do peso. Para isso, ele conta com a interpretação irretocável de Nicole Kidman, que deita e rola em um dos melhores papéis de sua carreira: além de extremamente sexy, ela transmite todas a complexidade da personagem sem nunca cair na caricatura ou no exagero. A seu lado, cabe a Matt Dillon e Joaquin Phoenix pontuar com correção um show de perfeito timing cômico e dramático.

terça-feira

MEDO DA VERDADE

MEDO DA VERDADE (Gone baby gone, 2007, Miramax Films, 114min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, Aaron Stockard, romance de Dennis Lehane. Fotografia: John Toll. Montagem: William Goldenberg. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Alix Friedberg. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Chris Cornwell. Produção executiva: David Crockett. Produção: Sean Bailey, Alan Ladd Jr., Dan Rissner. Elenco: Casey Affleck, Michelle Monaghan, Ed Harris, Morgan Freeman, Amy Ryan, Amy Madigan. Estreia: 19/10/07

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Amy Ryan)

Apesar de alguns sucessos de bilheteria - "Armaggedon" e "Pearl Harbor" entre eles - o nome de Ben Affleck não era exatamente sinônimo de prestígio dentro de Hollywood no início dos anos 2000. Severamente criticado por suas parcas qualidades como ator - fato comprovado com atuações pífias em "Contato de risco" (ao lado da então noiva Jennifer Lopez) e "Menina dos olhos" (que repetiu sua parceria com o diretor Kevin Smith) - ele optou então por um caminho inteligente cujos primeiros passos ele havia dado em 1998 com "Gênio indomável" (que ele co-escreveu com o amigo Matt Damon e lhe deu o Oscar da categoria) - tornar-se diretor. Se a crítica e o público tinham reservas quanto a seu talento dramático, porém, não puderam deixar de surpreender-se positivamente com "Medo da verdade". Adaptado do romance de Dennis Lehane pelo próprio ator e por Aaron Stockard, o filme agradou em cheio por revelar em Affleck um cineasta sensível, discreto e, melhor ainda, atento ao objetivo principal de um filme: prender a atenção da plateia.

Lehane - também autor do livro que originou "Sobre meninos e lobos" - criou uma trama potente e inteligente, que valoriza os dramas pessoais das personagens tanto quanto o desenvolvimento do suspense e Affleck acertou em dar a devida atenção a tais conflitos, contando para isso com um elenco coadjuvante acima de qualquer crítica. Seu único erro - e de certa forma crucial - foi escalar para o papel central seu irmão Casey, que, apesar da indicação ao Oscar de coadjuvante por "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford", não tem estofo dramático o suficiente para segurar tal desafio. Ao lado da igualmente frágil Michelle Monaghan, Casey acaba fazendo de seu Patrick Kenzie a menos interessante personagem da história.



Situado em um subúrbio de Boston, "Medo da verdade" começa com o desaparecimento da pequena Amanda McCready, de apenas 4 anos de idade. Filha única de Helene (Amy Ryan) - uma mulher não exatamente exemplar - a menina sumiu de sua própria casa sem deixar vestígios, o que deixa a vizinhança em polvorosa. Chamados para investigar o caso em paralelo com a polícia, os detetives Patrick Kenzie e Angie Gennaro (Monaghan) acabam por descobrir uma rede de corrupção policial, pedófilos e traficantes de drogas. Mesmo acostumados com a região, eles ficam chocados com todos os desdobramentos do crime, que apontam para uma solução nada ortodoxa.

Com as já citadas atuações apenas razoáveis de Casey Affleck e Michelle Monaghan - ele sem o tipo físico e o carisma apropriados e ela sem maiores características marcantes - "Medo da verdade" se beneficia também de seu elenco de apoio, formado por atores extraordinários em papéis que demonstram várias camadas no decorrer da projeção. É assim que Ed Harris, Morgan Freeman e Amy Madigan crescem conforme a trama vai se desenrolando e é assim também que Amy Ryan cria uma Helene McCready impecável, que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de coadjuvante. É Ryan, com sua personagem desagradável, quase cruel e fria, que melhor representa todas as nuances do filme, com seu jogo de aparências e interesses.

Tratado mais como um drama do que como um policial, "Medo da verdade" foge dos clichês do gênero ao apostar em reviravoltas críveis, que empurram a história adiante sem soar forçadas. As engrenagens do roteiro - muito bem adaptado, com fidelidade e respeito mas sem perder a objetividade - só são expostas de verdade no terço final, quando tudo faz um apavorante sentido e justifica o crescimento interno dos protagonistas - também presentes em outros romances de Lehane. A sensação sufocante que deixa quando acaba - ao contrário de muitos produtos puramente comerciais e ocos - dá ao filme de Affleck uma qualidade tangível, de tristeza e indignação. E não é isso que diferencia os filmes apenas corretos daqueles que merecem um lugar na lista dos melhores?

domingo

O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD


O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, 2007, Warner Bros, 160min) Direção: Andrew Dominik. Roteiro: Andrew Dominik, romance de Ron Hansen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Curtiss Clayton, Dylan Tichenor. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Hoover, Patricia Norris/Janice Blackie-Goodine. Produção executiva: Liza Ellzey, Brad Grey, Tony Scott, Benjamin Waisbren. Produção: Jules Daly, Dede Gardner, Brad Pitt, Ridley Scott, David Valdes. Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell, Mary-Louise Parker, Jeremy Renner, Sam Shepard, Garrett Dillahunt, Ted Levine, Zooey Deschannel. Estreia: 02/9/07 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Casey Affleck), Fotografia

Em algumas ocasiões o sucesso faz bem em Hollywood. É o caso de gente como George Clooney, que, enquanto ainda é um astro carismático e capaz de levar multidões às salas de exibição, pode ousar em algumas obras de interesse mais restrito e menos comercial sem prejuízo de seu nome. O mesmo acontece com Brad Pitt. Um dos nomes mais conhecidos e respeitados na terra do cinema - principalmente graças a boas escolhas na carreira - Pitt deixou de lado a figura de galã sexy para revelar-se um ator competente - e de quebra ainda render gordas bilheterias. Foi esse seu poder, por exemplo, que permitiu a ele que assumisse a produção de - e consequente controle sobre - um filme difícil, denso, lento e complexo quanto "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford". A partir do título longo que ele mesmo proibiu que fosse diminuído para efeito de marketing, tudo no filme de Andrew Dominik (talvez com exceção do próprio astro) apontava para seu fracasso financeiro - que de fato aconteceu.

Contrariando os desejos da Warner - que via no filme um belo potencial como produto de ação - Pitt e seu diretor fizeram de "Jesse James" um faroeste contemplativo e poético, uma visão bastante diferente daquilo que a massa espera assistir quando vê o nome do ator no cartaz. A transformação da montagem de quatro horas apresentada no Festival de Veneza (de onde Pitt saiu eleito melhor ator) em uma duração mais palatável de duas horas e quarenta minutos em sua estreia oficial, porém, pouco ajudou: com um custo estimado em trinta milhões de dólares, a produção não arrecadou nem 10% disso no mercado americano. Azar de quem perdeu um dos mais fascinantes faroestes modernos realizados em Hollywood.


Quem espera ver em "Jesse James" tiroteios, sangue, cenas espetaculares de ação e todos os clichês que envolvem o faroeste certamente vai sentir-se ludibriado - eles até são apresentados por Dominik, mas envoltos em um verniz de poesia raramente visto no gênero. Porém, quem estiver disposto a deixar-se levar por uma nova experiência tem tudo para acabar a sessão deslumbrado e emocionado. Emulando o estilo Terence Malik de criação, o jovem cineasta fez de seu segundo longa uma obra para poucos: é sem pressa que o roteiro vai delineando a personalidade doentia de Robert Ford (interpretado pelo sempre chato Casey Affleck, indicado a um Oscar de coadjuvante) em sua obsessão/atração/inveja pelo famigerado fora-da-lei que, ao contrário do que se poderia esperar em uma grande produção americana, tem seus defeitos, é melancólico e nada heroico. Aliás, é bastante interessante a forma como o filme trata Ford, nunca deixando exatamente claras as suas razões para cometer a traição e o assassinato do título (além da recompensa, é claro). A dubiedade que circunda todas as personagens permite inúmeras leituras do filme, sempre acrescentando mais camadas a cada revisão.

Fotografado avassaladoramente por Roger Deakins - que também concorreu a uma estatueta e injustamente perdeu para "Sangue negro" - e musicado com uma pungência tocante por Nick Cave, "O assassinato de Jesse James" é o perfeito filme "ame ou odeie". Mas é, antes de mais nada, uma prova da coragem de Brad Pitt em constantemente sair de sua zona de conforto. Bravíssimo!

sexta-feira

ONZE HOMENS E UM SEGREDO

ONZE HOMENS E UM SEGREDO (Ocean's eleven, 2001, Warner Bros, 116min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Ted Griffin, roteiro original de Harry Brown, Charles Lederer. Fotografia: Steven Soderbergh (Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: David Holmes. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Bruce Berman, Susan Ekins, John Hardy. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Matt Damon, Andy Garcia, Bernie Mac, Elliott Gould, Casey Affleck, Scott Caan, Carl Reiner, Don Cheadle, Angie Dickinson. Estreia: 05/12/01

A impressão que alguns filmes passam ao espectador é a de que o elenco está se divertindo tanto quanto o público. Em alguns casos isso é problemático, mas de vez em quando acaba se tornando um prazer a mais, como se a plateia estivesse sendo convidada a participar de uma festa particular - e muito animada. É mais ou menos isso que acontece com "Onze homens e um segredo", grande sucesso de bilheteria dirigido por Steven Soderbergh logo após seu Oscar pelo sério e compenetrado "Traffic". Refilmagem (muito) livre de um clássico estrelado por Frank Sinatra e Dean Martin em 1960, essa nova versão rendeu quase 200 milhões de dólares só no mercado americano e comprovou o talento versátil do cineasta que derrotou a si mesmo na festa da Academia (ele concorria também por "Erin Brockovich, uma mulher de talento").

A princípio (e sejamos honestos, é exatamente isto) "Onze homens e um segredo" é mais um filme sobre grandes golpes em que a plateia é levada a torcer fervorosamente pelo criminoso (e quando o criminoso é George Clooney fica tudo muito mais fácil). Clooney exercita todo o charme mezzo cafajeste/mezzo carente na pele de Danny Ocean, um bandido boa-pinta que sai em liberdade condicional já de olho em uma nova forma de burlar a lei - e, no caso, seu desafeto Terry Benedict (Andy Garcia), que, além de dono de três cassinos em Las Vegas casou-se com sua ex-mulher, Tess (Julia Roberts em um generoso e bem-humorado segundo plano). Para roubar os três cassinos na mesma noite - durante uma luta de boxe disputadíssima - ele sai em busca do time perfeito, que inclui seu braço-direito Rusty Ryan (um Brad Pitt encantador e hilário), o financiador do golpe Reuben Tishkoff (Elliot Gould, sensacional) e o golpista Linus Caldwell (Matt Damon). Quando a equipe chega a onze pessoas é hora de partir para a ação.



O mais divertido de "Onze homens e um segredo" nem é tanto o desenvolvimento da trama, mesmo porque no fundo todo mundo sabe "o que" irá acontecer (ainda que talvez não desconfiem "como"), mas sim a forma com que Soderbergh parece ter deixado o elenco improvisar e brincar em cima de uma história que se presta lindamente a esse tipo de brincadeira. O próprio filme original era um veículo para o chamado "Rat Pack" (grupo de amigos que incluía, além de Sinatra e Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop). A atualização do bando não poderia ser mais acertada, uma vez que é nítida a química entre os atores - e que suas duas continuações confirmaram ainda mais. Unindo o charme de Clooney ao humor debochado de Pitt e a sensualidade de Julia Roberts não tinha como dar errado. E não deu.

"Onze homens e um segredo" não é um filme para quem busca entretenimento sério e cerebral. É uma piada interna que funciona como diversão inofensiva - além de extremamente bem produzida e surpreendentemente bem escrita (alguns diálogos são engraçadíssimos). Bem fotografado (pelo próprio diretor sob o pseudônimo de Peter Andrews), agilmente editado e inteligente, é quase tudo que se espera de um filme com suas (des)pretensões.

quarta-feira

GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (Good Will Hunting, 1997, Miramax Films, 126min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Fotografia: Jean Yves Escoffier. Montagem: Pietro Scalia. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Melissa Stewart/Jaro Dick. Produção executiva: Su Armstrong, Jonathan Gordon, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Matt Damon, Robin Williams, Minnie Driver, Stellan Skarsgard, Ben Affleck, Casey Affleck, Cole Hauser. Estreia: 05/12/97

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção ("Miss Misery")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro
Vencedor do SAG Awards de Ator Coadjuvante (Robin Williams)

De vez em quando, Hollywood lembra que o público, tão prestimoso em correr às salas exibidoras para testemunhar cenas de ação e violência aos borbotões, também gosta de acompanhar histórias delicadas sobre gente normal cuja maior missão - ao invés de salvar o mundo de uma ameaça terrorista - é definir os rumos que sua vida pessoal irá tomar em relação ao futuro. E é sobre  pessoas normais, comuns, quase invisíveis que trata "Gênio indomável", uma das maiores surpresas da temporada 1997. Escrito por Matt Damon e Ben Affleck, dois atores até então desconhecidos e com pouco mais de 20 anos (que o escreveram como forma de fazer acontecer suas carreiras), o drama produzido pela Miramax Films - o maior fabricante de oscarizáveis da década - é um típico produto feito para encantar os eleitores da Academia e o público adulto fã de boas histórias. Não é inesquecível, mas cumpre muito bem o que promete.

Dando início a uma carreira bem-sucedida, Matt Damon - que concorreu ao Oscar contra veteranos do porte de Dustin Hoffman e Jack Nicholson em uma atuação contida mas muito convincente - vive o protagonista, Will Hunting, um jovem desajustado que, vítima de lares adotivos desfuncionais, expressa toda sua raiva em brigas de rua com seu grupo de amigos. Figurinha fácil nas ocorrências policiais, ele é salvo de ficar na cadeia por Gerald Lambeau (Stelan Skarsgaard), um professor de matemática premiado com medalhas de honra por seu talento. Impressionado com a inteligência extraordinária de Hunting - que trabalha como faxineiro na instituição mas é capaz de resolver os mais complexos problemas matemáticos -  Lambeau se compromete diante do juiz a ajudar o rapaz a encontrar um caminho mais saudável na vida. Para isso, ele conta com a ajuda de Sean Maguire (Robin Williams), um terapeuta que conhece desde a juventude. Viúvo e recluso, Sean tenta fazer com que Will aprenda a lidar com sua fúria inerente e a direcione para uma vida menos sofrida e mais realizada, deixando de lado seus traumas de infância.  Enquanto isso, Will começa a se envolver com a doce Skylar (Minnie Driver), uma jovem estudante de Medicina que tenta romper a barreira emocional que o rodeia.



O roteiro de Damon e Affleck - vencedor de um Oscar questionável, uma vez que o disputou com "Boogie Nights" e "Melhor é Impossível" - não tenta ser espetacular. É redondo, é simples e, acima de tudo, é humano. Mesmo que esbarre em soluções um tanto fáceis e exagere na genialidade de seu protagonista, é um filme que prescinde de elementos outros além de diálogos e atores. Os diálogos são fluentes, inocentes (nas relações entre Will e seus amigos) e por vezes bastante interessantes (como nas cenas entre o protagonista e Sean). Nunca chegam a ser brilhantes, mas são muito superiores à média. E além de tudo, a trama paralela, que envolve a rivalidade entre Lambeau e Maguire é tão poderosa quanto a história principal, graças principalmente às atuações de Stelan Skarsgaard e Robin Williams, o último mais uma vez emprestando um carisma gigantesco a uma personagem - e que lhe rendeu um carinhoso Oscar de ator coadjuvante.

A Academia, aliás, rendeu-se incondicionalmente a "Gênio indomável". Indicado a 9 Oscar - inclusive filme, direção e uma inexplicável lembrança para Minnie Driver como coadjuvante feminina - e premiado com 2 estatuetas (além de Williams o roteiro também foi contemplado), o filme deu ao até então outsider Gus Van Sant a legitimização da indústria. Logicamente, a ousadia presente em filmes como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de programa" nem passa perto desse seu filme família, o que incomodou profundamente seus fãs - que ainda teriam que aguentar seu desnecessário remake de "Psicose" e o ultra-meloso "Procurando Forrester". A direção de "Gênio indomável" é quase burocrática, nada inventiva e muito menos corajosa (em sua defesa é preciso dizer que o roteiro também não ajuda nesse quesito...), mas é elegante e dotada de um belo ritmo, além de não atrapalhar no desenvolvimento da história. É um trabalho apenas correto, que não justifica sua indicação ao Oscar (principalmente se levarmos em conta que Paul Thomas Anderson, de "Boogie nights", ficou de fora na categoria).

Enfim, não é preciso ter um cérebro privilegiado para perceber, em "Gênio indomável", uma profusão de clichês. Porém, da forma como colocados pelos roteiristas e pelo experiente Van Sant, eles soam não como lugares-comuns que incomodam e constrangem. Muito pelo contrário, os clichês de certa forma dão unidade ao filme, são como uma espécie de abrigo contra criatividades exageradas. "Gênio indomável" é caloroso, terno e honesto. É um belo conto sobre pessoas corajosas que lutam pelo direito a transformar o seu destino. E por isso emociona tanta gente.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...