TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO (Tucker: The man and his dream, 1988, Paramount Pctures/Lucasfilm, 110min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Arnold Schulman, David Seidler. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Joe Jackson. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz. Produção executiva: George Lucas. Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Jeff Bridges, Joan Allen, Martin Landau, Frederic Forrest, Mako, Elias Koteas, Christian Slater, Jay O. Sanders, Peter Donat. Estreia: 12/8/88
3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Os homens e seus sonhos: em 1945, logo depois da II Guerra Mundial, Preston Tucker tinha o sonho de construir um carro popular, eficiente, seguro e econômico - mas não conseguiu ir muito longe em seu objetivo, atropelado que foi pelos gigantes da indústria automobilística que não viam com bons olhos sua intrusão em seu meio. Em 1974, o cineasta Francis Ford Coppola, apaixonado pelo carro criado por Tucker, sonhava em realizar um filme contando a história de seu empreendimento e sua batalha judicial para manter-se no mercado. Tucker foi acusado de fraude e levado a julgamento, vendo seu sonho despedaçar-se tão logo tornou-se realidade. Coppola também penou para levar adiante seu projeto - em 1974, queria Marlon Brando no papel principal, mas o filme não foi adiante e ele foi realizar o problemático "Apocalipse now". Tão logo acabou o suplício das pós-produção, chamou Burt Reynolds para protagonizar sua história e mais uma vez o sonho não se tornou realidade. Foi somente em 1988, mais de uma década depois da primeira vez em que pensou no filme é que finalmente "Tucker: o homem e seu sonho" viu a luz dos refletores. No papel central, nem Brando, nem Reynolds nem Jack Nicholson (a quem também foi oferecido), e sim um Jeff Bridges vibrante, entusiasmado e bom ator como nunca. O sonho estava realizado, mas assim como o heroi visionário de Bridges, Coppola também sentiu o sabor agridoce da vitória parcial.
Enquanto Tucker se viu obrigado a encerrar a produção de seus carros depois de apenas 51 exemplares, Coppola não obteve, com seu filme, o reconhecimento esperado e devido, tanto da crítica quanto do público. Com uma renda doméstica insuficiente até mesmo para cobrir o orçamento modesto de 23 milhões de dólares e aplausos apenas mornos da imprensa e das cerimônias de premiação - recebeu tímidas 3 indicações ao Oscar e não converteu nenhuma em estatueta - a história de Preston Tucker acabou por refletir, como em um espelho, as batalhas do cineasta por manter seus princípios artísticos em uma indústria tão impiedosa quanto Hollywood. Dono de dois exemplares do carro de Tucker (outros dois são de propriedade do produtor do filme, George Lucas), Coppola tem uma trajetória de perdas e ganhos tão intensa que não é de espantar sua admiração pelo destemido empresário, que, como ele, era capaz de arriscar qualquer coisa para realizar o que considerava certo. Ele também uma vítima das corporações que ditam as regras de seu negócio, Coppola parece dizer que ele é o Preston Tucker do cinema: um homem de visão, talento e entusiasmo, mas que, como um Davi, infelizmente não tem a força necessária para derrotar poderosos Golias.
Fascinante enquanto reflexo de seu realizador, como cinema "Tucker: um homem e seu sonho" não chega a ser tão admirável quanto os melhores filmes de Francis Ford Coppola. Apesar da paixão que sente por seu biografado, o cineasta parece preso a uma narrativa convencional em excesso, mesmo que o roteiro tente inserir um pouco de humor no tom documental que abre o filme - uma referência aos documentários cinematográficos da época em que se passa a história. Visualmente requintado (a direção de arte e o figurino foram indicados ao Oscar e perderam para "Ligações perigosas", de Stephen Frears), o filme apresenta tudo o que se pode esperar de um cineasta do porte de Coppola: uma direção sensível, atores em composições admiráveis (Martin Landau também concorreu ao Oscar), uma fotografia deslumbrante do veterano Vittorio Storaro e uma edição ágil e criativa. Apenas o roteiro - construído sobre informações coletadas pelo diretor através da Justiça americana, que mantinha confidencialidade sobre o processo - carece de maior força, raramente atingindo todas as inúmeras possibilidades que oferece em um primeiro momento. Entre o início promissor e o final climático - onde a força do talento de Jeff Bridges ilumina tudo a seu redor - há um exagero de cenas redundantes, que parece reiterar, sem necessidade, a batalha de Tucker contra seus algozes.
A trama é simples: com o fim da II Guerra, Preston Tucker (Jeff Bridges) convence a família, os amigos e o público (através de anúncios em revistas), de que será o responsável por criar um carro capaz de concorrer com aqueles fabricados pelas grandes montadoras do país (GM, Ford e Chrysler). Obtendo financiamento com a ajuda do esperto e experiente Abe (Martin Landau) e contando com o apoio logístico do jovem engenheiro Alex Tremulis (Elias Koteas), ele consegue finalmente chegar ao protótipo de seu veículo - mas esbarra, então, nos todo-poderosos da indústria, que passam, então, a lutar contra ele até o ponto de acusá-lo criminalmente e levá-lo a julgamento. Coppola conduz com adequadas serenidade e leveza uma história que, apesar dos dramas, é fundamentada basicamente em esperança e paixão - paixão essa que era também a de Gian-Carlo, filho do diretor, morto aos 22 anos de idade e a quem o filme é dedicado. Emocionante sem ser piegas, "Tucker: um homem e seu sonho" é um sonho de Francis Ford Coppola a respeito do sonho de Preston Tucker. Pode não ser uma obra-prima, mas é movido a sentimentos positivos e uma bela nostalgia - o que já é bem mais do que se pode dizer de muitos filmes mais ambiciosos, mais elogiados e bem menos competentes.
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terça-feira
quarta-feira
INVASÃO DE PRIVACIDADE
INVASÃO
DE PRIVACIDADE (Sliver, 1993, Paramount Pictures, 103min) Direção:
Phillip Noyce. Roteiro: Joe Eszterhas, romance de Ira Levin. Fotografia:
Vilmos Zsigmond. Montagem: Richard Francis-Bruce, William Hoy. Música:
Howard Shore. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Paul
Sylbert/Lisa Fischer. Produção executiva: Joe Ezsterhas, Howard W. Koch
Jr.. Produção: Robert Evans. Elenco: Sharon Stone, Tom Berenger,
William Baldwin, Polly Walker, Martin Landau, Amanda Foreman, CCH
Pounder, Nina Foch. Estreia: 21/5/93
As expectativas para a reunião entre o roteirista Joe Eszterhas e a atriz Sharon Stone não poderiam ser maiores: juntos, eles foram responsáveis por "Instinto selvagem" - um dos maiores sucessos de bilheteria de 1992 e o filme que catapultou a estrela de Sharon para a estratosfera - e seu reencontro se daria graças a uma história de Ira Levin (o mesmo autor do clássico "O bebê de Rosemary" (68), de Roman Polanski) e com direção de Philip Noyce, o diretor que havia ressuscitado a carreira do agente da CIA Jack Ryan no bem-sucedido "Jogos patrióticos" (92). Além do mais, havia na receita momentos de suspense e (é claro) doses generosas de sexo, protagonizadas por uma Sharon no auge da beleza e da popularidade. Não tinha como dar errado, certo? Mas deu. "Invasão de privacidade", um dos filmes mais aguardados da temporada 1993 chegou às telas como uma das produções mais esperadas do ano e acabou se tornando uma de suas maiores decepções, não somente em termos de crítica - desagradou a gregos e troianos - mas principalmente no que diz respeito a suas ambições financeiras, já que não chegou nem mesmo a empatar seu orçamento de 40 milhões de dólares. No entanto, não é difícil perceber as razões do fracasso quando se assiste ao produto final.
Os problemas de "Invasão de privacidade" começaram, a bem da verdade, já durante a fase de pré-produção. A ideia do produtor Robert Evans era novamente contar com Roman Polanski na direção de uma obra de Ira Levin - como já havia ocorrido com "O bebê de Rosemary", em 1968 - mesmo com o cineasta proibido de por os pés nos EUA devido à sua condenação por sedução de uma menor nos anos 70. Com Polanski fora da jogada e Philip Noyce contratado - assim como a estrela maior, Sharon Stone - começou a busca pelo ator principal, que seria o responsável, junto com Sharon, de incendiar as telas em cenas pra lá de tórridas. Com a recusa de Johnny Depp, Val Kilmer e River Phoenix, o papel acabou ficando com William Baldwin, e o que deveria ser motivo de descanso para a Paramount tornou-se uma preocupação inesperada: ele e Sharon Stone simplesmente se odiaram à primeira vista e nunca fizeram questão de esconder seus sentimentos (algo como havia acontecido com Mickey Rourke e Kim Basinger durante as filmagens de "9 1/2 semanas de amor", em 1986). Não bastasse isso, Joe Eszterhas era obrigado constantemente a fazer modificações no roteiro - que já alterava significativamente o romance de Levin - e um helicóptero com uma equipe do filme, que fazia imagens de um vulcão em erupção no Havaí (para cenas importantes do primeiro roteiro) caiu com todos os passageiros, perdendo todo o material - ainda que ninguém tenha morrido no desastre.
Pra piorar a situação, terminadas as filmagens, uma sessão-teste do filme mostrou que o bicho era ainda mais feio do que parecia: boa parte da audiência respondeu pessimamente ao resultado um novo final foi criado, mudando o desfecho do livro e alterando drasticamente a história. Tal decisão não agradou a alguns atores (entre eles o veterano Tom Berenger) e obviamente aumentou o número de fofocas a respeito dos bastidores do filme, o que não ajudou em nada quando finalmente ele estreou. Ninguém deixou de notar a absoluta falta de química entre Stone e Baldwin (coisa que, digam o que disserem, havia em alto grau entre Rourke e Basinger), a fragilidade do roteiro, a apatia de Baldwin e Berenger e a total falta de suspense de uma trama que, em tese, se apoiava justamente nos elementos básicos do gênero. Ok, Philip Noyce fez o que pode com o que tinha em mãos, tentando criar um clima de tensão desde os primeiros momentos - e mais uma vez um prédio assume papel importante em uma criação de Ira Levin - mas tudo vai por água abaixo quando se percebe que tudo não passa de promessas que não são cumpridas no decorrer da projeção. Nem mesmo o erotismo tão alardeado vale a sessão: apesar de quentes, as cenas de sexo não empolgam nem excitam como as orquestradas por Paul Verhoeven em "Instinto selvagem".
Mas, afinal, de que se trata "Invasão de privacidade"? Tudo começa muito bem, quando uma jovem é misteriosamente jogada do vigésimo andar de um prédio localizado em um condomínio de luxo de Nova York. O caso é tratado como suicídio e não demora para que seu apartamento passe a ser habitado por Carly Norris (Stone, linda e boa atriz, fazendo o impossível com um papel sem graça), uma editora introvertida que acaba de sair de um relacionamento falido. Tão logo chega no prédio, ela passa a ser assediada por dois moradores, o sedutor Zeke (William Baldwin, péssimo) e o escritor de livros policiais Jack Lansford (Tom Berenger), ambos dispostos a seduzí-la. Quando misteriosos acidentes começam a acontecer nos limites do condomínio, porém, Carly passa a desconfiar de que alguém (talvez um dos dois) esteja envolvido bem mais do que o normal com eles. E, pior ainda: sem que ela saiba, alguém que também está à sua volta tem uma milionária aparelhagem de segurança, que dá acesso a todos os apartamentos do local.
E é só. A trama - fraca - não encontra respaldo na direção correta mas indiferente de Noyce e muito menos no elenco, que inclui até o futuro vencedor do Oscar Martin Landau. Stone está melhor atriz do que nunca, mas perde boa parte de seu carisma em um papel que faz dela a caça ao invés da caçadora. Sua falta de química com William Baldwin - uma escolha totalmente infeliz de elenco - tampouco a ajuda e, na falta de maiores qualidades, destaca-se a trilha sonora, que abre espaço até para uma bela versão de "I can't help falling in love", com o grupo UB 40. É muito pouco para o que prometia ser uma das maiores bilheterias de 1993.
As expectativas para a reunião entre o roteirista Joe Eszterhas e a atriz Sharon Stone não poderiam ser maiores: juntos, eles foram responsáveis por "Instinto selvagem" - um dos maiores sucessos de bilheteria de 1992 e o filme que catapultou a estrela de Sharon para a estratosfera - e seu reencontro se daria graças a uma história de Ira Levin (o mesmo autor do clássico "O bebê de Rosemary" (68), de Roman Polanski) e com direção de Philip Noyce, o diretor que havia ressuscitado a carreira do agente da CIA Jack Ryan no bem-sucedido "Jogos patrióticos" (92). Além do mais, havia na receita momentos de suspense e (é claro) doses generosas de sexo, protagonizadas por uma Sharon no auge da beleza e da popularidade. Não tinha como dar errado, certo? Mas deu. "Invasão de privacidade", um dos filmes mais aguardados da temporada 1993 chegou às telas como uma das produções mais esperadas do ano e acabou se tornando uma de suas maiores decepções, não somente em termos de crítica - desagradou a gregos e troianos - mas principalmente no que diz respeito a suas ambições financeiras, já que não chegou nem mesmo a empatar seu orçamento de 40 milhões de dólares. No entanto, não é difícil perceber as razões do fracasso quando se assiste ao produto final.
Os problemas de "Invasão de privacidade" começaram, a bem da verdade, já durante a fase de pré-produção. A ideia do produtor Robert Evans era novamente contar com Roman Polanski na direção de uma obra de Ira Levin - como já havia ocorrido com "O bebê de Rosemary", em 1968 - mesmo com o cineasta proibido de por os pés nos EUA devido à sua condenação por sedução de uma menor nos anos 70. Com Polanski fora da jogada e Philip Noyce contratado - assim como a estrela maior, Sharon Stone - começou a busca pelo ator principal, que seria o responsável, junto com Sharon, de incendiar as telas em cenas pra lá de tórridas. Com a recusa de Johnny Depp, Val Kilmer e River Phoenix, o papel acabou ficando com William Baldwin, e o que deveria ser motivo de descanso para a Paramount tornou-se uma preocupação inesperada: ele e Sharon Stone simplesmente se odiaram à primeira vista e nunca fizeram questão de esconder seus sentimentos (algo como havia acontecido com Mickey Rourke e Kim Basinger durante as filmagens de "9 1/2 semanas de amor", em 1986). Não bastasse isso, Joe Eszterhas era obrigado constantemente a fazer modificações no roteiro - que já alterava significativamente o romance de Levin - e um helicóptero com uma equipe do filme, que fazia imagens de um vulcão em erupção no Havaí (para cenas importantes do primeiro roteiro) caiu com todos os passageiros, perdendo todo o material - ainda que ninguém tenha morrido no desastre.
Pra piorar a situação, terminadas as filmagens, uma sessão-teste do filme mostrou que o bicho era ainda mais feio do que parecia: boa parte da audiência respondeu pessimamente ao resultado um novo final foi criado, mudando o desfecho do livro e alterando drasticamente a história. Tal decisão não agradou a alguns atores (entre eles o veterano Tom Berenger) e obviamente aumentou o número de fofocas a respeito dos bastidores do filme, o que não ajudou em nada quando finalmente ele estreou. Ninguém deixou de notar a absoluta falta de química entre Stone e Baldwin (coisa que, digam o que disserem, havia em alto grau entre Rourke e Basinger), a fragilidade do roteiro, a apatia de Baldwin e Berenger e a total falta de suspense de uma trama que, em tese, se apoiava justamente nos elementos básicos do gênero. Ok, Philip Noyce fez o que pode com o que tinha em mãos, tentando criar um clima de tensão desde os primeiros momentos - e mais uma vez um prédio assume papel importante em uma criação de Ira Levin - mas tudo vai por água abaixo quando se percebe que tudo não passa de promessas que não são cumpridas no decorrer da projeção. Nem mesmo o erotismo tão alardeado vale a sessão: apesar de quentes, as cenas de sexo não empolgam nem excitam como as orquestradas por Paul Verhoeven em "Instinto selvagem".
Mas, afinal, de que se trata "Invasão de privacidade"? Tudo começa muito bem, quando uma jovem é misteriosamente jogada do vigésimo andar de um prédio localizado em um condomínio de luxo de Nova York. O caso é tratado como suicídio e não demora para que seu apartamento passe a ser habitado por Carly Norris (Stone, linda e boa atriz, fazendo o impossível com um papel sem graça), uma editora introvertida que acaba de sair de um relacionamento falido. Tão logo chega no prédio, ela passa a ser assediada por dois moradores, o sedutor Zeke (William Baldwin, péssimo) e o escritor de livros policiais Jack Lansford (Tom Berenger), ambos dispostos a seduzí-la. Quando misteriosos acidentes começam a acontecer nos limites do condomínio, porém, Carly passa a desconfiar de que alguém (talvez um dos dois) esteja envolvido bem mais do que o normal com eles. E, pior ainda: sem que ela saiba, alguém que também está à sua volta tem uma milionária aparelhagem de segurança, que dá acesso a todos os apartamentos do local.
E é só. A trama - fraca - não encontra respaldo na direção correta mas indiferente de Noyce e muito menos no elenco, que inclui até o futuro vencedor do Oscar Martin Landau. Stone está melhor atriz do que nunca, mas perde boa parte de seu carisma em um papel que faz dela a caça ao invés da caçadora. Sua falta de química com William Baldwin - uma escolha totalmente infeliz de elenco - tampouco a ajuda e, na falta de maiores qualidades, destaca-se a trilha sonora, que abre espaço até para uma bela versão de "I can't help falling in love", com o grupo UB 40. É muito pouco para o que prometia ser uma das maiores bilheterias de 1993.
terça-feira
CLEÓPATRA
CLEOPATRA (Cleopatra, 1963, 20th Century Fox, 192min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Joseph L. Mankiewicz, Ranald MacDougall, Sidney Buchman, livro "The life and times of Cleopatra", de C.M. Franzero, estórias de Plutarco, Suetônio e Appian. Fotografia: Leon Shamroy. Montagem: Dorothy Spencer. Música: Alex North. Figurino: Vittorio Nino Novarese, Renié. Direção de arte/cenários: John De Cuir/Paul S. Fox, Ray Moyer, Walter M. Scott. Produção: Walter Wanger. Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Rex Harrison, Hume Cronyn, Cesare Danova, Martin Landau, Roddy McDowall. Estreia: 12/6/63
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Rex Harrison), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia em Cores, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Para se falar sobre "Cleopatra", o filme estrelado por Elizabeth Taylor é imprescindível que se afogue em números: 129.800 dólares somente para o figurino de Taylor, que troca de roupa 65 vezes durante a projeção; 44 milhões de dólares de orçamento (em números atuais cerca de 300); salário de 1 milhão de dólares para sua estrela (que, atualizados, chegam a 30 milhões); dez pessoas premiadas com o Oscar de direção de arte; 79 cenários construídos; 26.000 figurinos criados; quase três anos de filmagens; seis horas em sua primeira montagem. A superprodução que quase levou a 20th Century-Fox à falência é hoje mais lembrada por suas fofocas de bastidores do que exatamente pelo filme que é. Culpa dos excessos de todos os tipos que circundaram suas filmagens, desde o estouro do orçamento até as crises pessoais de seus intérpretes (Taylor entrou em coma depois de uma cirurgia durante as filmagens, além de ter se envolvido com seu co-astro Richard Burton). No entanto, apesar de todos os problemas, "Cleopatra" foi um dos maiores sucessos de bilheteria dos anos 60 e, se jogou seu estúdio na mais grave crise de sua história - da qual só saiu em 1965 com o êxito de "A noviça rebelde" - é porque seu orçamento extrapolou as mais ambiciosas previsões.
Tudo começou no final dos anos 50, quando a Fox, já em problemas financeiros, resolveu refilmar algum de seus êxitos mais antigos como forma de economia. O filme escolhido - "Cleopatra" - era o remake de um clássico de 1917 estrelado por Theda Bara. A ideia inicial era fazer do filme um veículo para a atriz Joan Collins, com um custo de 2 milhões de dólares, mas a saída de Collins do projeto, devido a adiamentos frequentes da produção, mudou tudo. Quando Elizabeth Taylor finalmente entrou no barco, a coisa começou a sair do controle: com um cachê de 1 milhão de dólares, a atriz tornou-se imediatamente a mais bem paga estrela de Hollywood. Para piorar - ou melhorar, dependendo do ponto de vista - ela voltou a encontrar-se com Richard Burton, com quem não havia simpatizado em uma primeira ocasião. Dessa vez, Burton, que viveria Marco Antonio, a segunda paixão da rainha do Egito, foi visto com mais simpatia por Taylor, com quem iniciou um tórrido romance que alterou até mesmo a ideia central do diretor Joseph L. Mankiewicz quanto ao lançamento do filme.
Mankiewicz - o mesmo cineasta que levou uma cusparada da indignada Katharine Hepburn ao final das filmagens de "De repente, no último verão" - chegou às filmagens de "Cleopatra" depois que o primeiro diretor, Rouben Mamoulian, abandonou o projeto. Quando assumiu as rédeas do filme, Mankiewicz tinha nas mãos um produto 5 milhões acima do orçamento inicial e nenhuma cena pronta. Teve, então, a ideia de fazer dois filmes com três horas de duração cada: "Cesar e Cleopatra" e "Antonio e Cleopatra". A princípio aceita, a ideia logo foi descartada por Darryl F. Zanuck, presidente do estúdio, que, querendo capitalizar em cima do notório romance entre Taylor e Burton, previu que a primeira metade - que tratava da relação entre Cleopatra e Julio Cesar (Rex Harrison) - seria um fracasso de público, uma vez que as atenções já estavam voltadas para o relacionamento entre dois de seus atores principais - que iniciariam ali um romance polêmico e cheio de idas e vindas. Rumores dizem, porém, que duas horas inéditas de filme ainda existem em algum lugar - e os fãs mal podem esperar para assistí-las.
Mas, afinal de contas, "Cleopatra" é um bom filme? Logicamente é uma produção caprichada, bem cuidada e visualmente impressionante, especialmente se for levado em consideração o fato de que é um produto pré-CGI. Porém, em sua ambição de ser esteticamente inesquecível, acaba deixando de lado o roteiro e concentrando-se no visual. Seu roteiro é repleto de cenas dispensáveis, que prejudicam fatalmente o ritmo. Sempre que Taylor - deslumbrante - e Burton estão em cena o filme cresce, mas enquanto isso não acontece, a audiência sofre com longuíssimos discursos sobre política e geografia que, ao invés de ajudar a compreender a história, apenas confundem. Fosse menos megalomaníaco e mais pessoal certamente teria maior sucesso em conquistar a simpatia do espectador, que, apesar disso, pode encantar-se com a opulência do resultado final. Como está, é um filmão - no sentido literal - mas um tanto oco e aborrecido. Vale por Liz Taylor no auge da beleza e sensualidade.
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Rex Harrison), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia em Cores, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Para se falar sobre "Cleopatra", o filme estrelado por Elizabeth Taylor é imprescindível que se afogue em números: 129.800 dólares somente para o figurino de Taylor, que troca de roupa 65 vezes durante a projeção; 44 milhões de dólares de orçamento (em números atuais cerca de 300); salário de 1 milhão de dólares para sua estrela (que, atualizados, chegam a 30 milhões); dez pessoas premiadas com o Oscar de direção de arte; 79 cenários construídos; 26.000 figurinos criados; quase três anos de filmagens; seis horas em sua primeira montagem. A superprodução que quase levou a 20th Century-Fox à falência é hoje mais lembrada por suas fofocas de bastidores do que exatamente pelo filme que é. Culpa dos excessos de todos os tipos que circundaram suas filmagens, desde o estouro do orçamento até as crises pessoais de seus intérpretes (Taylor entrou em coma depois de uma cirurgia durante as filmagens, além de ter se envolvido com seu co-astro Richard Burton). No entanto, apesar de todos os problemas, "Cleopatra" foi um dos maiores sucessos de bilheteria dos anos 60 e, se jogou seu estúdio na mais grave crise de sua história - da qual só saiu em 1965 com o êxito de "A noviça rebelde" - é porque seu orçamento extrapolou as mais ambiciosas previsões.
Tudo começou no final dos anos 50, quando a Fox, já em problemas financeiros, resolveu refilmar algum de seus êxitos mais antigos como forma de economia. O filme escolhido - "Cleopatra" - era o remake de um clássico de 1917 estrelado por Theda Bara. A ideia inicial era fazer do filme um veículo para a atriz Joan Collins, com um custo de 2 milhões de dólares, mas a saída de Collins do projeto, devido a adiamentos frequentes da produção, mudou tudo. Quando Elizabeth Taylor finalmente entrou no barco, a coisa começou a sair do controle: com um cachê de 1 milhão de dólares, a atriz tornou-se imediatamente a mais bem paga estrela de Hollywood. Para piorar - ou melhorar, dependendo do ponto de vista - ela voltou a encontrar-se com Richard Burton, com quem não havia simpatizado em uma primeira ocasião. Dessa vez, Burton, que viveria Marco Antonio, a segunda paixão da rainha do Egito, foi visto com mais simpatia por Taylor, com quem iniciou um tórrido romance que alterou até mesmo a ideia central do diretor Joseph L. Mankiewicz quanto ao lançamento do filme.
Mankiewicz - o mesmo cineasta que levou uma cusparada da indignada Katharine Hepburn ao final das filmagens de "De repente, no último verão" - chegou às filmagens de "Cleopatra" depois que o primeiro diretor, Rouben Mamoulian, abandonou o projeto. Quando assumiu as rédeas do filme, Mankiewicz tinha nas mãos um produto 5 milhões acima do orçamento inicial e nenhuma cena pronta. Teve, então, a ideia de fazer dois filmes com três horas de duração cada: "Cesar e Cleopatra" e "Antonio e Cleopatra". A princípio aceita, a ideia logo foi descartada por Darryl F. Zanuck, presidente do estúdio, que, querendo capitalizar em cima do notório romance entre Taylor e Burton, previu que a primeira metade - que tratava da relação entre Cleopatra e Julio Cesar (Rex Harrison) - seria um fracasso de público, uma vez que as atenções já estavam voltadas para o relacionamento entre dois de seus atores principais - que iniciariam ali um romance polêmico e cheio de idas e vindas. Rumores dizem, porém, que duas horas inéditas de filme ainda existem em algum lugar - e os fãs mal podem esperar para assistí-las.
Mas, afinal de contas, "Cleopatra" é um bom filme? Logicamente é uma produção caprichada, bem cuidada e visualmente impressionante, especialmente se for levado em consideração o fato de que é um produto pré-CGI. Porém, em sua ambição de ser esteticamente inesquecível, acaba deixando de lado o roteiro e concentrando-se no visual. Seu roteiro é repleto de cenas dispensáveis, que prejudicam fatalmente o ritmo. Sempre que Taylor - deslumbrante - e Burton estão em cena o filme cresce, mas enquanto isso não acontece, a audiência sofre com longuíssimos discursos sobre política e geografia que, ao invés de ajudar a compreender a história, apenas confundem. Fosse menos megalomaníaco e mais pessoal certamente teria maior sucesso em conquistar a simpatia do espectador, que, apesar disso, pode encantar-se com a opulência do resultado final. Como está, é um filmão - no sentido literal - mas um tanto oco e aborrecido. Vale por Liz Taylor no auge da beleza e sensualidade.
quinta-feira
CARTAS NA MESA
CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98
Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.
Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.

Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.
Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.
"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.
Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.
Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.
Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.
Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.
"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.
ARQUIVO X, O FILME
ARQUIVO X, O FILME (The X Files - Fight the future, 1998, 20th Century Fox, 121min) Direção: Rob Bowman. Roteiro: Chris Carter, história de Chris Carter e Frank Spotnitz. Fotografia: Ward Russell. Montagem: Stephen Mark. Música: Mark Snow. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Jackie Carr. Produção executiva: Lata Ryan. Produção: Chris Carter, Daniel Sackheim. Elenco: David Duchovny, Gillian Andersen, John Neville, Martin Landau, William B. Davis, Armin Mueller-Stahl, Mitch Pilleggi, Blythe Danner, Terry O'Quinn, Lucas Black, Glenne Headly. Estreia: 19/6/98
Em 1993, antes que os seriados televisivos alcançassem o status de entretenimento de qualidade, um programa a respeito de conspirações governamentais, abduções alienígenas, monstros misteriosos e fenômenos inexplicáveis virou febre entre os espectadores. Criado por Chris Carter, "Arquivo X" não demorou muito a cair no gosto do público e da crítica, amealhando prêmios, prestígio e muito sucesso de audiência. Uma versão para o cinema, então, tornou-se questão de tempo e, depois do final da quinta temporada, na metade de 1998, finalmente "Arquivo X, o filme" chegou às telas americanas, cercado de grande expectativa. Contando com um roteiro escrito pelo próprio criador da série, a aventura dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) não decepcionou nem o estúdio - mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - nem tampouco os devotos fãs: é um filme que respeita a audiência do programa e não confunde nem aborrece os espectadores ocasionais.
Para quem não sabe, o Arquivo X da série (e do filme, consequentemente) é uma divisão dentro do FBI responsável pela investigação de acontecimentos inexplicáveis (leia-se sobrenaturais). No início da série, a médica patologista Dan Scully é escalada por seus superiores da agência a unir-se ao detetive Fox Mulder, não muito benquisto, para, com sua racionalidade científica, desacreditar suas conclusões tidas como absurdas. Depois dos cinco primeiros anos do programa, após ter testemunhado inúmeras situações bizarras e ter sido ela mesma vítima de uma estranha, Scully aproximou-se de Mulder a ponto de quase compactuar com suas teorias. No final da quinta temporada, a divisão é fechada (por motivos que não vem ao caso contar para não estragar o prazer de quem ainda nunca assistiu às aventuras da dupla) e os dois detetives são relegados a um nível inferior de investigação. E é aí que começa a versão para o cinema.
Como normalmente acontece na televisão, a primeira cena não conta com os protagonistas. O público é levado para o período pré-histórico, onde um homem, ainda em seu caminho para a evolução, é violentamente atacado por um ser alienígena. O roteiro dá um salto para o Texas de 1998, onde um pré-adolescente é atacado pela mesma substância que vitimou seu antepassado. Logo em seguida, Mulder e Scully testemunham a explosão de uma bomba que destrói um prédio do governo, em Dallas. Aparentemente sem conexão alguma, esses dois fatos passam a se ligar quando o detetive é procurado pelo misterioso cientista Alvin Kurtzweil (Martin Landau), que tem informações a respeito de uma conspiração governamental que utilizou a explosão para encobrir o que realmente aconteceu com o jovem morto. A partir daí, a dupla de policiais inicia uma procura incessante pela verdade, que os leva até a Antártida.
Para quem não é assíduo espectador, "Arquivo X" é um filme de ficção científica acima da média, com uma trama bem armada e intrigante, além de efeitos de maquiagem eficientes. Mas é impossível negar que existe um gostinho extra para aqueles que passavam uma hora por semana acompanhando as aventuras de Mulder e Scully na televisão. A tensão sexual entre as personagens (que chega ao ápice em uma cena de quase beijo mais aterrorizante, para os fãs, do que qualquer extraterrestre) soa como um romance descartável para o público em geral e eles também ficarão sem saber a importância, dentro da história, de personagens cruciais para a mitologia da série, como o misterioso Homem das Unhas Bem Feitas (vivido por John Neville). Porém, Chris Carter sabe muitíssimo bem como envolver a plateia com um roteiro cuidadoso e detalhista que não decepcionará ninguém.
Faz sentido dizer que "Arquivo X, o filme" é um episódio estendido da série. Assim acontece com todos os programas de TV que passaram à tela grande posterioremente e não chega a ser um demérito, mesmo porque, dos anos 90 em diante, a televisão americana apresentou produtos de extrema qualidade. Mas é preciso também que se reconheça que poucos filmes de ficção científica são tão sérios e interessantes quanto a obra de Chris Carter e companhia.
Em 1993, antes que os seriados televisivos alcançassem o status de entretenimento de qualidade, um programa a respeito de conspirações governamentais, abduções alienígenas, monstros misteriosos e fenômenos inexplicáveis virou febre entre os espectadores. Criado por Chris Carter, "Arquivo X" não demorou muito a cair no gosto do público e da crítica, amealhando prêmios, prestígio e muito sucesso de audiência. Uma versão para o cinema, então, tornou-se questão de tempo e, depois do final da quinta temporada, na metade de 1998, finalmente "Arquivo X, o filme" chegou às telas americanas, cercado de grande expectativa. Contando com um roteiro escrito pelo próprio criador da série, a aventura dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) não decepcionou nem o estúdio - mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - nem tampouco os devotos fãs: é um filme que respeita a audiência do programa e não confunde nem aborrece os espectadores ocasionais.
Para quem não sabe, o Arquivo X da série (e do filme, consequentemente) é uma divisão dentro do FBI responsável pela investigação de acontecimentos inexplicáveis (leia-se sobrenaturais). No início da série, a médica patologista Dan Scully é escalada por seus superiores da agência a unir-se ao detetive Fox Mulder, não muito benquisto, para, com sua racionalidade científica, desacreditar suas conclusões tidas como absurdas. Depois dos cinco primeiros anos do programa, após ter testemunhado inúmeras situações bizarras e ter sido ela mesma vítima de uma estranha, Scully aproximou-se de Mulder a ponto de quase compactuar com suas teorias. No final da quinta temporada, a divisão é fechada (por motivos que não vem ao caso contar para não estragar o prazer de quem ainda nunca assistiu às aventuras da dupla) e os dois detetives são relegados a um nível inferior de investigação. E é aí que começa a versão para o cinema.
Como normalmente acontece na televisão, a primeira cena não conta com os protagonistas. O público é levado para o período pré-histórico, onde um homem, ainda em seu caminho para a evolução, é violentamente atacado por um ser alienígena. O roteiro dá um salto para o Texas de 1998, onde um pré-adolescente é atacado pela mesma substância que vitimou seu antepassado. Logo em seguida, Mulder e Scully testemunham a explosão de uma bomba que destrói um prédio do governo, em Dallas. Aparentemente sem conexão alguma, esses dois fatos passam a se ligar quando o detetive é procurado pelo misterioso cientista Alvin Kurtzweil (Martin Landau), que tem informações a respeito de uma conspiração governamental que utilizou a explosão para encobrir o que realmente aconteceu com o jovem morto. A partir daí, a dupla de policiais inicia uma procura incessante pela verdade, que os leva até a Antártida.
Para quem não é assíduo espectador, "Arquivo X" é um filme de ficção científica acima da média, com uma trama bem armada e intrigante, além de efeitos de maquiagem eficientes. Mas é impossível negar que existe um gostinho extra para aqueles que passavam uma hora por semana acompanhando as aventuras de Mulder e Scully na televisão. A tensão sexual entre as personagens (que chega ao ápice em uma cena de quase beijo mais aterrorizante, para os fãs, do que qualquer extraterrestre) soa como um romance descartável para o público em geral e eles também ficarão sem saber a importância, dentro da história, de personagens cruciais para a mitologia da série, como o misterioso Homem das Unhas Bem Feitas (vivido por John Neville). Porém, Chris Carter sabe muitíssimo bem como envolver a plateia com um roteiro cuidadoso e detalhista que não decepcionará ninguém.
Faz sentido dizer que "Arquivo X, o filme" é um episódio estendido da série. Assim acontece com todos os programas de TV que passaram à tela grande posterioremente e não chega a ser um demérito, mesmo porque, dos anos 90 em diante, a televisão americana apresentou produtos de extrema qualidade. Mas é preciso também que se reconheça que poucos filmes de ficção científica são tão sérios e interessantes quanto a obra de Chris Carter e companhia.
sexta-feira
ED WOOD
ED WOOD (Ed Wood, 1994, Touchstone Pictures, 127min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski, livro "Nightmare of ecstasy", de Rudolph Grey. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Lehmann. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Patricia Arquette, Sarah Jessica Parker, Bill Murray, Jeffrey Jones, Lisa Marie, George "The Animal" Steele, Vincent D'Onofrio. Estreia: 28/9/94
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Martin Landau)
Edward D. Wood Jr. nasceu em 10 de outubro de 1924 e morreu em 10 de dezembro de 1978. Veterano da II Guerra Mundial, costumava combater vestido com roupas íntimas femininas e, graças a essa particularidade, realizou seu primeiro filme como cineasta, em 1953: "Glen ou Glenda?" A partir daí, pegou gosto pela coisa e, com a ajuda de seu fiel grupo de amigos e do veterano ator Bela Lugosi - em fim de carreira, viciado em morfina e falido - dirigiu alguns dos mais terríveis filmes vistos nas telas, e assumiu, com o passar dos anos, o título de pior diretor da história do cinema. Sem a menor noção de como fazer um filme - e realizando-os com o dinheiro de quem quisesse produzí-los - Wood é uma das personalidades mais fascinantes do lado B de Hollywood, e virou assunto de um dos trabalhos mais pessoais e sensíveis de Tim Burton. Estrelado pelo excêntrico Johnny Depp, "Ed Wood" não encontrou seu público - rendeu menos de 6 milhões de dólares nas bilheterias americanas - mas encantou a crítica e os fãs de bom cinema. Tudo devido à inteligência do roteiro, ao elenco impecável e ao carinho explícito do diretor pelo material.
Levemente inspirado na biografia "Nightmare of ecstasy", escrita pelo músico Rudolph Grey, "Ed Wood" não é exatamente uma cinebiografia, uma vez que concentra-se unicamente na carreira de cineasta do protagonista, deixando de lado sua vida antes de sua chegada ao cinema. Tudo começa em 1953, quando Wood (vivido com gosto por Johnny Depp), arrasado com as críticas negativas feitas a uma peça teatral que ele dirigiu, resolve iniciar uma nova fase em sua vida, realizando filmes para o cinema. O fracasso de seu primeiro filme - que contava a história de um homem em crise de identidade sexual, interpretado por ele mesmo - não o impede de manter-se esperançoso, principalmente quando conhece, por acaso, o ator Bela Lugosi (Martin Landau, impressionante e vencedor do Oscar de coadjuvante). Decadente e considerado ultrapassado, Lugosi se une a Wood em seus absurdos projetos cinematográficos, iniciando um relacionamento de amizade e admiração sinceras. Enquanto o jovem diretor insiste em filmar histórias sem pé nem cabeça - utilizando como atores médicos quiropratas, investidoras sem talento e filhos dos produtores - seu relacionamento com a namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) vai pro brejo e ele inicia um romance com a dedicada Kathy O'Hara (Patricia Arquette).

Extraordinariamente fotografado em preto-e-branco por Stefan Czapsky (vencedor de importantes prêmios da crítica americana por seu trabalho), "Ed Wood" foge do tradicional esquema das cinebiografias também por permitir-se brincar com a personalidade de seu homenageado. Ao narrar com bom-humor e ironia as aventuras de Wood em busca de reconhecimento e sucesso - ele se comparava a Orson Welles - Burton utiliza os elementos a seu dispor com maestria. A trilha sonora de Howard Shore - substituindo pela única vez o parceiro constante do diretor, Danny Elfman - estabelece o clima sombrio/divertido do filme logo nos créditos iniciais (que, dizem, custaram sozinhos mais do que qualquer filme de Ed Wood). A espirituosa maquiagem vencedora do Oscar faz sua parte sem apelar para exageros e o elenco não poderia estar em dias mais inspirados.
Acostumado a papéis de maluquetes, Johnny Depp criou um Ed Wood completamente obcecado por sua carreira, capaz dos atos mais inacreditáveis para transformar suas ideias malucas em filmes, mas ao mesmo tempo consegue humanizar a personagem em suas cenas com Martin Landau, que foge magnificamente das armadilhas de interpretar alguém tão conhecido como Bela Lugosi. O sotaque empregado por Landau convenceu até mesmo o filho de Lugosi e sua cadavérica aparência casa com exatidão com as intenções de Tim Burton em realizar um filme que orgulharia Wood. E seria injusto esquecer um Bill Murray hilariante e um Jeffrey Jones sempre em vias de roubar a cena. Todos os momentos em que a equipe de Ed Wood está reunida são sublimes em sua visão romântica e apaixonada do ato de fazer cinema.
"Ed Wood" é isso! Uma homenagem carinhosa, romântica, sensível, engraçada e comovente a um dos artistas mais originais e apaixonados que o cinema americano produziu. Ed Wood pode ter sido o pior diretor da história, mas inspirou o melhor filme de um cineasta que provavelmente nasceu para contar sua história.
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Martin Landau)
Edward D. Wood Jr. nasceu em 10 de outubro de 1924 e morreu em 10 de dezembro de 1978. Veterano da II Guerra Mundial, costumava combater vestido com roupas íntimas femininas e, graças a essa particularidade, realizou seu primeiro filme como cineasta, em 1953: "Glen ou Glenda?" A partir daí, pegou gosto pela coisa e, com a ajuda de seu fiel grupo de amigos e do veterano ator Bela Lugosi - em fim de carreira, viciado em morfina e falido - dirigiu alguns dos mais terríveis filmes vistos nas telas, e assumiu, com o passar dos anos, o título de pior diretor da história do cinema. Sem a menor noção de como fazer um filme - e realizando-os com o dinheiro de quem quisesse produzí-los - Wood é uma das personalidades mais fascinantes do lado B de Hollywood, e virou assunto de um dos trabalhos mais pessoais e sensíveis de Tim Burton. Estrelado pelo excêntrico Johnny Depp, "Ed Wood" não encontrou seu público - rendeu menos de 6 milhões de dólares nas bilheterias americanas - mas encantou a crítica e os fãs de bom cinema. Tudo devido à inteligência do roteiro, ao elenco impecável e ao carinho explícito do diretor pelo material.
Levemente inspirado na biografia "Nightmare of ecstasy", escrita pelo músico Rudolph Grey, "Ed Wood" não é exatamente uma cinebiografia, uma vez que concentra-se unicamente na carreira de cineasta do protagonista, deixando de lado sua vida antes de sua chegada ao cinema. Tudo começa em 1953, quando Wood (vivido com gosto por Johnny Depp), arrasado com as críticas negativas feitas a uma peça teatral que ele dirigiu, resolve iniciar uma nova fase em sua vida, realizando filmes para o cinema. O fracasso de seu primeiro filme - que contava a história de um homem em crise de identidade sexual, interpretado por ele mesmo - não o impede de manter-se esperançoso, principalmente quando conhece, por acaso, o ator Bela Lugosi (Martin Landau, impressionante e vencedor do Oscar de coadjuvante). Decadente e considerado ultrapassado, Lugosi se une a Wood em seus absurdos projetos cinematográficos, iniciando um relacionamento de amizade e admiração sinceras. Enquanto o jovem diretor insiste em filmar histórias sem pé nem cabeça - utilizando como atores médicos quiropratas, investidoras sem talento e filhos dos produtores - seu relacionamento com a namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) vai pro brejo e ele inicia um romance com a dedicada Kathy O'Hara (Patricia Arquette).

Extraordinariamente fotografado em preto-e-branco por Stefan Czapsky (vencedor de importantes prêmios da crítica americana por seu trabalho), "Ed Wood" foge do tradicional esquema das cinebiografias também por permitir-se brincar com a personalidade de seu homenageado. Ao narrar com bom-humor e ironia as aventuras de Wood em busca de reconhecimento e sucesso - ele se comparava a Orson Welles - Burton utiliza os elementos a seu dispor com maestria. A trilha sonora de Howard Shore - substituindo pela única vez o parceiro constante do diretor, Danny Elfman - estabelece o clima sombrio/divertido do filme logo nos créditos iniciais (que, dizem, custaram sozinhos mais do que qualquer filme de Ed Wood). A espirituosa maquiagem vencedora do Oscar faz sua parte sem apelar para exageros e o elenco não poderia estar em dias mais inspirados.
Acostumado a papéis de maluquetes, Johnny Depp criou um Ed Wood completamente obcecado por sua carreira, capaz dos atos mais inacreditáveis para transformar suas ideias malucas em filmes, mas ao mesmo tempo consegue humanizar a personagem em suas cenas com Martin Landau, que foge magnificamente das armadilhas de interpretar alguém tão conhecido como Bela Lugosi. O sotaque empregado por Landau convenceu até mesmo o filho de Lugosi e sua cadavérica aparência casa com exatidão com as intenções de Tim Burton em realizar um filme que orgulharia Wood. E seria injusto esquecer um Bill Murray hilariante e um Jeffrey Jones sempre em vias de roubar a cena. Todos os momentos em que a equipe de Ed Wood está reunida são sublimes em sua visão romântica e apaixonada do ato de fazer cinema.
"Ed Wood" é isso! Uma homenagem carinhosa, romântica, sensível, engraçada e comovente a um dos artistas mais originais e apaixonados que o cinema americano produziu. Ed Wood pode ter sido o pior diretor da história, mas inspirou o melhor filme de um cineasta que provavelmente nasceu para contar sua história.
quinta-feira
CRIMES E PECADOS
CRIMES E PECADOS (Crimes and misdemeanors, 1989, Orion Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Claire Bloom, Sam Waterston, Jerry Orbach. Estreia: 13/10/89
3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original
Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua filmografia. Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.
Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.

As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.
Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!
3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original
Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua filmografia. Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.
Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.
As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.
Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!
segunda-feira
INTRIGA INTERNACIONAL
INTRIGA INTERNACIONAL (North by northwest, 1959, MGM Pictures, 131min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Martin Landau. Estreia: 17/7/59
3 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Montagem, Direção de Arte (Cores)
Depois de ter filmado boa parte de "Intriga internacional", seu ator principal, Cary Grant chegou até o diretor do filme, Alfred Hitchcock e disse o seguinte: "Acho esse roteiro pavoroso, pois já filmamos a primeira terça parte do filme, acontecem coisas de todo tipo, e não entendo de jeito nenhum do que se trata." A indignação de Grant não era gratuita, como pode comprovar qualquer incauto espectador deste, que é o 49º longa do cineasta inglês. Ao dirigir esta intrincada trama de espionagem - roteirizada por Ernest Lehman - Hitch criou talvez o mais claro exemplo de um "mcguffin", que ele tanto citava em suas entrevistas. "McGuffin", segundo o mestre do suspense, é um elemento da trama que a empurra pra frente, mesmo que no final das contas seja apenas um detalhe ou uma desculpa para o desenvolvimento da história. Entendido? Pois vejamos.
Do nada, o publicitário Robert Tornhill (Cary Grant) passa a ser perseguido por um gupo misterioso de homens que aparentemente o quer morto. O grupo, liderado pelo frio Vandamm (James Mason), não hesita em tentar assassiná-lo das mais variadas maneiras e utiliza-se de todos os artifícios possíveis para eliminá-lo. Quando descobre que está sendo confundido com um tal de George Kaplan, Tornhill resolve localizá-lo para esclarecer a confusão. O que ele não sabe é que Kaplan não existe: é um agente inventado por um grupo americano de contra-espionagem - que obviamente não tem a menor disposição de revelar sua armação. Contando com a ajuda da bela Eve Kendall (Eva Marie Saint), ele tenta provar sua identidade e sua inocência no assassinato de que passa a ser acusado.
Realmente a trama de "Intriga internacional" é das mais complicadas - e talvez até mesmo simplesmente a mais frágil - da carreira de Hitchcock, mas também não dá pra negar que o motivo sobre a perseguição de Vandamm e seus homens ao falso Kaplan é o que menos importa no resultado final. Do alto de sua experiência e talento, Hitch proporciona a seu público um filme repleto de sequências de ação de tirar o fôlego, intercaladas com cenas com diálogos espertos e românticos/sensuais entre Grant e Eva Marie Saint (que ficou com o papel que foi oferecido a Cyd Charisse e Sophia Loren). A cena de amor entre os dois no dormitório de Eve no trem onde eles se conhecem é provavelmente uma das mais sexies da carreira do cineasta, notoriamente avesso a manifestações tão claras a respeito de sexualidade e a química entre os dois atores é uma das razões pelas quais o filme funciona tão bem no quesito romântico. Mas Grant quase recusou o papel.

Aos 55 anos de idade, Grant se achava velho demais para viver o irrequieto protagonista de "Intriga internacional", mas acabou sendo convencido por Hitchcock, principalmente porque James Stewart, que estava interessadíssimo no papel teve que sair do projeto para filmar "Anatomia de um crime", de Otto Preminger. Na verdade, Hitchcock postergou o início das filmagens até que Stewart estivesse já comprometido com o filme de Preminger e não pudesse liderar o elenco de "Intriga". O motivo? O diretor considerava que o fracasso comercial de seu filme anterior, "Um corpo que cai" se devia muito à idade avançada do ator. Incoerentemente, ele chamou Grant - um ano mais VELHO que Stewart - para o papel. Vai entender o gorducho!!!
O fato é que Cary Grant domina o filme, com uma atuação exata e discreta, mas sempre eficiente. Com seu charme e elegâncias inatas, ele equilibra atordoamento, angústia, paixão e até mesmo um bem-vindo senso de humor que provavelmente não soaria tão natural em James Stewart. Além do mais, Grant tem um carisma que de imediato o conecta à plateia, a quem não resta nada além do que ficar de olhos vidrados assistindo às espetaculares - e antológicas - cenas de ação do filme. Sucessos de bilheteria como a trilogia Bourne, por exemplo, devem - e muito - a sequências como a perseguição de um avião à personagem de Grant em um descampado e à cena final no Monte Rushmore, dois perfeitos exemplos do talento incansável de seu diretor.
"Intriga internacional" não é meu Hitchcock preferido - não fica nem entre os cinco mais - mas é inegavelmente um dos mais eficientes thrillers de espionagem de todos os tempos.
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O PREÇO DA TRAIÇÃO
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