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sábado

O LOBO DE WALL STREET

O LOBO DE WALL STREET (The wolf of Wall Street, 2013, Paramount Pictures, 180min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Terence Winter, livro de Jordan Belfort. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Bob Shaw/Ellen Christiansen. Produção executiva: Danny Dimbort, Joel Gotler, Georgia Kacandes, Alexandra Milchan, Irwin Winkler, Rick Yorn. Produção: Riza Aziz, Leonardo DiCaprio, Joey McFarland, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff. Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Margot Robbie, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Shea Whigham, Ethan Suplee. Estreia: 17/12/13

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Leonardo DiCaprio)


Quando “O lobo de Wall Street”, 30º longa-metragem de Martin Scorsese – contando-se os documentários e sua participação no episódico “Contos de Nova York”, ao lado de Francis Ford Coppola e Woody Allen – foi classificado como comédia pelos jornalistas estrangeiros que elegem os vencedores dos cobiçados Golden Globes (que só perdem para o Oscar em termos de importância no mercado norte-americano), muita gente estranhou – até mesmo seu ator principal, Leonardo DiCaprio, que ganhou a disputa da estatueta em sua categoria. Porém, o que talvez poucos tenham notado é que, da maneira como foi filmada por Scorsese – no auge de uma energia aparentemente inesgotável – a trajetória de altos e baixos (mais altos do que baixos) do protagonista Jordan Belfort é, definitivamente, uma comédia. Histérica, cruel, de humor nigérrimo e pouco dada a concessões ao riso fácil, mas uma comédia. Das boas. E das mais inteligentes que se pode conceber em uma indústria tão dada a suscetibilidades pudicas quanto a de Hollywood.
A história de Belfort – contada em sua autobiografia, aqui adaptada com verve e extrema ironia por Terence Winter, merecidamente indicado ao Oscar – não é engraçada, pelo menos pelos parâmetros oficiais do termo: sua ascensão no mercado de ações, regada a muita droga, corrupção e orgias das mais variadas e sua queda vertiginosa rumo às malhas da lei, recheada de associações escusas e a perda da própria família, são contundentes e tão violentas quanto aquelas mostradas pelo mesmo Scorsese em “Os bons companheiros” (90), mas o cineasta nova-iorquino dessa vez resolveu optar por um caminho menos óbvio e linear de retratá-las. Sai de cena a crueldade sanguinolenta dos becos sórdidos do Bronx e entram em cena o luxo e o glamour de mansões paquidérmicas. A ameaça não é mais representada por rivais na disputa pela primazia no tráfico de drogas e sim por agentes da Receita Federal pouco afeitos a negociatas. A paranoia, consequência do abuso de tóxicos não mais assusta ou mata, e sim dá lugar a absurdas sequências de um humor tão negro que até mesmo os mais atentos espectadores demoraram a percebê-lo em sua totalidade. “O lobo de Wall Street” não faz rir através de piadas fáceis. É preciso embarcar em sua visão particular de comédia para chegar ao âmago de sua ironia iconoclasta e devastadora. Scorsese não quer arrancar gargalhadas apelando para a vulgaridade – e quando joga diante do espectador cenas explodindo de sexo e excessos de toda a espécie, é uma forma de, através de uma lente de aumento, sublinhar o quão patética a ambição e a decadência podem soar. Se no cinema do diretor nunca faltou descomedimento, em “O lobo de Wall Street” ele é ainda mais explícito e crucial. É um meio magistralmente manipulado para se chegar a um fim de inegável impacto e genialidade.
Deixando de lado a inocência de seu filme anterior, o poético e deslumbrante “A invenção de Hugo Cabret”, Martin Scorsese faz, em “O lobo de Wall Street” um inventário impiedoso e barulhento de toda a parafernália amoral e inescrupulosa da mais individualista do século XX, os insensíveis anos 80 que tão bem foram definidos por Gordon Geko, o personagem do oscarizado Michael Douglas em “Wall Street: poder e cobiça” (87): do alto de sua arrogância yuppie, ele declarava, com um sorriso cínico estampado, que “ganância é bom!”. E ganância é a palavra-chave na história de Jordan Belfort, interpretado na linha exata entre o deboche escrachado a fina ironia por um Leonardo DiCaprio no auge de sua colaboração com o diretor. Recebido em Wall Street como um rapaz ambicioso mas ainda ingênuo que escapa de ser devorado por homens como seu mentor Mark Hannah (Matthew McConaughey) graças a um apurado instinto de sobrevivência, Belfort se vê repentinamente no meio de uma crise financeira que o faz perder o emprego e quase aniquila com suas esperanças. Porém, utilizando-se dos conhecimentos adquiridos em sua rápida passagem pelo alto mercado financeiro, ele logo encontra um jeito de arrumar uma recolocação ainda mais promissora: em pouco tempo, ele passa de empregado de uma corretora de fundo-de-quintal (dirigida pelo também cineasta Spike Jonze em ponta não-creditada) a dono de uma empresa de ações. Desprovidos de qualquer tipo de ética, Belfort e seu sócio, Donnie (Jonah Hill, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), junto com um grupo de amigos, tornam-se milionários da noite para o dia – e com os dólares em profusão vem também a possibilidade de queda.



Entregando-se sem medo a exorbitâncias materiais, sexuais e alucinógenas, Jordan abandona a esposa, casa-se com a bela Naomi LaPaglia (Margot Robbie) e, cada vez mais rico, chama a atenção da Receita Federal e do FBI, na figura do honesto e implacável Patrick Denham (Kyle Chandler). Começa, então, uma corrida para manter a salvo sua liberdade, sua reputação e principalmente sua fortuna. Em uma edição progressivamente mais ágil e febril – a cargo da habitual parceira de Scorsese, a veterana Thelma Schoonmaker, vencedora do Oscar por “Touro indomável” (80) e “Os infiltrados” (06) – o filme vai se tornando a cada cena mais histérico (no bom sentido) e alucinado. Brincando com o tempo de forma genial, Scorsese e Schoonmaker comprimem meses em rápidos segundos e se dão ao luxo de gastar vários minutos em uma única cena aparentemente simples – e ainda oferecem à plateia uma longa sequência e divertidíssima sequência em que Belfort, sentindo o resultado de uma vasta quantidade de anfetaminas ingeridas como balas, se vê repentinamente vítima de uma temporária paralisia cerebral: o resultado da cena e suas consequências mostram o total domínio técnico do cineasta e sua inteligência em modelar o roteiro a seu estilo inconfundível (mas sempre imprevisível) de filmar. Não à toa, mesmo com a profusão de cenas de sexo e consumo de drogas de seu filme – uma afronta à moral e aos bons costumes pregados pela Academia – Scorsese acabou concorrendo ao Oscar por seu trabalho (junto com as indicações a melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante).
 Implacável no retrato debochado de um estilo de vida em que o glamour convive lado a lado com uma inconfundível cafonice, Scorsese fez de “O lobo de Wall Street” uma obra-prima do sarcasmo. Contando com um elenco coadjuvante que se dá ao luxo de ter os também cineastas Jon Favreau e Rob Reiner (na pele do irascível pai do protagonista) e o oscarizado Jean Dujardin (de “O artista” (11)) em pequenos papéis, ele brinca com a falta de moralidade ianque e tira sarro da suposta sobriedade do mercado financeiro mais importante do mundo. Não é à toa que poucos acharam graça na brincadeira.

quarta-feira

ATÉ A ETERNIDADE

ATÉ A ETERNIDADE (Les petits mouchoirs, 2010, Les Productions du Trésor, EuropaCorp, 154min) Direção e roteiro: Guillaume Canet. Fotografia: Christophe Offenstein. Montagem: Hervé de Luze.Figurino: Carine Sarfati Direção de arte/cenários: Philippe Chiffre/Ariane Audouard. Produção: Alain Attal. Elenco: François Cluzet, Marion Cottilard, Jean Dujardin, Benoit Magimel, Gilles Lellouche, Laurent Lafitte, Anne Marivin, Louise Monot. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)

Em 1983, o diretor Lawrence Kasdan lançou "O reencontro", que unia um time de respeito - Glenn Close, Kevin Kline, William Hurt, Jeff Goldblum, Tom Berenger, entre outros - para fazer um inventário dramático de uma geração que, pós-sonhos loucos dos anos 60, se via preso em uma redoma de comodismo e frustração. A partir de então, cineastas de todos os calibres exploraram o tema, com resultados diversos mas quase sempre bastante interessantes. Assumidamente inspirado pelo filme de Kasdan, o ator e cineasta Guillaume Canet - o rival de Leonardo DiCaprio em "A praia" - também deu sua contribuição ao gênero, com o potente "Até a eternidade", que lançou em 2010 e viu se transformar no maior sucesso do cinema francês do ano, com mais de cinco milhões de ingressos vendidos. Reflexo de um momento catártico da vida de Caunet - que incluía a separação da atriz Diane Kruger - o roteiro do filme pega pesado no drama e na emoção, mas consegue, graças à química perfeita do elenco, dos diálogos ágeis e da edição fluente, fazer com que mais de duas horas e meia de duração passem voando diante dos olhos e do coração do espectador. Da série de produções que devem sua existência ao filme de Kasdan, o trabalho de Caunet é, sem dúvida, um dos mais bem sucedidos.

Equilibrando sua narrativa com extrema eficácia - e evitando privilegiar uma história em detrimento de outra - Caunet demonstra um extraordinário senso de ritmo e conhecimento da alma humana, ao criar uma galeria de personagens bem construídos, interpretados por um elenco homogêneo que inclui grandes atores franceses e rostos conhecidos do grande público, como François Cluzet, Marion Cottilard e Jean Dujardin - antes do Oscar de melhor ator por "O artista". É o personagem de Dujardin, inclusive, quem dá o pontapé inicial da trama, quando sofre um violento acidente de moto que o leva para o hospital justamente às vésperas do tradicional período de férias de verão em que seu grupo de amigos se reúne na casa de praia do mau-humorado Max (Cluzet) e de sua mulher, Véro (Valérie Bonneton). O fato de ter um de seus melhores amigos internado em estado grave não impede, porém, que os planos de todos sigam adiante e em poucos dias todos se encontram na aprazível propriedade de Max, dono de um restaurante que passa os dias em estado de constante tensão e rigidez - principalmente depois que Vincent (Benoit Magimel), de cujo filho ele é padrinho, se declara apaixonado por ele apesar de ser casado com a compreensiva Isabelle (Pascale Arbillot). A situação bizarra é completada pelas confusões amorosas de Éric (Gilles Lelouche) - que tem uma bela namorada mas não consegue lhe ser fiel - e Antoine (Laurent Lafitte) - que não consegue esquecer a mulher que ama e insiste em reconquistá-la. Não bastasse isso, a bela Marie (Marion Cottilard) - que teve um relacionamento com o amigo acidentado - passa a sentir-se culpada pelo fim do romance.


Inserindo um e outro momento de humor em uma trama assumidamente dramática, Guillaume Caunet se utiliza de uma inesperada tragédia para desnudar um festival de amores reprimidos, rancores escondidos e até pesadas acusações e agressões - verbais e físicas. Forjando um roteiro onde as pequenas mentiras do título original acabam se tornando grandes problemas, o cineasta oferece ao espectador um vasto panorama de emoções humanas, que vão da culpa ao desejo, do carinho fraternal ao egoísmo, do amor ao remorso. Ao mesmo tempo em que dá espaço para sequências solares e felizes - jogos de futebol, passeios de barco - o filme entrega ao público cenas de uma melancolia pungente, em especial quando explora o talento superlativo de Marion Cottilard, casada com Caunet na vida real. É especialmente tocante o momento em que um amante ocasional de sua Marie canta para seus amigos enquanto ela disfarça a dor de uma descoberta recente enquanto limpa os restos do jantar. Sutil e delicado como somente os cineastas franceses sabem ser.

Antes do devastador final - onde as verdades aparecem de forma brutal e inesperada - "Até a eternidade" ainda oferece ao público momentos de genuína emoção, jamais forçando a mão no sentimentalismo. O maior mérito do filme - ainda maior do que a escalação certeira do elenco e da bem dosada mistura entre drama e comédia - é justamente o talento de Guillaume Canet em contar sua história sem buscar as lágrimas fáceis: se elas surgem no desfecho é porque sua trama e seus personagens são reais, honestos e radicalmente próximos do espectador. E isso é algo que nem todo roteirista muito mais experiente consegue. Palmas para o jovem cineasta!

sábado

O ARTISTA

O ARTISTA (The artist, 2011, Miramax Films, 100min) Direção e roteiro: Michel Hazanivicius. Fotografia: Guillaume Schiffman. Montagem: Anne-Sophie Bion, Michel Hazanivicius. Música: Ludovic Bource. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Robert Gould. Produção executiva: Antoine de Cazotte, Daniel Delume, Richard Middleton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Thomas Langmann. Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, Penelope Ann Miller, John Goodman, James Cromwell, Malcom McDowell. Estreia: 15/5/11 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michel Hazanivicius), Ator (Jean Dujardin), Atriz Coadjuvante (Bérénice Bejo), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michel Hazanivicius), Ator (Jean Dujardin), Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Jean Dujardin), Trilha Sonora Original
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Ator (Jean Dujardin) no Festival de Cannes

Qual foi a última que você, caro fã de cinema, sentiu-se surpreendido e encantado por um filme, a ponto de esquecer da realidade? Em uma época em que praticamente tudo parece mais do mesmo no mundo da sétima arte, foi preciso uma co-produção belgo-francesa de orçamento quase irrisório (12 milhões de dólares) para relembrar ao público e à crítica que, mais do que custos astronômicos e estrelas sorridentes, a criatividade e a inteligência é que são as verdadeiras forças por trás do bom cinema. "O Artista" encantou Cannes e foi o grande vencedor do Oscar 2012. Por puro merecimento!

A trama criada por Michel Hazanavicius tem início em 1927, quando o cinema mudo começa a dar seus últimos suspiros. A chegada do cinema falado ameaça o sucesso de um dos maiores astros das telas, o carismático George Valentin (interpretado com maestria por Jean Dujardin), que, acompanhado invariavelmente de seu cachorro de estimação, leva multidões às salas de exibição com seus filmes de aventura e romance. No momento em que começa a perceber que está tornando-se anacrônico, Valentin vê também seu casamento ruir e suas finanças entrar em colapso (em especial depois do crash de 1929 e de sua tentativa de dirigir seus próprios filmes). Sua derrocada artística e emocional contrasta com a ascensão vertiginosa de Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma jovem e talentosa corista que se transforma, quase da noite para o dia, em estrela absoluta dos filmes falados.


A ousadia maior de Hazanivicius - e seu maior trunfo - foi ter realizado sua obra-prima indo contra todas as regras comerciais ditadas por Hollywood. Fotografado em um deslumbrante preto-e-branco e rodado quase totalmente sem diálogos ou som (com a exceção da estupenda trilha sonora de Ludovic Bource) - no formato no qual eram feitos os filmes mudos, o que destacava as expressões faciais dos atores - o filme utiliza um momento crucial da história da sétima arte para homenagear o próprio cinema, de forma carinhosa, nostálgica e bem-humorada. Inteligente, o roteiro brinca de metalinguagem sem tornar-se hermético ou autocomplacente, dando à audiência a chance de deleitar-se com inúmeras referências estéticas (os filmes estrelados por Errol Flynn, por exemplo) ou verbais ("I want to be alone", dispara Peppy Miller em uma das cenas, parafraseando Greta Garbo). Até mesmo a utilização parcimoniosa do som (em duas sequências geniais) é um achado, traindo a paixão de seu criador pelo cinema clássico.

Mas, além de sua qualidade técnica impecável, "O Artista" ainda conta com outra carta na manga seu elenco admirável. Se os coadjuvantes seguram a cena de maneira formidável - e entre eles estão John Goodman, a sumida Penelope Ann Miller e o sempre competente James Cromwell - são os protagonistas que fazem dele uma experiência única. A argentina Bérénice Bejo (que no longínquo 2001 fez uma participação pequena em "Coração de Cavaleiro") está perfeita na pele da coquette Peppy Miller, equilibrando humor e drama com a segurança de uma veterana e o francês Jean Dujardin é o grande achado do filme. Carismático, intenso e dono de um impressionante talento físico, ele saiu merecidamente premiado da cerimônia do Golden Globe e, com justiça, levou também o Oscar. Sua atuação é das mais empolgantes e encantadoras dos últimos anos, revelando ao mundo um ator completo em um momento único da carreira.

 2012 foi um ano em que a safra dos filmes que concorreram ao Oscar estava bem fraca, sem grandes e destacados favoritos. Mas mesmo que estivesse em um páreo mais acirrado, "O Artista" mereceria o sucesso e os elogios que recebeu. É cinema em seu estado puro e um êxtase para os cinéfilos de todas as idades! Bravíssimo!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...