A ONDA (Die welle, 2008, Rat Pack Filmproduktion, 107min) Direção: Dennis Gansel. Roteiro: Johnny Dawkins, Ron Birnbach, adaptação de Dennis Gansel, Peter Thorwarth, conto de William Ron Jones. Fotografia: Torsten Breuer. Montagem: Ueli Christen. Música: Heiko Maile. Figurino: Ivana Milos. Direção de arte/cenários: Knut Loewe/Tilman Lasch. Produção: Christian Becker. Elenco: Jurgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul. Estreia: 18/01/08 (Festival de Sundance)
Em abril de 1967, um professor de História chamado Ron Jones, conduziu uma experiência com seus alunos de Palo Alto, na Califórnia, tentando provar a eles que regimes ditatoriais como o nazismo poderiam tranquilamente encontrar espaço em qualquer sociedade democrática do pós-guerra. O trabalho acabou rendendo um romance escrito por Morton Rhue (pseudônimo de Todd Strasser) e uma adaptação para a televisão escrita por ele mesmo. Em 2007, o cineasta Dennis Gansel, cujo avô fez parte da juventude hitlerista, seduzido por suas promessas de proporcionar-lhe uma carreira artística, encontrou na narrativa de Jones o material ideal para um filme que demonstrasse, nas telas de cinema, sua ideologia contrária a qualquer tipo de fascismo. Nascia, então, "A onda", uma transposição honesta, forte e inquietante que estreou no Festival de Sundance de 2008 e, com um final mais impactante do que o livro e a história real, conquista o público com uma trama surpreendente e chocante.
O protagonista é Rainer Wenger (Jurgen Vogel), um carismático professor de história que, mesmo com planos de utilizar o conceito de anarquia para um projeto com seus alunos, acaba sendo obrigado pela direção a optar pelo seu exato oposto, a autocracia. Como forma de mostrar aos jovens que um regime autoritário não floresceu por acaso na Alemanha nazista, ele propõe a eles que formem um novo e rígido sistema político dentro da própria sala de aula, tendo-o como líder. A princípio tímidos e relutantes, aos poucos os estudantes começam a empolgar-se com a ideia, especialmente quando os mais introvertidos e problemático passam a experimentar o gostinho de pertencer a um grupo e os demais percebem a importância da união que surge entre eles. Porém, com o tempo, as coisas começam a sair do controle de Wenger: o uniforme obrigatório do grupo (batizado como "A onda") se transforma imediatamente em uma espécie de passaporte para um mundo com novas regras e leis, que exclui aqueles que não compartilham de seu pensamento, e, utilizando-se de seu logotipo como propaganda, alguns dos membros iniciam uma campanha para impor suas ideias. Sentindo que algo está muito errado, a jovem Karo (Jennifer Ulrich) - expulsa do grupo por não concordar com suas normas - tenta abrir os olhos do namorado, Marco (Max Riemelt), jogador de polo aquático que vê na turma de colegas o apoio que necessita para se tornar um atleta mais bem-sucedido.
Com um roteiro simples e direto, que vai envolvendo a plateia cada vez mais, conforme a experiência de Wenger vai saindo de seu controle, "A onda" é um filme alemão com um ritmo ágil e inteligente que dialoga muito mais com o cinema americano do que com produções europeias com pretensões artísticas. Apesar da questão cada vez mais relevante que apresenta para discussão, em nenhum momento o filme de Dennis Gansel se propõe a ser mais do que entretenimento acima de tudo. Para isso, não abre mão do suspense, do drama, de pitadas de romance e de um clímax arrebatador, que leva quase às últimas consequências a proposta inicial. Com uma direção correta, que não corre riscos desnecessários e conduz a narrativa de forma sóbria, "A onda" se apoia basicamente em sua empolgante premissa e em seus (bons) atores, Jurgen Vogel à frente: sem exagerar nas tintas de seu mestre apaixonado que vê seu experimento escapar de suas mãos de maneira trágica, Vogel não procura o brilho fácil, dividindo a atenção com um elenco de jovens intérpretes dotados de garra e carisma suficientes para manter o público ligado até as últimas cenas. Max Riemelt - que anos depois estaria no elenco da cultuada série "Sense 8" - é um dos destaques, como um rapaz dividido entre a fidelidade a seus colegas (e consequentemente à sua futura carreira no esporte) e a noção de que algo está muito errado nas regras propostas por seu líder.
Apresentando algumas sequências bastante interessantes visualmente - em especial no terço final, quando o diretor se utiliza do branco do uniforme do grupo para enfatizar a falta de individualidade dos personagens - e conduzido com discrição, "A onda" é um filme de suma importância nos tempos difíceis de obscurantismo e fascismo que vem tomando conta do mundo. Alertando para os perigos do totalitarismo, o belo trabalho de Dennis Gansel consegue aquilo que o bom cinema deveria conseguir sempre: entreter e fazer pensar, divertir e questionar. Pode suscitar muitas discussões e só por isso já deveria ser mais conhecido e louvado - mas além disso, é uma história interessante e bem contada, amparada por um roteiro sóbrio e um elenco esforçado. Imprescindível em qualquer momento histórico!
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QUEDA LIVRE
QUEDA LIVRE (Freier fall, 2013, Kurhaus Production/Sudwestrundfunk, 100min) Direção: Stephan Lacant. Roteiro: Stephan Lacant, Karsten Dahlem. Fotografia: Sten Mende. Montagem: Monika Schindler. Música: Durbeck & Dohmen. Figurino: Bettina Marx. Direção de arte/cenários: Petra Bock-Hofbauer/Bele Schneider. Produção: Christoph Holthof, Daniel Reich. Elenco: Max Riemelt, Hanno Koffler, Katharina Schuttler, Maren Kroymann, Luis Lamprecht. Estreia: 08/02/13 (Festival de Berlim)
Quando chegou aos cinemas, o germânico “Queda livre” recebeu, da imprensa em geral, a alcunha de “Brokeback Mountain alemão”. A definição, apesar de um tanto simplista não é, porém, de todo errada. Assim como a premiada produção de Ang Lee, o filme de Stephan Lacant trata de uma relação homossexual surgida dentro de um universo machista e um tanto preconceituoso, mas consegue a façanha de ter uma identidade própria e fugir (dentro do possível) da previsibilidade que a trama sugere. Não chega a ser um marco de originalidade, mas prende a atenção do público até o final e, aplausos para isso, evita o sentimentalismo e o sadismo que caracterizam muitas obras de temática semelhante.
Quando chegou aos cinemas, o germânico “Queda livre” recebeu, da imprensa em geral, a alcunha de “Brokeback Mountain alemão”. A definição, apesar de um tanto simplista não é, porém, de todo errada. Assim como a premiada produção de Ang Lee, o filme de Stephan Lacant trata de uma relação homossexual surgida dentro de um universo machista e um tanto preconceituoso, mas consegue a façanha de ter uma identidade própria e fugir (dentro do possível) da previsibilidade que a trama sugere. Não chega a ser um marco de originalidade, mas prende a atenção do público até o final e, aplausos para isso, evita o sentimentalismo e o sadismo que caracterizam muitas obras de temática semelhante.
Sem a poesia trágica de “O segredo
de Brokeback Mountain” ou a leveza solar de “De repente, Califórnia” – dois
extremos opostos de filmes que se arriscam a contar histórias de amor gay – a
obra de Lacant prefere manter um meio-tom, sem exagerar nas doses de drama e
sem apelar para o conto de fadas. Com os dois pés no realismo, o cineasta trata
seus personagens menos como vítimas de seu destino e mais como senhores de suas
vidas – mesmo quando as circunstâncias parecem ter mais força do que suas
vontades. Falíveis como quaisquer seres humanos, os protagonistas de “Queda
livre” soam reais justamente por cometerem mais erros do que acertos e por
parecem tão perdidos quanto qualquer um na plateia, independente da orientação
sexual. O grande acerto do roteiro de Lacant e Karsten Dahlem é situar sua
trama em um núcleo específico mas jamais limitar-se a ele: a história de amor
entre Marc Bergmann e Kay Engel é homossexual, mas poderia facilmente acontecer
entre pessoas de sexos diferentes.
Quando o filme tem início, o jovem
policial Marc Bergmann (Hanno Koffler) está em vias de ter sua vida
transformada, já que acaba de mudar-se novamente para a casa dos pais para
esperar o primeiro filho, fruto de seu casamento estável e harmonioso com Inge
(Maren Kroymann). A paz de sua existência e as certezas de uma vida já
aparentemente definida sofrem um abalo quando ele conhece Kay Engel (Max
Riemelt), colega de profissão que o ajuda a melhorar seu preparo físico nas
corridas. Os encontros entre eles – hesitantes mas constantes – sofrem uma
reviravolta quando Engel começa a dar em cima do amigo, que a princípio rejeita
furiosamente as investidas. Com o tempo, porém, Bergmann baixa a guarda e eles
iniciam um romance apaixonado (e obviamente secreto). Engel sonha em começar
uma vida a dois com Bergmann, mas este sequer cogita a hipótese de abandonar a
mulher e o filho (a esta altura já nascido). Quando a corporação descobre a
condição de Engel e o preconceito começa a ditar ordens, a situação fica insustentável,
e o calado Bergmann se vê obrigado a decidir entre a paz doméstica e o amor – o
que pode lhe prejudicar também profissionalmente.
Bem mais ousado do que seus
congêneres hollywoodianos – as cenas de sexo são até discretas, mas os atores
não tem pudor em ficarem nus diante das câmeras – “Queda livre” tem a seu favor
uma direção segura e um roteiro com foco bem definido, com poucos personagens
secundários. Concentrando sua energia basicamente em seus dois protagonistas,
Lacant torna seu relacionamento um misto de claustrofobia e paraíso artificial
– fato sublinhado pelas cenas que mostram um lado bem menos rígido de Bergmann
quando acompanhado pelo liberal e decidido Engel. Interpretado pelo carismático
Max Riemelt – que depois se tornaria internacionalmente conhecido pela série de
TV “Sense 8” – Kay Engel é o catalisador de mudanças irremediáveis na vida de
Bergmann, e o ator dá conta do recado sem dificuldades: é difícil não torcer
por ele mesmo quando se sabe que sua felicidade está atrelada ao sacrifício de
uma família aparentemente bem-estruturada. Aliás, um dos méritos do roteiro é
exatamente não delinear mocinhos e bandidos, já que todos estão buscando a
mesma coisa: a felicidade.
Mesmo que não ofereça grandes
novidades em sua narrativa, “Queda livre” tem o mérito de contar sua história
sem agredir a inteligência e os sentimentos do espectador. A fluidez do
roteiro, o bom gosto das cenas de sexo e o compromisso com a realidade – sem
que para isso seja preciso excesso de nenhum tipo – são suas grandes
qualidades. Levado em tom menor, é um filme que fala baixo ao ouvido do
espectador em uma época em que tem-se a impressão de que é imprescindível
gritar para melhor ser escutado. Um presente para quem gosta de filmes sobre pessoas
e não sobre efeitos especiais.
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