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sábado

GAROTOS DE PROGRAMA

GAROTOS DE PROGRAMA (My own private Idaho, 1991, New Line Cinema, 104min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Gus Van Sant, inspirado livremente em "Henry IV", de William Shakespeare. Fotografia: John Campbell, Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Bill Stafford. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Melissa Stewart. Produção: Laurie Parker. Elenco: River Phoenix, Keanu Reeves, James Russo, William Richert, Chiara Caselli, Flea, Udo Kier, Grace Zabriskie. Estreia: 12/9/91 (Festival de Toronto)

Quando "Garotos de programa" estreou, no Festival de Toronto de 1991, o diretor Gus Van Sant já era um queridinho do mundo do cinema independente, graças ao sucesso de seu filme de estreia, "Drugstore cowboy", que contava as aventuras de um grupo de jovens viciados em drogas que repunham seu estoque assaltando farmácias. Seu filme seguinte, que misturava três projetos que estavam em seu colo sem conseguir levantar voo, conquistou ainda mais a crítica especializada, levando prêmios por festivais mundo afora (Veneza, Toronto, Deauville) e dando a River Phoenix, um de seus protagonistas, o status de grande ator com que ele acenava desde os tempos de "Conta comigo" (86): na pele do prostituto juvenil e narcoléptico Mike Waters, ele foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e levou o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, além do Independent Spirit Award do ano. Não é pouca coisa para quem tinha apenas 20 anos de idade durante as filmagens - e que infelizmente morreu tragicamente aos 23 anos, vítima de overdose.

Não é exagero afirmar que o trabalho de Phoenix - discreto, lúdico e comovente - é a maior qualidade de "Garotos de programa", e o que justifica todo o oba-oba em relação ao filme de Van Sant, um retrato mezzo poetico mezzo pé no chão do dia-a-dia de jovens que vendem o corpo para sobreviver nas ruas de Portland, Oregon. Centrando sua trama em dois personagens com passados bastante distintos mas com realidades muito semelhantes, o roteiro do diretor (livremente inspirado em "Henry IV", de Shakespeare) passeia por cenários diversos (Portland, Idaho e até Roma) para contar a história de busca e tentativa de redenção do jovem Mike (papel de Phoenix, que, inspirado, chegou a reescrever uma cena crucial do filme, com o apoio do diretor), rapaz abandonado pela família, narcoléptico (tem crises irrefreáveis de sono em momentos de stress), gay e apaixonado pelo melhor amigo, que acredita que o reencontro com a mãe mudará seu destino. Ele conta com o apoio de Scott Favor (Keanu Reeves), filho de família influente que tornou-se michê como forma de afrontar ao pai - afronta esta que tem data limite para expirar - e insiste em declarar-se heterossexual. Os dois partem em uma odisseia passional, sem lenço nem documento, contando apenas com sua juventude e seus corpos como forma de ganhar dinheiro.


A trama de "Garotos de programa" beira o melodrama barato, com filhos abandonados pela mãe, amores impossíveis, juventude radical contra os convencionalismos arcaicos, mas Van Sant tem o mérito de mesclar com todos esses elementos clássicos uma forma de narrativa criativa e por vezes desconcertante. Em seu universo, capas de revistas direcionadas ao público gay conversam entre si nas bancas onde estão expostas, bêbados de rua declamam Shakespeare e as cenas de sexo são estilizadas a ponto de parecer slides ou fotografias - tanto o ménage-à-trois entre os dois amigos e um milionário alemão vivido pelo sempre bizarro Udo Kier quanto a cena pretensamente tórrida entre Keanu Reeves e uma jovem italiana por quem ele se apaixona, para desespero de Mike, são propositalmente chocantes não pelo que mostram (pouco) mas pela maneira como isso acontece. Essa criatividade de Van Sant é enfatizada constantemente pelos ângulos inusitados de câmera, pelas elipses narrativas que dão ao espectador a mesma sensação de angústia de Mike e pela edição pouco convencional, que borra as fronteiras entre o cinemão comercial americano e o mais puro cinema independente - que pouco depois seria desvirtuado em função de objetivos comerciais até pelo próprio diretor (que se venderia à indústria com filmes com "Gênio indomável" (87)). Essa importância, a de dar voz a um cinema realmente desvinculado dos grandes estúdios americanos, ninguém pode tirar do filme, por mais que ele possa desagradar parte da plateia.

Sem fixar-se em assuntos polêmicos, como a prostituição masculina em si - tornada cômica em determinadas sequências, diretas em outra, mas nunca mostrada como uma condição degradante ou vitimizadora, o que por si só já é um mérito inegável - "Garotos de programa" trata seus personagens com carinho, ainda que por vezes lhes dê uma considerável carga de dramas pessoais para carregar em suas costas frágeis. A interpretação singela de River Phoenix, especialmente, imprime ao filme uma ternura e uma delicadeza que tiram o peso que o tema poderia lhe infligir, carregando-o de poesia e tristeza. O filme de Van Sant pode não ser uma unanimidade por várias razões, mas seu tom melancólico mesmo nos momentos mais leves - somado à atuação de Phoenix e sua coragem em romper com alguns padrões narrativos clássicos - merece ser louvado e respeitado.

domingo

TE AMAREI ATÉ TE MATAR

TE AMAREI ATÉ TE MATAR (I love you to death, TriStar Pictures, 97min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: John Kostmayer. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Anne V. Coates. Música: James Horner. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Grillo, Charles Okun. Produção: Jeffrey Lurie, Ron Moller. Elenco: Kevin Kline, Tracey Ullman, Joan Plowright, River Phoenix, William Hurt, Keanu Reeves, Phoebe Cates, Heather Graham. Estreia: 06/4/90

Joey Boca é um italiano simpático, bem-humorado e extrovertido. Dono de uma pizzaria do Brooklyn que leva seu nome - e tem na parede reproduções de Cristo, do presidente e de Frank Sinatra - e pai de família aparentemente respeitável, ele tem, no entanto, um defeito irrecuperável: não pode ver um rabo-de-saia sem que seus hormônios latinos não entrem em ebulição. Suas constantes escapadas sexuais são de conhecimento de toda a vizinhança, mas de certa forma ignorados por sua cara-metade, a paciente Rosalee - que tampouco percebe a paixão que desperta em Devo, jovem funcionário da pizzaria com idade para ser seu filho. Levemente machista, quase cafajeste e acintosamente sedutor, Joey Bocca é o protagonista de "Te amarei até te matar", uma comédia de humor negro dirigida pelo mesmo Lawrence Kasdan dos seríssimos "Corpos ardentes" (81), "O reencontro" (83) e "O turista acidental" (88). Mas se o nome de Kasdan não deixa de ser uma surpresa por trás de um filme tão atípico em sua cinematografia, é o nome do protagonista que surpreende ainda mais: na pele de um personagem tão explicitamente cômico que beira o histriônico está Kevin Kline, o mesmo homem que interpretou o torturado amante judeu de Meryl Streep em "A escolha de Sofia" (82) e o jornalista sul-africano que fugiu de seu país de origem para denunciar as atrocidades do apartheid de "Um grito de liberdade" (87). Ou seja, nada mais distante da imagem que se esperaria de um ator que vive tão intensamente alguém chamado Joey Bocca.

Tudo bem que o público de cinema já sabia dos dotes cômicos de Kline, que ganhou seu Oscar de coadjuvante na pele do atrapalhado, ciumento e levemente demente Otto no sucesso "Um peixe chamado Wanda" (88). Mas, sabendo-se que o ator tem uma formação clássica, shakespereana e dramática, não deixa de ser refrescante perceber o quão versátil ele pode ser. E é graças a seu talento imenso e seu carisma que Bocca não se transforma, no decorrer do filme de Kasdan - com quem ele já havia trabalhando em "O reencontro" e no western "Silverado" (84) - em um personagem antipático ou uma aberração criada unicamente com fins burlescos. Mesmo inspirado em um caso real ocorrido na Pensilvânia em 1984, o roteiro de John Kostmayer (de estrutura levemente teatral, em especial em seu terceiro ato) está a um passo do exagero e do inverossímil, com seus acontecimentos constantemente desafiando o público a embarcar em uma história tão inacreditável quanto deliciosamente insana. E se consegue o grande feito de fazer rir com seu alto grau de nonsense, o mérito deve ser dividido entre Kline (fantástico em cada cena), Kasdan (demonstrando um domínio até então desconhecido do timing da comédia) e o elenco coadjuvante, que consegue misturar sem efeitos colaterais a veterana dos palcos Joan Plowright (que ficou viúva de Laurence Olivier durante as filmagens), a estrela da TV Tracey Ullman, o colaborador habitual do diretor, William Hurt (também surpreendendo em papel menos sério do que o habitual) e dois jovens atores então em início de carreira, River Phoenix e Keanu Reeves.


A trama de "Te amarei até te matar" é, conforme afirmado antes, um primor de nonsense. Tudo começa de verdade quando Rosalee (Ullman) descobre uma traição do marido Joey Bocca e, como boa católica, prefere assassiná-lo a ter que encarar um divórcio. Contando com a ajuda de sua mãe, Nadja (Joan Plowright, sempre prestes a roubar a cena), que despreza o genro, e o jovem Devo (Phoenix), que mantém por ela um paixão assumida, ela resolve dar cabo do pizzaiolo. Depois de uma primeira tentativa frustrada pela ojeriza do rapaz a qualquer tipo de violência e do fracasso em matar Bocca com uma overdose de comprimidos para dormir, eles contratam uma dupla de drogados, Harlan (Hurt) e Marlon (Reeves) para resolver o problema: a questão passa a ser, então, a inacreditável resistência da vítima, que sobrevive a todos os atentados contra a sua vida, para surpresa (e pânico) dos pretensos criminosos.

Engraçadíssimo como poucos filmes americanos da década de 80 conseguiram ser sem apelar para o besteirol desvairado dos irmãos Zucker e de Jim Abrahams, "Te amarei até te matar" ainda tem a vantagem de arrancar gargalhadas tanto por seu humor visual e o absurdo de sua trama quanto por seus diálogos, banhados em ironia e sarcasmo. Equilibrando o tom na tênue linha entre o caricato e o divertido de Kevin Kline, o texto de Kostmayer brinda o espectador com momentos de grande inteligência verbal (o encontro da polícia com o "corpo" de Bocca em sua cama, por exemplo, é sensacional) e com sequências do mais puro vaudeville (como a conversa entre Harlan e Marlon diante de uma provável vítima anestesiada de pílulas para dormir e prestes a ser morto). É um filme rápido, conciso e extremamente eficiente que comprova Kasdan como um dos grandes cineastas pouco reconhecidos do cinema americano.

quarta-feira

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA (Parenthood, 1989, Universal Pictures, 124min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Ron Howard, Babaloo Mandel, Lowell Ganz. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: Randy Newman. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Todd Hallowell/Nina Ramsey. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Jason Robards, Mary Steenburgen, Dianne Wiest, Tom Hulce, Rick Moranis, Harley Kozak, Martha Plimpton, Keanu Reeves, Joaquin Phoenix. Estreia: 31/7/89

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Canção Original ("I love to see you smile")

Uma doce e terna homenagem às benesses da paternidade - título-original massacrado pelo absurdamente idiota e sem sentido "O tiro que não saiu pela culatra" - a comédia de Ron Howard que acompanha as aventuras e desventuras de uma família tipicamente americana (mas que poderia tranquilamente ser brasileira, italiana, francesa ou japonesa, com suas diferenças culturais à parte, obviamente) nasceu da conclusão de Howard (juntamente com o produtor Brian Grazer e os roteiristas Babaloo Mandel e Lowell Ganz) de que o fato mais importante que lhes aconteceu na vida foi terem sido pais. Relembrando situações embaraçosas, tristes ou engraçadas pelas quais passaram, eles conceberam a história de um clã tão disfuncional quanto caloroso, repleto de problemas mas igualmente cercado de carinho e compreensão, os Buckman. Representados por um elenco excepcional que tem em mãos um roteiro recheado de diálogos deliciosos e poeticamente realista, os Buckman são um retrato bastante fiel da plateia, que deixou nas bilheterias americanas cerca de 100 milhões de dólares e colocou Ron Howard no mapa dos diretores altamente comerciais de Hollywood - status que havia conquistado com "Splash, uma sereia em minha vida" (84) e perdido momentaneamente com o relativo fracasso de "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que naufragou nas bilheterias.

Contado em forma de anedotas cotidianas interligadas por uma história tênue e de uma simplicidade extremamente eficiente, "O tiro que não saiu pela culatra" concentra-se principalmente em Gil Buckman (Steve Martin, explorando todo o seu timing cômico em papel recusado por Dan Ayckroyd, Michael Keaton, Jeff Golblum e Tom Hanks), o segundo filho do patriarca Frank (Jason Robards), um homem que passou a vida dedicado ao trabalho e deixou a família de lado. Gil é casado com a doce Karen (Mary Steenburgen), luta para ser reconhecido profissionalmente e lida diariamente com seus três filhos - sendo que o mais velho, Kevin (Jasen Fisher), para surpresa dos pais, é considerado um garoto-problema na escola e precisa frequentar uma psicóloga. Sua irmã mais velha, Helen (Dianne Wiest), é separada de um ex-marido ausente e luta para ter uma relação afável com os filhos adolescentes, a rebelde Julie (Martha Plimpton) - que namora o desnorteado Todd (Keanu Reeves) - e o misterioso Garry (Joaquin Phoneix, ainda com seu nome real, Leaf, posto por seus pais hippies). A terceira irmã, Susan (Harley Kozak), é casada com o neurótico Nathan (o ótimo Rick Moranis), que quer transformar a filhinha de seis anos em um Einstein de saias e o irmão caçula, Larry (Tom Hulce) - de certa forma o preferido de Frank - pega toda a família de surpresa quando retorna de uma viagem acompanhado de um adendo inesperado: um filho pequeno que teve com uma dançarina de Las Vegas.


Com essa galeria de tipos idiossincráticos mas bastante próximos da realidade do espectador - tanto em termos emocionais quanto familiares -  Ron Howard cria uma pequena pérola do cinema mainstream, equilibrando com sensibilidade momentos de humor (como a hilariante cena em que Gil descobre, sem querer, o que consola sua irmã Helen em suas noites solitárias) com sequências banhadas em uma delicadeza quase europeia (sempre que Gil tem a chance de questionar as escolhas de sua vida e dá de cara com a estrutura familiar que construiu com Karen e os filhos). A trilha sonora de Randy Newman pontua com precisão as escolhas sutis de Howard, comentando a ação de forma discreta - sua canção-tema, "I love to see you smile", chegou a ser indicada ao Oscar da categoria. E o elenco é um show à parte, equilibrando atores já consagrados com os nomes mais quentes do humor cinematográfico americano da época - não deixa de ser injusto que apenas Dianne Wiest tenha sido lembrada pela Academia por seu desempenho como a solitária Helen (um papel no qual ela é especialista, haja visto pelo menos dois trabalhos sob o comando de Woody Allen, "A era do rádio" (87) e "Hannah e suas irmãs" (86), que lhe rendeu uma estatueta.

Se Steve Martin de certa forma comanda o espetáculo com seu Gil Buckman, ele encontra ao seu lado um grupo de atores em plena forma. Jason Robards transmite com exatidão as dúvidas de seu Frank, que descobre na velhice o quanto perdeu da juventude dos filhos e tenta remendar os erros passando a mão na cabeça do caçula irresponsável. Mary Steenburgen vive com placidez uma personagem sempre no meio do redemoinho mas sempre com a cabeça pronta para diminuir as tempestades. Dianne Wiest brilha como Helen, especialmente em seus duelos com a filha Julie (a ótima e eterna "goonie" Martha Plimpton). E Rick Moranis - popularíssimo nos EUA nos anos 80 e depois praticamente esquecido pelo público e pela indústria - quase rouba a cena como o alucinado pai com grandes expectativas intelectuais em relação ao rebento. Juntos, essa família de ótimos atores transforma o texto quase simples de "O tiro que não saiu pela culatra" (que alguns críticos consideraram pasteurizado e digno de sitcoms e não de um filme de um grande estúdio) em um trunfo do cinema familiar. É simples, é quase ingênuo e é também, reconheçamos, quase esquecível. Mas é, ao mesmo tempo, uma delícia como um grande pedaço de bolo de chocolate.

sábado

CONSTANTINE

CONSTANTINE (Constantine, 2005, Warner Bros, 121min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Kevin Brodbin, Frank A. Cappello, estória de Kevin Brodbin, HQ de Jamie Delano, Garth Ennis. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Klaus Badelt, Brian Tyler. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Douglas A. Mowat. Produção executiva: Gilbert Adler, Michael Aguilar. Produção: Lorenzo Di Bonaventura, Akiva Goldsman, Benjamin Melniker, Lauren Shuler Donner, Erwin Stoff, Michael E. Uslan. Elenco: Keanu Reeves, Rachel Weisz, Tilda Swinton, Dijmon Houson, Gavin Rossdale, Shia LeBeouf, Pruitt Taylor Vince, Peter Stormare. Estreia: 16/02/05

Depois do acachapante sucesso de "X-Men" e "Homem-aranha" qualquer herói de HQ que se preze começou a sonhar em virar protagonista de um filme bem-sucedido. Até mesmo personagens mais cultuados que populares entraram na fila e o resultado é "Constantine", adaptação de um comic book inglês que já chegou às telas debaixo de uma saraivada de críticas dos fãs, que foram principalmente contra a escalação do americano e moreno Keanu Reeves para encarnar a personagem principal, que na versão em papel é britânico e louro. No entanto, como boa parte do público nem sabia que existia a personagem antes que o filme estreasse, a obra de Francis Lawrence não ligou para esses detalhes e acabou se tornando apenas mais um produto de entretenimento bem embalado por efeitos visuais e um orçamento generoso que serve como um eficiente passatempo.

E é como um passatempo que “Constantine” deve ser encarado. Keanu Reeves continua o mesmo apático de sempre na pele do protagonista John Constantine, que segundo o roteiro, tem o dom de se comunicar com seres de outro mundo – no caso, anjos, demônios e afins. Sabendo que está com os dias contados devido a um câncer de pulmão, ele é procurado pela policial Ângela Doodson (Rachel Weisz, menos canastra do que o normal), cuja irmã gêmea acaba de cometer suicídio. Ela pede sua ajuda para provar que algo mais complexo do que o corriqueiro empurrou sua irmã para a morte e os dois acabam se envolvendo em uma trama que envolve a tentativa do filho do próprio demônio de subir à Terra.
        



Apesar de algumas ideias bastante interessantes – como a escalação de Tilda Swinton como o anjo Gabriel – e um visual sujo o bastante para transmitir a sensação de desesperança dos protagonistas, o filme de Lawrence carece principalmente de empatia. Da forma que é interpretado por Keanu Reeves, o herói John Constantine nunca chega a convencer plenamente, seja como detetiva seja com ser humano, mostrando mais uma vez as flagrantes falhas de Reeves como ator. É de se pensar se com outro ator mais talentoso em seu lugar o resultado não teria sido bem mais forte e marcante. Até mesmo o senso de humor negro que o roteiro tenta apresentar sofre com a apatia de seu protagonista.


“Constantine” funciona – e bem – como entretenimento. É bem realizado, tem uma história suficientemente interessante e uma fotografia caprichada – cortesia do veterano oscarizado Phillippe Rousselot. Mas perde a oportunidade tanto de ser um filme inesquecível quanto de começar uma franquia de grandes possibilidades financeiras. Talvez os fãs dos quadrinhos realmente tenham razão quanto à ira despertada pela escalação de Keanu Reeves.

quinta-feira

ALGUÉM TEM QUE CEDER


ALGUÉM TEM QUE CEDER (Something's gotta give, 2003, Columbia Pictures/Warner Bros, 128min) Direção e roteiro: Nancy Meyers. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Joe Hutsching. Música: Hans Zimmer. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth Rubino. Produção: Bruce A. Block. Elenco: Diane Keaton, Jack Nicholson, Keanu Reeves, Amanda Peet, Frances McDormand, Jon Favreau, Paul Michael Glaser, Rachel Ticotin. Estreia: 12/12/03

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Keaton)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Diane Keaton)

Em 2000, a diretora/roteirista Nancy Meyers agradou o público - em especial o feminino - com a comédia "Do que as mulheres gostam", na qual fez o machão Mel Gibson adentrar o pensamento da mulher do século XXI depois de um choque elétrico (??). Três anos depois ela voltava às telas com uma comédia bastante superior e mais madura, novamente encarando um tema pouco explorado pelo cinemão americano: o amor depois dos 50 anos. Em uma época em que apenas as plateias adolescentes parecem ser levadas em conta na hora em que novos projetos são aprovados, "Alguém tem que ceder" provou - à Fox, por exemplo, que não se interessou pelo filme justamente pela idade de seus protagonistas - que inteligência e bom-gosto sempre tem seus fãs: mais de 120 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias e uma surpreendente - mas justa - indicação de sua estrela, Diane Keaton, ao Oscar de melhor atriz.

O protagonista masculino da estória é o empresário musical Harry Sanborn (Jack Nicholson), que tem um fraco por mulheres mais jovens: sua faixa etária preferida é cerca de metade de sua idade. Sua nova conquista é a bela Marin (Amanda Peet), filha da bem-sucedida dramaturga Erica Barry (Diane Keaton). Durante um final de semana na belíssima propriedade da família, em Hamptons, Harry tem um enfarte e se vê obrigado a conviver com a “sogra”, com quem não tem um relacionamento dos mais agradáveis e gentis. Erica, no processo de começar um novo trabalho também não fica muito feliz com a possibilidade de ter que ser enfermeira do arrogante e auto-suficiente namorado da filha única, mas vê a situação ficar mais agradável quando conhece o jovem médico do empresário (Keanu Reeves), que cai de amores por ela. Toda a estranha situação fica ainda mais complicada quando Harry, que até então nem pensava em olhar para uma mulher com mais de 30 anos descobre-se interessado em Erica.

        

Escrito com um frescor e uma inteligência ímpares, o roteiro de “Alguém tem que ceder” brinca com a idade dos personagens de maneira engraçada sem ser boba, irônica sem ser complacente e principalmente, romântica sem ser piegas. Os diálogos entre Keaton e Nicholson (ainda sendo o mesmo Jack Nicholson de sempre, mas menos irritante) estão entre os mais sensíveis e cômicos de sua época, e recitados por dois dos melhores atores que se poderia encontrar. Keaton principalmente. A complexa mudança de sua personagem, que redescobre o amor depois de muito tempo enterrado em uma vitoriosa carreira não poderia ser entregue a qualquer atriz. Mas Diane já fez vários filmes com seu ex-marido Woody Allen e sabe como ninguém mergulhar em neuroses inteligentes e bem-humoradas. Não é de se julgar Meyers, que já escreveu o roteiro com seu par de atores em mente e recusou quaisquer outras possibilidades de elenco - e felizmente Nicholsou preferiu estar aqui do que em "Papai Noel às avessas", que deu a Billy Bob Thornton um de seus melhores papéis.
    
 “Alguém tem que ceder” é uma das melhores comédias românticas da década. Sabe ser engraçada, romântica, sensível e arrancar gargalhadas e lágrimas. Mesmo que se arraste um bocado em seu terço final, alongando-se demais, jamais chega a ser cansativa ou aborrecida - principalmente por contar também com a excelente Frances McDormand como a irmã de Erica, dona de momentos impagáveis. E se não fosse só isso, ainda é um prazer dos maiores ver a casa de praia da personagem principal. Mais do que apenas cenário, é uma festa para os olhos, fotografada com precisão pela lente do veterano Michael Balhaus.

quarta-feira

O DOM DA PREMONIÇÃO

O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00

Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas

À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.



Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.

segunda-feira

MATRIX

MATRIX (The Matrix, 1999, Warner Bros, 136min) Direção e roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Zach Staenberg. Música: Don Davis. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Lisa Brennan, Tim Ferrier, Marta McElroy. Produção executiva: Bruce Berman, Andrew Mason, Barrie M. Osborne, Erwin Stoff, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Produção: Joel Silver. Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Gloria Foster, Marcus Chong, Julian Arahanga. Estreia: 31/3/99

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Quando “Matrix” estreou, em março de 1999 nada se sabia sobre seus diretores (os misteriosos Irmãos Wachowski) nem tampouco havia muita clareza sobre o assunto do filme em si. Depois de sua estreia – e de uma renda de mais de 170 milhões só nos cinemas americanos – a obra estrelada por Keanu Reeves virou mania, marco inicial de uma trilogia e uma das ficções científicas mais bem-sucedidas da história do cinema. Isso sem mencionar o status de cult que adquiriu, ao misturar em seu roteiro extraordinárias cenas de ação com efeitos visuais de cair o queixo (merecidamente premiados com o Oscar da categoria) e uma história com toques de filosofia, destino e críticas não muito veladas à sociedade de sua época e ao conformismo em geral.

Keanu Reeves, no papel da sua vida, vive Neo, um trabalhador burocrático durante o dia e um hacker talentosíssimo à noite, que é procurado por um misterioso grupo liderado pelo sinistro Morpheus (Laurence Fishburne, excelente) para assumir seu lugar como o líder escolhido para lutar contra a Matrix, que mantém o povo como escravo, vivendo das aparências de um passado menos opressor e depressivo. Para isso, Neo precisa lutar contra um exército comandado pelo temível Agente Smith (Hugo Weaving) e conta com a ajuda da bela Trinity (Carrie-Anne Moss), por quem se apaixona.


A trama de “Matrix” é complicada, mesmo, especialmente contada sem as imagens espetaculares criadas pelos cineastas, que contam com a ajuda da fotografia estilosa de Bill Pope, o figurino de Kym Barrett (que virou moda) e os efeitos visuais,  surpreendentes e copiados à exaustão após seu sucesso. No entanto, depois que o filme acaba, deixando o público salivando por mais produtos com sua qualidade e inteligência, o que fica na cabeça da plateia não são as ruidosas cenas de destruição nem o visual que enche os olhos. O que diferencia “Matrix” das dezenas de congêneres é a profundidade que seus criadores foram capazes de inserir em meio aos tiroteios e às piruetas que abundam em suas duas horas de duração.

Muito se discutiu à sua época a trama bem construída pelos irmãos roteiristas - que incluía uma complexa teoria de que o mundo em que vivemos é apenas uma ilusão criada por um governo ditatorial e violento. Ao contrário do que dizia José Wilker - que como crítico de cinema é um ator apenas razoável - o filme não conta a história de um homem que aprende a lutar karatê rapidamente. É um filme de inteligência rara e de qualidade técnica invejável, que deu ao normalmente fraco Keanu Reeves a chance (mais uma) de tornar-se um ícone do cinema de ação. Ao lado de Laurence Fishburne e Carrie-Anne Moss, Reeves estampou as principais publicações do gênero e voltou a ser (cinco anos após "Velocidade máxima") uma aposta quente para os executivos dos estúdios hollywoodianos. Como ator não é dos melhores, mas funciona muito bem em filmes como "Matrix".

"Matrix" originou ainda mais dois filmes que deram continuidade à sua história e que, apesar do sucesso de bilheteria não atingiram a qualidade e originalidade de seu primeiro capítulo. Mais uma vez a vontade de ganhar dinheiro foi mais forte do que a de manter a integridade artística. Uma pena.

ADVOGADO DO DIABO

ADVOGADO DO DIABO (Devil's advocate, 1997, Warner Bros/Regency Enterprises, 144min) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Jonathan Lemkin, Tony Gilroy, romance de Andrew Neiderman. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Mark Warner. Música: James Newton Howard. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Roberta Holinko. Produção executiva: Barry Bernardi, Taylor Hackford, Erwin Stoff, Michael Tadross, Steve White. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Arnon Milchan. Elenco: Al Pacino, Keanu Reeves, Charlize Theron, Judith Ivey, Jeffrey Jones, Delroy Lindo, Connie Nielsen, Craig T. Nelson, Heather Matarazzo. Estreia: 17/10/97

Representantes de uma das classes mais respeitadas e paradoxalmente mais detestadas dos EUA, os advogados são personagens recorrentes no cinema, normalmente como exemplos de idealismo (ao menos quando retratados pelo escritor John Grisham, ele próprio formado em Direito). O lado escuso dos representantes da lei (normalmente relegados aos vilões) é o ponto de partida de "Advogado do diabo", um aterrador suspense baseado em um livro de Andrew Neiderman. No filme, dirigido por Taylor Hackford, não há heróis de caráter impoluto e sentimentos nobres. O bem é representado por um jovem advogado ambicioso vivido por Keanu Reeves e o mal... bem, o mal é representado por Satanás em pessoa, na pele de um poderoso e implacável Al Pacino.

Em desenvolvimento desde 1994, quando seria dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Brad Pitt, "Advogado do diabo" encontrou em Taylor Hackford o diretor ideal. Discreto e elegante, ele orquestrou uma sinfonia de horrores com a delicadeza de um ourives, ainda que suas cenas (e principalmente o que acontece em consequência delas) tenham um efeito devastador sobre suas personagens. Ao fugir do óbvio (leia-se efeitos visuais exagerados e maquiagem nauseante), Hackford ganha em credibilidade e principalmente seriedade. Nadando contra a maré - que assustava a audiência sem o menor traço de sutileza - ele prefere tirar o sono do espectador colocando em sua mente questões muito mais intensas. Em um tempo onde a fama, o poder e o dinheiro são as pedras fundamentais da sociedade, até onde se pode ir em busca de atingir a tão sonhada "felicidade"? E essa busca desenfreada pelo sucesso justifica a perda daquilo que faz de todos nós seres humanos, ou seja, a alma??


O jovem Kevin Lomax (Keanu Reeves) é um ambicioso advogado que vive em uma pequena cidade do interior dos EUA. Seu talento em ganhar até mesmo os casos considerados perdidos chama a atenção de uma poderosa firma de advocacia de Nova York, comandada pelo misterioso John Milton (Al Pacino). Seduzido por todo um mundo novo de sofisticação, dinheiro, poder e luxo, ele junta-se ao conglomerado de Milton, com braços por todo o planeta. Enquanto se dedica cada vez mais a casos bastante polêmicos e complicados - incluindo um homícido cujo cliente é claramente culpado - Kevin passa a negligenciar seu relacionamento com a bela esposa, Mary Ann (Charlize Theron), que, obcecada em dar um filho ao marido, mergulha gradativamente em um grave desequilíbrio psicológico.

A quase literal descida de Kevin ao inferno - fazendo de sua esposa a maior vítima de sua ambição desmedida - é narrada com elegância por Taylor Hackford, que opta por construir uma tensão quase palpável em detrimento de um festival de violência. A forma com que ele empurra seu protagonista em direção ao lado mais negro de sua alma é sutil, marcada por sustos esparsos mas consistentes (nada de gatos pulando do vazio, por exemplo) e um visual deslumbrante. A fotografia de Andrzej Bartkowiak foge do lugar-comum ao mostrar uma Nova York luminosa e nunca sombria e opressiva como se espera em um filme do gênero. Nem mesmo a música de James Newton Howard é explicitamente agressiva, sendo percebida em toda sua opulência somente no clímax, quando as origens de Kevin finalmente são explicadas e o filme apresenta uma reviravolta de telenovela que quase enfraquece seu resultado final.

O pacto mefistofélico entre Kevin e John Milton - batizado em homenagem ao autor de Paraíso Perdido - é tratado de maneira adulta pelo roteiro, que não se furta a criticar nem a falta de ética dos advogados nem a imprensa marrom. Felizmente é tudo muito sutil, realizado com bom-gosto e principalmente com o cuidado de não ofender a inteligência da plateia. Até mesmo quando recorre ao grotesco Hackford o faz de forma a não parecer a seus congêneres menos bem-sucedidos. Tudo em "Advogado do diabo" é visualmente apurado e isso faz toda a diferença (é de encher os olhos, por exemplo, a sequência em que Milton se revela a Kevin, onde uma escultura na parede do escritório se movimenta delicadamente). O único senão do filme, no entanto, é crucial e, se não estraga tudo, ao menos enfraquece o que poderia ser ainda melhor. Seu nome: Keanu Reeves.

É de se imaginar como "Advogado do diabo" poderia ter ficado caso Edward Norton (testado para o papel) ou Brad Pitt (escolha inicial dos produtores) fossem os protagonistas. A interpretação de Reeves é de uma fragilidade que incomoda, em especial quando comparada com as de seus colegas. Se Al Pacino dispensa comentários com uma composição acertada de John Milton (assim batizado em homenagem ao autor de "Paraíso perdido"), é a quase estreante Charlize Theron quem rouba toda a atenção do espectador. Belíssima, ela não se permite confiar apenas no sorriso e no corpo e entrega uma atuação visceral, que explode em uma sensacional cena dentro de uma igreja (onde fica completamente nua mas sem nenhum viés erótico). A delicadeza com que explora o desequilíbrio de sua Mary Ann demonstra que a sul-africana já dava sinais claros de seu grande talento, que seria recompensado em poucos anos com um Oscar pelo filme "Monster, desejo assassino".

"Advogado do diabo" é um filme de suspense feito para adultos e como tal merece ser admirado. Não pretende assustar a plateia com artifícios banais, mas sim com ideias (o que é muito mais apavorante). E é pouco provável que o espectador não se sinta satisfeito quando surgem os créditos finais ao som de "Paint in black", dos Rolling Stones. Um filme de suspense que faz pensar. Raridade!

sexta-feira

VELOCIDADE MÁXIMA

VELOCIDADE MÁXIMA (Speed, 1994, 20th Century Fox, 120min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Graham Yost. Fotografia: Andrezj Bartkowiak. Montagem: John Wright. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Ian Bryce. Produção: Mark Gordon. Elenco: Keanu Reeves, Dennis Hopper, Sandra Bullock, Jeff Daniels, Alan Ruck, Joe Morton. Estreia: 10/6/94

3 indicações ao Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Aqueles que acreditam que, para ser bom, um filme de ação precisa de um orçamento gigantesco e um astro de primeira grandeza devem ter ficado de queixo caído com o desempenho de "Velocidade máxima", lançado pela Fox em 1994. Ao custo de meros 25 milhões de dólares - menos que o salário de Arnold Schwarzenegger, por exemplo - e com um Keanu Reeves pré-Matrix como protagonista, o filme de estreia do diretor de fotografia Jan De Bont como cineasta rendeu pelo menos quatro vezes isso somente no mercado americano e transformou tanto Reeves como Sandra Bullock em ídolos, chegando inclusive a gerar uma tenebrosa continuação - que trocava Keanu por Jason Patric.

Escrito com um invejável senso de ritmo por Graham Yost, "Velocidade máxima" é um filme que funciona justamente por não querer inventar moda. Simples e direto, ele cumpre o que promete em suas duas horas de duração manter a plateia grudada na poltrona do eletrizante início em um elevador em vias de despencar de 40 andares ao climático final no metrô de Los Angeles. Contando ainda com um carismático herói, o policial Jack Traven - papel oferecido a nomes tão díspares quanto Alec Baldwin, Johnny Depp e Tom Hanks antes que Keanu Reeves o assumisse - o filme conquista também por sua despretensão. Apesar de parecer um filme caro (as sequências de ação são caprichadíssimas e em nenhum momento traem seu orçamento apertado), "Velocidade máxima" estreou sem maiores expectativas e talvez por isso mesmo tenha surpreendido tanta gente.



O início de "Velocidade máxima" já dá uma mostra do que vem pela frente quando dois policiais da SWAT, Jack Traven (Keanu Reeves) e Harry Temple (Jeff Daniels) se vêem obrigados a resgatar um grupo de pessoas de um elevador ameaçado de ir pelos ares por um psicopata que exige 3 milhões de dólares em troca de desarmar a bomba. Depois de ser bem-sucedido na missão, Traven é novamente desafiado pelo criminoso - na verdade um ex-policial de nome Howard Payne (Dennis Hopper) - quando fica sabendo que uma bomba está armada em um dos ônibus da cidade de Los Angeles. Uma vez que o ônibus não pode nunca andar a menos de 50 milhas por hora para que a bomba não exploda, ele conta com a ajuda da civil Annie (Sandra Bullock) - que perdeu a licença de motorista justamente por excesso de velocidade - para manter o veículo em movimento e salvar a vida dos passageiros.

A maior qualidade de "Velocidade máxima" é justamente a maneira com que o roteiro de Yost e a direção de Jan De Bont combinam de forma a jamais perder a atenção da audiência. Não há cenas desnecessárias e a edição enxuta de John Wright extrai o melhor de cada sequência, todas elas de perder o fôlego. Tecnicamente impecável - foi oscarizado em duas categorias sonoras - o filme não deixa espaço para questionamentos racionais, utilizando o escapismo com inteligência e parcimônia. O único escorregão talvez seja o romance pouco provável entre os protagonistas quem, em uma situação extrema como a mostrada no filme conseguiria cair de amores por quem quer que seja??

Aliás, é perceptível, já em "Velocidade máxima", o quanto Sandra Bullock é chata. Sua personagem é irritante, esganiçada e cansativa e Bullock - em vias de tornar-se uma espécie de namoradinha da América graças a filmes como "Enquanto você dormia" - não é muito diferente. A historinha de amor entre Annie e Traven é o único elo fraco de um filmaço de ação que nada deixa a dever a seus irmãos mais anabolizados. "Velocidade máxima" é um clássico dos anos 90!

DRÁCULA DE BRAM STOKER

DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker's Dracula, 1992; American Zoetrope/Columbia Pictures, 128min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, romance de Bram Stoker. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Anne Goursaud, Glen Scantlebury, Nicholas C. Smith. Música: Wojciceh Kilar. Figurino: Eiko Ishioka. Direção de arte/cenários: Thomas Sanders/Garrett Lewis. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Michael Apted, Robert O'Connor. Produção: Fred Fuchs, Francis Ford Coppola, Charles Mulvehill. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Tom Waits, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie Frost, Monica Bellucci. Estreia: 13/11/92

4 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/cenários, Maquiagem, Efeitos Sonoros
Vencedor de 3 Oscar: Figurino, Maquiagem, Efeitos Sonoros

Quem tem coragem de dizer que todos os filmes de vampiro são iguais - ou acha que a série "Crepúsculo" tem qualquer qualidade além de ser uma vitrine para a "beleza" de seus astros - provavelmente não assistiu a "Drácula de Bram Stoker", mais uma obra-prima de Francis Ford Coppola. Só mesmo um cineasta de seu porte, que encontrou humanidade nos mafiosos de "O poderoso chefão", que quase foi à falência com o esteticamente ousado "O fundo do coração" e deu uma nova visão à guerra do Vietnã em "Apocalypse now", poderia orquestrar, sem soar repetitivo, essa ambiciosa adaptação quase operística da história do mais famoso vampiro da literatura, escrita pelo irlandês Bram Stoker no século XIII.

O toque de mestre do diretor já dá as caras no prólogo, inédito no livro e que conta as origens do sanguessuga - inspirado em uma personalidade real. O conde Vlad Dracul (o espetacular inglês Gary Oldman) torna-se conhecido como sanguinário devido a sua luta para defender a Igreja católica durante as Cruzadas. Ao retornar para casa, ele descobre que sua amada Elisabeta (Winona Ryder, linda mas quase inexpressiva) havia cometido suicídio, ao acreditar-lhe morto. Revoltado com a Igreja, que se recusa a sepultar suicidas, ele se entrega às trevas. Essas cenas, faladas em romeno e filmadas com criatividade e elegância, dão o tom barroco e épico pretendido pelo cineasta. O que vem pela frente é a mais perfeita tradução do universo gótico e assustador da obra.

Séculos depois da sequência de abertura, o Conde vive isolado em seu castelo na Transilvânia e recebe a visita do agente imobiliário Jonathan Harker (Keanu Reeves, o único elo fraco do filme), que chega disposto a fechar negócio com o idoso e misterioso milionário, depois que seu colega anterior, Reinfield (o cantor Tom Waits em participação especial extremamente eficiente) saiu de cena devido a um grave desequilíbrio mental. As coisas parecem estar indo bem até que o Conde reconhece em uma imagem de Mina, a noiva de Harker, a reencarnação de sua amada. Trancando o jovem em seu castelo, ele embarca para a Inglaterra com a intenção de reconquistar sua felicidade. Em Londres, ele parte em busca de Mina, mesmo que para isso tenha que sacrificar a melhor amiga desta, a desinibida Lucy (Sadie Frost) e enfrentar o conhecido médico Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins), estudioso de ocultismo e caçador de vampiros nas horas vagas.

 A atmosfera lúgubre criada por Coppola e seu diretor de fotografia Michael Ballhaus encanta até o mais renitente dos espectadores. Ao utilizar-se de técnicas rudimentares de cinema para contar sua história - contrariando a nascente tendência de CGI - o cineasta parece querer convidar a plateia a entrar em um universo carregado de simbolismos onde a escuridão revela mais que a claridade, onde o vermelho do sangue grita a cada frame, onde cada transição de cena é meticulosamente cuidada. O visual carregado - justamente como se fosse uma ópera - é impecável: a direção de arte e o figurino (premiado com um justíssimo Oscar) não ficam nunca aquém do fantástico. Mais do que pretender assustar, o que Coppola quer é pegar o espectador pela mão e apresentá-lo a uma história de amor que não deixa o tempo, a religião ou a morte lhe diminuir. Ao contrário de outras versões cinematográficas, onde o protagonista era retratado ora como monstro ora como galã, aqui o Conde Drácula tem uma personalidade bem mais complexa: sim, ele é um monstro sanguinário e impiedoso, mas é também um homem traído pela sua fé e acima de tudo, um amante caloroso e dedicado que atravessa séculos em busca de sua amada.



Na pele do exímio Gary Oldman, Drácula é um herói trágico. Oldman não erra o tom de sua personagem em momento algum, equilibrando magistralmente o sarcasmo, o romance e a violência que lhe são características sem deixar que uma anule a outra. Sob a pesada maquiagem (também premiada com um Oscar), Oldman se transforma em ancião, em lobo e em vampiro sem nunca perder a essência, e aproveita cada cena para demonstrar seu grande talento. Destaque absoluto do elenco, ele precisa, no entanto, contracenar com um apático Keanu Reeves e uma Winona Ryder que, apesar de esforçada, não atinge o potencial dramático de sua personagem, ao contrário de uma desconhecida Sadie Frost que pinta e borda com sua fogosa Lucy, dona de algumas das mais belas cenas do filme. Anthony Hopkins, como Van Helsing, também encontra o tom exato de sua atuação, entre o trágico e o cômico, e até mesmo Tom Waits revela-se um ator eficaz, transmitindo a sensação de perigo que a chegada do Conde anuncia.

Belamente concebido - a trilha sonora forte de Wojciech Kilar ajuda a estabelecer também o clima quase surreal da visão de Coppola - e encenado como uma angustiante peça de teatro - e é genial a inserção do cinematógrafo na cena do primeiro encontro entre Drácula e Mina - "Drácula de Bram Stoker" é a visão definitiva de uma das mais duradouras histórias de amor e perda da literatura mundial. É também mais uma poderosa prova do talento visionário de Francis Ford Coppola, em seu, até agora, último trabalho digno de figurar no rol de suas obras-primas.

sábado

LIGAÇÕES PERIGOSAS


LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários


"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.

Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.



Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.

Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.

"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.

Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.

Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.

"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...