Mostrando postagens com marcador LUCHINO VISCONTI. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LUCHINO VISCONTI. Mostrar todas as postagens

sexta-feira

O LEOPARDO



O LEOPARDO (Il gattopardo, 1963, Titanus, 187min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Suso Cecchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli, Massimo Franciosa, Luchino Visconti, romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte/cenários: Mario Garbuglia/Laudomia Herculani, Giorgio Pes. Produção executiva: Pietro Notarianni. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Paolo Stoppa, Giuliano Gemma. Estreia: 27/3/63


Indicado ao Oscar de Figurino
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 

O filme preferido do cineasta Martin Scorsese é, hoje, um dos clássicos mais cultuados do cinema, graças principalmente a seu cuidado com o visual - uma das características mais marcantes de seu diretor Luchino Visconti - e à atenção dada à fidelidade da adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, uma crônica tão ácida quanto poética da decadência da aristocracia italiana no século XIX através da figura de seu protagonista, o Príncipe Fabrizio di Salina, em uma aplaudida interpretação do americano Burt Lancaster. Fotografado brilhantemente por Giuseppe Rottuno e com uma minuciosa reconstituição de época que rendeu a Piero Tosi uma indicação ao Oscar de figurino, "O Leopardo" é, sem dúvida, um filme que encanta os olhos do espectador. Mas, é preciso que se diga, é necessária uma paciência maior do que a normal para encarar a narrativa construída por Visconti e poder se deliciar com suas belas imagens: em mais de três horas de duração, os acontecimentos se sucedem de forma lenta e contemplativa, sob o olhar ora atônito ora compreensivo de seu protagonista. Definitivamente é um filme que nem de longe irá agradar ao público médio acostumado com o ritmo do cinema hollywoodiano.

E nem mesmo Hollywood conseguiu digerir apropriadamente o filme de Visconti - ele mesmo um aristocrata com simpatias claras e explícitas com o comunismo. Distribuído pela Fox no mercado de língua inglesa, "O Leopardo" foi um fracasso de bilheteria quase previsível, apesar das críticas positivas e do elenco internacional que incluía, além de Lancaster, o francês Alain Delon (amigo pessoal do diretor e que foi escalado apesar das tentativas de Warren Beatty em participar do projeto) e a italiana Claudia Cardinale. O nome de Lancaster -  a essa altura já premiado com o Oscar de melhor ator por "Entre Deus e o pecado" (60) - foi sugerido à Visconti pelos produtores, que tentavam, assim, incluir um nome conhecido mundialmente e que pudesse despertar a atenção das plateias que não conheciam a trajetória do cineasta italiano, mais prestigiado entre a crítica e os festivais de cinema do que exatamente por êxitos comerciais. Visconti queria Laurence Olivier no papel principal, e até Marlon Brando e Gregory Peck foram considerados (já que a Fox financiaria parte do orçamento caso um astro americano estrelasse o filme), mas foi o ator de "A um passo da eternidade" (53) que acabou conquistando o veterano diretor, convencido finalmente após vê-lo em cena no clássico "Julgamento em Nuremberg" (61). A relação entre diretor e astro, no entanto, não foi feita apenas de flores: demorou até que Lancaster mostrasse à Visconti sua imersão e dedicação ao papel - algo que aconteceu e foi reiterado com uma nova colaboração em 1974, no filme "Violência e paixão".


"O Leopardo" não tem uma história envolvente e repleta de acontecimentos dramáticos, podendo ser classificado mais como uma crônica dos costumes sicilianos do século XIX e suas transformações sociais do que exatamente como um drama romântico ou algo parecido. Ao adaptar fielmente o livro de Lampedusa em imagens e atmosfera, Visconti - que em sua vitoriosa carreira ainda assinaria a difícil adaptação de "Morte em Veneza", de Thomas Mann - opta por um viés mais bucólico e sentimental, que reflete o tom de nostalgia que perpassa toda a sua narrativa. Em seus quarenta minutos finais - um espetacular baile que sublinha visualmente todas as questões da trama - um dos mais elegantes cineastas da história apresenta à plateia um retrato quase melancólico de uma metamorfose inevitável, que, segundo diz o personagem central, mostra que, às vezes, "é preciso mudar tudo para que as coisas permaneçam como estão.". E é esse o pensamento central do filme e do Príncipe Fabrizio, vivido com maestria por um Burt Lancaster diferente de tudo que havia feito até então, com um ar de sobriedade e elegância dos mais intensos do cinema.

A trama - simples, minimalista, quase inexistente - gira em torno do Príncipe Fabrizio Di Salina, um aristocrata italiano que, depois de hesitar por um algum tempo, finalmente passa a aceitar a união entre seu mundo de luxo, pompa e circunstância com a burguesia que tanto serve de chacota junto a seus semelhantes. Percebendo que a única forma de manter-se no topo da cadeia alimentar social é a aliança com o prefeito da cidade, o exuberante Calogero Sedara (Paolo Stoppa), representante do novo dinheiro, ele não apenas concorda como incentiva o casamento de seu sobrinho, Tancredi (Alain Delon), com a filha do mal-afamado vizinho, a jovem e bela Angelica (Claudia Cardinale). Contando sua história com detalhes, discrição rítmica e sutileza, Visconti não apela para cenas de grande impacto dramático, preferindo revelar ao espectador as nuances de uma sociedade unicamente por meio de cenas milimetricamente arquitetadas de modo a encantar os olhos antes de qualquer outro nível de racionalização. Funciona: plasticamente, "O Leopardo" é impecável, ainda que prescinda de um ritmo um tanto menos letárgico. Ainda assim, para quem procura cinema de alto padrão estético, é um desbunde.

segunda-feira

OBSESSÃO

OBSESSÃO (Ossessione, 1943, ICI, 140min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Luchino Visconti, Mario Alicata, Giuseppe De Santis, Gianni Puccini, romance de James M. Cain. Fotografia: Domenico Scala, Aldo Tonti. Montagem: Mario Serandrei. Figurino: Maria de Matteis. Direção de arte/cenários: Gino Franzi. Produção executiva: Libero Solaroli. Elenco: Clara Calamai, Massimo Girotti, Dhia Cristiani. Estreia: 16/5/43

O autor do romance que lhe deu origem vetou sua estreia nos EUA até mais de trinta anos depois de seu lançamento na Europa - o que só ocorreu depois de sua morte. Na Itália, sua terra natal, as salas de cinema eram objeto de exorcismo (!!) depois de sua exibição. Seus negativos foram destruídos pelo governo ditatorial de Mussolini durante a II Guerra Mundial. Parece até que estamos falando de uma versão para o cinema de algum Evangelho apócrifo ou da biografia do próprio Satã, mas "Obsessão" é apenas a segunda adaptação para o cinema do romance "The postman always ring twice", do norte-americao James M. Cain - que também deu origem ao francês "Paixão criminosa" (39), de Pierre Chenal, e a duas produções hollywoodianas chamadas "O destino bate à sua porta", uma em 1946, dirigida por Tay Garrett, e outra, mais famosa, comandada por Bob Rafelson e estrelada por Jack Nicholson e Jessica Lange em 1981. Lançado em 1934, o romance apresentava todas as características do cinema noir americano e serviu como uma luva para a estreia de Luchino Visconti - que viria a tornar-se um dos maiores cineastas italianos de todos os tempos. Porém, se sua mistura sem afetações de sexo e culpa arrepiou a Igreja e o governo, serviu para abrir as portas de um novo e importantíssimo movimento cultural que, dali a dois anos, floresceria a ponto de influenciar para sempre a sétima arte: o neorrealismo italiano.

Pode até soar estranho que uma história de adultério e violência psicológica possa ser considerada uma espécie de precursora de um movimento centrado no cotidiano e no dia-a-dia de pessoas comuns (muitas delas tornadas atores diante das câmeras de gente como Rossellini e Vittorio de Sica), mas bastam poucos minutos para que se entenda o porquê de tal ideia: com a ajuda inestimável da fotografia de Domenico Scala e Aldo Tonti, Visconti transformou em imagens a sordidez das palavras de Cain em um ambiente sujo, desagradável, dolorosamente realista. Nada do glamour das grandes estrelas hollywoodianas ou da censura auto-imposta dos estúdios americanos: quando os protagonistas de "Obsessão" se encontram e faíscas saltam entre eles, o desejo que surge é cru, selvagem e sem espaço para que se pense em consequências. Giovanna, a protagonista feminina, não é uma dondoca milionária perfumada e bem-vestida. Gino, o catalisador da tragédia, tampouco é um galã tradicional de barba escanhoada e cabelo bem-tratado, e sim um andarilho de caráter duvidoso que vive, como diria Blanche DuBois, da bondade de estranhos. E seu primeiro encontro não se dá em um ambiente romântico - e sim na cozinha do restaurante de beira de estrada do marido da insatisfeita esposa.


Enquanto Bob Rafelson explorou a química do casal Nicholson/Lange com uma ousada cena de sexo que envolvia farinha e outros objetos de cozinha, transformando o ato em um momento de sensualidade à flor da pele, Visconti segue o caminho oposto. Gino (Massimo Girotti) e Giovanna (Clara Calamai) não são, da forma como ele mostra, meros objetos de uma curiosidade voyeur da plateia: são seres humanos com histórias de tristeza e privações, com históricos quase cruéis e que encontram um no outro não apenas sexo e/ou amor, mas também um meio de escapar de um destino que reflita tais currículos. O fato de que para isso aconteça eles tenham que apelar para planos de fuga e posteriormente até assassinato reafirma sua amoralidade - não mais vilões frios e egoístas, eles são pessoas normais buscando a redenção (um tanto dúbia, mas ainda assim redenção). E é então que a sombra da culpa e do remorso também passa a frequentar sua cama e minar seu relacionamento ainda jovem.

Luchino Visconti não brinca em serviço quando precisa ir fundo no desespero e na angústia de seus protagonistas - e justamente por isso talvez tenha arrumado encrenca com a censura. Afinal, o público de 1943 talvez não estivesse pronto para ver com tamanha naturalidade uma relação francamente homossexual (ainda que não explícita) e o retrato tão nítido e cru de um adultério sem o verniz e a sofisticação visual do cinema comercial norte-americano. Por ter chegado às telas dos EUA somente em 1976, "Obsessão" acabou por não ter desfrutado, em seu devido momento, toda a glória e importância que merecia. Um encontro perfeito entre a crueza do cinema italiano do período fascista da II Guerra com os elementos mais fascinantes do cinema noir, é uma obra-prima que infelizmente esteve por muito tempo soterrada sob outros filmes absurdamente geniais de Visconti, como "Rocco e seus irmãos" e "Morte em Veneza".

sexta-feira

MORTE EM VENEZA

MORTE EM VENEZA (Morte a Venezia, 1971, Alfa Cinematografica, 130min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Luchino Visconti, Nicola Baudalucco, romance de Thomas Mann. Fotografia: Pasquale Di Santis. Montagem: Ruggero Mastroianni. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte/cenários: Ferdinando Scarfiotti. Produção executiva: Mario Gallo. Produção: Luchino Visconti. Elenco: Dirk Bogarde, Bjorn Andresen, Silvana Mangano, Marisa Berenson, Romolo Valli. Estreia: 01/3/71

Indicado ao Oscar de Figurino

A sequência inicial, ao som de Gustav Mahler, já dá o tom melancólico do que virá pela frente. "Morte em Veneza", adaptação do clássico romance de Thomas Mann, encontrou em Luchino Visconti o diretor ideal. Esteta por natureza e provavelmente o cineasta europeu que melhor soube retratar a decadência da aristocracia - sempre de forma sutil e elegante - o autor de obras-primas como "O leopardo" e "Rocco e seus irmãos" (quando ainda flertava com o neorrealismo italiano) fez da história criada por Mann um estudo visual e sensorial sobre a beleza, a arte e a juventude que, se requer do espectador uma paciência rara nos dias que seguem, oferece em troca um espetáculo de sensibilidade e delicadeza.

Provavelmente a maior e mais significativa alteração do filme em relação ao livro é a mudança da profissão de seu protagonista, Gustav von Aschenbach, de escritor para compositor, o que de certa forma traduz com mais consistência sua busca pelo esteticamente perfeito, pela arte suprema, pela beleza primal. Ao passar um período de férias em Veneza - depois da trágica morte da filha, da falência de seu relacionamento e da incompreensão em relação à sua última obra - Aschenbach encontra em Tadzio (Bjorn Andresen) a encarnação absoluta de tudo em que acredita: o adolescente, que está na cidade acompanhado da numerosa família, representa para o compositor, com seus traços andróginos e placidez serena, todo o frescor da juventude que ele vê aos poucos esvaindo de si mesmo. Obcecado pelo rapaz, a quem persegue de longe, ele mal se dá conta de uma epidemia de cólera que vai tomando conta da cidade onde está hospedado.


Contando sua intimista história com um mínimo de diálogos - quase todos em flashbacks que mostram ao público os caminhos que levaram o protagonista à sua situação de desilusão pela vida - Visconti prefere, acertadamente, deixar que suas poderosas imagens falem mais do que as palavras. Ao som da belíssima trilha sonora que faz uso exemplar de Mahler, Aschenbach desfila sua pungente tristeza pelas ruas fotografadas com perfeição pelo mestre Pasquali De Santis, perseguindo não apenas Tadzio, mas o ideal de pureza que ele transmite. Atraído cada vez mais pelo jovem - que simultaneamente o encoraja com olhares dúbios e o afasta com sua frieza - o músico acaba deixando-se levar pela obsessão, mesmo vendo sua saúde debilitar-se a cada dia.

"Morte em Veneza" pode ser compreendido de várias maneiras, e provavelmente todas elas estarão corretas - o que certamente eleva um produto à categoria de arte. Tanto pode ser visto como a história de um artista frente à frente com a beleza extrema - e sua incapacidade de lidar com maturidade diante dela - quanto como a obsessão de um homem mais velho por um adolescente - o que é mais polêmico, mais desconcertante e impactante, principalmente porque tanto Mann quanto Visconti tratam seu protagonista com respeito e sinceridade. Retratar Aschenbach no cinema politicamente correto de hoje seria detonar uma bomba de consequências imprevisíveis - o que não deixa de deixar a todos curiosos com a possibilidade de um remake sob as mãos de Peter Greenaway. O desejo de Aschenbach por Tadzio tem diversas camadas, tanto sexuais quanto estéticas, tanto amorosas quanto ideológicas e é justamente essa complexidade de seu tratamento que o faz, ainda nesses tempos cínicos, uma obra provocadora e instigante.

Interpretado com coragem por Dick Borgarde, Gustav von Aschenbach encontra no filme de Visconti uma encarnação excepcional. Com seu olhar tímido e seus modos acanhados, que vão transformando-se aos poucos em coragem e enlevo absoluto, Bogarde exprime, quase sem falar, uma infinidade de sentimentos. A metamorfose de seu personagem - que vai do quase recluso e discreto hóspede a um pouco sutil e apaixonado homem de meia-idade mergulhado na obsessão - é tratado com delicadeza e as lentes de Visconti apenas acompanham a transformação, assim como ele acompanha Tadzio pelas ruas de Veneza em longas sequências de beleza ímpar. E, se para o público atual a beleza quase feminina de Tadzio não justifica tanta paixão por parte de Aschenbach, é inegável que a beleza do filme mantém-se inacta mesmo depois de quatro décadas.

"Morte em Veneza" é cinema-arte. É um ensaio sobre a beleza, sobre a juventude, sobre a obsessão, sobre a velhice, sobre o amor. Mas é, sobretudo, uma obra-prima inquestionável.

segunda-feira

ROCCO E SEUS IRMÃOS

ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco e i suoi fratelli, 1960, Titanus, 177min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Suso Checchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Enrico Medioli, Luchino Visconti. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte: Mario Garbuglia. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Alessandra Panaro, Rocco Vidolazzi, Claudia Cardinale. Estreia: 06/9/60 (Festival de Veneza)

"Roma, cidade aberta", de Roberto Rossellini pode ter sido o marco inicial do neorrealismo italiano, com sua filmagem semidocumental e a preocupação sócio-política. "A doce vida", de Federico Fellini, talvez seja a imagem mais marcante da desilusão pós-guerra da Itália. Mas é "Rocco e seus irmãos", de Luchino Visconti, o mais perfeito equilíbrio entre o melodrama clássico e as questões sociais do cinema italiano dos anos 50/60. Mesmo já estando afastado do movimento liderado por Rossellini - mais por questões estéticas do que por motivos mais nobres - Visconti ainda mantinha dentro de si o desconforto de pertencer a uma família aristocrática diante da imensa desigualdade social de seu país, o que é nítido na maneira com que mescla a intelectualidade sensível e visual de sua obra com questionamentos radicais a respeito do capitalismo - selvagem a ponto de desmembrar uma família de imigrantes do sul da Itália que chegam à Milão repletos das ilusões que o mundo, moinho que é, irá reduzir a pó.

A viúva Rosaria Parondi (vivida pela grega Katina Paxinou) chega à Milão junto com seus quatro filhos caçulas para encontrar o mais velho, Vincenzo (Spiros Focas), que está noivo e com a vida relativamente organizada. O objetivo de Rosaria - fugir da pobreza de sua cidade - logo se mostra muito mais difícil de atingir do que o pensado inicialmente, quando ela percebe as dificuldades de arrumar trabalho em um país ainda sofrendo as consequências da guerra. Enquanto um dos rapazes, Ciro (Max Cartier) logo encontra emprego em uma montadora de automóveis, porém, Simone (Renato Salvatori) ingressa no mundo do boxe e da criminalidade. Envolvido com gente do submundo, ele se apaixona pela prostituta Nadia (Annie Girardot), que posteriormente cai de amores por Rocco (Alain Delon), que tenta vencer na vida honestamente. O triângulo amoroso logo descamba para a tragédia quando Rocco percebe que seu irmão está se degradando cada vez mais - roubando e apelando para a prostituição.


O roteiro de "Rocco e seus irmãos" é dividido em capítulos, dando protagonização a cada um dos irmãos, o que evita a superficialização dos personagens e seus dramas. Dessa forma, Visconti permite a seus atores a entrega total a seus papéis, de maneira a extrair de cada um atuações fortes e marcantes. Enquanto Katina Paxinou desenha com o exagero exato sua mãe Coragem - lutando desesperadamente para manter a união da família - o show acaba sendo mesmo dos protagonistas da trágica e violenta história de amor desenhada sobre o pano de fundo social criado pela trama. Alain Delon, com seu rosto delicado e semblante pacífico, dá a Rocco a figura ideal, de um homem sensível jogado no meio de um furacão e que tenta, com todas as suas forças, impedir a decadência absoluta do irmão. Annie Girardot está na medida certa com sua Nadia, mesclando sensualidade com carinho e agressividade. E Renato Salvatori deslumbra a todos com sua interpretação inesquecível do perdido Simone, alternado entre o homem raivoso que não sabe onde colocar o desejo e o filho pródigo que busca o entendimento familiar de maneira equivocada.

Repleto de cenas fascinantes e dirigidas com o apelo visual que se tornaria marca registrada na filmografia de Visconti, "Rocco e seus irmãos" é uma obra-prima inquestionável, atemporal e tão chocante hoje quanto à época de seu lançamento. Para ver e rever sempre!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...