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quarta-feira

UM TIRO NA NOITE

UM TIRO NA NOITE (Blow out, 1981, Cinema 77/Geria/Filmway Pictures, 107min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Vicki Sanchez. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Bruce Weintraub. Produção executiva: Fred Caruso. Produção: George Litto. Elenco: John Travolta, Karen Allen, John Lithgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May. Estreia: 07/7/81

Acostumado a uma sucessão de altos e baixos em uma trajetória profissional que tanto lhe deu grandes sucessos de bilheteria, como "Os embalos de sábado à noite" (77), "Grease: nos tempos da brilhantina" (78) - e até o fraquinho mas imensamente popular "Olha quem está falando" (89) - quanto fracassos homéricos, a exemplo do tenebroso "Perfeição" (85), o ator John Travolta experimentou, em 1994, uma ressurreição de espantar até aos mais crédulos e vividos fãs de cinema, quando voltou a tornar-se um nome quente em Hollywood graças ao incensado "Pulp fiction: tempo de violência". O filme deu um bem-vindo novo fôlego a uma carreira praticamente estagnada, respeito da crítica e até mesmo uma indicação ao Oscar. Aplaudido aos quatro ventos, louvado e considerado uma das mais influentes obras da década de 90, o trabalho de Quentin Tarantino revelou a uma nova geração de espectadores um talento dramático que pouca gente conseguia vislumbrar no galã de olhos azuis que não hesitou em deixar a vaidade de lado para interpretar um matador de aluguel viciado em cocaína e muitos quilos acima do peso ideal. Esse talento, revelado em um desempenho icônico, foi descoberto por Tarantino não em seus filmes mais celebrados, onde requebrava o corpo em coreografias que marcaram época, mas sim em uma trama de suspense que naufragou nas bilheterias no início dos anos 80 apesar de suas vastas qualidades artísticas. Dirigido por Brian De Palma logo após o impacto de "Vestida para matar" - em que prestava reverência ao mestre Hitchcock - "Um tiro na noite" confirmou sua capacidade de aproveitar os velhos clichês do gênero em histórias originais, mas não encontrou seu público e teve de contentar-se em esperar que o tempo o tornasse cult - e desse à Travolta a chance de voltar às boas graças da indústria.

Como o título original já denuncia, "Um tiro na noite" é uma homenagem clara e reverente ao clássico "Blow up: depois daquele beijo" (66), de Michelangelo Antonioni. No filme do cineasta italiano, um jovem fotógrafo descobria um assassinato ocorrido em um parque no momento de revelar seus negativos. Na obra assinada por De Palma - que mesmo inspirado por Antonioni não deixa de lado seu fetiche pelos ensinamentos de Hitchcock - o protagonista é Jack Terry (John Travolta), um técnico de som de filmes de terror barato que tem sua vida transformada em uma madrugada, quando, ao gravar ruídos para um de seus próximos trabalhos, acaba sendo testemunha de um acidente de carro que mata um candidato à presidência dos EUA. No processo, salva da morte por afogamento a acompanhante do político, a prostituta Sally Bedina (Nancy Allen, à época casada com o diretor), e entra de gaiato em uma conspiração muito mais perigosa quando, ao escutar os sons gravados, descobre que antes do estouro do pneu que causou a queda do carro no rio, um tiro foi disparado. Ignorado pela polícia e pelas autoridades, Jack se une à Sally para desmascarar os culpados, utilizando-se, para isso, de seus conhecimentos profissionais.


Um apaixonado confesso pela arte cinematográfica e seus artifícios narrativos (que utiliza sem pestanejar em praticamente toda a sua filmografia), Brian De Palma faz, em "Um tiro na noite", uma bela homenagem à sétima arte, muito bem embalada em um gênero que domina como poucos. Desde a primeira sequência, que abraça carinhosamente os filmes B de horror, o cineasta oferece à plateia uma trama intrigante (ainda que previsível em muitos momentos) e recheada de um tesão explícito pela arte de fazer cinema, De Palma usa a trajetória de seu protagonista em busca da verdade como um pretexto para exibir seu vasto conhecimento do ofício. Tudo funciona como um relógio em sua narrativa visual e sonora, começando com a sutil trilha sonora de Pino Donaggio, passando pela edição enxuta e claustrofóbica de Paul Hirsch e chegando ao desenho de som, o ponto crucial do filme e razão de ser de sua existência: foi durante o processo de sonorização de "Vestida para matar" que o diretor teve a ideia de contar uma história que explorasse os bastidores do cinema através de uma técnica pouco conhecida (e também pouco valorizada) pela plateia. Surgiu, então, um enredo que misturava momentos de pura tensão, curiosidades sobre bastidores e uma conspiração que lembrava (e muito) um acidente de carro envolvendo o então senador Edward Kennedy.

Mas nem mesmo essa citação clara e óbvia a um fato político acontecido em seu próprio país - somada ao interessante mergulho no que acontece por trás das câmeras - ajudou a plateia a se deixar seduzir pelo filme. John Travolta - segunda opção para o papel, substituindo Al Pacino - arrancou elogios da crítica, mas deu início a um período escuro da carreira, que teria seguimento com "Os embalos de sábado continuam" (83) e uma série de produções ignoradas nas bilheterias. Não se sabe exatamente o que causou tal descaso popular ao filme de Brian De Palma - uma produção correta, com grandes momentos de suspense e um roteiro inteligente - mas talvez a ideia de um dos produtores (à época desconsiderada rapidamente) pudesse ter ajudado no resultado final, em termos comerciais: sem carisma e pouco conhecida do público, Nancy Allen teve seu papel quase oferecido à Olivia Newton-John, como forma de capitalizar sua química com o galã, já comprovada em "Grease". Mas Travolta já não era mais o protagonista dançante de seus maiores hits e buscava novos desafios artísticos. Demorou mais de dez anos - e o faro de Quentin Tarantino - para ser reconhecido como bom ator, mas basta prestar atenção em sua atuação em "Um tiro na noite" para perceber que seu talento já estava presente. Com mais de trinta anos de idade, o filme merece ser descoberto pelas novas gerações.

terça-feira

SEGREDOS DO PODER

SEGREDOS DO PODER (Primary colors, 1998, Award Entertainment/BBC Films, 143min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, livro de autor anônimo. Fotografia: Michael Ballahaus. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Ry Cooder. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Jonathan D. Krane, Neil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: John Travolta, Emma Thompson, Billy Bob Thornton, Kathy Bates, Adrian Lester, Larry Hagman, Maura Tierney, Diane Ladd, Paul Guilfoyle, Allison Janney, Rob Reiner. Estreia: 20/3/98

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Kathy Bates), Roteiro Adaptado

As semelhanças entre Bill Clinton e o fictício governador sulista Jack Stanton, personagem central do livro "Primary Colors" - de um autor anônimo que posteriormente revelou-se como Joe Klein, jornalista da revista Time - eram tão notórias e óbvias que, dizem as más línguas, Tom Hanks declinou do convite feito pelo cineasta Mike Nichols de interpretá-lo na sua versão para as telas por ser amigo do então presidente. Os temores de Hanks, porém, se mostraram infundados depois do lançamento do filme: não só Clinton tornou-se fã do resultado final como o retrato do protagonista é bem menos negativo do que se poderia imaginar quando se trata de um filme que vasculha os bastidores - quase sempre abarrotado de lama e cinismo - de uma campanha eleitoral. Talvez devido ao roteiro banhado em sarcasmo da ótima Elaine May e talvez pela direção firme do experiente Nichols, "Segredos do poder" escapa do ranço panfletário frequentemente aborrecido do gênero e revela à plateia um jogo de interesses, mentiras, ataques e contra-ataques empolgante, com direito a um elenco impecável e uma produção sofisticada que se dá ao luxo de ter entre seus atores duas vencedoras do Oscar, Emma Thompson e Kathy Bates - sendo que Bates quase arrebatou uma segunda estatueta por seu desempenho como Libby Holden, valente colaboradora de Stanton em seu caminho rumo à Casa Branca.

Como normalmente ocorre em tramas semelhantes, toda a ação chega ao espectador através dos olhos do ingênuo e idealista Henry Burton (Adrian Lester), neto de uma lenda pela luta pelos direitos civis que enxerga no governador - vivido com gosto por John Travolta - um homem capaz de se comprometer com causas populistas e relevantes e que aceita entrar em sua equipe de campanha. No decorrer do processo de conquista de votos, porém, Burton começa a notar detalhes nada dignificantes a respeito de seu novo chefe, como sua tendência ao adultério - sempre relevado tristemente por sua ambiciosa esposa, Susan (Emma Thompson, perfeita com sotaque americano) - e a confusões inerentes a esse traço de sua personalidade, como testes de paternidade e chantagens feitas por amantes ocasionais. O carisma de Stanton, no entanto, é mais forte do que suas escapadas sexuais, e o rapaz - cobrado por seus antigos companheiros de ativismo - vai se deixando levar pelo fascinante jogo que se desdobra à sua frente. As coisas ficam complicadas mesmo quando o principal rival de Stanton sofre um ataque cardíaco quase fatal e é substituído na campanha por outro carismático político, Fred Picker (Larry Hagman, o eterno J.R. da série "Dallas"), que retorna aos palanques anos depois de ter-se retirado da vida pública e se transforma em uma séria ameaça aos planos do galante governador.


Veterano em arrancar interpretações excepcionais dos atores com quem trabalha, Mike Nichols não faz diferente em "Segredos do poder": um dos maiores destaques do filme é o elenco, recheado de astros reconhecidos do grande público vivendo personagens que fogem do maniqueísmo habitual do cinemão hollywoodiano e portanto, são um desafio considerável a quem deseja conquistar uma plateia mal-acostumada com os simplismos rotineiros. John Travolta, por exemplo, apesar de não deixar de ser ele mesmo em nenhum momento, constroi um Jack Stanton encantador, mesmo que a audiência saiba de suas canalhices e suas demagogias. Emma Thompson brilha em uma Hilary Clinton mais pobre, uma mulher forte e determinada capaz de passar por cima do próprio orgulho por uma causa que considera mais importante: a vitória nas urnas. E Kathy Bates quase rouba a cena como Libby Holden, uma idealista e honesta partidária que vê seus princípios postos em xeque quando fica frente a frente com a verdade nua e crua dos bastidores sujos de seu meio - sua personagem certamente é a mais forte da história, oferecendo ao desfecho um senso ético e mordaz que transforma a fábula roteirizada por Elaine May - uma humorista experiente que preenche de sarcasmo e humor fino um drama que seria cômico se não fosse trágico.

Longe de ser um drama didático e aborrecido sobre os meandros da política norte-americana, "Segredos do poder" é um filme sobre a hipocrisia generalizada, sobre a podridão escondida nos bastidores do poder, sobre ideologias sendo esmagadas pelas circunstâncias. Em 2011, George Clooney lançou um filme ainda mais contundente sobre o assunto, "Tudo pelo poder", estrelado por ele mesmo e Ryan Gosling, mas este pequeno tratado de Mike Nichols ainda se mantém como uma das mais interessantes obras a respeito do pantanoso mundo político.

O QUARTO PODER

O QUARTO PODER (Mad city, 1997, Warner Bros, 115min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Tom Matthews, história de Tom Matthews, Eric Williams. Fotografia: Patrick Blossier. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Thomas Newman. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Jan Pascale. Produção executiva: Stephen Brown, Wolfgang Glattes, Jonathan D. Krane. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson. Elenco: Dustin Hoffman, John Travolta, Alan Alda, Mia Kirschner, Blythe Danner, Robert Prosky. Estreia: 10/10/97

A nociva combinação entre a mídia e a ambição humana sempre encontrou nas telas de cinema vários exemplos e no mínimo um clássico indiscutível, o genial "A montanha dos sete abutres", de Billy Wilder. Essa receita explosiva pareceu irresistível para o cineasta grego Constatin Costa-Gavras, autor de filmes seminais do cinema político, como o oscarizado "Z" (69) e "Missing, o desaparecido" - estrelado por Jack Lemmon em 1982 - que viu na história de um homem comum sendo manipulado por um repórter sensacionalista em sua gana por audiência mais um potencial sucesso para sua bem-sucedida e provocativa carreira. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, "O quarto poder" - a união da instigante trama com o talento para a polêmica do diretor - caiu no vazio das boas intenções. Fracasso de bilheteria e ignorado pela crítica, o filme estrelado por Dustin Hoffman e John Travolta peca pela superficialidade, pelo ritmo irregular e pasmem, pela direção apática de Costa-Gavras, que em nenhum momento consegue atingir a plateia com a contundência de suas obras anteriores.

O protagonista do filme é Max Brackett (Dustin Hoffman aparentemente no piloto automático), um repórter televisivo que já teve seus momentos de glória, mas que caiu em desgraça depois de um desentendimento com Kevin Hollander (Alan Alda), âncora de um famoso telejornal de alcance nacional que o relegou a um noticiário pouco visto em uma cidade do interior. Em constante conflito com seu chefe por buscar notícias mais empolgantes do que meros factoides de interesse restrito, ele vê cair em suas mãos, inesperadamente, uma situação que pode lhe render a grande chance dessa fase ruim de sua carreira. Durante uma entrevista tediosa em um museu da cidade, ele testemunha um funcionário demitido, Sam Baily (John Travolta com as mesmas caras e bocas de sempre), invadir o local armado com uma espingarda e exigindo seu emprego de volta. Raposa velha do jornalismo, ele fareja um furo na história, especialmente quando, por acidente, a arma dispara atingindo um segurança do museu - negro, o que atiça ainda mais os ânimos politicamente corretos que veem nisso um crime de ódio - e o atarantado Sam resolve manter como reféns todas as crianças que estão em visita ao prédio. Conquistando aos poucos a confiança de Sam, o repórter conta com a ajuda de sua assistente, a ambiciosa Laurie (Mia Kirschner), para chamar a atenção da mídia nacional e transformar o fato em circo, retomando o destaque de seus dias mais felizes.


Como nem sempre as coisas funcionam da maneira esperada, no entanto, Max se vê diante de um dilema moral quando seu arquirrival Kevin surge em cena, querendo a protagonização da história. Com ainda menos escrúpulos, o famoso âncora passa a manipular as entrevistas feitas por Laurie, com a intenção de transformar Sam de vítima das circunstâncias em um vilão desequilibrado capaz de matar um homem negro pai de família e manter um grupo de crianças como refém. Percebendo as artimanhas de Hollander, Max passa a questionar sua própria ambição e tenta ajudar Sam a sair da armadilha que ele mesmo preparou, chegando à conclusão de que talvez as coisas tenham saído demais do seu controle. Enquanto isso, a população é manipulada facilmente pelo noticiário e cerca o museu, à espera do desfecho do sequestro.

Costurando vários focos de narrativa ao mesmo tempo - a relação entre Max e Sam, a manipulação comandada por Hollander, as entrevistas de Laurie, a manifestação da plateia ávida por sangue - o roteiro acaba por não dar conta de uní-las de maneira satisfatoria, dando a impressão de buracos pouco confortáveis entre uma e outra que nem mesmo a direção consegue disfarçar. A trama central - instigante, inteligente - se perde diante de tantos desvios, esvaziando seu tom de denúncia quando resolve dedicar boa tarde de seu terço final à crise de consciência de Max, em uma reviravolta otimista e forçada que não condiz com o cinismo ácido de seu início promissor. Nem mesmo o final - que acaba sendo previsível e anti-climático - salva o show de virar o aborrecido e banal retrato de uma sociedade doentia e manipulável pela mídia. Não é uma desgraça total - Dustin Hoffman sempre vale uma espiada, mesmo quando não está em seus melhores dias - mas vindo de um diretor do porte de Costa-Gavras é bastante decepcionante.

segunda-feira

LOUCOS DE AMOR

LOUCOS DE AMOR (She's so lovely, 1997, Miramax/Clyde is Hungry Productions, 100min) Direção: Nick Cassavetes. Roteiro: John Cassavetes. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Petra Von Oelffen. Música: Joseph Vitarelli. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Bernard Bouix, Gérard Depardieu, Sean Penn, John Travolta. Produção: René Cleitman. Elenco: Sean Penn, Robin Wright Penn, John Travolta, Harry Dean Stanton, James Gandolfini, Debi Mazar, Gena Rowlands, Burt Young, Talia Shire. Estreia: 15/5/97 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Ator) no Festival de Cannes 1997: Sean Penn

Diretor de filmes extremamente densos, que examinavam a fundo as relações interpessoais sem firulas estéticas e que invariavelmente deixavam no espectador uma sensação amarga, John Cassavetes foi pioneiro também em fugir dos ditames dos grandes estúdios, buscando formas independentes de lançar suas obras. Eternamente lembrado como o marido satanista de Mia Farrow em "O bebê de Rosemary", Cassavetes foi casado com a atriz Gena Rowlands - presença constante em sua filmografia - e morreu prematuramente, aos 59 anos, em fevereiro de 1989, antes de sequer começar a dirigir um novo projeto, a ser estrelado por Sean Penn. Felizmente o roteiro já estava pronto, e, quase dez anos depois da morte de John, "Loucos de amor" finalmente chegou as telas em grande estilo, estreando no Festival de Cannes - de onde saiu com o prêmio de melhor ator. Na direção, mostrando que seu talento passou para a geração seguinte, seu filho Nick, que emulou o espírito realista e seco do pai ao realizar uma obra que, a despeito de ter sido lançada no final da década de 90, tem a cara e a alma de um drama setentista.

Melancólico e pessimista, "Loucos de amor" já começa mostrando a que veio, apresentando ao público uma protagonista feminina complexa, irresponsável e paradoxalmente encantadora: Maureen (Robin Wright Penn) mora em um prédio decadente de um bairro pobre de Nova York, está grávida de poucos meses do marido que sumiu há três dias e não hesita em beber e fumar pelas ruas da cidade, enquanto flerta - mais por carência do que por tesão - com um vizinho aparentemente gentil, Kiefer (James Gandolfini), que aproveita a primeira oportunidade para espancá-la e estuprá-la. Quando seu marido, Eddie (Sean Penn) finalmente volta para casa, como se nada tivesse acontecido, ela resolve esconder dele a violência sofrida, por medo de uma represália. Quando o fato vem à tona, porém, o já agressivo Eddie não resiste e parte para a agressão, obrigando sua esposa a chamar um hospital psiquiátrico para impedí-lo de cometer um crime. A medida não basta e Eddie acaba sendo condenado a passar dez anos em uma instituição, depois de atirar em um médico. Uma década mais tarde, Eddie finalmente volta à liberdade - sem a noção do tempo que passou preso - e descobre que Maureen mudou seu estilo de vida. Casada novamente e mãe de três meninas, ela agora é uma equilibrada dona-de-casa que vive em paz com o novo marido, Joey (John Travolta). O retorno de Eddie a seu universo, porém, irá fazê-la questionar sua felicidade.


Dividindo seu filme em duas partes claras e esteticamente diferentes - o antes e o depois na vida de Eddie e Maurenn - Nick Cassavetes praticamente dirigiu dois filmes em um: o decadente, triste e boêmio mundo do casal na primeira metade é, paradoxalmente, mais romântico e passional, um mundo ao qual ambos pertencem e no qual se sentem à vontade, apesar das dificuldades financeiras. A segunda metade do filme é solar, clara, brilhante, sufocante aos olhos tanto de um Eddie recém-liberto de um pesadelo de dez anos quanto de uma Maureen que escondeu seu lado selvagem e transgressor atrás de uma fachada bem construída de mulher do lar. Não é por acaso que o tom da narrativa também muda quando acontece a transição: o que era trágico e escuro dá lugar a uma quase comédia, com direito a um Sean Penn exageradamente louro e uma menina de nove anos que entra na discussão familiar bebendo cerveja como gente grande. Esse contraste - que pode parecer gratuito - é a cara de "Loucos de amor", um filme que sacode as expectativas da plateia em suas pré-concepções de amor, felicidade e lealdade.

Porém, se foi Sean Penn quem levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, não é ele quem melhor traduz as dicotomias psicológicas do filme, apesar de estar fabuloso como sempre. Quem rouba a cena, traduzindo em imagens e em uma interpretação impecável todas as nuances do roteiro é a excelente Robin Wright Penn, casada com Sean à época. Seu trabalho de composição é absolutamente perfeito, desde o visual - de cabelos curtos e mal pintados na primeira parte a uma delicadeza de traços e gestos na segunda - até na maneira discreta e sutil que ela mostra a angústia de sua Maureen através do olhar e da entonação de voz. O que parece ser dois personagens distintos transforma-se rapidamente em uma única personalidade toda vez que ela está em cena, lembrando à audiência que todo o turbilhão de sentimentos mostrados no filme está se passando dentro da mesma - e apaixonada mulher. Robin realmente é, como diz o título original, adorável. Uma atriz extraordinária no melhor papel de sua carreira.

sexta-feira

CARRIE, A ESTRANHA

CARRIE, A ESTRANHA (Carrie, 1976, United Artists, 98min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Lawrence D. Cohen, romance de Stephen King. Fotografia: Mario Tosi. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Jack Fisk, William Kenney/Robert Gould. Produção: Paul Monash. Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, Nancy Allen, John Travolta, William Katt, Betty Buckley. Estreia: 03/11/76

2 indicações ao Oscar: Atriz (Sissy Spacek), Atriz Coadjuvante (Piper Laurie)

Em 1976 ninguém conhecia Stephen King. Se hoje seu nome é amplamente reconhecido por todos os fãs de livros e filmes de terror - além de outras obras que fogem do gênero e também foram adaptadas com sucesso para o cinema, como "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94) - a situação era bem diferente então. Seu primeiro romance, escrito enquanto trabalhava em uma lavanderia, chegou a ser recuperado da lata de lixo por sua esposa antes de ser publicado e chegar às telas de cinema no rastro de sucessos de bilheteria como "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73). Inspirado em duas colegas de escola que eram isoladas dos colegas graças ao fanatismo religioso de suas famílias e que morreram bastante jovens, ele criou Carrie White, a adolescente que tornou-se uma das personagens clássicas de sua literatura principalmente depois que conquistou os espectadores de cinema. Dirigido por Brian DePalma, "Carrie, a estranha", foi um enorme sucesso de bilheteria, cimentou o nome de King entre os apaixonados pelo gênero e, surpreendentemente para um filme de terror, indicou sua protagonista (a então estreante Sissy Spacek) ao Oscar de melhor atriz.

Spacek, que tinha 26 anos à época das filmagens, convence plenamente como a colegial Carrie, especialmente devido à sua franzina compleição física. Indicada ao cineasta por seu marido, o diretor de arte Jack Fisk, Spacek agarrou sua oportunidade com unhas e dentes, entregando uma atuação até hoje lembrada como uma das mais intensas de sua vitoriosa carreira - que inclui um Oscar por sua interpretação da cantora country Loretta Lynn em "O destino mudou sua vida" (80). Desde a primeira cena, em que a ingênua Carrie descobre (da pior maneira possível) o que acontece com as mulheres quando elas menstruam, até o apoteótico e pirotécnico final (copiado até mesmo na telenovela "Rainha da sucata", porém com menos violência), a atriz dá um show particular, transitando com firmeza entre a timidez e a insegurança de uma jovem estudante renegada pelas colegas e a fúria incontrolável que surge diante das humilhações sofridas, que despedaçam cruelmente seus momentos de maior felicidade. Seus embates com Piper Laurie, que interpreta sua mãe, uma religiosa cujo fanatismo beira a caricatura, são dignos de figurar entre os maiores momentos do cinema de terror, mesmo que o suspense esteja principalmente nas entrelinhas dos diálogos e no clima absorvente criado pela fotografia de Mario Tosi e pela trilha sonora impecável de Pino Donaggio.


Piper Laurie, aliás, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, acreditava piamente que o filme de DePalma era um comédia de humor negro, uma sátira ao gênero, devido ao exagero das atitudes de sua personagem, capaz de trancar a filha adolescente em um armário como forma de castigá-la. Sumida das telas desde "Desafio à corrupção" (61), Laurie é um destaque absoluto do filme, com seu olhar apavorado, seus discursos louvatórios e sua figura assustadora. Nem mesmo Julianne Moore, com seu enorme talento, conseguiu resultado melhor na reinvenção do filme dirigida por Kimberly Peirce em 2013 - que, como fatalmente acontece, optou pelos efeitos visuais em detrimento do clima. O que há de mais interessante em "Carrie" são as dicotomias propostas pelo tema: bem/mal, amor/ódio, amizade/desprezo, religiosidade/paganismo. King consegue até mesmo criar uma teoria para o despertar da telecinese de sua protagonista, que tem início justamente quando ela torna-se mulher, menstruando pela primeira vez diante de um grupo de colegas maldosas e irresponsáveis: ela está pronta para o mundo, mas junto com o amor (de que ela tem apenas um vislumbre momentâneo) vem o ódio, a inveja e, consequentemente, as reações a isso.

Para quem não conhece a trama, é fácil resumir: Carrie White, uma jovem de 17 anos, filha de uma mãe fanaticamente religiosa que a mantém isolada de todos - à exceção de seus colegas de escola - descobre que tem o poder de mover objetos e até mesmo provocar incêndios apenas com a força do pensamento. Tal descoberta ocorre justamente depois que ela é humilhada no vestiário da escola, depois de desesperar-se quando menstrua pela primeira vez. A represália que suas colegas sofrem por tal "travessura" acaba por jogar Carrie em uma armadilha sádica que ocorre justamente em seu baile de formatura, quando ela é coroada a Rainha. Seus minutos de glória e felicidade são logo transformados em um pesadelo e ela acaba se vingando de todos os seus inimigos utilizando seus poderes recém-descobertos - até ser obrigada a encarar sua mãe, que não aceita o fato de sua filha estar despertando para o mundo.

Clássico absoluto, "Carrie, a estranha" consegue manter, mesmo em tempos onde a violência é moeda corrente no cinema mundial, seu status de referência do gênero. Além do mais, apresenta, em início de carreira, os jovens John Travolta e Amy Irving. Obrigatório!

quarta-feira

HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA


HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA (Hairspray, 2007, New Line Cinema, 117min) Direção: Adam Shankman. Roteiro: Leslie Dixon, roteiro original de John Waters, peça musical de Mark O'Donnell, Thomas Meehan. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Michael Tronick. Música: Marc Shaiman. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: David Gropman/Gordon Sim. Produção executiva: Toby Emmerich, Jennifer Gigbot, Garrett Grant, Mark Kaufman, Michael Lynne, Marc Shaiman, Adam Shankman, Bob Shaye. Produção: Neil Meron, Craig Zadan. Elenco: John Travolta, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Queen Latifah, Zac Efron, James Marsden, Amanda Bynes, Brittany Snow, Nikki Blonsky. Estreia: 13/7/07

O caminho natural de um produto artístico quando resolve mudar de mídia raramente é alterado. Às vezes um filme vira peça de teatro ou musical da Broadway e em alguns casos o contrário também acontece. O que é raro, mas também acontece, é o caminho tortuoso de "Os produtores" - inspirada no filme "Primavera para Hitler", de Mel Brooks, transformou-se em musical nos palcos e depois chegou às telas em 2005 estrelado por Nathan Lane, Matthew Broderick e Uma Thurman. "Hairspray, em busca da fama" faz parte desse seleto grupo. Inspirado no "clássico" de John Waters, o musical fez enorme sucesso no teatro e voltou a seu lar de origem, o cinema, cheio de moral. Com uma renda de quase 120 milhões de dólares de arrecadação nas bilheterias americanas, o filme de Adam Shankman - que exagerou na sacarose em "Um amor para recordar" e no humor pasteurizado em "Doze é demais 2" - agradou também à crítica (foi indicado a 3 Golden Globes) e surpreendeu o mundo ao mostrar um John Travolta extremamente à vontade cantando e dançando... no papel de uma dona-de-casa fora de forma.

No filme original - onde a característica de Waters de exagerar no kitsch era elevada à décima potência de deboche - a rotunda Edna Turnblad era interpretada pelo travesti Divine, um dos atores-símbolo de sua filmografia. Nessa versão século XXI, a ideia de manter um ator no papel mostrou-se novamente acertada. Além do choque de dar de cara com Travolta - um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 70/80 - bem acima do peso e na pele de uma personagem feminina, a decisão mostra com perfeição o espírito despido de preconceitos com que o filme chega a seu público. Nada mais adequado, aliás, já que a trama central fala justamente sobre discriminação. Apesar do tema, porém, que não se espere nenhum tratado sociológico. Com um registro leve e engraçado, "Hairspray" conquista pelo bom-humor e por seu compromisso único e exclusivo com a diversão.


Apesar de ser a presença sempre magnética de Travolta que mais chama a atenção do filme, sua Edna Turnblad não é a protagonista. O posto de personagem central ficou nas mãos da novata Nikky Blonsky, que interpreta a sonhadora Tracy, adolescente gordinha da pequena cidade de Baltimore que, no ano de 1962 (ou seja, no auge da luta pelos direitos civis dos afrodescendentes) passa os dias obcecada com "The Corny Collins Show", programa musical de TV que, para sua esperança, sofre um desfalque em seu elenco de dançarinas. Certa de que tem chances de ganhar a vaga - a ser disputada em um concurso - Tracy conta com a ajuda de seu amigo Seaweed (Elijah Kelley), que lhe ensina passos novos, discriminados como dança de gueto. Durante sua campanha para a vaga, Tracy toma contato com a discriminação racial do programa - que conta apenas com dançarinos brancos, dando espaço aos jovens negros apenas uma vez por mês - e do país como um todo, chamando a atenção da mídia e de Link Larkin (Zac Efron), jovem galã integrante do programa que se apaixona por ela, para desespero de sua "namorada" Amber Von Tessle (Brittany Snow). Quem também não gosta nada dessas novidades todas é a mãe de Amber, Velma (Michelle Pfeiffer), que também é gerente de programação da emissora que transmite o programa de Collins.

Conquistando desde seus créditos de abertura que mostram Tracy a caminho da escola, "Hairspray" tem a seu favor o ritmo adequado e o humor quase ingênuo, que reflete a época na qual se passa. Mesmo quando falam de temas sérios, o roteiro e a música fazem questão de lembrar o espectador de que eles estão assistindo a apenas uma comédia musical, sem maiores pretensões que não entreter. É essa sua falta de pretensão sua maior qualidade, além do elenco inspiradíssimo. Além de Travolta - que se diverte notadamente em cena e tem uma química invejável com seu marido na tela, Christopher Walken - a bela Michelle Pfeiffer mostra que não tem nada a temer com a idade, ficando com um papel que quase foi oferecido a Meryl Streep e Madonna. Zac Efron e Nikky Blonsky estão ótimos em seus papéis e se Queen Latifah não chega a ser totalmente aproveitada, ao menos não desparece diante de alguns números musicais realmente empolgantes.

Engraçado, divertido e leve, "Hairspray, em busca da fama" só perde um pouco seu ritmo em seu terço final - ainda que o recupere bravamente em seu desfecho. Mas é um entretenimento de primeira.

segunda-feira

A QUALQUER PREÇO

A QUALQUER PREÇO (A civil action, 1998, Touchstone Pictures/Paramount Pictures/Wildwood Enterprises, 115min) Direção: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Jonathan Harr. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey A. Doyle. Produção executiva: David Wisnievitz, Steven Zaillian. Produção: Rachel Pfeffer, Robert Redford, Scott Rudin. Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shalhoub, William H. Macy, Zeljko Ivanek, John Lithgow, Kathleen Quinlan, James Gandolfini, Dan Hedaya, Stephen Fry, Sydney Pollack. Estreia: 25/12/98

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Fotografia
Vencedor do Screen Actors Guild: Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Cerca de dois anos antes que Julia Roberts ganhasse o Oscar por seu trabalho em "Erin Brokovich, uma mulher de talento", uma história semelhante já havia sido levada às telas, sob a competente direção de Steven Zaillian, premiado pela Academia pelo roteiro de "A lista de Schindler". Baseado em um livro de Jonathan Harr - por sua vez inspirado em um fato real - "A qualquer preço" é um eficiente drama de tribunal, que compensa sua falta de maiores emoções por uma narrativa enxuta e sóbria, valorizada pela bela fotografia do veterano Conrad L. Hall e pelo trabalho sutil de John Travolta.

Tentando manter a boa fase da carreira - fase essa que começou com a indicação ao Oscar por "Pulp fiction" - Travolta tem uma atuação discreta como Jan Schlichtmann, um advogado bem-sucedido de Boston que vê cair em suas mãos um caso que pode lhe dar fama e dinheiro: oito famílias o procuram com o objetivo de processar um curtume responsável por poluir um rio que lhes proporciona a água potável que consomem. Dessas famílias, crianças morreram de leucemia e, através de uma das mães, Anne Anderson (Kathleen Quinlan), ele toma contato com todos os problemas causados pela empresa (na figura de seu dono, vivido por um perfeito Dan Hedaya). Indo para os tribunais, Jan enfrenta o advogado Jerome Facher (Robert Duvall) e fica meses a fio em um julgamento complicado que acaba com todo o dinheiro de sua firma. Mesmo falido, ele transforma o caso em uma espécie de obsessão.


O roteiro, escrito pelo próprio Zaillian, foge como o diabo da cruz das armadilhas de transformar o filme em um drama lacrimoso - assim como o fez Francis Ford Coppola em "O homem que fazia chover" - e prefere centrar seu foco nos problemas financeiros de seu protagonista, mais um exemplar de personagem que sofre uma transformação ética no decorrer do processo. John Travolta segura bem a gradual mudança na personalidade de Schlichtmann, nunca ultrapassando os limites da discrição. Seu trabalho encontra eco em William H. Macy (como seu contador) e Kathleen Quinlan, que também se destaca pelo minimalismo, apesar do fato de apenas Robert Duvall ter sido lembrado pelas cerimônias de premiação (o veterano ator chegou a ser indicado ao Oscar). Em um filme que dá mais importância a seus atores do que a qualquer outro quesito, "A qualquer preço" encontra em seu elenco o maior trunfo.

Pecando por evitar maiores reviravoltas ou grandes cenas dramáticas que fazem a glória dos filmes de tribunal, "A qualquer preço" é um programa que agrada aos fãs do gênero justamente por evitar seus maiores clichês. É um tanto longo demais, mas vale uma conferida.

terça-feira

A OUTRA FACE


A OUTRA FACE (Face/Off, 1997, Touchstone Pictures/Paramount Pictures, 138min) Direção: John Woo. Roteiro: Mike Werb, Michael Colleary. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Steven Kemper, Christian Wagner. Música: John Powell. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Michael Douglas, Jonathan D. Krane, Steven Reuther. Produção: Terence Chang, Christopher Godsick, Barrie M. Osborne, David Permut. Elenco: John Travolta, Nicolas Cage, Joan Allen, Alessandro Nivola, Gina Gershon, Dominique Swain, Nick Cassavettes, Harve Pressnell, Colm Feore, John Carroll Lynch, CCH Pounder, Thomas Jane. Estreia: 27/6/97

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

O normal para um ator depois de ter ganho um Oscar e o respeito de seus pares é dedicar-se a uma carreira sólida, de preferência em filmes sérios e dramaticamente desafiadores. Comprovando sua aversão à normalidade, no entanto, Nicolas Cage resolveu seguir o caminho inverso. Premiado e elogiado por sua atuação no peso-pesado "Despedida em Las Vegas", o sobrinho de Francis Ford Coppola entrou de corpo e alma (mais corpo do que alma) em uma série de filmes de ação, frequentemente considerado pelos intelectuais como um gênero menor. Associando-se profissionalmente ao diretor Michael Bay e emprestando seu prestígio a filmes como o interessante "A rocha" e o óvio "Con Air, a rota da fuga", Cage completou seu ciclo de herói de filmes de ação com o melhor de todos eles, um filmaço capaz de deixar de queixo caído até o mais blasé dos espectadores: "A outra face", dirigido pelo chinês John Woo.

Considerado o mestre dos filmes de ação asiáticos, Woo chegou aos EUA pelas mãos do ator Jean-Claude Van Damme, para quem dirigiu "O alvo", um dos melhores filmes do belga que tencionava ameaçar a hegemonia de Stallone e Schwarzenegger no início dos anos 90. Admirado por nomes como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, o cineasta já chegou à América com um respeitável currículo de nada menos que  25 filmes, dentre os quais algumas pérolas do gênero. Aqueles que assistiram a "O alvo" e gostaram não tinham nem ideia do que os esperava. Com um roteiro estupendo nas mãos - ainda que inverossímil em sua ideia central - Woo construiu uma verdadeira sinfonia onde até mesmo a extrema violência é revestida por uma poesia visual sem precedentes. Um exemplo dessa afirmação? Um longo tiroteio, perto do clímax do filme, quando, ao invés do barulho ensurdecedor de tiros e gritos, ouve-se a versão de Olivia Newton-John para "Over the rainbow". Assim é John Woo!

A trama de "A outra face" - aquela que é inverossímil mas ainda assim não incomoda o público por ser contada com sinceridade e seriedade - é rocambolesca e empolgante. Tendo seu filho assassinado em um atentado contra a sua própria vida, o policial Sean Archer (John Travolta) passa a dedicar-se obsessivamente à caça do criminoso, Castor Troy (Nicolas Cage), estudando cada movimento seu. Quando finalmente consegue alcançá-lo vê seu rival entrar em coma após uma violenta perseguição. Acontece que, antes de ir parar no hospital, Troy plantou uma bomba em um lugar cuja localização só quem sabe é seu irmão, Pollux (Alessandro Nivola). Para tentar impedir a explosão da bomba, a polícia propõe um perigoso jogo a Archer: fazer uma complexa cirurgia de transplante de rosto e, assumindo o lugar de seu inimigo, fazer com que Pollux entregue os detalhes do plano. Mesmo contra a vontade da esposa, Eve (Joan Allen), o detetive aceita a missão quase impossível e vai parar em uma prisão de segurança máxima. Enquanto está lá, porém, o impensável acontece: Troy acorda do coma e, ao saber dos planos da polícia, mata todos os envolvidos na trama e assume o lugar de Sean Archer.


O roteiro de "A outra face" é um primor de ritmo, mal deixando o público respirar entre uma sequência de ação e outra e surpreendendo-o com reviravoltas e surpresas realmente imprevisíveis. Mas o que chama a atenção daquela parcela da audiência que exige algo mais do que simplesmente injeções de adrenalina a cada quinze minutos é a maneira carinhosa com que John Woo trata suas personagens, dando a elas um senso de humanismo raro no gênero. Castor Troy, apesar de ser um criminoso sanguinário, quase pedófilo e debochado, nutre um verdadeiro afeto por Pollux e pelo filho pequeno - a maneira como amarra o cordão de seus sapatos, por exemplo, fala muito sobre sua personalidade. Sean Archer, apesar de ser um ótimo profissional e pai de família exemplar, lida de maneira quase fria e distante com a esposa e a filha Jamie (Dominique Swain, a Lolita da versão de Adrian Lyne), incapaz de lidar com o sentimento de culpa pela morte do filho pequeno. E a forma como John Woo orquestra a relação entre Eve e seu falso marido daria muito pano pra manga em discussões psicológicas. Ao contrário de frear o ritmo alucinante do roteiro, as pausas na correria apenas demonstram o cuidado com que tudo é tratado nas competentes mãos do diretor.

Idealizado como um projeto para a dupla Stallone/Schwarzenegger e posteriormente tendo o produtor Michael Douglas e Harrison Ford como prováveis protagonistas, "A outra face" encontrou em Nicolas Cage e John Travolta a dupla perfeita, especialmente Travolta. Usufruindo do respeito amealhado por seu trabalho em "Pulp fiction", o ator se diverte às pampas, principalmente quando adquire a personalidade do vilão Castor Troy e pode fazer uso de suas expressões canalhas e mau-caráter. Enquanto isso, Cage não tem medo de explorar toda a sua veia de canastrão, abusando das caras e bocas. No meio deles, sobressai mais uma vez a atuação sensível de Joan Allen e da revelação Alessandro Nivola, que constrói um Pollux cheio de sutilezas e olhares discretos. Sensível a seus atores, John Woo jamais os deixa de lado para construir ambiciosas cenas de explosões ou perseguições automobilísticas. E isso faz toda a diferença.

Mesmo com tantos filmes de aventura sendo lançados anualmente - e cada vez com uma quantidade maior de efeitos visuais e sonoros - "A outra face" se mantém como um dos seus exemplares mais perfeitos. Bem escrito, bem dirigido e com dois atores no auge de sua fama nos papéis centrais, é tão excitante em uma revisão quanto o foi em sua estreia.

sábado

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)

Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.


Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.



Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

quarta-feira

GREASE - NOS TEMPOS DA BRILHANTINA


GREASE, NOS TEMPOS DA BRILHANTINA (Grease, 1978, Paramount Pictures, 110min) Direção: Randal Kleiser. Roteiro: Bronté Woodard, adaptado por Allan Carr do musical de Jim Jacobs e Warren Casey. Fotografia: Bill Butler. Montagem: John F. Burnett. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Phil Jefferies/James Berkey. Casting: Joel Thurm. Produção: Allan Carr, Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway, Barry Pearl, Didi Conn. Estreia: 16/6/78

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Hopelessly devoted to you")

Nada como um sucesso atrás do outro... Clássico absoluto entre os musicais dos anos 70, “Grease, nos tempos da brilhantina” foi um dos responsáveis, ao lado de “Embalos de sábado à noite”, de transformar John Travolta em símbolo sexual graças a seu gingado de bailarino. Ao contrário de “Embalos”, no entanto, que tinha a cara de sua época, esta adaptação de um musical da Broadway de autoria de Jim Jacobs e Warren Casey, recorre aos dourados anos 50 para contar uma história de amor açucarada e sem pretensões outras a não ser divertir a plateia durante suas quase duas horas de duração. "Grease" é uma deliciosa sessão da tarde, para ser assistida de preferência com um balde de pipoca, refrigerante no copo e o barulhinho de uma tarde de domingo chuvosa.

A trama se passa em 1959, em uma escola secundarista da Califórnia. Travolta vive Danny Zucko, um playboyzinho que vive cercado de seus amigos metidos a galãs. Sua imagem de conquistador sofre um abalo quando ele reencontra a bela Sandy (Olívia Newton-John, linda e graciosa), uma jovem australiana que ele havia conhecido nas férias e que passa a estudar em sua escola. Cada um deles conta uma versão diferente de sua história de amor e isso dificulta sua relação, principalmente quando a invejosa e liberal Rizzo (Stockard Channing) se intromete entre eles, tentando reconquistar Danny, com quem teve um relacionamento breve.


É inegável que a química entre Travolta e Newton-John é a peça-chave do sucesso do filme, que rendeu milhões nos cinemas pelo mundo afora, mas a trilha sonora, repleta de canções agradáveis e conhecidas também tem seu papel no formidável desempenho do filme do irregular Randal Kleiser. As ritmadas “Summer nights” e “You’re the one that I want”, por exemplo, sobrevivem tranquilamente sem as imagens, assim como as belas “Hopelessly devoted to you” (indicada ao Globo de Ouro) e “There are worst things I could do”, que longe de serem apenas músicas para preencher o tempo, são trabalhos pop de qualidade inegável e que, em conjunto com a caprichada reconstituição de época, fazem de “Grease” um simpático passatempo, quase alienado e por isso mesmo tão fácil de se gostar.

Não há, em "Grease", nenhuma intenção de falar de assuntos sérios ou levantar qualquer tipo de polêmica: até mesmo quando surge uma certa discussão sobre a maneira com que as mulheres eram vistas na época, ela aparece envolta em um bom-humor que logo lhe impede de buscar maiores profundidades. E apesar de algumas feministas terem subido nas tamancas devido ao final do filme - quando Sandy muda de personalidade para conquistar Danny - elas não lembram de que ele também tentou mudar para seduzí-la, envolvendo-se com esportes, em uma sequência bastante engraçada.

No final das contas, "Grease" é um divertido espetáculo feito para encantar os olhos e os ouvidos. E como tal atinge seus objetivos sem muito esforço.

terça-feira

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE


OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (Saturday night fever, 1977, Paramount Pictures, 118min) Direção: John Badham. Roteiro: Norman Wexler, baseado no artigo de Nik Cohn. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: David Rawlins. Música: Bee Gees. Figurino: Patrizia Von Brandenstein. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/George Detitta. Casting: Shirley Rich. Produção executiva: Kevin McCormick. Produção: Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali, Paul Pape, Donna Pescow, Fran Drescher, Martin Shakar. Estreia: 14/12/77

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (John Travolta)

Em 1977, o jornalista Nik Cohn escreveu uma matéria chamada "Tribal rites of the new Saturday night", onde descrevia como jovens entediados e sem maiores perspectivas de futuro tornavam-se pessoas mais divertidas e admiradas quando saiam para dançar nas discotecas dos subúrbios nova-iorquinos. Anos mais tarde, ele confessou que sua "matéria de não-ficção" era pura invenção, mas aí já era tarde e o estrago já estava feito. Adaptado para o cinema com o nome de "Embalos de sábado à noite", seu artigo já havia sido o responsável pelo "boom" das discotecas no mundo todo e transformado a imagem de John Travolta fazendo seus passos de dança vestido com um paletó branco em um ícone inestimável para toda uma geração de cinéfilos.

Desde a primeira cena de "Embalos...", onde somos apresentados ao malemolente Tony Manero, fica impossível dissociar a personagem do ator e da persona John Travolta (já famoso nos EUA devido ao filme "O garoto da bolha de plástico", feito para a TV americana). Dono de um ritmo próprio de andar, com sapatos bem cuidados e uma ginga malandra, Manero é o retrato típico da juventude descrita por Cohn em seu artigo e pelo roteiro de Norman Wexler. Aos 19 anos, trabalhando em uma loja de tintas e sem maiores ambições na vida, ele é apenas mais um filho de uma família de italianos falastrões cujo maior orgulho é o filho padre. Quase ignorado em casa, Manero é praticamente um deus quando, aos sábados, chega na discoteca 2001 Odissey e, na pista de dança, transforma-se no mais desejado dos homens. Egocêntrico e auto-suficiente, ele é, naquele microcosmo, tudo que deveria ser no dia-a-dia mas não consegue devido à sua falta de instrução e interesse.

Tony é, em seus momentos de sub-celebridade, um hedonista, capaz de renegar friamente as investidas da doce Annette (Donna Pescow), apaixonada por ele e disposta a qualquer sacrifício para ser sua parceira de dança ("você transa com elas e elas logo querem te arrastar pra pista de dança", reclama ele, em uma das frases mais luminosas do roteiro). Tony não quer amar, ele quer ser amado e admirado mais do que tudo e por isso, quando encontra a igualmente ambiciosa Stephanie (Karen Lynn Gorney) sua vida sofre uma espécie de revés. Ao contrário do que sempre acontece, dessa vez é ele quem tem de convencê-la a ser seu par no concurso de dança. É ele quem se sente diminuído perante o quase esnobismo dela. E é ele começa a se perceber como uma pessoa sem maiores atrativos além daqueles mostrados ao som da música disco.


A música, aliás, é quase uma personagem central do filme, dirigido por John Badham. As inúmeras canções compostas pelos Bee Gees para ele (desde a clássica "Stayin' alive" dos créditos iniciais até a melancólica "How deep is your love" pro final) comentam a ação tanto quanto linhas de diálogo, dando ao público explicações sobre os sentimentos dos protagonistas e a oportunidade de ouvir uma das trilhas sonoras mais vendidas da história. Subvertendo as regras dos musicais tradicionais, onde as personagens param tudo e começam a cantar, aqui a música faz parte do conjunto, sendo inseparável do roteiro, do figurino antológico e das belas sequências de dança - que transformaram John Travolta em astro e lhe deram uma surpreendente indicação ao Oscar de melhor ator.

De certa forma, no entanto, a indicação de Travolta ao Oscar é a comprovação de que realmente ele é a alma do filme. Ao assistir-se a "Os embalos..." fica difícil acreditar que foi durante suas filmagens que o ator passou por um dos momentos mais tristes de sua vida pessoal: a morte da então namorada Diana Hyland, vítima de câncer. E fica também difícil crer que o diretor queria mostrar as elaboradas coreografias apenas em close (depois de treinar arduamente por meses a fio, Travolta convenceu-o do contrário, para alegria das festas de embalo que se seguiriam mundo afora após o lançamento do filme).

"Os embalos de sábado à noite" tem um roteiro frágil, que não sustenta uma olhada mais detalhada - apesar de tentar se aprofundar em personagens secundários, nunca chega a dar material para seu elenco de apoio. Mas é a cara de seu tempo, um filme sem maiores pretensões que ficou marcado no inconsciente coletivo e também o que mudou a forma como as trilhas sonoras eram vistas no mercado musical. Levando tudo isso em conta - e mais o fato de que inspirou o sucesso da novela global "Dancin' days" - é inegável sua importância, ainda que mais comercial do que artística, à história do cinema de entretenimento.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...