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quinta-feira

O ÚLTIMO JANTAR

O ÚLTIMO JANTAR (The last supper, 1995, Columbia Pictures, 92min) Direção: Stacy Title. Roteiro: Dan Rosen. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Luis Colina. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Linda Burton/Dea Jensen. Produção executiva: David Cooper. Produção: Matt Cooper, Larry Weinberg. Elenco: Cameron Diaz, Ron Eldard, Annabeth Gish, Jonathan Penner, Courtney B. Vance,  Bill Paxton, Ron Perlman, Nora Dunn, Charles Durning, Jason Alexander. Estreia: 08/9/95 (Festival de Toronto)

Poucos gêneros são tão subestimados no cinema quanto a comédia de humor negro: frequentemente incompreendidas pela plateia (mesmo quando incensadas pela crítica), elas acabam sendo relegadas a segundo plano, como um meio-termo entre o pastelão que lota os cinemas e as comédias mais sofisticadas que costumam ganhar um ou outro prêmio da Academia. É justamente nesse nicho de mercado que se situa "O último jantar", pequena pérola lançada no Festival de Toronto de 1995, passou praticamente em branco pelas telas e ainda não teve a sorte de ser descoberta pelo grande público. Em tempos sombrios como o que vivemos, não deixa de ser confortante perceber que ainda existe gente capaz de pensar com clareza e sobriedade sobre os perigos do radicalismo social e político. Tratando o assunto com leveza e imparcialidade, o roteiro de Dan Rosen leva o espectador a questionar as próprias certezas - e de quebra, dá seu tiro de misericórdia com um toque de ironia espetacular, que abala qualquer alicerce politicamente correto.

Dirigido por Stacy Title - que depois deu seguimento à carreira com filmes de terror - "O último jantar" é uma comédia de sutilezas, que aposta basicamente em uma única situação para levar seu humor até as últimas consequências. Quem comanda a trama é um grupo de estudantes universitários de tendências políticas liberais e que dividem uma casa em uma pequena cidade do estado de Iowa que está com os nervos à flor da pele graças ao desaparecimento de uma criança. Inteligentes, articulados e bem informados, os cinco amigos tem o costume de receber para jantar, todos os domingos, pessoas com quem possam discutir assuntos polêmicos e relevantes - e assim manter o pensamento crítico e a mente aberta. Em uma noite particularmente chuvosa, porém, a rotina é quebrada involuntariamente quando o convidado é o desconhecido Zach (Bill Paxton), que deu carona a um deles, Pete (Ron Eldard), em seu caminhão. Durante a refeição, Zach não apenas se mostra totalmente contrário a tudo que eles pensam como também se torna agressivo e violento, o que resulta em um trágico assassinato. A princípio apavorados com a situação, aos poucos os amigos resolvem enterrar o corpo no quintal e esquecer o assunto. Tudo estaria relativamente em paz se o acontecimento não lhes desse uma bizarra ideia: e se, ao invés de apenas conversar com aqueles que tem pensamentos contrários aos seus eles os envenenassem?


A partir daí, o filme de Title vira uma sinistra brincadeira, onde os protagonistas escolhem suas prováveis vítimas entre as criaturas mais conservadoras e desprezíveis da região para tentar, sempre em vão, demovê-las de suas ideias pequenas e salvá-las de uma morte que elas nem sabem que está à espreita. Um padre (Charles Durning) que culpa os homossexuais pela AIDS, um machista radical (Mark Harmon) que prega a supremacia masculina e um feroz ativista contra o meio-ambiente (Jason Alexander) são alguns dos desavisados que caem nas mãos dos cada vez mais justiceiros companheiros de cruzada, que, subitamente, passam a entrar em conflito interno. Considerando que estão indo longe demais, Jude (Cameron Diaz, antes de ser catapultada para a fama) tenta fazer os amigos pararem com as execuções, mas encontra resistência principalmente em Luke (Courtney B, Vance), que considera seus atos como pura justiça. A situação só piora de vez quando, devido ao atraso de seu voo, uma celebridade controversa e extremamente perigosa (Ron Perlman) senta-se à mesa do grupo - e subverte completamente o roteiro da noite.

Ao elaborar um filme que, além de divertir, desperta questionamentos de extrema importância - afinal, o que diferencia os fascistas dos ditos "liberais"? - "O último jantar" dá um passo à frente em comparação com as comédias normalmente acéfalas que normalmente chegam ao mercado. Mesmo que não se aprofunde nos debates que provoque (o que não é sua intenção, diga-se de passagem), o roteiro faz o próprio espectador por em xeque suas convicções e certezas absolutas. Com um humor certeiro e nunca apelativo, o filme encontra na direção eficiente e simples de Stacy Title a comandante ideal - a cineasta jamais tenta sobrepujar sua história com malabarismos desnecessários de câmera ou artifícios de edição. Sua condução da trama é simples e clássica, contrastando inteligentemente com os tons surreais do roteiro. Com um elenco coeso - o resto do grupo de protagonistas é formado pelo casal Paulie (Annabeth Gish) e Marc (Jonathan Penner) - e um tema contundente, "O último jantar" deveria ser obrigatório.

domingo

COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA

COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA (Things you can tell just by looking at her, 2000, Franchise Pictures, 109min) Direção e roteiro: Rodrigo Garcia. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Amy E. Duddleston. Música: Edward Shearmur. Figurino: George L. Little. Direção de arte/cenários: Jerry Fleming/Betty Berberian. Produção executiva: Elie Samaha, Andrew Stevens. Produção: Jon Avnet, Lisa Lindstrom, Marsha Oglesby. Elenco: Glenn Close, Cameron Diaz, Holly Hunter, Calista Flockhart, Kathy Baker, Ammy Brenneman, Valeria Golino, Gregory Hines, Matt Craven. Estreia: 22/01/00 (Festival de Sundance)

Filmes que tratam de mulheres interessantes e complexas são artigo raro em uma Hollywood cujos olhos estão sempre voltados para as caixas registradoras - e os dólares que as enchem com produções anabolizadas e repletas de efeitos visuais e machões dispostos a salvar o mundo de ameaças alienígenas ou terroristas. Por essa razão é um oásis encontrar uma produção como "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela", um drama de visão essencialmente feminina que, é, surpreendentemente, escrita e dirigida por um homem, Rodrigo Garcia. Filho do grande romancista colombiano Gabriel Garcia Marquez e dono de uma sensibilidade única quando se trata da compreensão de um universo oposto ao seu, Garcia - que posteriormente exercitaria tal característica em episódios da série "A sete palmos" e no subestimado "Passageiros" (2008) - constrói, em seu primeiro filme, uma narrativa doce e compassiva que substitui o tradicional roteiro com início, meio e fim por uma composição de histórias simples e discretas que, juntas, formam uma bela paisagem, capaz de emocionar e fazer pensar.

O filme começa quando uma equipe da polícia, liderada pela detetive Kathy Faber (Amy Brenneman), encontra o corpo de uma mulher, aparentemente suicida, em uma casa do subúrbio de Los Angeles. Em seguida, o roteiro dá um pulo para apresentar a dra. Elaine Keener (Glenn Close), uma médica solteira que mora com a mãe idosa e doente e que está apaixonada - sem muitas esperanças - por um colega de trabalho. Para acalmar sua tensão quanto ao assunto, ela chama uma cartomante, a jovem Christine (Calista Flockhart), que não lhe dá as notícias que ela esperava. A história seguinte acompanha o drama de Rebecca Waynon (Holly Hunter), gerente de um banco que se descobre grávida do amante casado, Robert (Gregory Hines) e passa a questionar suas escolhas em conversas com Nancy (Penelope Allen), uma mendiga com quem encontra constantemente - dúvidas essas que a levam aos braços de Walter (Matt Craven), um colega de trabalho. Logo em seguida, o público é apresentado à Rose (Kathy Baker), uma escritora de livros infantis, separada e mãe de um adolescente, que se sente irresistivelmente atraida pelo novo vizinho, o anão Albert (Danny Woodburn), e redescobre a sensação de estar apaixonada. A cartomante do primeiro episódio, Christine, volta a aparecer quando torna-se protagonista de uma triste história de amor, que acompanha seus cuidados com a namorada, Lilly (Valeria Golino), que está em fase terminal de câncer. Elas são vizinhas de Walter, o amante ocasional de Rebecca, que, pai de uma menina cega, se envolve também com a professora dela, Carol (Cameron Diaz), que, mesmo sem enxergar, é capaz de perceber com extrema clareza a vida como ela é, dividindo suas conclusões com a irmã, a detetive Kathy da primeira cena, uma mulher que dedicou sua vida a cuidar da irmã e da carreira e que somente depois dos trinta anos começa a sentir falta de uma vida só para si.


Mesmo que distingua claramente as histórias entre si, inclusive com títulos separando-as, o roteiro de "Coisas" não se furta a continuamente fundí-las, de forma sutil ou mais explícita - caso da presença da cartomante Christine na casa da dra. Keener logo no começo do filme. Tais ligações, longe de soarem forçadas ou criadas exclusivamente para incluírem a produção na linhagem de "filmes-coral" que pipocavam à sua época - no qual o mais bem-sucedido foi o potente "Magnólia", de Paul Thomas Anderson - dão a ele uma consistência de unidade dramática bastante sólida, principalmente por sua opção em não dar necessariamente a cada um dos segmentos uma estrutura engessada que mutile do espectador a possibilidade de completar as lacunas com sua própria sensibilidade. Desse modo, é o público que, de posse das informações essenciais à cada personagem, preenche suas histórias, dando a elas o desfecho (ou até mesmo o início) mais apropriado a cada uma. Mostrando de cada uma dessas (valentes) mulheres apenas um recorte de suas vidas muitas vezes solitárias e melancólicas, o roteiro de Garcia - que homenageia o pai citando nominalmente sua obra-prima "Cem anos de solidão" em uma cena com Carol - dá a suas atrizes presentes inestimáveis, com sequências de uma beleza dolorosa e pungente onde o silêncio muitas vezes fala mais do que os diálogos.

E para defender tais mulheres - frágeis, corajosas, românticas, estoicas e assustadoramente reais - o diretor conta com um elenco em dias inspirados. Se Glenn Close e Holly Hunter não precisam provar nada para ninguém há um bom tempo - e Hunter se destaca magistralmente com uma personagem tão rica em nuances que merecia um filme só para si - é uma surpresa ver atrizes como Calista Flockhart e Cameron Diaz se distanciando tanto (e com tanto desapego) das personas que marcaram suas carreiras: Flockhart deixa de lado o jeitão moleque de sua "Ally McBeal" televisiva para criar uma jovem sofrida e apaixonada - às vésperas de perder a mulher que ama - sem os trejeitos que lhe deram notoriedade; e Diaz, famosa por suas comédias românticas e/ou pastelão, interpreta com delicadeza uma jovem cega que, a despeito do senso de humor e do defeito físico, consegue enxergar nitidamente todos os recônditos da alma humana (como deixa claro em seu discurso final, de uma poesia rara no cinema americano).

E se não bastasse tantas qualidades (o roteiro poético, a direção segura, o elenco impecável), "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela" ainda tem um golpe de mestre quase invisível, mas intrigante e devastador, na figura da misteriosa suicida da primeira sequência: vivida sem uma linha sequer de diálogo por Elpidia Carrilo, ela atravessa todo o filme em silêncio, cruzando com as protagonistas em momentos aparentemente banais, sempre com uma atmosfera de tristeza e dor a seu redor, como que prenunciando seu triste destino. É ela, em sua mais absoluta quietude, que dá unidade ao filme, como uma espécie de aviso sobre o que pode acontecer com qualquer uma daquelas mulheres tão intensas e que escondem tal turbilhão sob um manto de placidez.

Um filme pouco conhecido e comentado, "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela" - um título apropriado e sugestivo, ainda que pouco comercial - é uma das produções mais interessantes do final dos anos 90, e uma das investigações mais sensíveis sobre a alma feminina até o advento de "As horas", dois anos depois. Uma pérola a ser descoberta.

quarta-feira

UMA PROVA DE AMOR

UMA PROVA DE AMOR (My sister's keeper, 2009, Curmudgeon Films/Gran Via Productions, Mark Johnson Pictures, 109min) Direção: Nick Cassavetes. Roteiro: Nick Cassavetes, Jeremy Leven, romance de Jodi Picoult. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Jim Flynn, Alan Heim. Música: Aaron Zigman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Maggie Martin. Produção executiva: Toby Emmerich, Merideth Finn, Stephen Furst, Mark Kaufman, Diana Pokorny, Mendell Tropper. Produção: Scott L. Goldman, Mark Johnson, Chuck Pacheco. Elenco: Cameron Diaz, Abigail Breslin, Alec Baldwin, Jason Patric, Joan Cusack. Estreia: 26/6/09

Ao contrário de seu pai, um dos mais importantes cineastas realmente independentes do cinema americano dos anos 70, quando o conceito de cinema independente era bem diferente daquele assumido a partir da década de 90, Nick Cassavetes nunca teve medo de abraçar o cinema comercial. Enquanto seu progenitor - John, o marido de Mia Farrow em "O bebê de Rosemary" e de Gena Rowlands na vida real - construiu uma filmografia baseada principalmente na angústia psicológica de personagens bem distantes daqueles herois que lotavam as salas de cinema, Nick assinou obras que dificilmente podem ser consideradas ousadas ou profundas, como "Diário de uma paixão", baseado em romance de Nicholas Sparks e "Alpha dog", inspirado em um caso real de delinquência juvenil. Apesar dessa preferência por projetos menos autorais, porém, uma característica é impossível de ignorar no cineasta mais novo do clã Cassavetes: a sensibilidade e o olhar humano para seus personagens. Isso fica evidente, por exemplo, em "Uma prova de amor", lançado em 2009. Mesmo com base em um livro - escrito por Jodi Picoult - banhado de clichês e sentimentalismos, ele conseguiu fazer um filme que dribla razoavelmente o previsível e é capaz de emocionar sem soar piegas. E mais admirável ainda: consegue fazer de Cameron Diaz uma atriz razoável.

A trama é de uma tristeza ímpar: a família Fitzgerald, formada pelo casal Sara (Cameron Diaz) e Brian (Jason Patric) - ela advogada que passou a dedicar-se ao lar e ele bombeiro - e pelos dois filhos Jesse e Kate, sofre um abalo emocional quando a menina é diagnosticada com um tipo raro de leucemia. Sabendo que o único tratamento que pode ser bem-sucedido para salvar a vida da menina é um transplante - e depois de chegar à triste constatação de que ninguém é compatível com ela - Sara resolve apelar para a última solução possível e ter um novo bebê, com o objetivo puro e simples de utilizar suas células-tronco e outros órgãos para manter Kate viva. Onze anos mais tarde, depois de ter passado por vários procedimentos médicos que ajudaram sua irmã - e às vésperas de um transplante que pode lhe custar a saúde para sempre - a jovem Anna (Abigail Breslin) entra na justiça para solicitar emancipação médica. Ela pede ajuda do advogado Campbell Alexander (Alec Baldwin) no caso e vai enfrentar no tribunal sua própria mãe, que vai tentar obrigá-la a cumprir seu destino. Enquanto isso, Kate (Sofia Vassilieva) relembra com dor a trágica história de amor com outro jovem enfermo, Taylor (Thomas Dekker).


Inicialmente pensado como um projeto para as irmãs Dakota e Elle Fanning, "Uma prova de amor" acabou mudando suas jovens atrizes principais quando Dakota recusou-se a raspar a cabeça. O que poderia ser um problema para os produtores, porém, transformou-se em uma bênção: com Sofia Vassilieva e Abigail Breslin (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Pequena Miss Sunshine") nos papéis das irmãs Fitzgerald, o filme de Cassavetes não perde nada em força dramática e ainda acaba se aproximando mais da plateia do que as extremamente lindas Fanning. Abigail Bresling, com seu jeitinho desprotegido e tímido, rouba a cena sem fazer muito esforço, e Sofia Vassilieva demonstra uma coragem intensa ao entregar-se com tanta alma a uma personagem equilibrada entre o estoicismo, o desespero, a resiliência e o amor - é especialmente comovente a cena em que ela encontra-se com Taylor para um baile no hospital e encontra os olhos emocionados do pai (um Jason Patric contido e eficiente). Inteligente em contar a história sob diferentes pontos de vista, dando a cada personagem a chance de acrescentar novos ângulos à uma trama de extrema melancolia, o roteiro ainda consegue o feito de apresentar uma reviravolta em seu terço final que muda a perspectiva de qualquer um na plateia - e pode levar mais facilmente ainda às lágrimas.

Alterando o final do livro - o que causou a fúria dos fãs mais radicais - e concentrando sua atenção na complexa dinâmica familiar dos Fitzgerald a partir da recusa de Anna em ser a doadora que pode salvar a vida da irmã, "Uma prova de amor" é uma adaptação que, independentemente de sua origem, é uma obra hábil em manipular a emoção do público e levantar um questionamento válido em tempos de avanços médicos. Porém, mais do que isso, é um drama poderoso, dirigido com seriedade e interpretado com sinceridade e paixão. Para os fãs do gênero, um programa imperdível.


terça-feira

GANGUES DE NOVA YORK

GANGUES DE NOVA YORK (Gangs of New York, 2002, Miramax, 167min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan, estória de Jay Cocks. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferreti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Maurizio Grimaldi, Michael Hausman, Michael Ovitz, Bob Weinstein, Rick Yorn. Produção: Alberto Grimaldi, Harvey Weinstein. Elenco: Daniel Day-Lewis, Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Liam Neeson, John C. Reilly, Jim Broadbent, Henry Thomas, Brendan Gleeson, Gary Lewis, Stephen Graham, Eddie Marsan, Cara Seymour. Estreia: 09/12/02

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("The hands that built America"), Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Martin Scorsese), Canção ("The hands that built America") 

Um dos projetos de estimação do cineasta Martin Scorsese, "Gangues de Nova York" começou a ser gerado ainda nos anos 70, quando o diretor ainda era uma jovem promessa, vindo do sucesso de crítica de seu "Taxi driver". Mais de duas décadas depois - e após uma sucessão de altos e baixos e uma bem-sucedida parceria artística com Robert DeNiro - parecia-lhe que enfim era chegada a hora de mostrar nas telas um pouco das origens da mais famosa cidade do mundo, com toda a sua violência sanguinária substituindo o glamour e o charme da metrópole tão querida por ele. Com base em uma estória do roteirista Jay Cocks desenvolvida por anos e anos, surgiu então um filme que, a despeito de todos os talentos envolvidos e das expectativas geradas por tanta espera, não atinge todo o seu potencial. Mesmo com um orçamento generoso de mais de 80 milhões de dólares, falta a ele uma alma e um foco narrativo mais atraente do que uma simples história de vingança tendo como pano de fundo as cruéis batalhas que pavimentaram o solo da Grande Maçã durante a Guerra de Secessão.

Obcecado pela história de Nova York desde que descobriu, no início de 1970, um livro escrito por Herbert Asbury, Scorsese dedicou tempo, paixão e energia a descobrir uma forma de contar cinematograficamente parte de uma longa e complicada história envolvendo os conflitos entre americanos protestantes e irlandeses católicos que encharcavam de sangue as calçadas da cidade com o objetivo de controle. Foi somente na década de 90 que surgiu a ideia de concentrar a trama em um personagem real - Bill "The Butcher" Poole - e, modificando alguns detalhes de sua biografia (mais significativamente a data de sua morte, ocorrida antes dos fatos mostrados no filme), envolvê-lo em uma história de vingança familiar. Tomava forma, assim, a estrutura final de uma obra complicada, cara e que se tornou um dos lançamentos mais ansiosamente aguardados de 2001 - e que, devido a constantes atrasos em seu cronograma de filmagens, só chegou às telas no final de 2002, dividindo a opinião do público, da crítica e até das cerimônias de premiação: indicado a dez Oscar, "Gangues de Nova York" testemunhou de mãos vazias a festa de "Chicago" e "O pianista", mesmo tendo sido agraciado pelos Golden Globes de melhor ator (Daniel Day-Lewis) e canção (a bela "The hands that built America", da banda irlandesa U2).


Interpretado com a dedicação habitual por Daniel Day-Lewis - em uma atuação que empresta um tom caricato a um personagem de nuances trágicas e épicas - Bill, o Açougueiro é o líder de uma das gangues que controlam um dos distritos de Nova York na metade do século XIX. Durante uma das sangrentas batalhas entre elas, ele não hesita em matar cruelmente um rival, o irlandês "Priest" Vallon (Liam Neeson), sob os olhos do filho deste, uma criança que, órfã e criada em um orfanato católico, cresce com o desejo de vingança como principal objetivo de vida. Dezesseis anos mais tarde, o menino, chamado Amsterdam (e na pele de Leonardo DiCaprio em sua primeira colaboração com Scorsese, de quem se tornaria parceiro artístico constante) volta às ruas de sua cidade e a encontra sob uma constante tensão racial e social, com os políticos tentando de qualquer maneira conquistar os votos dos imigrantes, que são tratados como seres insignificantes por gente com Bill. Em sua gana de vingar a morte do pai, Amsterdam se aproxima do temido líder e se torna seu homem de confiança - até ser traído inesperadamente e ser obrigado a enfrentar seu inimigo em plena Revolta do Alistamento (quando a comunidade pobre, inconformada com o alto custo da taxa que liberava os jovens do alistamento militar).

Tecnicamente impecável, com uma reconstituição de época brilhante - as filmagens aconteceram na Cinecitta, na Itália - e a direção sempre vigorosa e detalhista de Scorsese, "Gangues de Nova York"  é um superespetáculo visual, repleto de sequências criativas, fortes e marcantes, mas infelizmente derrapa nas suas boas intenções. O roteiro - co-escrito pelo oscarizado Steven Zaillian e por Kenneth Lonergan, conhecido por seus filmes independentes - falha em conectar seus protagonistas, negando ao público a chance de se deixar envolver pela vingança de Amsterdam ou compreender a contento todas as nuances da história da cidade. Até mesmo a inclusão de uma desnecessária personagem feminina, a punguista Jenny Everdeane (a sempre insossa Cameron Diaz, nome imposto pelos produtores para incrementar as chances comerciais do filme) soa como uma tentativa desastrada de aliviar a violência do enredo, com um romance também pouco convincente. Indeciso entre narrar batalhas sangrentas, um drama familiar ou uma história de amor, Scorsese acaba por ficar no meio-termo em todas as frentes, prejudicando tanto o ritmo quanto a profundidade daquela que poderia ser a sua obra-prima. Para isso colabora também a atuação de Leonardo DiCaprio - que no mesmo ano protagonizou o divertido "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg: apesar de elogiado por boa parte da crítica, o jovem ator não consegue transmitir, em seu trabalho, todas as possibilidades de seu personagem.

No entanto, apesar dos pesares, "Gangues de Nova York" é um típico Martin Scorsese, o que faz dele programa obrigatório para qualquer cinéfilo. Mesmo longe de tudo que poderia ser - em parte porque o orçamento não comportou toda a grandeza do roteiro final - o filme tem qualidades em número mais do que suficiente para agradar a quem procura uma produção caprichada, com bons atores e comandada por um cineasta cuja paixão transpira em cada fotograma.

quinta-feira

O AMOR NÃO TIRA FÉRIAS


O AMOR NÃO TIRA FÉRIAS (The holiday, 2006, Columbia Pictures/Universal Pictures, 138min) Direção e roteiro: Nancy Meyers. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Joe Hutsching. Música: Hans Zimmer. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Cindy Carr, David Smith. Produção executiva: Suzanne Farwell. Produção: Bruce A. Block, Nanvy Meyers. Elenco: Cameron Diaz, Kate Winslet, Jude Law, Jack Black, Edward Burns, Eli Wallach, Rufus Sewell, John Krasinski. Estreia: 08/12/06

Talvez a maior qualidade dos filmes dirigidos por Nancy Meyers seja a facilidade com que seus roteiros conseguem soar realistas mesmo quando suas personagens passam por situações extremas ou surreais. Foi assim com "O que as mulheres gostam", estrelado por Mel Gibson e Helen Hunt. Foi assim com "Alguém tem que ceder", que deu a Diane Keaton uma indicação ao Oscar de melhor atriz. E é assim também com "O amor não tira férias", uma deliciosa comédia romântica que baixa a faixa etária dos habituais protagonistas de sua filmografia para falar sobre amor, decepções e solidão com bom humor e delicadeza. Fracasso injusto de bilheteria nos EUA, onde nem pagou seu orçamento bastante alto de 85 milhões de dólares, o filme de Meyers diverte e emociona na medida certa e só peca em estender-se demais (característica constante da filmografia da cineasta).

Divindo seu roteiro em dois continentes diferentes, Meyers conta duas histórias simultaneamente, sem perder o fio da meada em nenhuma das duas, principalmente porque conta com atores sensacionais como Kate Winslet e Jude Law para equilibrar a tendência para a canastrice de seus companheiros de cena, Cameron Diaz e Jack Black, que usam e abusam de caretas e das características que parte da crítica louvou levianamente em seus inícios de carreira. Diaz interpreta Amanda Woods, que trabalha em Hollywood criando trailers para filmes de sucesso. Revoltada com as traições do namorado Ethan (Edward Burns), ela rompe o relacionamento e, buscando uma viagem de férias do trabalho e de tudo à sua volta, encontra, em um site da Internet, a possibilidade de trocar de casa com a britânica Iris Simpkins (Kate Winslet com ótimo timing cômico), que mora em uma choupana no interior da Inglaterra. Arrasada com o iminente casamento do amor de sua vida - e chefe - Jasper Bloom (Rufus Sewell), ela vê na chance de mudar de país por uma temporada a saída para sua depressão. Enquanto Amanda fica chocada com a simplicidade da casa de Iris o contrário acontece quando a inglesa entra na mansão da americana e suas vidas irão se transformar sem que elas esperem: Amanda se apaixona pelo irmão de Iris, o charmoso Graham (Jude Law) e Iris se encanta com o compositor de trilhas sonoras Miles (Jack Black).


De forma leve e carinhosa, o roteiro de Meyers desenha suas personagens sem forçar situações, proporcionando a seus atores cenas com deliciosos diálogos, repletos de citações à cultura contemporânea, em especial em relação ao cinema (a ponta divertidíssima de Dustin Hoffman é um claro exemplo disso). Mesclando romance com uma interessante subtrama que envolve um veterano cineasta da antiga Hollywood vivido pelo grande Eli Wallach, a história das duas mulheres que precisam sair de suas zonas de conforto para encontrar a felicidade e um novo caminho para suas vidas encontra em Cameron Diaz e Kate Winslet as intérpretes ideais. Se Diaz não faz mais do que desfilar pelas cenas com um certo overacting, a bela Winslet demonstra que nem só de heroínas trágicas vive sua carreira, enriquecendo de nuances a personagem que lhe cabe e conseguindo inclusive deixar que Jack Black seja menos irritante do que na maioria de seus trabalhos anteriores. E Jude Law nem precisa fazer muito esforço para conquistar a plateia já em sua primeira cena como o tímido Graham.

Produzido com o capricho habitual das obras da diretora, "O amor não tira férias", apesar do título babaca é uma comédia romântica capaz de agradar a todos os fãs do gênero e ainda consegue ser inteligente, charmosa e nostálgica. Terno e sensível, é de deixar qualquer um com um sorriso estampado no rosto.

quarta-feira

EM SEU LUGAR

EM SEU LUGAR (In her shoes, 2005, 20th Century Fox, 130min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Susannah Grant, romance de Jennifer Weiner. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Lisa Zeno Churgin, Craig Kitson. Música: Mark Isham. Figurino: Sophie De Rakoff. Direção de arte/cenários: John Warnke/Teresa Visinare. Produção executiva: Tony Scott. Produção: Lisa Ellzey, Carol Fenelon, Curtis Hanson, Ridley Scott. Elenco: Cameron Diaz, Toni Collette, Shirley MacLaine, Mark Feuerstein, Eric Balfour, Richard Burgi. Estreia: 14/9/05 (Festival de Toronto)

Definitivamente Curtis Hanson não é um cineasta que gosta de se repetir. Depois do merecido sucesso de crítica e público de sua obra-prima "Los Angeles, cidade proibida" - pelo qual chegou a concorrer ao Oscar - ele enveredou pela comédia dramática "Garotos incríveis" - adaptado de um romance de Michael Chabon e estrelado por grande elenco encabeçado por Michael Douglas - e pelo drama musical "8 mile, rua das ilusões", responsável pela estreia do rapper Eminem no cinema. E quem achava que sua versatilidade tinha chegado a seu ápice deve ter ficado de queixo caído com seu projeto seguinte: a adaptação de "Em seu lugar", livro de Jennifer Weiner que obteve grande êxito de vendas nos EUA e que, para surpresa de todos, é um perfeito exemplo daquilo que os americanos chamam de "chick-lit" e o resto do mundo de "livro de mulherzinha". Sim, o homem que narrou a violenta história de corrupção desbaratada pelo truculento Bud White e a trajetória de um cantor de rap rumo à fama agora conta a história de duas irmãs de personalidades opostas que precisam aprender a lidar com suas diferenças.

O primeiro mérito de Hanson em "Em seu lugar" foi a escolha da australiana Toni Collette para um dos principais papéis. Extremamente talentosa e rica de nuances, Collette chega a humilhar sua colega de cena, a fraca e careteira Cameron Diaz, que usa e abusa (no mau sentido) de todas as armas que lhe deram a posição (exagerada) de destaque dentro da indústria. Enquanto Collette utiliza de sutileza para transmitir seu recado, Diaz frequentemente cai nas armadilhas do roteiro, deixando sua personagem ainda mais chata do que na trama concebida por Weiner - e adaptada pela ótima Susannah Grant, que concorreu ao Oscar por "Erin Brockovich, uma mulher de talento". Na história que o filme conta, as duas são irmãs diferentes como a água e o vinho. Rosie (Collette) é uma bem-sucedida advogada, séria, responsável e dedicada que não dá sorte no amor enquanto Maggie (Diaz) passa seus dias e noites fazendo festas, bebendo e traçando qualquer homem que passe à sua frente. Um desses homens, porém, acabará sendo o culpado por um sério rompimento entre as duas, quando Maggie seduz o namorado da irmã. Furiosa - com toda a razão - Rosie expulsa a irmã de seu apartamento e vai seguir a vida. Maggie, sem rumo, acaba descobrindo que sua avó, Ella (Shirley MacLaine, ótima como sempre) está viva, ao contrário do que seu pai alega, e vai morar com ela na Flórida. Enquanto Rosie se envolve com um colega de firma, Simon (Mark Feuerstein), Maggie é incentivada pela avó a recomeçar a vida, trabalhando, mantendo-se sóbria e buscando a reconciliação com a irmã.



Apesar de fazer parte de uma linhagem menos nobre dentro de Hollywood - os filmes feitos para um público feminino, sem maiores ambições que não divertir a audiência por duas horas - "Em seu lugar" tem a seu favor a seriedade com que Curtis Hanson o trata. A relação entre Maggie e Rosie - ponto crucial da trama - é mostrada sem sentimentalismo barato, assim como os fantasmas do passado das irmãs, que retorna com o reaparecimento de sua avó. Apesar de estender-se demasiadamente - 130 minutos é quase um teste à paciência do público - o filme de Hanson mantém seu interesse por quase todo o tempo, pecando apenas por demorar demais em desenvolver as novas vidas das protagonistas quando separadas. A crise no relacionamento entre Rosie e Simon, por exemplo, não convence o bastante, apesar dos esforços do casal de atores. E não deixa de ser um tanto irritante a personagem de Cameron Diaz, que aborrece o espectador com sua absoluta falta de sensibilidade e respeito para com as pessoas à sua volta - falha do roteiro em explicar convincentemente seus motivos ou falha da atriz, incapaz de maiores voos de interpretação?

No cômputo final, "Em seu lugar" é um entretenimento de qualidade, dirigido com competência e que dá a oportunidade de rever Shirley MacLaine e aplaudir mais uma vez o talento de Toni Collette. Certamente agrada seu público-alvo, mas esbarra em suas próprias limitações temáticas. Vindo de um cineasta tão criativo quanto Hanson não deixa de ser um tanto frustrante.

terça-feira

UM DOMINGO QUALQUER

UM DOMINGO QUALQUER (Any given sunday, 1999, Warner Bros, 150min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, John Logan, história de John Logan e Daniel Pyne. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Stuart Levy, Tom Nordberg, Keith Salmon, Stuart Waks. Música: Richard Horowitz, Paul Kelly. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Ron Reiss, Ford Wheeler. Produção executiva: Richard Donner, Oliver Stone. Produção: Dan Halstead, Lauren Shuler Donner, Clayton Towsend. Elenco: Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, Jamie Foxx, Anne-Margret, Charlton Heston, James Woods, LL Cool J, Matthew Modine, Lauren Holly, Aaron Eckhart. Estreia: 22/12/99

Oliver Stone pode ser considerado o mais americano dos cineastas. Basta dar uma olhada para trás em sua filmografia para constatar sua obsessão com temas intimamente ligados ao interesse de seu país natal. Filmes como “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” versavam sobre a guerra do Vietnã. “JFK” contava a conspiração que culminou na morte do presidente John Kennedy e “Assassinos por natureza” brincava com a fascinação pela violência – talvez seu filme com maior alcance universal. Em “Um domingo qualquer” mais uma vez Stone utiliza um tema tipicamente ianque – o futebol americano – para exibir sua técnica invejável, mesmo que para contar uma história sem maiores novidades.

Al Pacino (em mais uma de suas atuações nervosas) vive Tony D’Amato, o técnico do Miami Sharks, um time que anda em uma maré de derrotas consecutivas. Não bastasse os problemas em campo, como o acidente com o capitão do time (um surpreendente Dennis Quaid), ele ainda tem que enfrentar a pressão da dona do time, a ganaciosa Christina Pagliacci (Cameron Diaz canastra ao extremo), que precisa de uma vitória para acalmar seus investidores e a arrogância do novo astro do time, o talentoso mas arredio Will Beamean (Jamie Foxx, espetacular).




Ao situar sua trama em um terreno praticamente desconhecido do público não-americano, Stone acaba perdendo muito da identificação que talvez pudesse ambicionar com os demais espectadores. Apesar de muitas situações serem plenamente similares com outros esportes – e os personagens-clichês abundam, desde o médico mau-caráter vivido por James Woods à esposa ambiciosa do jogador afastado, interpretada por Lauren Holly – o filme ainda tem uma personalidade extremamente nacionalista que incomoda mais do que agrada. O inegável talento de Stone, no entanto, deixa tudo mais atraente ao consumidor normal. Tudo que o diretor se acostumou a entregar à platéia está em doses quase exageradas.

A fotografia realista de Salvatore Totino, a edição alucinada e o desenho de som acachapante fazem com que se tenha a impressão de estar no meio do gramado, junto com os jogadores. O ritmo, alucinante em alguns momentos e quase contemplativo em outros, pode deixar os mais sensíveis tontos - e Stone nem se importa em mostrar um jogador perdendo um olho durante um jogo ou esportistas cheirando cocaína e fazendo sexo com prostitutas em festas regadas à álcool e drogas. As metáforas estão por toda parte – a citação ao clássico “Ben-hur” chega ao requinte de contar com o próprio astro do filme, Charlton Heston, em participação especial – e o trabalho de Pacino, Foxx e Quaid equilibram como podem os exageros histriônicos de Cameron Diaz. O final chega perto do clichê, mas espertamente consegue fugir dele com classe e ironia.

“Um domingo qualquer” não é nem de longe o melhor trabalho de Oliver Stone mas tem qualidades suficientes para garantir o interesse por suas longas duas horas e meia. Basta ter um pouco de paciência.

quinta-feira

QUERO SER JOHN MALKOVICH


QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99

3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original


Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vem à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton - grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de apenas alguns minutos de "Quero ser John Malkovich", o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do então estreante Spike Jonze (egresso dos videoclipes e visto como ator em "Três reis") passa longe do trivial e, se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma das mais alvissareiras estreias do cinema americano de todos os tempos.

John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.


Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou previsível. Desde os diálogos surreais - o documentário sobre a criação do 7 1/2º andar beira a perfeição de um pesadelo - até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que se está diante de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.

"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias simples oferecem a cada lançamento. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.

sexta-feira

QUEM VAI FICAR COM MARY?


QUEM VAI FICAR COM MARY? (There's something about Mary, 1998, 20th Century Fox, 119min) Direção: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Roteiro: Peter Farrelly, Bob Farrelly, Ed Decter, John J. Strauss, história de Ed Decter, John J. Strauss. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Jonathan Richman. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Arlan Jay Vetter/Scott Jacobson. Produção executiva: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Produção: Frank Beddor, Michael Steinberg, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Cameron Diaz, Matt Dillon, Ben Stiller, Richard Jenkins. Estreia: 15/7/98

Às vezes, para se divertir no escurinho do cinema, é preciso abdicar de um senso crítico mais severo e de qualquer resquício de pudores. É o caso de "Quem vai ficar com Mary?", uma comédia tão despudorada e politicamente incorreta que chega a ser difícil de acreditar que tenha rendido mais de 170 milhões de verdinhas nos EUA, um país merecidamente famoso por seus hipócritas pruridos morais. Ao fazer piada com qualquer ser humano que não seja branco, anglo-saxão, protestante, heterossexual ou com uma saúde perfeita, o filme dos irmãos Farrelly não deixa pedra sobre pedra. E é um dos mais divertidos da década de 90.

O filme começa nos anos 80, quando o tímido estudante Ted (Ben Stiller) finalmente consegue realizar seu maior sonho: levar a bela Mary (Cameron Diaz) ao baile de formatura. Porém, depois de um constrangedor acidente no banheiro da casa da garota, ele perde notícias da beldade. Anos depois, ainda sofrendo de saudade e paixão recolhidas, ele tem a ideia de contratar um detetive particular para encontrá-la. O escolhido é o mau-caráter Healy (Matt Dillon), que também se apaixona pela moça, um doce de pessoa que não tem sorte no amor. Aos poucos, Ted tenta reconquistá-la, lutando contra o atrapalhado detetive e inúmeros outros fãs da jovem.

Na verdade, a pífia história de "Quem vai ficar com Mary?" serve apenas de pano de fundo para uma sucessão de piadas engraçadíssimas, que variam do sofisticado humor irônico ao mais deslavado pastelão. Ao apelar para praticamente todo tipo de piada, o roteiro dos irmãos Farrelly não deixa absolutamente nada escapar, com tiradas visuais hilárias e diálogos espirituosos e sem o menor temor em ofender as minorias - que, a julgar pelo enorme sucesso do filme, também lotaram as salas de cinema. No entanto, é preciso afirmar que, mesmo que tivesse um roteiro genial, o filme não teria sido tão bem-sucedido se não contasse com o ótimo elenco escolhido pelos cineastas.

 Enquanto Ben Stiller exercita seu humor já demonstrado em outras ocasiões, são Cameron Diaz e Matt Dillon (então um casal fora das telas) que surpreendem, exibindo um senso de humor insuspeitos. Dillon, brincando com sua imagem de galã, é quem mais se destaca, utilizando um charme canastrão que conquista o público logo em sua primeira cena. Suas cenas com o cãozinho de Mary são de chorar de rir, assim como seus diálogos absurdos. E que atire a primeira pedra quem nunca riu com a infame sequência do "gel de cabelo" de Mary, destinada a antológica desde sempre. Recomendado para curar qualquer mau-humor, "Quem vai ficar com Mary?" é o antídoto perfeito para a insuportável onda do politicamente correto que tomou conta do planeta nos anos 90.

quarta-feira

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA (A life less ordinary, 1997, Channel Four Films/Polygram Filmed Entertainment, 103min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: David Arnold. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Marcia Calosio. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Cameron Diaz, Ewan McGregor, Ian Holm, Holly Hunter, Delroy Lindo, Dan Hedaya, Stanley Tucci, Tony Shalhoub, Timothy Olyphant. Estreia: 24/10/97

Robert Lewis (Ewan McGregor) é um sujeito de pouca sorte. Desacreditado em suas tentativas de tornar-se escritor de um romance trash, ele, no mesmo dia, é abandonado pela namorada (que o deixa pelo professor de aeróbica) e demitido do emprego de faxineiro de uma empresa (sendo substituído por um robô). Indignado com sua situação desesperadora, ele invade o escritório de seu chefe e, ao perceber que nada fará o frio empresário mudar de ideia a respeito de sua dispensa, faz a única coisa que lhe passa na cabeça: sequestra sua filha, a dondoca Celine Naville (Cameron Diaz). A moça, revoltada com o fato de ser obrigada a trabalhar para pagar por seus luxos, une-se então a Robert para arrancar dinheiro de seu pai. O que os dois jovens nem de longe sonham, porém, é que dois anjos bastante atrapalhados - O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) - tem a difícil missão de fazê-los se apaixonarem um pelo outro, para que não sejam obrigados a viver na Terra pra sempre.

Com essa premissa de novela das sete, a dupla Danny Boyle (diretor) e John Hodge (roteirista) voltou às telas depois do estrondoso sucesso crítico de "Trainspotting", que colocaram seus nomes no mapa da indústria hollywoodiana. Contando ainda com o ator Ewan McGregor (com quem haviam trabalhado ainda em "Cova rasa"), Boyle e Hodge experimentaram, para seu desgosto, o amargo sabor do fracasso. Ignorado pelo público e malhado pela crítica, "Por uma vida menos ordinária" nem de longe causou o mesmo impacto de seus trabalhos anteriores e, pior ainda, foi rechaçado até mesmo pelos fãs mais fiéis do time até então vencedor. Mas afinal de contas, a comédia romântica de Boyle mereceu todo essa vaia generalizada?



É preciso saber se o público - e até mesmo a imprensa - entendeu a proposta do cineasta e seus fiéis asseclas. O que se pode esperar de uma comédia romântica cujos autores deram ao mundo um suspense recheado de humor negro e um drama sobre drogas que foi acusado de glamourizá-las? Obviamente não há, em "Por uma vida menos ordinári"a, cenas daqueles romances melosos que Hollywood costuma empurrar a plateias sedentas por escapismo sentimental. Quando acontece de falarem de amor, logo somos lembrados - pela trilha sonora propositalmente piegas ou pelos absurdos do roteiro - de que estamos diante de um filme que fala de amor, sim, mas da maneira menos convencional possível. Robert e Celine não formam um típico par romântico ele é quase um banana, capaz de desmaiar ao ver sangue, e ela é uma riquinha mimada cujo hobby é brincar de Guilherme Tell (mesmo que corra o risco de ferir o próprio ex-namorado). E o fato de estarem à mercê de dois anjos nada dados a sentimentalismos e capazes de violência física para atingir seus objetivos apenas reitera o tom de brincadeira absoluta. É preciso que se compre a proposta de Por uma vida menos ordinária. E o público, infelizmente, dessa vez não comprou.

Logicamente nem tudo são flores... É necessário admitir que há muitos erros em "Por uma vida menos ordinária", a começar pelo roteiro que, apesar de alguns bons momentos, não chega nem aos pés do brilhantismo de "Trainspotting" e "Cova rasa". As personagens são mal delineadas (talvez de propósito, mas isso não fica exatamente claro) e certas situações não se desenvolvem a contento, dando a impressão de uma colagem de desventuras sem muita conexão. Mas Danny Boyle é visivelmente um diretor muito criativo e isso fica nítido em soluções visuais bastante interessantes, como o céu de um branco absoluto e na sequência musical em que Ewan McGregor e Cameron Diaz parecem se divertir a valer (McGregor inclusive voltaria a demonstrar seus dotes vocais nos filmes "Velvet Goldmine" e "Moulin Rouge"). Somados à atuação delirante de Holly Hunter (de longe a melhor coisa do filme) e à trilha sonora impecável (característica das obras do diretor), esses momentos de criatividade fazem do filme uma agradável experiência. Pode não ser um Danny Boyle dos melhores, mas está longe de ser um dos piores. E tem a simpatia contagiante de Ewan McGregor.

segunda-feira

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (My best friend's wedding, 1997, TriStar Pictures, 105min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Ronald Bass. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Garth Craven, Lisa Fruchtman. Música: James Newton Howard. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/William Kemper Wright. Produção executiva: Gil Netter, Patricia Whitcher. Produção: Ronald Bass, Jerry Zucker. Elenco: Julia Roberts, Cameron Diaz, Dermot Mulroney, Rupert Everett, Rachel Griffiths, Philip Bosco, Paul Giamatti. Estreia: 20/6/97

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

O sucesso repentino não fez muito bem à Julia Roberts. Alçada da noite para o dia à condição de maior e mais bem paga estrela de Hollywood no início da década de 90, ela cometeu uma sucessão de escolhas profissionais equivocadas e tornou-se a matéria-prima preferida de tablóides sensacionalistas, graças principalmente ao fim de seu noivado com o ator Kiefer Sutherland e seu casamento-relâmpago com o cantor country Lyle Lovett. Tendo sua vida pessoal devassada pela imprensa marrom e seus trabalhos ignorados pelo público - e massacrados pela crítica - só restava a ela dar uma pausa para respirar antes de voltar à ribalta. O enorme sucesso de bilheteria de seu retorno, a comédia "O casamento do meu melhor amigo", a despeito das qualidades do filme, provou o que todos já sabiam: a plateia estava com muita saudade não da Julia Roberts triste de "Tudo por amor" e "O segredo de Mary Reilly", mas da carismática e sorridente estrela de "Uma linda mulher".

Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - que também comandou o tragicômico "O casamento de Muriel", de 1995 - o filme que devolveu a atriz às boas graças do público foge do tradicional modelo das comédias românticas ao não contar uma história de amor onde moça encontra rapaz, se apaixona por ele, come o pão que o diabo amassou e finalmente consegue viver a seu lado, feliz para sempre. Utilizando uma alta dose de sarcasmo, o roteiro de Ronald Bass - que tem um Oscar em casa pelo script de "Rain Man" - criou uma protagonista que, ao contrário do que se espera de uma mocinha íntegra e passional, tem defeitos gritantes e, mais do que tudo, não mede esforços para atingir seus objetivos. Aqui, outra novidade: ela não quer apenas conquistar o homem que ama, mas sim roubá-lo da mulher com quem ele está prestes a se casar. Mezzo heroína/mezzo vilã, a personagem de Julia Roberts conquista exatamente por estar muito mais perto das espectadoras do que as sonhadoras moçoilas que são ícones de um dos gêneros mais queridos pelo público - e, paradoxalmente ou não - desprezados pela crítica.

Roberts, desprovida do glamour exagerado de "Uma linda mulher" mas ainda assim apresentando seu sorriso matador, vive Julianne Potter, uma respeitada crítica gastronômica que, às vésperas de completar 28 anos, recebe um telefonema inesperado de um ex-namorado e atual melhor amigo. O jornalista esportivo Michael O'Neal (Dermot Mulroney), por telefone, lhe comunica seu iminente casamento com a doce e milionária Kimberly Wallace (Cameron Diaz) e lhe pede que seja a dama-de-honra da noiva. Julianne, estupefacta, aceita o convite, mas seus planos são bem mais diabólicos do que simplesmente acompanhar a cerimônia de enlace entre o casal: sentindo-se no direito de reivindicar a promessa feita por Michael anos antes, de que se casaria com ela se ambos estivessem solteiros aos 28, a jovem resolve viajar para Chicago com a intenção de impedir o casamento. Descobrindo-se apaixonada por Michael (ou sentindo apenas o amargo gosto do orgulho ferido), ela arma inúmeras situações para separá-lo de Kimberly, que, inocente, nem desconfia que sua confiável nova amiga quer na verdade afastá-la do noivo que ama profundamente.

Apesar de ter em mãos uma personagem um tanto quanto malévola, Roberts dá humanidade e simpatia a ela, que desperta a compaixão e até mesmo a torcida da audiência, apesar do fato de não ser exatamente uma pessoa confiável. Talvez levado pela máxima que diz que "o amor justifica tudo", o público aceita as armações de Julianne sem rejeitá-la, no que o trabalho de Julia tem influência gigantesca. Ao fugir do maniqueísmo, a atriz encontra no texto inteligente de Bass o veículo ideal para desenvolver uma personagem que não é totalmente má nem completamente boa. Julianne Potter comete erros grotescos, mas também sofre as suas consequências, e seus planos, ainda que aparentemente infalíveis, sempre acabam sendo malogrados por um fato incontestável: apesar de adorá-la, Michael ama, na verdade, sua noiva e nem mesmo todas as armadilhas do mundo mudam isso. É essa certeza que o público tem, mas Julianne não, que faz toda a diferença. Antes de ser uma vilã, Potter é uma mulher equivocada e confusa e respeito de seus sentimentos.


E, se Julianne não sabe com certeza o que se passa dentro de seu coração, é seu grilo falante quem lhe dá todas as dicas - e de quebra, rouba absolutamente todas as cenas das quais participa. O inglês Rupert Everett dá um show particular de bom humor e carisma na pele de George Downes, o editor de Julianne que lhe serve de ombro amigo e que, nas melhores cenas do filme, vai até ela com a missão de fazê-la desistir de seus planos. Homossexual assumido - assim como sua personagem - Everett é o protagonista da já clássica sequência em que comanda um improvisado coral em um restaurante lotado em uma versão de "I say a little prayer". Sua química com Julia Roberts é tamanha que, após exibições-teste, os produtores resolveram lhe dar um espaço maior nas cenas finais - cortando, assim, a participação do ator John Corbett, que adiaria por alguns anos a relativa fama conquistada no filme "Casamento grego" e na série "Sex and the city" - cuja atriz central, Sarah Jessica Parker era a primeira escolha para liderar o filme de P.J. Hogan.

Hogan, aliás, merece boa parte dos créditos pelo sucesso de "O casamento do meu melhor amigo". Aparentemente fascinado pela cafonice intrínseca das cerimônias matrimonias - haja visto seu currículo que inclui o ótimo "O casamento de Muriel" - o australiano compartilha com o conterrâneo Baz Luhrmann o talento em selecionar uma trilha sonora impecável para seus projetos. Enquanto em seu primeiro filme ele usava e abusava de canções do grupo sueco ABBA, aqui ele varia o cardápio, comentando a ação com pérolas do compositor Burt Bacharach e iniciando a projeção com uma irônica sequência musical com a inacreditável "Wishing and hoping" dublada por uma ansiosa noiva. Esses primeiros minutos dão o tom exato do que virá pela frente: um filme agradável, divertido e que não se leva exatamente a sério. Ou seja, um programa perfeito para marcar o retorno de Julia aos holofotes sem que tenha sido para falar de sua vida particular.

"O casamento do meu melhor amigo" não é, e nem tenta ser, um filme para ser louvado pela crítica especializada ou homenageado por cerimônias de premiação. Mas é um passatempo que não ofende a inteligência do público e que serviu como uma luva para que a estrela de Julia Roberts voltasse a brilhar, dessa vez em definitivo.

NOSSO TIPO DE MULHER

NOSSO TIPO DE MULHER (She's the one, 1996, 20th Century Fox, 96min) Direção e roteiro: Edward Burns. Fotografia: Frank Prinzi. Montagem: Susan Graef. Música: Tom Petty. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: William Barclay/Harriet Zucker. Produção executiva: Michael Nozik, Robert Redford. Produção: Edward Burns, Ted Hope, James Schamus. Elenco: Edward Burns, Jennifer Aniston, Mike McGlone, Cameron Diaz, John Mahoney, Maxine Bahns, Amanda Peet. Estreia: 23/8/96

Por mais que Woody Allen, com sua habitual modéstia, acredite que não influencia a obra de ninguém, é impossível assistir-se a "Nosso tipo de mulher", uma comédia romântica a respeito dos relacionamentos de nova-iorquinos um tanto neuróticos e sempre com uma frase sarcástica na ponta da língua. Excetuando-se os fatos de que os personagens criados por Edward Burns são católicos descendentes de irlandeses  e que não são exatamente sofisticados, existe muito de Allen em "Nosso tipo de mulher". Felizmente, coisas boas.

Segunda parte de uma espécie de trilogia do jovem ator/roteirista/diretor/produtor Edward Burns - iniciada com "Os irmãos McMullen" (1995) e finalizada com "No looking back" (1998) - o filme conta as aventuras amorosas de dois irmãos de personalidades opostas (uma espécie de "Razão e sensibilidade" masculino e moderno): o mais velho, Mickey (vivido pelo diretor) trabalha como taxista desde que flagrou a noiva transando com outro homem e, em uma de suas viagens, conhece e se apaixona por Hope (Maxine Bahns), uma garçonete que sonha morar em Paris mas que, no momento, mora em um apartamento caindo aos pedaços. Em um ato impulsivo, eles se casam no mesmo dia em que se conhecem, o que pega toda a família de surpresa. O pai machista (John Mahoney) acredita que ela deseja o green card (mesmo que ela seja americana), a mãe (que jamais aparece em cena) acha que a nora está grávida. Mas quem fica mais chocado com a notícia é seu irmão caçula, Francis (Mike McGlone). Executivo de Wall Street, ambicioso e certinho, ele vê o casamento de Mickey causar um alvoroço em sua própria vida amorosa: não apenas passa a ser cobrado pela esposa Renee (Jennifer Aniston) como ainda entra em crise com a amante, Heather (Cameron Diaz), que vem a ser justamente a ex-noiva de seu irmão.



A ciranda amorosa bolada por Burns propicia bons momentos de humor, em especial quando o roteiro dá oportunidade para que os três membros masculinos da família Fitzpatrick estejam juntos, normalmente se preparando para uma pescaria. As diferenças entre seus pontos de vista e a forma como elas empurram o filme em direção a um clímax não poderoso mas coerente e romântico fazem com que tudo soe verossímil e o elenco escalado ajuda muito nesse quesito. A estrela maior é Cameron Diaz, já entrando na melhor fase de sua carreira - que culminaria com "Quem vai ficar com Mary?" cerca de um ano depois - e não tendo muito trabalho em parecer bonita e sexy. Jennifer Aniston, dando seus primeiros passos reais no cinema, não foge muito dos trejeitos de sua Rachel Green da série "Friends", mas é tão agradável que dá pra perdoar facilmente. E Maxine Bahns, que interpreta Hope, a mulher que entra em cena para desestabilizar a harmonia familiar, era namorada do diretor na época das filmagens, o que talvez explique sua escalação, já que não é especialmente bonita nem uma grande e carismática atriz.

Mas não deixa de ser irônico que em um filme chamado "Nosso tipo de mulher" seja justamente os homens que se destaquem. A química entre Burns e Mike McGlone (que já haviam atuado juntos em "Os irmãos McMullen") é palpável, e a aquisição do ótimo John Mahoney para o time não poderia ter sido melhor. Mahoney é engraçado, sério e convincente em cada cena, dando verdade a todos os diálogos que lhe cabem e simplesmente roubando o filme para si - mesmo porque Burns, apesar de talentoso como roteirista e cineasta parece estar sempre com uma certa preguiça para atuar (estilo, talvez...)

No fim das contas, "Nosso tipo de mulher" é uma comédia romântica inofensiva como todas elas devem ser. É irônica, é engraçada e é extremamente agradável. Não muda a vida de ninguém, mas é um passatempo bastante honesto.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...