TEMPO DE GLÓRIA (Glory, 1989, TriStar Pictures, 122min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Kevin Jarre, livros de Lincoln Kirstein e Peter Burchard, cartas de Robert Gould Shaw. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Produção: Freddie Fields. Elenco: Matthew Broderick, Denzel Washington, Cary Elwes, Morgan Freeman, Andre Braugher, Bob Gunton, Jay O. Sanders. Estreia: 15/12/89
5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Denzel Washington)
Segundo palavras dele mesmo, Edward Zwick estava apreensivo quando começou as filmagens de "Tempo de glória": o cineasta não sabia como o elenco de seu filme se sentia a respeito de ter um diretor branco, judeu e jovem (36 anos à época) contando a história do primeiro regimento de soldados negros da Guerra de Secessão americana, que contrapôs o Norte abolicionista contra o Sul escravagista. Sabendo que o evento tinha uma importância crucial no sentimento de autoestima dos afro-americanos (ainda que fosse pouco conhecido do público em geral), Zwick temia não ser capaz de honrá-lo. Por fim, todos os seus temores se mostraram infundados: não apenas os atores receberam com simpatia e profissionalismo seu trabalho, como a Academia de Hollywood também se rendeu ao resultado final: indicado a 5 Oscar, "Tempo de glória" recebeu 3 estatuetas (ator coadjuvante, fotografia e som) e se tornou o segundo filme mais premiado da temporada 1989, perdendo em números apenas para o grande vencedor, "Conduzindo Miss Daisy" (que saiu da cerimônia com um troféu a mais). Nem mesmo o grande favorito do ano, "Nascido de 4 de julho", de Oliver Stone, foi tão bem-sucedido.
Não é difícil entender os motivos que levaram o filme de Zwick a agradar tanto aos conservadores membros da Academia. Mais até que o tom épico - acentuado pela bela trilha sonora de James Horner, inexplicavelmente deixada de fora das indicações - e a produção caprichada, é a forma sincera e carinhosa do olhar do cineasta que fazem de "Tempo de glória" um filme de guerra que foge da estrutura óbvia de treinamento/batalha climática/final apoteótico. Justamente pelo background que o fazia temer por sua capacidade em comandar o filme, Zwick acabou por ser a escolha mais apropriada: com distanciamento emocional para equilibrar cenas grandiosas e momentos intimistas, ele criou uma pequena obra-prima, uma homenagem justa e sóbria não apenas a um homem - o Coronel Robert Gould Shaw, líder do pelotão -, mas também a um grupo de soldados que, contrariando um destino de subserviência, honrou o exército de seu país apesar do preconceito profundamente enraizado que os considerava indignos da luta.
Fisicamente semelhante ao verdadeiro Shaw, o ator Matthew Broderick encara pela primeira vez um protagonista adulto, com responsabilidades e angústias que vão além dos personagens que o fizeram conhecido do grande público. Nem sempre convence, especialmente em cenas dramaticamente mais potentes, mas não compromete o filme com um todo e tem carisma o bastante para disfarçar suas limitações. Seu personagem é um jovem de 25 anos, filho de uma influente família de Boston, a quem é dado, mesmo sem experiência sólida, o comando do primeiro batalhão formado exclusivamente formado por negros na Guerra de Secessão. O ano é 1863, e acompanhado do velho amigo Cabot Forbes (Cary Elwes), Shaw aceita o desafio, mesmo sabendo que seu sucesso na empreitada dependerá quase exclusivamente da relação que criará com seus subordinados. Vendo seu batalhão desacreditado e frequentemente tratado com desprezo por seus superiores - que enxergam neles apenas o talento para a mão-de-obra e não para batalhas reais -, o jovem coronel passa a comprar brigas com quem for preciso para exigir tratamento justo e provisões básicas (como sapatos, uniformes e pagamento igualitário). A princípio bastante imponente como forma de impor respeito, aos poucos ele vai se deixando conquistar pelos soldados - em especial o veterano John Rawlins (Morgan Freeman), a quem confia um cargo de confiança, e o rebelde Trip (Denzel Washington).
Se Broderick não vai muito além do básico, com uma interpretação contida e pouco inspirada (talvez culpa de um personagem que não se permite demonstrar muita emoção), o elenco coadjuvante de "Tempo de glória" é um de seus maiores trunfos. Denzel Washington levou seu primeiro Oscar para casa (como coadjuvante, batendo nomes como Marlon Brando e Martin Landau) por seu desempenho exemplar como o petulante Trip, dono de algumas das cenas mais memoráveis do filme. Morgan Freeman empresta seu semblante sereno ao equilibrado John Rawlins, ponto de acesso entre Shaw e seus subordinados, e tem pelo menos um grande momento (junto a Washington). E Andre Braugher, como Thomas Searles, amigo de infância do coronel, e Jihmi Kennedy, como o gago e inseguro Jupiter Sharts, completam o elenco de apoio impecável selecionado por Zwick. Um filme que fala ao mesmo tempo aos fãs do gênero e àqueles que procuram histórias humanistas, "Tempo de glória" precisa ser redescoberto como um dos melhores filmes do final da década de 80 - e um dos mais importantes quando se trata de combate ao preconceito.
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O DONO DO JOGO
O DONO DO JOGO (Pawn sacrifice, 2014, Universal Pictures, 115min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Steven Knight, estória de Steven Knight, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Isabelle Guay/Fred Berthiaume. Produção executiva: Kevin Frakes, Árni Bjorn Helgason, Mike Ilitch Jr., Dale Armin Johnson, Julie B. May, Glenn P. Murray, Josette Perrotta, Stephen J. Rivele, Raj Singh, Christopher Wilkinson. Produção: Gail Katz, Tobey Maguire, Edward Zwick. Elenco: Tobey Maguire, Liev Schreiber, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Lily Rabe. Estreia: 11/9/14 (Festival de Toronto)
Mais conhecido por produções grandiosas que retratam períodos históricos abalados por conflitos bélicos, como "Tempo de glória" (89), "Lendas da paixão" (94) e "O último samurai" (2003), o cineasta Edward Zwick deu um tempo no sangue e mudou um pouco a imagem com o romântico "Amor e outras drogas", estrelado por Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway em 2010. Mesmo assim não deixa de ser uma surpresa que seja ele o nome por trás de "O dono do jogo", um filme que contrasta bastante com sua filmografia mais conhecida ao apostar no minimalismo como principal elemento. Ao contar a história real da maior disputa já travada no universo do xadrez, Zwick aposta em um viés político-social inusitado, que mistura drama psicológico, suspense e muitos elementos biográficos em uma trama que só não é mais interessante devido a um ritmo claudicante e sua indecisão em escolher seu principal foco narrativo. No mais, é um trabalho inteligente que demonstra a capacidade do diretor em transitar por diferentes gêneros cinematográficos.
O protagonista do filme é o mundialmente conhecido e celebrado jogador de xadrez Bobby Fischer, até hoje a maior lenda do esporte e um dos nomes mais admirados por especialistas e pelo público que, em 1972, no auge da Guerra Fria, tornou-se o maior símbolo da luta dos EUA contra o comunismo russo sem disparar um único tiro ou fazer sequer uma ameaça de ataques nucleares: como gênio enxadrista, Fischer desafiou o campeão mundial Boris Spassky e, em um campeonato repleto de lances dramáticos e torcidas fanáticas, estampou capas de revistas, frequentou noticiários virou ídolo nacional - tudo isso enquanto lidava com sérios problemas mentais que logo o fariam buscar o isolamento social e o auto-exílio. Interpretado por Tobey Maguire, que embarcou no projeto também como produtor logo que se apaixonou pela história, Fischer surge em cena como uma celebridade de personalidade instável e difícil, capaz de enervar tanto seu empresário, Paul Marshall (Michael Stuhlbargh), quanto seu mentor espiritual, o Padre Phil Lombardy (Peter Sarsgaard), que o acompanham em sua trajetória rumo à vitória. Dado a frequentes ataques de paranoia e agressividade que remetem à uma infância de convivência constante com a perseguição política aos comunistas, o rapaz que cresceu desafiando jogadores mais velhos e experientes tem a chance de sua vida ao bater de frente com o regime soviético, representado pela figura de seu maior campeão. Vivido com excelência pelo cada vez melhor Liev Schreiber, o herói russo é o contraponto total de Fischer: centrado, calmo e pouco afeito a estrelismos. Sua rivalidade não é apenas no xadrez: o que está em jogo em suas disputas é a imagem que o mundo terá de seus países a partir de um simples campeonato de xadrez.
É difícil imprimir emoção e suspense em jogos de xadrez, mas Edward Zwick consegue quase o impossível ao fazer com que o público consiga sentir, pelo menos em parte, a atmosfera de tensão e expectativa que cercava cada partida. Com o apoio da edição criativa de Steven Rosenblum (seu parceiro habitual), o diretor mergulha a plateia em um período muito especial da história norte-americana - já castigada pela Guerra do Vietnã - para fazê-la compreender toda a extensão do conflito entre Fischer e Spassky. Experiente condutor de atores - por suas mãos Denzel Washington ganhou seu primeiro Oscar, como coadjuvante por "Tempo de glória" - Zwick não hesita em arrancar o melhor de seus intérpretes, oferecendo à Toby Maguire momentos bastante intensos na pele do complicado protagonista e à Liev Schreiber mais uma oportunidade de mostrar que é um dos atores mais subestimados de Hollywood. Ainda que deixe de lado o sempre ótimo Peter Sarsgaard (com um personagem pouco explorado), o filme tem a seu favor o cuidado na reconstituição de época e a seriedade com que trata seus temas, nunca escorregando na caricatura ou no exagero (mesmo que Maguire, vez ou outra, esbarre em alguns tons excessivos). Essas qualidades, porém, não impedem que seu maior problema seja bastante perceptível até mesmo ao mais distraído espectador: afinal, qual é o principal foco de "O dono do jogo"?
Não é errado que um filme trate de diversos assuntos ao mesmo tempo, principalmente quando esses temas estão conectados. O problema do roteiro de "O dono do jogo", porém, é que seus temas, apesar de intimamente ligados, não conseguem dialogar um com o outro de forma satisfatória. Em vez da fusão orgânica de suas tramas - os problemas psicológicos de Fischer; sua relação com a família; a disputa do campeonato mundial - o filme as apresenta quase como independentes entre si, sem uma conexão consistente ou empolgante entre elas. A impressão que se tem é que qualquer uma das subtramas poderia ser um filme diferente, tendo apenas os personagens como ligação. Essa falta mais significativa de elos entre os focos narrativos acaba enfraquecendo o resultado final e tornando o filme um entretenimento de qualidade, sim, mas longe de ser a produção memorável que poderia ser. Além do mais, seu desfecho - a partida final do campeonato mundial - é morno e anti-climático, responsabilidade que pode ser dividida entre o roteiro que tenta abraçar mais do que consegue e a direção que não dá conta de tanta indecisão. No final das contas, "O dono do jogo" é apenas um filme ok. Bobby Fischer e suas conquistas ainda estão esperando por uma produção à altura.
Mais conhecido por produções grandiosas que retratam períodos históricos abalados por conflitos bélicos, como "Tempo de glória" (89), "Lendas da paixão" (94) e "O último samurai" (2003), o cineasta Edward Zwick deu um tempo no sangue e mudou um pouco a imagem com o romântico "Amor e outras drogas", estrelado por Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway em 2010. Mesmo assim não deixa de ser uma surpresa que seja ele o nome por trás de "O dono do jogo", um filme que contrasta bastante com sua filmografia mais conhecida ao apostar no minimalismo como principal elemento. Ao contar a história real da maior disputa já travada no universo do xadrez, Zwick aposta em um viés político-social inusitado, que mistura drama psicológico, suspense e muitos elementos biográficos em uma trama que só não é mais interessante devido a um ritmo claudicante e sua indecisão em escolher seu principal foco narrativo. No mais, é um trabalho inteligente que demonstra a capacidade do diretor em transitar por diferentes gêneros cinematográficos.
O protagonista do filme é o mundialmente conhecido e celebrado jogador de xadrez Bobby Fischer, até hoje a maior lenda do esporte e um dos nomes mais admirados por especialistas e pelo público que, em 1972, no auge da Guerra Fria, tornou-se o maior símbolo da luta dos EUA contra o comunismo russo sem disparar um único tiro ou fazer sequer uma ameaça de ataques nucleares: como gênio enxadrista, Fischer desafiou o campeão mundial Boris Spassky e, em um campeonato repleto de lances dramáticos e torcidas fanáticas, estampou capas de revistas, frequentou noticiários virou ídolo nacional - tudo isso enquanto lidava com sérios problemas mentais que logo o fariam buscar o isolamento social e o auto-exílio. Interpretado por Tobey Maguire, que embarcou no projeto também como produtor logo que se apaixonou pela história, Fischer surge em cena como uma celebridade de personalidade instável e difícil, capaz de enervar tanto seu empresário, Paul Marshall (Michael Stuhlbargh), quanto seu mentor espiritual, o Padre Phil Lombardy (Peter Sarsgaard), que o acompanham em sua trajetória rumo à vitória. Dado a frequentes ataques de paranoia e agressividade que remetem à uma infância de convivência constante com a perseguição política aos comunistas, o rapaz que cresceu desafiando jogadores mais velhos e experientes tem a chance de sua vida ao bater de frente com o regime soviético, representado pela figura de seu maior campeão. Vivido com excelência pelo cada vez melhor Liev Schreiber, o herói russo é o contraponto total de Fischer: centrado, calmo e pouco afeito a estrelismos. Sua rivalidade não é apenas no xadrez: o que está em jogo em suas disputas é a imagem que o mundo terá de seus países a partir de um simples campeonato de xadrez.
É difícil imprimir emoção e suspense em jogos de xadrez, mas Edward Zwick consegue quase o impossível ao fazer com que o público consiga sentir, pelo menos em parte, a atmosfera de tensão e expectativa que cercava cada partida. Com o apoio da edição criativa de Steven Rosenblum (seu parceiro habitual), o diretor mergulha a plateia em um período muito especial da história norte-americana - já castigada pela Guerra do Vietnã - para fazê-la compreender toda a extensão do conflito entre Fischer e Spassky. Experiente condutor de atores - por suas mãos Denzel Washington ganhou seu primeiro Oscar, como coadjuvante por "Tempo de glória" - Zwick não hesita em arrancar o melhor de seus intérpretes, oferecendo à Toby Maguire momentos bastante intensos na pele do complicado protagonista e à Liev Schreiber mais uma oportunidade de mostrar que é um dos atores mais subestimados de Hollywood. Ainda que deixe de lado o sempre ótimo Peter Sarsgaard (com um personagem pouco explorado), o filme tem a seu favor o cuidado na reconstituição de época e a seriedade com que trata seus temas, nunca escorregando na caricatura ou no exagero (mesmo que Maguire, vez ou outra, esbarre em alguns tons excessivos). Essas qualidades, porém, não impedem que seu maior problema seja bastante perceptível até mesmo ao mais distraído espectador: afinal, qual é o principal foco de "O dono do jogo"?
Não é errado que um filme trate de diversos assuntos ao mesmo tempo, principalmente quando esses temas estão conectados. O problema do roteiro de "O dono do jogo", porém, é que seus temas, apesar de intimamente ligados, não conseguem dialogar um com o outro de forma satisfatória. Em vez da fusão orgânica de suas tramas - os problemas psicológicos de Fischer; sua relação com a família; a disputa do campeonato mundial - o filme as apresenta quase como independentes entre si, sem uma conexão consistente ou empolgante entre elas. A impressão que se tem é que qualquer uma das subtramas poderia ser um filme diferente, tendo apenas os personagens como ligação. Essa falta mais significativa de elos entre os focos narrativos acaba enfraquecendo o resultado final e tornando o filme um entretenimento de qualidade, sim, mas longe de ser a produção memorável que poderia ser. Além do mais, seu desfecho - a partida final do campeonato mundial - é morno e anti-climático, responsabilidade que pode ser dividida entre o roteiro que tenta abraçar mais do que consegue e a direção que não dá conta de tanta indecisão. No final das contas, "O dono do jogo" é apenas um filme ok. Bobby Fischer e suas conquistas ainda estão esperando por uma produção à altura.
UM ATO DE LIBERDADE
UM ATO DE LIBERDADE (Defiance, 2008, Paramount Vantage, 137min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Clayton Frohman, Edward Zwick, livro "Defiance: the Bielski Partisans", de Nechama Tec. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Veronique Melery. Produção executiva: Marshall Herskovitz. Produção: Pieter Jan Brugge, Edward Zwick. Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Mark Feuerstein, Mia Wasikowska, Alexa Davalos, Allan Corduner. Estreia: 31/12/08
Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Levando-se em conta de que trata-se de uma história real que retrata um período muitas vezes destacado pela Academia de Hollywood com um punhado de estatuetas - a saber, a luta dos judeus pela sobrevivência durante os trágicos anos da dominação nazista na II Guerra Mundial - foi uma surpresa que "Um ato de liberdade", dirigido pelo experiente Edward Zwick, tenha passado quase em branco no Oscar 2009, tendo sido lembrado apenas pela trilha sonora de James Newton Howard. Realizado com a competência habitual do cineasta e estrelado por um Daniel Craig no auge da popularidade graças a seu trabalho como James Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", o filme também não agradou nas bilheterias, tornando-se mais uma obra a amargar o injusto título de fracasso apesar de suas inúmeras qualidades. Porém, quem passar por cima desses dois pontos negativos em seu currículo, encontrará todos os elementos que constroem um belo filme: sensibilidade, ritmo, ótimos atores e uma história das mais poderosas.
Inspirado em fatos reais, "Um ato de liberdade" começa em 1941, quando os alemães invadem um vilarejo da Bielorússia e dizimam parte da população, como parte da ocupação nazista. Sobreviventes do ataque, quatro irmãos resolvem manter-se escondidos na floresta, mesmo sabendo que comida e armas são artigos de luxo. Aos poucos, o irmão mais velho, Tulvia (Daniel Craig) passa a liderar um grupo cada vez maior de foragidos que, como eles, também procuram proteção na densidade da mata. Ponderado e cerebral, ele bate de frente com seu irmão Zus (Liev Schrieber), passional e de sangue quente, que propõe que eles se unam em armas contra o exército germânico. Nesse meio tempo, a comunidade de refugiados começa a formar suas próprias regras, inclusive com casamentos e novas lideranças - o que aproxima outro dos irmãos, Asael (Jamie Bell), da tímida Chaya (Mia Wasikowska).
Dotado de um ritmo que equilibra com talento cenas de grande suspense e violência com outras de registro mais sutil e delicado, "Um ato de liberdade" pode causar estranheza ao grande público justamente por essa aparente indecisão de enfoque. No entanto, o roteiro co-escrito pelo diretor tenta aprofundar com o máximo de clareza possível as personalidades dissonantes dos irmãos protagonistas, cujas diferenças acabam se tornando o maior dos conflitos da trama: é essa disputa nem sempre sutil pela liderança do grupo cada vez maior de sobreviventes do holocausto que empurra a narrativa e mantém o suspense, além de gerar a grande questão do filme: até que ponto o ser humano pode tolerar a violência sem que também apele para o sangue? Essa dúvida, lançada já no primeiro encontro entre Tulvia e Zus, é o cerne do filme de Zwick e, apesar de não ser respondida satisfatoriamente - afinal, não há uma resposta definitiva para isso - dá margem a interpretações acima da média de seu excelente elenco.
Longe da pressão de segurar uma superprodução de Hollywood, Daniel Craig está sensacional como Tulvia Bielski, um homem dividido entre o desejo de vingança e a responsabilidade de liderar um grupo cada vez maior de pessoas - de todos os sexos, idades e classes sociais. Zwick foi inteligente em entregar a ele - ligado a filmes de ação - o personagem mais reflexivo da trama, e deixar que Liev Schrieber, um ator de amplos recursos mas ainda não devidamente louvado por isso, ficasse com o impulsivo e vingativo Zus dono de algumas das cenas mais empolgantes do filme. No meio deles, o ótimo Jamie Bell - que estreou com o pé direito no papel título de "Billy Elliot", de Stephen Daldry - e a ainda iniciante Mia Wasikowska se destacam como par romântico e alívio à tanto sofrimento e dor fotografados com extrema competência por Eduardo Serra, que mantém do início ao fim o tom escuro, úmido e quase sem esperanças dos personagens no visual realista e cru, valorizado também pelo figurino e pela direção de arte discreta e eficiente, que desaparece diante da força da história.
"Um ato de liberdade" é, no fim das contas, um belo filme que equilibra com maestria ação, drama e história, oferecendo ao público duas horas de uma narrativa séria e clássica. Pode não marcar ou surpreender, mas é, acima de tudo, uma produção caprichada e com algo a dizer.
Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Levando-se em conta de que trata-se de uma história real que retrata um período muitas vezes destacado pela Academia de Hollywood com um punhado de estatuetas - a saber, a luta dos judeus pela sobrevivência durante os trágicos anos da dominação nazista na II Guerra Mundial - foi uma surpresa que "Um ato de liberdade", dirigido pelo experiente Edward Zwick, tenha passado quase em branco no Oscar 2009, tendo sido lembrado apenas pela trilha sonora de James Newton Howard. Realizado com a competência habitual do cineasta e estrelado por um Daniel Craig no auge da popularidade graças a seu trabalho como James Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", o filme também não agradou nas bilheterias, tornando-se mais uma obra a amargar o injusto título de fracasso apesar de suas inúmeras qualidades. Porém, quem passar por cima desses dois pontos negativos em seu currículo, encontrará todos os elementos que constroem um belo filme: sensibilidade, ritmo, ótimos atores e uma história das mais poderosas.
Inspirado em fatos reais, "Um ato de liberdade" começa em 1941, quando os alemães invadem um vilarejo da Bielorússia e dizimam parte da população, como parte da ocupação nazista. Sobreviventes do ataque, quatro irmãos resolvem manter-se escondidos na floresta, mesmo sabendo que comida e armas são artigos de luxo. Aos poucos, o irmão mais velho, Tulvia (Daniel Craig) passa a liderar um grupo cada vez maior de foragidos que, como eles, também procuram proteção na densidade da mata. Ponderado e cerebral, ele bate de frente com seu irmão Zus (Liev Schrieber), passional e de sangue quente, que propõe que eles se unam em armas contra o exército germânico. Nesse meio tempo, a comunidade de refugiados começa a formar suas próprias regras, inclusive com casamentos e novas lideranças - o que aproxima outro dos irmãos, Asael (Jamie Bell), da tímida Chaya (Mia Wasikowska).
Dotado de um ritmo que equilibra com talento cenas de grande suspense e violência com outras de registro mais sutil e delicado, "Um ato de liberdade" pode causar estranheza ao grande público justamente por essa aparente indecisão de enfoque. No entanto, o roteiro co-escrito pelo diretor tenta aprofundar com o máximo de clareza possível as personalidades dissonantes dos irmãos protagonistas, cujas diferenças acabam se tornando o maior dos conflitos da trama: é essa disputa nem sempre sutil pela liderança do grupo cada vez maior de sobreviventes do holocausto que empurra a narrativa e mantém o suspense, além de gerar a grande questão do filme: até que ponto o ser humano pode tolerar a violência sem que também apele para o sangue? Essa dúvida, lançada já no primeiro encontro entre Tulvia e Zus, é o cerne do filme de Zwick e, apesar de não ser respondida satisfatoriamente - afinal, não há uma resposta definitiva para isso - dá margem a interpretações acima da média de seu excelente elenco.
Longe da pressão de segurar uma superprodução de Hollywood, Daniel Craig está sensacional como Tulvia Bielski, um homem dividido entre o desejo de vingança e a responsabilidade de liderar um grupo cada vez maior de pessoas - de todos os sexos, idades e classes sociais. Zwick foi inteligente em entregar a ele - ligado a filmes de ação - o personagem mais reflexivo da trama, e deixar que Liev Schrieber, um ator de amplos recursos mas ainda não devidamente louvado por isso, ficasse com o impulsivo e vingativo Zus dono de algumas das cenas mais empolgantes do filme. No meio deles, o ótimo Jamie Bell - que estreou com o pé direito no papel título de "Billy Elliot", de Stephen Daldry - e a ainda iniciante Mia Wasikowska se destacam como par romântico e alívio à tanto sofrimento e dor fotografados com extrema competência por Eduardo Serra, que mantém do início ao fim o tom escuro, úmido e quase sem esperanças dos personagens no visual realista e cru, valorizado também pelo figurino e pela direção de arte discreta e eficiente, que desaparece diante da força da história.
"Um ato de liberdade" é, no fim das contas, um belo filme que equilibra com maestria ação, drama e história, oferecendo ao público duas horas de uma narrativa séria e clássica. Pode não marcar ou surpreender, mas é, acima de tudo, uma produção caprichada e com algo a dizer.
segunda-feira
AMOR & OUTRAS DROGAS
AMOR & OUTRAS DROGAS (Love & other drugs, 2010, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Charles Randolph, Edward Zwick, Marshall Herscovitz, livro "Hard sell: the evolution of a Viagra salesman", de Jamie Reidy. Fotografia: Steven Fierberg. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Meg Everist. Produção executiva: Arnon Milchan, Margaret Riley. Produção: Pieter Jan Brugge, Marshall Herscovitz, Charles Randolph, Scott Stuber, Edward Zwick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Oliver Platt, Hanz Azaria, Judy Greer, Gabriel Match, Josh Gad, George Segal, Jill Clayburgh. Estreia: 04/11/10
Levando-se em consideração que no currículo do cineasta Edward Zwick contam produções ambiciosas e grandiosas como “Tempo de glória” (89), “Lendas da paixão” (95) e “O último samurai” (03), não deixa de ser uma surpresa ver seu nome assinando “Amor & outras drogas”, um filme com elementos bastante díspares daqueles a que ele está acostumado. Baseado em uma história real e misturando comédia, romance e drama em doses bastante equilibradas, o filme, adaptado do livro de Jamie Reidy, acabou decepcionando nas bilheterias, a despeito de sua ascendente dupla central de atores – Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – e dividiu a crítica, que viu com reservas a mistura de gêneros proposta pelo diretor. No entanto, com o tempo é bem provável que o público vá finalmente perceber as inúmeras qualidades de um filme que consegue ser ao mesmo tempo doce, engraçado, triste e dotado de algumas cenas de sexo bastante ousadas – mas que jamais ultrapassam os limites do bom-gosto.
É a partir dessa descoberta – e de suas consequências logicamente dramáticas – que “Amor & outras drogas” assume um viés completamente distinto de seus dois primeiros terços, banhados em sensualidade e um senso de humor despretensioso (em boa parte graças às intervenções de Josh Gad, no papel do irmão de Jamie): transformando seu filme em um romance ao estilo “Love story”, Edward Zwick corria o sério risco de esbarrar no dramalhão deslavado, mas, para surpresa de muitos e com a ajuda de seus atores, escapa bravamente do piegas. Aproveitando a química impecável entre Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – casados anteriormente em “O segredo de Brokeback Mountain” – o diretor evita o sentimentalismo barato fugindo de cenas exageradamente dramáticas e apostando no carisma da dupla, em dias inspirados. Gyllenhaal deita e rola com um papel que explora ao máximo sua versatilidade: o jovem ator sai-se bem tanto nos momentos cômicos quanto naqueles que exigem dele mais emoção, e brinda os fãs com cenas pra lá de quentes com Hathaway, que, por sua vez, mostra que é uma das atrizes mais completas de sua geração – vale lembrar que o filme é anterior a seu Oscar de coadjuvante por “Os miseráveis”. Apostando na sutileza, Hathaway rouba a metade final de “Amor & outras drogas”, até então dominado por Gyllenhaal, e o carrega até o final como uma história de amor que equilibra em doses certeiras drama, humor e uma sensualidade das mais excitantes.
Levando-se em consideração que no currículo do cineasta Edward Zwick contam produções ambiciosas e grandiosas como “Tempo de glória” (89), “Lendas da paixão” (95) e “O último samurai” (03), não deixa de ser uma surpresa ver seu nome assinando “Amor & outras drogas”, um filme com elementos bastante díspares daqueles a que ele está acostumado. Baseado em uma história real e misturando comédia, romance e drama em doses bastante equilibradas, o filme, adaptado do livro de Jamie Reidy, acabou decepcionando nas bilheterias, a despeito de sua ascendente dupla central de atores – Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – e dividiu a crítica, que viu com reservas a mistura de gêneros proposta pelo diretor. No entanto, com o tempo é bem provável que o público vá finalmente perceber as inúmeras qualidades de um filme que consegue ser ao mesmo tempo doce, engraçado, triste e dotado de algumas cenas de sexo bastante ousadas – mas que jamais ultrapassam os limites do bom-gosto.
Gyllenhaal vive Jamie Randall, personagem inspirado
no autor do livro que deu origem ao filme, “Hard sell: the evolution of a Viagra salesman". Randall começa a trama como um
vendedor de aparelhos de som que usa e abusa de seu charme e de seu bom papo
para não apenas ser um ótimo negociante mas também para seduzir todas as
mulheres que cruzam seu caminho. Demitido depois de seduzir a esposa do chefe e
ser flagrado em pleno ato, ele arruma emprego como representante de uma
indústria farmacêutica – o que o deixa em posição desconfortável dentro da
própria família, que não consegue deixar de vê-lo como alguém desperdiçando seu
talento em algo aquém de suas possibilidades. É nessa posição de vendedor de
remédios – em busca sempre de uma promoção que o faça vender produtos mais
desejados do que os simples antidepressivos com que trabalha – que Jamie conhece
a bela Maggie Murdock (interpretada pela bela Hathaway), que além de linda e insaciável, é uma artista plástica talentosa
que o surpreende com seus modos pouco convencionais: independente e decidida,
ela entra sem medo em um relacionamento baseado unicamente em sexo casual. Aos
poucos, porém, Jamie passa a sentir algo único em sua vida: completamente
apaixonado, ele leva um choque ao descobrir que o alvo de seu afeto sofre do
Mal de Parkinson – ainda inicial, mas já suficientemente capaz de fazer seus
estragos.
É a partir dessa descoberta – e de suas consequências logicamente dramáticas – que “Amor & outras drogas” assume um viés completamente distinto de seus dois primeiros terços, banhados em sensualidade e um senso de humor despretensioso (em boa parte graças às intervenções de Josh Gad, no papel do irmão de Jamie): transformando seu filme em um romance ao estilo “Love story”, Edward Zwick corria o sério risco de esbarrar no dramalhão deslavado, mas, para surpresa de muitos e com a ajuda de seus atores, escapa bravamente do piegas. Aproveitando a química impecável entre Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – casados anteriormente em “O segredo de Brokeback Mountain” – o diretor evita o sentimentalismo barato fugindo de cenas exageradamente dramáticas e apostando no carisma da dupla, em dias inspirados. Gyllenhaal deita e rola com um papel que explora ao máximo sua versatilidade: o jovem ator sai-se bem tanto nos momentos cômicos quanto naqueles que exigem dele mais emoção, e brinda os fãs com cenas pra lá de quentes com Hathaway, que, por sua vez, mostra que é uma das atrizes mais completas de sua geração – vale lembrar que o filme é anterior a seu Oscar de coadjuvante por “Os miseráveis”. Apostando na sutileza, Hathaway rouba a metade final de “Amor & outras drogas”, até então dominado por Gyllenhaal, e o carrega até o final como uma história de amor que equilibra em doses certeiras drama, humor e uma sensualidade das mais excitantes.
Demonstrando um conforto inesperado
no comando de uma trama desprovida de cenas épicas de ação, Edward Zwick relembra,
em “Amor & outras drogas”, seus tempos como diretor de “Sobre ontem à
noite”, que retratava o tortuoso relacionamento entre o então jovem casal Demi
Moore e Rob Lowe em 1986. Com uma obra plasticamente atraente e uma trilha
sonora adequada e moderna, Zwick conquista a plateia pela simpatia e pela
leveza: é impossível não se deixar cativar pela bela e inusitada história de
amor entre Jamie e Maggie – que, além de tudo, é real. Uma bela dica para os
fãs de Gyllenhaal e Hathaway e para todos que acreditam em um bom romance.
sexta-feira
DIAMANTE DE SANGUE
DIAMANTE DE SANGUE (Blood diamond, 2006, Warner Bros, 143min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Charles Leavitt, história de Charles Leavitt, C. Gaby Mitchell. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Ngila Dickson. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Olivia Bloche-Laine. Produção executiva: Len Amato, Kevin de la Noy, Benjamin Waisbren. Produção: Gillian Gorfil, Marshall Jerskovitz, Graham King, Paula Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Leonardo DiCaprio, Djimon Houson, Jennifer Connelly, Michael Sheen, Kagiso Kuypers. Estreia: 08/12/06
5 indicações ao Oscar: Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Djimon Houson), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Conhecido por filmes de visual estonteante e conteúdo um tanto raso - como "Lendas da paixão", "Coragem sob fogo" e "O último samurai" - o cineasta Edward Zwick surpreendeu a crítica quando lançou "Diamante de sangue", onde substituiu a fotografia esplendorosa de seus trabalhos anteriores por uma trama forte e violenta, que utiliza um triste fato real - os conflitos em Serra Leoa entre soldados do governo e forças rebeldes que lutam contra a opressão - para contar uma história dotada de ritmo e dramaticidade na medida certa. Ainda que se estenda demais em seu terço final, o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Djimon Houson facilmente se insere entre as melhores obras do cineasta.
Passado em 1999, durante a crise civil que dividia Serra Leoa, "Diamante de sangue" começa quando os soldados do governo invadem uma pequena ilha e fazem de refém, dentre dezenas de outros homens, o pescador Solomon Vandy (Djimon Houson, indicado ao Oscar de coadjuvante). Afastado da família para procurar diamantes, ele acaba encontrando uma enorme pedra preciosa, que esconde com o objetivo de, com sua venda, encontrar seus entes queridos. Em seu caminho, porém, ele cruza com Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um ex-mercenário inglês que vê no diamante encontrado por Vandy seu passaporte para fora da África. Unidos, os dois tentarão escondê-lo das violentas trupes governamentais para atingir suas metas. Para isso, eles contam com a ajuda da jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), disposta a revelar em uma reportagem todos os horrores que circundam o tráfico de diamantes da África.
Sem medo de apelar para a violência - suas sequências iniciais são de uma brutalidade ímpar - Edward Zwick consegue, em "Diamante de sangue" equilibrar com grande eficácia cenas de ação realistas com momentos de genuíno e emocionante drama, em especial quando direciona seu foco para a relação entre Solomon Vandy e seu filho pequeno, recrutado para tornar-se um pequeno soldado. A atuação de Djimon Houson é esplêndida, transmitindo toda a dor de um pai que se vê afastado da família só para encontrá-la em uma situação aterradora. Seu trabalho visceral encontra eco em Leonardo DiCaprio - indicado ao Oscar no mesmo ano em que também esteve no elenco do multipremiado "Os infiltrados". Mesmo que seja basicamente uma escada para o talento de Hounson - apesar de ser o primeiro nome dos créditos - o jovem ator consegue injetar humanidade a uma personagem não exatamente heroica, mas nem mesmo sua presença fez com que o filme encontrasse seu público nos cinemas americanos, onde rendeu pouco mais da metade de seu orçamento (bastante alto) de 100 milhões de dólares.
Intenso e sofrido, "Diamante de sangue" peca apenas por demorar demais a chegar a seu final, enrolando por bons quinze minutos com algumas cenas desnecessárias. Ainda assim, é suficientemente empolgante para manter a atenção do início ao fim e emocionar aos mais sensíveis. Belo programa!
5 indicações ao Oscar: Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Djimon Houson), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Conhecido por filmes de visual estonteante e conteúdo um tanto raso - como "Lendas da paixão", "Coragem sob fogo" e "O último samurai" - o cineasta Edward Zwick surpreendeu a crítica quando lançou "Diamante de sangue", onde substituiu a fotografia esplendorosa de seus trabalhos anteriores por uma trama forte e violenta, que utiliza um triste fato real - os conflitos em Serra Leoa entre soldados do governo e forças rebeldes que lutam contra a opressão - para contar uma história dotada de ritmo e dramaticidade na medida certa. Ainda que se estenda demais em seu terço final, o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Djimon Houson facilmente se insere entre as melhores obras do cineasta.
Passado em 1999, durante a crise civil que dividia Serra Leoa, "Diamante de sangue" começa quando os soldados do governo invadem uma pequena ilha e fazem de refém, dentre dezenas de outros homens, o pescador Solomon Vandy (Djimon Houson, indicado ao Oscar de coadjuvante). Afastado da família para procurar diamantes, ele acaba encontrando uma enorme pedra preciosa, que esconde com o objetivo de, com sua venda, encontrar seus entes queridos. Em seu caminho, porém, ele cruza com Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um ex-mercenário inglês que vê no diamante encontrado por Vandy seu passaporte para fora da África. Unidos, os dois tentarão escondê-lo das violentas trupes governamentais para atingir suas metas. Para isso, eles contam com a ajuda da jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), disposta a revelar em uma reportagem todos os horrores que circundam o tráfico de diamantes da África.
Sem medo de apelar para a violência - suas sequências iniciais são de uma brutalidade ímpar - Edward Zwick consegue, em "Diamante de sangue" equilibrar com grande eficácia cenas de ação realistas com momentos de genuíno e emocionante drama, em especial quando direciona seu foco para a relação entre Solomon Vandy e seu filho pequeno, recrutado para tornar-se um pequeno soldado. A atuação de Djimon Houson é esplêndida, transmitindo toda a dor de um pai que se vê afastado da família só para encontrá-la em uma situação aterradora. Seu trabalho visceral encontra eco em Leonardo DiCaprio - indicado ao Oscar no mesmo ano em que também esteve no elenco do multipremiado "Os infiltrados". Mesmo que seja basicamente uma escada para o talento de Hounson - apesar de ser o primeiro nome dos créditos - o jovem ator consegue injetar humanidade a uma personagem não exatamente heroica, mas nem mesmo sua presença fez com que o filme encontrasse seu público nos cinemas americanos, onde rendeu pouco mais da metade de seu orçamento (bastante alto) de 100 milhões de dólares.
Intenso e sofrido, "Diamante de sangue" peca apenas por demorar demais a chegar a seu final, enrolando por bons quinze minutos com algumas cenas desnecessárias. Ainda assim, é suficientemente empolgante para manter a atenção do início ao fim e emocionar aos mais sensíveis. Belo programa!
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