Mostrando postagens com marcador KATE HUDSON. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador KATE HUDSON. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

INTRIGAS

 


INTRIGAS (Gossip, 2000, Warner Bros/Village Road Show Pictures, 90min) Direção: Davis Guggenheim. Roteiro: Gregory Poirier, Theresa Rebeck, história de Gregory Poirier. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Jay Cassidy. Música: Graeme Revell. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: David Nichols/Enrico A. Campana, Michelle Convey. Produção executiva: Bruce Berman, Joel Schumacher. Produção: Bobby Newmyer, Jeffrey Silver. Elenco: James Marsden, Lena Headey, Norman Reedus, Joshua Jackson, Kate Hudson, Edward James Olmos, Eric Bogosian. Estreia: 18/4/2000

A ideia até que é interessante, especialmente em uma época pré-redes sociais: um grupo de estudantes resolve monitorar o alcance e a circulação de um boato e descobrem, da pior maneira possível, que uma vez espalhado, um rumor pode ter resultados trágicos e imprevisíveis. Porém, na mão de um diretor mais afeito a um visual estiloso do que a consistência dramática, o suspense juvenil "Intrigas" resulta em um produto esteticamente atraente (ainda que datado) mas vazio em suas pretensões. Com uma premissa que se apresenta instigante até perto de sua metade e que descamba para um excesso de reviravoltas, o filme de estreia de Davis Guggenheim - que assinou episódios de séries de TV elogiadas, como "Plantão médico" e "Nova Iorque contra o crime" e depois levaria um Oscar pelo documentário "Uma verdade inconveniente" (2006) - estreou no lastro de produções de terror adolescente que viraram febre no final dos anos 1990, mas decepcionou em termos de bilheteria e tampouco teve cacife suficiente para tornar-se cult. Nem mesmo a presença de Kate Hudson (às vésperas de virar estrela com o brilhante "Quase famosos", lançado no mesmo ano) foi o bastante para que ele deixasse de ser uma promessa não cumprida.

Um dos maiores problemas do roteiro é fazer de seus três protagonistas personagens pouco simpáticos e nada agradáveis, o que de cara afasta a possibilidade de conexão. Cathy (Lena Headey, em papel oferecido a Jennifer Love Hewitt e Maggie Gyllenhaal) é uma jovem que sofre com o histórico de um romance mal-sucedido com um professor; Travis (Norman Reedus) vive em função de sua arte, que o torna quase antissocial; e Derrick (James Marsden), o galã do grupo, não aceita o fato de ser rejeitado pela colega de apartamento. Merecidamente renegados pelos mais populares estudantes - afinal, os três são perceptivelmente arrogantes -, eles inventam um projeto que, em sua concepção, é inovador e fascinante: criar uma história fictícia, espalhá-la pelo campus e ver o circo pegar fogo. A ocasião surge perfeita quando Derrick testemunha a bela Naomi Preston (Kate Hudson) e seu namorado, Beau (Joshua Jackson), fazerem sexo durante uma festa apesar do estado pouco sóbrio da moça. Em pouco tempo a história se espalha e vai sendo alterada, até que, de uma hora para outra, Beau é preso por estupro.

 

Sem saber exatamente que história quer contar, o roteiro de "Intrigas" cai na armadilha de levar-se a sério demais, abandonando sua ideia inicial para embarcar em um enredo que privilegia uma série de reviravoltas - nem todas verossímeis e até bem forçadas. Enquanto discute a força destrutiva de boatos o filme caminha bem, explorando com destreza os ambientes fúteis e glamorosos em que seus personagens circulam e desenvolvendo a contento suas personalidades quase vazias - a despeito da fragilidade das atuações. Quando muda de foco, no entanto, torna-se apenas mais uma produção que tenta atingir seu público-alvo - plateias jovens pouco exigentes - ao acumular situações pretensamente surpreendentes. Kate Hudson, carismática e boa atriz, é quem se sobressai, explorando as camadas de sua Naomi Preston dentro das poucas possibilidades do texto - é dela a cena mais intensa do filme, catalisadora das consequências mais trágicas da história. Já Lena Headey - que ficaria famosa mais de uma década depois, por "Game of thrones" - se esforça para dar consistência a uma personagem construída com fragilidade dramática. Joshua Jackson, por sua vez, pouco tem a fazer com seu Beau Edson, uma vítima inocente tanto dos protagonistas quanto do roteiro.

Fracasso comercial nos EUA, onde rendeu pouco mais de cinco milhões de dólares, "Intrigas" comprovou o desgaste da fórmula de suspenses juvenis que começou com "Pânico" (1996) e foi sendo explorada sem critério pelos estúdios e por cineastas pouco criativos. Mesmo que fuja um pouco do gênero - afinal não há um assassino mascarado trucidando adolescentes -, o filme de Guggenheim apresenta todos os elementos que levaram multidões aos cinemas, mas esquece do principal: uma trama envolvente e atores carismáticos. Até tenta impor um novo estilo, mas infelizmente fica aquém de sua (boa) ideia inicial.

domingo

O MAIOR AMOR DO MUNDO

O MAIOR AMOR DO MUNDO (Mother's Day, 2016, Open Road Films, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Anya Kochoff Romano, Matt Walker, Tom Hines, estória de Lily Hollander, Matt Walker, Tom Hines, Garry Marshall. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Bruce Green, Robert Malina. Música: John Debney. Figurino: Marilyn Vance, Beverly Woods. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Bob Kensinger. Produção executiva: William Bindley, Deborah E. Chausse, Leon Corcos, Mark Fasano, Kevin Frakes, Howard Gilden, Fred Grimm, Bill Heavener, Matthew Hooper, Tedd Johnson, Scott Lipsky, Danny Mandel, Rodger May, Ankur Rugta, Jared D. Underwood. Produção: Brandt Andersen, Howard Burd, Daniel Diamond, Mark DiSalle, Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Jennifer Aniston, Kate Hudson, Julia Roberts, Timothy Olyphant, Jason Sudeikis, Margo Martindale, Shay Mitchell, Hector Elizondo, Aasiv Mandvi. Estreia: 13/4/16

Parecia uma fórmula imbatível de sucesso: escolher uma data comemorativa como tema, escalar um elenco de astros conhecidos do grande público, lançar no feriadoc correspondente e correr pro abraço. Foi assim com "Idas e vindas do amor" (sobre o Dia dos Namorados) e com "Noite de ano-novo" (autoexplicativo). Porém, mesmo as fórmulas aparentemente infalíveis podem desgastar-se: se os dois primeiros filmes fizeram sucesso nas bilheterias mundiais (216 milhões e 142 milhões respectivamente), o terceiro capítulo da série do diretor Garry Marshall decepcionou em todos os quesitos, tanto em termos de crítica (o que já havia acontecido com os anteriores, aliás) quanto financeiros, rendendo menos de 50 milhões de dólares no total. Último filme de Marshall - que de certa forma revelou Julia Roberts ao mundo, em "Uma linda mulher" (90) e morreu poucos meses depois da estreia, "O maior amor do mundo" padece de um roteiro simplista e personagens sem muito carisma ou profundidade, que serve unicamente como passatempo rápido e facilmente esquecível.

Menos ambicioso do que os filmes anteriores do estilo, e com um elenco de estrelas mais enxuto, "O maior amor do mundo" se fixa em apenas cinco núcleos, que se cruzam ocasionalmente e tem, como pano de fundo, o amor materno. Julia Roberts, amiga do diretor, está pouco confortável como Miranda Collins, uma escritora famosa que é conhecida por apresentar um programa de televisão onde vende joias ao telespectador. Quem deseja ser contratada por ela como designer é Sandy (Jennifer Aniston), que está passando pela complicada situação de lidar com o novo casamento do ex-marido, Henry (Timothy Olyphant), e ver seus filhos conquistados pela madrasta. Nesse meio-tempo, ela conhece o viúvo Bradley (Jason Sudeikis), que perdeu a esposa há pouco tempo e tenta compreender o universo de suas duas filhas, uma delas em plena adolescência. Já as duas irmãs Jesse (Kate Hudson) e Gabi (Sarah Chalke) tentam esconder de seus pais (preconceituosos) seus relacionamentos amorosos: a primeira com um médico indiano e a segunda com uma mulher, com quem tem um filho. E finalizando a ciranda de relações está o casal formado pelo comediante inglês Zack (Jack Whitehall) e sua amada Kristin (Britt Robertson), que tem um bebê juntos mas não conseguem se casar por causa de uma situação mal resolvida no passado da jovem.


Mesmo com um número relativamente baixo de tramas paralelas, o roteiro de "O maior amor do mundo" consegue ser superficial em todas. Julia Roberts talvez seja o maior talento desperdiçado dentre todo o elenco, com uma personagem tão rasa e inverossímil que chega a parecer proposital - além de não oferecer à atriz a chance de mostrar sua beleza. Jennifer Aniston ainda consegue extrair um pouco mais de sua Sandy, que se envolve em duas das histórias contadas, mas mesmo assim pouco faz para deixar de lado os trejeitos de sua personagem mais famosa, a Rachel Green da série "Friends" - sorte que seu carisma é inabalável. Margo Martindale quase rouba a cena como a mãe preconceituosa de Kate Hudson, mas lhe é dado tão pouco tempo em cena que seu enredo - talvez o mais interessante de todos - acaba perdido em meio a algumas piadas sem graça e tentativas nem sempre felizes de emocionar o público. A sorte é que Marshall - um veterano com larga experiência - sabe como transformar seus filmes em produtos agradáveis mesmo quando pouco profundos e não deixa que a sessão se torne um pesadelo.

A receita de "O maior amor do mundo" é fácil: um visual bonito, com atores atraentes, uma trilha sonora pop com alguns sucessos do momento, personagens com problemas facilmente identificáveis (mas não pesados a ponto de afastar o público) e alguns momentos de humor e drama, dosados para conquistar tanto os fãs de comédia quanto aqueles que gostam de chorar diante da tela. Todos os ingredientes estão presentes no filme, mas o resultado é apenas razoável, sem nada que o diferencie de dezenas de outros produtos lançados semanalmente nos cinemas. Talvez agrade mais a quem for mãe - ou a quem se conecte especificamente com alguma das tramas - mas no final é simplesmente uma sessão da tarde pouco memorável. Uma pena que Marshall tenha se despedido do cinema com um filme tão banal e vazio!

sexta-feira

NINE

NINE (Nine, 2009, The Weinstein Company, 118min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Michael Tolkin, Anthony Minghella, musical de Arthur Kopit, Maury Yeston, original de Mario Fratti. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Claire Simpson, Wyatt Smith. Música: Andrea Guerra. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gordon Sim. Produção executiva: Kelly Carmichael, Michael Dreyer, Ryan Kavanaugh, Tucker Toooley, Bob Weinstein. Produção: John DeLuca, Rob Marshall, Marc Platt, Harvey Weinstein. Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cottilard, Nicole Kidman, Penelope Cruz, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Fergie Duhamel. Estreia: 03/12/09

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Take it all")


Tinha tudo para ser um espetáculo irretocável. Na direção, o homem responsável por carimbar o passaporte dos filmes musicais em direção às boas graças definitivas da crítica, do público e da Academia com o genial “Chicago”. Na liderança do elenco, um dos mais prestigiados e admirados atores de sua geração, Daniel Day-Lewis. Como as mulheres que o rodeiam desde a infância, uma seleção das melhores e mais importantes atrizes em atividade (desde as veteranas Judi Dench e Sophia Loren até a cantora pop Fergie, passando pelas oscarizadas Nicole Kidman, Penélope Cruz e Marion Cottilard). Como cenário, a velha Itália dos anos 60, em especial a antológica Cinecittá – palco dos maiores clássicos cinematográficos do país. E como trama, a adaptação de um sucesso da Broadway que homenageia um dos filmes mais aplaudidos do incensado Federico Fellini, o autobiográfico “8 ½”. Por que, então, com todos esses elementos infalíveis à disposição, o esperado “Nine” resultou tão morno? Tido como um dos favoritos ao Oscar 2010 antes mesmo de sua estreia, o filme de Rob Marshall – que fez barba, cabelo e bigode com seu “Chicago”, na cerimônia de 2003 – acabou decepcionando ao ficar de fora da lista nas categorias principais e, pior ainda, nem de longe repetir o êxito do musical anterior de seu diretor. Quando se assiste ao filme, porém, é impossível não perceber seu calcanhar de Aquiles. Apesar de plasticamente deslumbrante, “Nine” falha justamente no ponto central de um musical: suas canções.
           
Sem o deboche e a ironia que inundavam cada número musical de “Chicago”, Rob Marshall segue o caminho consagrado pelos palcos da Broadway e imprime a “Nine” um tom de seriedade nostálgica e auto-penitente que, não estivessem presentes em um musical, poderiam fazer do filme uma obra-prima. O problema é que, sempre que alguém começa a cantar – mesmo quando é Penélope Cruz exalando sensualidade ou Marion Cottilard injetando profundidade e angústia em uma personagem pouco desenvolvida por um roteiro que também peca pela superficialidade – o ritmo é seriamente comprometido. A edição – precisa em alguns momentos e seriamente equivocada em outros, quando desvaloriza algumas coreografias que precisavam ser mostradas na íntegra como forma de encantar a audiência – não dá conta em costurar todos os retalhos de memória de seu protagonista, truncando a agilidade da narrativa ao invés de empurrá-la para a frente. Diante disso, nem mesmo a brilhante direção de arte e os figurinos luxuosos (ambos merecidamente lembrados pela Academia) conseguem disfarçar a sensação de monotonia que percorre boa parte da projeção – a despeito de seu elenco empolgante e esforçado.
           
Daniel Day-Lewis, por exemplo, está mais uma vez estupendo. Ele vive Guido Contini, um cineasta consagrado que, em vias de começar seu novo trabalho – o nono junto com seu fiel produtor, daí o título original – se vê diante de uma situação até então inédita para ele: um colossal bloqueio criativo. Seu filme já tem título definido – “Itália” – uma protagonista escolhida – a bela e popular Claudia Jenssen (Nicole Kidman) – e uma equipe técnica pronta a começar os trabalhos, mas Guido, pressionado pelos executivos da indústria, pela amante casada , Claudia (Penélope Cruz) e pela esposa amorosa, Luisa (Marion Cottilard), não consegue nem ao menos começar a escrever o roteiro ou pensar em uma trama. Seu dilema – o mesmo que o personagem de Marcello Mastroianni vivia em “8 ½” – acaba por levá-lo a uma viagem inconsciente para dentro de suas memórias, o que fatalmente o põe diante de personagens femininas fortes e formadoras de sua personalidade, como a prostituta Saraghina (Fergie) – que encantava seus dias de criança – e sua calorosa mãe (Sophia Loren).



Não há nada de errado na forma como a trama intercala a realidade de Guido (um personagem torturado pela culpa católica e ao mesmo tempo incapaz de resistir às tentações libidinosas que cruzam seu caminho) com sua imaginação delirante – a atuação de Daniel Day-Lewis, aliás, é formidável, arriscando-se mais uma vez em um gênero até então inédito em sua carreira – nem mesmo o médico mulherengo de “A insustentável leveza do ser” (1988) era capaz de esconder, por medo da danação religiosa, o crucifixo de uma pensão barata na hora de transar com a amante. Porém, não há, no repertório do filme, nenhuma canção forte o bastante para empolgar a plateia, como havia, por exemplo, em “Chicago”. Marshall mantém seu extremo bom-gosto na ambientação de seu trabalho – a fotografia de Dion Beebe é um desbunde, sempre surpreendendo o público com ângulos e iluminações sofisticadas e classudas – mas frequentemente perde a mão no ritmo que impõe à sua narrativa. Mais uma vez ele recorre ao artifício (inteligente e eficaz) de situar os números musicais dentro da mente do protagonista – e como aqui trata-se de um cineasta, nada mais natural que ele veja tudo com luxo e glamour – mas dessa vez não há a ironia marota com que Roxy Hart enxergava as coisas em “Chicago”. E isso faz uma tremenda falta, ainda que a proposta de “Nine” seja, a rigor, bastante distinta de seu irmão mais velho.
            
Mas seria injusto falar em “Nine” sem destacar suas (muitas) qualidades. Mesmo que o elemento principal (a música) seja um tanto quanto enfadonho, o visual elaborado por Marshall e seus colaboradores é espantoso. Filmado na própria Cinecittá, “Nine” tem, em seu visual e seu espírito, a elegância e a sutileza do cinema europeu do período que retrata, seja no guarda-roupa detalhista ou nos cenários meticulosos capazes de encher os olhos da mais descolada plateia. Todos as apresentações musicais (aquelas mesmas que a edição por vezes picota para imprimir agilidade e acaba por enfraquecer) são bem coreografadas e interpretadas por atrizes tão talentosas que extraem o melhor de cada personagem para apresenta-las ao público como figuras interessantes (até a veneranda Judi Dench canta e dança, na pele de Lily, figurinista e confidente de Guido). Nicole Kidman – cujos dotes vocais já foram vistos e aprovados anteriormente em “Moulin rouge: o amor em vermelho” – está linda e delicada como a atriz desejada pelo diretor. Penélope Cruz quase rouba a cena como a amante sexy que dança lençóis de seda e tenta o suicídio (foi indicada ao Oscar de coadjuvante). Kate Hudson (na única personagem um tanto avulsa da trama) tem o número mais animado do filme, “Cinema italiano”. E Fergie usa e abusa de seus dotes de cantora pop para fazer das cenas de sua amante profissional um espetáculo energético e de extrema competência visual. Mas é Marion Cottilard quem dá o que falta a boa parte do vistoso filme de Rob Marshall: alma.
            
Dona de olhos expressivos e uma beleza delicada, a francesa Cottilard – que se transfigurou na cantora Edith Piaf e ganhou um Oscar merecidíssimo de melhor atriz por isso – serve como o contraponto romântico e pé no chão a seu artístico marido. Na pele de uma mulher que abandonou a carreira de atriz para viver para um marido pouco afeito à fidelidade conjugal, ela é dona de dois números musicais (uma das canções, “Take it all”, feita especialmente para o filme, concorreu ao Oscar) e de alguns dos diálogos mais fortes do filme – “Obrigada por me fazer ver que não sou especial!”, ela vomita ao perceber que nem mesmo os gestos românticos do início da relação entre eles eram exclusivos dela. Cottilard dá substância e emoção real à “Nine”, lembrando ao espectador que, mesmo por baixo da suntuosidade e da pompa criada pelo cinema, os sentimentos ainda são a melhor matéria-prima para uma boa história.

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS



COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS (How to lose a guy in 10 days, 2003, Paramount Pictures, 116min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Kristen Buckley, Brian Regan, Burr Steers, livro de Michele Alexander, Jeannie Long. Fotografia: John Bailey. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: David Newman. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez. Produção executiva: Richard Vane. Produção: Robert Evans, Christine Peters, Lynda Obst. Elenco: Kate Hudson, Matthew McConaughey, Adam Goldberg, Bebe Neuwirth, Celia Weston, Thomas Lennon, Michael Michele, Shalom Harlow. Estreia: 07/02/03


Uma das maiores dores-de-cabeça dos produtores de comédias românticas deve ser encontrar material que pareça novidade, uma vez que é raro, dentro do gênero, que uma história já não tenha sido contada uma infinidade de vezes, mesmo que de formas variadas. Por isso, não deixa de ser compreensível que a origem de “Como perder um homem em 10 dias” seja um bem-humorado livro de auto-ajuda escrito pelas jornalistas Michelle Alexander e Jeannie Long, que analisa os erros mais graves cometidos pelas mulheres quando iniciam um relacionamento amoroso. Adaptado com um senso de humor impecável e dirigido com relativo bom-gosto por Donald Petrie, o filme fez um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo mais de 100 milhões de dólares somente nos EUA, comprovando a tese de que comédias românticas – em especial as de qualidade – têm um público cativo.

A protagonista do filme é a jornalista Andie Anderson (Kate Hudson, a eterna Penny Lane de “Quase famosos”, substituindo a primeira escolha, Gwyneth Paltrow), que sonha escrever sobre assuntos socialmente relevantes mas que não consegue convencer sua chefe (a ótima Bebe Neuwirth) a liberá-la de seus artigos fúteis na revista feminina onde trabalha. Sua chance vem quando ela recebe a promessa de escolher o tema de seu próximo texto desde que consiga, com sucesso, escrever um artigo chamado “Como perder um homem em dez dias”. Para dar veracidade a sua dissertação, Andie resolve escolher um homem ao acaso, cometer as atrocidades que as mulheres de sua geração costumam cometer e afastá-lo no prazo de pouco mais de uma semana. A vítima escolhida, no entanto, não é o que parece à primeira vista. Benjamin Barry (Matthew McConaughey) é um publicitário que tenciona dar um salto na carreira, deixando pra trás os comerciais de produtos esportivos e assumindo a conta de uma joalheria sofisticada. Para isso ele precisa provar que é capaz de manter uma relação estável por no mínimo dez dias, o prazo proposto por seu chefe para que ele demonstre a capacidade de se envolver com uma mulher. Quando conhece Andie, ele acha que seus desejos se realizaram, mas logo descobre que por trás da carinha de anjo da jovem se esconde um monstro inseguro e obsessivo.
         

Uma das grandes sacadas do filme – e elas são muitas – é deixar com que o público saiba de antemão os objetivos de seus protagonistas, fazendo com que todo mundo se divirta ao máximo com os exageros de Andie e a paciência hercúlea de Benjamin, que, logicamente, se apaixonarão perdidamente durante o percurso para atingir suas expectativas profissionais. Sendo assim, os homens se identificarão com o desespero de Benjamin em perder suas partidas de basquete e suas noites com os amigos e as mulheres rirão de si mesmas ao perceber nas atitudes tresloucadas de Andie o quanto alguns erros são praticamente imperceptíveis em se tratanto de amor.
        
Mas sem dúvida nenhuma o grande trunfo de “Como perder um homem em 10 dias” é seu casal central. Mesmo que o visual moderno e atraente conferido pelo diretor seja extremamente responsável pelo clima romântico de sessão da tarde, é a química entre McConaughey – brilhando como no início de sua carreira – e Kate Hudson – que usa e abusa de seu carisma, improvisando em muitas cenas – que faz com que o filme decole com elegância e requinte. As cenas entre os dois – tanto as românticas quanto as cômicas, em que o timing de Hudson é absolutamente perfeito – são tão deliciosas que fica difícil tirar os olhos da tela. Uma das comédias românticas mais divertidas da última década, que ainda consegue brincar com propriedade com a famosa "You're so vain", de Carly Simon (composta como indireta ao ex Warren Beatty, segundo as más línguas).

PS - Pena que o casal protagonista se empolgou tanto com o sucesso desse filme que alguns anos depois realizou o tenebroso "Um amor de tesouro"...

quinta-feira

QUASE FAMOSOS

QUASE FAMOSOS (Almost famous, 2000, Columbia Pictures/Dreamworks SKG, 122min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: John Toll. Montagem: Joe Hutsching, Saar Klein. Música: Nancy Wilson. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Robert Greenfield. Produção: Ian Bryce, Cameron Crowe. Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Jason Lee, Kate Hudson, Frances McDormand, Philip Seymour Hoffman, Anna Paquin, Jimmy Fallon, Fairuza Balk, Noah Taylor, Zooey Deschanel, Rain Wilson. Estreia: 13/9/00

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante(Kate Hudson, Frances McDormand), Roteiro Original, MontagemVencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes - Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Coadjuvante (Kate Hudson)

“Não fique amigo de roqueiros!” é o mais importante conselho dado pelo crítico musical Lester Bangs (Phillip Seymour Hoffman) ao adolescente William Miller (Patrick Fugit), às vésperas de o garoto embarcar, aos 15 anos, com a banda de rock Stillwater em sua primeira turnê, entitulada “Quase famosos”. Criado pela repressora Elaine (Frances McDormand), uma professora universitária que conseguiu causar a fuga da filha mais velha devido a suas idiossincrasias - como comemorar o Natal em setembro para fugir do caráter comercial da data - Miller tem a chance, proporcionada pela prestigiada revista Rolling Stone (que nem de longe imagina sua real idade), de acompanhar a excursão da banda para uma reportagem exclusiva. Em poucos dias, o adolescente deixa pra trás uma vida sem graça e tem acesso a um mundo de amor livre, drogas, intrigas e até amor verdadeiro, quando se apaixona por Penny Lane (a graciosa Kate Hudson, filha da atriz Goldie Hawn), uma groupie que esconde quilos de romantismo e ingenuidade debaixo de uma casca de liberalidade e auto-confiança.

William Miller, o adolescente que descobre o amor, o sexo e a vida como ela é no meio de uma excursão de rock é o protagonista de “Quase famosos”, deliciosa comédia escrita e dirigida por Cameron Crowe, em seu filme seguinte ao sucesso de “Jerry Maguire, a grande virada”. Notadamente semi-autobiográfico, seu filme é um vencedor em todos os sentidos. Seu roteiro, vencedor do Oscar, é um achado de bom humor e delicadeza, com diálogos brilhantes, recitados por um elenco excepcional. Sua trilha sonora, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme sobre o rock’n’roll é repleta de pérolas como The Who, Elton John e Simon & Garfunkel e é difícil não se envolver com os personagens criados pela mente ágil e humanista de Crowe, que manteve de seu filme anterior a capacidade de fazer rir e emocionar com facilidade e sem maniqueísmos.


Talvez a maior qualidade de seu roteiro seja fazer dos olhos de William Miller os olhos da plateia. É através do olhar ingênuo e romântico de Miller que o público trava conhecimento com o amor do guitarrista Russell Hammond (o ótimo Billy Crudup) pela música; é graças a seus silêncios que somos testemunhas dos bastidores de um grupo em vias de tornar-se grande; e é por seus olhos encantados de paixão que também caímos de amor por Penny Lane, vivida com graça e carisma por uma Kate Hudson impecável, que foi promovida do papel de irmã do protagonista (que ficou com a ótima Zooey Deschannel) para o principal papel feminino do filme (cobiçado por Kirsten Dunst), ganhou o Globo de Ouro e concorreu ao Oscar de atriz coadjuvante, assim como a colega de elenco Frances McDormand, perfeita como a mãe de Miller e roubando as cenas em que aparece.

Não é sempre que um filme como “Quase famosos” aparece. Lançando um olhar carinhoso à época de ouro do rock (a trama se passa em 1973), Crowe mostra que sabe como poucos onde encontrar material humano no meio de muito som – é dele o roteiro e a direção do subapreciado “Vida de solteiro”, passado em Seattle, berço do movimento grunge do inicio dos anos 90. Não é preciso ser um especialista em rock dos anos 70 para se apaixonar pelo filme – ainda que Crowe tenha espalhado dezenas de referências ao gênero pelo roteiro – nem tampouco ser um roqueiro de fé para se empolgar com o resultado final. Basta gostar de bom cinema. E bom cinema “Quase famosos” é!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...