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quarta-feira

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The first avenger, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 124min) Direção: Joe Johnston. Roteiro:Christopher Markus, Stephen McFeely, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Shelly Johnson. Montagem: Robert Dalva, Jeffrey Ford. Música: Alan Silvestri. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/John Bush. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Nigel Gostelow, Joe Johnston, Stan Lee, David Maisel. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Toby Jones, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Richard Armitage, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/7/2011

Criado como uma resposta à violência da Alemanha nazista, o Capitão América surgiu, segundo dizem, inspirado em um mito do folclore judeu, o Golem, um protetor contra a violência antissemita. Sua primeira aparição, em março de 1941 - esmurrando Adolf Hitler em pessoa - já causou polêmica e rendeu a seus criadores, Jack Kirby e Joe Simon, ameaças de grupos alinhados à política do chanceler alemão. O mais popular herói dos quadrinhos durante a II Guerra Mundial, porém, foi sendo deixado de lado após o fim do conflito e só voltou a ser aplaudido - dessa vez por uma nova geração - quando Kirby e Stan Lee o reuniu aos Vingadores, em março de 1964. O mais patriota dos heróis da Marvel, chegou perto de ter uma adaptação para os cinemas nos anos 1980 - com Jeff Bridges no papel principal -, mas foi somente com o sucesso dos dois filmes estrelados pelo Homem de Ferro e a definição de um projeto mais amplo da editora - que também originou "Thor" (2010) - que as telas (e o público) finalmente viram uma transposição digna da trajetória do soldado Steve Rogers. Com uma produção caprichada e uma renda internacional de mais de 370 milhões de dólares, "Capitão América" foi mais um passo certeiro da Marvel, e o último capítulo antes do ambicioso "Os Vingadores", lançado um ano mais tarde.

A trama - bastante fiel àquela revelada em um quadrinho lançado em janeiro de 1969 - começa em 1942 e acompanha o idealista e obstinado Steve Rogers (Chris Evans) em seu desejo de alistar-se ao exército americano e ajudar o país e os aliados na II Guerra Mundial. Franzino e pouco saudável, o jovem é repetidamente rejeitado em seus pedidos, ao contrário do que acontece com seu melhor amigo, Bucky Barnes (Sebastian Stan). Sua situação muda, no entanto, quando ele é escolhido pessoalmente pelo renomado cientista alemão Abraham Erskine (Stanley Tucci) para fazer parte de uma experiência secreta que almeja criar super soldados. Colaborando com os EUA depois que suas pesquisas foram roubadas por Johan Schmidt (Hugo Weaving), um nazista de alta patente e de métodos criminosos, Erskine vê no caráter de Rogers uma característica imprescindível para aqueles a quem deseja oferecer o soro que irá mudar os rumos da guerra. Quando o cientista é assassinado, no entanto, o projeto é deixado de lado e Rogers torna-se o Capitão América, uma simples peça de propaganda para o exército americano. Mas quando o pelotão do qual seu melhor amigo faz parte é capturado, Rogers desafia seus superiores e parte para seu resgate - batendo de frente com o perigoso Red Skull, líder da Hydra (organização terrorista ligada à Alemanha nazista). Para isso, ele conta com a tecnologia criada pelo milionário Howard Stark (Dominic Cooper).

Dirigido por Joe Johnston - escolhido graças a seu trabalho em "Rocketeer" (1991) e "O céu de outubro" (1999) -, "Capitão América" encontrou em Chris Evans seu intérprete ideal, mas foi somente depois de várias recusas que o ator (já conhecido do público de quadrinhos por ter vivido o Tocha Humana na adaptação de "Quarteto fantástico" (2005)) finalmente aceitou o desafio de encarnar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX. Primeira escolha dos produtores, Evans hesitou por um bom tempo em adentrar o universo da Marvel - e nesse meio-tempo, abriu espaço para inúmeras outras possibilidades, que iam de Brad Pitt e Matthew McConaughey a Will Smith e Leonardo DiCaprio, passando por Sam Worthington e John Krasinski (que chegou a fazer teste de figurino mas desistiu da empreitada na última hora). Bonito e carismático, Evans nem precisa fazer muito esforço para convencer a plateia de seus atos de heroísmo - ao mesmo tempo em que também convence facilmente como o jovem frágil rejeitado por seus (poucos) dotes físicos. O que talvez seja pouco crível apenas é o relacionamento amoroso entre Steve e a agente britânica Peggy Carter (interpretada pela insossa Hayley Atwell) - apesar de ser um respiro em tantas cenas de ação, seu romance soa deslocado e pouco interessante, ao contrário da relação entre o protagonista e Bucky Barnes - personagem que será crucial na segunda aventura do herói.

Como é comum nos filmes da Marvel, a produção de "Capitão América: o primeiro vingador" é caprichada, tecnicamente impecável e milimetricamente calculada para conquistar todo tipo de plateia. Quando se detém a explorar as relações entre os personagens não vai além do básico - apesar de o elenco (que inclui Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson) arrancar o máximo de cada diálogo -, mas é evidente que o foco do roteiro são as sequências de ação (derivativas mas adequadas às expectativas de plateias sempre sedentas por adrenalina). No final das contas, é um filme que entrega o que promete e diverte a seu público-alvo independentemente da falta de criatividade de sua trama e seu desenvolvimento.

 

terça-feira

OS OLHOS DE LAURA MARS


OS OLHOS DE LAURA MARS (Eyes of Laura Mars, 1978, Columbia Pictures, 104min) Direção: Irvin Kershner. Roteiro: John Carpenter, David Zelag Goodman, estória de John Carpenter. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: Michael Kahn. Música: Artie Kane. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/John Godfrey. Produção executiva: Jack H. Harris. Produção: Jon Peters. Elenco: Faye Dunaway, Tommy Lee Jones, Brad Dourif, Rene Auberjournois, Raul Julia. Estreia: 02/8/78

No final dos anos 1970,  John Carpenter, então um cineasta à procura do primeiro grande sucesso, vendeu à Columbia Pictures um roteiro com o título de "Eyes", que contava a história de uma fotógrafa que tinha o poder paranormal de ver através dos olhos de um assassino. Quando tal roteiro finalmente chegou às telas, em agosto de 1978, sob a direção de Irvin Kershner, pouco restava de suas ideias originais: além das alterações propostas pelo estúdio e pelo diretor, o desfecho era diferente do imaginado por Carpenter, que, apesar de tantas modificações, manteve o crédito como autor da trama e se viu, dois meses depois, alçado à condição de ícone do cinema de terror com seu "Halloween", lançado em outubro do mesmo ano. E se o primeiro capítulo das matanças promovidas por Michael Meyers é, ainda hoje, um clássico do gênero, seu roteiro renomeado como "Os olhos de Laura Mars" tampouco pode ser subestimado. Estrelado por Faye Dunaway pouco depois de seu Oscar por "Rede de intrigas" (1976), o filme se mantém como um suspense eficiente, a despeito de seu visual um tanto datado e de sua narrativa por vezes lenta em excesso.

O filme conta a história de Laura Mars, uma fotógrafa influente, celebrada e que vive o auge da carreira com suas imagens que vinculam arte, sexo e violência. Sem ter consciência do fato, Laura criou sua obra a partir de visões que frequentemente surgiam em sua mente. Tal dom, no entanto, torna-se um fardo quando ela começa a perceber que tem o poder de ver através dos olhos de um criminoso. Quando várias pessoas a seu redor começam a morrer violentamente assassinadas diante de seus olhos - sem que ela possa impedir -, ela resolve buscar a ajuda da polícia, que, por motivos compreensíveis, faz pouco caso de suas informações. O único a acreditar em sua narrativa é John Neville (Tommy Lee Jones), um tenente que se apaixona por ela durante as investigações. Apavorada com a possibilidade de ser a próxima vítima do assassino, Laura inicia um processo de paranoia que envolve a todos que conhece - incluindo seu violento ex-marido, Michael Reisler (Raul Julia), e seu motorista, Tommy Ludlow (Brad Dourif), cujo passado criminoso pode ter voltado à tona.


 

"Os olhos de Laura Mars" caiu nas mãos de Irvin Kershner depois da saída de Michael Miller, que abandonou o projeto devido às tradicionais "diferenças criativas" entre ele e o estúdio. Nem mesmo a estrela inicialmente pensada para o papel central, Barbra Streisand, se manteve - apesar de Barbra emprestar sua bela voz na canção-tema, "Prisoner", que toca nos criativos créditos iniciais. Antes que Faye Dunaway assumisse o protagonismo, nomes tão díspares quanto Jane Fonda, Diane Keaton, Goldie Hawn e Catherine Deneuve chegaram a ser cogitadas. A entrada de Dunaway, no auge do sucesso, acabou oferecendo à produção uma seriedade até então rara em filmes do gênero e ajudou muito no êxito comercial do filme - com um orçamento estimado em sete milhões de dólares, rendeu quase três vezes no mercado internacional. A seu lado, um então jovem Tommy Lee Jones - que dois anos depois estaria no elenco do oscarizado "O destino mudou sua vida", com Sissy Spacek -, Brad Dourif (indicado à estatueta de ator coadjuvante por "Um estranho no ninho", de 1975) e Raul Julia, antes de tornar-se um dos atores latino-americanos mais celebrados de Hollywood.  

Com um visual típico dos anos 1970 - com sua fotografia granulada, figurinos exóticos e uma narrativa sóbria mesmo quando apela para a sanguinolência -, "Os olhos de Laura Mars" conquista justamente por levar-se a sério, evitando o tom de deboche que viria a infestar o gênero na década seguinte. Ao localizar sua trama no ambiente sofisticado das fotografias de moda, Irvin Kershner usa e abusa de ângulos criativos para mergulhar o espectador no universo de pesadelo vivido por sua protagonista. Interpretada com garra por Dunaway - que três anos mais tarde escorregaria na caricatura ao interpretar Joan Crawford no polêmico "Mamãezinha querida" (1981) -, Laura Mars é uma heroína típica de sua época, quando as mulheres assumiam as rédeas do próprio destino: apesar de contar com a ajuda do policial vivido por Lee Jones, a fotógrafa jamais se deixa acomodar na posição de vítima, lutando pela sobrevivência ao mesmo tempo em que corre atrás da identidade do assassino que a persegue - uma revelação que não escapa do clichê mas não compromete o resultado final. Talvez a única questão que incomoda no roteiro é o romance entre os dois personagens principais, que soa um tanto deslocado e forçado (mas faz certo sentido nos momentos finais).

 E se existe uma prova da perenidade cultural de "Os olhos de Laura Mars" é o fato de, em 2002, quase vinte e cinco anos depois de seu lançamento, sua protagonista ter sido citada na canção "Gold dust", da cantora Tori Amos (parte de seu álbum "Scarlet's walker"). Não é toda personagem de filmes de suspense que merece tal reconhecimento!

segunda-feira

CÉU AZUL

CÉU AZUL (Blue sky, 1994, Orion Pictures, 101min) Direção: Tony Richardson. Roteiro: Rama Laurie Stagner, Arlene Sarner, Jerry Leitchling, estória de Rama Laurie Stagner. Fotografia: Steve Yaconelli. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Timian Alsaker/Gary John Constable. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Jessica Lange, Tommy Lee Jones, Powers Boothe, Carrie Snodgress, Amy Locane, Chris O'Donnell, Anna Klemp. Estreia: 24/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jessica Lange) 

Na longa lista de males que vem para o bem na história de Hollywood, "Céu azul" merece um lugar de destaque. Filmado no verão norte-americano de 1990 e pronto para ser lançado em 1991, o último filme do diretor Tony Richardson acabou ficando na prateleira por mais três anos devido à falência de seu estúdio (Orion Pictures) e só chegou aos cinemas em 1994. A má notícia é que, a essa altura, o cineasta já havia morrido e não chegou a ver seu filme estrear. A boa notícia é que, lançado em um ano particularmente fraco de grandes desempenhos femininos, o filme empurrou sua estrela Jessica Lange em direção a um Golden Globe e a seu segundo Oscar (o primeiro na categoria principal). Sua premiação foi absolutamente justa: é Lange, com sua sensualidade e sua precisão em interpretar mulheres à beira do precipício, é o corpo e a alma de uma produção fraca e, não fosse por sua presença magnética, facilmente esquecível. Indeciso entre um drama familiar e conflitos políticos, o roteiro acaba por não explorar a contento nenhum dos dois enfoques e, em vez de ser dois filmes em um, o resultado final é apenas o resultado de duas metades que nem sempre se comunicam com coerência.

Uma heroína com a sensualidade trágica de uma Ava Gardner e a densidade psicológica de um personagem de Tennessee Williams, a protagonista de "Céu azul" é Carly Marshall, a esposa bipolar de um engenheiro nuclear que trabalha para o governo dos EUA. No início da década de 60, antes da morte de Kennedy e do trauma da guerra do Vietnã, o afável Hank (Tommy Lee Jones) é parte fundamental dos estudos do país em relação a testes atômicos - mas é sua mulher a mais perigosa das armas com as quais ele tem de lutar: transferido do Havaí para o Alabama (em boa parte por causa do comportamento errôneo de Carly), ele não precisa apenas lidar com suas crises nervosas, mas também com o efeito que ela causa aos homens a seu redor. No novo lar, por exemplo, ela tira do sério o oficial Vince Johnson (Powers Boothe), superior de Hank, homem casado e pai de um adolescente, Glenn (Chris O'Donnell), que se envolve justamente com a filha mais velha do casal, Alex (Amy Locane). O relacionamento escandaloso entre Carly e Vince - que fica evidente a todos que os rodeiam - acaba tendo consequências também na vida profissional de Hank, que testemunha um acidente e se vê no centro de um jogo de interesses políticos em que a conduta de sua mulher é peça fundamental.


Único roteiro escrito por Rama Laurie Stagner até hoje, "Céu azul" é livremente baseado em sua mãe, que também viveu um conturbado relacionamento com o marido militar na década de 60. É perceptível seu carinho no desenho da protagonista, uma personagem complexa e rica em nuances, todas muito bem exploradas por uma Jessica Lange particularmente inspirada. Carly não é alguém com quem se possa simpatizar completamente - seu comportamento chega às raias da irresponsabilidade -, mas Lange injeta humanidade e alma a cada cena, enfatizando suas carências e inseguranças e a aproximando do público. O problema do filme é sua tentativa de contar duas histórias paralelas sem que haja maior aprofundamento em nenhuma delas - o que a edição apressada apenas deixa ainda mais claro. A trama que envolve Hank e seu embate com militares superiores a respeito da radiação nuclear que deixa vítimas inesperadas é interessante, mas praticamente some diante da imponência da atuação da atriz principal, que engole a tudo e a todos. E tampouco ajuda o fato de Tommy Lee Jones não ser exatamente um ator carismático e o desfecho ser tão anticlimático.

Em poucas palavras, "Céu azul" é um filme que existe e se mantém graças ao desempenho notável de uma atriz no auge do talento e a uma personagem que lhe permite explorar uma variedade imensa de possibilidades. Não é o filme marcante que poderia ser com um roteiro um pouco menos superficial ou uma direção mais segura - o que é de surpreender levando-se em conta a longa e premiada carreira de Tony Richardson. Não fosse a performance oscarizada de Jessica Lange - e até a sorte de ter sido lançado em um período favorável à sua premiação, poderia se tornar facilmente esquecível e relegado à história como uma produção quase medíocre. Salva-se como uma sessão descompromissada e uma aula de interpretação feminina, mas é apenas isso.

terça-feira

O DESTINO MUDOU SUA VIDA

O DESTINO MUDOU SUA VIDA (Coal miner's daughter, 1980, Universal Pictures, 124min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Tom Rickman, livro de Loretta Lynn, George Vecsey. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: John W. Corso/John M. Dwyer. Produção executiva: Bob Larson. Produção: Bernard Schwartz. Elenco: Sissy Spacek, Tommy Lee Jones, Beverly D'Angelo, Levon Helm, Phyllis Boyens. Estreia: 07/3/80

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sissy Spacek)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Sissy Spacek) 

Para muita gente (especialmente no Brasil), o nome Loretta Lynn não significa muita coisa. Nos EUA, porém, a história é bem diferente: uma das cantoras mais reconhecidas e famosas do país, Lynn tem inúmeros prêmios nas prateleiras (incluindo o Grammy) e é, desde a década de 60, uma referência em música country e gospel. O tamanho de sua importância é tanto que em 1980 ela recebeu uma das maiores homenagens que podem ser feitas a um artista vivo: um filme contando sua vida, produzido por um grande estúdio (a Universal Pictures) e com visibilidade e prestígio o bastante para chegar até a temporada de premiações e sair dela com alguns troféus muito ambicionados. Indicado ao Oscar de melhor filme, "O destino mudou sua vida" deu à Sissy Spacek a estatueta dourada de melhor atriz - além de todos os outros prêmios do ano, das associações de críticos ao Golden Globe. A chuva de aplausos reconhece justamente o melhor do filme, baseado em uma autobiografia da cantora, escrita em parceria com George Vecsey: convencional e sem muito brilho narrativo, "O destino mudou sua vida" deve seu sucesso à Spacek, convincente em todas as fases da personagem e mostrando um surpreendente talento vocal.

Escolhida pessoalmente pela própria Loretta Lynn para interpretá-la nas telas, e batendo até mesmo Meryl Streep na disputa pelo papel, Sissy Spacek mostra, em "O destino mudou sua vida", uma outra faceta de seu talento. Indicada ao Grammy de melhor vocal feminina em música country, ela não hesita em soltar a voz nas apresentações de Lynn, assim como sua parceira de cena Beverly D'Angelo, que interpreta a cantora Patsy Cline, grande inspiração da protagonista e que se torna sua amiga íntima durante sua trajetória rumo ao sucesso. Em sua preparação para o papel, Spacek acompanhou Lynn em uma de suas turnês, e, mantendo-se no personagem mesmo quando não estava diante das câmeras, ela impressiona com uma caracterização impecável, em expressão corporal, sotaque e, mais importante que tudo, compreensão dos variados estados de espírito de sua personagem. De adolescente insegura e apaixonada à artista consagrada, a Loretta Lynn criada pela atriz conquista pela força e pela honestidade de sua arte - surgida de suas experiências pessoais e totalmente autodidata.


O acontecimento mais importante da vida de Loretta - antes da fama e do sucesso - foi o encontro com aquele que seria seu futuro marido, Oliver 'Moon' Lynn (Tommy Lee Jones). O ano era 1947 e, com apenas 13 anos de idade, a filha mais velha de um mineiro do Kentucky, se apaixona à primeira vista, apesar da objeção dos pais. O casamento quase imediato sofre com a inexperiência da garota e a falta de jeito do marido, mas uma gravidez logo os une definitivamente e eles se mudam para Washington. Alguns mais mais tarde e já mãe de quatro filhos, Loretta é uma competente dona-de-casa e tem sua vida transformada com um presente aparentemente inútil que ganha do marido: um violão. Apaixonada por música, ela aprende sozinha a tocar e, com o apoio de Moon, começa a apresentar-se em festas locais de música country. Entusiasmada, passa a compor as próprias canções e, ao lado do marido, vai em busca do sucesso, procurando gravadoras e shows para demonstrar seu trabalho. Começa aí uma trajetória de êxito e respeito que a levará a se tornar uma das mais conhecidas cantoras country de sua geração.

Sem grandes acontecimentos dramáticos além da vida pessoal da protagonista, sacrificada em prol da carreira - e uma morte que o filme trata sem dar muita importância -, "O destino mudou sua vida" é uma produção correta, sem grandes escorregões mas igualmente sem muito brilho. Sissy Spacek realmente carrega o filme nas costas, com uma interpretação irretocável, mas a direção de Michael Apted (que depois levaria Sigourney Weaver e Jodie Foster à disputa pelo Oscar em "Nas montanhas dos gorilas", de 1988, e "Nell", de 1994, respectivamente) não consegue fazer milagres com um roteiro que, ao seguir a linha cronológica dos acontecimentos, serve apenas para retratar, sem muita inventividade, uma carreira linear e quase desinteressante - à parte o trabalho de Spacek, a história de Loretta não chega a entusiasmar àqueles que não conhecem sua música, e a edição tampouco ajuda (alguns minutos a menos não faria mal nenhum à trama). No final das contas, um filme honesto e bem realizado, mas que não justifica as sete indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e roteiro adaptado). Vale por Sissy, uma grande atriz no papel de sua vida!

sexta-feira

DÍVIDA DE HONRA

DÍVIDA DE HONRA (The homesman, 2014, ) Direção: Tommy Lee Jones. Roteiro: Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald, Wesley A. Oliver, romance de Glendon Swarthout. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Roberto Silvi. Música: Marco Beltrami. Figurino: Lahly Poore-Ericson. Direção de arte/cenários: Merideth Boswell/Wendy Ozols-Barnes. Produção executiva: G. Hughes Abell, Deborah Dobson Bach, Michael Fitzgerald, Tommy Lee Jones, Richard Romero. Produção: Luc Besson, Peter Brant, Brian Kennedy. Elenco: Tommy Lee Jones, Hilary Swank, Miranda Otto, John Litghow, James Spader, Grace Gummer, Meryl Streep, Hailee Steinfeld, William Fichtner, Sonja Richter, Tim Blake Nelson. Estreia: 18/5/14 (Festival de Cannes)

A primeira incursão de Tommy Lee Jones atrás das câmeras aconteceu em 2005, com o seco e agreste faroeste "Três enterros", e o ator, vencedor do Oscar de coadjuvante por "O fugitivo" (93), mostrou-se um cineasta atento e sensível às necessidades de um gênero em constante mutação. Porém, demorou quase uma década - e outras duas indicações à estatueta da Academia, por "No vale das sombras" (07) e "Lincoln" (12) - para que Jones retornasse à cadeira de diretor, sintomaticamente com outro faroeste. No entanto, apesar de "Dívida de honra" compartilhar do mesmo universo de sua estreia, seu segundo filme tem um viés menos violento e mais contemplativo, reflexo de um fato raro no gênero: o olhar feminino não apenas como testemunha distante, mas sim como parte ativa do desenrolar da trama.  Baseado em um romance de Glendon Swarthout, "Dívida de honra" tem como um de seus protagonistas a determinada e solitária Mary Bee Cuddy, interpretada com a dedicação habitual de Hilary Swank em um papel que lhe rendeu os maiores elogios de sua carreira desde o Oscar por "Menina de ouro" (04).

Quem procura um faroeste como aqueles que fizeram a glória de John Ford, Sérgio Leone e Clint Eastwood certamente irá se decepcionar com "Dívida de honra", dono de um ritmo e de uma trama que dispensa tiroteios, sacrifícios heróicos e duelos ao sol - ainda que a fotografia extraordinária de Rodrigo Prieto faça sua parte de encantar o espectador.  A trama começa no Nebraska da segunda metade do século XIX, quando a independente e corajosa Mary Bee - solteirona que vê todas as suas tentativas de mudar de status fracassarem sistematicamente - aceita o desafio de levar três mulheres da região que mergulharam na loucura até Iowa, onde poderão ter um tratamento adequado. Assumindo uma missão que deveria ser masculina, ela se vê de uma hora para outra no meio dos descampados do oeste. No meio do caminho, ela dá de cara com George Briggs (Tommy Lee Jones), em vias de morrer enforcado por inimigos. Por ter salvo sua vida, ela propõe a Briggs que a acompanhe em sua viagem, como forma de protegê-la e às suas conterrâneas. Ele aceita a proposta - com o incentivo de um pagamento - e aos poucos surge uma espécie de amizade entre eles, dificultada pelo desejo ainda vívido de Mary Bee de casar-se.


Ao incutir na trama central de seu filme um olhar feminista, Tommy Lee Jones surpreende positivamente não apenas por dar voz a um gênero normalmente relegado a segundo plano na vasta filmografia sobre o Velho Oeste, mas também por abrir um leque de possibilidades dramáticas que tornam seu filme imprevisível. Assim como Katharine Hepburn e Humphrey Bogart se apaixonaram em "Uma aventura na África" - mesmo sendo a personagem de Hepburn uma religiosa renitente - também Mary Bee pode convencer o seco e mau-humorado George Briggs a vê-la não apenas como a fonte de um pagamento mas também como uma mulher, disposta a aceitá-lo como marido. Apesar de não ser o foco da narrativa, tal questão paira grandiosa sobre os personagens a cada momento, até que uma reviravolta muda a percepção da plateia, os planos de um dos dois e o desfecho da história - que conta com as participações mais do que especiais de Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de coadjuvante por outro western, "Bravura indômita", de 2010) e Meryl Streep, em um papel pequeno que lhe dá oportunidade de contracenar com a filha Grace Gummer, que vive uma das três mulheres desequilibradas conduzidas pela carroça de Mary Bee.

Um faroeste atípico mas realizado com alma e extremo talento na frente e atrás das câmeras, "Dívida de honra" consegue o feito de ser ainda melhor que o filme anterior de Lee Jones, "Três enterros", que tinha roteiro de Guillermo Arriaga (dos primeiros filmes de Alejandro Iñárritu) e um tom mais trágico e violento. Contemplativo e dotado de uma melancolia quase palpável, é um projeto maduro e sério, com a marca de seu diretor, um dos mais respeitados atores de sua geração e mais uma interpretação digna de nota de sua estrela, Hilary Swank. São os dois os grandes responsáveis pela qualidade inegável da obra. Para os fãs e os não-fãs do gênero é um grande programa.

quarta-feira

UM DIVÃ PARA DOIS

UM DIVÃ PARA DOIS (Hope Springs, 2012, Columbia Pictures/Mandate Pictures, 100min) Direção: David Frankel. Roteiro: Vanessa Taylor. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Steven Weisberg. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Jason Blumenthal, Nathan Kahane, Jessie Nelson, Steve Tisch. Produção: Todd Black, Guymon Casady. Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carrell, Jean Smart, Elisabeth Shue, Mimi Rogers. Estreia: 08/8/12


Kay e Arnols Soames estão comemorando 31 anos de casamento. Dessa relação sólida e tranquila, nasceram dois filhos e um conforto que transformou-se em comodismo. Dormindo em quartos separados e sem assuntos em comum, o casal parece ter aposentado definitivamente sua vida sexual e afetiva. Mas Kay não quer entregar os pontos facilmente e, depois de ler o livro de um terapeuta de casais extremamente bem-sucedido, gasta quatro mil dólares de suas economias pagando um intensivo de sete dias em uma cidade costeira do Maine para recuperar seu casamento. A princípio decidido a não acompanhar a esposa no que considera uma loucura, Arnold acaba por ceder e eles começam, então, um período onde terão que trazer à tona assuntos que aprenderam a esconder com o passar dos anos. Com essa sinopse, “Um divã para dois” poderia servir para um drama-cabeça do sueco Ingmar Bergman, uma comédia intelectualizada de Woody Allen ou um filme erótico metido a profundo de Bernardo Bertolucci. Mas, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones nos papéis principais e a direção de David Frankel (de “O diabo veste Prada”), é apenas uma comédia dramática com bons momentos, bom elenco e a dose de previsibilidade comum a uma produção comercial e despretensiosa. Não muda a vida de ninguém, mas é garantia de um passatempo bastante agradável.
É lógico que ter Meryl Streep ajuda e muito. Já que o roteiro não foge do banal e da superficialidade, o talento da atriz em tirar leite de pedra acaba por tornar-se a principal razão para assistir-se ao filme. Mestre do minimalismo, Streep consegue convencer tanto nos momentos de humor – sutil às vezes, quase de mau-gosto de vez em quando – quanto naqueles em que sua capacidade de falar com os olhos lembra a plateia dos motivos que a levam a ser considerada a melhor atriz americana de sua geração. Ciente das vontades e do objetivo de Kay em salvar seu casamento e recuperar os dias de paixão com o marido, o público torna-se seu cúmplice, entendendo sem fazer esforço o que se passa por sua cabeça diante das constrangedoras perguntas formuladas pelo dr. Bernard Feld (Steve Carrell, bastante contido). Em contraste com a quase insensibilidade do marido (Tommy Lee Jones mais uma vez em um papel seco e no limite do brutal), Streep é uma flor de delicadeza, capaz de ultrapassar seus limites morais para reencontrar a felicidade doméstica (inclusive tentando praticar o sexo oral que aprendeu a fazer lendo um livro escrito por gays para ajudarem mulheres como ela). Mas que as feministas não preparem suas reclamações: se Kay corre atrás do prejuízo, Arnold também percebe, um tempo depois, que precisa fazer a mesma força. O filme não tem viés feminista nem machista. É apenas inconsequente.



Kay não é uma dona-de-casa que viveu para os filhos – apesar de não ter uma “carreira”, trabalha fora e tem condições suficientes para uma vida independente, se assim o quisesse. Arnold não é um homem mau, é apenas uma cria de sua geração, em que ser o provedor basta para ser considerado um bom pai de família. Amor e sexo quase não entram na sua equação, e ele acha que nunca ter traído Kay com outra mulher faz dele um exemplo a ser seguido. Ambos tem suas razões, ambos tem suas culpas. Ao longo do caminho, deixaram de lado suas vontades e seus desejos, assim como a disposição de falar sobre eles. Tudo parecia feliz. Mas, como bem lembra o terapeuta, para curar um desvio de septo é preciso quebrar o nariz; e para quebrar o nariz é preciso que isso seja feito de forma rápida. Kay é a catalisadora desse desejo de mudança. Arnold demora a acompanhá-la. É uma visão um tanto simplista a respeito das características de gênero, mas é preciso entender que estamos falando de um filme hollywoodiano com pretensões puramente comerciais e dirigido por um cineasta apenas correto e sem ambições sociológicas. “Um divã para dois” não se propõe a ser um estudo sobre as relações homem/mulher. Ele quer ser apenas uma boa comédia, aspiração que ocasionalmente alcança.
O maior acerto do filme é, sem dúvida, direcionar seu foco nos atores. Mesmo relegando a ótima Elisabeth Shue a uma única cena e Mimi Rogers a uma participação que nem chega a ser considerável, Frankel explora sem medo o talento superlativo de Streep e Tommy Lee Jones – que chega até mesmo a sorrir e dançar em uma cena, fato raro em uma carreira repleta de personagens carrancudos e ranzinzas. Sem apelar para o humor que se poderia esperar de Steve Carrell – o que não deixa de ser uma pena, já que o ator é sensacional quando tem um bom material em mãos, que o digam “Pequena Miss Sunshine” e “Amor à toda prova” – o cineasta só erra feio quando prefere manter-se no trivial e perde a oportunidade de discutir com mais afinco as questões levantadas pela trama: desde o princípio dá para imaginar o desfecho da história, e o roteiro nada faz para mudar essa percepção. Essa falta de ousadia é o que, afinal, impede “Um divã para dois” de ser uma comédia memorável, mantendo-a no nível de um entretenimento divertido, mas nunca brilhante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...