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sexta-feira

O REGRESSO

O REGRESSO (The revenant, 2015, Regency Enterprises, 156min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu, livro de Michael Punke. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alva Noto, Ryuichi Sakamoto. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Beauchamp Fontaine, Hamish Purdy. Produção executiva: Markus Barmettler, Jennifer Davisson, David Kanter, Philip Lee, Jake Myers, James Packer, Brett Ratner. Produção: Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, Mary Parent, Keith Redmon, James W. Skotchdopole. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domnhall Gleeson, Lukas Haas, Thomas Guiry, Will Poulter, Forrestt Goodluck, Kristoffer Joner. Estreia: 16/12/15

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Tom Hardy), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem, Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Drama), Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator/Drama (Leonardo DiCaprio) 

As três estatuetas conquistadas por "O regresso" na cerimônia do Oscar 2016 são marcantes por si mesmas: Leonardo DiCaprio finalmente saiu-se vitorioso, para alívio dos fãs que clamavam por isso no mínimo desde "Titanic" (1997); Alejandro G. Iñárritu levou seu segundo prêmio consecutivo de diretor (depois do exótico "Birdman"); e Emmanuel Lubezki tornou-se a primeira pessoa a acumular três Oscar seguidos de fotografia. Mas, apesar de todas essas curiosidades, é preciso dizer que elas apenas refletem o que fica claro ao término de uma sessão: mais do que a epopeia de um homem em busca de sobrevivência e vingança e mais do que um filme feito com a intenção de arrebatar o Oscar, "O regresso" é a comprovação da tenacidade, da versatilidade e do talento de Iñárritu como homem de cinema. Completamente diferente de todos os seus filmes até então - boa parte deles ainda na fase de colaboração com o roteirista Guillermo Arriaga - e muito mais ambicioso do que eles, sua odisséia de som e fúria é uma impressionante tour de force, valorizada pelo trabalho irretocável de DiCaprio, por um visual estonteante e uma história quase inacreditável - mas que, por incrível que pareça, foi inspirada em fatos reais.

Contada no livro de Michael Punke (publicado no Brasil pela editora Intrínseca à época da estreia do filme no país), "O regresso" chegou aos cinemas com algumas alterações cruciais em relação à obra original, compreensíveis do ponto de vista narrativo - e de certa forma mais empolgantes do que seriam caso houvesse fidelidade total. A maior diferença entre livro (e realidade) e filme é a criação de Hawk (Forrest Goodluck), filho do protagonista Hugh Glass com uma índia e motivo de suas desavenças com parte de seu grupo de comerciante de peles, pouco afeitos à miscigenação racial: é a morte de Hawk que, no filme, empurra Glass em direção à vingança, sentimento que o mantém vivo apesar da série de acontecimentos trágicos pelos quais ele passa. Na verdade, não há nenhum registro de que Glass tenha sequer se casado, especialmente com uma indígena, apesar de proceder o fato principal da história: ele realmente foi deixado à própria sorte por seus companheiros depois de quase morrer atacado por um urso - e realmente foi atrás dos responsáveis por isso, enfrentando desafios impensáveis em um inverno particularmente gelado no ano de 1823. Para retratar a natureza em toda a sua magnitude (assim como sua violência involuntária), Iñárritu e Emmanuel Lubezki resolveram usar a luz natural o máximo possível - o resultado é deslumbrante, mas em compensação, tal capricho arrastou as filmagens por um período extremamente longo de nove meses, entre o Canadá e o sul da Argentina, e inchou o orçamento inicial (de 60 milhões de dólares) para 135 milhões, recuperados graças ao sucesso de bilheteria - quase surpreendente em se tratando de um filme razoavelmente difícil de vender - pelo mundo todo.


Seu sucesso comercial, no entanto (mais de 500 milhões arrecadados no total), deve-se, em grande parte, à presença de Leonardo DiCaprio, um ator tão talentoso quanto popular - e bastante inteligente na hora de escolher seus projetos. Para encarar as difíceis filmagens de "O regresso", que o esgotaram fisicamente e o obrigaram inclusive a sair de sua dieta vegetariana para encarar um pedaço de carne crua, o ator abriu mão de estrelar "Steve Jobs", dirigido por Danny Boyle: o papel ficou com Michael Fassbender, que, por ironia, disputou a estatueta da Academia com o próprio DiCaprio. Para ter DiCaprio em seu filme, Iñárritu também fez sacrifícios (ainda que muito bem recompensados): adiou o início da produção para que seu protagonista filmasse "O lobo de Wall Street" (2013) e realizou seu "Birdman" (2014), que lhe rendeu os Oscar de filme, direção e roteiro original. Comparado com a grandiosidade de "O regresso", a história do ator de cinema que busca a redenção artística produzindo teatro sério é quase minimalista: em nenhum momento de sua carreira até então o cineasta mexicano havia demonstrado uma pretensão artística tão grande, apesar da complexidade narrativa de alguns de seus trabalhos anteriores, como "Amores brutos" (2000), "21 gramas" (2003) e "Babel" (2006), todos em parceira com Arriaga. O fim de sua colaboração é sentida em "O regresso" - apesar de ser um filme de encher os olhos e prender a atenção até o final, falta a ele um elemento crucial: um roteiro mais coeso e claro (fato evidente por sua ausência na generosa lista de 12 indicações à estatueta dourada). É, por vezes, difícil acompanhar a história, contada em três linhas narrativas paralelas: nunca fica claro, por exemplo, os motivos das brigas entre índios e brancos, e tampouco as brigas dos indígenas entre si. É louvável que Iñárritu não coloque os índios como vilões sanguinários, mas sempre que o foco se desvia de Glass para as desavenças internas das tribos inimigas o filme perde força e ritmo.

Felizmente isso acontece poucas vezes, já que a trama é centrada basicamente em Hugh Glass: parte integrante de um grupo de comerciantes de peles animais no início do século XIV, ele é brutalmente atacado por um urso, que o deixa à beira da morte. Sem condições de carregá-lo de volta para casa, seu capitão, Andrew Henry (Domhnall Gleeson), propõe a três de seus homens que fiquem encarregados de cuidar dele - e dar-lhe um enterro digno quando chegar a hora. Os três homens que se dispõem a isso são o filho de Glass (o mestiço Hawk), o jovem Jim Bridger (Will Poulter) e o ambicioso John Fitzgerald (Tom Hardy) - o único dos três a aceitar a missão puramente por dinheiro. Não demora muito, porém, para que Fitzgerald seja flagrado por Hawk tentando matar Glass e o resultado é trágico: o rapaz é assassinado diante dos olhos do pai, que é enterrado vivo por Fitzgerald, que mente à Bridger a respeito de sua morte. Surpreendentemente vivo - depois de violentamente ferido pelo urso e esfaqueado por seu novo inimigo - Glass encontra forças para sair de sua cova e partir em busca de revanche, enquanto um grupo de índios Arikara procura a filha de seu chefe, sequestrada por um homem branco.

Iñárritu não poupa a plateia de sequências de tirar o fôlego - seja pela beleza natural dos cenários, magistralmente fotografados, seja pela violência extrema de algumas cenas. Amparado por uma atuação devastadora de Leonardo DiCaprio e um Tom Hardy assustador roubando todas as cenas em que aparece - sua indicação ao Oscar de coadjuvante foi absolutamente merecida -, "O regresso" é um filme empolgante, apesar de sua duração excessiva (provavelmente oriunda de seu desejo óbvio de ser um grande épico) que o torna um tanto cansativo, e de sua falha em criar uma conexão mais sólida entre o protagonista e o público: o diretor está tão interessado em mostrar que é capaz de provocar espanto com seu visual que deixa de lado o desenvolvimento dos personagens. Um pecado que até pode não incomodar àqueles que se deixam deslumbrar pelas belas imagens, mas que o impede de ser ainda maior. Ainda assim é um ponto alto na carreira de todos os envolvidos.

domingo

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (Birdman or (The unexcpected virtue of ignorance, 2014, New Regency Pictures, 119min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dineralis Jr., Armando Bo. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música: Antonio Sanchez. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr.. Produção executiva: Molly Conners, Sarah E. Johnson, Christopher Woodrow. Produção: Alejandro G. Iñárritu, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole. Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Estreia: 27/8/14 (Festival de Veneza)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Ator (Michael Keaton), Ator Coadjuvante (Edward Norton), Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Michael Keaton), Roteiro

Quem estava acostumado a ver o nome de Alejandro Gonzalez Iñárritu nos créditos de filmes densos e praticamente desprovidos de qualquer tipo de senso de humor como "Amores brutos" (00), "21 gramas" (03), "Babel" (06) e "Biutiful" (10) provavelmente levou um susto ao deparar-se com seu "Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)", que entrou firme e forte na disputa pelo Oscar de melhor filme de 2014 e deixou pra trás outros elogiados trabalhos da temporada - como "Boyhood, da infância à juventude" e "O Grande Hotel Budapeste" - ao abocanhar 4 estatuetas, incluindo filme e diretor.  Abandonado o pessimismo realista que permeava seus três primeiros filmes - e sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - o cineasta mexicano realizou seu trabalho mais poético, recheado de metáforas brilhantes sobre a arte, a vida e as relações interpessoais e dotado de um tom onírico e sarcástico que contrasta com o habitual realismo de sua cinematografia anterior. Amparado ainda em uma atuação arrebatadora do até então canastrão Michael Keaton - a maior de suas ferramentas de metalinguagem - o filme de Iñárritu discute, sem parecer pedante ou hermético, o culto vazio às celebridades, a efemeridade da fama, o sensacionalismo e a irresponsabilidade da mídia (Internet incluída) ao contar a aparentemente simples história de um decadente ator popular de cinema tentando provar-se um intérprete sério ao estrelar um peça de teatro na Broadway. Tecnicamente impecável e sombriamente engraçado, "Birdman" é, acima de tudo, um filme sobre a paixão pelo teatro, pela busca incessante da transcendência através da arte.

Riggan Thompson (Michael Keaton) é o que pode-se chamar de um ex-astro: protagonista de uma série de três filmes onde interpretou um super-herói chamado Birdman, ele viu sua carreira entrar em decadência vertiginosa depois de ter recusado um quarto capítulo, há mais de vinte anos. Considerando-se um fracassado quase irrecuperável, ele resolve dar uma última cartada para retomar sua autoestima e conquistar o respeito da crítica e do público: escrever, dirigir, produzir e estrelar uma peça de teatro na Broadway. Sua insegurança, porém, ameaça a estreia do espetáculo, assim como a gama de personagens surreais que o rodeiam, como Mike Shiner (Edward Norton, sensacional como sempre), ator de métodos tradicionais que se considera superior à toda a equipe por ter construído sua carreira nos palcos e não nas telas, e a filha de Riggan, Sam (Emma Stone), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação. Além dos problemas normais de uma produção teatral, o ídolo de uma geração de cinéfilos também precisa enfrentar a má-vontade pré-concebida da crítica e lidar com a voz do próprio Birdman - que surge como uma espécie de conselheiro invisível que o empurra adiante em suas ambições.


"Birdman" é uma festa para os olhos, os ouvidos e o cérebro da plateia. A fotografia de Emmanuel Lubezki integra-se à narrativa de forma tão orgânica que parece quase invisível diante dos ilusórios planos-sequência criados por Iñárritu, que conduzem a plateia pelos corredores estreitos do teatro onde se passa a maior parte da ação apenas para culminar em um clímax de extrema poesia e força dramática. O roteiro - equilibrado com maestria entre o humor cáustico e o drama existencial de uma geração exposta ao nada admirável mundo novo da tecnologia que torna tudo vorazmente fugaz - soa como um bálsamo para um público acostumado a diálogos pobres e ginasiais. E as questões que discute - a prostituição da arte, o amor pelo teatro, a dicotomia prestígio/popularidade, a falta de sentido na fama pela fama - nunca foram tão prementes quanto hoje em dia, quando talento vem sendo mercadoria dispensável na fogueira das vaidades do sucesso instantâneo. Somados a tudo isso há ainda o elenco em dias de extrema inspiração: Michael Keaton, no papel de sua vida (literalmente), tinha tudo para ganhar um Oscar de melhor ator, caso a Academia não tivesse se rendido ao óbvio e homenageado Eddie Redmayne por sua caracterização de Stephen Hawking. E Edward Norton - duas vezes indicado anteriormente e duas vezes descaradamente roubado - teve o azar de encontrar J.K. Simmons pela frente: uma vitória sua teria sido surpreendente, mas jamais injusta.

Talvez uma parte do público - menos disposta a experiências que fujam do banal - rejeitem "Birdman" por sua estética, sua narrativa, seu tema. Mas provavelmente não seja essa parte da audiência que Alejandro Gonzalez Iñárritu queira atingir com sua magistral fábula. Encantar-se com a inteligência e a sutileza de seu trabalho é privilégio de quem consegue sonhar acordado apesar dos pesares. "Birdman" é para quem tem a arte na alma.

terça-feira

BABEL

BABEL (Babel, 2006, Paramount Vantage, 143min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música Gustavo Santaolalla. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Yoshihito Akatsuka. Produção: Steve Golin, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Jon Kilik. Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael Garcia Bernal, Adriana Bazarra, Rinko Kikuchi, Kôji Yakusho. Estreia: 27/10/06

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro Gonzalez Iñarritu), Atriz Coadjuvante (Adriana Barraza, Rinko Kikuchi), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Drama

A obra do cineasta mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu é permeada por personagens vítimas inclementes de tragédias pessoais que, de uma maneira ou outra, interferem em outras existências. Foi assim com seu sensacional "Amores brutos" - que, entre outras qualidades revelou o ator Gael Garcia Bernal - e com seu denso "21 gramas", que marcou sua estreia em Hollywood sem perder a força dramática. E é assim também com "Babel", que, apesar de ser o mais fraco da trilogia, conquistou a Academia e arrebatou 7 indicações ao Oscar, incluindo nas ambicionadas categorias de Melhor Filme e Direção. Refinando sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - também contemplado com uma indicação à estatueta - Iñarritu construiu um ambicioso painel sobre as falhas na comunicação humana e como elas podem ser responsáveis pela dor e pela solidão.

Sem medo de repetir sua marca registrada - histórias paralelas que se cruzam de alguma forma - a dupla Iñarriu/Arriaga dessa vez vai mais longe do que em suas experiências anteriores. Enquanto "Amores brutos" se passava no México e "21 gramas" nos EUA, "Babel" estende seus tentáculos sobre três diferentes continentes e três idiomas distintos de maneira original e excitante - ainda que nem sempre o roteiro consiga atingir plenamente seus objetivos. É evidente, por outro lado, a paixão do cineasta por seu projeto, que lhe permitiu contar com atores do cinemão comercial americano - Brad Pitt e Cate Blanchett - com atores de seu país natal - Gael Garcia Bernal e Adriana Barraza - e com atores japoneses (Rinko Kikuchi e Kôji Yakusho). Brad Pitt, inclusive, abdicou de um papel importante em "Os infiltrados", de Martin Scorsese, para interpretar o papel de Richard Jones, um americano que viaja ao Marrocos acompanhado da esposa, Susan (Cate Blanchett) como forma de reanimar a relação. É um trágico acontecimento na vida do casal que irá detonar os acontecimentos de "Babel".

Durante uma viagem de ônibus, Susan acaba sendo acidentalmente alvejada por um tiro. Desesperado e sem saber comunicar-se direito com os habitantes do local, Richard tenta socorrer a esposa, mesmo encontrando resistência junto aos demais turistas. Sua busca alucinada por ajuda - eles estão em um lugar sem hospitais e sem médicos - acaba se refletindo em sua casa: sem possibilidades de voltar aos EUA, Richard pede à Amelia (Adriana Barraza), sua empregada doméstica, que tome conta de seus dois filhos pequenos. Acontece que Amelia está indo para o México para acompanhar o casamento do filho e resolve levar as crianças junto com ela e seu sobrinho, o pouco confiável Santiago (Gael Garcia Bernal). Apesar do choque de culturas, todos acabam se entendendo bem, até que, na volta para casa, Santiago arruma problemas com o guarda da fronteira - que não acredita nas boas intenções de Amelia em relação aos filhos de seu patrão - e leva todos a uma situação extrema de tensão e pânico. Enquanto isso, no Japão, a jovem surda-muda Chieko (Rinko Kikuchi) tenta escapar da carência e da solidão se oferecendo aos homens que passam à sua frente, talvez como forma de chamar a atenção do pai, empresário que ofereceu, em viagem ao Marrocos, o rifle que disparou o tiro que atinge Susan.

Fabulosamente editado, "Babel" encontra em seu elenco a perfeita tradução dos sentimentos espalhados pelo roteiro. Se Pitt, Blanchett e Gael são pouco exigidos com suas personagens são justamente as atrizes menos conhecidas que chamam a atenção - atenção essa devidamente reconhecida pela indicação dupla ao Oscar de coadjuvantes femininas. Adriana Barraza (que já havia trabalhado com o diretor em "Amores brutos") entrega uma Amelia devastadora em sua timidez e seu senso de inferioridade em relação aos americanos, na melhor das histórias narradas. E Rinko Kikuchi tem uma atuação corajosa como uma adolescente desesperada por carinho. São elas quem comandam a festa, provando que talento não tem idade, idioma ou fama e mostram que a Babel criada por Iñarritu é muito mais real do que se pode imaginar.

Mesmo tendo perdido o Oscar para "Os infiltrados" - saiu da cerimônia apenas com a estatueta de trilha sonora original - "Babel" é o encerramento apropriado para a trilogia criada por Iñarritu e Arriaga. Um filme doloroso, forte e tenso, capaz de permanecer na mente do espectador por um bom tempo após o término da sessão.

21 GRAMAS


21 GRAMAS (21 grams, 2003, Focus Features, 124min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Meg Everist. Produção executiva: Ted Hope. Produção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Elenco: Sean Penn, Benicio Del Toro, Naomi Watts, Melissa Leo, Charlotte Gainsbourg, Danny Huston, Clea Duvall, Eddie Marsan. Estreia: 19/10/03

2 indicações ao Oscar: Atriz (Naomi Watts), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro)

A vida vista pelos olhos do roteirista Guillermo Arriaga e pelo diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu não é exatamente cor-de-rosa. Pelo contrário, a dupla de mexicanos que deu ao mundo o excepcional “Amores brutos” volta a analisar o lado sombrio e triste da alma humana em seu segundo longa-metragem, desta vez sob os auspícios generosos de um orçamento hollywoodiano, sem, no entanto, perder em qualidade dramática. A estrutura do primeiro filme – histórias aparentemente isoladas que se entrecruzam – se mantém. O ritmo próprio idem. Mas, se antes o elenco não contava com nenhum nome internacionalmente conhecido – Gael García Bernal ainda não havia estourado – agora a história é bem diferente. Quando “21 gramas” estreou, Benicio Del Toro já tinha um Oscar na prateleira, Sean Penn estava em vias de ganhar o seu primeiro por "Sobre meninos e lobos" e Naomi Watts já era famosa entre os críticos por sua atuação em “Cidade dos sonhos” e entre os fãs de cinema pelo remake de “O chamado”.

Contado de forma aparentemente desconecta, “21 gramas” conta três histórias que se encontram (se chocam talvez seja a melhor expressão) devido a um trágico acidente de carro (ecoando a mesma situação de “Amores brutos”). O professor Paul Rivers (Sean Penn, mais uma vez sensacional) sofre de uma doença grave no coração e precisa de um transplante – para salvar sua vida e manter seu abalado casamento com  Mary (Charlotte Gainsbourg), que sonha em ter um filho mas esconde um aborto em seu passado. Christina Peck (Naomi Watts merecidamente indicada ao Oscar) é uma dona-de-casa dedicada que vive uma vida de faz-de-conta com o marido Michael (Danny Huston) e as filhas pequenas. E Jack Jordan (Benicio Del Toro, avassalador) é um ex-presidiário que, convertido a um catolicismo fanático na prisão, tenta reestabelecer o convívio com a família. O destino, irônico como nunca, porém, prega uma peça a todos eles: em um final de tarde, Jack atropela e mata a família de Michael, cujo coração vai parar no peito de Paul, que, em um ato de desatino, procura Christina e se apaixona por ela, que desesperada, deseja vingança.


É desesperador assistir-se à "21 gramas". Ao contrário do que normalmente acontece no cinemão americano, a angústia e a dor de seus protagonistas não são disfarçados por um humor deslocado ou por belas imagens - ainda que a fotografia excepcional de Rodrigo Prieto esteja totalmente de acordo com a intenção de Iñarritu de aproximar o espectador de suas personagens, em closes tensos e uma iluminação que reflete com perfeição todos os estados de espíritos. A edição picotada de Stephen Mirrione - vencedor do Oscar por "Traffic" - também colabora para corroborar a desorientação dos três anti-heróis criados por Guillermo Arriaga, em um roteiro tão coeso que é o ápice de sua carreira: Paul, Christina e Jack são pessoas reais, de carne-e-osso, construídas com tal verdade que é impossível à audiência não acreditar em seus dramas e dúvidas. E para isso, logicamente, o cineasta conta com um elenco nunca menos do que espetacular.


É difícil lembrar um filme cujo trio de protagonistas seja tão especial quanto aquele que forma a tríade de ouro de "21 gramas". Enquanto Penn mais uma vez comprova seu talento e versatilidade, Naomi Watts surpreende demonstrando um alcance dramático vislumbrado em "Cidade dos sonhos" e aqui visto em sua totalidade de nuances. Mas é Benicio Del Toro com seu devastador Jack Jordan quem rouba o filme, com diálogos substanciais e uma crença tão absoluta no destino - a quem ele coloca o nome de Deus - que é impossível não lhe crer em cada fala, em cada silêncio, em cada olhar. Mais ainda do que no papel que lhe deu o Oscar - em "Traffic" - é aqui que Del Toro demonstra todo seu imenso talento, em uma interpretação arrepiante.

Por mais árduo e dolorido que seja compartilhar das duas horas de sofrimento imposto por "21 gramas" é também impossível não se deixar emocionar e envolver com sua trama. Forte, emocionante e triste, é um dos grandes filmes de seu tempo, e a obra-prima - até a data - de seu extraordinário realizador.

AMORES BRUTOS

AMORES BRUTOS (Amores perros, 2001, México, 154min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Luis Carballar, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Fernando Perez Unda. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Gabriela Diaque. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Julieta Alvarez. Produção executiva: Francisco Gonzalez Compeán, Martha Sosa Elizondo. Produção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Elenco: Gael Garcia Bernal, Emilio Echevarria, Goya Toledo, Adriana Barraza, Alvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Humberto Busto. Estreia: 14/5/00 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Impressionante como poucos filmes de estreia, o mexicano “Amores brutos” marca como uma cicatriz profunda. Sem preocupar-se a fazer concessões a uma estética americanizada e com uma forte história – ou seriam três? – a ser contada, o filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu é um dos melhores produtos cinematográficos do México e nem precisou de um astro internacional ou um orçamento milionário pra isso – vale lembrar que em 2000 Gael García Bernal ainda não era tão famoso como é hoje

Conforme sugere o título original do filme – “Amores perros” – são cães que unem, sutil e habilmente as histórias contadas no genial roteiro de Guillermo Arriaga. Genial porque não tenta forçar a união entre as histórias e mais genial ainda ao contar histórias fortes, com personagens polidimensionais e humanos enfrentando momentos cruciais de suas vidas. Tudo começa com um violento acidente de carro – filmado magistralmente pelas câmeras de Rodrigo Prieto. A partir daí as histórias são contadas, através de um engenhoso flashback que mostra como elas chegaram até ali. A primeira trama a ser mostrada envolve o jovem Octavio (o ótimo Gael García Bernal), um rapaz apaixonado pela cunhada maltratada pelo marido e que utiliza seu cachorro em lutas de cães para arrumar dinheiro e poder fugir com ela. A segunda história é a da bela modelo Valeria (Vanessa Bauche), que ao finalmente conseguir casar-se com o homem que ama, que abandona a esposa para ficar com ela, sofre o tal acidente do início do filme. Sua única companhia em seus momentos de solidão é seu cãozinho de estimação que, ao ficar preso sob seu apartamento causa um acidente ainda mais grave à sua dona. E por fim, mas não menos importante, o ex-guerrilheiro Chivo (Emilio Echeverria), que salva o cão de Octavio de morrer no acidente automobilístico resolve abandonar a vida de mendigo e matador de aluguel para buscar reencontrar a filha que abandonou ainda criança.   


Ao contrário de muitos filmes que se utilizam de histórias fracionadas para exibir um quebra-cabeças frágil e sem substância, “Amores brutos” acredita em seu roteiro e em seus personagens, tão completos e complexos que sustentariam tranqüilamente um filme inteiro. A maneira como personagens aparentemente tão díspares são ligados acaba sendo apenas um mero detalhe em um filme repleto deles, todos tão fascinantes quanto as personalidades retratadas por Arriaga, um observador acurado de seres antes de mais nada extremamente humanos. O paradoxo de utilizar animais como elementos de ligação entre humanos em momentos tão extremos é só mais um artifício utilizado com inteligência pelo roteirista, que em conjunto com o diretor Iñarritu e os editores realizou um dos mais impactantes filmes do cinema contemporâneo mexicano, que revela talentos crus e viscerais.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...