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quinta-feira

CONCORRÊNCIA OFICIAL


CONCORRÊNCIA OFICIAL (Competencia oficial, 2021, ICAA/Orange/RTVE, 115min) Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat. Roteiro: Andrés Duprat, Gastón Duprat, Mariano Cohn. Fotografia: Arnaud Valls Colomer. Montagem: Alberto del Campo. Figurino: Wanda Morales. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sara Natividad. Produção executiva: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Laura Férnadez Espeso, Oscar Martínez, Javier Méndez, Javier Pons. Produção: Jaume Roures. Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Oscar Martínez, José Luiz Gómez. Estreia: 04/9/2021

O que fazer quando se chega aos 80 anos de idade, tem dinheiro de sobra e sonha em ter o nome para a posteridade? O empresário Humberto Suárez (José Luiz Gómez), depois de pensar em inúmeras possibilidades (como uma ponte, por exemplo) chega à conclusão de que o melhor negócio que pode fazer é financiar um filme. Mas não um filme qualquer, e sim um grande filme, o melhor que o dinheiro pode comprar. E é com esse objetivo que ele contrata a premiada Lola Cuevas (Penélope Cruz) para dirigir a adaptação de um célebre romance que tem todos os ingredientes para transformar-se em sucesso. Dona de uma personalidade bastante excêntrica, Lola embarca no projeto com a condição de contar, no elenco, com dois dos maiores atores do país: o prestigiado Iván Torres (Oscar Martínez) e o popular Félix Rivero (Antonio Banderas). O que nem Humberto nem os tarimbados atores poderiam imaginar é que os métodos de Lola para atingir a perfeição fogem muito do convencional - e transformam os ensaios em um inferno, fazendo emergir ressentimentos, inseguranças e sentimentos pouco nobres de todos os envolvidos no processo.

Dirigido pelos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, "Concorrência oficial" é um deleite para os fãs de cinema em geral e artistas em particular: ao mergulhar em um universo repleto de egos inflados e talentos superestimados, a dupla de cineastas e roteiristas brinca com o próprio métier sem nunca perder, apesar do tom de deboche, o respeito pelo cinema e seus realizadores. Ao retratar diretores egóicos, atores autocentrados e produtores sem o menor tino artístico, a trama surpreende o espectador com uma narrativa imprevisível e personagens repletos de camadas, reveladas aos poucos, conforme suas barreiras vão sendo demolidas a ferro, fogo e dinâmicas bizarras criadas por Lola - interpretada com perceptível prazer por Penélipe Cruz, uma das produtoras executivas do filme, ao lado de seus colegas de elenco. Com um visual exuberante que lembra seus melhores momentos com o espanhol Pedro Almodóvar - nitidamente uma influência na paleta de cores vivas e na excentricidade dos personagens -, Cruz deita e rola com diálogos saborosos, repletos de absurdos e referências à cultura pop. De maneira inteligente, os diretores conseguem até mesmo uma auto-citação: o romance adaptado por Cuevas, "Rivalidade", é de autoria de Daniel Mantovani, personagem do filme anterior dos realizadores, "Um cidadão ilustre", vivido pelo mesmo Oscar Martínez que interpreta aqui o celebrado Iván Torres.


 

Iván Torres é um ator de métodos clássicos, do tipo que cria um passado para os personagens que irá interpretar e mergulha profundamente em sua criação. A forma como lida com seu ofício bate de frente com a quase irresponsabilidade de Féliz Rivero, seu colega e rival, que leva a profissão bem menos a sério - e, paradoxalmente, é bem mais popular entre o público. O confronto entre dois estilos de atuação é a faísca procurada por Lola, que os escolhe justamente por sua radical diferença, que ela julga apropriada para a história de dois irmãos rivais. Enquanto ensaia cada linha de diálogo do roteiro - para enfado de ambos, cada um por uma razão diferente - e cria dinâmicas quase humilhantes para arrancar deles interpretações viscerais (a ponto de fazê-los ler o roteiro sob uma rocha que pesa toneladas e pode vir a desabar a qualquer momento), a polêmica diretora não percebe que, em determinado momento, torna-se também vítima de suas técnicas quando passa a questionar o que é verdade ou não na relação entre seus astros - o que pode até acarretar uma tragédia inesperada.

É difícil saber o que é mais precioso em "Concorrência oficial". Do roteiro, original e mordaz, à escalação do elenco, absolutamente certeira, tudo no filme de Cohn e Duprat funciona às mil maravilhas. O estranhamento do primeiro ato - quando Lola Cuevas inicia seu processo criativo - dá lugar, gradativamente, a uma trama recheada de ironias, brilhantemente abraçadas por seus atores, todos em estado de graça. Equilibrando-se entre o humor mais fino e o suspense por vezes inesperado, o filme transita com facilidade por diversos gêneros, extraindo o melhor de cada um deles para oferecer à plateia um banquete cuidadosamente preparado. Criticando o culto à celebridade ao mesmo tempo em que não perdoa o exagerado pedantismo de certa parcela da elite artística, a produção faz rir e pensar na mesma intensidade - é um programa inteligente e leve, que mostra, mais uma vez, a inegável qualidade do cinema argentino contemporâneo.

segunda-feira

CORAÇÃO DE CAÇADOR


CORAÇÃO DE CAÇADOR (White hunter, black heart, 1990, Warner Bros, 112min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Peter Viertel, James Bridges, Burt Kennedy, romance de Peter Viertel. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Peter Howitt. Produção executiva: David Valdes. Produção: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Jeff Fahey, George Dzundza, Marisa Berenson, Richard Vanstone. Estreia: 16/5/90 (Festival de Cannes)

Quando Clint Eastwood decidiu realizar a cinebiografia do músico Charlie Parker, poucos levaram fé que o responsável por filmes como "Impacto fulminante" (1983) e "O cavaleiro solitário" (1985) - produções centradas na adrenalina e em personagens durões - seria capaz de transmitir nas telas a complexa personalidade de um dos ícones do jazz. O sucesso de crítica de "Bird" (1988), porém, mostrou que, por trás da figura quase pétrea do cineasta, havia alguém com sensibilidade o bastante para romper a barreira do cinema de ação/policial/guerra. Embalado por tal inesperado prestígio, o já veterano Eastwood (ainda não consagrado com os Oscar de diretor que conquistaria poucos anos depois) chegou à Warner com uma proposta que, a princípio, contemplaria o melhor de dois mundos: ele oferecia seus préstimos para comandar mais um potencial êxito de bilheteria e, em troca, o estúdio bancaria a produção de um de seus então projetos de estimação. Proposta feita, proposta aceita, e em 1990, dois filmes com a assinatura do eterno Dirty Harry chegaram às telas: o convencional e quase derivativo "Rookie: um profissional do perigo" e "Coração de caçador", que se tornaria um dos maiores fracassos comerciais do ator/diretor/produtor - ao mesmo tempo em que arrancaria entusiasmados elogios da crítica. 

Publicado em 1953, o romance "White hunter black heart", de Peter Viertel, é, a rigor, uma obra de ficção. Porém, logo em seu lançamento ficou claro para todos que se tratava de uma reimaginação a respeito dos bastidores das filmagens do clássico "Uma aventura na África", dirigido por John Huston e lançado em 1951. O filme, que deu a Humphrey Bogart seu único Oscar, teve uma produção conturbada, e Viertel, amigo de Huston, foi um de seus roteiristas, ainda que não creditado oficialmente. Testemunha de boa parte dos problemas da realização do filme, escreveu seu livro disfarçando os nomes dos envolvidos e alterando pequenos detalhes - providências insuficientes para evitar que o livro se tornasse quase um relato oficial, apesar dos protestos de gente que esteve no olho do furacão, como a estrela Katharine Hepburn, ela própria autora de um livro sobre o assunto, chamado "The African Queen, or How I went to Africa with Bogie, Bacall and Huston and almost lost my mind". Hepburn questionou boa parte da narrativa de Viertel, mas o fato é que, apesar de sua posição privilegiada junto à equipe, é uma personagem bastante secundária no filme de Eastwood - o foco de "Coração de caçador" é, conforme o título dá uma boa pista, a obsessão de John Huston (ou, em sua versão fictícia, John Wilson) em caçar um elefante durante sua estadia nas locações africanas.

 

A trama do filme se passa em 1951 e começa quando o famoso cineasta John Wilson (interpretado pelo próprio Clint Eastwood, em atuação discreta e com maneirismos imitando o célebre John Huston) convence seu produtor, Paul Landers (George Dzundza), a financiar seu arriscado novo projeto, "The African Trader", escrito por seu amigo Pete Verrill (Jeff Fahey). Apesar de estar afundado em dívidas e ser considerado excêntrico em excesso, Wilson acaba recebendo sinal verde e parte para a África com o roteirista e a equipe. O que ninguém sabe, porém - com exceção de Verrill - é que, mais até do que realizar sua nova obra cinematográfica, o que Wilson realmente deseja é matar um elefante durante um safári. Contando com a ajuda de guias locais, atrasando o cronograma e aproveitando a estação chuvosa como desculpa para o adiamento das filmagens, ele mergulha profundamente em sua obsessão - a ponto de preocupar os colegas e arriscar a própria vida. Enquanto a equipe aguarda o começo dos trabalhos, Wilson lida placidamente com a preocupação de Landers - que chega à locação disposto a forçar o começo dos trabalhos.

Lançado no Festival de Cannes de 1990, "Coração de caçador" agradou à crítica, que viu nele ecos de um Clint Eastwood mais maduro como cineasta, mas naufragou solenemente nas bilheterias. Talvez reflexo de um tema não exatamente popular, seu fracasso comercial não eclipsou, no entanto, as qualidades de seu resultado artístico. Magnificamente fotografado por Jack N. Green - ajudado pelas belas paisagens do Zimbabue - e com uma trilha sonora exuberante de Lennie Niehaus, colaborador frequente de Eastwood antes que ele mesmo passasse a cuidar da música de seus filmes, o 14º longa-metragem do diretor é uma bela homenagem às idiossincrasias do ser humano em geral - Wilson não se preocupava com coisas como ecologia mas não pensa duas vezes em sair no soco com racistas/nazistas e afins - e de John Huston em particular. Mesmo não tendo conhecido o veterano diretor pessoalmente, Eastwood o revive em uma caracterização caprichada, aprovada até mesmo por sua filha, Anjelica, com quem viria a trabalhar em "Dívida de sangue" (2002) - não muito longe do tom durão de seus personagens mais famosos, o diretor/ator/produtor abraça novos horizontes e novos temas em uma carreira que ainda daria muitos frutos e muitos sucessos. 

Em tempo: o filme que Eastwood fez para a Warner como parte do acordo para realização de "Coração de caçador" também não foi propriamente um grande êxito financeiro: "Rookie: um profissional do perigo", estrelado por ele mesmo, Charlie Sheen e Sônia Braga faturou pouco mais de 21 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá), contra um custo de aproximadamente 30 milhões. Já seu filme seguinte, "Os imperdoáveis" (1992) mudaria sua carreira para sempre, com um estrondoso sucesso comercial e o primeiro Oscar de melhor filme e direção.

quarta-feira

DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER


DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER (De-lovely, 2004, MGM Pictures, 125min) Direão: Irwin Winkler. Roteiro: Jay Cocks. Fotografia: Tony Piece-Roberts. Montagem: Julie Monroe. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/John Bush. Produção executiva: Simon Channing Williams, Gail Egan. Produção: Rob Cowan, Charles Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Line, Ashley Judd, Jonathan Pryce, Kevin McNally, Sandra Nelson, Allan Corduner, Kevin McKidd. Estreia: 22/5/2004 (Festival de Cannes)

Um dos mais influentes compositores populares dos EUA, Cole Porter deixou sua marca indelével de elegância e inteligência em centenas de canções antológicas, que ultrapassaram os limites dos palcos da Broadway, dos estúdios de Hollywood e de gravações clássicas de nomes como Frank Sinatra, Bing Crosby e Gene Kelly. Símbolo de um período de glamour que o surgimento de gêneros musicais bem menos sutis fez desaparecer, Porter viu sua vida ser transformada em filme - o romântico e pouco confiável "Canção inesquecível" (1946) - e morreu em 1964 depois de uma série de problemas de saúde e perdas irreparáveis que fizeram de seus últimos anos um período melancólico e pouco produtivo. E levando-se em conta sua importância para a cultura - tanto em termos locais quanto internacionais -, não deixa de ser surpreendente que tenham levado quatro décadas desde sua morte para que finalmente contassem sua história de forma digna. "De-lovely: vida e amores de Cole Porter" pode não ser a obra-prima que poderia, mas é uma produção que faz jus a tudo que seu protagonista representou, representa e representará no futuro, ao aproximar suas inesquecíveis canções do tom de modernidade que sempre foram sua maior característica. Com um Kevin Kline impecável no papel central - a ponto de cantar e dançar sem artifícios baratos -, o filme do bissexto Irwin Winkler (seis filmes em treze anos) é uma ode ao artista e ao homem, recheada de excelentes números musicais e com uma caprichada reconstituição de época.

Contada em formato de musical, como convém, a história de Cole Porter é mostrada, em "De-lovely", em três atos, através de flashbacks, onde o próprio Porter vê sua vida reconstituída enquanto um espetáculo sobre ele é montado sob a supervisão do atencioso Gabe (Jonathan Pryce). O primeiro ato se concentra nos primeiros anos do relacionamento entre o compositor e a socialite Linda Lee Thomas (Ashley Judd) - ela divorciada e presença frequente nas melhores festas da alta sociedade, ele notoriamente homossexual e a alma das recepções, com seu humor afiado e sofisticação à toda prova. Casado e compreendido, Porter se vê encorajado a tornar-se compositor profissional, depois de temporadas em Veneza e Nova York. O segundo ato já lhe mostra bem-sucedido na carreira, criando obras-primas para a Broadway e Hollywood, o que de certa forma aprofunda a crise no casamento - cada vez mais atraído pela boemia e por rapazes, Porter aos poucos passa a abandonar Linda e seu relacionamento mais estável. O terceiro e final ato - mais dramático e trágico - começa com um grave acidente, que irá determinar seus últimos anos de vida, além de reaproximá-lo de sua mulher e fortalecer de vez seus laços afetivos, principalmente quando ela também se descobre gravemente doente.


"De-lovely" é uma produção com inúmeras qualidades. O desenho de produção requintado e o figurino de Janty Yates conduz o público por uma viagem no tempo, pelo glamour das altas rodas da Europa e dos EUA desde o final da década de 1910 até os anos 1960, ocasião da morte de Porter. Os números musicais são preciosos, apresentando artistas contemporâneos como Alanis Morissette, Robbie Williams, Elvis Costelo, Sheryl Crow, Diana Krall, Lara Fabian e Natalie Cole entoando as canções imortais do compositor em sequências organicamente inseridas no contexto onírico criado pelo roteirista Jay Cocks - colaborador frequente de Martin Scorsese. Ashley Judd, apesar de jovem demais para o papel de Linda - na verdade quase uma década mais velha do que Porter -, sai-se muito bem no desafio de encarnar uma mulher à frente do seu tempo, ao mesmo tempo confiante o bastante para encarar um casamento com um homem cuja orientação sexual só poderia lhe trazer sofrimento e romântica o suficiente para acreditar que seu amor poderia evitar tais lágrimas. E Kevin Kline deita e rola em um papel capaz de mostrar à plateia - se é que ela ainda não sabe - todos os seus dotes como ator, cantor e dançarino. Mesmo assim, com tantos elementos admiráveis, algo falta ao filme de Irwin Winkler para torná-lo uma produção inesquecível. E não é difícil perceber o que.

Sem experiência na direção de musicais, Winkler não parece à vontade em comandar um filme do gênero, ficando no meio-termo entre um musical assumido ou um drama biográfico de narrativa clássica.. Logicamente seria inaceitável falar de Cole Porter sem que suas obras atravessassem a tela, e nesse ponto o filme de Winkler é feliz, sabendo espalhar canções pela tela sem deixar o programa cansativo. O problema é que, como frequentemente acontece com filmes que tentam abraçar vidas inteiras em poucas horas, é inevitável que haja falta de profundidade no desenvolvimento dos personagens. Até mesmo a relação entre Cole e Linda deixa dúvidas na mente do espectador - até que ponto a homossexualidade do compositor atrapalhava o casamento, por exemplo? E como ele passou de novato a estrela da Broadway? E como foi sua passagem pelo cinema, já que não é dada muita atenção a essa parte de sua carreira? Como o subtítulo em português deixa claro, o filme se dedica às relações interpessoais do músico - com sua esposa e seus ocasionais amantes -, mas mesmo elas não são desenvolvidas a contento. Resta a excelência visual, o desempenho de Kline e as canções, essas sim eternas.

quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

sábado

CULPADO POR SUSPEITA


CULPADO POR SUSPEITA (Guilty for suspicion, 1991, Warner Bros, 105min) Direção e roteiro: Irwin Winkler. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Nancy Haigh. Produção executiva: Steven Reuther. Produção: Arnon Milchan. Elenco: Robert DeNiro, Annette Bening, George Wendt, Chris Cooper, Patricia Wettig, Sam Wanamaker, Luke Edwards, Ben Piazza, Martin Scorsese, Tom Sizemore. Estreia: 15/3/91

Levando-se em consideração que o cinema foi um dos ramos mais atingidos pela  famigerada caça às bruxas promovida pelo Senador republicano norte-americano Joseph McCarthy na década de 1950 - que, sob o pretexto de salvar os EUA do comunismo, ceifou carreiras e reputações, arruinando vidas e famílias inteiras - até que demorou para que Hollywood tratasse do assunto com a seriedade merecida. Talvez por medo de tocar em uma ferida ainda dolorida mesmo depois de quarenta anos, os executivos  evitaram, por décadas, ressuscitar um fantasma que havia posto colegas contra colegas e deixado a indústria em tensão constante por um longo e tenebroso período. Foi somente em 1991 que a Warner Bros finalmente rompeu a barreira de silêncio e lançou "Culpado por suspeita" - uma produção classuda, estrelada por um astro de primeira grandeza (Robert DeNiro) e que marcava a estreia na direção de um produtor consagrado - Irwin Winkler, o nome por trás de clássicos contemporâneos, como "Touro indomável" (1980), "Os eleitos" (1983) e "Os bons companheiros" (1990). Tais créditos, no entanto, não impediram que o filme fracassasse nas bilheterias - o que era, de certa forma, esperado, devido à seriedade do tema, pouco atrativo ao público médio - e falhasse na tentativa de arrebatar estatuetas do Oscar - não apenas por ter estreado longe do período mais propício à atenção da Academia mas por sua falta de brilho e personalidade.

 


Morno e quase apático - a despeito do tema explosivo -, "Culpado por suspeita" provavelmente perdeu sua chance de ser a obra definitiva sobre o macartismo (ou ao menos uma produção memorável e relevante artisticamente) logo em sua gênese. Ao assumir o projeto, uma das primeiras coisas que Winkler fez foi trabalhar em alterações no roteiro original de Abraham Polonsky e transformar David Merill, seu personagem principal, de comunista assumido em um menos "perigoso" liberal. Polonsky - ele mesmo uma vítima da lista negra promovida pelas investigações de McCarthy - sentiu-se pessoalmente ofendido com a mudança e não fez a menor questão de esconder a insatisfação com a novidade. Segundo ele - e com razão, a história não era sobre alguém falsamente acusado e sim sobre alguém que tinha plena consciência de suas visões políticas e se recusava a abrir mão de seus ideais. Polonsky se identificava com o protagonista e sua integridade a tal ponto que simplesmente obrigou a retirada de seu nome dos créditos também na função de produtor executivo (o que poderia lhe render dividendos, caso o filme se tornasse um hit). A opção de Winkler em tornar Merrill um liberal teve suas razões comerciais - um filme sobre um cineasta comunista certamente incomodaria muita gente - mas acabou por mostrar-se quase tão covarde quanto àqueles que tenciona criticar em sua trama. Isso e o excesso de didatismo acabaram diminuindo o impacto que o filme poderia ter.

O roteiro de Winkler - depois das alterações feitas para desgosto de Polonsky - tenta ser acessível até mesmo ao público que desconhece detalhes das investigações promovidas pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, mas esbarra em uma profusão de cenas redundantes, que fazem com que o filme, apesar de suas intenções quase louváveis, pareça andar em círculos. Os personagens constantemente repetem o que a plateia já cansou de ouvir - todas as cenas em que Merrill tenta ser convencido a testemunhar diante do comitê, por exemplo, soam incomodamente semelhantes, e nem mesmo o talento superlativo de Robert DeNiro é capaz de disfarçar tamanha falta de criatividade. Aliás, se há algo em que "Culpado por suspeita" se escora com sucesso é em seu elenco: além de DeNiro (que mesmo sem estar em um momento particularmente memorável da carreira ainda é um ator fenomenal), Winkler conta com a estrela (então) em ascensão Annette Bening (no mesmo ano em que estaria no elenco do aclamado "Bugsy", ao lado do marido Warren Beatty), o ainda pouco conhecido Chris Cooper, a ótima Patricia Wettig (que anos mais tarde estaria no elenco da série "Brothers and sisters") e até mesmo Martin Scorsese em um de seus raros trabalhos como ator (na pele de um cineasta perseguido que prefere abandonar os EUA a delatar amigos, uma história que espelha a do veterano Joseph Losey). Com atores tão bons em mãos (além do veterano Sam Wanamaker, que esteve, assim como o roteirista original, Abraham Polonsky, na lista de profissionais impedidos de trabalhar), Winkler tropeça ao apresentar um filme burocrático que somente em seu terço final consegue empolgar - e mesmo assim o faz ao colocar na boca de seu protagonista um discurso real ouvido no Comitê: o do advogado Joseph N. Welch.

A trama de "Culpado por suspeita" acompanha o consagrado cineasta David Merrill (DeNiro), que retorna da Europa aos EUA, no começo dos anos 1950, e encontra Hollywood em polvorosa com a caça aos comunistas promovida pelo Senador Joseph McCarthy. Merrill - citado como provável membro do partido por ter participado de reuniões anos antes - passa a ser pressionado pelo comitê e até mesmo por colegas para testemunhar e, obviamente, listar nomes que possam ser punidos por suas atividades. Impedido de trabalhar até que concorde em fazer parte da lista de delatores, Merril vê sua vida ruir em questão de semanas. Sem emprego, dinheiro ou oportunidades, ele recorre à família como porto seguro: a ex-mulher, Ruth (Annette Bening), e o filho pequeno. Enquanto mantém firme sua integridade, porém, o cineasta fica atônito ao perceber que nem todo mundo tem a mesma força de caráter. Tal constatação o leva a questionar a força devastadora da mentira e do medo - uma reflexão contada de forma muito mais ousada e memorável em "Boa noite, e boa sorte" (2005), filme de George Clooney que retratava o mesmo período histórico mas dentro do universo televisivo, assim como a comédia "Testa-de-ferro por acaso", estrelada por Woody Allen em 1977. Importante apenas por ser o primeiro filme a resgatar o assunto dentro do mundo do cinema, "Culpado por suspeita" é uma produção agradável e interessante - mas jamais ultrapassa os limites que impôs a si mesma. Uma pena.

terça-feira

MEU NOME É DOLEMITE


MEU NOME É DOLEMITE (Dolemite is my name, 2019, Netflix, 118min) Direção: Craig Brewer. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Billy Fox. Música: Scott Bomar. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Beugg, Charisse Hewitt-Webster. Produção: John Davis, John Fox, Eddie Murphy. Elenco: Eddie Murphy, Wesley Snipes, Keegan-Michael Key, Mile Epps, Craig Robinson, Kodi Smit-McPhee, DaVine Joy Randolph, Snoop Dogg. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Poucos astros de Hollywood eram tão poderosos na década de 1980 quanto Eddie Murphy. Graças a filmes como "48 horas" (1982), "Trocando as bolas" (1983), "Um tira da pesada" (1984) e "Um príncipe em Nova York" (1988), ele era o ator negro mais respeitado desde que Sidney Poitier conquistou o coração de toda uma geração, nos anos 1960. Porém, mesmo sucessos consecutivos de bilheteria não significam prestígio eterno, e, sob o peso de escolhas equivocadas e um ego inflado, sua queda foi igualmente espetacular. Relegado a um quase ostracismo e mantendo a carreira com espasmos de sucesso - com "O professor aloprado" (1996) fez as pazes, momentaneamente, com o público e com "Dreamgirls: em busca de um sonho" (2006) chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante -, Murphy parecia destinado a repetir ad infinitum a voz do simpático burro de "Shrek" até que a sorte voltou a lhe sorrir. Produzido pela Netflix e aclamado pela crítica, "Meu nome é Dolemite" lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e ressuscitou mais uma vez uma carreira tantas vezes tida como definitivamente morta. A boa notícia é que o filme, dirigido por Craig Brewer (que comandou Terrence Howard em sua indicação ao Oscar de melhor ator em "Ritmo de um sonho", de 2005) é não apenas um bem-vindo respiro em uma sucessão de trabalhos fracos, mas sim um dos melhores filmes de seu currículo.

"Meu nome é Dolemite" é uma história real, mas isso não faz dele menos divertido. Seu protagonista, Rudy Ray Moore, é um daqueles personagens inacreditáveis, cuja própria existência já é capaz de provocar gargalhadas na plateia. Tentando conquistar um lugar ao sol no showbusiness dos anos 1970, Moore se via repetidamente colecionando fracassos, seja como cantor ou humorista. Sua grande virada acontece quando, por acaso, ele vê nas palavras aparentemente sem sentido de um desabrigado que volta e meia surge na loja de discos em que trabalha, uma mina de ouro: com um personagem chamado Dolemite, que se veste como um cafetão e não economiza na linguagem pesada, ele se torna um sucesso absoluto da boemia negra de Los Angeles. Querendo ainda mais, ele grava um disco com suas piadas - e, para surpresa de muitos, o êxito é ainda maior, apesar do esquema amador de negócio. Para seu deleite, então, uma gravadora lhe oferece um contrato e novos discos são postos no mercado, expandindo o público de Moore/Dolemite. Cada vez mais ambicioso, o comediante resolve abraçar uma nova mídia e, para descrença de muitos, decide fazer um filme com seu personagem - tendo as plateias negras como público-alvo.

 

A partir daí, é impossível não traçar paralelos entre Moore e outro ilustre cineasta amador, o hoje celebrado Ed Wood - tema da obra-prima de Tim Burton e, coincidência ou não, escrito pelos mesmos Scott Alexander e Larry Karaszewski: tanto Wood quanto Moore tinham mais criatividade e energia em transformar seus sonhos em realidade do que noções básicas de como fazer um filme. Enquanto Wood contava com a experiência de um decadente Bela Lugosi, quem ajuda Moore é D'Urville Martin, um nome conhecido no universo da blaxploitation que entra no projeto de má-vontade e acaba não apenas atuando mas dirigindo o filme, escrito por Jerry Jones (Keegan-Michael Key), um dramaturgo de ambições sérias atônito com as sugestões do dono da produção - mesmo que sem muito sentido, Moore quer incluir no filme coisas como kung-fu (mesmo que ele não saiba lutar), mulheres nuas, piadas, perseguições de carro, e tudo mais que puder chamar público ("exorcismo eu deixo para um próximo"). E, assim como no filme estrelado por Johnny Depp e Martin Landau, são os bastidores das filmagens que deixam "Meu nome é Dolemite" deliciosamente trash - e surpreendentemente emocionante.

Acostumados a contar histórias sobre personalidades reais - também assinam os scripts de "O povo contra Larryy Flynt" (1996) e "O mundo de Andy" (1999), ambos dirigidos por Milos Forman -, Larry Alexander e Scott Karaszevski fazem de "Meu nome é Dolemite" um dos pontos altos de sua carreira. Equilibrado com perfeição entre o humor, o drama e um retrato acurado sobre a cultura negra nos EUA dos anos 1970, o filme não apenas lembra o público de como Eddie Murphy pode ser um bom ator quando deixa de lado sua vaidade como dá uma nova chance a outro ator cuja popularidade despencou depois de uma série de sucessos: na pele do afetado D'Urville Martin, o polêmico Wesley Snipes entrega talvez o melhor desempenho de um filme cujos atores coadjuvantes brilham sem fazer muito esforço - a ótima DaVine Joy Randolph é um exemplo claro dessa afirmação, com uma atuação que pode fazer rir e chorar na mesma cena. E se o roteiro é um achado, o mesmo pode ser dito da direção de Craig Brewer. Não é à toa que o próprio Eddie Murphy o tenha escolhido para dirigir a esperada continuação de "Um príncipe em Nova York", com estreia marcada para 2021.

sábado

ARTISTA DO DESASTRE

ARTISTA DO DESASTRE (The disaster artist, 2017, Warner Bros/New Line Cinema, 104min) Direção: James Franco. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, livro "The disaster artist: my life inside 'The room', the greatest bad movie ever made", de Greg Sestero, Tom Bissell. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Stacey Shroeder. Música: Dave Porter. Figurino: Brenda Abbandandolo. Direção de arte/cenários: Chris Spelman/Susan Lynch. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Joe Drake, Toby Emmerich, Nathan Kahane, Kelli Konop, Roy Lee, Alexandria McAtee, John Powers Middleton, Dave Neustadter, Scott Neustadter, Hans Ritter, Michael H. Weber, Erin Westerman. Produção: James Franco, Evan Golberg, Vince Jolivette, Seth Rogen, James Weaver. Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Allison Brie, Megan Mullally, Melanie Grifith, Sharon Stone, Ari Graynor, Jackie Weaver, Zac Efron, Josh Hutcherson, Bob Odenkirk. Estreia: 11/9/17 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Comédia/Musical: James Franco

Excêntrico no modo de vestir, falar e se comportar, Tommy Wiseau convida o melhor (e talvez único) amigo, Greg Sesteros, para ir com ele a Hollywood e tentar carreira no cinema. Depois de vários meses batalhando por uma chance - que nem mesmo o bem-apessoado Greg consegue -, o misterioso Wiseau (que esconde a verdadeira idade e a fonte de seu dinheiro) resolve arrombar a porta da indústria e fazer seu próprio filme. Dedica-se a escrever um roteiro e, quando ele fica pronto, parte para a ação: com ele e Greg nos papéis principais, "The room" começa a ser filmado - apesar das idiossincrasias de seu criador e de sua absoluta falta de talento em todas as funções (ator, diretor, roteirista e produtor). Depois de meses enervando a equipe do filme - incrédulos quanto à possível qualidade do filme -, a produção finalmente tem sua estreia marcada. Mas como será que os espectadores irão reagir diante de tanto amadorismo?

Tommy Wiseau é um personagem riquíssimo: sempre vestido de forma bizarra, com um sotaque indefinível e absolutamente reservado em relação à sua vida, ele age de maneira errática e se acredita muito mais talentoso do que realmente é - desde suas aulas de teatro até seu estrelato em "The room", um filme muito aquém de trash e hoje um cult movie por excelência. Apesar de ser pouco verossímil, Wiseau existe de verdade - e é sobre a produção de seu filme que trata "Artista do desastre", uma das comédias mais engraçadas e inteligentes dos últimos anos. Com ecos de "Ed Wood" (1994), de Tim Burton - especialmente no carinho com que o protagonista é retratado - e uma série de participações especiais valiosas, o filme agradou em cheio a crítica e poderia ter chegado facilmente às principais categorias do Oscar se não fosse um escândalo de assédio sexual que atingiu seu diretor, produtor e ator principal, James Franco. Vencedor do Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e elogiado unanimemente, Franco acabou sendo deixado de lado pela Academia - que reconheceu com uma indicação apenas seu roteiro, adaptado por Scott Neustadter e Michael H. Weber do livro escrito pelo próprio Greg Sesteros, testemunha oficial dos fatos.


A exclusão de Franco da lista de indicações ao Oscar pode até ter sido surpresa, mas ninguém pode negar que seu filme é uma pérola. A segunda metade especialmente, quando começa a produção repleta de momentos bizarros de "The room", é simplesmente impossível não gargalhar. Ao contrário da maioria das comédias produzidas em Hollywood - algumas inclusive estreladas pelo próprio James Franco e seu colega de elenco, Seth Rogen -, "Artista do desastre" extrai seu humor não da escatologia, mas sim do absurdo de suas situações. De sua primeira aparição em cena - em uma interpretação no mínimo sui generis de Stanley Kowalski, de "Uma rua chamada pecado" - até seu final, de certa forma emocionante aos fãs de cinema -, Wiseau é uma figura absolutamente imprevisível, capaz tanto de gestos generosos (como abrigar Sesteros em sua chegada em Los Angeles) quanto de uma mesquinharia inacreditável (como não proporcionar água no set de filmagem, quente a ponto de levar uma atriz ao desmaio). James Franco encarna Wiseau com nítido prazer, entregando uma performance brilhante, que eclipsa até mesmo seu irmão, Dave, que ficou com o papel de Greg Sesteros: enquanto Sesteros é, de um modo, a voz da razão na dupla, Wiseau é um vulcão de sentimentos contraditórios - e pode, inclusive, suscitar a compaixão do público.

E se não fosse tão engraçado quanto é, "Artista do desastre" ainda tem o bônus de contar com inúmeras participações especiais, para deleite do espectador. Melanie Griffith, Sharon Stone, Megan Mullally, Bryan Cranston, Bob Odenkirk, Zac Efron, Josh Hutcherson, Jackie Weaver, Kevin Smith, Adam Scott e outros aparecem em pequenos papéis - ou em depoimentos falsos antes do filme começar (uma referência a "Reds", de Warren Beatty, lançado em 1981). É um prazer a mais identificá-los enquanto se acompanha a trajetória do protagonista em busca do lançamento de seu filme e sua esperada entrada no mercado cinematográfico de Hollywood. Seu filme,"The room", estreou em 2003, e, para não estragar a surpresa de quem ainda não sabe o final da história, basta dizer que, em determinado nível, ele conseguiu projetar-se na indústria e tornar-se famoso - mesmo que não exatamente do jeito que procurava. "The room" pode ser considerado um dos piores filmes da história do cinema, mas seu filho, "Artista do desastre", é um brilhante documento de sua realização.

quinta-feira

STAN & OLLIE

STAN & OLLIE (Stan & Ollie, 2018, BBC Films, 98min) Direção: Jon S. Baird. Roteiro: Jeff Pope, livro "Laurel and Hardy: the British tours", de 'A.J.' Mariot. Fotografia: Laurie Rose. Montagem: Úna Ní Dhonghaile, Billy Sneddon. Música: Rolfe Kent. Figurino: Guy Speranza. Direção de arte/cenários: John Paul Kelly/Claudia Parker. Produção executiva: Kate Fasulo, Christine Langan, Xavier Marchand, Nichola Martin, Joe Oppenheimer, Jeff Pope, Eugenio Perez, Gabrielle Tana. Produção: Faye Ward. Elenco: Steve Coogan, John C. Reilly, Danny Huston, Shirley Henderson, Nina Arianda, Rufus Jones. Estreia: 21/10/18 (Festival de Londres)

Fenômenos do humor, Stan Laurel e Oliver Hardy ficaram internacionalmente conhecidos como O Gordo e o Magro, uma das duplas mais queridas e longevas do show business. Tornados famosos principalmente pelo cinema - que possibilitou que sua imagem viajasse pelo mundo inteiro, sempre com grande êxito -, eles não foram poupados de uma brutal queda de interesse a partir da década de 40, quando novos nomes do humor disputavam a atenção das plateias. Encarando sérias dúvidas sobre seu futuro como artistas, eles aceitaram, então, fazer uma turnê por teatros da Inglaterra - enquanto preparavam sua volta triunfal à sétima arte. Esse período da carreira dos dois astros foi o recorte escolhido pelo diretor Jon S. Baird para "Stan & Ollie", uma das cinebiografias mais subestimadas dos últimos anos. Engraçada, emocionante e sensível, além de realizada com extremo capricho na reconstituição de números da dupla, a produção não chamou a atenção nas bilheterias e foi praticamente ignorado nas cerimônias de premiação mais importantes da temporada. Quem deixar essas injustiças de lado, porém, terá a oportunidade de se deliciar com belos momentos de um humor nostálgico e puro - e ficar com o coração apertado com algumas sequências de emocionar o mais insensível espectador.

Diretor pouco conhecido e sem muitos títulos no currículo - talvez o mais conhecido seja "Filth", baseado em romance de Irvine Welsh e estrelado por James McAvoy -, Jon S. Baird mostra uma competência ímpar em recriar momentos icônicos de seus protagonistas (nos palcos e nas telas). Inspirado em livro de A.J. Mariot - que fala justamente sobre as viagens da dupla em sua turnê britânica - e amparado nas atuações excepcionais de Steve Coogan e John C. Reilly, que dão corpo e alma a seus personagens com uma dedicação comovente. Longe de um simples mimetismos, seus  desempenhos são exemplares, imbuídos de sentimento e personalidade. Reilly chegou a ser indicado ao Golden Globe e foi premiado pelos críticos de Boston, enquanto Coogan concorreu ao BAFTA., mas nenhum deles foi lembrado pela Academia - que esqueceu até mesmo do genial trabalho de maquiagem, que complementa as caracterizações de forma perfeita e sutil, e a trilha sonora de Rolfe Kent, que evoca o período histórico com precisão e delicadeza, além de mergulhar a plateia em uma viagem saudosista das mais competentes.





O roteiro de Jeff Pope - que coescreveu "Philomena" (2013) com Steve Coogan e foi indicado ao Oscar por isto - é o equilíbrio perfeito entre o retrato dos bastidores do cinema e do teatro dos anos 50 e a descrição do relacionamento pessoal e profissional de seus protagonistas. Fica claro desde o início que Laurel (Steve Coogan, perfeito nos mínimos detalhes) é o cérebro por trás da dupla, criando cenas, estórias e situações que possam ser utilizadas em seus filmes, enquanto Hardy (John C. Reilly, feito sob medida para o papel) assume o lado lúdico e sentimental da dupla - também fora das câmeras. É Laurel quem lida com o lado mundano de suas carreiras, lidando com produtores e financiadores pouco afeitos à arte e muito mais interessados em dinheiro, e à Hardy cabe uma figura mais dócil e afável - uma diferença que, além de atritos, de certa forma os levaram ao declínio. O filme não se furta a mostrar as dificuldades dos dois em sua tentativa de ressuscitar os áureos tempos, mas o faz com leveza e alto astral, evitando o sentimentalismo exagerado. Também encontra espaço para jogar luz em seus casamentos e dar a suas esposas o devido reconhecimento por seu sucesso - e o faz criando personagens complexos e multidimensionais, o que é bastante raro quando se percebe o quanto os coadjuvantes sofrem em mãos de roteiristas pouco generosos.

Os problemas de saúde de Hardy também são outro foco da trama. Em meio à excursão, ele vê ameaçada a sua possibilidade de continuar trabalhando - e, por consequência, ver seu retorno às telas sumir diante de seus olhos. São os momentos mais emocionantes do filme, quando Baird demonstra seu controle sobre seu material: ao invés de explorar sentimentalmente a situação, com música dramática e lágrimas fáceis, ele opta pelo caminho mais inteligente e conquista o público com cenas do mais puro lirismo do cinema cômico que deu fama à dupla de protagonistas. São as recriações de algumas dessas memoráveis sequências, aliás, que dão um molho extra ao filme. Assim como o fazia Chaplin, O Gordo e O Magro extraía humor das situações mais simples e banais, sem apelar para a vulgaridade e a escatologia, e Baird resgata essa inocência com um carinho comovente. Como filme e como homenagem, "Stan & Ollie" merece aplausos calorosos. Uma pena que o grande público ainda não o descobriu!

segunda-feira

ASSIM ESTAVA ESCRITO

ASSIM ESTAVA ESCRITO (The bad and the beautiful, 1952, MGM Pictures, 118min) Direção: Vincente Minnelli. Roteiro: Charles Schnee, estória de George Bradshaw. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: Conrad A. Nerving. Música: David Raskin. Direção de arte/cenários: Edward Carfagno, Cedric Gibbons/F. Keogh Gleason, Edwin B. Willis. Produção: John Houseman. Elenco: Kirk Douglas, Lana Turner, Walter Pidgeon, Dick Powell, Barry Sullivan, Gloria Grahame. Estreia: 25/12/52

6 indicações ao Oscar: Ator (Kirk Douglas), Atriz Coadjuvante (Gloria Grahame), Roteiro, Fotografia em preto-e-branco, Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco, Figurino em preto-e-branco
Vencedor de 5 Oscar: Atriz Coadjuvante (Gloria Grahame), Roteiro, Fotografia em preto-e-branco, Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco, Figurino em preto-e-branco

Assim como "A malvada" havia feito dois anos antes com os bastidores do mundo do teatro e proporcionado à Bette Davis um de seus mais icônicos papéis, "Assim estava escrito" fez o mesmo a respeito dos meandros do cinema norte-americano da era dos grandes estúdios, com seus produtores acima do bem e do mal, astros e estrelas lutando por um lugar ao sol e egos frequentemente se esbarrando em sets de filmagens, escritórios luxuosos, recepções e cerimônias de premiação. Levemente inspirado na figura do poderoso David O. Selznick (que deu ao mundo, entre outros, o adorado "E o vento levou") e dirigido por Vincente Minelli, o filme, que contém ainda referências a gente como Orson Welles, Raymond Chandler, Hitchcock e Diana Barrymore, entre outros, tornou-se um sucesso tanto de crítica quanto de público - e, com cinco Oscar no currículo, entrou para a história como o recordista de estatuetas a não ser indicado na categoria principal. É bem provável que seu tom crítico tenha assustado parte da Academia (que premiou "O maior espetáculo da Terra" como o melhor do ano), mas o fato é que seu roteiro (este sim devidamente oscarizado) se mantém atual e potente até os dias de hoje, quando a fogueira das vaidades hollywoodiana ainda queima com a mesma velocidade e voracidade de seis décadas atrás.

A maior sacada do roteiro de Charles Schnee é jamais apresentar seu protagonista a não ser através do ponto de vista de alguns de seus maiores desafetos. É a partir deles - todos com razões o bastante para detestá-lo - que sua personalidade vai tomando forma diante do espectador, que vai formando, aos poucos, um quebra-cabeça cuja resolução mostra um homem ambicioso, cruel e egocêntrico, mas com um talento incomum e uma capacidade única de manipular todos à sua volta. Interpretado com gosto por um Kirk Douglas no auge do carisma, o produtor Jonathan Shields é um anti-heroi no sentido mais perfeito do termo: por mais elegante, charmoso e sedutor que seja, seus objetivos nunca são nobres ou altruístas, e as pessoas que o cercam servem apenas como degraus para sua ascensão ao poder. Filho de um produtor que morreu na miséria, ele é obstinado em fugir do mesmo destino, mesmo que, para isso, precise passar por cima de outras pessoas e sentimentos. Amor, amizade e lealdade são conceitos abstratos para ele - desde que ele ganhe dinheiro, prêmios e bajulação, isso é o que lhe importa e é isso que poderá ser o seu fim. Afinal de contas, em qualquer lugar, toda ação tem uma reação, e é assim que a trama tem começo.


A primeira sequência do filme já dá uma pequena amostra do que virá: o cineasta Fred Amiel(Barry Sullivan), a atriz Georgia Lorrison (Lana Turner) e o escritor/roteirista James Lee (Dick Powell) recebem ligações internacionais, de Paris, do produtor Jonathan Shields, ansioso em falar-lhes a respeito de um novo filme, que pode dar um novo impulso à sua carreira. Nenhum dos seus três antigos colaboradores sequer cogita a ideia de ouvir sua proposta, e são reunidos, então, no escritório de Harry Pebbel (Walter Pidgeon), chefe de estúdio que tenta convencê-los a, ao menos, saber do que se trata o contato do ex-poderoso produtor. É então que todos passam em revista suas experiências com Shields, repletas de traições, mentiras e humilhações. Fred, por exemplo, começou a carreira junto com ele, em produções B de terror - e na primeira oportunidade de adquirir prestígio, foi traído. Georgia, com problemas de alcoolismo, recebe sua ajuda para abandonar sua trajetória de figurante para tornar-se uma estrela, mas é humilhada e abandonada por ele justamente quando parecia estar no rumo certo. E James, a seu pedido, penetra no mundo do cinema e acaba por ver sua esposa, Rosemary (Gloria Grahame, vencedora do Oscar de coadjuvante), envolvida por outro homem graças a armações de Shields. As histórias se unem em um mesmo retrato do protagonista - um retrato pouco agradável, sem dúvida, mas fascinante do ponto de vista do espectador.

Assim como Eve Harrington - a antagonista de "A malvada", interpretada por Anne Baxter -, Jontahan Shields é um personagem francamente detestável, mas ao mesmo tempo é absolutamente irresistível dramaticamente. Kirk Douglas teve a sorte de ficar com o personagem depois da desistência de Clark Gable, e entrega uma de suas melhores atuações, equilibrada perfeitamente entre o charme e a arrogância. Lana Turner, assim como Douglas, está no melhor momento de sua carreira, e é surpreendente que tenha sido apenas Gloria Grahame a vencedora do Oscar - com menos de dez minutos em cena, ela não se destaca tanto assim, especialmente em comparação com os colegas de elenco. Em todo caso, o roteiro premiado de Charles Schnee é uma obra de arte, revelando sem medo vários lados obscuros da indústria hollywoodiana - ironicamente, no mesmo ano, "Cantando na chuva" também lançava um olhar sobre o mesmo tema, mas de forma bem mais carinhosa e romântica. Assim como na trama de Schnee - em que até mesmo a crueldade tem seu discreto charme -, o mundo do cinema igualmente pode ser visto por mais de um ângulo. E o ângulo mostrado por "Assim estava escrito" é sombrio, cínico e mordaz, com um desfecho brilhante. Sensacional!

quarta-feira

MAMÃEZINHA QUERIDA

MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie dearest, 1981, Paramount Pictures, 129min) Direção: Frank Perry. Roteiro: Frank Yablans, Frank Perry, Tracy Hotchner, Robert Getchell, livro de Christina Craword. Fotografia: Paul Lohmann. Montagem: Peter E. Berger. Música: Henry Mancini. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Richard C. Goddard. Produção executiva: David Koontz, Terence O'Neill. Produção: Frank Yablans. Elenco: Faye Dunaway, Diana Scarwid, Steve Forrest, Howard da Silva, Mara Hobel. Estreia: 16/9/81

Em 1978, a publicação de "Mamãezinha querida" nos EUA causou comoção geral e polêmicas infindáveis. Escrito por Christina, filha adotiva da atriz Joan Crawford, o livro mostrava um lado cruel e violento de uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, falecida então há apenas quatro anos. Ao contar em detalhes os tormentos físicos e psicológicos pelos quais passou durante sua infância e sua adolescência com uma das mulheres mais conhecidas do mundo nas décadas de 40 e 50, Christina tornou-se autora de um enorme best-seller internacional, mas ao mesmo tempo, arriscou-se a - como realmente aconteceu - ser taxada de mentirosa e oportunista, especialmente por ter sido deixada de fora do testamento de sua mãe. A controvérsia, ao contrário de prejudicar o sucesso do livro, apenas jogou ainda mais lenha na fogueira - e não demorou para que os produtores de cinema vissem no explosivo material a chance de um grande êxito comercial (e possíveis estatuetas douradas). No final das contas, as bilheterias não foram exatamente milionárias - apesar de quintuplicar o orçamento, sua renda não chegou nem aos 20 milhões de dólares no mercado doméstico - e as únicas estatuetas que levou não foram nem um pouco lisonjeiras.

Sofrendo de críticas impiedosas desde sua estreia nos cinemas, "Mamãezinha querida" logo tornou-se uma dor de cabeça inesperada para a Paramount - até que o limão se transformou em limonada: percebendo que boa parte do público repetia a sessão do filme e frequentava as salas de exibição como uma espécie de happening, inclusive repetindo parte de seus diálogos, os executivos tomaram uma decisão arriscada. Para fúria do diretor estreante Frank Perry e de sua atriz principal, Faye Dunaway - o marketing da produção mudou radicalmente, enfatizando o tom exagerado do roteiro e das interpretações. Para quem esperava no mínimo uma indicação ao Oscar, não deve ter sido fácil para Dunaway - que divide com Crawford o gênio bastante forte - ser eleita a pior atriz do ano no famigerado Framboesa de Ouro. Aliás, é importante salientar que o filme simplesmente provocou um arrastão: além de Dunaway como pior atriz, "Mamãezinha querida" ainda saiu "vitorioso" nas categorias de pior filme, pior ator coadjuvante (Steve Forrest), pior atriz coadjuvante (Diana Scarwid) e pior roteiro - sem falar que foi eleito o pior filme da década, em 1990, e pior drama dos 25 anos do prêmio, em 2005. Mas será que, apesar de tantas críticas, o filme de Perry é realmente tão ruim quanto reza a lenda?





É impossível negar que existe, por todo o filme, uma atmosfera camp, artificial e pouco naturalista. O enfoque do primeiro roteiro - que seria dirigido por Franco Zefirelli e teria Anne Bancroft no papel principal mas acabou sendo substituído posteriormente - ainda conseguia fugir do maniqueísmo sensacionalista (e Crawford não seria retratada com tanta fúria), mas a produção estrelada por Dunaway usa e abusa de sua música dramática (composta por Henry Mancini), dos closes que transformam o rosto de atriz em assustadoras caretas e de uma gratuidade que chega a ser, em alguns momentos, quase risível. Não ajuda que o elenco secundário seja péssimo (em especial Diana Scarwid como Christina adolescente) e a direção de arte capriche em reconstruir os frequentemente cafonas cenários da época, que colaboram com o tom excessivo do texto e da direção. Sempre um tom acima do normal, Dunaway (uma excelente atriz, mas infelizmente dirigida sem a força necessária) mal consegue transmitir a ideia de que, por trás da monstruosa mãe, existe uma pessoa com sentimentos reais e (logicamente) sérios transtornos psicológicos. Esse erro crucial - a falha em obter qualquer simpatia da plateia, por mais complicado que isso fosse, levando-se em conta a trama - é o que desvia o filme de suas possibilidades mais sérias e o conduz a uma comédia involuntária.


Rejeitado para sempre por Dunaway - que se recusa terminantemente a falar sobre o filme que ela acreditava poder lhe render um segundo Oscar -, "Mamãezinha querida" é um festival de atrocidades. Na pele de Joan Crawford, a bela atriz de "Chinatown" (74) e "Rede de intrigas" (76) simplesmente transforma a vida de sua filha em um inferno na Terra (o roteiro ignora que além de Christina e Christopher, mostrados no filme, a estrela tinha ainda outros dois filhos): surras, gritos, ataques histéricos em meio à madrugada, castigos desproporcionais e até uma inesperada e patética rivalidade profissional estão na lista de crueldades que Christina descreveu em seu livro - em parte desmentido por pessoas que conviveram com a família durante os anos em que a história é contada. Nas mãos de um diretor mais experiente e menos afeito ao sucesso fácil, a adaptação poderia ter sido um filme sério, capaz de desnudar os bastidores do glamour de Hollywood. Como foi feito, acabou por tornar-se motivo de piada por parte da crítica e foi salvo pelo status de cult movie, que o mantém vivo até hoje como um exemplo de absoluto exagero dramático. Serve como curiosidade, mas artisticamente é bem sofrível...

sexta-feira

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS (The French Lieutenant's woman, 1981, United Artists, 124min) Direção: Karel Reisz. Roteiro: Harold Pinter, romance de John Fowles. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: John Bloom. Música: Carl Davis. Figurino: Tom Rand. Direção de arte/cenários: Assheton Gordon/Ann Mollo. Produção: Leon Clore. Elenco: Meryl Streep, Jeremy Irons, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell. Estreia: 18/9/81 (Festival de Toronto)

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Quando Meryl Streep recebeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, por "A mulher do tenente francês" (81), ela já estava acostumada a ser lembrada pela Academia na categoria de coadjuvante - já havia sido indicada por "O franco-atirador" (78) e premiada por "Kramer vs Kramer" (79). Seu desempenho duplo no filme de Karel Reisz lhe valeu um Golden Globe de melhor atriz em drama, um prêmio dos críticos de Los Angeles e o BAFTA - mas, do alto de sua modéstia, ela o considera um dos mais fracos de sua carreira. Basta assistir ao filme uma única vez, no entanto, para constatar que já nos primeiros anos de sua carreira no cinema, Streep já era um fenômeno. Mesmo que Helen Mirren fosse a escolha do escritor John Fowles (autor do livro que deu origem ao filme), é difícil imaginar que alguém pudesse ser tão absolutamente certeira nos papéis centrais. Já brilhando em seu talento de imitar sotaques, a atriz teve lições diárias para aperfeiçoar seu tom britânico - mas é em seu olhar, sua expressão corporal e na vasta gama de emoções que ela transmite que reside seu maior trunfo: a sinceridade.

Sem buscar respostas definitivas a respeito da personagem-título, Streep serve como um canal (espetacular) para que a trama de Fowles (autor também do romance que originou "O colecionador", de 1966) chegue ao espectador da forma mais limpa e emocionante possível. Um livro difícil de ser adaptado (que o digam cineastas como Milos Forman, Mike Nichols, Sidney Lumet e Fred Zinnemann, entre outros que tentaram a façanha durante anos), "A mulher do tenente francês" ganha requintes de sofisticação com o roteiro escrito pelo premiado dramaturgo Harold Pinter. Experiente, Pinter criou uma solução inusitada como forma de comportar dois dos três finais alternativos propostos por Fowles em sua obra: inventou uma trama paralela, contemporânea, que dialogava com a trágica e romântica estória descrita no livro. Nem sempre funciona - em alguns momentos desvia o foco sem necessidade e não tem a força necessária para envolver o público -, mas não deixa de ser um exemplo de criatividade e, de certa forma, liga o passado e o presente com toques poéticos e dramáticos que também realçam as diferenças cruciais na visão do comportamento feminino em circunstâncias e tempos distintos.


A trama original se passa no interior da Inglaterra do século XIX, e é centrada na figura melancólica e desamparada de Sarah (Meryl Streep), que passa seus dias à sombra do preconceito de que é vítima graças a seu infeliz caso de amor com um militar francês, que a abandonou à própria sorte. Seu semblante misterioso acaba por chamar a atenção de Charles (Jeremy Irons), um biólogo que está no lugar para acertar os detalhes de seu casamento. Atraído irremediavelmente pela aura trágica de Sarah - cuja história é contada aos quatro ventos pela cidade -, o rapaz acaba por aproximar-se dela, a princípio por curiosidade e posteriormente por uma paixão avassaladora que arrisca sua reputação e seu noivado. Sarah, no entanto, não é uma personalidade fácil de decifrar - e logo Charles percebe que embarcou em um relacionamento cujas consequências poderão ser desastrosas. Enquanto isso, em uma narrativa paralela, um estúdio de Hollywood está filmando a trajetória de Sarah e Charles - e seus intérpretes, Anna e Mike (novamente Streep e Irons) se descobrem tão apaixonados quanto seus personagens.

A divisão da história em dois tempos - com suas características próprias e personagens distintos - proporciona a Meryl Streep e Jeremy Irons (que voltariam a contracenar em "A casa dos espíritos", em 1994) a chance de mostrar sua versatilidade como intérpretes, dotando cada um de seus personagens com motivações e sentimentos próprios. Mesmo que a subtrama contemporânea não seja tão envolvente quanto o romance entre Sarah e Charles, a química entre os dois atores é brilhante, valorizada pela edição (indicada ao Oscar) e pela diferença de tons na fotografia de Freddie Francis - mais pesada no passado, mais clara no presente. O clima de opressão da vida de Sarah é também ilustrada pela trilha sonora inspirada e pela direção de arte, cinzenta e enevoada como sua alma. Dirigido com precisão pelo tcheco Karel Reisz, "A mulher do tenente francês" é um clássico romântico dos anos 80 - e mesmo que a própria Meryl Streep o contradiga, uma das atuações mais sutis e delicadas de sua carreira.

domingo

LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES

LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES (La La Land, 2016, Summit Entertainment/Black Label Media, 128min) Direção e roteiro: Damien Chazelle. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Tom Cross. Música: Justin Hurwitz. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Michael Beugg, Mike Jackson, John Legend, Qiuyun Long, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Jasmine McGlade, Molly Smith, Ty Stiklorius. Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt. Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, J.K. Simmons, Tom Everett Scott, Rosemarie DeWitt, Finn Wittrock. Estreia: 31/8/16 (Festival de Veneza)

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Damien Chazelle), Ator (Ryan Gosling), Atriz (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Audition", "City of stars"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 6 Oscar: Diretor (Damien Chazelle), Atriz (Emma Stone), Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 7 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia ou Musical), Diretor (Damien Chazelle), Ator Comédia/Musical (Ryan Gosling), Atriz Comédia/Musical (Emma Stone), Roteiro, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars")

 Poético! Encantador! Irresistível! Fascinante! Em um período em que filmes retratam uma realidade dolorosa, cruel e por vezes realista ao extremo, quantas produções nascidas no berço de ouro de Hollywood podem ostentar tantos adjetivos quanto "La La Land: cantando estações"? Realizado como uma homenagem do jovem cineasta Damien Chazelle à era de ouro dos musicais americanos, e com um custo quase irrisório de 30 milhões de dólares, a doce e apaixonante história de amor entre um fã obcecado de jazz e uma aspirante à atriz acabou por conquistar o mundo, principalmente graças a seu perfeito equilíbrio entre gêneros (romance, musical, comédia, drama), à química inquestionável de seu par de atores centrais e ao visual deslumbrante, milimetricamente calculado para causar um efeito hipnotizante entre os fãs de cinema. Recordista de Golden Globes (levou sete para casa, arrebatando prêmios em todas as categorias a que foi indicado) e em indicações ao Oscar (14, empatando com "A malvada", de 1950, e "Titanic", de 1997), acabou, no entanto, frustrando seus admiradores quando perdeu a principal estatueta (melhor filme) para "Moonlight: sob a luz do luar" - em uma situação sem precedentes na história da Academia, quando foi anunciado vencedor para depois descobrir que os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway haviam lido o nome errado. Tal situação, no entanto, não apaga seu brilho, suas seis vitórias (incluindo direção e atriz) e a sensação de já ter nascido clássico. Sucesso de público e de crítica, amado por fãs e admirado por amantes de música, é uma obra-prima indiscutível - capaz de abrir sorrisos no mais cínico espectador e provocar lágrimas nos mais sensíveis. Enfim, um filme que redescobre o prazer que apenas o cinema pode proporcionar.

Influenciado por dezenas de produções clássicas - percebe-se referências nítidas no desenrolar da narrativa, sejam diretas ou implícitas - e ainda assim dotado de personalidade própria, "La La Land" é um gigantesco passo à frente na carreira de seu diretor, já devidamente aplaudido em seu filme anterior, o premiado "Whiplash: em busca da perfeição" (2014). Com uma segurança de veterano, Chazelle constrói um universo particular, uma visão romantizada e colorida de sua cidade natal, Los Angeles, e de um mundo que parece radicalmente distante da realidade. Tudo em seu filme é reflexo de uma ótica visualmente deslumbrante e emocionalmente passional: da fotografia impecável de Linus Sandgren, de encher os olhos com sua paleta de cores delicadas em alguns momentos e gritantes em outros à direção de arte, que acompanha o imaginário onírico do cineasta ao criar cenários que parecem ter saído direto do mais apaixonado sonho. Da primeira sequência, em um engarrafamento monstruoso que se transforma magicamente em um número musical animado e empolgante, até os minutos finais (de partir o coração com suas implicações a respeito do destino e de como os sonhos tem seu lado bom e ruim), tudo que é visto na tela tem a clara intenção de encantar o público e transportá-lo para um lugar distante da realidade. As coreografias delicadas e complexas, as canções melancólicas de melodia discreta, as visitas a cenários conhecidos do público - o planetário de "Juventude transviada", os estúdios da Warner, as colinas de Hollywood - e a beleza artificial de uma cidade que já faz parte do inconsciente coletivo formam um impressionante painel narrativo, onde cada peça se encaixa perfeitamente na outra e, juntas, conduzem a audiência a uma experiência cada vez mais rara no quadradinho panorama do cinema americano.


A trama, como convém, é simples e pouco ambiciosa: a jovem Mia (Emma Stone, uma delícia de se assistir) trabalha como garçonete em uma lanchonete de Los Angeles enquanto espera sua grande chance como atriz. Sebastian (Ryan Gosling, versátil como nunca) é um pianista de bares que sonha abrir seu próprio estabelecimento, onde poderá finalmente valorizar a arte do jazz, pela qual é apaixonado. Os caminhos dos dois se cruzam e, depois de alguma relutância, Mia se entrega a um idílico romance com o rapaz, que lhe dá apoio e incentivo a perseguir seus objetivos. Conforme o tempo passa (dividido na tela nas quatro estações do ano, daí o subtítulo em português), os dois sentem que as coisas não serão assim tão fáceis: para juntar dinheiro, ele aceita fazer parte de um grupo musical pop liderado por um antigo desafeto (o cantor John Legend), e ela, motivada por ele, escreve um monólogo para lhe servir de escada para o sucesso. O que deveria unir o casal, porém, começa a afastá-los: será que é impossível a realização profissional e sentimental ao mesmo tempo? A resposta virá no devido tempo - e a música inspirada de Justin Hurwitz irá sublinhá-la de maneira a não deixar um único olho seco na plateia.

Com uma química já comprovada em outras duas ocasiões - nos filmes "Amor à toda prova" (2011) e "Caça aos gângsteres" (2014) - e novamente testada com sucesso, Ryan Gosling e Emma Stone estão fabulosos, e nem é possível imaginar que não foram os primeiros atores escalados para seus papéis. Se os planos de Damien Chazelle corressem conforme o esperado, Emma Watson e Miles Teller estariam na pele de Mia e Sebastian, mas por uma providencial mudança de planos, voltaram a contracenar e tiveram sua mais bem-sucedida parceria: Emma, escolhida pelo diretor depois de ele confirmar seus dotes musicais em uma montagem de "Cabaret", chegou a ganhar o Oscar de melhor atriz com seu misto de ingenuidade e determinação - impossível não se emocionar com a bela "Audition (The fools who dream"), indicada à estatueta de melhor canção - e se mostra uma das maiores promessas de Hollywood, enquanto Gosling se apresenta como um dos atores mais consistentes de sua geração, capaz de atuar, cantar e dançar com desenvoltura e carisma. Plenamente aptos a transmitir a mensagem apaixonante do diretor, eles são o corpo e alma de "La La Land", um filme inesquecível e que renova, de forma emocionante, o status de sétima arte ao cinema. É de se esperar o que mais Chazelle tem guardado na manga para seus próximos filmes: poucos cineastas conseguem ser tão brilhantes tão cedo!

sexta-feira

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA (Hollywoodland, 2006, Focus Features/Miramax, 126min) Direção: Allen Coulter. Roteiro: Paul Bernbaum. Fotografia: Jonathan Freeman. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Odetta Stoddard. Produção executiva: J. Miles Dale, Jake Myers, Joe Pichirallo. Produção: Glenn Williamson. Elenco: Ben Affleck, Adrien Brody, Diane Lane, Bob Hoskins, Robin Tunney, Lois Smith. Estreia: 31/8/06 (Festival de Veneza)

Provavelmente apenas os mais dedicados estudiosos do cinema e da televisão conhecem - de nome e sem consultas ao Google - a trajetória do ator George Reeves, morto em 1959 depois de uma carreira marcada essencialmente por sua participação no seriado de tv "As aventuras do Super-homem", que permaneceu no ar entre 1952 e 1958 e no qual ele interpretava o super-herói de Krypton. Sentindo-se preso no papel que praticamente o impediu de ser levado a sério como ator dramático, Reeves foi encontrado morto, vítima de um tiro justamente na ocasião em que sua casa estava repleta de convidados. Foi suicídio ou homicídio? E, no caso de a segunda resposta for a correta, quem o cometeu? A jovem noiva, Leonore Lemmon (Robin Tunney)? A amante casada com um chefão da indústria de cinema, Toni Mannix (Diane Lane)? Ou o próprio executivo, Eddie Mannix (Bob Hoskins), vingando-se do adultério? Todas essas questões, ainda não definitivamente resolvidas, são a base de "Hollywoodland: bastidores da fama", filme que investiga, em tom ficcional, um caso que abalou a indústria do entretenimento americano à sua época. Comandado por Allen Coulter - experiente diretor de episódios de séries, como "Arquivo X", "Sex and the city", "A sete palmos", "Família Soprano" e "Roma" - e estrelado por um surpreendente Ben Affleck, o filme não chega a atingir todo o potencial de seu explosivo tema, mas é uma curiosa viagem pelos bastidores de Hollywood e os perigos da fogueira das vaidades que a cidade se orgulha em ser.

Na verdade, o roteiro se concentra em Louis Simo (Adrien Brody), um detetive particular com problemas no casamento que começa a investigar a morte de Reeves a partir do pedido da mãe da vítima, a aparentemente inconsolável Helen Bessolo (Lois Smith). Sabendo que o caso pode lhe dar a visibilidade necessária para que crie um nome respeitável na profissão, Simo passa a dedicar-se dia e noite à investigação - o que significa mergulhar não apenas na rotina do ator nas semanas imediatamente anteriores à sua morte, mas principalmente voltar no tempo, até os dias do começo de sua carreira, quando contou com a inestimável ajuda da bela Toni Mannix para manter-se confortavelmente e conseguir o papel de Super-homem em uma bem-sucedida série. Conforme vai avançando pelos meandros do sistema de entretenimento, Simo percebe que o glamour muitas vezes oferecido ao público nem sempre corresponde a bastidores saudáveis e/ou felizes. Esse choque de realidade o fará questionar a própria vida e carreira - principalmente quando, durante a investigação, passa a entender os sentimentos dúbios de Reeves em relação a seu status de ídolo popular.


Indicado ao Golden Globe de melhor ator em filme dramático e premiado no Festival de Veneza por sua atuação discreta e eficiente, Ben Affleck acerta o tom de seu George Reeves, criando um personagem repleto de idiossincrasias e nuances, fato raro em uma carreira marcada por severas críticas a seu talento como intérprete. Herdando um papel que quase foi de Hugh Jackman, ele deixa de lado sua persona de astro para tornar-se um ator real, imprimindo verdade e melancolia por baixo da máscara de vaidade e orgulho exibida por Reeves para o grande público. Não chega a ser uma atuação extraordinária e digna de um Oscar, mas é um grande passo para um ator que, à época, frequentava mais as manchetes sensacionalistas devido a seu romance com Jennifer Lopez - e o fracasso retumbante de filmes como "Contato de risco" (2003) e "Sobrevivendo ao Natal" (2004) - do que por seus méritos artísticos. Não à toa, seu trabalho chamou mais a atenção do público e da imprensa do que a interpretação sóbria e contida de Adrien Brody, que, desde seu inesperado Oscar por "O pianista" (2002) tenta encontrar um veículo adequado a seu modo quase sonolento de atuação. Na pele de Louis Simo ele nem precisa se esforçar muito para transmitir toda a sensação de tédio e desencanto que nasce das revelações que surgem em seu caminho - é uma interpretação minimalista que funciona, embora em alguns momentos dê a impressão de nunca atingir um clímax. E, de certa forma, esse é um problema do filme em si.

Mesmo tendo em mãos uma história intrigante e repleta de possibilidades, o roteirista Paul Bernbaum não consegue atingir todo seu potencial, principalmente por não conseguir fazer a conexão entre a história de Simo e a trajetória de Reeves de forma orgânica. Utilizando-se de flashbacks de forma confusa a maior parte do tempo, o filme tampouco ultrapassa a superficialidade quando trata dos bastidores de Hollywood, perdendo a chance de explorar um universo sempre rico e interessante. Diane Lane - que em 2015 viveu a esposa do roteirista Dalton Trumbo em "Trumbo: lista negra" - faz o que pode para dar vida a uma personagem dividida entre as aparências e a paixão, mas sofre com a irregularidade do roteiro. Sem apontar uma solução definitiva para o caso da morte de Reeves, o filme simplesmente levanta questões sem resolvê-las, para frustração do público que procura um desfecho mais contundente. É um bom filme, mas é incapaz de ficar na memória da plateia. Uma pena!

AVE, CÉSAR

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, Working Title Films, 106min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf. Produção: Tim Bevan, Ethan Coen, Joel Coen, Eric Fellner. Elenco: George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Alden Ehreinreich, Tilda Swinton, Frances McDormand, Jonah Hill, Alison Pill, David Krumholtz. Estreia: 01/02/16

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.

Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.


Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.

Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...