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quarta-feira

TRATAMENTO DE CHOQUE

 


TRATAMENTO DE CHOQUE (Anger management, 2003, Revolution Studios, 106min) Direção: Peter Segal. Roteiro: David Dorfman. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jeff Gourson. Música: Teddy Castellucci. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Alan Au/Brad Davis, Chris Spellman. Produção executiva: Allen Covert, Todd Garner, Tim Herlihy, John Jacobs, Adam Sandler. Produção: Barry Bernardi, Jack Giarraputo. Elenco: Jack Nicholson, Adam Sandler, Marisa Tomei, John Turturro, Woody Harrelson, John C. Reilly, Luis Guzman, Alen Covert, January Jones. Estreia: 11/4/2003

Um tem doze indicações ao Oscar e três estatuetas para chamar de suas. O outro é frequentemente criticado por seus méritos artísticos ainda que de vez em quando surpreenda ao trabalhar com cineastas de prestígio. Um deles é um ícone absoluto do cinema hollywoodiano desde o final dos anos 1960. O outro entrou no imaginário popular somente a partir da década de 1990. Um deles passeou por todos os gêneros possíveis - começando com os filmes de horror de Roger Corman - e fez personagens tão díspares quanto um lobisomem quanto um escritor com TOC. O outro especializou-se em tipos comuns e dividiu-se entre comédias (românticas ou debochadas). Ambos tiveram filmes com bilheterias expressivas e tem uma legião de fãs - nem sempre os mesmos, mas em número considerável. Por mais diferentes que possam ser e por mais incompatíveis que pareçam, Jack Nicholson e Adam Sandler acabaram por revelar uma insuspeita química em "Tratamento de choque", uma comédia inofensiva que explora o melhor de cada um de seus protagonistas e conquista justamente pelo inusitado encontro de gerações.

Sem medo de apostar em algumas piadas fora do politicamente correto - mas sem os exageros dos irmãos Farrelly - e brincando com a febre dos coachs que assolava os EUA (e posteriormente se espalhou pelo mundo), o roteiro de "Tratamento de choque" mescla, com sucesso na maior parte do tempo, um filme sobre parceiros de personalidades opostas (subgênero popularíssimo e querido pelo público em geral) e uma comédia romântica com todos os ingredientes já conhecidos. Depois de uma breve introdução em que oferece à plateia um flashback explicativo sobre o trauma do protagonista em demonstrar carinho em lugares públicos, o filme começa com o jovem Dave Buznik (Adam Sandler) embarcando em uma viagem de negócios. O que deveria ser um voo tranquilo, no entanto, torna-se o começo de um pesadelo quando um pequeno mal-entendido o leva a ser expulso do voo e condenado a uma série de sessões de terapia para tratar de sua suposta agressividade. O médico escolhido pela juíza é o renomado Buddy Rydell (Jack Nicholson) - justamente o homem cujo comportamento deu início ao transtorno na viagem - e o atônito Dave se vê obrigado a um tratamento intensivo que inclui 24 horas por dia a seu lado. Dono de um estilo heterodoxo de cuidar de seus pacientes, Rydell se intromete em todos os setores da vida do rapaz - o que parece mais atrapalhar do que ajudar em suas questões profissionais e amorosas. Nem mesmo sua namorada, Linda (Marisa Tomei), parece estar imune aos arroubos pouco normais do médico, famoso por realizar milagres mesmo com seus métodos excêntricos.

 

Buddy Rydell parece um personagem sob medida para Jack Nicholson, que oferece ao público tudo aquilo que faz dele um dos mais queridos atores de sua geração - olhares insanos, a risada debochada, a sensação de perigo constante e um charme à toda prova. Porém, Nicholson não foi a primeira opção para o papel, que aceitou a conselhos de Kathy Bates, colega de Adam Sandler em "O rei da água" (1998): o primeiro ator pensado para interpretar o tresloucado terapeuta foi o de Eddie Murphy, e até que o veterano ator de "Um estranho no ninho" (1975) entrasse em cena, nomes como os de Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Bill Murray e Steve Martin chegaram a ser considerados pelos produtores, cientes de que era imprescindível um astro de peso para dividir a cena com Sandler. Sem apresentar grandes novidades a seu repertório como intérprete - coisa que provavelmente nem era algo esperado por seu fiel séquito de fãs -, Sandler surpreende apenas em apostar em uma bem-vinda sutileza que se contrapõe à atuação a um passo do exagero (proposital) de seu veterano parceiro de cena. Os dois combinam tão bem que o filme se dá ao luxo de contar com participações especiais de gente como John C. Reilly e Woody Harrelson sem sair do foco central, que é sua conflituosa (e quase perversa) relação. O único senão é explorar tão pouco o talento da ótima Marisa Tomei, que pouco tem a fazer como o interesse romântico do protagonista.

"Tratamento de choque" é uma daquelas comédias que cumpre exatamente o que promete - e até chega a surpreender com uma reviravolta final que justifica alguns excessos cometidos no meio do caminho. O encontro entre Nicholson e Sandler é certeiro, boa parte das piadas funciona e a direção de Peter Segal não tenta sobressair-se ao real destaque da produção, que é o encontro de seus atores centrais. Pode não ser o melhor filme de suas carreiras e nem um trabalho para entrar na história do cinema, mas é divertido o bastante para arrancar gargalhadas sinceras e mostrar que Jack Nicholson é um dos raros atores capazes de transformar qualquer roteiro, por mais banal que seja, em uma experiência satisfatória. Coisa de quem sabe!

sexta-feira

SEM MEDO DE VIVER


SEM MEDO DE VIVER (Fearless, 1993, Warner Bros, 122min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Rafael Yglesias, romance de sua autoria. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: William Anderson, Armen Minasian, Lee Smith. Música: Maurice Jarre. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: John Stoddart/John Anderson. Produção: Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Elenco: Jeff Bridges, Isabella Rossellini, John Turturro, Rosie Perez, Benicio Del Toro, Tom Hulce. Estreia: 15/10/93

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Rosie Perez)

De vez em quando uma receita com todos os ingredientes certos pode não ter o resultado esperado, por  razões as mais variadas. Cinema, então, apesar de frequentemente usar e abusar de fórmulas já testadas previamente, é uma incógnita: para cada produção que confirma a validade de elementos já devidamente consagrados, outras várias avisam de que nem sempre a confluência de fatores bem-sucedidos é garantia de sucesso. É o caso de "Sem medo de viver", lançado pela Warner no final de 1993 com evidentes intenções de chegar ao Oscar - com um diretor de prestígio, um ator principal dos mais bem quistos na indústria e um tema capaz de suscitar discussões e quiça lágrimas, o filme viu frustrados seus planos quando foi praticamente ignorado pela Academia (concorreu a apenas uma estatueta) e naufragou nas bilheterias, arrecadando pouco menos de sete milhões de dólares pelo mundo. Com o passar dos anos, porém, e com o apoio da crítica, acabou por adquirir o status de cult, encontrando seu público e passando a ser considerado uma pérola escondida na filmografia dos envolvidos. 

Baseado no romance "Fearless", de Rafael Yglesias, publicado no mesmo ano de lançamento do filme, "Sem medo de viver" é um filme estranho: já começa com o protagonista, Max Klein (Jeff Bridges), conduzindo um grupo de atônitos sobreviventes de um desastre aéreo para longe do acidente. Não demora muito para que seu ato de heroísmo faça dele uma espécie de celebridade - uma consequência com a qual não se sente exatamente à vontade. O que o surpreende, na verdade, é sua repentina inabilidade de conexão com a esposa, Laura (Isabella Rossellini), e o filho pequeno, Jonah, e a sensação de invulnerabilidade e imortalidade. Crente de que sobreviver ao acidente foi como nascer de novo, Max quer recomeçar a vida, redescobrir sentimentos e - como parte de sua mente um tanto desequilibrada pelo trauma - testar seus novos poderes de resistir à morte. Através de Bill Perlman (John Turturro), psicólogo da companhia aérea, designado para acompanhar os passageiros que saíram vivos da tragédia, Max conhece Carla Rodrigo (Rosie Perez), uma jovem que perdeu o filho de poucos meses diante de seus olhos. Surge entre ele, com sua síndrome de super-herói, e ela, com seu exarcebado sentimento de culpa, uma relação inesperada.

 

Dois grandes trunfos fazem com que "Sem medo de viver" escape das armadilhas lacrimosas em que poderia cair. Um deles é a direção do australiano Peter Weir, um dos cineastas mais consistentes a aportar em Hollywood na década de 1980 - depois de sucessivos êxitos de crítica em sua terra natal, como "Picnic na montanha misteriosa" (1975) e "Gallipoli" (1981), em 1993 ele já tinha concorrido ao Oscar de direção por "A testemunha" (1985) e "Sociedade dos poetas mortos" (1989). O segundo deles é a atuação inspirada de Jeff Bridges, que ficou com o papel inicialmente pensado para Mel Gibson (parceiro do diretor em "Gallipolli" e "O ano em que vivemos em perigo" (1984)) e lhe deu uma profundidade comovente. Bridges, que chegou a declarar o filme como um de seus trabalhos preferidos, imprime a Max Klein uma verdade que impede que o roteiro - escrito pelo mesmo Rafael Yglesias autor do romance que lhe deu origem - descambe para a inverossimilhança. Por mais improváveis que sejam algumas atitudes do protagonista, a presença de Bridges equilibra a balança e conduz a história de redenção, desespero e culpa de forma sensível e sem apelar excessivamente ao dramalhão. Apesar da história em si ser bastante pesada - especialmente a trama que envolve Rosie Perez -, a mão elegante de Weir é sentida especialmente em sequências mais lúdicas, como o clímax final e a cena de abertura. Sem cair na tentação de dar tudo mastigadinho à plateia, o diretor a convida à reflexão - e talvez este tenha sido o problema de "Sem medo de viver" junto à pouco ousada Academia.

Ao homenagear apenas Rosie Perez com uma indicação - ela perdeu a estatueta para a pequena Anna Paquin, por "O piano" (1993) -, a Academia perdeu a oportunidade de aplaudir a soberba interpretação de Jeff Bridges, a direção econômica e poética de Weir e a trilha sonora eficiente de Maurice Jarre. Mesmo que não esteja no mesmo nível dos melhores trabalhos do diretor - "A testemunha", "Sociedade dos poetas mortos" e o posterior "O show de Truman: o show da vida" (1998) -, "Sem medo de viver" é um belo filme, envolvente e intrigante na medida certa. Não é uma obra-prima, mas é capaz de tocar alguns corações mais sensíveis e confirmar seu realizador como uma das mais interessantes aquisições internacionais de Hollywood.

terça-feira

ÊXODO: DEUSES E REIS


ÊXODO: DEUSES E REIS (Exodus: Gods and Kings, 2014, 20th Century Fox, 150min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Billy Rich. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Jandy Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Cecilia Bobak, Pilar Revuelta. Produção executiva: Hisham Soliman. Produção: Mark Albela, Peter Chernin, Mohamed El Raie, Mark Huffam, Denise O'Dell, Mchael Schaefer, Ridley Scott, Jenno Topping. Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, Ben Kingsley, John Turturro, Aaron Paul, Ben Mendelsohn, Sigourney Weaver, Hiam Abass, Ewen Bremner. Estreia: 03/12/2014 (Londres)

Houve um tempo em que Hollywood - e as plateias ao redor do mundo - tinham uma indisfarçada fascinação por produções épicas/religiosas. Com a chegada de um novo estilo cinematográfico, mais ágil e moderno (a partir do final dos anos 1960), o gênero saiu de moda, e parecia destinado apenas à nostalgia até que Ridley Scott mostrou que ele ainda tinha espaço, com o sucesso de público, de crítica e de Oscars de "Gladiador" (2000). A partir daí, estúdios e cineastas voltavam a apostar em filmes grandiosos, de orçamentos generosos e narrativas pomposas - desta vez com o apoio de efeitos visuais caprichados e astros de primeira grandeza. Nem todos deram certo, e nem mesmo o próprio Scott escapou de tropeços, como "Cruzada" (2005) e "Robin Hood" (2010). Em um meio termo entre o sucesso e o fracasso absoluto, o cineasta inglês tampouco foi exatamente feliz com sua visão da conhecida história de Moisés e sua luta para libertar o povo judeu da escravidão. "Êxodo: deuses e reis" não foi um êxito comercial - em parte consequência do orçamento milionário de 140 milhões de dólares - e falhou em conquistar a crítica como em seus melhores trabalhos. Lançado no mesmo ano em que Darren Aronofsky estreou seu "Noé" - igualmente controverso e também mais calcado na realidade do que no tom místico normalmente encontrados nos clássicos religiosos -, o filme de Scott esbarrou basicamente em sua indecisão entre ser uma jornada épica de ação ou uma discussão sobre Deus e seus desígnios. Sofrendo com um ritmo lento que faz a trama engrenar só depois da metade da projeção, "Êxodo: deuses e reis" acabou desperdiçando a chance de unir o melhor do passado - uma história à moda antiga - com o presente - efeitos especiais de última geração, algo que somente muito dinheiro pode comprar - e resultou em um filme apenas morno.

Christian Bale, que também era a primeira escolha de Aronofsky para interpretar seu Noé - que ficou com Russell Crowe - quase perdeu o papel de Moisés, por causa do excesso de peso adquirido para "Trapaça" (2013), mas acabou acrescentando outro herói a uma galeria que inclui nada menos que o homem-morcego na trilogia capitaneada por Christopher Nolan. Bale entrega uma atuação forte, mas tropeça em um roteiro que evita a emoção a todo custo - e em um personagem arrogante e pouco simpático, o que dificulta a empatia do público. Sorte sua que o Ramsés de Joel Edgerton é ainda pior, com ares de vilão cartunesco mas ainda assim dentro da proposta de Scott. Agnóstico assumido, o cineasta narra sua história sob um ponto de vista calcado em possibilidades reais - as sete pragas do Egito, por exemplo, encontram explicações científicas que as obras anteriores de Cecil B. de Mille jamais buscariam: são sequências muito interessantes, criadas com o bom gosto de quem já criou obras indeléveis como "Alien: o oitavo passageiro" (1979) e "Blade Runner: o caçador de androides" (1982), mas é pouco para seduzir uma plateia acostumada a ação incessante. E nesse ponto a produção peca - e muito.

 

Demora quase meia-hora para que "Êxodo: deuses e reis" comece realmente a contar sua história. Antes que Moisés descubra suas origens hebraicas - o que dá o pontapé inicial para seu declínio junto ao Faraó Seti (John Turturro) e posterior redenção junto a seu povo, que o escolhe como líder contra as tiranias impostas pelo novo governante, o cruel Ramsés. Até que finalmente Moisés resolva desafiar seu antigo "irmão", o filme desfila uma série de diálogos lentos e quase desnecessários, que testam a paciência do espectador mesmo diante da opulência da direção de arte e da fotografia deslumbrante de Darius Wolski. Sigourney Weaver - parceria constante de Scott - aparece pouco, depois de ter boa parte de suas cenas cortadas na edição final, e Ben Kingsley, apesar do papel de importância crucial, é subaproveitado, assim como Aaron Paul, em alta pela série "Breaking bad", que mal aparece, com um personagem aleatório e sem força narrativa. É paradoxal que o roteiro tente fazer do filme mais do que simplesmente um épico de imagens fortes e ao mesmo tempo falhe consistentemente em aprofundar as relações entre os personagens e até mesmo suas personalidades. Apenas a rivalidade de Moisés e Ramsés é desenvolvida - e mesmo assim sem maior densidade - e o casamento do protagonista com Nefertari (Golshifeth Farahani) ocupa lugar periférico na trama, servindo apenas como (mais) um ponto de ruptura entre as duas vidas de Moisés. E não deixa de ser frustrante assistir-se a duas horas de filme para que ele tenha um final tão anti-climático quanto o proposto pelos roteiristas, dentre os quais os previamente indicados ao Oscar Jeffrey Caine e Steven Zaillian - que chegou a levar uma estatueta para casa pelo sensível "A lista de Schindler" (1993).

Mas afinal de contas, "Èxodo: deuses e reis" é totalmente ruim? Jamais. O visual, como já afirmado, é impressionante, desde o design de produção até os efeitos visuais - ainda que nem mesmo eles desafiem o inesquecível "Os dez mandamentos" (1956) -, e Joel Edgerton deita e rola como Ramsés (assumindo um papel recusado por Javier Bardem e Oscar Isaac). Christian Bale tem a potência necessária para viver um Moisés inesquecível, e mesmo que sua criação seja um tanto arrogante demais para despertar a torcida do público, seu talento impede que o filme caia nos clichês do gênero. Além disso, algumas soluções criadas para uma versão menos religiosa e mais política são fascinantes, como fazer de Deus uma criança mimada (o que incomodou os mais ortodoxos) e dar explicações racionais (ou o mais perto possível disso) às pestes que assolam o Egito. São momentos como esses que quase salvam o filme de Scott - que, com uma edição mais enxuta e um trabalho melhor no desenvolvimento de seus personagens poderia ter facilmente alcançado um lugar de honra entre as grandes produções épicas de seu tempo. Como está é um filme bem realizado mas sem alma. Muito visual para pouco conteúdo. Uma pena!

quarta-feira

O BOM PASTOR

O BOM PASTOR (The good shepherd, 2006, Universal Pictures, 167min) Direção: Robert De Niro. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Tariq Anwar. Música: Bruce Fowler, Marcelo Zarvos. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Gretchen Rau, Leslie E. Rollins, Alyssa Winter. Produção executiva: Chris Brighan, Francis Ford Coppola, Howard Kaplan, Guy McElwaine, David Robinson. Produção: Robert De Niro, James G. Robinson, Jane Rosenthal. Elenco: Matt Damon, Angelina Jolie, Robert De Niro, Alec Baldwin, William Hurt, John Turturro, Tammy Blanchard, Billy Crudup, Joe Pesci, Lee Pace, Eddie Redmayne, Gabriel Macht, Michael Gambon, Timothy Hutton. Estreia: 11/12/06

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

"O bom pastor" é um filme caro. Caro e ambicioso. Ao retratar o surgimento da CIA, através dos olhos de um de seus primeiros agentes - e fazer isso com uma narrativa sofisticada, repleta de flashbacks e numerosos personagens em quase três horas de duração -, foi também um imenso risco comercial para a Universal Pictures, que herdou o projeto da Columbia e da MGM. Com um custo estimado em 90 milhões de dólares (uma fortuna para um filme sem efeitos visuais, cenas de ação ou um protagonista de fácil reconhecimento aos olhos do público médio), o segundo filme dirigido por Robert De Niro só chegou mesmo às telas graças ao empenho de seu diretor (que o tratava como projeto de estimação há pelo menos dez anos antes de sua estreia) e ao comprometimento de Matt Damon, jovem astro então com capacidade o bastante para tocar para frente qualquer produção graças ao sucesso dos dois primeiros filmes da série Bourne. Graças à tenacidade de ambos, o filme, cujo embrião surgiu em 1994 - quando o roteirista Eric Roth, em vias de ganhar um Oscar por "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis, apresentou a ideia à Francis Ford Coppola - finalmente viu a luz dos refletores no final de 2006, e quase como a crônica de uma morte anunciada, não fez barulho nas bilheterias.

Mas se o relativo fracasso comercial de "O bom pastor" não chegou a surpreender muita gente, o que mais chamou a atenção foi a esnobada que o filme levou da Academia: típico produto que disputa os principais Oscar, foi indicado apenas à estatueta de melhor direção de arte, que perdeu para "O labirinto do fauno", de Guillermo Del Toro. Não deixa de ser uma injustiça: da fotografia espetacular de Robert Richardson à trilha sonora discreta de Marcelo Zarvos, não há nada, em termos técnicos, que não seja impecável no resultado final. A reconstituição de época caprichada, a edição inteligente, o clima de suspense e paranoia criado pela direção e as interpretações no tom exato são flagrantes até mesmo ao espectador mais exigente. O problema é que, apesar disso tudo, o roteiro peca ao não oferecer, ao público, alguém com quem se identificar. O personagem principal, Edward Wilson, não permite qualquer empatia ou diálogo com a plateia - e essa frieza, que afastou Coppola da direção (mas não da produção executiva), acaba sendo o calcanhar de Aquiles da obra, um problema que nem o carisma de Matt Damon é capaz de superar.


Damon, aliás, está muito bem no papel central, em uma interpretação que ele afirma ter se inspirado no trabalho de Gene Hackman em "A conversação" (74), coincidentemente do mesmo Coppola a quem o filme foi oferecido em primeira mão. Como bom agente secreto, o Edward Wilson criado por Damon é lacônico, distante e aparentemente inexpressivo - enquanto seu interior é um tumultuado caos. É Damon quem dá o tom de todos à sua volta, evitando qualquer passo fora do minimalismo sublinhado pelas sombras da fotografia de Richardson, que evoca com sucesso os filmes noir dos anos 40 e 50 para enfatizar a construção dramática da história contada. Com duas linhas narrativas paralelas, "O bom pastor" começa às vésperas da crise na Baía dos Porcos, em 1961, quando o governo de John Kennedy estava no auge de seu conflito com Cuba e Fidel Castro. Enquanto o roteiro mostra as tentativas de Wilson em cooperar na resolução dos problemas políticos e fugir das suspeitas de que pode ser um traidor (descobrindo o nome do verdadeiro agente duplo), flashbacks dão conta de mostrar a forma como ele chegou a seu destino, retratando desde seus dias juvenis como parte de uma fraternidade universitária que lhe forneceu contatos e atalhos para chegar a Washington, até seu casamento com Clover Russell (Angelina Jolie) - uma relação marcada pela distância que seu trabalho impunha - e o relacionamento com o único filho, Edward Jr. (Eddie Redmayne), que resolve seguir os passos do pai e também entrar na CIA, apesar de ter testemunhado toda a sua trajetória marcada pela solidão.

Bem diferente do primeiro filme dirigido por De Niro - o despretensioso "Desafio no Bronx" (94), com ecos autobiográficos -, "O bom pastor" mostra que o cineasta sabe muito bem o que faz quando se trata de dirigir atores (e são muitos, todos conhecidos do grande público, às vezes em papéis bem pequenos, mas sempre muito importantes). Falta, porém, a experiência necessária para enxugar a trama e lhe injetar um dinamismo que lhe faria muito bem. Além de necessitar de certo conhecimento da história dos EUA, o espectador ainda é soterrado de informações, nomes e datas que, mais do que empurrar a trama adiante, apenas a tornam confusa demais para quem procura entretenimento. Quando finalmente o ritmo entra nos eixos, nos vinte minutos finais, já é tarde para empolgar àqueles que não são fãs incondicionais de histórias de espionagem - ainda que talvez suas inúmeras outras qualidades possam minimizar seus pequenos defeitos. No final das contas, é um filme adulto, complexo, de narrativa elegante e alguns bons momentos de tensão. Não é tão bom quanto poderia ser, mas pode ser que, com o passar do tempo, se torne um clássico a ser descoberto.

domingo

FAÇA A COISA CERTA

FAÇA A COISA CERTA (Do the right thing, 1989, Universal Pictures, 120min) Direção e roteiro: Spike Lee. Fotografia: Ernest Dickerson. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Bill Lee. Figurino: Ruth Carter. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Steve Rosse. Produção: Spike Lee. Elenco: Danny Aiello, John Turturro, Spike Lee, Ossie Davis, Ruby Dee, Rosie Perez, Giancarlo Esposito, John Savage, Bill Nunn, Samuel L. Jackson, Martin Lawrence. Estreia: 19/5/89 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Danny Aiello), Roteiro Original

Quando "Faça a coisa certa" estreou, no Festival de Cannes de 1989, ninguém poderia imaginar que o filme de Spike Lee se tornaria, imediatamente, uma das produções mais polêmicas do ano: louvada por parte da crítica (encantada com seu ritmo pulsante e sua coragem em dar voz à comunidade negra americana) e acusada por outra (tida como perigosa e capaz de incitar a violência), a obra conquistou fãs apaixonados e detratores furiosos - boa parte deles francamente descarregando sua munição no cineasta, um dos mais ferozes ativistas negros do país. Premiado pelos críticos de Boston, Chicago e Los Angeles e indicado a quatro Golden Globes (incluindo melhor drama, diretor e roteiro), o filme acabou sendo praticamente ignorado pela Academia (que lhe deu duas meras indicações ao Oscar, ainda que relativamente importantes) e passou à história como um dos mais impactantes produtos da temporada. Mas, afinal, o que "Faça a coisa certa" tem de tão especial a ponto de resistir ao tempo e permanecer como um documento fiel da identidade de sua comunidade?

Em primeiro lugar há o roteiro repleto de energia de Spike Lee, escrito como um hip hop contagiante e caloroso - refletido na fotografia de Ernest Dickerson e na trilha sonora de Bill Lee. Depois, há a militância incansável do jovem diretor, então com apenas 32 anos de idade e no auge de sua ferocidade. Por fim, o contexto de constante ebulição e tensão entre negros e brancos norte-americanos, e que explodiria de vez em 1991, na ocasião do espancamento, por policiais de Los Angeles, de Rodney King - um evento de grandes proporções que resultou em uma discussão internacional sobre racismo e abuso de poder. Sentindo na pele o preconceito e a discriminação, Lee transformou a dor em arte - e foi abraçado por todos aqueles que viram em seu filme um grito contra o sistema e a opressão, assim como incomodou àqueles confortáveis com o status quo. Fugindo de estereótipos fáceis e soluções moralistas, o cineasta aponta sua câmera para situações cotidianas que, aos poucos, vão se tornando o estopim de uma explosão de violência das mais inquietantes da década de 80.


Não existe propriamente um protagonista em "Faça a coisa certa", mas todos os personagens se conectam através de Mookie (vivido pelo próprio Spike Lee), um falastrão entregador de pizza que trabalha para a família de Sal Fragione (Danny Aiello, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Há 25 anos funcionando no Brooklyn, a pizzaria de Sal é um local tradicional do lugar, apesar das relações um tanto instáveis do proprietário e dos moradores - em sua maioria negros e latinos, para desgosto do filho mais velho de Sal, o pouco amigável Pino (John Turturro). Enquanto passa o dia entregando as encomendas do restaurante e lidando com sua vizinhança - além de sua namorada, Tina (Rosie Perez) - o simpático funcionário acaba por ser testemunha privilegiada de um incidente que irá mudar radicalmente o modo de vida dos envolvidos: em um dia de extremo calor, um comentário aparentemente aleatório (questionando a ausência de negros na "parede da fama" da pizzaria) empurra os clientes de Sal a uma rebelião de grandes proporções. Sal, que se considerava parte do bairro, não deixa barato - e a violência explode, incontrolável.

Contando sua história em um crescente grau de tensão - o que começa como uma comédia ligeira vai aos poucos assumindo contornos de uma tragédia anunciada - e com um ritmo ágil e despretensioso que contrasta com o peso do desfecho e da denúncia, "Faça a coisa certa" acerta principalmente em evitar paternalismos fáceis e, mesmo que nitidamente favorável a um lado específico da questão, discutir seus temas com a contundência de quem realmente sabe o que está falando. Seu clímax - que assustou a Paramount a ponto de o estúdio abandonar o projeto, prontamente encampado pela Universal Pictures - é um dos mais potentes da carreira de Spike Lee, e mesmo que seu final acene com uma pontinha de esperança, o roteiro cumpre o que promete, cutucando uma chaga muito aberta na sociedade americana e impondo uma discussão urgente e necessária. Forte, intenso e contundente, "Faça a coisa certa" é um filme atemporal, cuja mensagem ressona ainda nos dias de hoje - quando parece que toda a política de inclusão social democrata voltou décadas e parece cada vez mais distante do ideal. Um filme imprescindível!

segunda-feira

PUNHOS DE AÇO

PUNHOS DE AÇO (Hands of stone, 2016, Fuego Films/Epicentral Studios/La Piedra Films, 111min) Direção e roteiro: Jonathan Jakubowicz. Fotografia: Miguel Ioann Littin Menz. Montagem: Ethan Maniquis. Música: Angelo Milli. Figurino: Bina Daigeler. Direção de arte/cenários: Tomas Voth/Denise Camargo, Amy Williams. Produção executiva: Ricardo Del Rio, Robin Duran, George Edde, David Glasser, Bill Johnson, Max Keller, Kamel Krifa, Jim Seibel, Benjamin Silverman, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Sammy Weisleder. Produção: Carlos Garcia de Paredes, Claudine Jakubowicz, Jonathan Jakubowicz, Jay Weisleder. Elenco: Edgar Ramírez, Robert DeNiro, Usher Raymond IV, Ruben Blades, Ellen Barkin, John Turturro, Ana de Armas. Estreia: 16/5/16 (Festival de Cannes)

Em 1980, o ator Robert DeNiro conquistou as melhores críticas de sua carreira (além de muitos e cobiçados prêmios, incluindo o Oscar) por seu desempenho inesquecível do lutador Jake LaMota, em "Touro indomável", dirigido por Martin Scorsese. Trinta e seis anos mais tarde, já consagrado como intérprete mas constantemente subaproveitado pela indústria hollywoodiana, ele mudou de lado: em "Punhos de aço" De Niro vive Ray Arcel, um dos mais notáveis treinadores de boxe da história do esporte, e o primeiro a ser homenageado no Hall da Fama do Boxe, em 1991. Substituindo a primeira escolha para o papel - seu colega de geração e admiração dos fãs de cinema, Al Pacino - e aceitando modestamente ficar em segundo plano em um roteiro que retrata Arcel como coadjuvante, o veterano ator quase rouba a cena no filme do venezuelano Jonathan Jakubowicz - só não o faz porque quem lidera o elenco, na pele do boxeador Roberto Duran, é o excelente Edgar Ramírez (que, por sua vez, também foi a segunda escolha do cineasta, depois da desistência de Gael García Bernal).

Já conhecido pelo público dos festivais de cinema graças a seu desempenho em "De coração aberto" (de 2012, atuando ao lado de Juliette Binoche) e na elogiada minissérie "Carlos, o Chacal" (2010), Ramírez mostra que tem talento o suficiente para não se deixar intimidar pela presença de DeNiro e entrega uma performance fascinante. Mesmo que o roteiro de Jakubowicz não seja exatamente um primor de criatividade e ousadia, o trabalho de seu protagonista consegue transformar leite em pedra: em boa parte devido à história emocionante e surpreendente de Roberto Duran (um ídolo do esporte panamenho) e sua improvável trajetória, Ramírez dribla com competência os clichês do gênero e as armadilhas melodramáticas e entrega uma atuação memorável, valorizada pela direção discreta e pela edição ágil. Dividindo sua narrativa em duas partes bem definidas - que valorizam qualidades diferentes de seu personagem principal - e sem tentar esconder sua admiração pelo protagonista, "Punhos de aço" consegue ser, ao mesmo tempo, um belo drama sobre esportes e uma interessante e imprevisível lição de vida (sem nunca escorregar no açúcar).


Um ídolo do Panamá (onde sempre foi visto como uma espécie de Robin Hood, distribuindo dinheiro e ajuda para a população mais carente), Roberto Duran é o protagonista ideal para uma história de superação: começando a lutar com apenas 16 anos de idade para fugir de uma vida de criminalidade, tornou-se um campeão por esforço próprio, desafiando seus oponentes com a mesma ironia e desembaraço que apresentava nos ringues. O filme de Jakubowicz centra sua história (com exceção de alguns flashbacks) na relação entre Duran e Ray Arcel (DeNiro), um dos mais respeitados treinadores de boxe de sua geração, que entra na vida do ousado lutador para conduzí-lo à vitória contra o famoso Sugar Ray Leonard (o cantor Usher, assinando como Usher Raymond IV). O resultado da disputa é surpreendente - e o que vem depois disso é ainda mais inacreditável. Mesmo sendo uma história real (e de certa forma razoavelmente conhecida, especialmente pelos fãs do esporte), a luta de Duran para voltar aos ringues é emocionante na medida certa: não apela para lágrimas fáceis nem tampouco minimiza os acontecimentos. Edgar Ramírez está impecável em todas as transições que seu personagem exige - e elas são muitas - e convence sem aparentar muito esforço: é difícil não acreditar que ele "é" Roberto Duran, desde seus ataques de arrogância até suas crises de insegurança; de seus momentos em família e de sua relação quente com aquela que seria sua esposa, Felicidad (Ana de Armas).

Um filme honesto e realizado com o coração, "Punhos de aço" acabou por ser praticamente ignorado nas bilheterias americanas, onde mal passou dos sete milhões de dólares de arrecadação (contra um custo estimado de vinte). Mais um sinal do lançamento sem grande pompa do que reflexo de suas qualidades, a falta de sucesso comercial apenas impediu que o público tivesse acesso a uma produção simpática e que conta uma história que merece ser conhecida, tanto por sua força dramática quanto por seus personagens fortes e carismáticos. Uma pequena pérola a ser devidamente reconhecida - talvez não como um grande filme, mas ao menos como um filme bem-intencionado que consegue o que é cada vez mais raro: comunicar-se com a plateia, seja ela qual for.

quinta-feira

E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ?

E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ? (O brother where art thou?, 2000, Touchstone Pictures/Universal Pictures, 106min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, livro "A odisséia", de Homero. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes, Tricia Cooke. Mùsica: T Bone Burnett. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Tim Bevan Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: George Clooney, John Turturro, Tim Blake Nelson, John Goodman, Holly Hunter, Charles Durning, Chris Thomas King. Estreia: 13/5/00 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (George Clooney) 

Pergunta: que tipo de gente seria capaz de transmutar uma obra épica, respeitada e estudada como a "Odisseia", de Homero em uma comédia maluca, estrelada por três foragidos da polícia e ilustrada com o mais puro bluegrass (country de raiz)? Resposta: os irmãos Joel e Ethan Coen, que, desde sua estreia no cinema, com o noir "Gosto de sangue", de 1984, passaram a subverter os gêneros mais queridos de Hollywood com filmes de rara inteligência e humor negro. Consagrados pela Academia em 1997 pelo policial sangrento e cômico "Fargo" - vencedor dos Oscar de roteiro e atriz - os dois calaram a boca daqueles que pensavam que eles iriam moldar-se ao esquema do cinemão hollywoodiano: primeiro, lançaram a comédia "O grande Lebowski", estrelada por Jeff Bridges, que tinha como protagonista um usuário de maconha pra lá de sequelado. Depois, chamaram o galã George Clooney, o despiram de qualquer vaidade e lhe deram o papel mais bizarro de sua carreira em "E aí, meu irmão, cadê você?", uma adaptação nunca aquém de surreal da obra clássica de Homero. Resultado: as boas graças da crítica, um Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e uma parceria que ainda hoje vem rendendo ótimos filmes.

Dotado de um até então desconhecido timing cômico, Clooney está à vontade como Ulysses Everett McGill, o líder de um trio de fugitivos de uma colônia penal agrícola no Mississipi dos anos 30. Com o objetivo de voltar para casa e para a esposa Penny (Holly Hunter) e recuperar o produto de um assalto a banco que o levou para a cadeia, ele e seus companheiros - Pete Hogwallop (John Turturro) e Delmar O'Donnell (Tim Blake Nelson) - iniciam uma longa jornada que os levará a cruzar o caminho com um série de personagens inacreditáveis. Desde Tommy Johnson (Chris Thomas King), um jovem músico negro que diz ter vendido a alma ao diabo para fazer sucesso profissionalmente até Pappy O'Daniel (Charles Durning), um candidato a governador pouco afeito à ética, todo tipo de gente e situações se interpõem entre ele e seu destino - até mesmo um grupo de integrantes da Ku Klux Kan e um trio de belas e sedutoras mulheres que não são exatamente o que parecem.


Brincando de substituir os elementos fantasiosos da obra de Homero por outros mais tradicionais - mas ainda assim surreais a ponto de não diluir o tom de humor de seu filme - o roteiro dos irmãos Coen acabou sendo indicado ao Oscar, assim como a fotografia amarelada de Roger Deakins, que reflete com exatidão o clima árido e seco do sul dos EUA, um cenário mais do que inspirado para as maluquices da dupla de cineastas, que transforma o pesadelo de Ulysses e seus companheiros em uma trajetória irresistível e surpreendente até mesmo para quem leu o material que lhe deu origem - grupo este que não inclui os diretores, que admitiram só conhecer a história graças ao inconsciente coletivo e a outras adaptações cinematográficas. O que no caso poderia ser um fator limitatório, porém, acabou sendo libertador: graças à falta de compromisso com a seriedade de Homero, os irmãos Coen parecem ter tirado o pé do freio no quesito humor, recheando seu filme com tiradas visuais das mais inspiradas de sua carreira e entregando ao público um trio de protagonistas deliciosamente abobalhados, capazes de arrancar risos até do mais sisudo espectador. Para quem tem alguma dúvida, basta esperar até o momento em que Ulysses assume os microfones em um evento popular e tenta reconquistar sua amada cantando com sua "banda". É cinema dos irmãos Coen em seu melhor, apresentando à plateia um George Clooney em dias de pura inspiração cômica.

Mas se Clooney está perfeito em sua versão de galã desajeitado, o mesmo pode ser dito do restante do elenco: John Turturro e Tim Blake Nelson estão sempre a ponto de roubar a cena com seus patéticos fugitivos e John Goodman tanto assusta quanto faz rir com seu vilão de tapa-olho, assim como Holly Hunter não precisa de muito tempo em cena para mostrar porque é uma das atrizes preferidas dos diretores. Parte de um conjunto vitorioso - que inclui com méritos a excepcional trilha sonora, que ganhou prêmios a rodo e vendeu inesperadamente - os atores dão a "E aí, meu irmão, cadê você?" (uma tradução um tanto estranha do título original, escrito em inglês arcaico) o molho especial que faz dele uma das comédias mais imaginativas e inteligentes surgidas no cinema americano tão desprovido de ousadia.

segunda-feira

QUIZ SHOW - A VERDADE DOS BASTIDORES

QUIZ SHOW, A VERDADE DOS BASTIDORES (Quiz show, 1994, Hollywood Pictures/Baltimore Pictures, 133min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Paul Attanasio, livro "Remembering America: a voice from the sixties", de Richard N. Goodwin. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Samara Schaffer. Produção executiva: Richard Dreyfuss, Judith James, Frederick Zollo. Produção: Michael Jacobs, Julian Krainin, Michael Zonik, Robert Redford. Elenco: Ralph Fiennes, Rob Morrow, John Turturro, Paul Scofield, Christopher McDonald, David Paymer, Hank Azaria, Mira Sorvino, Griffin Dunne, Martin Scorsese, Barry Levinson. Estreia: 23/9/94

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Paul Scofield), Roteiro Adaptado

O ano é 1958. Um dos mais populares programas de TV dos EUA, apresentado pela NBC, é o game-show "Twenty-one", apresentando por Jack Barry (Christopher McDonald), onde dois candidatos duelam pela possibilidade de ganhar até 100 mil dólares respondendo a perguntas de conhecimento geral. Percebendo que o campeão das últimas semanas, Herbie Stempel (John Turturro) já não tem mais a resposta entusiasmada da plateia (a audiência estancou e parece que não há jeito de voltar a subir), os patrocinadores do programa resolvem retirá-lo do show e substituí-lo por alguém mais palatável ao gosto médio. Stempel, um judeu do Queens sem formação acadêmica e de aparência pouco admirável, acaba sendo deixado de lado por Charles Van Doren (Ralph Fiennes), um professor universitário de considerável herança intelectual - e dono de uma beleza que passa a encantar as mulheres. Enquanto Van Doren começa a acumular uma bela fortuna saindo vencedor dos programas de que participa, o antigo concorrente, sentindo-se traído pela produção da emissora, resolve expor a rede de mentiras que se passa nos bastidores. Segundo ele, os participantes escolhidos como os vencedores já recebem todas as respostas antes do início da atração, como forma de garantir sua vitória. Suas acusações chegam até os ouvidos de Dick Goodwin (Rob Morrow), um jovem idealista e ambicioso que trabalha no Congresso Americano, que resolve tirá-las a limpo.

Esse escândalo de manipulação da mídia - fato hoje tão corriqueiro que nem chega mais a ser notícia - ocorreu de verdade e foi o tema do livro "Remembering America: a voice from the sixties", escrito pelo próprio Goodwin e serviu de base para o quarto filme do ator Robert Redford como cineasta, "Quiz show, a verdade dos bastidores". Indicado para quatro estatuetas da Academia - incluindo melhor filme, direção e roteiro - o filme é uma reconstituição sóbria e clássica de um período americano anterior ao pesadelo em que o país mergulharia com o assassinato de John Kennedy em 1963, que traria a reboque a guerra do Vietnã e o recrudescimento dos conflitos raciais. A perda da inocência que estava em vias de ocorrer talvez tenha se deixado vislumbrar com a história do "Twenty-one", parece dizer Redford, que nem por isso parece julgar os fatos que apresenta. Como bom cineasta contador de histórias, ele apenas serve como narrador, deixando as conclusões - e as opiniões - com o público.


E Redford talvez nunca tenha estado melhor como cineasta do que em "Quiz show". Amparado por um roteiro seguro e repleto de nuances sociais e psicológicas - o filme engloba tanto os meandros das emissoras de tv quanto os dramas pessoais dos envolvidos com a tramoia - ele também tira de seus atores interpretações viscerais: Ralph Fiennes - vindo direto da indicação ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) - constroi um Charles Van Doren minimalista, sutil, que fala com os olhos e transmite sua variada gama de sentimentos sem precisar apelar para o óbvio (assim como o faz também o veterano Paul Scofield na pele de seu pai, uma atuação que colocou-o na lista dos concorrentes à estatueta de coadjuvante), enquanto John Turturro brilha na pele do exagerado, falastrão e dramático Herbie Stempel: o contraste entre as duas atuações é um golpe de mestre do diretor, que deixa claro ao público as motivações dos competidores. Van Doren sucumbiu à fama, à glória e até mesmo à ingenuidade de achar que sua vitória ajudaria na educação do país. Stemple precisava de dinheiro, de atenção, de ter o reconhecimento por sua cultura. Ambos caíram em desgraça.

Realizado com capricho - a ambientação e os figurinos são impecáveis - e dirigido com elegância e discrição, "Quiz show" chegou ao Oscar 95 enfrentando pesos-pesados como "Forrest Gump, o contador de histórias" e "Pulp fiction, tempo de violência", o que talvez explique o fato de ter saído de mãos abanando da cerimônia. Mas também é bem possível que os eleitores da Academia não tenham gostado de perceber o quanto podem ser manipulados pela mídia. A verdade doi, mesmo que venha embrulhada em um belo e fascinante papel de presente.

AJUSTE FINAL

AJUSTE FINAL (Miller's crossing, 1990, 20th Century Fox, 115min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael R. Miller. Música: Carter Burwell. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Ben Barenholtz. Produção: Ethan Coen. Elenco: Gabriel Byrne, Marcia Gay Harden, Albert Finney, John Turturro, J.E. Freeman, Jon Polito. Estreia: 21/9/90

Durante o processo de escrita do roteiro de "Ajuste final", que viria após de sua auspiciosa estreia com "Gosto de sangue" (84) e da visita à comédia amalucada em "Arizona nunca mais" (87), os irmãos Coen - Joel, o diretor, e Ethan, o produtor - experimentaram uma situação insólita: em determinado ponto, a estória do gângster Tom Regan - regada a tiroteios, traições e a dose sempre presente de humor negro - chegava a um impasse aparentemente insolúvel. Cansados, confusos e com uma falta de ideias até então desconhecido, eles deram um tempo e escreveram um outro filme, justamente sobre um roteirista de Hollywood paralisado por um bloqueio criativo. O filme, "Barton Fink, delírios de Hollywood" (92), acabou saindo-se vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e recebeu rasgados elogios da crítica. E "Ajuste final", apesar de ter sido praticamente ignorado pelas cerimônias de premiação, conseguiu, em seu resultado final, superar os problemas de falta de inspiração se tornando um espetacular filme de gângster, que mistura o estilo inconfundível dos cineastas com os elementos tradicionais de um dos gêneros mais queridos dos espectadores.

A primeira cena já remete ao mais clássico dos clássicos, "O poderoso chefão" (72), quando um gângster dos anos 30, Johnny Caspar (Jon Polito), pede permissão a outro, Leo (Albert Finney), para matar Bernie Bernbaum (John Turturro), um judeu falastrão e desonesto que anda atrapalhando seus negócios. A sequência, filmada com elegância, dá a partida para a complexa trama: testemunhado por seu lacônico conselheiro Tom Regan (um silencioso e eficiente Gabriel Byrne), Leo se recusa a apoiar Caspar, mas por motivos que nada tem a ver com o submundo do crime: Bernie é irmão da amante de Leo, a sedutora Verna (Marcia Gay Harden), uma mulher pouco confiável, já que, além de Leo, também frequenta a cama de Tom. Esse perigoso triângulo amoroso, incendiado pela presença nociva de Bernie e pelo tom de constante ameaça de Caspar e seu violento capanga, Eddie Dane (J.E. Freeman), vai sofrer constantes reviravoltas, já que confiança é um artigo raro dentro do submundo criminal dos anos 30.


Esplendidamente fotografado pelo futuro cineasta Barry Sonnenfeld, "Ajuste final" é um típico produto em que a aparência chama mais a atenção do que o conteúdo. A trama complexa - por vezes em demasia - é emoldurada por uma reconstituição de época caprichadíssima e uma técnica impressionante, característica que os cineastas levariam como constante em sua vitoriosa carreira. O roteiro (não é de surpreender que tenha confundido os próprios autores) ousa em sua originalidade, misturando sexo, poder e violência em um caldeirão de referências visuais e temáticas, mas acaba, em determinado momento, deixando o espectador perdido com tantos nomes e situações. Esse pequeno detalhe, porém, não basta para anular as inúmeras qualidades do filme, uma extraordinária realização que surpreende por ser recém o terceiro trabalho dos Coen. Sua inexperiência não os impede de alcançar níveis inacreditáveis de excelência, tanto pictoriamente quanto em termos de direção de atores.

Gabriel Byrne nunca esteve tão bem antes, construindo um Tom Regan discreto, cuja raiva vai se acumulando até o limite, em sequências arrepiantes. Albert Finney surpreende como o gângster Leo, que intercala momentos de ternura apaixonada com outros de raiva extrema, e Marcia Gay Harden jamais deixa sua Verna tornar-se previsível aos olhos da plateia. No entanto, é John Turturro, na pele do venal Bernie Bernbaum, quem rouba a cena: sempre que está diante do público, ele monopoliza a atenção, com seus olhos expressivos e seu trabalho milimetricamente detalhado (não foi à toa que ele foi escolhido pelos diretores para viver o protagonista de "Barton Fink", que lhe valeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes). Suas sequências - em especial o fantástico duelo com Byrne em uma floresta - são a alma do filme, a prova de que, por trás da intrincada história contada pelos Coen e por seu hipnotizante visual, existe gente que sabe falar de gente. Mesmo que seja uma gente tão distante - em todos os sentidos - do espectador comum.

quinta-feira

CARTAS NA MESA

CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98

Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.

Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a  uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.


Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.

"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.

domingo

A COR DO DINHEIRO


A COR DO DINHEIRO (The color of the money, 1986, Buena Vista Pictures, 119min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price, romance de Walter Tevis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Karen A. O'Hara. Casting: Gretchen Rennell. Produção: Irving Axelrad, Barbara De Fina. Elenco: Paul Newman, Tom Cruise, Mary Elizabeth Mastrantonio, Helen Shaver, John Turturro, Forest Whitaker, Bill Cobbs. Estreia: 08/10/86

4 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Mary Elizabeth Mastrantonio), Roteiro Adaptado, Direção de arte
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Paul Newman)


Filmes sobre sinuca - ou bilhar ou qualquer assemelhado - normalmente não são sucessos de bilheteria nem fascinam as plateias que frequentam as salas de cinema. Por isso não é de se estranhar que "A cor do dinheiro", que deu o merecido Oscar de melhor ator a Paul Newman em 1986 não tenha tido uma brilhante carreira comercial, apesar do apelo jovem de um Tom Cruise ainda em sua fase de ídolo adolescente - status que ele começaria a mudar aqui e em "Rain Man" e confirmaria com "Nascido em 4 de julho". No entanto, rotular "A cor do dinheiro" como um filme de sinuca é o mesmo que restringir "Touro indomável" a um filme sobre boxe. Não é à toa que ambos os filmes sejam dirigidos pelo mesmo Martin Scorsese, que, com seu talento indiscutível, sempre conta histórias de homens lutando contra si mesmos.

Na verdade "A cor do dinheiro" é uma espécie de continuação de "Desafio à corrupção", lançado em 1961 e que também tinha como protagonista o mesmo Eddie Felson que Newman revive aqui. No filme de Scorsese, Felson é um jogador aposentado de uma variação de sinuca chamada "Bola 9", que vive da venda de bebidas alcóolicas. Seu passado de glória no esporte volta a lhe assombrar quando ele conhece o jovem Vincent Lauria (Tom Cruise), dono de um talento inegável, mas também de uma arrogância que apenas a inexperiência é capaz de construir. Empolgado com o rapaz, Eddie propõe a ele e sua ambiciosa namorada, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio) que eles se unam para ganhar muito dinheiro em uma competição em Atlantic City. O trato - Felson entraria com seus meandros e malandragem e Vincent com o talento e a disposição - começa a dar errado quando Vincent passa a não dar ouvidos aos conselhos de seu mentor, julgando-se capaz de vencer sozinho. Logo eles acabam sendo obrigados a jogar um contra o outro.

Conforme dito antes, é característica da obra de Scorsese colocar seus protagonistas diante do pior de seus inimigos: ele mesmo. Em "A cor do dinheiro" ele faz isso duplamente. Eddie Felson precisa lutar contra seu passado, contra o tempo que já não lhe é mais complacente e contra seus próprios princípios. O jovem Vincent necessita aprender a lidar com seu exibicionismo, com a sua efusividade juvenil, com a ambição e a pressa típicas de sua idade. E ambos são forçados também a lutar um contra o outro: como dois espelhos, eles se enxergam no parceiro... e provavelmente não gostam muito do que veem.


Como filme, "A cor do dinheiro" não está no mesmo patamar das obras-primas de Scorsese: tem alguns problemas de ritmo e, deixando de lado a atuação excepcional de Newman, não tem um protagonista carismático e/ou repulsivo como seus melhores trabalhos. No entanto, seduz o espectador com uma imprevisibilidade rara - o roteiro do escritor Richard Price foge dos clichês admiravelmente e ainda tem a ousadia de terminar em aberto - o que, para um filme sem pretensões de tornar-se o primeiro capítulo de uma série é uma temeridade comercial sem tamanho. E é inegável perceber o cuidado do cineasta em filmar cada sequência do esporte da maneira mais empolgante possível - e nessas cenas a edição de sua colaboradora habitual Thelma Schoonmaker é, como sempre, destaque absoluto.

Mas é Paul Newman o dono do filme. Sua interpretação delicada, discreta mas extremamente forte domina cada cena em que ele aparece, dando aulas prestimosas a Cruise, que em seguida tentaria direcionar sua carreira para escolhas de maior prestígio do que "Negócio arriscado" e "A lenda". Mais do que levar um Oscar por respeito a sua carreira sensacional, ele foi premiado pela qualidade altíssima de seu trabalho. Um prêmio absolutamente merecido!

segunda-feira

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.


"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...