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quinta-feira

MEU FILHO

 


MEU FILHO (My son, 2021, Une Hirondelle Productions/Wild Bunch International/Sixteen Films, 95min) Direção: Christian Carion. Roteiro: Christian Carion, Laure Irrmann. Fotografia: Eric Dumont. Montagem: Loic Lallemand. Música: Laurent Perez Del Mar. Figurino: Carole Miller. Produção executiva: Adam Fogelson, John Friedberg, Robert Simonds, Kimberly Fox. Produção: Marc Butan, Christian Carion, Brahim Chioua, Noémie Devide, Marc Gabizon, Laure Irrmann, Vicent Maraval, Rebecca O'Brien. Elenco: James McAvoy, Claire Foy, Tom Cullen, Gary Lewis. Estreia: 15/9/2021 (Internet)

Em 2017, o cineasta Christian Carion surpreendeu o público francês com "Meu filho", uma produção que, apesar da sinopse não exatamente original, fugia da narrativa tradicional ao negar a seu ator principal, Guillaume Canet, o roteiro que conduzia a trama. As reações de Canet ao que era proposto pelos colegas de cena é que levavam a história adiante - e transmitiam a sensação de desorientação necessária à construção do suspense. Quatro anos mais tarde, ciente das limitações que um filme não falado em inglês encontra no mercado internacional, Carion envolveu-se pessoalmente no remake de sua obra - com um ator britânico (James McAvoy) e uma mudança de cenário (da França para as montanhas escocesas) - e, com o máximo de fidelidade possível, fez de sua refilmagem um produto que, se não chega a revolucionar o gênero, ao menos envolve o espectador em um espiral de intrigas e mistérios que vai se desenrolando aos poucos até o final que infelizmente não consegue escapar do clichê.

A trama já começa com a chegada de Edmond Murray (James McAvoy) às buscas de seu filho de sete anos, desaparecido de um acampamento nas montanhas escocesas. Chamado pela ex-mulher, Joan (Claire Foy) - de quem está separado há alguns anos e que já está em uma nova relação -, Edmond não consegue deixar de sentir-se culpado pelo fato de ser um pai ausente, em constantes viagens a trabalho, inclusive por países em situações de conflito. Questionado pela polícia, que suspeita de um sequestro com vítima escolhida a dedo, Edmond não se conforma em apenas fazer parte das equipes que procuram o menino pelas matas. Assumindo uma investigação própria e com métodos não ortodoxos, ele se depara com pistas falsas, suspeitos bastante dúbios e até com a possibilidade de ter responsabilidade indireta com o desaparecimento. A cada passo que dá adiante, porém, o tempo vai se esgotando - e o final de sua procura vai ficando com chances cada vez maiores de não ser bem-sucedida. 

Avassalador no papel principal, James McAvoy demonstra, mais uma vez, sua capacidade aparentemente infinita de se reinventar nas telas - vale lembrar que o ator inglês já deu vida a um psicopata com problemas mentais ("Fragmentado"), um soldado da I Guerra tentando retomar a vida depois de uma acusação injusta de assédio ("Desejo e reparação"), um inexperiente médico que se torna o homem de confiança do ditador Idi Amin ("O último rei da Escócia") e o jovem Professor Xavier (na segunda trilogia dos X-Men), apenas para citar alguns. É ele, com sua garra e dedicação, que faz com que o filme de Carion saia da vala comum dos filmes de ação para se tornar um passatempo bastante digno - ao menos em seus dois primeiros terços. É nessa primeira parte que a ideia do cineasta em esconder de seu ator central o roteiro faz toda a diferença: conforme vai tomando conhecimento de fatos que cercam o possível crime, Edmond vai sendo surpreendido com informações novas, que mudam o rumo das investigações e de sua própria vida - e é o mesmo que acontece com McAvoy, que vai descobrindo a trama através do que é lançado diante de seus olhos. Da tristeza à preocupação, da raiva à coragem, do desespero à desconfiança de todos a seu redor, o astro tira de letra todos os desafios impostos pelo diretor e vai chegando, junto com o público, a um desfecho que, esse sim, deixa no ar uma sensação de anti-clímax.

Depois de dois terços de uma ação aflitiva e de uma tensão crescente, que vai envolvendo o espectador de maneira gradual, "Meu filho" chega a seu último ato caindo na armadilha fácil do exército de um homem só e abandonando o tom de suspense psicológico que vinha adotando até então. A resolução do mistério - preguiçosa e clichê - só serve para justificar um embate entre Edmond e seus algozes, que, é preciso reconhecer, fotografado com elegância e inteligência pelas câmeras de Eric Dumont, que com uma textura quase palpável, enfatiza o tom sombrio e claustrofóbico da trama e valoriza a construção metódica de uma história desesperadora para qualquer pai. Mesmo não sendo um filme completamente memorável - exceção feita ao trabalho de McAvoy, brilhante do início ao fim -, "Meu filho" é o programa ideal para os fãs de suspense e ação. Não muda a vida de ninguém, mas tampouco é uma perda total de tempo.

segunda-feira

ATÔMICA

ATÔMICA (Atomic blonde, 2017, Universal Pictures/Focus Features, 115min) Direção: David Leitch. Roteiro: Kurt Johanstad, graphic novel de Antony Johnston, Sam Hart. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Tyler Bates. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Zsuzsa Mihalek, Mark Rosinski. Produção executiva: David Guillod, Kurt Johanstad, Nicky Meyer, Joe Nozemak, Steven V. Scavelli, Marc Shaberg, Ethan Smith. Produção: A.J. Dix, Eric Gitter, Beth Kono, Kelly McCormick, Peter Schwering, Charlize Theron. Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Sofia Boutella, Bill Skarsgaard, Til Schweiger. Estreia: 12/3/2017

Quando "Mad Max: estrada da fúria" (2015) surpreendeu todo mundo com uma arrecadação internacional de mais de 375 milhões de dólares e seis Oscar (além das indicações a melhor filme e diretor), os executivos chegaram à conclusão de que a) filmes de ação comandados por mulheres ainda era um nicho consideravelmente promissor e b) Charlize Theron, com sua beleza e carisma, parecia ser a atriz ideal para preencher essa lacuna no gênero, a despeito do fracasso de bilheteria de "Aeon Flux", estrelado por ela em um já distante 2005. Por coincidência, destino ou inconsciente coletivo na indústria, a bela Theron vinha tentando há cinco anos tirar do papel a adaptação da graphic novel "The coldest city", de Antony Johnston e Sam Hart, e viu no interesse dos estúdios a chance de finalmente o filme a sair dos planos e tornar-se realidade. Com um custo modesto de cerca de 30 milhões de dólares, por fim o filme saiu: como novo nome, "Atomic Blonde", um coastro em ascensão - James McAvoy - e um visual arrebatador - cortesia da fotografia de Jonathan Sela. Fugindo da estreia em pleno verão - quando os blockbusters são lançados em busca dos dólares de quem está de férias -, "Atômica" acabou se dando bem, arrecadando pouco mais de 100 milhões pelo mundo.

Dirigido por David Leitch - estreando como diretor depois da experiência de co-dirigir "John Wick: de volta ao jogo", de 2014 -, "Atômica" é um filme que deve muito à trilogia Jason Bourne, mas de certa forma consegue andar sozinho. Sua trama não é nada criativa - algo que há muito não se vê em filmes que tratam de espionagem - e seus personagens são rasos, sem qualquer traço de sutileza ou complexidade. No entanto, situar sua trama na iminência da queda do muro de Berlim permite ao diretor retratar a efervescência da Alemanha dos anos 1980 através dos cenários e de uma trilha sonora genial, que inclui New Order, Nena, Sioux And The Banshees, The Clash, David Bowie (que chegou a negociar uma participação no elenco pouco antes de sua morte) e George Michael - cuja "Father figure" enfeita uma das várias lutas corpo-a-corpo do filme. Já o enredo, rocambolesco e um tanto confuso em alguns momentos, acaba por se tornar, diante da beleza de Theron e das cenas de ação, quase desnecessário: é apenas um fio que conduz a narrativa, repleta de reviravoltas, traições e paranoias típicas da Guerra Fria.


Quando o filme começa, a espiã inglesa Lorraine Broughton (Charlize Theron, no auge da sensualidade) está sendo interrogada por Eric Gray (Toby Jones), um agente do MI6 britânico, e Emmett Kurzfeld (John Goodman), agente da CIA, a respeito de sua estadia em Berlim pouco antes da queda do muro. Lorraine foi ao país para pôr as mãos em uma lista que contém os nomes de todos os agentes secretos - tanto dos EUA quanto da Rússia. Por causa dessa lista, o agente inglês James Cascoigne (Sam Hargrave) foi morto - e Lorraine tem um motivo a mais para encontrar os responsáveis por sua morte, já que teve um romance (também secreto) com Cascoigne. Quem ajuda a bela espiã em sua trajetória de violência e traição é seu contato em Berlim, o pouco ortodoxo David Percival (James McAvoy) - e a misteriosa Delphine Lasalle (Sofia Boutella) também parece saber mais do que aparenta. Em uma narrativa que vai e vem no tempo, o espectador segue os preparados e misteriosos agentes pelas ruas de Berlim - uma cidade literalmente dividida.

Quando a sessão de "Atômica" termina, a sensação é de ter dado uma volta na montanha-russa. Explorando o talento de Charlize Theron em fazer suas próprias cenas de luta - depois de um treinamento com nada menos que oito preparadores físicos e com dois dentes quebrados como consequência -, David Leitch coreografa tais embates com o máximo de veracidade possível. Apesar de as cenas de ação dominarem o roteiro (ao invés de qualquer minimalismo como acontece em "O espião que sabia demais", por exemplo), não há, em nenhum momento, a sensação de dèja-vu: por mais que se saiba que a protagonista sempre vai vencer os duelos, não deixa de ser empolgante acompanhá-los com prazer. A química entre Theron e James McAvoy (apesar de não haver romance entre seus personagens) é convincente, e o elenco coadjuvante empresta prestígio à produção. Mesmo que soe como mais do mesmo, "Atômica" cumpre o que promete - não à toa, rendeu mais de 100 milhões de dólares pelo mundo e confirmou o status de grande estrela do gênero à bela Charlize Theron - uma das produtoras do filme. Diversão descompromissada e acima da média.

terça-feira

GAROTO NOTA 10

GAROTO NOTA 10 (Starter for 10, 2006, BBC Films/HBO Films, 92min) Direção: Tom Vaughan. Roteiro: David Nicholls, romance de sua autoria. Fotografia: Ashley Rowe. Montagem: Jon Harris, Heather Pearsons. Música: Blake Neely. Figurino: Charlotte Morris. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Michelle Chydzik Sowa, Nathalie Marciano, Sam Mendes, Jeff Abberley, Julia Blackman. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Pippa Harris. Elenco: James McAvoy, Rebecca Hall, Alice Eve, Benedict Cumberbatch, Dominic Cooper, Charles Dance, Lindsay Duncan, James Corden, Catherine Tate. Estreia: 13/9/06 (Festival de Toronto)

O enorme sucesso de vendas do romance "Um dia" - e sua consequente adaptação para o cinema, estrelada por Anne Hathaway e Jim Sturgess - fez com que o nome do britânico David Nicholls se tornasse popular a ponto de ser comparado a Nick Hornby, um dos mais festejados escritores dos anos 90. Assim como seu conterrâneo, Nicholls privilegia a prosa simples, irônica e recheada de referências pop em suas histórias, sempre protagonizadas por gente comum, que pode morar na casa ao lado do leitor - ou, no caso, do espectador. Se em sua obra mais famosa um casal de amigos atravessava anos de relacionamento antes de descobrir que eram feitos um para o outro, em seu livro "Resposta certa" o protagonista era um jovem nerd tentando encontrar o amor e o sucesso acadêmico. Transformado em filme, o livro foi batizado no Brasil de "Garoto nota 10" e adaptado longe de Hollywood - na Inglaterra. Estrelado por James McAvoy antes de tornar-se conhecido como o jovem Professor Xavier da série "X-Men" e com participação de Benedict Cumberbatch antes de sua consagração com a indicação ao Oscar por "O jogo da imitação" (2014), o filme de Tom Vaughan é uma comédia romântica despretensiosa, com ares das produções dirigidas por John Hughes na década de 80.

A comparação com as obras de Hughes - o Midas dos filmes adolescentes oitentistas - não é gratuita: "Garoto nota 10" se passa em 1985, o que remete diretamente às produções que fizeram a glória de  Molly Ringwald. O protagonista, Brian Jackson (interpretado com graça e bom timing por James McAvoy), também poderia facilmente ser uma criação de Hughes, uma vez que possui todas as características mais caras ao falecido diretor: é um nerd desajeitado, tímido e romântico, que só tem certeza absoluta de sua inteligência e do desejo que passa a sentir pela bela e experiente Alice (Alice Eve) - parte do time de estudantes de sua universidade que tem como objetivo participar de um badalado programa de TV sobre conhecimentos gerais. Chegado do interior e com uma alma ainda presa à sua rotina de estudante com pouca vida social, Jackson imediatamente se apaixona por Alice, bate de frente com o líder do grupo de nerds, Patrick Watts (Benedict Cumberbatch), se afasta cada vez mais da mãe viúva e dos amigos de infância, e não percebe que sua alma gêmea é a polêmica Rebecca Epstein (Rebecca Hall). Em outras palavras, a ciranda romântica já vista centenas de vezes mas que, quando narrada com frescor e simpatia, funciona às mil maravilhas. E é isso que acontece com o primeiro longa-metragem de Vaughn.


Embalado por uma deliciosa trilha sonora repleta de hits dos anos 80, "Garoto nota 10" conquista exatamente por não tentar ser mais do que é. Apresenta personagens com extrema simpatia e generosidade e conta suas trajetórias sem pressa, explorando sempre o mais agradável e divertido de cada um - mesmo quando as coisas saem do controle o carinho do autor por cada uma de suas criações fica evidente, especialmente quando se trata de Brian Jackson. Se no livro de Nicholls o protagonista já era adorável e compreensivelmente falho em suas desajeitadas tentativas de levar a vida de forma menos rígida, na interpretação do ótimo James McAvoy suas qualidades ficam ainda mais claras e destacadas: o ator que no mesmo ano duelou com Forest Whitaker em "O último rei da Escócia" mostra que já tinha talento o suficiente para entrar em Hollywood pela porta da frente - o que fez quando estrelou "Desejo e reparação" (que também consta com Benedict Cumberbatch no elenco) e começou sua escalada rumo às produções mais badaladas. A forma com que McAvoy retrata Brian Jackson é preciosa e delicada, levando a plateia a ficar do seu lado mesmo quando ele está decididamente errado - uma qualidade louvável em tempos onde os personagens principais andam fazendo questão de soarem arrogantes e/ou desagradáveis. O triângulo amoroso central também funciona muito bem (com a bela Alicia Eve e a sofisticada Rebecca Hall muito bem escaladas) e é uma pena apenas que o clímax não tenha a força que deveria - um pequeno escorregão que não apaga os inúmeros pontos positivos do resultado final.

O público disposto a encarar uma sessão descompromissada tem muito a ganhar com "Garoto nota 10". O roteiro escrito pelo próprio David Nicholls flui com naturalidade, o elenco é coeso, a trilha sonora é cativante e o humor é adequado às pretensões da trama e da época em que ela se passa. Talvez seu único defeito seja exatamente seu excesso de discrição, uma quase timidez que fez com que passasse quase em branco nos cinemas, a despeito de suas qualidades. Um filme que merece ser descoberto pelos fãs do gênero - e que comprova que Nicholls é, sem dúvida, o sucessor perfeito de Nick Hornby (a essa altura dedicado a escrever roteiros para cinema, função que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por "Brooklin", de 2015).

segunda-feira

FRAGMENTADO

FRAGMENTADO (Split, 2016, Universal Pictures, 117min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Michael Gioulakis. Montagem: Luke Ciarrocchi. Música: West Dylan Thordson. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Mara LePere-Schloop/Jennifer Engel,Dennis Madigan. Produção executiva: Kevin Frakes, Buddy Patrick, Ashwin Rajan, Steven Schneider. Produção: Marc Bienstock, Jason Blum, M. Night Shyamalan. Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula. Estreia: 26/9/16

Poucos cineastas conheceram o céu e o inferno da indústria hollywoodiana tão de perto quanto M. Night Shyamalan: em 1999, seu "O sexto sentido" tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria da história e lhe rendeu indicações ao Oscar de diretor e roteiro (além de ter concorrido também à estatueta de melhor filme). Tido como uma das maiores promessas para o cinema do século XXI, ele conseguiu o que muitos diretores querem mas demoram anos para conquistar (quando conquistam): controle artístico absoluto de suas obras. Foi assim que construiu uma carreira de personalidade e características próprias, cujos filmes nem sempre confirmavam as expectativas (do público, da crítica e dos estúdios), como "Corpo fechado" (2000), "Sinais" (2002) e "A vila" (2004) . Foi somente a partir de "A dama na água" (2006), porém, que seus detratores finalmente começaram a encontrar motivos para comemorar: fracasso comercial e crítico, o conto de fadas estrelado por Paul Giamatti deu início a uma série de fiascos que, por motivos diversos, transformaram o talentoso diretor em piada no meio cinematográfico. Trabalhando por encomenda em produções fraquíssimas - como "O último mestre do ar" (2010) e "Depois da Terra" (2013), Shyamalan tomou uma decisão acertadíssima: voltou às origens e, sem pretensões, lançou o subestimado "A visita" (2015), que, sem atores conhecidos no elenco e com um orçamento de apenas 5 milhões de dólares, rendeu quase 100 milhões pelo mundo. Com a autoconfiança reestabelecida, ele pode, então, voltar seus olhos a um projeto muito querido: surgia assim "Fragmentado", mais um trabalho feito com trocados (9 milhões de orçamento) e que, graças à propaganda boca-a-boca, não apenas chegou perto de 300 milhões de arrecadação mundial como devolveu ao cineasta o respeito perdido no meio do caminho.

Perto do imenso sucesso de "O sexto sentido", a bilheteria e o impacto de "Fragmentado" pode até parecer discreto, mas pela primeira vez em anos, Shyamalan voltou a ser assunto, comentado e elogiado pelos fãs de cinema, pela imprensa e até mesmo por executivos dos grandes estúdios. E o mais empolgante: fazendo justamente aquilo que sabe fazer de melhor, construindo climas, prendendo o interesse da plateia por seus personagens e manipulando com maestria todos os elementos de um filme de suspense - apenas para entregar, em seus segundos finais, uma surpresa aos antigos entusiastas, um fecho de ouro que amplia o alcance da história e a empurra a direções inimagináveis até então. Mais uma vez evitando o horror explícito e se dedicando a dar consistência à sua narrativa através do cuidado com o roteiro e o elenco escolhido, o cineasta faz um gol de placa ao misturar fatos comprovados cientificamente com uma alta dose de imaginação e tensão.


Novamente a história se passa na Filadélfia, cenário de seus filmes anteriores, e começa com o rapto de três adolescentes, sequestradas no estacionamento de um shopping-center. O raptor, como elas descobrem assim que acordam em um pequeno quarto sem janelas e com isolamento acústico, é o calado Dennis (James McAvoy), um homem quieto, reservado e que, aparentemente tem planos bem específicos para suas reféns. Conforme o tempo vai passando, porém, as meninas descobrem que há algo de muito errado em Dennis: sofrendo de um transtorno que lhe faz ter múltiplas personalidades, ele se apresenta a elas com variadas identidades, que vão desde Hedwig, um menino de nove anos, até Patricia, uma mulher que parece ter uma convivência tranquila com Dennis. Tentando encontrar uma maneira de escapar do cativeiro, a tímida Casey (Anya Taylor-Joy, do sucesso independente "A bruxa") lembra de sua infância, quando aprendia a caçar com seu pai - e faz amizade com Hedwig, acreditando que ele pode ajudá-la. Enquanto isso, outra personalidade do criminoso, Barry, frequenta sessões de terapia com a doutora Karen Fletcher (Betty Buckley), que percebe que algo de muito errado está acontecendo com seu paciente - que tem, na verdade, 23 personalidades dentro dele.

Se o roteiro de "Fragmentado" demonstra o poder de Shyamalan em envolver o público com histórias elaboradas e inteligentes, é preciso aplaudir de pé o trabalho de seu ator principal. Sem medo de cair na caricatura e oferecendo nuances sutis e assustadoras a todos os personagens criados pelo cineasta, o inglês James McAvoy faz um dos melhores trabalhos de sua carreira, já pontuada por grandes atuações, em filmes tão díspares quanto "O último rei da Escócia" (2006), "Desejo e reparação" (2007) e a série "X-Men", onde vive a versão jovem do Professor Xavier. Substituindo Joaquin Phoenix - que já havia trabalhado com o diretor em "Sinais" e "A vila" -, McAvoy engole tudo à sua volta, com uma interpretação impecável que torna críveis até mesmo os momentos mais bizarros da trama. Aposta certeira de Shyamalan, ele foge do óbvio e do exagero na criação de cada uma das personalidades do protagonista, sempre deixando o espectador perceber que existe uma unidade que as interliga. Um dos trabalhos de atuação mais empolgantes da temporada, o desempenho de McAvoy é, juntamente com a coragem do diretor em dar vários passos atrás na carreira para poder retomá-la, o maior e mais recompensador atrativo de "Fragmentado", um suspense de primeira linha - e que termina de forma a deixar qualquer um roendo as unhas de expectativa.

sábado

EM TRANSE

EM TRANSE (Trance, 2013, 20th Century Fox, 101min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, Joe Ahearne, estória de Joe Ahearne. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Jon Harris. Música: Rick Smith. Figurino: Suttirat Larlab. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Bernard Bellew, François Ivernel, Cameron McCracken, Steven Rales, Tessa Ross, Mark Royball. Produção: Christian Colson. Elenco: James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassell, Danny Sapani, Matt Cross. Estreia: 19/3/13

Quem esperava que Danny Boyle fosse escolher um projeto ambicioso logo após a chuva de Oscar de "Quem quer ser um milionário?" (2008) e dos elogios rasgados ao angustiante "127 horas" (2010) levou um susto quando o cineasta escocês lançou "Em transe". Barato - custou apenas 20 milhões de dólares, o que costuma ser o cachê de astros como Julia Roberts e Tom Cruise - e sem o apelo de um livro conhecido ou atores com apelo de arrastar multidões aos cinemas, "Em transe" passou quase em brancas nuvens pelos cinemas americanos e só conseguiu se pagar com a bilheteria do mercado internacional, que comprou com mais entusiasmo a complexa e intrigante trama de suspense urdida pelo diretor a partir de um roteiro de seu habitual colaborador John Hodge (indicado ao Oscar por "Trainspotting:sem limites") e Joe Ahearne. Um filme inteligente e que mergulha o espectador em um universo repleto de meias-verdades e pistas falsas, "Em transe" faz parte do seleto grupo de produções que se divertem em enganar a plateia ao conduzí-la por um caminho específico apenas para, em seu desfecho, revelar uma trama completamente diferente (e igualmente excitante).

Tudo começa como mais um "filme de roubo": em um leilão de obras de arte em um conceituado salão londrino, um grupo de homens armados e liderados pelo ameaçador Franck (Vincent Cassel herdando o papel de Michael Fassbender) tenta se apossar de um raro e famoso quadro de Goya, mas é impedido por um dos leiloeiros, o jovem Simon Newton (James McAvoy), que acaba atingido por uma forte pancada na cabeça que o deixa em coma. Percebendo que o rapaz escondeu a pintura em algum lugar desconhecido, o criminoso o espera deixar o hospital para obrigá-lo a revelar a localização da obra: o problema é que Simon não lembra de nada do que aconteceu no dia do assalto e, para salvar sua pele, concorda em tentar lembrar dos detalhes do caso através de hipnose. É assim que ele chega até Elizabeth Lamb (Rosario Dawson), especialista em ajudar pacientes a superar traumas e recuperar memórias perdidas. Quando médica e paciente se envolvem romanticamente, porém, as coisas saem do controle, e nada mais parece correr conforme o esperado.


Emoldurada pela fotografia instigante de Anthony Dod Mantle, que ajuda a confundir o público com suas elegantes distorções, a trama rocambolesca de "Em transe" viaja através de flashbacks que tanto podem ser verdadeiros quanto falsos, por lembranças escondidas ou plantadas, por relacionamentos sinceros ou interesseiros. A ambiguidade do roteiro - que ousa também por criar um herói falível, de caráter duvidoso e atitudes pouco exemplares - se estende também à criatividade da direção de Boyle, que simplesmente impede o espectador de antecipar as reviravoltas da história ou descobrir, antes dos minutos finais, quem realmente está do lado de quem. Para isso também contribui, e muito, a excelência de seu elenco: Vincent Cassel é insuperável na pele de tipos marginais e perigosos, e Rosario Dawson segura bem a oportunidade de ficar com um papel para o qual foram cotadas Scarlett Johansson, Eva Green e Zoe Saldana, uma mistura de inteligência e sensualidade que serve magistralmente à personagem. Mas é James McAvoy, com seu misto de pureza e coragem, o grande achado do filme.

Um dos atores mais talentosos de sua geração, McAvoy está perfeito como Simon Newton, um personagem que, apesar de servir como os olhos da plateia em uma narrativa recheada de surpresas e reviravoltas, também se permite cair em armadilhas e manipular as regras do jogo, quando necessário. Essa ambiguidade moral - que pode mostrar-se um defeito ou uma qualidade, conforme a trama vai se desenrolando - só é completamente verossímil e aceitável porque o ator transmite, em cada cena, uma variedade de sentimentos e emoções de que somente os grandes intérpretes são capazes. Revelado em dramas densos e potentes, como "O último rei da Escócia" (2006) e "Desejo e reparação" (2007) e posteriormente se provando capaz de sair-se muito bem em produções com intenções bem mais comerciais, a exemplo de "O procurado" (2008) e "X-Men: Primeira Classe" (2011), McAvoy é o protagonista ideal para um filme que equilibra com tanta propriedade a seriedade de um suspense e toques de puro escapismo de uma produção de ação como "Em transe". É ele, com seus angustiados olhos azuis, a alma de uma pequena pérola que merece ser descoberta pelos fãs do gênero - e que confirma Danny Boyle como um diretor nem um pouco disposto a deitar sobre as próprias láureas.

quarta-feira

X-MEN: PRIMEIRA CLASSE

X-MEN: PRIMEIRA CLASSE (X-Men: First Class, 2011, 20th Century Fox/Marvel Entertainment, 132min) Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Matthew Vaughn, estória de Sheldon Turner, Bryan Singer. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Eddie Hamilton, Lee Smith. Música: Henry Jackman. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Chris Seagers/Erin Boyd, Sonja Klaus. Produção executiva: Stan Lee, Josh McLaglen, Tarquin Pack. Produção: Gregory Goodman, Simon Kinberg, Lauren Shuller Donner, Bryan Singer. Elenco: Michael Fassbender, James McAvoy, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, Rose Byrne, Nicholas Hoult, January Jones, Oliver Platt, Zoe Kravitz, Jason Flemyng, Lucas Till, James Remar, Matt Craven, Ray Wise. Estreia: 25/5/11

Não é preciso ser fã de HQ para se divertir assistindo a "X-Men: Primeira Classe", que traz de volta aos cinemas a trupe de mutantes da Marvel que devolveu qualidade e bilheteria às adaptações  de comic books à sétima arte. Desde que Bryan Singer lançou o primeiro "X-Men", em 2000, personagens como Homem-aranha, Homem-de-ferro e afins lotaram salas de cinema e redimiram muitas transposições que anteriormente se equivocaram e quase sepultaram o que se tornaria um dos mais importantes gêneros cinematográficos do século XXI. Quando se trata de X-Men, porém, nem é necessário gostar do estilo para curtir as duas horas do filme de Matthew Vaughn. Basta pegar refrigerante e pipoca e se deixar ser levado por uma trama que, a despeito de versar sobre heróis mutantes, fala também, sutilmente (ou nem tanto, às vezes), sobre a tolerância às diferenças.

Para quem não sabe, esse primeiro filme do que promete ser uma nova série não é uma continuação da primeira trilogia - cujo segundo capítulo é tudo aquilo que se pode esperar de um filme de ação e um pouco mais: seguindo uma tendência cada vez maior, o que se mostra aqui é a gênese de toda a história contada antes, ou seja, não se pode esperar Ciclope, ou Jean Gray, ou Tempestade, ou Wolverine (ops, será que não??). A trama dessa nova investida da Marvel nas telas apresenta o início da relação de amizade/admiração/rivalidade entre duas das personagens mais interessantes do universo dos quadrinhos: Charles Xavier e Erik Lehnsherr, também conhecido como Magneto.

Vividos pelo inglês James McAvoy e pelo alemão Michael Fassbender, Xavier e Erik são a base de um roteiro que é valorizado pela seriedade (ainda que nunca deixe de lado o senso de humor). A inteligência da audiência jamais é desrespeitada, principalmente pela coragem dos produtores em situar toda a trama na famigerada crise dos mísseis de Cuba, momento crucial do governo Kennedy e que quase jogou o mundo em uma terceira guerra. É nesse momento, essencial para a história mundial, que a raça dos mutantes tem sua primeira cisão: de um lado, aqueles que acreditam em uma política de tolerância, liderados por Xavier. De outro, o grupo que vislumbra na guerra absoluta a solução para os problemas de discriminação e preconceito. Tem como não gostar de um filme que trata de assuntos tão sérios de forma tão comercial e popular?


"X-Men: Primeira Classe" começa em um campo de concentração polonês em 1944 (assim como o primeiro filme), quando Erik começa a perceber seus poderes de manipular metais. No mesmo ano, o jovem Charles Xavier também tem ciência de seus grandes poderes e assume a jovem Raven (também uma mutante) como sua irmã de criação. Em 1962, os caminhos dos dois jovens irão se cruzar na busca de Erik pela vingança contra Sebastian Shaw (Kevin Bacon), que matou sua mãe e na tentativa da CIA (na figura de Moira MacTaggert, vivida pela australiana Rose Byrne) em impedir a III Guerra Mundial, que está prestes a acontecer devido ao embargo americano ao país de Fidel Castro. Juntos, Xavier e Erik iniciam o recrutamento de jovens mutantes.

Resumir um filme de "X-Men" não é tarefa das mais fáceis, uma vez que sempre acontece tanta coisa - e de forma tão orgânica e natural - que é mais fácil realmente apertar o botão de relaxar e curtir cada cena, cada momento, cada diálogo. Sim, em toda a série - talvez com a possível exceção do fraco "Wolverine: Origens" - há o cuidado com a relação entre as personagens e a maneira com que os acontecimentos se conectam. E aqui, o público é brindado com duas aparições-relâmpago muito divertidas e com algumas cenas que explicam muito do que está por vir (ou já veio, depende de como se vê as coisas). E é por isso que a escolha do elenco, mais uma vez, mostrou-se extremamente acertada. James McAvoy é um dos melhores jovens atores do momento, e Jennifer Lawrence (já então indicada ao Oscar por "Inverno da alma" e no caminho para vencer a estatueta por "O lado bom da vida") se sai muito bem como a adolescente Mística. Nicholas Hoult (o ator de "Um grande garoto", irreconhecível) e Kevin Bacon também não deixam a peteca cair (Bacon, aliás, parece se divertir muito no papel de vilão). Mas é inegável que o maior destaque é Michael Fassbender. Na ausência de Wolverine, é ele quem tem as melhores cenas, é por ele que o público torce mais fervorosamente e é ele que é o responsável por empolgar a audiência (até mesmo na esperada sequência que explica o motivo de Xavier estar preso em uma cadeira de rodas nas continuações). E honra o papel, vivido majestosamente por Ian McKellen nas primeiras partes.

Em suma, "X-Men: Primeira Classe" não decepciona os fãs dos primeiros filmes - ao menos àqueles que nunca leram uma linha sequer dos quadrinhos - e nem de longe é tão decepcionante quanto "Wolverine: Origens". É um exemplo a ser seguido por quem preza unir qualidade e sucesso financeiro. Vida longa aos mutantes!

sexta-feira

O PROCURADO

O PROCURADO (Wanted, 2008, Universal Pictures, 110min) Direção: Timur Bekmambetov. Roteiro: Michael Brandt, Derek Haas, Chris Morgan, estória de Michael Brandt, Derek Haas, comic book de Mark Millar, J.G. Jones. Fotografia: Mitchell Amundsen. Montagem: David Brenner. Música: Danny Elfman. Figurino: Varvara Avdyushko. Direção de arte/cenários: John Myrhe/Richard Roberts. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Adam Siegel, Marc Silvestri. Produção: Jim Lemley, Jason Netter, Marc Platt, Iain Smith. Elenco: James McAvoy, Angelina Jolie, Morgan Freeman, Terence Stamp, Thomas Kretschman. Estreia: 19/6/08 (Festival de Los Angeles)

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Mixagem de Som

Nada como um filme de ação com um protagonista atípico, capaz de despertar a identificação do público! Estrelada pelo inglês James McAvoy - nem de longe uma escolha óbvia para liderar o elenco de um blockbuster de orçamento generoso de 75 milhões de dólares - a adaptação do comic book de Mark Millar e J.G. Jones chamado "O procurado" tem em seu ator principal uma de suas maiores qualidades. Carismático e talentoso, o jovem astro de filmes sérios como "O último rei da Escócia" e "Desejo e reparação" mostra que nem só de dramas densos sobrevive uma carreira em Hollywood, e, com a preciosa companhia de Morgan Freeman e Angelina Jolie, transforma o que seria apenas mais um filme de ação corriqueiro da máquina americana em um programa empolgante.


Dirigido pelo russo Timbur Bekmambetov - autor de "Guardiões da noite" (04) e "Guardiões do dia" (06), dois dos maiores sucessos de seu país no século XXI - "O procurado" também tem a seu favor o extremo cuidado com o visual, um senso de humor nunca invasivo e cenas capazes de deixar o espectador sem fòlego como nos melhores momentos de James Cameron pré-"Titanic". Exagero? Nem tanto: basta assistir-se à primeira sequência com Angelina Jolie e McAvoy fugindo da perseguição de Thomas Kretschman pelas ruas de uma cidade com trânsito intenso para ser fisgado. Mesmo que as cenas sejam um tanto improváveis é impossível não ficar de queixo caído. E é apenas o primeiro de uma série de momentos admiráveis captados pela criativa câmera de Mitchell Amundsen - cujo currículo inclui o megasucesso "Transformers".

Quando o filme começa, o jovem Wesley Gibson (McAvoy) trabalha na contabilidade de uma empresa qualquer, sendo humilhado pela chefe obesa e traído pela namorada com o melhor amigo. Levando uma vida tediosa e sentindo-se a última criatura na face da Terra, ele se surpreende quando é procurado por um misterioso grupo chamado A Fraternidade, formado por assassinos profissionais e do qual seu pai fazia parte. Incrédulo a princípio, ele aceita entrar no time quando descobre que o homem que matou seu pai tem como missão assassiná-lo. Treinado pela misteriosa Fox (Angelina Jolie) e chefiado pelo veterano Sloan (Morgan Freeman), Wesley acaba tornando-se uma peça fundamental no grupo, aprendendo técnicas de sobrevivência que lhe ajudarão a encarar seu maior inimigo.

Fazendo modificações bastante consideráveis no material que lhe deu origem, a versão para as telas de "O procurado" não foge de alguns clichês do gênero - revelações surpreendentes, tiroteios a granel, treinamentos cruéis, uma mulher fatal - mas os utiliza de forma inteligente e com um ritmo invejável. A transformação de seu protagonista de rapaz frágil e tímido em um assassino talentoso e inteligente é verossímil, graças a um roteiro esperto e à direção firme de Bekmambetov, que trata cada cena com extremo carinho e atenção. Visualmente impactante, seu filme é repleto de ângulos distorcidos, cores estouradas, efeitos visuais e de som impecáveis e um elenco acima de qualquer crítica. Se McAvoy sai-se muito bem de seu primeiro desafio em uma superprodução comercial, a participação luxuosa de Angelina Jolie - deslumbrante como a matadora Fox -, Morgan Freeman e Terence Stamp colabora para deixar tudo ainda mais interessante.

Grande sucesso de bilheteria - de certa forma até mesmo surpreendente - "O procurado" é um dos melhores filmes de ação de seu tempo, equilibrando adrenalina, humor e apuro visual na medida certa. E em um tempo onde qualquer filme do gênero busca sua inspiração em franquias já testadas e aprovadas, não deixa de ser, também, refrescante.

quinta-feira

DESEJO E REPARAÇÃO


DESEJO E REPARAÇÃO (Atonement, 2007, Universal Pictures, 123min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Christopher Hampton, romance "Reparação", de Ian McEwan. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Eyre, Robert Fox, Debra Hayward, Ian McEwan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai, Brenda Blethyn, Juno Temple, Benedict Cumberbatch, Vanessa Redgrave. Estreia: 29/8/07 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

A distribuidora nacional bem que tentou forçar a semelhança com o filme mais famoso de Joe Wright, mas, com exceção de seu nome e da presença da atriz Keira Knightley em ambas as obras, muito poucas semelhanças existem entre "Orgulho e preconceito" e "Desejo e reparação", adaptação de Christopher Hampton da obra-prima do inglês Ian McEwan. Dono de uma prosa mais contundente e uma visão mais pessimista do mundo, McEwan criou uma poderosa história de amor e perda, que trata sem subterfúgios o poder destruidor da imaginação. Recriada com precisão pelo roteiro de Hampton e pela direção caprichada de Wright, a história do romance interrompido entre o humilde Robbie Turner e sua amada Cecilia Tallis ganha, em celulóide, uma visão perturbadora e poética, valorizada por um visual arrebatador e um elenco impressionante.

O nome mais conhecido no cartaz de "Desejo e reparação" é o da atriz Keira Knightley - que já havia trabalhado com o diretor na versão 2005 de "Orgulho e preconceito", mas é o quase desconhecido James McAvoy quem rouba a cena. Tendo sido notado pelo público e pela crítica como o médico de Idi Amin em "O último rei da Escócia" e como o fauno de "As crônicas de Nárnia", o jovem ator (indicado ao Golden Globe por sua atuação, mas injustamente esquecido pelo Oscar) brilha na pele de Robbie Turner, o filho de uma das empregadas da tradicional família Tallis que, em uma casa de campo na Inglaterra de 1935, vê sua vida transformada radicalmente devido a um incidente de consequências funestas. Apaixonado pela bela Cecilia (Knightley), filha dos patrões, ele sonha em cursar Medicina para ter condições de casar-se com ela. Dedicado e honesto, ele é também o objeto da paixão de Briony (Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que, aos 13 anos de idade, tem o objetivo de tornar-se escritora. É ela quem, com sua mente criativa, irá deflagrar a crise que irá levar o rapaz a uma espiral de acontecimentos trágicos que irá lhe afastar de um futuro promissor. Sentindo-se culpada, alguns anos mais tarde (e interpretada por Romola Garai), ela tentará reparar seu erro.


Mesmo que os fãs do livro voltem a apaixonar-se pela trama de McEwan, é inegável que quanto menos se souber a respeito dos desdobramentos da história, melhor. Apesar de ter um ritmo quase contemplativo em sua primeira metade - que a edição brilhante de Paul Thothill jamais permite tornar-se aborrecido - o filme de Wright leva o espectador, em sua segunda parte, a uma viagem fascinante a um universo de culpa, desejo reprimido e rancor, banhados em lágrimas e sangue. A história de amor entre Robbie e Cecilia - interrompida pelos horrores da Segunda Guerra - é ilustrada com cenas extraordinariamente orquestradas pelo cineasta, incluindo-se aí um longo plano-sequência de tirar o fôlego e um final devastador, valorizado por uma participação especialíssima de Vanessa Redgrave que mostra porque ela é uma das maiores atrizes em atividade. Vivendo Briony Tallis em sua maturidade, Redgrave dá uma aula de classe, elegância e sensibilidade que poderia tranquilamente também ter sido lembrada pela Academia.

Em mais uma prova de suas incoerências, a Academia indicou "Desejo e reparação" a oito estatuetas, incluindo melhor filme e roteiro adaptado, mas deixou de lado tanto McAvoy quanto o diretor Joe Wright. Premiando apenas sua sensacional trilha sonora, os membros eleitores deixaram de prestigiar com mais estatuetas um dos melhores filmes de sua temporada. Espetacularmente fotografado e dono de uma reconstituição de época brilhante (em especial seu figurino), o filme de Wright consegue ser tecnicamente perfeito e emocionalmente potente. É difícil manter-se incólume à sua força e à sua melancolia, traduzidas em imagens inesquecíveis que captam com maestria a essência e o clima do livro de Ian McEwan. Uma obra-prima imperdível!

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA


O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The last king of Scotland, 2006, Fox Searchlight, 121min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Peter Morgan, Jeremy Brock, livro de Giles Foden. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Tina Jones. Produção executiva: Andrew Macdonald, Allon Reich, Tessa Ross. Produção: Lisa Bryer, Andrea Calderwood, Charles Steel. Elenco: Forest Whitaker, James McAvoy, Gillian Anderson, Kerry Washington, Simon McBurney. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Forest Whitaker)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Forest Whitaker)

Entre a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1988 pelo sensacional desempenho como o músico Charlie Parker em "Bird" e a consagração com o Oscar por sua interpretação de Idi Amin Dada, ditador de Uganda, o ator Forest Whitaker esperou quase vinte anos. Nesse meio-tempo ele mostrou seu rosto e seu talento em projetos tão díspares quanto os elogiados "Traídos pelo desejo" e "Cortina de fumaça" e os puramente comerciais como "A experiência", "Fenômeno" e "O quarto do pânico", além de aventurar-se também na cadeira de diretor, assinando obras corretas como "Falando de amor" - estrelado por Whitney Houston e Angela Bassett - e "Quando o amor acontece", com Sandra Bullock pré-Oscar. Apesar de sempre apresentar trabalhos dignos e competentes, porém, não deixou de ser uma surpresa das melhores vê-lo em ação em "O último rei da Escócia", dirigido por Kevin MacDonald: na pele de Idi Amin, o ator texano proporciona ao público uma estarrecedora atuação, que merecidamente avocanhou todos os prêmios da temporada, sem dar chance à concorrência.

Se formos levar em consideração as regras dos manuais de roteiro e assemelhados, Whitaker nem é o verdadeiro protagonista do filme de MacDonald: assim como aconteceu com Anthony Hopkins em "O silêncio dos inocentes", sua personagem é a alma da produção, o que a empurra pra frente, mas o ponto de vista da narrativa não é seu, e sim do jovem médico inglês Nicholas Garrigan (o ótimo James McAvoy), que, recém formado e em busca de experiência profissional - e de fugir do jugo de seu pai dominador - parte para Uganda, onde começa a trabalhar com um casal de médicos (Adam Kotz e a eterna Scully, Gillian Anderson). Pouco depois de sua chegada, um imprevisto o coloca frente a frente com o presidente do país, o temido Idi Amin (um assustador Whitaker, oscilando entre a doçura e o terror). Impressionado com o rapaz, o ditador o convence a aceitar o cargo de médico particular - e logo Nicholas estará sendo testemunha ocular dos bastidores do poder, em que atrocidades monstruosas convivem em aparente tranquilidade com uma imagem paradoxal do presidente. Garrigan, atônito, descobre que Amin é o responsável por um legítimo genocídio, mas se vê aprisionado por sua lealdade. Essa lealdade, por outro lado, é posta à prova quando ele se encanta por Kay (Kerry Washington), terceira mulher do mandatário supremo do local. Arriscando a própria vida, ele inicia um intenso romance com ela.



Baseado no livro de Giles Folden - que se utiliza de fatos reais mas é uma obra de ficção - o roteiro de Peter Morgan e Jeremy Brock acerta em optar pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan ao invés de centrar sua trama no polêmico ditador: os olhos de Garrigan são também os olhos da audiência, que vai tomando conhecimento aos poucos de todo o horror que se esconde atrás dos discursos ufanistas do governante, até chegar em suas sequências finais, de uma violência física e psicológica ímpares no cinemão. Kevin MacDonald, estreando em longas-metragens com o pé direito, não tem medo de explicitar a sangrenta forma com que Amin lidava com seus desafetos e isso mantém o suspense sempre em altos níveis, sem nunca deixar de lembrar que está contando uma história política e não se inscrevendo na lista de filmes de terror. O sangue que escorre na tela é real, é humano, é infelizmente derramado sem motivos, o que aumenta a sensação de perigo e indignação. E, sem dúvida, é Forest Whitaker quem comanda tudo com maestria.

Mantendo-se na personagem mesmo quando estava fora de cena, Whitaker construiu um Idi Amin antológico, sem exageros mas extremamente fiel à realidade. Quem lembra do ator na pele de inúmeras outras personagens dóceis e pacatas leva um susto ao vê-lo destilando ódio, fúria e violência, em uma interpretação simplesmente impecável. Mesmo ao lado de atores excelentes como James McAvoy, ele chama todas as cenas para si, com um magnetismo que se equipara ao do próprio Amin, considerado um político carismático e popular até que começou a mostrar sua verdadeira face. Se seu mandato foi trágico e triste, ao menos rendeu um ótimo filme, que não apenas narra episódios grotescos, mas convida o público a compartilhar deles, graças à ótima trilha sonora e à fotografia em cores quentes que dão a nítida sensação de estar em Uganda. Vale a pena conferir.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...