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sexta-feira

TODO PODEROSO

 


TODO PODEROSO (Bruce Almighty, 2003, Universal Pictures, 103min) Direção: Tom Shadyac. Roteiro: Steve Koren, Mark O'Keefe, Steve Oedekerk, estória de Steve Koren, Mark O'Keefe. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Scott Hill. Música: John Debney. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Linda DeScenna/Rick McElvin. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Steve Oedekerk. Produção: Michael Bostik, James D. Brubaker, Jim Carrey, Steve Koren, Michael O'Keefe, Tom Shadyac. Elenco: Jim Carrey, Morgan Freeman, Jennifer Aniston, Philip Baker Hall, Steve Carell, Sally Kirkland. Estreia: 14/5/2003

Depois de provar-se como um ator capaz de alçar maiores voos dramáticos - em filmes como "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Cine Majestic" (2001) - o canadense Jim Carrey achou que já era hora de voltar à sua zona de conforto e abraçar o gênero que lhe deu fama, dinheiro e o amor de milhares de fãs. Ao reunir-se com o cineasta Tom Shadyac - que lhe deu seu primeiro grande sucesso de bilheteria, "Ace Ventura: um detetive diferente" (1994) e lhe confirmou o status de astro com "O mentiroso" (1997) - e assumir novamente seu talento em fazer rir com caras e bocas, Carrey tornou "Todo poderoso" a comédia de maior sucesso de sua carreira e, mais impressionante ainda, da história (batendo o recorde de "Esqueceram de mim", lançado em 1990). Contando com a luxuosa ajuda de Morgan Freeman e Jennifer Aniston - no auge do sucesso de "Friends" -, Carrey nem precisa se esforçar muito para arrancar gargalhadas das plateias, mesmo que nem sempre o roteiro atinja todas as suas possibilidades. Baseado livremente no romance "Almighty me", de Robert Bausch - que não é citado em nenhum momento como fonte oficial -, o filme de Shadyac brinca com a ideia universal de um ser humano adquirir poderes divinos, e aposta todas as suas fichas em seu astro. E ganha.

Criado como veículo para Kevin Hart, que abandonou o projeto por considerar o tema sacrílego, "Todo poderoso" apresenta Carrey como Bruce Nolan, um repórter televisivo infeliz com o rumo de sua carreira. Constantemente subestimado por seus superiores - que lhe escalam sempre para cobrir amenidades irrelevantes -, Nolan atinge o ápice de seu desgosto com a vida quando vê seu maior rival profissional, Evan Baxter (Steve Carrell), ficar com seu almejado posto de âncora do telejornal local. Frustrado e irado com a situação, ele acaba chamando a atenção de Deus, que ouve seus lamentos e lhe aparece (na figura de Morgan Freeman) para informar que, durante um período em que estará de férias, é o próprio Nolan quem irá ficar em seu lugar, tomando todas as decisões inerentes à função. Dotado de super poderes e com o dom de realizar milagres, conceder graças e - em pequenos atos de mesquinhez - prejudicar seu arquirrival no caminho do sucesso. Enquanto se diverte com a situação, porém, o aspirante a celebridade percebe que o Homem-aranha já sabe ("grandes poderes trazem grandes responsabilidades") e passa a negligenciar seu romance com a apaixonada Grace (Jennifer Aniston).

 


Se o roteiro escrito por Steve Koren, Mark O'Keefe e Steve Oedekerk não consegue escapar das armadilhas de uma trama quase moralista (com uma mensagem que não exatamente combina com o tom iconoclasta do humor praticado por seu ator central), Jim Carrey deita e rola em um papel que remete aos melhores momentos da comédia física que lhe consagrou. Quando o roteiro insiste em falar sério ou até mesmo apelar para o romantismo, o filme de Shadyac mostra que ambiciona mais do que simplesmente fazer rir descompromissadamente - como em seus outros trabalhos com o astro -, mas acaba por criar, involuntariamente, uma quebra de ritmo que compromete o resultado final. Os fãs de Carrey, logicamente, tem muito a aproveitar - o ator está em plena forma - e encontrarão diversos momentos hilariantes. De brinde, ainda há a participação de Steve Carell (ainda creditado como Steven) em uma sequência das mais engraçadas - não por acaso o próprio Carell assumiu a protagonização da continuação, lançada, sem o mesmo êxito, em 2007.

Banido no Egito devido a seu conteúdo considerado ofensivo, "Todo poderoso" é mais um sucesso incontestável na bem-sucedida carreira de Jim Carrey - que levou uma bolada de 25 milhões de dólares de cachê. Leve, despretensioso (ainda que levemente mais profundo do que boa parte de suas comédias) e solar, contrasta radicalmente de seu currículo até então - um currículo que seria enriquecido ainda mais no ano seguinte com o belo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", que ofereceria às plateias um novo lado do ator: o romântico. Antes de sua estreia, porém, o público pode divertir-se às pencas com uma trama que apostava em seu humor debochado e frequentemente exagerado - características que sempre fizeram dele uma aposta certeira quando se tratava de arrancar gargalhadas quase histéricas do espectador.

quinta-feira

O PENTELHO


O PENTELHO (The cable guy, 1996, Columbia Pictures, 96min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Lou Holt Jr.. Fotografia: Robert Brinkmann. Montagem: Steven Waisberg. Música: John Ottman. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Bernie Brillstein, Brad Grey, Marc Gurvitz. Produção: Judd Apatow, Andrew Licht, Jeffrey A. Mueller. Elenco: Jim Carrey, Matthew Broderick, Leslie Mann, Jack Black, Ben Stiller, Owen Wilson, George Segal, Diane Baker, Bob Odenkirk, Janeane Garofalo. Estreia: 10/6/96

Quando "O pentelho" estreou, no verão norte-americano de 1996, a carreira e o potencial comercial de Jim Carrey estavam em jogo. Não apenas o ator canadense teria que provar ser mais do que apenas um humorista cujo humor físico agradava ao público mas constrangia a crítica, mas também precisaria provar à indústria de que seu astronômico salário de 20 milhões de dólares (um recorde absoluto na época) não era um exagero irresponsável da Columbia Pictures. O resultado nas bilheterias, se não foi o sucesso esperado por aqueles que testemunharam a ascensão meteórica do astro - a soma da renda de seus dois "Ace Ventura" e de "O máskara" ultrapassava 500 milhões de dólares, sem contar os números de "Batman eternamente" (1995), uma máquina de fazer dinheiro que nem mesmo o massacre da crítica pode atrapalhar -, ao menos não decepcionou completamente. Apesar de constar na história como um fracasso, o filme dirigido por Ben Stiller não fez tão feio quanto fizeram crer os analistas: com mais de 100 milhões arrecadados ao redor do mundo, "O pentelho" pode não ter sido o arrasa-quarteirão que era previsto, mas ficou longe de ser um fiasco. Mais importante ainda: ao contrário de muitas críticas negativas, é uma produção com muito mais qualidades do que defeitos.

Lançado como o filme que mostraria um lado novo de Carrey - que já demonstrava interesse em fugir dos papéis de palhaço que lhe deram fama e dinheiro -, "O pentelho" seria, a princípio, um veículo para o estrelato de Chris Farley. Com a saída de Farley do projeto, por compromissos com a Paramount, o roteiro de Lou Holt Jr., comprado pela Columbia Pictures por um milhão de dólares, ficou à deriva, à procura de um novo astro. Nomes como os de Robin Williams, Adam Sandler e Paul Giamatti chegaram a ser considerados, até que, alterando substancialmente as ambições da produção, Carrey entrou na jogada. Sequioso por dar um novo rumo à carreira e emprestar credibilidade a uma trajetória que corria o sério risco de um desgaste iminente, o ator agarrou com unhas e dentes a possibilidade de deixar de lado seus personagens bobalhões e assumir uma persona mais sombria. Sua chegada ao grupo alterou também outros fatores: o roteiro de Holt Jr. passou a ser reescrito por Judd Apatow (que acabou não creditado, por regras do sindicato) e o que seria apenas uma comédia sobre a amizade bizarra entre dois homens virou um filme que flerta abertamente com o suspense - ainda que não tenha a coragem de ir até as últimas consequências principalmente por suas ambições comerciais junto ao público fiel de seu ator central.


 

Na verdade, apesar de viver um protagonista mais complexo do que em seus filmes anteriores, Carrey não chega a abandonar de vez seus trejeitos histriônicos em "O pentelho", mesmo que os equilibre com momentos mais discretos. A trama tem início com a separação do jovem executivo Steven Kovacs (Matthew Broderick), que, voltando a morar sozinho, contrata um serviço de televisão a cabo para ocupar suas noites solitárias. Quem aparece para a instalação é Chip (Jim Carrey), um rapaz um tanto estranho que, confundindo a atenção do novo cliente por um desejo de amizade, passa a perseguí-lo sem folga. A princípio aceitando a atenção de Chip, o tímido Steven logo passa a sentir-se incomodado com a obsessão do novo amigo. Quando resolve impor limites à relação, acaba por despertar um lado perigoso do instalador, que começa a utilizar-se de todas as suas forças para destruir sua vida, incluindo as chances de uma reconciliação com a ex-namorada, Robin (Leslie Mann).

Sob a direção acertadamente claustrofóbica de Ben Stiller - que dá as caras no filme em uma subtrama veiculada na televisão, sobre um homicídio entre irmãos gêmeos -, Jim Carrey dá, em "O pentelho", os primeiros passos em direção a uma carreira de ator sério, que culminaria em performances precisas em "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004). Extremamente à vontade em cena, o astro mescla momentos de seu humor físico inconfundível com sequências onde exercita um lado dramático (ainda) um tanto exagerado. Seu colega de cena, Matthew Broderick (que recebeu um salário de apenas um milhão de dólares), está constrangido na medida certa, oferecendo uma contraparte adequada aos quase excessos de Carrey, mas é inegável que, ao alterar o roteiro original, a produção não consegue esconder certa irregularidade em sua segunda metade. Com um ritmo instável e algumas sequências arrastadas, "O pentelho" é nitidamente um degrau acima das bobagens até então estreladas por Carrey, mas sofre com sua indecisão entre uma comédia rasgada e um suspense com toques cômicos. Pode não ter sido o fracasso que foi alardeado por Hollywood - onde muita gente torcia pela queda do ator, não exatamente fácil de lidar -, mas tampouco é a obra marcante que poderia ter sido. Pode-se dizer, sem medo, que foi o primeiro capítulo de uma fase menos comercial e mais artística de sua trajetória - ainda que, em 1999, ele tenha voltado um pouco às origens com o sucesso de "O mentiroso", menos ousado mas bem mais regular.

terça-feira

EU, EU MESMO E IRENE


EU, EU MESMO E IRENE (Me, myself & Irene, 2000, 20thCentury Fox, 116min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Mike Cerrone. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Lee Scott, Pete Yorn. Figurino: Pamela Withers.Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção executiva: Tom Schulman, Charles B. Wessler. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas. Elenco: Jim Carrey, Renée Zellweger, Chris Cooper, Robert Forster, Richard Jenkins. Estreia: 15/6/2000

Sutileza nunca foi o forte de Bobby e Peter Farrely. Desde que apareceram no radar de Hollywood com "Débi & Lóide: dois idiotas em apuros" (1994), os irmãos não pararam de apelar para a vulgaridade como forma de fazer as plateias gargalharem sem que fosse preciso acionar o cérebro. Atingiram o auge do sucesso com "Quem vai ficar com Mary?" (1998), em que aproveitaram a popularidade e o carisma de Cameron Diaz para um desfile de piadas infames com o verniz de credibilidade oferecido por um grande estúdio (a 20th Century Fox) e se tornaram nomes quentes na indústria. Porém, até mesmo aqueles que fingiam não ver o excesso de grosserias visuais e verbais de seus primeiros filmes não deixaram de ficar chocados com a absoluta falta de noção apresentada em "Eu, eu mesmo e Irene". Estrelado pelo mesmo Jim Carrey de "Débi & Lóide" e valorizado pela presença da sempre ótima Renée Zellweger, o terceiro longa dos Farrelly não poupa o espectador de piadas constrangedoras que atingem todo e qualquer tipo de minoria - racial, étnica ou médica -, mas esbarra perigosamente em sua falta de limites. Mesmo com uma bilheteria polpuda de quase 150 milhões de dólares, a comédia quase romântica dos Farrelly encontrou severa resistência em sua estreia, e foi criticado justamente por aquilo que parecia ser o ponto forte dos cineastas: o humor politicamente incorreto.

Quem primeiro chiou a respeito do filme foram as associações de familiares de portadores de esquizofrenia, que não gostaram nem um pouco de ver a doença tratada como piada - principalmente da forma avassaladoramente histriônica apresentada por Jim Carrey no auge de seu sucesso no gênero. Depois disso, vieram reclamações sobre como o filme debochava de anões, negros e albinos - se quisesse, qualquer um poderia encontrar motivos justos para queixas. A grande questão, porém,  descontado o absoluto desprezo da dupla de realizadores por um mísero traço de sofisticação, é o fato de que, apesar de seguir quase à risca a fórmula dos primeiros filmes dos cineastas, "Eu, eu mesmo e Irene" não é nem de longe tão engraçado quanto eles. Primeiro por forçar piadas que soam deslocadas e nem sempre funcionam. E principalmente porque, ao contrário de seus trabalhos anteriores, elas estão diluídas em uma trama que exige mais do espectador do que simplesmente risadas - por vezes, a história (fraca) que envolve os personagens fica tão confusa que sobra pouco tempo para rir.

 

O personagem central do filme é Charlie Baileygates, um pacato policial de Rhode Island, cumpridor das leis, afável a ponto de ser tratado como capacho por quase todo mundo e um pai dedicado de trigêmeos que são a prova do adultério da ex-esposa. Continuamente abusado em sua boa-fé, ingenuidade e bondade, um dia Charlie deixa escapar uma nova personalidade: bruto, desbocado, vulgar e sem filtros, Hank assusta os moradores da pequena cidade e principalmente seus colegas de trabalho. Ciente dessa nova condição psíquica de Charlie - administrável quando devidamente medicada -, seu superior, Coronel Partington (Robert Forster) lhe dá uma missão simples: acompanhar com segurança, até o estado de Nova York, a forasteira Irene Walker (Renée Zellweger), presa por dívidas com a polícia rodoviária. No caminho, porém, Charlie descobre que Irene está na mira de policiais corruptos e um ex-namorado tóxico, que farão de tudo para eliminá-la. Intercalando momentos bons com outros dominados por Hank, ele se apaixona pela bela fugitiva e passa a disputá-la com seu grosseiro alterego.

Assumindo o papel central depois que Jack Black pulou fora do projeto, Jim Carrey deita e rola em sua mais absoluta zona de conforto. Seu talento para o humor físico serve como uma luva para as insanidades do roteiro - terminado por Mike Cerrone em 1991 e posteriormente adequado ao estilo dos irmãos Farrelly pelos próprios diretores - e é difícil imaginar outro ator com a coragem suficiente de participar, em uma fase já de grande prestígio na carreira, de algumas sequências francamente duvidosas (sem spoilers, basta citar um momento com uma mãe amamentando um bebê e outro com uma vaca atropelada no meio da estrada). Renée Zellweger está encantadora como Irene Walker, mas tem pouco a fazer diante das atrocidades comandadas por Carrey (com quem namorou durante as filmagens), e o elenco coadjuvante conta com nomes consagrados por indicações ou vitórias no Oscar (Chris Cooper, Richard Jenkins, Robert Forster). Nada disso impede, no entanto, que "Eu, eu mesmo e Irene" fique na história mais como um filme que talvez tenha ido longe demais em seu conceito de humor a qualquer preço do que por suas qualidades artísticas e/ou cômicas. Não à toa, os próprios Farrelly o consideram seu pior filme - e isso que depois eles ainda virariam sua metralhadora giratória para obesos ("O amor é cego", de 2000) e gêmeos siameses ("Ligado em você", de 2003), até Peter deixar de lado seu pendor para o politicamente incorreto, e cometer "Green Book: O Guia", que levou o Oscar de melhor filme de 2018 ao falar sobre racismo (mesmo que sob um ponto de vista branco e pouco profundo).

PEGGY SUE: SEU PASSADO À ESPERA

PEGGY SUE: SEU PASSADO À ESPERA (Peggy Sue got married, 1986, TriStar Pictures, 103min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Jerry Leichtling, Arlene Sarner. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Barry Malkin. Música: John Barry. Figurino: Theadora Van Runckle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Marvin March. Produção executiva: Barrie M. Osborne. Produção: Paul R. Gurian. Elenco: Kathleen Turner, Nicolas Cage, Joan Allen, Helen Hunt, Sofia Coppola, Barbara Harris, Jim Carrey, Don Murray, Barry Miller, Kevin J. O'Connor. Estreia: 05/10/86

3 indicações ao Oscar: Atriz (Kathleen Turner), Fotografia, Figurino

A carreira de Francis Ford Coppola se divide entre produções ambiciosas (que tanto podem agradar em cheio quanto serem solenemente ignoradas pelo público) e filmes menores, de baixo orçamento e pretensões ainda menores. Em 1986, ele estava vindo do fracasso comercial do épico musical "Cotton Club" (84) quando acertou a mão com um drama romântico, delicado e sensível que refletia a nostalgia generalizada em relação à uma época mais inocente dos EUA, pré-assassinato de John Kennedy e Guerra do Vietnã. Projeto herdado da diretora Penny Marshall (que foi afastada pelos produtores por ser considerada inexperiente para um filme que já era tido pelo estúdio como uma produção relativamente grande), "Peggy Sue: seu passado à espera" não apenas deu à Kathleen Turner um dos maiores papéis de sua carreira (e uma subsequente indicação ao Oscar de melhor atriz) como contava com um jovem Jim Carrey em papel coadjuvante e revelou o nome de Nicolas Cage à plateia (ainda que em uma atuação um tanto equivocada e questionada pelo próprio diretor).

Na verdade, a presença de Cage esteve por um fio principalmente por sua insistência em utilizar-se de um tom de voz que tanto Coppola (seu próprio tio) e os produtores simplesmente odiaram desde o princípio. O fato de Cage ter vencido a disputa diz muito sobre sua personalidade persuasiva, mas é inegável que sua presença desequilibra o resultado final - quando Penny Marshall estava no comando da produção, por exemplo, os nomes cotados para viver o protagonista masculino foram os de Tom Hanks, Dennis Quaid e Sean Penn, todos atores bem menos excêntricos e de registro mais sutil. Sempre que Cage entra em cena, o filme assume um tom mais debochado, contrastando com o lirismo impresso pela fotografia de Jordan Cronenweth (também indicada ao Oscar) e pela trilha sonora leve e onírica, a cargo de John Barry e canções populares do começo dos anos 60. Felizmente a presença do ator não atrapalha o desempenho luminoso de Kathleen Turner, que transborda emoção e graça em cada diálogo.


Substituindo Debra Winger, que abandonou o projeto depois de um acidente de bicicleta, Turner está plenamente à vontade em cena, convencendo tanto como a dona-de-casa frustrada de 43 anos em vias de divorciar-se quanto como a adolescente atônita ao descobrir seu poder inexplicável de mudar os rumos de sua vida quando acorda em 1960. Aproveitando-se de um roteiro que explora o humor, o romantismo e o surreal da situação, a atriz revelada por Lawrence Kasdan em "Corpos ardentes" (81) entrega uma performance encantadora e tão mágica quanto o enredo: Peggy Sue, uma mulher desiludida com o fim de seu casamento com o namorado de adolescência, Charles Bodell (Nicolas Cage), vai quase à contragosto a uma festa para celebrar o reencontro de seus colegas de escola. Coroada rainha da festa, ela subitamente desmaia e, para sua surpresa/deleite/angústia, desperta em 1960, quando ainda não estava definitivamente comprometida com o futuro marido. Percebendo a possibilidade de modificar seu destino, ela resolve tentar a sorte com outro rapaz, o sensível e rebelde poeta Michael Fitzsimmons (Kevin J. O'Connor) - mas para isso ela terá de desvencilhar-se de Charles, completamente apaixonado por ela.

Equilibrando seu filme entre as decisões amorosas da protagonista e a forma como ela passa a lidar com a novidade temporal de sua vida - o reencontro com a irmã caçula, o contato com os avós já falecidos, a tentativa de ajudar Charles em sua carreira musical lhe dando de bandeja um sucesso ainda não lançado dos Beatles, sua associação com o gênio da escola, Richard Norvick (Barry Miller) -, Coppola dirige "Peggy Sue" com mão leve, sem jamais pesar o drama e preferindo sublinhar o tom lúdico do roteiro, em contraste com o humor acelerado e juvenil de "De volta para o futuro", dirigido por Robert Zemeckis um ano antes e que também brincava com viagens no tempo. Felizmente evitando explicações mirabolantes para a situação central - e também uma solução fácil e insatisfatória -, o filme fecha sua trama de forma coerente e emocionante, sem trair o público ou transfigurar seus personagens. Um entretenimento adulto e um dos melhores Francis Ford Coppola da década de 80!

O GOLPISTA DO ANO

O GOLPISTA DO ANO (I love you, Phillip Morris, 2009, EuropaCorp/Mad Chance/Consolidate Group Pictures, 98min) Direção: Glenn Ficarra, John Requa. Roteiro: Glenn Ficarra, John Requa, livro de Steve McVicker. Fotografia: Xavier Pérez Grobet. Montagem: Thomas J. Nordberg. Música: Nick Urata. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyc-Wyhowski/Cynthia Slagter. Produção executiva: Luc Besson. Produção: Andrew Lazar, Far Shariat. Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Rodrigo Santoro, Leslie Mann. Estreia: 18/01/09 (Festival de Sundance)

Quando o filme "O golpista do ano" estreou oficialmente nos EUA, em janeiro de 2009, já fazia exatamente um ano que havia estreado no Festival de Sundance - e, desde então, havia percorrido festivais de cinema pelo mundo inteiro e sido lançado comercialmente fora do mercado doméstico, arrecadando o suficiente para cobrir seu modesto orçamento de 13 milhões de dólares. Tal atraso - e a séria ameaça de ser lançado diretamente no mercado de DVD em seu país de origem - não deixou de ser uma surpresa, já que a comédia dirigida pela dupla Glenn Ficarra e John Requa é estrelado por um dos atores mais populares de Hollywood, Jim Carrey, capaz de levar multidões às salas de cinema mesmo com filmes de qualidade duvidosa, como "Ace Ventura, um detetive diferente" e "Débi & Lóide, dois idiotas em apuros". Já devidamente reconhecido como um ator sério, graças aos filmes "O show de Truman, o show da vida" (98), "O mundo de Andy" (99) e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (04), nem mesmo Carrey foi capaz, no entanto, de despertar o interesse das plateias ianques para a inacreditável história real do farsante Steven Jay Russell e seu amor incondicional pelo colega de presídio Phillip Morris: o filme foi um fracasso retumbante (e injusto) de bilheteria.

Levando-se em consideração que "O golpista do ano" não é um filme típico de Carrey - ao menos não funciona no nível de suas produções mais descerebradas - nem tampouco um drama que se preste a premiações precedidas de tapetes vermelhos, seu fracasso nem chega a ser uma surpresa. Mesmo que Carrey não deixe totalmente de lado sua tendência em fazer caretas e vez ou outra exagere nas tintas de seu personagem, o tom do filme é menos histérico do que em seus trabalhos mais famosos e esse meio-termo talvez tenha afastado a audiência mais tradicional do ator. Além do mais, outro elemento importante do roteiro - que o título genérico em português escondeu, com medo da rejeição do público brasileiro - pode ter sido responsável pela indiferença em relação ao produto final: a homossexualidade do protagonista. Bem ou mal, interpretar um personagem gay ainda é tabu em Hollywood - a não ser quando se ambiciona ganhar certa estatueta dourada - e Carrey sentiu na pele a verdade de tal afirmação. Enquanto alguns elogiaram sua "coragem" em assumir um papel tão controverso, outros a rechaçaram. A maior parcela do público - a que realmente interessa - fez pouco caso da situação.


Apesar de parecer impossível, a história de "O golpista do ano" é real, e em muitos pontos lembra o excelente "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg. Em ambos os casos o protagonista é um homem que vive de golpe em golpe, tentando manter um estilo de vida dispendioso e regado a luxos. Ao contrário do filme estrelado por Leonardo DiCaprio, porém, o trabalho dos diretores Ficarra e Requa dá a seu personagem principal uma razão específica para tal comportamento: depois de assumir-se gay para a família depois de um acidente de carro, o policial Steven Russell abandona a carreira e começa uma vida cercada de ostentação ao lado do namorado, Jimmy (o brasileiro Rodrigo Santoro em papel com falas e de razoável importância na trama). Preso por fraude, ele se apaixona perdidamente, na cadeia, por Phillip Morris (Ewan McGregor), um rapaz tímido com quem inicia um romance avassalador. Disposto a oferecer ao novo amante uma vida confortável, ele acaba por envolver-se, novamente, com negócios escusos e fraudes milionárias, o que o leva fatalmente a uma existência repleta de idas e vindas da cadeia.

Se Carrey não consegue manter-se totalmente afastado de seu modo histriônico de interpretação - beirando o excesso em diversos momentos - o maior destaque de "O golpista do ano" é Ewan McGregor, que sai-se bastante bem na pele do Phillip Morris do título original. Com uma atuação que se equilibra na tênue linha entre a caricatura e o naturalismo sem cair nas armadilhas que isso impõe, o ator demonstra maturidade e versatilidade, permitindo à plateia que mergulhe sem reservas em um roteiro que não tem medo de ousar na estrutura, recheada de flashbacks e piadas direcionadas ao público gay. Sem preconceitos e sem esperar que seja uma comédia "de Jim Carrey" é bem provável que qualquer audiência se deixe divertir pelo filme: razões para isso não faltam, nem que seja apenas para testemunhar as incríveis aventuras de seu protagonista.

domingo

DESVENTURAS EM SÉRIE

DESVENTURAS EM SÉRIE (Lemony Snicket's a series of unfortunate events, 2004, Paramount Pictures, 108min) Direção: Brad Silberling. Roteiro: Robert Gordon, romances "The bad beggining", "The reptile room" e "The wide window", de Daniel Handler. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Michael Kahn. Música: Thomas Newman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Cheryl A. Carasik. Produção executiva: Albie Hecht, Julia Pistor, Scott Rudin, Barry Sonnenfeld. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jim Van Wyck. Elenco: Jim Carrey, Meryl Streep, Jude Law, Liam Aiken, Emily Browning, Timothy Spall, Catherine O'Hara, Billy Connolly, Luis Guzman, Jennifer Coolidge, Jane Adams, Cedric The Entertainer. Estreia: 16/12/04

4 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem

Não é preciso muito tempo de projeção da comédia infantojuvenil "Desventuras em série" para que os desavisados fãs de cinema julguem estar diante de um típico Tim Burton: o humor negro, o tom sinistro, os personagens bizarros e o capricho visual, afinal, são características da filmografia do cineasta que fez do Homem-morcego um negócio dos mais lucrativos para a Warner no final da década de 80. Porém, apesar das semelhanças, a adaptação da obra de Robert Gordon para a as telas não leva a assinatura de Burton -  que esteve atrelado ao projeto por um tempo com seu mais constante parceiro artístico Johnny Depp mas depois abandonou o barco - e sim de Brad Silberling, o homem por trás da versão live-action de "Gasparzinho", com Christina Ricci e da reinvenção livre do existencial "Asas do desejo" chamada "Cidade dos anjos", com Meg Ryan. Mesmo não sendo um cineasta cujo nome seja facilmente reconhecível pelas plateias, porém, ele não pode ser responsabilizado pelo relativo fracasso financeiro do filme: mesmo estrelado por um Jim Carrey em momento inspiradíssimo e contando com as luxuosas participações especiais de Meryl Streep e Jude Law, "Desventuras em série" rendeu menos do que o esperado nos EUA - inviabilizando uma esperada sequência - mais por fugir da fórmula das produções insossas e protegidas de qualquer ousadia do que por culpa alheia. Uma injustiça, já que é, de longe, mais divertido e bem realizado do que a maioria dos filmes que tentaram pegar carona na onda de adaptações literárias infantis que virou febre com o sucesso de "Harry Potter".

Adaptando apenas os três primeiros livros de uma extensa série de treze, o filme de Silberling já começa com uma dose de inteligente ironia, quando um inocente desenho animado sobre um elfo feliz é bruscamente interrompido por um narrador chamado Lemony Snicket (pseudônimo do autor Robert Gordon e interpretado nas telas por um Jude Law que aparece apenas nas sombras), que adverte os espectadores que a história que virá a seguir não terá a inocência e a felicidade com que pode estar acostumada a audiência do cinema infantojuvenil. É então que o público começa a acompanhar as tais desventuras em série do título, sofridas pelos três órfãos dos milionários Baudelaires: a criativa Violet (Emily Browning), o inteligente Klaus (Liam Aiken) e a esperta Sunny (as irmãs Kara e Shelby Hoffman), que, mesmo bebê, não fica atrás em termos de vivacidade. De forma inesperada, os três perdem os pais em um incêndio que destroi sua mansão e, de acordo com a lei - na forma do bem-intencionado mas pouco perspicaz Mr. Poe (Timothy Spall) - são obrigados a viver na companhia de um parente próximo, no caso o bizarro Conde Olaf (Jim Carrey), um ator medíocre e ambicioso que mora em uma casa caindo aos pedaços e que vê nas três crianças a sua grande chance de sair da miséria financeira.


Não demora muito, porém, para que as crianças percebam as reais intenções do Conde - que os trata como empregados e deseja matá-los para por as mãos em seu dinheiro - e iniciem uma via-crucis através de outros parentes (honestos mas ingênuos o bastante para cair nas garras do pernicioso vilão): o cientista Monty (Billy Connolly), especialista em répteis, e a tia Josephine (Meryl Streep), uma viúva paranoica que vive em uma casa localizada em um perigoso abismo. Usando e abusando de seus dons histriônicos - e de pesada maquiagem - Olaf penetra invariavelmente em todas as famílias que recebem os jovens, que conseguem sobreviver graças a seu talento em ludibriar o pretensamente esperto artista que tem em seus planos até mesmo um casamento com a pré-adolescente Violet.

Visualmente impressionante, "Desventuras em série" é uma bem-azeitada mistura entre comédia de humor negro e aventura infantojuvenil, capaz de agradar as crianças mais velhas e até mesmo os adultos que se propuserem a entrar sem preconceitos na brincadeira. Jim Carrey foi a escolha perfeita para o papel principal, que lhe dá mil oportunidades para um show à parte, especialmente com a ajuda da maquiagem - premiada com o Oscar - e de coadjuvantes brilhantes, que sustentam seu espetáculo com simpatia e generosidade. Meryl Streep, por exemplo, não precisa de muito tempo em cena para brilhar com sua afável tia Josephine, responsável por algumas das melhores sequências do filme, também admirável por sua estupenda direção de arte, que concorreu ao Oscar e perdeu para um filme mais "sério", a biografia "O aviador", de Martin Scorsese. Seu relativo fracasso de bilheteria - que deixou os espectadores fãs dos livros desolados - não condiz com suas qualidades. É uma deliciosa produção que merecia ter sido melhor recebida pelo público.

sexta-feira

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS


BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal sunshine of the spotless mind, 2004, Focus Features, 108min) Direção: Michel Gondry. Roteiro: Charlie Kaufman, estória de Charlie Kaufman, Michel Gondry, Pierre Bismuth. Fotografia: Jeanne McCarthy. Montagem: Valdís Oskarsdottir. Música: Jon Brion. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Dan Leigh/Ron Von Blomberg. Produção executiva: Georges Bermann, David Bushell, Charlie Kaufman, Glenn Williamson. Produção: Anthony Bregman, Steve Golin. Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Elijah Wood, Jane Adams. Estreia: 19/3/04

2 indicações ao Oscar: Atriz (Kate Winslet), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Em um mundo ideal, os românticos sofredores poderiam ter o direito de apagar totalmente da memória as recordações de seus relacionamentos falidos e dolorosos. No mundo criado pelo roteirista Charlie Kaufman essa possibilidade existe quem a proporciona é uma empresa apropriadamente chamada Lacuna Inc. Criada pelo doutor Howard Mierzwiack (Tom Wilkinson), a Lacuna se encarrega de entrar no cérebro dos contratantes e arrancar de lá todos os momentos solicitados. E é justamente isso que o desesperado Joel Parrish (Jim Carrey) deseja com todas as suas forças: apagar qualquer lembrança de seu romance com a bela Clementine Cruczynski (Kate Winslet), que já providenciou o procedimento em sua própria vida. Acontece que Joel ainda ama Clementine, e descobre isso no meio do processo. O que fazer, então? Só lhe resta fugir com seus momentos de amor para lugares de sua mente onde jamais serão encontrados.

Parece estranho que o filme mais romântico e desbragamente apaixonado do início do século tenha uma cara de ficção científica, mas antes de qualquer coisa é preciso entender que o autor de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é o mesmo dono da mente doentia que criou "Quero ser John Malkovich" e "Adaptação", dois dos mais criativos filmes de sua época.  Contando com a inspiradíssima direção de Michel Gondry - vindo do mundo do videoclipe como o genial David Fincher - a história de amor complicada e realista de Joel e Clementine foge do banal, do clichê e de qualquer definição para se tornar uma das mais marcantes que o cinema moderno pode oferecer. Nada de lágrimas fáceis, nada de lances melodramáticos. Por trás do complexo roteiro e da brilhante direção há aquilo que mais falta nos pré-fabricados romances hollywoodianos: alma.



Apostando na inteligência da plateia, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é um quebra-cabeças delirante, onde nenhuma cena é desnecessária, nenhum momento é desperdiçado. A edição intrincada dá pistas o tempo inteiro de como seguir a história (seja na cor dos cabelos de Clementine ou em detalhes que só farão sentido em uma terceira ou quarta sessão), mas nunca a entrega de mão-beijada, preferindo sempre o caminho menos comum para atingir seus objetivos. A trama, constituída de três tempos (o real, as lembranças e a visão de Joel e Clementine sobre os fatos que estão ocorrendo), é ágil na medida certa, mas absolutamente contemplativa e de partir o coração quando necessita. O extraodrinário do roteiro de Kaufman - merecidamente premiado com o Oscar - é justamente sobrepor essas três linhas de tempo sem ser didático ou aborrecido. É confuso? Não, é fascinante. Ao explorar os mecanismos que levam um amor aparentemente imorredouro a um patético final (apenas para depois voltar a seu glorioso início) a estreia de Gondry no cinema não poderia ser mais auspiciosa, principalmente por tirar de seus atores - centrais e coadjuvantes - atuações das mais apaixonadas.

Deixando de lado mais uma vez seu histrionismo exagerado - como fez anteriormente nos elogiados "O show de Truman" e "O mundo de Andy" - Jim Carrey convence totalmente como um homem frágil, sensível e passional, dando mais uma prova de seu talento quando bem dirigido (e ficando com o papel antes oferecido a Nicolas Cage, Deus nos proteja!). A seu lado, Kate Winslet brilha em um de seus melhores trabalhos, que lhe deu a quarta indicação ao Oscar. Longe dos trajes de época que marcaram seus filmes anteriores, a bela inglesa aparece em cena com o cabelo pintado de várias cores e transmite uma alegria de viver e uma ânsia de ser amada ausente em seus projetos anteriores - e sua química com Carrey é invejável, especialmente se for levado em conta que improvisaram boa parte de seus diálogos, incentivados pelo diretor. E o elenco coadjuvante não atrapalha nem um pouco, sendo, pelo contrário, um suporte valioso ao casal central. O veterano Tom Wilkinson, os jovens Kirsten Dunst e Elijah Wood e o cada vez melhor Mark Ruffalo não deixam a peteca cair quando suas personagens saltam ao primeiro plano da narrativa, arrematando com cuidado e sensibilidade a arte de Gondry e Kaufman.

Não fazendo concessões ao trivial, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" pode assustar ao público acostumado com historinhas de amor banais e derivativas. Mas o romance entre suas personagens é verdadeiro, honesto, belo e triste. Belo e triste como um amor de verdade. Uma obra-prima irretocável!

terça-feira

O MUNDO DE ANDY

O MUNDO DE ANDY (Man on the moon, 1999, Universal Pictures, 118min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karasewski. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Adam Boomme, Lynzee Klingman, Christopher Tellefsen. Música: REM. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria Nay. Produção executiva: Michael Hausman, George Shapiro, Howard West. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti. Estreia: 22/12/99

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Jim Carrey)
Vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim


O americano Andy Kaufman foi talvez o mais ousado comediante surgido nos EUA nos anos 80. Longe de ser apenas um humorista, ele ambicionava ser um homem da indústria de entretenimento, provocando a audiência e buscando incessantemente realizar tudo o que ainda não havia sido feito. Morto devido a um câncer, Kaufman foi homenageado pela banda R.E.M. - cujo vocalista Michael Stipe é seu fã declarado - com a canção "Man on the moon" e pelo cineasta tcheco Milos Forman com uma cinebiografia informal e criativa, batizada com o nome da bela obra de Stipe e no Brasil lançada com o péssimo título "O mundo de Andy", talvez para forçar a comparação com o filme anterior de seu astro Jim Carrey - "O show de Truman" - já que o protagonista era praticamente desconhecido do grande público tupiniquim (a não ser aos espectadores da série "Taxi", reprisada na TV a cabo).

Fã de personagens à margem da sociedade - como o rebelde vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho" e o excêntrico milionário da pornografia interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" - Forman encontrou na personalidade complexa de Andy Kaufman o material perfeito para mais um grande filme. Graças a um inspirado roteiro da dupla Larry Alexander e Scott Karaszewski (também responsáveis pelo ótimo texto de "Larry Flynt" e da homenagem de Tim Burton ao pior cineasta da história, em "Ed Wood"), Forman consegue apresentar seu protagonista e suas criações sem apressar ou retardar nada, com um invejável ritmo e com um delicioso senso de humor, reflexo das ironias ora escrachadas ora sutis de seu homenageado, que frequentemente ultrapassava as barreiras do bom gosto com suas brincadeiras, e com isso conquistou tanto fãs quanto detratores - a ponto de ser expulso do programa "Saturday Night Live" por opção da plateia - e que encontra em Jim Carrey o intérprete ideal.



Depois de provar, com "O show de Truman", que sabia atuar a sério, Carrey, antes visto apenas como um ator de comédias físicas e descerebradas, mostra, em "O mundo de Andy", que não só é capaz de dar dimensões variadas a seus personagens como também consegue transformar-se visualmente e dedicar-se com paixão a projetos tão pouco comerciais (sua escolha para o papel, inclusive, tem a ver com negócios, uma vez que o próprio estúdio optou por ele em detrimento de Edward Norton, planejando uma bilheteria milionária que nunca aconteceu). O trabalho irretocável de Jim - não apenas como Kaufman mas também como suas criações, como o cantor de cassinos Tony Clifton e o mecânico estrangeiro Latka, entre outros menos cotados - consegue até mesmo sobressair-se sobre a delicada atuação de Danny De Vito (também produtor do filme) como o empresário do comediante e sobre a midiática presença da cantora Courtney Love, em seu segundo trabalho com o diretor.

Contado de forma episódica e criativa, “O mundo de Andy” é imprevisível desde sua primeira cena, com os créditos de encerramento logo no início do filme. A cinebiografia do ator que chegou a ser excluído do popular “Saturday night live” - a pedido do público que não agüentava mais suas brincadeiras de mau-gosto – usa das convenções de um filme de seu gênero para conquistar a audiência e apresentar o “maldito” a platéias que, do contrário, não teriam acesso a seu tipo especial de fazer humor. É um trabalho inteligente cujo brilhantismo a bilheteria medíocre nos EUA apenas reitera. Afinal de contas, quantos filmes realmente bons fazem sucesso sem explosões e nudez gratuita?

quarta-feira

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA (The Truman Show, 1998, Paramount Pictures, 103min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: William Anderson, Lee Smith. Música: Burkhard Dallwitz. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Lynn Pleshette. Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natasha McLeone, Peter Krause. Estreia: 05/6/98

3 indicações ao Oscar: Diretor (Peter Weir), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Ator/Drama (Jim Carrey), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Trilha Sonora Original

Um dos mais populares astros de Hollywood da década de 90, o canadense Jim Carrey lotou salas de exibição com "Ace Ventura", "Débi & Lóide" e "O Máskara" - filmes divertidos, mas um tanto vulgares e bastante longe do que se convém chamar de bom cinema. Adorado pelo público e execrado pela crítica, ele logo fez o que faz todo ator disposto a transformar sua imagem: mudou de gênero. Seu primeiro passo nessa direção, a comédia de humor negro "O pentelho", foi impiedosamente ignorado nas bilheterias. Sua segunda tentativa, porém, acertou em cheio. "O show de Truman, o show da vida" não só demonstrou que Carrey poderia atingir níveis dramáticos mais altos do que demonstrava como também é um dos filmes essenciais dos anos 90, graças à sua oportuna crítica à mídia.

Dirigido pelo sempre competente australiano Peter Weir, "O show de Truman" estreou na hora certa, em que plateias do mundo inteiro se rendiam aos infames reality shows, elevando o nível de voyeurismo da população a níveis jamais imaginados - talvez apenas por George Orwell no clássico "1984". Escrito por Andrew Niccol, que depois assumiria a direção da distópica ficção científica "Gattaca", o filme de Weir se encaixa em diversas classificações. Tanto pode ser uma comédia sarcástica, ou um drama existencial ou até mesmo um suspense dramático, dependendo do ponto de vista do espectador e da maneira com que ele percebe o mundo ao seu redor. Essa inteligência é que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original: poucas vezes o cinema americano foi tão original e irônico a respeito do modo de vida do país e de sua cultura média.



No filme de Weir (que merecidamente recebeu sua indicação ao Oscar de direção), "O show de Truman" é um programa de TV extremamente popular, no ar há mais de 30 anos, que acompanha, desde o nascimento, a vida de seu protagonista, Truman Burbanks (Jim Carrey em uma atuação surpreendente, que equilibra seu costumeiro humor físico com uma melancolia nunca antes vista). Truman vive uma rotina sem sobressaltos, em um emprego burocrático e com uma vida familiar discreta e tranquila ao lado da esposa Meryl, na verdade, uma atriz contratada para o papel (Laura Linney, ótima). Apesar de julgar-se um felizardo, porém, ele nunca esquece seu primeiro amor (Natasha McLeone), que lhe foi abruptamente afastada do caminho em sua juventude. Um belo dia, chegando ao trabalho, Truman escapa por pouco de ser atingido por um holofote e, a partir daí, acontecimentos bizarros o levam a desconfiar que algo muito estranho está lhe acontecendo. Nem mesmo os conselhos de seu melhor amigo, Marlon  (Noah Emmerich) o impedem de tentar, então, sair de sua pacata Seaheaven. Quando as coisas ameaçam sair do controle, o criador do programa, o misterioso Christof (Ed Harris) resolve interferir diretamente no desenvolvimento do show.

O roteiro de Niccol é um primor de ritmo e bom-humor, sem nunca apelar para risadas fáceis. Ele critica tudo aquilo que faz da TV americana - e mundial - algo viciante. Merchandisings explícitos, interferências financeiras dos produtores e manipulação da opinião pública são massacradas impiedosamente, sem que, no entanto, transmita uma imagem agressiva. De certa forma, tudo é tratado com carinho pelo autor e pelo diretor, que envolvem a plateia (do show e do filme) em uma trama tão absurda que chega a soar verdadeira. E para isso, é claro, contam com trabalhos acima da média de todos os envolvidos. Laura Linney quase rouba a cena como a esposa de Truman (em especial quando ele começa a ter a certeza absoluta de que sua paranoia não é assim tão paranoia...) Ed Harris concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de ficar com o papel que era de Dennis Hopper (e era o favorito da noite até que James Coburn lhe roubasse a estatueta) por seu poderoso trabalho como o silencioso Christof. E Jim Carrey finalmente conquistou a crítica em um trabalho complicado que tirou de letra (não foi à toa que abocanhou um Golden Globe e desapontou os fãs sendo deixado de lado nas indicações da Academia).

"O show de Truman" é um filme com a cara de sua época, com preocupações éticas e estéticas absolutamente pertinentes. Somado a isso suas qualidades extraordinárias em termos de entretenimento (é divertido e emocionante), é uma obra obrigatória de um dos diretores mais íntegros da indústria de Hollywood.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...