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segunda-feira

MORRA, SMOOCHY, MORRA


MORRA, SMOOCHY, MORRA (Death to Smoochy, 2002, Warner Bros/FilmFour, 109min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Adam Resnick. Fotografia: Anastas N. Michos. Montagem: Jon Poll. Música: David Newman. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Enrico Campana. Produção: Andrew Lazar, Peter Macgregor Scott. Elenco: Robin Williams, Edward Norton, Catherine Keener, Danny DeVito, Jon Stewart, Pam Ferris, Harvey Weinstein. Estreia: 28/02/2002

A carreira de Danny DeVito como diretor trai, sem sombra de dúvida, um apreço pelo lado sombrio da vida. Foi assim em sua estreia, "Joga a mamãe do trem" (1987), no sucesso "A guerra dos Roses" (1989), e até mesmo no infantil "Matilda" (1996) - sem falar na cinebiografia "Hoffa: um homem, uma lenda" (1992), onde falou sério pela primeira vez em sua trajetória como diretor. Tendo em vista seu currículo e sua tendência ao humor mórbido, portanto, não chega a ser surpresa que ele tenha assinado "Morra, Smoochy, morra", o inusitado encontro entre Robin Williams e Edward Norton que fracassou nas bilheterias e desconcertou boa parte da crítica. Uma mistura nem sempre eficiente entre comédia e suspense, o filme ensaia uma crítica à indústria do entretenimento infantil e à obsessão pela fama, mas falha em seu principal objetivo: conquistar o espectador. Por vezes exagerado e desnecessariamente confuso - e quase indeciso em sua mescla de gêneros, o filme de DeVito parte de uma premissa interessante e parece não saber exatamente o que fazer com ela. Para sua sorte, conta com o talento mais do que comprovado de seus atores centrais (especialmente Norton, raramente visto em comédias).

Tudo começa quando Randolph Smiley (Robin Williams), popular apresentador de um programa de televisão direcionado ao público infantil, é demitido graças a seu recém descoberto costume de aceitar suborno para privilegiar algumas crianças em detrimento de outras. Sua saída da programação abre espaço, então, para a chegada de Sheldon Mopes (Edward Norton), contratado para, com seu personagem Smoochy - um rinoceronte cor-de-rosa -, preencher o horário na programação. Idealista, ingênuo e bem-intencionado, Sheldon nem de longe imagina que, apesar das promessas da emissora, ele não passa de uma peça em uma vasta engrenagem comercial. Enquanto tenta transmitir mensagens positivas e educativas em seu programa, nos bastidores ele é visto apenas como objeto de marketing - algo que a executiva Nora Wells (Catherine Keener) tenta esconder a todo custo. Não bastasse tal ruído na comunicação, Sheldon passa a ser o alvo de Randolph, que, obcecado por ter sido substituído, arma diversas formas de acabar com seu rival - nem que seja através de assassinato.

 

Considerado o pior filme de 2002 pelo respeitado crítico Roger Ebert, "Morra, Smoochy, morra" é, realmente, uma produção bastante problemática. Nem mesmo Robin Williams - que ficou com o papel depois que Jim Carrey preferiu fazer o igualmente pouco celebrado "Cine Majestic" - é capaz de dar consistência a um roteiro indeciso, que impede o público de ter qualquer tipo de empatia por seus protagonistas - seja ele qual for. Danny DeVito, que já alcançou bons resultados em produções anteriores, aqui demonstra ter perdido a mão em suas tentativas de fazer rir de situações aparentemente dramáticas e/ou trágicas, entregando soluções pouco efetivas para os conflitos e apostando em um visual carregado de cores que contrastam com o tom escuro da trama.e causam mais estranhamento que admiração. É perceptível, no entanto, a entrega de Edward Norton a um personagem atípico em sua carreira: na pele do ingênuo Sheldon Mopes - cujo otimismo e positividade chegam a irritar ao mais feliz dos seres humanos -, o ator consegue destacar-se mesmo estando ao lado de um craque do humor como Williams. E Catherine Keener também surpreende, dando dignidade a uma personagem cujos objetivos e reais intenções estão sempre no limiar entre a honestidade e o cinismo.

Tornado cult com o passar do tempo - algo que normalmente acontece quando uma produção encontra um público disposto a abraçá-la a despeito (ou justamente por causa) de seus equívocos -, "Morra, Smoochy, morra" passou à história como um passo em falso no currículo de seus astros, acostumados ao sucesso e ao prestígio de boa parte de suas trajetórias. Pouco lembrado mesmo pelos maiores fãs de Williams e Norton, também machucou a carreira de Danny DeVito - que só voltaria à cadeira de diretor cinco anos mais tarde com "Duplex" - mais um exemplar de seu humor sombrio, mas dessa vez iluminado pelas presenças de Ben Stiller e Drew Barrymore. Uma comédia que não consegue sustentar a contento sua piada única, "Morra, Smoochy, morra" mergulha no camp - mas não é capaz de assumir completamente sua aura trash.

 

POR FAVOR, MATEM A MINHA MULHER


POR FAVOR, MATEM MINHA MULHER (Ruthless people, 1986, Touchstone Pictures, 93min) Direção: Jim Abrahms, David Zucker, Jerry Zucker. Roteiro: Dale Launer. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Michael Colombier. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Donald Woodruff/Anne D. McCulley. Produção executiva: Joanna Lancaster, Richard Wagner, Walter Yetnikoff. Produção: Michael Peyser. Elenco: Danny DeVito, Bette Midler, Judge Reinhold, Helen Slater, Bill Pullman, Anitta Morris. Estreia: 27/6/86

Logo depois de uma pré-estreia de "Por favor, matem minha mulher", o ator Danny DeVito ligou para sua parceira de cena, Bette Midler, e os dois ficaram um longo tempo no telefone discutindo como o filme era ruim e como as carreiras de ambos provavelmente estavam arruinadas com isso. Meses depois, com o sucesso de bilheteria da produção - mais de 70 milhões de dólares de arrecadação -, é provável que os dois astros tenham mudado de ideia. Midler assinou um polpudo contrato com a Touchstone (subsidiária da Disney para filmes adultos) e DeVito iniciou uma bem-sucedida carreira também como diretor já no ano seguinte, com o irônico "Joga a mamãe do trem" (1987). Último filme dirigido pelo trio ZAZ - Jim Abraham, Jerry Zucker e David Zucker -, conhecidos pelos demolidores "Apertem os cintos... o piloto sumiu" e "Top Secret: superconfidencial" -, a comédia brincava com o estilo de vida dos novos-ricos californianos (com seus exageros, futilidade e arrogância), mas recheado do humor iconoclasta dos cineastas e amparado no histrionismo irresistível de sua atriz central - uma força da natureza que teve, na segunda metade dos anos 1980, seu período de maior popularidade.

Na verdade, Bette Midler só entrou no projeto depois da saída de Madonna, que abandonou o barco devido às famosas "diferenças artísticas" entre ela e os diretores. Levando-se em consideração que Madonna nunca foi exatamente uma atriz de grande talento, a mudança no elenco foi providencial: mesmo que apareça relativamente pouco (dividindo seu tempo com as outras subtramas que se somam ao resultado final), Midler é a intérprete ideal para a insuportável Barbara Stone, herdeira, socialite e perua irrecuperável que se torna vítima de um sequestro orquestrado para atingir seu marido, e que acaba se unindo a seus algozes quando descobre que, ao contrário do que se poderia esperar, ele não está nem um pouco disposto a pagar o resgate. Irascível e agressiva nos momentos iniciais, debochada e irônica na segunda metade, a personagem é um prato cheio para a atriz - mesmo que, posteriormente, ela não tenha conseguido se livrar muito do estilo, que talvez não agrade a todos. Para alívio geral, porém, o rocambolesco roteiro dá espaço para o restante do elenco, em uma trama de erros envolvente e divertida que mantém o interesse até o clímax.

 

O sequestro de Barbara Stone é o pontapé inicial do filme. Seu marido, Sam (Danny DeVito), casou-se com ela por puro interesse, mas seu maior desejo é livrar-se de suas inconveniências e estupidez. Seus planos de assassinar a esposa são interrompidos, no entanto, quando ele recebe a notícia de que ela acaba de ser raptada: ao invés de pensar em um crime perfeito, basta a ele fazer corpo mole, não pagar o resgate e correr pro abraço. Mas as coisas não são assim tão simples. Sua amante, Carol (Anita Morris), também tem um amante, o pouco inteligente Earl (Bill Pullman), e o casal pretende chantagear Sam com a filmagem do assassinato planejado pelo industrial - e é claro que, sem assassinato nenhum, a fita que eles tem em mãos tem um outro tipo de material que ambos desconhecem (o que acaba os deixando em uma situação pouco confortável). Além disso, enquanto espera que o marido pague o resgate, Barbara descobre que seus sequestradores não tem nada de criminosos corriqueiros: Ken (Judge Reinhol) e Sandy (Helen Slater) procuram apenas um modo de vingar-se de Sam, que os passou para trás ao roubar uma ideia que poderia ter-lhes deixado ricos.

O roteiro de "Por favor, matem minha mulher" é um primor: deixando de lado a ideia de que é imprescindível haver lógica em uma comédia, Dale Launer criou uma série de situações bizarras e desconcertantes que se acumulam e se cruzam involuntariamente. Dando espaço para que todo o elenco tenha momentos seus, ele evita tempos mortos, imprime um ritmo apropriado ao gênero e de quebra convida o espectador a tentar adivinhar os rumos da trama - sem que, com isso, a torne previsível. A direção dos amigos ZAZ é precisa ao evitar os excessos de Midler e sua própria tendência ao anarquismo visual que marcou seus trabalhos anteriores. Mesmo que no final haja uma certa dose de moralismo, o tom acertadamente caótico e a atmosfera oitentista - perceptível em cada cenário e figurino - fazem desse potencial fiasco uma inesperadamente feliz sessão da tarde.

DUPLEX


DUPLEX (Duplex, 2003, Miramax/Buena Vista Pictures, 89min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Larry Doyle. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Greg Hayden, Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Stephen Alesch/Robin Stafender. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Richard N. Gladstein, Meryl Poster, Jennifer Wachtell, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Drew Barrymore, Stuart Cornfeld, Nancy Juvonen, Jeremy Kramer, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Drew Barrymore, Eileen Essell, Harvey Fierstein, Maya Rudolph, Justin Theroux, Wallace Shawn, James Remar, Robert Wisdom, Swoosie Kurtz. Estreia: 26/9/2003

O primeiro longa-metragem de Danny DeVito como diretor, "Joga a mamãe do trem" (1987), já traía sua visão bastante particular de comédia, extraída de situações corriqueiras mas com os dois pés fincados em um tom sombrio e ácido. No filme, ele mesmo interpretava um aspirante a escritor que tentava convencer seu professor de escrita criativa a matar sua mãe autoritária - em troca dele mesmo assassinar a ex-esposa traidora do autor, como em "Pacto sinistro" (1951). Em seu trabalho seguinte atrás das câmeras, "A guerra dos Roses" (1989), um casal em processo de divórcio usava dos mais sórdidos artifícios para ficar com a posse da mansão que dividiam - mesmo que isso significasse sua destruição. "Duplex", lançado em 2003, confirmava a tendência de DeVito em rir de situações sérias e criticar, sem muita sutileza, o verniz que separa a civilização da barbárie. Ao contrapor um jovem casal em busca de um lar para chamar de seu e uma idosa aparentemente dócil que os separa da realização de seu sonho, a comédia estrelada por Ben Stiller e Drew Barrymore substitui a gargalhada óbvia pelo riso nervoso - opção inteligente que talvez explique sua decepcionante recepção comercial.

 

Com uma renda mundial que não chegou a cobrir nem mesmo a metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares, "Duplex" provavelmente esbarrou na resistência do público em abraçar comédias que ousam fugir do esperado binômio pastelão/sofisticação. Situado em um meio-termo arriscado entre irmãos Farrelly e Woody Allen, o filme de DeVito aposta em personagens de caráter dúbio (ainda que facilmente adoráveis e de fácil empatia) e sequências de humor físico que deveriam dialogar diretamente com uma plateia ávida por risadas fáceis - mas que, por algum motivo, a afugentaram. O fraco resultado financeiro do filme, no entanto, não reflete sua qualidade. Assim como várias produções acima da média que naufragaram sem maior explicação, "Duplex" é um produto destinado a tornar-se cult. Talvez uma daquelas sessões da tarde queridas, com um público cativo e fiel, sempre disposto a rir das desventuras de um dos casais mais azarados de Nova York.

Alex Rose (Ben Stiller) e Nancy Kendricks (Drew Barrymore) são jovens, apaixonados, felizes e no caminho para se tornarem bem-sucedidos profissionais. Ela trabalha em uma revista e tem ambições de ascender na carreira, e ele é um escritor em vias de entregar seu segundo livro - apesar do atraso considerável no cronograma especificado no contrato. Depois de muito procurarem um lar para chamar de seu, os dois pombinhos mal podem acreditar na sorte grande quando surge, diante de seus olhos, a oportunidade de comprar um espaçoso duplex no Brooklyn - a um preço atrativo, ainda que apertado dentro de suas condições financeiras. Apaixonados pelo apartamento, os dois resolvem investir suas economias na compra do imóvel, mesmo sabendo que o andar superior do imóvel está ocupado. A inquilina é uma senhora idosa chamada Miss Connelly (Eileen Essell), solitária, doce e de saúde frágil. Alex e Nancy tem certeza de que não irá demorar para que sua vizinha morra e eles possam finalmente tomar posse de todo o seu duplex - mas as coisas não são como parecem. A dócil velhinha logo se transforma em uma enorme pedra no sapato do casal: espaçosa, cínica e irascível, ela não hesita em utilizar-se de sua imagem meiga para esconder uma personalidade insuportável. Sem ter a quem recorrer, Alex e Nancy chegam à conclusão de que a única maneira que eles tem de se livrar de seu pesadelo é apressando sua morte.

Assim como em seus filmes anteriores, Danny DeVito leva seus personagens ao limite do eticamente aceitável, transformando cidadãos normais e pacíficos em potenciais homicidas. Ao contrário de fazer disso um discurso pessimista sobre a maldade intrínseca do ser humano, porém, ele o faz com humor e leveza. Alex e Nancy não são pessoas ruins - o que não pode ser dito a respeito da respeitável anciã que os tira do sério -, e não é difícil simpatizar com eles e (pasmem!) torcer para que seus planos mirabolantes deem certo. Completamente inaptos para o crime, Alex e Nancy são mais vítimas do que assassinos (ou pretensos assassinos) e, dona de um talento inesgotável para transformar a vida dos vizinhos em um inferno na Terra, Miss Connelly passa rapidamente da condição de velhinha indefesa a alguém capaz de tirar a paciência do mais pacífico cidadão. Criando maneiras surpreendentes de tentativas de homicídio, o roteiro de Larry Doyle brinca sem medo com uma completa inversão de expectativas, e encontra em Ben Stiller, Drew Barrymore e Eileen Essell os intérpretes ideais de sua imaginação fértil - e seu casamento com a direção debochada de DeVito resulta em um filme cujo humor inteligente infelizmente não encontrou seu público. Talvez pelo tema, talvez pelo tom sombrio, a plateia ignorou "Duplex" no cinema - e acabou privada de uma das comédias mais ousadas e divertidas da temporada.

terça-feira

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA (Hoffa, 1992, 20th Century Fox, 140min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: David Mamet. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman, Ronald Roose. Música: David Newman. Figurino: Deborah Lynn Scott. Direção de arte/cenários: Ida Random/Brian Savegar. Produção executiva: Joseph Isgro. Produção: Caldecot Chubb, Danny De Vito, Edward R. Pressman. Elenco: Jack Nicholson, Danny De Vito, Armand Assante, J.T. Walsh, John C. Reilly, Robert Prosky, Frank Whaley, Bruno Kirby, Kevin Anderson, Paul Guilfoyle. Estreia: 25/12/92

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Maquiagem

Para o público brasileiro, o nome de Jimmy Hoffa pode não significar muita coisa, mas para os norte-americanos sua importância é fundamental. Líder do poderoso sindicato dos caminhoneiros entre 1958 e 1971, ele bateu de frente com o então senador Robert Kennedy quando foi acusado de ligações com o crime organizado, foi condenado à prisão e até hoje seu desaparecimento, em 1975, é considerado um dos maiores mistérios policiais dos EUA. Motivo tanto de admiração quanto de desconfiança por suas intenções e métodos pouco ortodoxos, Hoffa acabou sendo tema do filme mais sério do ator/diretor Danny De Vito - que fracassou nas bilheterias e foi praticamente ignorado nas cerimônias de premiação (assim como concorreu ao Golden Globe de melhor ator em drama também recebeu indicações ao Framboesa de Ouro de melhor ator e diretor). Retratado com respeito e sobriedade por De Vito, "Hoffa: um homem, uma lenda" se beneficia do roteiro de David Mamet, da atuação gigantesca de Jack Nicholson e de sua suntuosa fotografia (indicada ao Oscar) para contar uma história que, a despeito de não ser de muito interesse fora dos EUA, é contada de forma correta e inteligente.

Um projeto inicialmente cobiçado por Oliver Stone e Barry Levinson, "Hoffa" custou cerca de 35 milhões de dólares à 20th Century Fox e rendeu pouco mais de 20 milhões no mercado doméstico - o que não chega a ser uma surpresa, haja visto a rejeição do público a filmes com temática política.  A maior surpresa vem do fato de ser dirigido por Danny De Vito, até então o nome por trás de duas comédias de humor negro, "Joga a mamãe do trem" (87) e "A guerra dos Roses" (89): muito mais ambicioso e sério do que em suas incursões anteriores na direção, De Vito demonstra segurança ímpar em desenvolver uma trama repleta de idas e vindas temporais e detalhes a respeito de política americana sem perder o ritmo - ainda que o roteiro de Mamet demore um pouco mais do que deveria para finalmente envolver o espectador e exija da plateia um prévio conhecimento de seus personagens. Com uma maquiagem indicada ao Oscar para transformar-lhe no protagonista, Jack Nicholson está em um grande momento da carreira, engolindo cada cena com os discursos inflamados do sindicalista - seus confrontos com Kennedy (Kevin Anderson) são o ponto alto do filme, oferecendo ao público a dramatização quase literal de um dos duelos políticos mais tensos dos anos 60.





Por incrível que pareça, é o roteiro de David Mamet, um dos mais respeitados dramaturgos americanos de sua geração, um dos problemas de "Hoffa": quando o filme começa, demora a deixar claro para os neófitos quem é o protagonista, quais suas intenções e as circunstâncias de seu relacionamento com o caminhoneiro Bobby Ciaro (Danny De Vito), que acaba por se tornar seu homem de confiança com o passar dos anos. Intercalando passado e presente - quando Hoffa e Ciaro estão em um restaurante à beira da estrada esperando por um encontro de negócios e relembrando sua história -, o roteiro especula sobre o destino do personagem central com um desfecho cru e violento que contrasta com o tom sóbrio e elegante adotado até então. Discordando da versão oficial divulgada pelo FBI, De Vito e Mamet criam um clímax dramaticamente mais envolvente, que surpreende pelo inesperado e pela direção competente. Infelizmente o filme se estende desnecessariamente por duas horas e meia - uma edição mais enxuta, especialmente na primeira parte do filme, faria muito bem ao resultado final e evitaria alguns momentos menos interessantes.

A seu favor, "Hoffa: um homem, uma lenda" tem alguns trunfos redentores: a fotografia de Stephen H. Burum (que perdeu o Oscar para "Nada é para sempre", de Robert Redford) é impecável, em cenas construídas milimetricamente para encher os olhos do espectador; a reconstituição de época também é extremosa e a trilha sonora de Thomas Newman é discreta e pouco invasiva, ajudando a estabelecer o clima de tensão que perpassa todo o filme. No entanto, é a presença de Jack Nicholson que torna a obra de Danny De Vito especial: não à toa, o veterano ator considera Jimmy Hoffa um de seus melhores personagens e uma de suas melhores interpretações. No final das contas, mesmo que tenha seus defeitos de ritmo e seja de interesse restrito, "Hoffa" é um filme acima da média sobre uma das personalidades fundamentais da política norte-americana do século XX.

segunda-feira

JOGA A MAMÃE DO TREM

JOGA A MAMÃE DO TREM (Throw momma from the train, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: Stu Silver. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael Jablow. Música: David Newman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Arne L. Schmidt. Produção: Larry Brezner. Elenco: Billy Cristal, Danny De Vito, Anne Ramsey, Rob Reiner, Kim Greist, Kate Mulgrew. Estreia: 11/12/87

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Anne Ramsey)

Em 1951, Alfred Hitchcock lançou um de seus mais emblemáticos filmes, "Pacto sinistro", baseado em um romance de Patricia Highsmith - e cujo tema central, a transferência de culpa, era um de seus preferidos. Quase quarenta anos mais tarde, comprovando a perenidade e importância de sua obra como referência cultural, uma comédia de humor negro chegava às telas inspirada em sua premissa e, apesar da inteligência acima da média do roteiro - e da falta de efeitos visuais de última geração e de grandes astros em seu elenco -, faturou alto nos EUA, com uma bilheteria de quase 60 milhões de dólares. Estreia do ator Danny De Vito como diretor, "Joga a mamãe do trem" também conseguiu um fato raro: driblou a resistência da Academia de Hollywood em levar comédias ao Oscar e deu à veterana Anne Ramsey uma indicação à estatueta de atriz coadjuvante.


Conhecida do grande público por seu trabalho como Mamma Fratelli, a matriarca do crime na comédia juvenil "Os goonies" (87), Ramsey foi a escolha mais do que perfeita de De Vito para encarnar a irascível e cruel mãe do aspirante a escritor Owen (o próprio diretor em momento inspirado) - e fonte de todos os seus males e inseguranças. Mesmo sofrendo de constantes dores durante as filmagens, devido a uma cirurgia feita para tratar um câncer na garganta, a atriz simplesmente rouba todas as cenas em que aparece, oferecendo ao filme um tom de história em quadrinhos que equilibra com precisão os momentos menos histriônicos do roteiro de Stu Silver. Sempre que Owen e sua mamãezinha querida estão em cena, o filme abandona a narrativa mais convencional - repleta de diálogos espertos e citações culturais - para mergulhar no absurdo: é a chance que o diretor tem em mostrar criatividade e versatilidade, ensaiando um humor negro que chegaria ainda mais longe em seu trabalho seguinte, "A guerra dos Roses" (89), estrelado por Michael Douglas e Kathleen Turner. Chegando quase ao pastelão, De Vito diverte a plateia, mas é quando ele flerta com o suspense e com a comédia de situações é que demonstra o quão acertada foi sua primeira experiência na cadeira de diretor.



Na verdade, a realização de "Joga a mamãe do trem" começou com um pequeno impasse, relativo a um detalhe imprescindível para a trama: os direitos de imagem de "Pacto sinistro", de posse da Warner Bros, que não parecia inclinada a cedê-los para uma produção de outro estúdio (no caso, a Orion Pictures). A solução apareceu na forma de uma troca comercial aparentemente vantajosa para ambos os lados: para poder utilizar trechos da obra de Hitchcock, a Orion cedia à Warner os direitos de sua bem-sucedida comédia "Arthur, o milionário sedutor" (81), para que o estúdio fizesse a continuação que estava em seus planos. A vantagem dupla foi apenas aparente, no entanto, já que, enquanto "Joga a mamãe do trem" se tornava um dos quinze filmes mais vistos de 1987, "Arthur 2" naufragava violentamente nas bilheterias. O sucesso do filme de De Vito, mais do que afirmar que nem sempre o público é previsível, mostrava também que, por trás de sua diminuta figura, havia um talento inversamente proporcional também como cineasta.

Em seu primeiro filme, De Vito interpreta Owen Lift, um solteirão tímido e inseguro que sonha em tornar-se escritor - a despeito de não demonstrar muito talento na função e viver humilhado por sua quase sádica mãe (Anne Ramsey). Ele frequenta as aulas de redação ministradas por Larry Donner (Billy Cristal), um autor frustrado e amargurado pelo fato de ter seu livro roubado pela ex-mulher - agora famosa e milionária. Preso em um bloqueio criativo devido ao trauma, Donner é procurado pelo insistente Owen em busca de conselhos, mas interpreta mal uma dica do escritor e, depois de assistir ao filme de Hitchcock, acredita que a solução para os problemas de ambos é um assassinato cruzado: ele viaja, então, para matar a ex-mulher de Donner, e o persegue para fazê-lo cumprir sua parte no trato e dar fim à sua beligerante genitora. Obviamente, as coisas não saem como previstas, e é aí que o roteiro e a direção, somados ao elenco impagável, transformam "Joga a mamãe do trem" em um passatempo divertido e inteligente e em uma das comédias mais relevantes dos anos 80.

PEIXE GRANDE

PEIXE GRANDE (Big fish, 2003, Columbia Pictures, 125min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John August, romance de Daniel Wallace. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Arne L. Schmit. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Richard D. Zanuck. Elenco: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alison Lohmann, Danny DeVito, Marion Cottilard, Steve Buscemi, Helena Bonham-Carter. Estreia: 10/12/03

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora

Dizem que a paternidade amolece o coração dos homens. E quando se assiste a “Peixe grande” a teoria ganha ainda mais força. Afinal de contas, o novo filme do diretor Tim Burton deixa de lado monstros, assassinos e criaturas bizarras para concentrar-se em uma bela história de amor entre marido e mulher, pai e filho, passado e presente. Tudo bem, o gosto por personagens excêntricos ainda se mantém intocado, mas dessa vez o criador de Edward Mãos de Tesoura pega bem mais leve em sua atração pelos tons sombrios e de humor negro. “Peixe grande” é o primeiro filme de Burton depois do nascimento de seu filho e talvez por isso seja tão delicado ao lidar com os temas que propõe.
    
Baseado em um romance de Daniel Wallace que quase foi filmado por Steven Spielberg com Jack Nicholson no papel central, “Peixe grande” conta duas histórias que se fundem em uma só, tendo como protagonista Edward Bloom, um homem incapaz de levar uma vida monótona. Quando o filme começa ele está à beira da morte (sendo brilhantemente interpretado por Albert Finney) e recebe a visita do filho único, William (Billy Crudup), com quem não tem uma relação das melhores, e que está prestes a também ser pai. Na verdade, o relacionamento entre os dois sempre esteve perto da superficilidade, uma vez que William não consegue aceitar o jeito de ser do pai, capaz de inventar histórias mirabolantes para contar cada momento de sua vida. Sentindo que não conhece a verdade sobre seu progenitor, o rapaz tenta separar o que é delírio e o que realmente aconteceu, contando pra isso com a ajuda da mãe, Sandra (Jessica Lange) e da esposa, a francesa Josephine (Marion Cottilard). Enquanto tenta lidar com a possibilidade da morte dele, William passa a recordar as histórias narradas por seu pai.

 

Mas a verdadeira pérola do filme de Burton – apesar da excelência dos atores que vivem o presente – encontra-se nas histórias contadas por Bloom. É lá, entre os visuais deslumbrantes criados por Dennis Gassner e fotografados por Phillipe Rousselot que está a essência do cineasta. Vivido na juventude por um carismático Ewan McGregor, Edward Bloom cai de amores pela jovem Sandra Templeton (interpretada por Alison Lohman) e vive aventuras inacreditáveis que incluem gêmeas siamesas, um dono de circo que vira lobisomem, um gigante de bom coração, uma cidade abandonada e até mesmo uma bruxa cujo olho de vidro prevê a morte dos interlocutores (vivida pela sra. Tim Burton, Helena Bonham Carter). Dentro do universo extremamente onírico que o cineasta acostumou seu público, são nas sequências da juventude de Bloom que “Peixe grande” deixa transparecer quem é seu capitão, mesmo que dessa vez ele fale mais suavemente à sua platéia.
    
“Peixe grande” é mais uma pequena obra-prima de Tim Burton, capaz de enternecer qualquer coração empedernido com seu belo discurso sobre amor, família, liberdade e principalmente sobre o poder da fantasia em ajudar a suportar a realidade de uma vida comum. Engraçado e terno, é o filme família que o diretor devia desde “Edward Mãos de Tesoura”.

IGUAL A TUDO NA VIDA

IGUAL A TUDO NA VIDA (Anything else, 2003, Dreamworks SKG, 108min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Benny Medina, Jack Rollins, Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Jason Biggs, Christina Ricci, Danny DeVito, Stockard Channing, Jimmy Fallon, Adrian Grenier. Estreia: 16/9/03

Woody Allen pode ser acusado de tudo, menos de ser desatento às novas gerações de atores que frequentam as telas de cinema. Um belo exemplo dessa afirmação é "Igual a tudo na vida", uma comédia romântica deliciosa e bastante engraçada na qual ele cede o espaço de protagonista ao até então limitado Jason Biggs, reservando para si um papel de simples coadjuvante - ainda que, no entanto, ele seja o dono das melhores e mais divertidas linhas de diálogo de um filme repleto de tiradas irresistíveis.

Biggs, mais conhecido por seu papel como protagonista do popular mas apelativo "American pie" teve a chance de sua carreira como Jerry, um jovem comediante que está com o relacionamento em crise (ecos dos antigos papéis de Allen?). Sua namorada é a aspirante a atriz Amanda (vivida por uma excelente Christina Ricci), bela e desequilibrada e que não consegue mais ter prazer sexual com o namorado. Pressionado por seu agente (Danny De Vito vivendo ele mesmo novamente, mas sempre bem) para encontrar o caminho certo para o sucesso, Jerry ainda precisa lidar com a visita da sogra (Stockard Channing roubando a cena), que resolve se mudar de mala e piano para seu minúsculo apartamento, com a intenção de pedir-lhe que a ajude a voltar aos palcos em um show musical. Desesperado com todas essas situações quase calamitosas à sua volta, o rapaz ainda ouve os conselhos de um roteirista mais experiente, David Gobel (o próprio Allen), que tem uma visão toda própria do mundo em que vive.     
 


Pouco compreendido tanto pela crítica quanto pelo público, "Igual a tudo na vida" é um dos trabalhos mais característicos do diretor nova-iorquino. Com diálogos hilariantes - especialmente aqueles entre Christina Ricci e Jason Biggs e deste com Allen - e insights divertidíssimos e inteligentes sobre a vida e o amor, o roteiro é dos mais equilibrados do cineasta, fugindo do estigma de diretor hermético e elitista. Ao centrar-se em poucas personagens, ele consegue ser sucinto e dar uma visão humana e delicada das relações amorosas, sem, no entanto, deixar de fazer rir nas horas certas.

Mas, apesar do texto engraçadíssimo, é mais uma vez na escalação do elenco que Allen surpreende. Se Jason Biggs não brilha como poderia, ao menos não compromete - e depois voltou a ser ator de um papel só. E Christina Ricci simplesmente rouba descaradamente todas as cenas em que aparece. Tudo bem que sua personagem é rica e dona de frases perfeitas, mas é a atuação da ex-menina prodígio que eleva Amanda a um patamar acima de mais uma garota neurotica, transformando-a em uma cativante e humana personagem que seduz a todos à sua volta. Uma atriz brilhante em um papel sob medida, que bem merecia ter sido lembrada pelo Oscar.

quinta-feira

AS VIRGENS SUICIDAS

AS VIRGENS SUICIDAS (The virgin suicides, 2000, American Zoetrope, 97min) Direção: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola, romance de Jeffrey Eugenides. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Melissa Kent, James Lyons. Música: Air. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Jasna Stefanovic/Megan Less. Produção executiva: Willi Baer, Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, Julie Constanzo, Dan Halsted, Chris Hanley. Elenco: Kirsten Dunst, Kathleen Turner, James Woods, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, A. J. Cook, Jonathan Tucker, Hayden Christensen, Hannah Hall, Leslie Hayman, Chelse Swain. Estreia: 12/5/00

Quando o psiquiatra chamado para atender a jovem Cecilia Lisbon - que tentou o suicídio cortando os pulsos aos 13 anos de idade - lhe diz "O que você está fazendo aqui, querida? Você nem é velha o bastante para saber o quão dura é a vida.", nenhuma resposta poderia ser mais certeira e verdadeira do que a disparada pela melancólica paciente: "Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos." O diálogo, curto mas direto, talvez seja o norte e uma espécie de bússola para melhor se entender o desenrolar de "As virgens suicidas", estreia de Sofia Coppola como cineasta depois de uma vexaminosa tentativa de ser atriz em "O poderoso chefão parte III", dirigido por seu papai Francis. Adaptado do primeiro romance do americano Jeffrey Eugenides (publicado em 1993), seu filme é um retrato delicado e sensível sobre um período da vida, que, ao contrário do que se costuma dizer por aí, pode ser tenebrosamente traumático, em especial para as garotas.

Tanto o livro de Eugenides quanto o roteiro de Sofia, bastante fiel à sua origem, não são explícitos em culpar a sociedade ou a família ou o capitalismo ou qualquer outro vilão que psicólogos e pretensos entendidos em adolescência tentam criar. Ao invés disso, tudo é visto de forma imparcial, quase documental. É sintomático que a trama seja narrada por gente de fora, como Tim Weiner (Jonathan Tucker) e Trip Fontaine (Josh Hartnett na juventude e Michael Paré na maturidade), que contam ao público a sua percepção (e a de seus amigos) da tragédia que envolveu as cinco meninas Lisbon em uma pequena cidade do Michigan no ano de 1974. Assim como Fontaine, a audiência não sai da sessão com certezas definitivas e sim com a sensação de pesar e tristeza, para a qual contribui a bela trilha sonora do Air. Talvez por também ser mulher - e logicamente ter passado pela adolescência - Sofia Coppola não aponta dedos para suas jovens protagonistas, mesmo que em muitos momentos elas não sejam exatamente exemplares (em especial Lux, vivida por Kirsten Dunst, de certa forma a personagem central da história e catalisadora dos surpreendentes eventos do roteiro).


As meninas Lisbon são filhas de um casal superprotetor, autoritário e religioso: a dona-de-casa Sara (Kathleen Turner deixando de lado sua persona sexy) e o professor Ronald (James Woods à vontade em um papel longe dos marginais com os quais acostumou seu público). Criadas quase isoladas das pessoas de sua idade - o que aumenta o clima de mistério a seu respeito entre os meninos da vizinhança - elas sofrem um baque quando a caçula, Cecilia (Hanna R. Hall), atenta contra a própria vida. O fato faz com que o casal repense a rigidez de suas normas, mas uma tragédia inesperada novamente afasta a família do convívio social, ao qual só retornarão alguns meses depois, quando Lux é convidada pelo bonitão Trip Fontaine a acompanhá-lo ao baile de formatura. Um impulso de Lux acaba deixando seus pais ainda mais tensos e, retiradas da escola e trancadas em casa, elas passam a comunicar-se com os vizinhos através de música. O mais importante desses amigos é Tim Weiner (Jonathan Tucker) - que narra a história através de suas lembranças afetivas em relação a ela.

"As virgens suicidas" é singelo, é quase etéreo. Sofia Coppola acompanha com carinho e delicadeza a trajetória de Lux e suas irmãs sem apressar o ritmo, sem apelar para o grotesco, sem explorar a sensualidade reprimida e pulsante de sua protagonista (que se transforma de menina de família em ninfa vingativa em um trabalho excelente de Kirsten Dunst). Sofia também surpreende ao explorar em Kathleen Turner e James Woods traços de suas personalidades pouco vistas nas telas (e é fascinante perceber como não é preciso muito destaque para que tanto Turner quanto Woods brilhem em seus papéis de pais impotentes diante da desgraça de seu núcleo familiar). E é comovente a forma com que a cineasta - então estreante - consegue dizer tanto em tão poucas (e belamente fotografadas) imagens. Não é preciso que os corpos das virgens suicidas sejam mostrados para que o público se sinta tocado e emocionado. De uma certa forma suas almas já haviam sido desnudadas pouco antes - e isso é bem mais chocante e arrasador.

"As virgens suicidas" é o primeiro e paradoxalmente o mais maduro trabalho de Sofia Coppola como cineasta. Depois dele ela assinaria o bem-sucedido "Encontros e desencontros" (que lhe deu o Oscar de roteiro original) e os polêmicos "Maria Antonieta" e "Em qualquer lugar". Nenhum deles atingiu a medida certa entre melancolia e nostalgia de sua estreia.

terça-feira

O MUNDO DE ANDY

O MUNDO DE ANDY (Man on the moon, 1999, Universal Pictures, 118min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karasewski. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Adam Boomme, Lynzee Klingman, Christopher Tellefsen. Música: REM. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria Nay. Produção executiva: Michael Hausman, George Shapiro, Howard West. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti. Estreia: 22/12/99

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Jim Carrey)
Vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim


O americano Andy Kaufman foi talvez o mais ousado comediante surgido nos EUA nos anos 80. Longe de ser apenas um humorista, ele ambicionava ser um homem da indústria de entretenimento, provocando a audiência e buscando incessantemente realizar tudo o que ainda não havia sido feito. Morto devido a um câncer, Kaufman foi homenageado pela banda R.E.M. - cujo vocalista Michael Stipe é seu fã declarado - com a canção "Man on the moon" e pelo cineasta tcheco Milos Forman com uma cinebiografia informal e criativa, batizada com o nome da bela obra de Stipe e no Brasil lançada com o péssimo título "O mundo de Andy", talvez para forçar a comparação com o filme anterior de seu astro Jim Carrey - "O show de Truman" - já que o protagonista era praticamente desconhecido do grande público tupiniquim (a não ser aos espectadores da série "Taxi", reprisada na TV a cabo).

Fã de personagens à margem da sociedade - como o rebelde vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho" e o excêntrico milionário da pornografia interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" - Forman encontrou na personalidade complexa de Andy Kaufman o material perfeito para mais um grande filme. Graças a um inspirado roteiro da dupla Larry Alexander e Scott Karaszewski (também responsáveis pelo ótimo texto de "Larry Flynt" e da homenagem de Tim Burton ao pior cineasta da história, em "Ed Wood"), Forman consegue apresentar seu protagonista e suas criações sem apressar ou retardar nada, com um invejável ritmo e com um delicioso senso de humor, reflexo das ironias ora escrachadas ora sutis de seu homenageado, que frequentemente ultrapassava as barreiras do bom gosto com suas brincadeiras, e com isso conquistou tanto fãs quanto detratores - a ponto de ser expulso do programa "Saturday Night Live" por opção da plateia - e que encontra em Jim Carrey o intérprete ideal.



Depois de provar, com "O show de Truman", que sabia atuar a sério, Carrey, antes visto apenas como um ator de comédias físicas e descerebradas, mostra, em "O mundo de Andy", que não só é capaz de dar dimensões variadas a seus personagens como também consegue transformar-se visualmente e dedicar-se com paixão a projetos tão pouco comerciais (sua escolha para o papel, inclusive, tem a ver com negócios, uma vez que o próprio estúdio optou por ele em detrimento de Edward Norton, planejando uma bilheteria milionária que nunca aconteceu). O trabalho irretocável de Jim - não apenas como Kaufman mas também como suas criações, como o cantor de cassinos Tony Clifton e o mecânico estrangeiro Latka, entre outros menos cotados - consegue até mesmo sobressair-se sobre a delicada atuação de Danny De Vito (também produtor do filme) como o empresário do comediante e sobre a midiática presença da cantora Courtney Love, em seu segundo trabalho com o diretor.

Contado de forma episódica e criativa, “O mundo de Andy” é imprevisível desde sua primeira cena, com os créditos de encerramento logo no início do filme. A cinebiografia do ator que chegou a ser excluído do popular “Saturday night live” - a pedido do público que não agüentava mais suas brincadeiras de mau-gosto – usa das convenções de um filme de seu gênero para conquistar a audiência e apresentar o “maldito” a platéias que, do contrário, não teriam acesso a seu tipo especial de fazer humor. É um trabalho inteligente cujo brilhantismo a bilheteria medíocre nos EUA apenas reitera. Afinal de contas, quantos filmes realmente bons fazem sucesso sem explosões e nudez gratuita?

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER


O HOMEM QUE FAZIA CHOVER (The rainmaker, 1997, American Zoetrope/Constellation Entertainment/Douglas/Reuther Productions, 135min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Michael Herr, romance de John Grisham. Fotografia: John Toll. Montagem: Barry Malkin. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch. Produção: Michael Douglas, Fred Fuchs, Steven Reuther. Elenco: Matt Damon, Claire Danes, Danny DeVito, Mickey Rourke, Roy Scheider, Virginia Madsen, Mary Kay Place, Jon Voight, Dean Stockwell, Teresa Wright. Estreia: 18/11/97

Francis Ford Coppola é um cineasta de extremos. Ou tem lapsos da mais absoluta genialidade e produz filmes definitivos como "O poderoso chefão" e "Apocalypse now" ou assina fracassos estrondosos como "O fundo do coração" e "Tucker, um homem e seu sonho" (que, a despeito de sua qualidade fazem parte de uma nada lisonjeira lista de prejuízos absolutos). Por isso, não deixa de ser estranho ver seu nome estampado nos créditos de "O homem que fazia chover", mais uma adaptação para o cinema de um livro de John Grisham. Não que o filme tenha sido um erro total ou um furo comercial - mas porque em nenhum momento dos seus longos 135 minutos se percebe o talento visionário e a paixão que imprimiu em seus melhores trabalhos. "O homem que fazia chover" é um ótimo drama de tribunal - que felizmente não se resume somente às cenas do julgamento em si - mas, se é uma das melhores recriações da obra de Grisham para as telas, é apenas um filme correto dentro da filmografia genial de seu diretor.

Como sempre acontece nas histórias de Grisham, o protagonista é um advogado o jovem Rudy Baylor (Matt Damon) acaba de formar-se em Direito e, antes mesmo de passar no exame da Ordem, é contratado pela firma do misterioso Bruiser Stone (Mickey Rourke), para onde leva dois casos dos quais já cuidava; o testamento da velha senhora Birdie (Teresa Wright) - em cujo apartamento dos fundos ele mora, e um importante caso contra uma empresa de planos de saúde, que se recusa a pagar o tratamento de leucemia do jovem Donny Ray Black (Johnny Whitworth). Enquanto tenta levar o poderoso à julgamento - contando com a ajuda do colega Deck Shifflet (Danny DeVito),cujo maior talento é aliciar possíveis clientes em hospitais e delegacias - Baylor se apaixona por Kelly Riker (Claire Danes), uma jovem vítima de um marido abusivo.


O que há de melhor em "O homem que fazia chover" é a sua narrativa clássica e linear. Diferentemente do que fez em "Drácula de Bram Stoker", quando abusou de sua veia criativa em sequência de poesia ímpar que expandiam a trama criada pelo autor irlandês, aqui o cineasta se atém a contar a história imaginada por Grisham, sem apelar para efeitos de luz e sombra ou subterfúgios outros. O público que se dispor a assistir ao filme é presenteado com uma história simples de bem contra o mal - um tanto maniqueísta, sim, mas interessante o suficiente para manter a atenção até o final. E é fundamental para que a audiência torça por seu protagonista que ele seja vivido por um ator como Matt Damon. Em vias de tornar-se queridinho de Hollywood por "Gênio indomável" - que lhe deu um Oscar de roteiro original - Damon é a perfeita encarnação do rapaz boa-pinta, de bom coração e sensível com que a plateia pode (e deve) identificar-se. Sua escalação, um golpe de mestre de Coppola, dá o tom exato do que é "O homem que fazia chover": um filme simples, sem maiores sofisticações.

Mas por simples que não se entenda simplório. Apesar de não buscar soluções inéditas ou enquadramentos mirabolantes de câmera, Coppola não se descuida do roteiro - que ele mesmo adaptou. Ainda que as personagens não sejam exatamente multidimensionais, elas proporcionam a seus atores boas oportunidades de demonstrar seu talento. Mary Kay Place dá o tom exato a sua Dot Black, a mãe do jovem Donny Ray, uma mulher determinada a não deixar que o sofrimento de seu filho passe em branco. Danny DeVito brilha como o divertido Deck Shifflet e até mesmo coadjuvantes rápidos - como Dean Stockwell e Virginia Madsen - estão em momentos bastante inspirados. Talvez nesse cuidado com a direção de atores esteja mais claro o envolvimento do cineasta com o projeto, cujo resultado final recebeu a total aprovação de seu criador. De todas as adaptações de livros seus feitos por Hollywood, "O homem que fazia chover" é a preferida de John Grisham.

"O homem que fazia chover" é competente, é extremamente bem feito e tem um elenco exemplar. Não é nem de longe o melhor Francis Ford Coppola da história, mas é entretenimento de primeira linha e é bem capaz de empolgar os fãs do gênero.

LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA



LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA (L.A. Confidential, 1997, Regency Enterprises/Warner Bros, 138min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Curtis Hanson, Brian Helgeland, romance de James Ellroy. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Dan Kolsrud, David L. Wolper. Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan. Elenco: Russell Crowe, Guy Pearce, Kevin Spacey, James Cromwell, Kim Basinger, Danny DeVito, David Strathairn, Ron Rifkin, Simon Baker, Matt McCoy, Paul Guilfoyle. Estreia: 19/9/97


9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Curtis Hanson), Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Basinger)

Até 1997 Curtis Hanson não parecia ser mais do que um cineasta-padrão de Hollywood, entregando filmes bastante competentes mas nunca geniais, como "Uma janela suspeita", "A mão que balança o berço" e "O rio selvagem". Por isso, quando "Los Angeles, cidade proibida" foi lançado todo mundo na capital do cinema - e mais os críticos e os fãs de bom cinema - ficou de queixo caído. Emulando com propriedade o estilo noir dos filmes policiais dos anos 40, Hanson assinou um filme extraordinariamente bom, capaz de competir de igual pra igual com os maiores clássicos do gênero. Premiado como melhor filme por praticamente todas as associações de críticos americanos, "Los Angeles" só não levou o Oscar e o Golden Globe por ter esbarrado em um iceberg gigantesco chamado "Titanic". Mas até mesmo os admiradores da mega-produção de James Cameron são obrigados a concordar que, em termos de narrativa e inteligência "Los Angeles" ganha de goleada.

Baseado em um extenso romance de James Ellroy publicado em 1990, o impecável roteiro de Hanson e Brian Helgeland consegue o feito raro de melhorar a história do escritor, tornando-a mais concisa e com menos tramas paralelas que não acrescentavam muito ao enredo central. Enquanto no livro a ação acontecia dentro de um espaço de tempo bastante vasto - quase uma década - o filme concentra tudo em cerca de um ano e opera algumas mudanças cruciais em alguns protagonistas, o que de forma alguma macula a escrita de Ellroy, um escritor cujo estilo seco tem fãs ardorosos - e cujo "Dália negra" foi posteriormente adaptado por Brian DePalma sem nem um terço do charme e do sucesso de "Los Angeles". Especializado em tramas policiais passadas na terra do cinema, Ellroy usa histórias reais como material de inspiração e pano de fundo para tramas que falam sobre corrupção, assassinatos e sexo. Fez isso com maestria em "Los Angeles, cidade proibida", cuja profusão de personagens e acontecimentos é resumida brilhantemente em forma de roteiro.

Tudo começa no dezembro de 1953. Considerados como a melhor força policial do país, os homens liderados pelo Capitão Dudley Smith (James Cromwell) passam por uma paradoxal situação, uma vez que o crime organizado cujo líder Mickey Cohen (Paul Guilfoley) manda e desmanda na região. Na mesma época em que o gângster é violentamente assassinado, uma chacina movimenta a cidade e mobiliza a imprensa e os detetives. Chamado de "O massacre de Nite Owl", a chacina que vitimou os clientes de uma lanchonete - inclusive um ex-detetive dispensado pouco antes - acaba sendo o primeiro caso importante de Ed Exley (Guy Pearce), um jovem e ambicioso tenente-detetive que vive à sombra do talento do pai. Comandando a investigação do crime - mesmo sendo desprezado por todos os colegas por ter sido o delator em um incidente no Natal - ele torna-se herói ao salvar uma jovem mexicana vítima de abuso sexual. No entanto, logo ele descobre que as coisas não são exatamente como parecem e que policiais corruptos podem estar envolvidos em uma grande rede de mentiras e violência. Para isso, ele precisa unir-se a outros dois detetives bastante diferentes de si mesmo: Bud White (Russell Crowe), um brucutu agressivo que se dedica a proteger mulheres vítimas de agressão doméstica e Jack Vincennes (Kevin Spacey), um vaidoso investigador que complementa seus ganhos como consultor de um programa de TV e ajuda o repórter sensacionalista Sid Hudgens (Danny De Vito) com suas reportagens na revista "Hush Hush", especializada em escândalos dentro da comunidade hollywoodiana. Juntos, Exley, Vincennes e White vão desbaratar uma complicada teia de intrigas que inclui uma rede de prostituição comandada por Pierce Patchett (David Strathairn), da qual faz parte a bela Lynn Bracken (Kim Basinger), que se envolve romanticamente com Bud White.


É difícil resumir a complexa trama de "Los Angeles, cidade proibida", tamanha é sua profusão de detalhes, personagens e situações. Organizar tudo de forma palatável a uma plateia tão mal-acostumada a historinhas mal costuradas é um mérito inquestionável do roteiro, que não deixa nenhum furo em seu caminho. Tudo que é dito e mostrado por Hanson é de extrema importância para o desenrolar da história, mesmo que a princípio pareça apenas uma forma de apresentar as personagens, todas elas construídas exemplarmente, diga-se de passagem (ainda que tenham passado por pequenas alterações do livro para a tela). O cuidado que Hanson tem com a reconstituição de época também tem com suas personagens e isso fica claro quando, na reta final, todas as cartas são embaralhadas e o público se deixa surpreender com revelações totalmente críveis ainda que inesperadas. A complexidade de personagens como Bud White - que repudia a violência contra a mulher e acaba sendo forçado a ela - e Ed Exley - que se vê obrigado a tomar atitudes que jamais tomaria nos primeiros minutos - encontra intérpretes ideais em um elenco que não poderia ser melhor.

Se foi Kim Basinger quem levou o Oscar de coadjuvante - por uma atuação correta mas nada mais do que isso - são seus colegas de elenco quem deveriam ter sido premiados. Kevin Spacey mais uma vez mostra seu imenso talento para a sutileza construindo um Jack Vincennes que equilibra cinismo com amargura na medida certa - a cena em que ele e Exley encontram Lana Turner em um bar é hilária. James Cromwell como o Capitão Dudley Smith, figura crucial na trama, mostra-se perfeitamente à vontade com as viradas de sua personagem. Guy Pearce - que ficou com o papel mesmo contra a vontade dos produtores, que não queriam um australiano no papel do americaníssimo Ed Exley - apaga a imagem de sua drag-queen de "Priscilla, a rainha do deserto", entregando um desempenho ideal. Mas é Russell Crowe quem rouba todas as cenas das quais participa. O ator neozelandês tornou-se queridinho de Hollywood depois de seu trabalho irretocável como Bud White, um policial truculento com um lado doce raramente revelado. Os olhos cheios de fúria de Crowe e sua interpretação avassaladora são o início de uma carreira meteórica que o levaria a concorrer a 3 Oscar consecutivos - e levar um por seu trabalho menos brilhante como ator, em "Gladiador".

Quaisquer elogios que se faça a "Los Angeles, cidade proibida" são poucos, tamanha sua força e brilhantismo em todos os quesitos. Impecável em qualquer nível - e encharcado de uma violência e uma sensualidade ímpares mas nunca vulgares - a obra-prima de Curtis Hanson é um daqueles filmes que só surgem uma vez a cada década. E que, como acontece com os clássicos, melhora a cada revisão. E quem precisa de uma chuva de Oscar quando se é tão perfeito?

sábado

A GUERRA DOS ROSES

 
 A GUERRA DOS ROSES (The war of the Roses, 1989, 20th Century Fox, 116min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Michael Leeson, romance de Warren Adler. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Doug Claybourne, Polly Platt. Produção: James L. Brooks, Arnon Milchan. Elenco: Michael Douglas, Kathleen Turner, Danny DeVito, Marianne Sagebrecht, Sean Astin. Estreia: 08/12/89

Em 1987, o ator Danny DeVito provou que também tinha talento por trás das câmeras, com o sucesso crítico e comercial de "Jogue a mamãe do trem". Antes disso, ele contracenou com Michael Douglas e Kathleen Turner em dois sucessos de bilheteria - "Tudo por uma esmeralda" e "A jóia do Nilo" - que comprovaram a química entre os dois atores. Não foi nenhuma surpresa, então, quando os três voltaram a trabalhar juntos em "A guerra dos Roses", uma comédia de humor ainda mais negro do que o primeiro filme de DeVito. Baseado no livro de Warren Adler - que teve uma continuação lançada mais de uma década depois - o roteiro consegue ao mesmo tempo ser mordaz, irônico e dono de uma contundente crítica social. De quebra, apresenta atuações memoráveis do seu casal protagonista.


O filme é narrado por Gavin D'Amato (o próprio DeVito), um advogado que tenta demover um cliente de sua ideia de entrar com um processo de divórcio contando a história de um casal de clientes. Oliver e Barbara Rose (vividos por Douglas e Turner) se conheceram na juventude, se apaixonaram e subiram na vida juntos. Enquanto ela abandona uma promissora carreira como ginasta para dedicar-se ao casamento, ele foca toda sua energia em tornar-se um advogado bem-sucedido. Quando, depois que o casal de filhos gêmeos sai de casa para estudar, Barbara resolve começar um negócio próprio, ela percebe que não sente mais nada pelo marido, exceto repulsa e um ódio quase mortal. Ao entrar com o pedido de divórcio, no entanto, ela descobre que Oliver não está nem um pouco disposto a abrir mão da espetacular mansão em que eles vivem - e é justamente a casa que decorou com tanto esmero e cuidado a única coisa que ela deseja na custódia dos bens.

"A guerra dos Roses" começa como uma comédia romântica, ou no máximo, uma comédia como dezenas de outras. É somente aos poucos que DeVito vai levando o público em sua viagem de humor sombrio. De cena em cena a plateia é apresentada ao crescente desprezo de Barbara pelo marido ou da falta de fé de Oliver no ódio da esposa. Ainda apaixonado, ele não acredita que ela seja capaz de chegar aos extremos que ameaça. Quando ele vê que ela realmente o É, o filme deslancha de vez. Se como dona-de-casa entediada Kathleen Turner é boa, como ex-mulher enraivecida ela é ainda melhor.


A química entre Turner e Michael Douglas é gloriosa. Fica clara, em cada sequência, a intimidade entre os dois, que se divertem claramente frente às câmeras. É hilariante a maneira com que o diretor consegue utilizar detalhes - como a implicância do casal com os bichos de estimação um do outro - para apresentar, desde sempre, aquela centelha de raiva enrustida que os move. E a forma surpreendente com que o roteiro se desenrola é triunfo de uma história tão inacreditável que acaba sendo plenamente verossímel dentro de suas idiossincrasias. Tudo é tão deliciosamente exagerado no filme de DeVito que fica difícil não aceitar seu convite para a diversão.


"A guerra dos Roses" não é uma comédia no sentido tradicional. Seu humor não busca gargalhadas e sim a identificação da plateia com os meandros de uma relação desgastada pelo tempo e pela desilusão. De certa forma é até triste. Mas ao mesmo tempo é irresistível e garantia de duas horas de bom entretenimento.

sexta-feira

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.


Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

terça-feira

UM ESTRANHO NO NINHO


UM ESTRANHO NO NINHO (One flew over the cuckoo's nest, 1975, United Artists, 133min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman, baseado no romance de Ken Kesey e na adaptação da peça por Dale Wasserman. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Sheldon Kahn, Lynzee Klingman. Música: Jack Nitzsche. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton. Produção: Michael Douglas, Saul Zaentz. Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Brad Dourif, Christopher Lloyd, Danny de Vito, Will Sampson. Estreia: 19/11/75

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Ator Coadjuvante (Brad Dourif), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Roteiro Adaptado
Vencedor de 6 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (Jack Nicholson), Atriz/Drama (Louise Fletcher), Roteiro, Melhor Estreia/Masculino (Brad Dourif)


Em um dos períodos mais prolíficos de Hollywood em apresentar anti-heróis como protagonistas de seus filmes, surgiu, em 1975, mais um louvável exemplo disposto a fazer parte de seu histórico. Protagonista de um dos mais festejados dramas da época, Randle P. McMurphy foi um dos responsáveis, assim como “O iluminado”, feito cinco anos depois, de forjar a persona outsider de Jack Nicholson, com a qual ele já flertava no mínimo desde “Easy Rider”, de 1969. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Um estranho no ninho", a adaptação do romance de Ken Kesey conseguiu a proeza de ser um dos pouquíssimos filmes (três, até agora) a arrebatar os cinco principais Oscar - filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Assim como das outras duas vezes - uma antes e uma depois - todos os prêmios foram amplamente merecidos.

Em "Um estranho no ninho", Nicholson tem uma das mais eficazes interpretações de sua carreira na pele de McMurphy, um malandro que, em 1963, condenado por estupro, consegue enrolar as autoridades e, fazendo-se passar por doente mental, vai parar em um hospital controlado com mão-de-ferro pela rígida enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Sentindo-se aprisionado, ele passa a influenciar os demais pacientes do hospital, principalmente um jovem tímido e suicida Billy (Brad Dourif) e um índio calado e misterioso (Will Sampson). Suas atitudes, rebeldes e inconseqüentes, acabam por colocá-lo em rota de colisão com Ratched, o que os leva a uma guerra sem tréguas e com mais vítimas do que se poderia pressupor.


O romance de Ken Kesey já havia dado origem a uma peça de teatro estrelada por Kirk Douglas, que comprou os direitos de adaptação para o cinema. Achando-se velho demais para o papel principal, ele passou os direitos para seu filho Michael, que acabou ganhando um Oscar como produtor. O autor do livro detestou o resultado final da versão cinematográfica de sua obra - que, entre outras mudanças, era narrada através do ponto de vista do índio vivido por Will Sampson - e recusou-se a assistí-la até o fim. Sua recusa, apesar de compreensível tendo em vista seus sentimentos em relação à sua obra, apenas privou-o de assistir a um filme que não trai a essência de sua origem, expandindo-a de maneira delicada e nunca menos do que brilhante.

Dirigido com firmeza e uma certa ironia pelo sempre competente Milos Forman, “Um estranho no ninho” de certa forma, encaixa-se com perfeição, ao contrário de seu título, no período em que foi realizado. Herdeira da contra-cultura que dominava os EUA nos anos 70, a história retratada no filme contrapõe heróis (McMurphy, mesmo que não seja exatamente um exemplo de conduta e caráter) e vilões (Ratched, que, apesar de ter a seu lado a retitude moral, representa o poder estabelecido, por si só um vilão em uma época marcada, entre outras coisas, pela guerra do Vietnã) e embaralha suas personalidades, jogado longe o maniqueísmo que poderia facilmente surgir. A inteligência do roteiro e da direção em passar ao largo de situações fáceis encontra eco na atuação do elenco, impecável de um extremo a outro.
Se Jack Nicholson pontua o filme com brilhantismo, justificando seu primeiro Oscar de melhor ator, seus coadjuvantes também são exemplares. Brad Dourif e um jovem Christopher Lloyd fazem sua estreia com louvor – o primeiro chegou a ser indicado ao Oscar -, ao lado de atores mais experientes (e isso inclui um Danny de Vito ainda em início de carreira).

Mas quem consegue duelar com Nicholson sem que seja preciso utilizar-se de muitas palavras para isso é Louise Fletcher. Sua enfermeira Ratched, impassível, insensível e incapaz de sentimentos como compaixão é o contraponto ideal para a energia quase destruidora de McMurphy. Fletcher ficou com um dos papéis mais disputados da temporada e demonstra a cada cena que mereceu ser escolhida; seu olhar gélido e sua expressão inatingível são assustadores, motivos que a levaram a ganhar o Oscar de melhor atriz, mesmo que sua personagem apareça relativamente pouco, em comparação com a quase totalidade de cenas com Nicholson, o verdadeiro protagonista. Responsabilizar a fragilidade das interpretações femininas do ano de 1975 como a razão por sua vitória - como foi feito na época - é tirar dela os méritos inegáveis de uma atuação inesquecível e forte a ponto de não se intimidar frente a uma das mais marcantes performances do grande Jack.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...