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terça-feira

DOIS TIRAS MEIO SUSPEITOS

 


DOIS TIRAS MEIO SUSPEITOS (Partners, 1982, Paramount Pictures, 93min) Direção: James Burrows. Roteiro: Francis Veber. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: Danford B. Greene, Stephen Lovejoy. Música: Georger Delerue. Figurino: Wayne Finkleman. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/George Gaines. Produção executiva: Francis Veber. Produção: Aaron Russo. Elenco: Ryan O'Neal, John Hurt, Kenneth McMillan, Robyn Douglas, Jay Robinson, Denise Galik. Estreia: 30/4/82

Para que se goste de "Dois tiras meio suspeitos" é preciso que se leve em conta que seu humor - como o título nacional deixa bem claro - se baseia basicamente em clichês e estereótipos homossexuais, o que, à época de seu lançamento (1982) não era uma questão que chegava a incomodar o público médio que havia ignorado de forma ostensiva o policial "Parceiros da noite" (1980) e lotado as salas de exibição para rir do casal gay de "A gaiola das loucas" (1978) - não por acaso escrito pelo mesmo Francis Veber dessa produção de baixo orçamento da Paramount que não era do agrado dos executivos do estúdio e naufragou nas bilheterias. Descrito pela crítica como um cruzamento entre o filme estrelado por Al Pacino - que narrava as desventuras de um detetive inserido no submundo gay nova-iorquino para encontrar um serial killer - e "Um estranho casal", protagonizado por Jack Lemmon e Walter Matthau em 1968, "Dois tias meio suspeitos" é um típico exemplar dos chamados buddy movies, mas acrescido de uma temática gay que o coloca em uma seleta lista de produções que ousaram desafiar o conservadorismo que ditava as regras do cinema norte-americano na virada da década de 1980. É possível inclusive afirmar que seu pífio desempenho comercial tem mais a ver com a mentalidade das plateias do que por sua falta de qualidade. Mesmo que não seja uma comédia memorável, a única incursão de James Burrows no cinema merece créditos por, de uma forma ou outra, colocar nas telas um protagonista gay simpático que não sofre de problemas familiares ou morre vitimado pela AIDS.

Kerwin (John Hurt) é um sargento da polícia de Los Angeles que não consegue disfarçar sua orientação sexual - o que lhe dá enorme dificuldade em encontrar um parceiro profissional. Para sua surpresa, no entanto, ele é chamado por seus superiores e descobre que foi escalado para investigar uma série de assassinatos de homossexuais, aparentemente pelo mesmo criminoso. Se a missão não é exatamente novidade, a forma encontrada pelo departamento para atingir seu objetivo é bastante peculiar: infiltrar dois policiais na comunidade gay local e, apresentando-os como um casal, fazê-los chegar à identidade do serial killer. Rejeitado por seus colegas no dia-a-dia, Kerwin vê no caso a possibilidade de adquirir respeito e prestígio com a solução dos crimes, mas não poderia imaginar a dificuldade que surge da ideia. Seu novo parceiro, o sargento Benson (Ryan O'Neal), além de heterossexual convicto, é mulherengo, pouco afeito a sutilezas e não exatamente fã das consequências que podem advir desse capítulo de sua carreira. Missão dada e missão aceita: Kerwin e Benson precisam não apenas investigar mortes violentas, mas aprender a conviver com suas diferenças - especialmente Benson, cujo medo de ser realmente confundido com um homem gay é tão grande quanto o de ser morto no cumprimento do dever.

 

James Burrows, o diretor de "Dois tiras meio suspeitos", tornou-se, décadas depois do lançamento do filme, o responsável pela condução de mais de 240 episódios da série "Will & Grace" - além de ter, no currículo, trabalhos em "Friends", "Mike & Molly", "Cheers", "Frasier" e da série que originou-se de seu único trabalho no cinema (apresentada entre 2012 e 2013). Seu timing para comédia é inegável, buscando sempre o melhor efeito para arrancar gargalhadas do público - algo não muito difícil com a presença sempre certeira de John Hurt, capaz de fazer rir com o mínimo gesto ou entonação. Voltando ao universo gay que já havia lhe rendido um Emmy e outros prêmios por sua atuação como Quentin Crisp em "Vida nua" (1975) - papel ao qual retornou em "An Englishman in New York" (2009) -, Hurt se destaca principalmente em comparação com Ryan O'Neal: depois de uma década de 1970 repleta de êxitos (e uma festejada colaboração artística com Stanley Kubrick), O'Neal entrava em um período problemático na carreira, enfileirando um fracasso atrás do outro e colecionando críticas negativas. Em "Dois tiras meio suspeitos" ele desfila seu charme quase ingênuo em situações constrangedoras das quais se desincumbe com relativa eficácia. Sua dupla com Hurt funciona essencialmente graças ao contraste avassalador não apenas em termos visuais, mas também - e principalmente - em estilos de vida. Mais do que uma trama policial razoavelmente interessante, o roteiro de Francis Veber trata da relação conflituosa entre seus personagens centrais - e do poder miraculoso da tolerância.

Apesar de apelar para algumas sequências que podem incomodar ao público mais suscetível ao politicamente correto, "Dois tiras meio suspeitos" cumpre o que promete desde seu cartaz: fazer rir. Não atinge os níveis de sofisticação de "A gaiola das loucas" - cuja ironia enfatizava a hipocrisia da sociedade francesa -, mas brinca com os elementos típicos da comédia com o objetivo de atingir plateias pouco afeitas ao universo gay. Não deu muito certo em termos financeiros - apesar do orçamento modesto a produção entrou para a lista dos fracassos comerciais da Paramount na década de 1980 -, mas é divertido o bastante para que seus problemas sejam relevados pelo espectador menos exigente. Em um mundo mais atento às diferenças e à tolerância pode soar quase ofensivo. Mas, diante do conservadorismo norte-americano de sua época, não deixa de ser um filme bastante ousado.

segunda-feira

BARRY LYNDON


BARRY LYNDON (Barry Lyndon, 1975, Warner Bros,
185min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, romance de William Makepeace Thackeray. Fotografia: John Alcott. Montagem: Tony Lawson. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Roy Walker. Produção executiva: Jan Harlan. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Gay Hamilton, Frank Middlemass, Leonard Rossiter. Estreia: 11/12/75 (Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Conhecido por sua obsessão em termos profissionais, Stanley Kubrick dedicou boa parte de sua vida a pesquisar sobre Napoleão Bonaparte, a quem escolheu como tema de um seus filmes. Depois de ler alegadamente uma centena de livros sobre o líder francês e ter explorado o assunto por todos os ângulos, porém, viu seu projeto ser cancelado pela Warner Bros por problemas de orçamento - o que mostrou-se premonitório, haja visto o fracasso de "Waterloo" (1970), produzido por Dino de Laurentiis. Partiu, então, para a produção do controverso "Laranja mecânica" (1971) - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor - mas jamais abandonou a ideia de dirigir uma história passada no século XVIII e utilizar-se de todo o resultado de seus estudos. Foi então que mirou na obra do escritor William Makepeace Thackeray - mais precisamente em "Feira das vaidades", publicado em 1848. Com o tempo, ciente de que a vasta trama do livro não caberia em apenas três horas de duração, mudou novamente de alvo, mas ainda dentro do universo do autor, nascido na Índia em 1811. Surgia assim "Barry Lyndon", mais um de seus clássicos - e certamente a mais sofisticada de suas produções, premiada com 4 Oscar e celebrada pela crítica como uma obra-prima inquestionável.

Filmado na Inglaterra por longos nove meses - o que empurrou sua estreia para dezembro de 1975, quase dois anos e meio depois do começo da produção -, "Barry Lyndon" custou aos cofres da Warner aproximadamente 11 milhões de dólares, mas não foi um sucesso de bilheteria, para decepção do estúdio e do próprio diretor, que viu-se obrigado pela consciência a fazer de "O iluminado" - um projeto bem mais comercial - seu filme seguinte. Nem a exigência dos engravatados - de escalar um ator popular para o papel central, como forma de garantir seu sucesso financeiro - mostrou-se certeira. O apuro visual, o capricho na direção de atores e o roteiro (irônico e inteligente) não foram suficientes para conquistar a plateia. Sem as elocubrações filosóficas de "2001: uma odisseia no espaço" (1968) e o virtuosismo narrativo de "Laranja mecânica", o filme de Kubrick aposta em uma narrativa linear como forma de contar sua história, uma saga pessoal que satiriza com elegância a aristocracia europeia dos anos 1700. Com uma reconstituição de época impecável e uma fascinante direção de fotografia - que inclui belas sequências filmadas a luz de velas -, "Barry Lyndon" provou que o celebrado cineasta jamais poderia ser chamado de repetitivo.


 

A trama de "Barry Lyndon" começa com a morte do pai do protagonista, que se torna órfão ainda criança e passa a ser o centro das atenções de sua mãe. Vivendo na Irlanda do século XVIII, o rapaz, chamado Redmond Barry (e interpretado por Ryan O'Neal), se apaixona por sua prima, Nora Brady (Gay Hamilton), e tal sentimento é o catalisador de uma série de eventos que irá transformar sua vida pelas próximas décadas. Fugindo de uma acusação de assassinato - forjada por seu rival pelo amor da ambiciosa prima -, Barry acaba se unindo ao exército britânico na Guerra dos Sete Anos. Indolente e pouco honesto, ele deserta mas se vê obrigado a fazer parte do exército prussiano. Depois de salvar a vida de seu capitão, torna-se seu protegido, mas sua lealdade não é exatamente sólida e não demora a associar-se a Chevalier de Balibari (Patrick Magee), um jogador irlandês de quem só se afasta quando resolve dar o golpe do baú na milionária Lady Lindon (Marisa Berenson) - de quem assume também o sobrenome. Seu casamento com a viúva, porém, é destinado à tragédia, graças à rivalidade de Barry com seu enteado.

Talvez a maior ousadia de Stanley Kubrck em "Barry Lyndon" tenha sido a escolha de seu ator central. Um dos dez atores mais populares do cinema em uma pesquisa realizada em 1973 (ano do começo da produção), Ryan O'Neal só perdia, na época, para Clint Eastwood - logicamente velho demais para o papel. Vindo do sucesso de filmes como "Love story: uma história de amor" (1970), "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), O'Neal não era, apesar disso, a primeira opção do cineasta, que preferia Robert Redford, também parte da lista dos grandes astros do momento. Com a recusa de Redford - que logo em seguida voltaria ao topo com "Nosso amor de ontem" e "Golpe de mestre", ambos de 1973 - o futuro marido de Farrah Fawcett entrou no projeto como uma forma de somar prestígio ao sucesso comercial. Por um lado deu certo: mesmo com a direção do perfeccionista Kubrick, o ator que levou multidões aos cinemas com seu drama lacrimoso ao lado de Ali McGraw não teve a mesma sorte com a produção que poderia lhe dar o status de grande intérprete - mas obteve o respeito que tal empreitada oferece. Seu desempenho, porém, acabou eclipsado pela opulência da produção: dotado de um ritmo próprio, cuja lentidão é parte indissociável do tom imposto pelo roteiro e pela direção, "Barry Lyndon" encanta principalmente pela beleza plástica. Suas três horas e cinco minutos de duração - meros doze minutos a menos que "Spartacus" (1960) e com direito a intervalo - passam sem pressa diante dos olhos do espectador, que fascinado com a bela fotografia de John Alcott, o figurino de Milena Canonero e o desenho de produção de Ken Adam, se deixa envolver por uma trama iconoclasta, satírica e quase cínica. Com um protagonista que vive na sociedade do século XVIII com uma mentalidade moderna, "Barry Lyndon" é, a seu modo, também à frente de seu tempo. Pode não ter revolucionado o cinema, mas é mais um filme indispensável na carreira de um dos poucos diretores que podem ser realmente chamados de artista.

 

sexta-feira

LUA DE PAPEL

LUA DE PAPEL (Paper moon, 1973, Paramount Pictures, 102min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Joe David Brown. Fotografia: László Kovácks. Montagem: Verna Fields. Figurino: Polly Platt. Direção de arte/cenários: Polly Platt/John Austin. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Ryan O'Neal, Tatum O'Neal, Madeline Kahn, John Hillerman, P.J. Johnson, Jessie Lee Fulton. Estreia: 09/4/73

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Madeline Kahn), Atriz Coadjuvante (Tatum O'Neal), Roteiro Adaptado, Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Tatum O'Neal)

Os créditos de abertura já anunciam com precisão o tom saudosista e leve que virá pela frente: "Lua de papel", filme seguinte de Peter Bogdanovich à escrachada comédia "Essa pequena é uma parada" (72), estrelada por Barbra Streisand e Ryan O'Neal. No auge da carreira, é O'Neal também quem lidera o elenco dessa adaptação charmosa e lírica do romance de Joe David Brown, um olhar carinhoso sobre os EUA pós-Grande Depressão - que, por coincidência ou acesso de nostalgia por parte de Hollywood, era também o cenário do vencedor do Oscar do mesmo ano, "Golpe de mestre". Pensado inicialmente como um veículo para Paul Newman e sua filha Nell Potts sob a direção do veterano John Huston, "Lua de papel" acabou chegando às telas com outra dupla de pai e filha: Ryan - tentando apagar a imagem de mocinho romântico conquistado em "Love story: uma história de amor" (70) - e sua filha Tatum, estreando em cinema por sugestão da então esposa de Bogdanovich, a desenhista de produção Polly Platt. O resultado não poderia ter sido mais favorável: aos dez anos de idade, Tatum tornou-se a mais jovem vencedora do Oscar de atriz coadjuvante, recorde mantido ainda hoje, mais de quatro décadas depois - uma vitória que, diga-se de passagem, causou muita polêmica.

Primeiro foi a acusação, de parte de alguns membros da indústria, de que a atuação vivaz e inspirada da pequena Tatum, então com apenas oito anos, havia sido completamente fabricada por Bogdanovich na sala de edição - e que o cineasta havia realizado dezenas e mais dezenas de takes até dar-se por satisfeito com a menina (como se inúmeros outros diretores não fizessem o mesmo com atores bem mais experientes). Não bastasse essa controvérsia (que acabou por apagar-se com tempo e curiosamente não se repetiu com outra competidora juvenil da mesma categoria e do mesmo ano, Linda Blair, por "O exorcista"), anos mais tarde a própria Tatum O'Neal pôs lenha na fogueira a respeito de sua vitória, declarando em sua biografia, "Paper life", que Ryan, humilhado por ver a filha receber um Oscar ainda na infância enquanto ele sequer havia sido indicado, a espancou depois da premiação. Apesar da revelação contradizer as palavras do ator em uma entrevista de 1973 - em que afirmava ter aceito fazer o filme com a filha como forma de fortalecer seus laços familiares e que, se não fosse com ela, não teria sido convencido por Bogdanovich a ficar com o papel -, o fato é que as duras lembranças de Tatum provavelmente justificaram seus posteriores problemas com drogas e no relacionamento com os próprios filhos, de seu casamento com o tenista John McEnroe, encerrado em 1994.


Problemas de bastidores à parte, "Lua de papel" é uma delícia. Com algumas alterações em relação ao livro de Brown (como a idade da protagonista mirim, tornada mais jovem, o cenário - do Alabama para Kansas e Missouri - e o terço final, suprimido completamente), o roteiro de Alvin Sargent conquista o público sem dificuldade, graças principalmente ao carisma irresistível da pequena Tatum e do cinismo sedutor de Ryan, ambos excelentes e com uma química que somente a relação entre pai e filha de verdade conseguiria alcançar. A trama se passa nos anos 30, e começa quando Moses Pray chega ao funeral de uma antiga conhecida e é convencido pelos parentes da falecida a levar sua única filha, Addie, até a casa de uma tia, no Missouri. Acontece que Moses é um golpista contumaz, que se faz passar por vendedor de Bíblias para arrancar dinheiro de famílias enlutadas, e apesar de desconfiar que a menina pode ser sua filha (coisa que ela sabe que pode ser verdade), não tem a menor intenção de aproximar-se dela. No caminho, porém, a relação entre os dois sofre uma reviravolta quando a garota demonstra ser tão astuta quanto seu veterano companheiro - e os dois resolvem formar uma lucrativa parceria em golpes até o fim da jornada a caminho de casa.

Fotografado por László Kóvacs em um belo preto-e-branco (sugerido a Bogdanovich pelo cineasta Orson Welles) e dotado de uma reconstituição de época impecável, "Lua de papel" tem o ritmo de uma comédia clássica, mas é dotado de um coração e uma alma que, vez ou outra, se deixam entrever através do quase cinismo de seus personagens. São emocionantes os momentos em que a pequena Addie se lembra da mãe ou tenta conquistar o carinho daquele que tem certeza que é seu pai; é surpreendente quando Trixie Delight (Madeline Kahn, indicada ao Oscar de coadjuvante), que se prostitui para sobreviver em um país assolado pela pobreza, se permite ser honesta em relação à sua vida com a pequena rival pelas atenções de Moses; e são particularmente felizes as cenas em que a cumplicidade dos protagonistas se torna evidente mesmo diante de situações pouco felizes. No auge de sua carreira como cineasta - havia apenas dois anos que havia lançado o elogiadíssimo "A última sessão de cinema" -, Peter Bogdanovich oferece em seu filme um equilíbrio notável entre humor e emoção, sem deixar nunca de afirmar, ainda que sem palavras, que até mesmo os brutos também amam. Um filme delicioso e de aquecer o coração!

segunda-feira

O CÉU SE ENGANOU

O CÉU SE ENGANOU (Chances are, 1989, TriStar Pictures, 108min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Perry Howze, Randy Howze. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: Harry Keramidas. Música: Maurice Jarre. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Robert R. Benton. Produção executiva: Andrew Bergman, Neil Machlis. Produção: Mike Lobell. Elenco: Robert Downey Jr., Cybill Sheperd, Mary Stuart Masterson, Ryan O'Neal, Christopher McDonald, Josef Sommer. Estreia: 10/3/89

Indicado ao Oscar de Canção Original ("After all")


A vida não poderia estar indo melhor para o jovem advogado Louie Jeffries (Christopher McDonald): sua carreira está no rumo certo, é feliz em seu casamento com a bela Corinne (Cybil Sheperd) - apesar de saber que seu melhor amigo (Ryan O'Neal) é apaixonado por ela, conforme ele mesmo confessou no dia da cerimônia - e acaba de descobrir que será pai pela primeira vez. Sua imensa felicidade, porém, acaba no capô de carro, que o atropela a caminho de sua comemoração de um ano de casamento. Desesperada, sua alma chega ao céu implorando para que seja mandada de volta - além de sua linda esposa, seu fiel amigo e seu futuro bebê, ele também tem como provar um caso de corrupção envolvendo um juiz de Direito que pode decidir o futuro de um caso seu. Em sua pressa, ele não percebe que, mesmo furando a enorme fila que se forma no local, não irá voltar à Terra no mesmo corpo e na mesma personalidade e sim, reencarnado em outra pessoa. Sem tomar uma vacina que o faria esquecer sua vida anterior, Louie volta como Alex Finch. Vinte anos mais tarde, Alex, formado como jornalista (e na pele de Robert Downey Jr.), tenta um lugar ao sol e conhece a bela e determinada Miranda (Mary Stuart Masterson), estudante de Direito que se apaixona por ele. Na primeira visita à casa dela, porém, Alex se vê relembrando de cada detalhe da residência e leva um susto a descobrir que ela é filha de Corinne, ou seja, de si mesmo. Decidido a reconquistar a mulher que ama, ele precisa convencê-la do absurdo de sua história e afugentar a liberada Miranda (ao mesmo tempo em que também tem que lidar com o fato de ter uma filha disposta a tudo para seduzir o homem por quem é apaixonada).

Essa história, absurdamente fantasiosa mas deliciosamente leve e simpática, é a trama de "O céu se enganou", comédia romântica dirigida pelo mesmo Emile Ardolino que pegou Hollywood de surpresa com o êxito de "Dirty dancing, ritmo quente" (87) e depois faria ainda mais sucesso comandando Whoopi Goldberg em "Mudança de hábito" (90). Sem tentar inventar a roda e contando principalmente com o carisma e o talento ainda em fase de lapidação de Robert Downey Jr. - muitos anos antes que ele se tornasse o garoto-problema de Hollywood e depois desse a volta por cima como o Homem de Ferro - o cineasta, que morreu aos 50 anos em 1993, vítima de complicações relativas à AIDS trata sua história com naturalidade e bom-humor, em um estilo narrativo que muito lembra as comédias despretensiosas dos anos 40. Tal opção reflete-se também na escolha acertada da trilha sonora - que conta com a bela canção-título na voz de Johnny Mattis, a já clássica "Forever young", de Rod Stewart e "After all", balada indicada ao Oscar interpretada por Cher e Peter Cetera - e na escalação da bela Cybill Sheperd para o papel principal feminino.

Sheperd, ex-musa de Peter Bogdanovich em "A última sessão de cinema" (71) e então protagonista da telessérie "A gata e o rato" - que revelou Bruce Willis e estava em sua última temporada - está bela e etérea na pela de Corinne Jeffries, desfilando pela tela com a graça e a elegância das estrelas da antiga Hollywood. Não é difícil acreditar que tanto Downey Jr. quanto Ryan O'Neal sejam apaixonados por ela, mesmo que o roteiro por vezes trate sua personagem com certa leviandade. E o roteiro, como não poderia deixar de ser, esconde suas falhas na química perfeita entre o elenco, o tom despretensioso da direção e alguns momentos de humor realmente engraçados, principalmente quando se trata das tentativas desesperadas de Alex em fugir de Miranda e conquistar Corinne. O inegável talento de Robert Downey Jr. para o humor físico, que em boa parte lhe ajudou a conquistar o papel-título de "Chaplin" (92), pelo qual foi merecidamente indicado ao Oscar, está evidente em cada sequência, demonstrando claramente que sua ascensão rumo à realeza do cinema americano era iminente - ascensão esta interrompida por suas constantes lutas com a justiça e retomada com louvor com o sucesso reconquistado a partir de "Trovão tropical" (08).

"O céu se enganou" é mais uma sessão da tarde de categoria. Simples, divertida e ligeira, ela é também uma mostra do início da carreira de Downey Jr. e uma das poucas chances de testemunhar a beleza de Cybill Sheperd antes que ela desaparecesse das telas grandes e só voltasse a atuar com destaque em outro seriado de TV, que levava o seu nome e ficou no ar entre 1995 e 1998. Juntos, eles - coadjuvados com correção por Ryan O'Neal e Mary Stuart Masterson - são a principal atração do filme, que não machuca ninguém e ainda consegue entreter sem fazer muita força.

domingo

LOVE STORY, UMA HISTÓRIA DE AMOR


LOVE STORY, UMA HISTÓRIA DE AMOR (Love story, 1970, Paramount Pictures, 99min) Direção: Arthur Hiller. Roteiro: Erich Segal. Fotografia: Dick Cratina. Montagem: Robert C. Jones. Música: Francis Lai. Figurino: Alice Manougian Martin, Pearl Somner. Direção de arte / Cenários: Robert Gundlach / Philip Smith. Casting: Andrea Eastman. Produção executiva: David Golden. Produção: Howard G. Minsky. Elenco: Ali McGraw, Ryan O'Neal, Ray Milland, John Morley, Tommy Lee Jones. Estreia: 16/12/70

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Hiller), Ator (Ryan O'Neal), Atriz (Ali McGraw), Ator Coadjuvante (John Morley), Roteiro Original, Trilha Sonora Original.
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Arthur Hiller), Atriz/Drama (Ali McGraw), Roteiro e Trilha Sonora


Uma crônica publicada no jornal "O Globo" em 17 de julho de 1971 dizia o seguinte:
"Uma 'esquerdinha' foi vê-lo. Na saída, deu sua opinião, com boquinha de nojo: - 'Reacionário.' Porque trata de amor e de morte é reacionário. Se fosse uma antologia de perversões sexuais, as mais hediondas, não seria reacionário. Mas se nos mostrasse os 300 mil jovens que, na ilha de Wight, fizeram uma gigantesca bacanal, seria progressista." O autor da crônica prosseguia: "'Love story' é apenas história de amor. Mas faz o mesmo, exatamente o mesmo sucesso em toda a parte e em todos os idiomas. Se for projetada num boteco de Cingapura, para marginais e paus d'água fará chorar todos os traficantes de tóxicos."

A crônica chamava-se "Adeus à sordidez" e seu autor é ninguém menos que o genial dramaturgo, cronista e romancista Nelson Rodrigues. Auto-intitulado "anjo pornográfico", nem mesmo o autor de obras pessimistas como "O casamento" e "Perdoa-me por me traíres" conseguiu resistir a "Love story, uma história de amor", um dos maiores sucessos de bilheteria da Paramount nos anos 70. E, como ele mesmo declarou em sua crônica (disponível no livro "O reacionário", editado pela Cia das Letras), o filme de Arthur Hiller conquista justamente pela simplicidade de seu objetivo: em uma época voltada ao hedonismo, ao cinismo e a todos os "ismos" mais egoístas imagináveis, contar uma história de amor pura e simples foi como uma lufada de ar fresco que pegou todo mundo de surpresa.

Quando "Love story" estreou nos EUA, em dezembro de 1970, o livro de Erich Segal baseado em seu roteiro (o caminho inverso do que normalmente ocorre) já era um êxito de vendas. Sua vitória maciça na festa de entrega dos Golden Globes (cinco prêmios, inclusive melhor filme, diretor e atriz) e o generoso número de indicações ao Oscar (sete no total) apenas confirmaram que ainda havia espaço para romantismo no meio de filmes de guerra e filmes-catástrofe ("Patton", "M.A.S.H." e "Aeroporto" estrearam naquele ano). Naquele início de década, lavar a alma no escurinho do cinema foi o programa preferido de milhares de pessoas.


"Love story" acompanha o belo e sofrido romance entre Oliver Barrett IV (Ryan O'Neal), um jovem de família influente e abonada e Jennifer Cavalleri (Ali McGraw), a simples filha de um padeiro, que estuda música e sonha conhecer Paris. A paixão avassaladora que os acomete afasta o rapaz da companhia dos pais - com quem já não tinha a melhor das relações - e eles acabam se casando, construindo com esforço redobrado uma possibilidade de futuro menos árduo. Quando conseguem melhorar de vida e resolvem tentar ter um filho, descobrem que Jenny sofre de um câncer incurável e terminal.

Quintessência do melodrama lacrimoso - chamado pejorativamente de "tearjerker" (ou arranca-lágrimas) pelos críticos americanos - e quase apelativo, "Love story" funciona maravilhosamente. Mesmo sem ter um roteiro complexo - pelo contrário, as personagens são bastante rasas, sem muitas dimensões psicológicas - e ambições maiores do que simplesmente emocionar sua plateia, o filme de Arthur Hiller (que anos depois foi presidente da Academia de Hollywood) atinge seu objetivo com uma facilidade admirável. Para isso contribuem os elementos unidos por ele: elenco, trilha sonora e uma direção que não usa de firulas estilísticas e concentra-se apenas em contar uma história.

Ali McGraw, que vive Jenny, logo em seguida se casaria com Robert Evans, um dos executivos da Paramount (a quem trocou pelo ator Steve McQueen ainda nos anos 70). McGraw não possui uma beleza estonteante, retratando o protótipo da garota comum ("the girl next door") que faria a glória de muitas atrizes dos anos 90 (tais como Sandra Bullock antes de se levar a sério). Seu trabalho, delicado e emocionante, encontra um perfeito apoio em Ryan O'Neal, que ficou com o papel de Oliver depois que inúmeros outros atores declinaram do convite - a saber, entre eles encontram-se Beau Bridges, Peter Fonda, Michael Douglas, Michael York, Jon Voight e Jeff Bridges. Jovem, bonito e carismático, O'Neal conquista a audiência logo em sua primeira cena, convidando-a carinhosamente para acompanhar sua trágica paixão.

E a trilha sonora é um capítulo à parte. Mesmo aqueles que se fartaram de ouvir a bela e adocicada música do francês Francis Lai em dezenas de caixinhas-de-música pelas décadas subsequentes não podem negar que ela é uma das mais marcantes e melancólicas partituras criadas para o cinema em todos os tempos. Não foi à toa que levou o único Oscar do filme, que justamente por sua natureza extremamente comercial teve que suportar o desprezo dos críticos mais comprometidos com o aspecto artístico do cinema, que provavelmente assistiram ao filme com óculos escuros para esconder as lágrimas. Afinal, como bem dizia Nelson Rodrigues, "ou o sujeito é crítico ou é inteligente..."

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...