Mostrando postagens com marcador HELEN MIRREN. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HELEN MIRREN. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

GAROTAS DO CALENDÁRIO

GAROTAS DO CALENDÁRIO (Calendar girls, 2003, Touchstone Pictures/Buena Vista Pictures, 108min) Direção: Nigel Cole. Roteiro: Juliette Towhidi, Tim Firth. Fotografia: Ashley Rowe. Montagem: Michael Parker. Música: Patrick Doyle. Figurino: Frances Tempest. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Mark Raggett. Produção: Nick Barton, Suzanne Mackie. Elenco: Helen Mirren, Julie Walters, Ciarán Hinds, Celia Imrie, Penelope Wilton, Linda Bassett, John Alderton, Annette Crosbie, Geraldine James, Georgie Glein. Estreia: 09/8/03 (Festival de Locarno)

É impossível não lembrar de "Ou tudo ou nada" quando se assiste à "Garotas do calendário". Assim como na comédia de Peter Cattaneo - que ousou desafiar "Titanic" na corrida ao Oscar 98 -, o filme de Nigel Cole parte de um pressuposto inusitado para falar sobre autoestima, amizade e solidariedade sem nunca apelar para o sentimentalismo óbvio e a caricatura. Ambos os filmes tem o delicioso senso de humor inglês e os dois se subvertem a lei não escrita de que apenas os jovens e belos tem direito a ter orgulho do próprio corpo. Baseado em uma história real, "Garotas do calendário" é um entretenimento de primeira qualidade: divertido, simples, emocionante e repleto de grandes atrizes, lideradas pela sempre ótima Helen Mirren (indicada ao Golden Globe) e Julie Walters. E, mais do que isso, é mais uma prova de que boas histórias são universais mesmo quando parecem falar apenas sobre o próprio quintal - Tolstói sorriria de orelha a orelha.

A trama se passa na pequena cidade de Knapely, localizada emYorkshire, na Inglaterra. É lá, em uma localidade modorrenta e tediosa, que um grupo de mulheres de meia-idade se reúne, religiosamente, para discutir assuntos tão excitantes quanto jardinagem e decoração - além de tomarem parte em concursos de bolos e coisas do tipo. Pouco afeitas a esse marasmo, algumas das integrantes do Instituto Feminino sonham em tomar parte de algo mais divertido e, sem que percebam, logo tem a grande chance de fazer isso acontecer: a morte do marido de Annie Clarke (Julie Walters), vítima de leucemia, dá uma ideia à Chris Harper (Helen Mirren): como forma de arrecadar dinheiro para comprar um sofá para a sala de espera do hospital da cidade, ela sugere que seu grupo pose para um calendário a ser vendido na comunidade. Todas aceitam, até que um detalhe as pega de surpresa: Chris quer que elas posem nuas, em atividades cotidianas. Batendo de frente com a líder do Instituto, a severa Marie (Geraldine James), o grupo aceita o desafio - e suas vidas se transformam em uma roda-viva de compromissos e elogios pelo país inteiro, além de mudarem também seu dia-a-dia familiar e conjugal.


Se Chris, no papel de líder do grupo dissidente, entra em crise em seu casamento com Rod (Ciarán Hinds) e se afasta sem perceber da criação do filho, outras companheiras se descobrem mais femininas e desejáveis, especialmente Ruth (Penelope Wilton), que descobre o relacionamento extraconjugal do marido e o abandona sem maiores dramas. A felicidade e o orgulho, porém, ficam ligeiramente ameaçados quando, descobertas por Hollywood, elas nem se dão conta do afastamento de Chris e Annie - antes melhores amigas inseparáveis, elas veem a fama e o prestígio atrapalhar seu relacionamento, principalmente quando os objetivos do calendário tornam-se diferentes para as duas: enquanto Chris aproveita o momento de celebridade para promovê-lo, Annie prefere responder às cartas enviadas por centenas de mulheres que passaram por seu drama de perder o marido. Tal impasse as coloca em caminhos quase opostos quando precisam desafiar o preconceito e o conservadorismo de seus vizinhos, a princípio chocados com as fotos, mas depois encantados com o resultado inesperado que elas produzem.

Uma história real contada com respeito e sinceridade, "Garotas do calendário" não é um filme perfeito. Sua segunda metade - quando elas passam a experimentar o gostinho da fama - é menos interessante do que sua primeira parte, em que o humor rola solto sempre que as tentativas de fazer as famigeradas fotografias surgem pela frente. Helen Mirren segura com maestria a responsabilidade de liderar um elenco feminino impecável, transitando sem erro entre o drama e a comédia mesmo quando o roteiro nem sempre lhe dá material para isso: o conflito entre as amigas no terço final da narrativa soa um tanto forçado para providenciar o desfecho emocional, mas Mirren e Julie Walters são tão boas que conseguem até disfarçar tal artifício pouco criativo. No final das contas, elas e suas companheiras fazem valer o espetáculo, que transcorre de forma agradável e bem-humorada até o final alto astral. Um excelente feel good movie, com tudo que se pode esperar de uma produção com o DNA britânico.

segunda-feira

INTRIGAS DE ESTADO

INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09

Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.

Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.


Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.

O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.

A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.

sábado

BELEZA OCULTA

BELEZA OCULTA (Collateral beauty, 2016, New Line Cinema/Village Roadshow Pictures, 97min) Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Marcus. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Kara Zeigon. Produção executiva: Michael Bederman, Bruce Berman, Richard Brener, Peter Cron, Michael Disco, Toby Emmerich, Steven Muchin, Steven Pearl, Ankur Rungta. Produção: Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes, Allan Loeb, Michael Sugar. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore. Estreia: 12/12/16

Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.

Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.


O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.

Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.

quinta-feira

A 100 PASSOS DE UM SONHO

A 100 PASSOS DE UM SONHO (The hundred-foot journey, 2014, DreamWork Studio/Amblin Entertainment, 122min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Steven Knight, romance de Richar C. Morais. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Andrew Mondshein. Música: A.R. Rahman. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: David Gropman/Sabine Delouvrier, Seema Kashyap, Marie-Laure Valla. Produção executiva: Carla Gardini, Caroline Hewitt, Jonathan King, Jeff Skoll. Produção: Juliet Blake, Steven Spielberg, Oprah Winfrey. Elenco: Helen Mirren, Om Puri, Manish Dayal, Charlotte Le Bon, Amith Shah, Michel Blanc. Estreia: 07/8/14

Lasse Hallstrom - o cineasta sueco que conquistou Hollywood com seu lírico "Minha vida de cachorro", pelo qual concorreu ao Oscar de melhor direção em 1988 - não é nenhum novato quando se trata de comandar filmes cuja gastronomia tem papel preponderante. Em 2000, ele dirigiu Juliette Binoche e Johnny Depp em "Chocolate", que, a despeito de ser apenas razoável abocanhou uma indicação ao Oscar de melhor filme, graças à máquina de marketing da Miramax. Passando por um período de pouca criatividade, assinando filmes fracos como "Querido John" e "Um porto seguro", ambos baseados em romances de Nicholas Sparks, Hallstrom voltou a acertar a mão justamente em uma produção que se utiliza da paixão pela comida como ingrediente central. Produzido por Steven Spielberg e Oprah Winfrey, "A 100 passos de um sonho" arrecadou mais de 50 milhões de dólares nos EUA - contra um orçamento modesto de pouco mais de 20 milhões - e ainda rendeu à Helen Mirren uma inesperada indicação ao Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical. Nada mais justo. Apesar de ser despretensioso e simples, o filme é uma deliciosa trama romântica e bem-humorada, que se aproveita do embate cultural entre franceses e indianos para construir uma delicada história de amor e fraternidade, ilustrada com momentos de puro tesão gastronômico.

Apesar do nome de Mirren encabeçar os créditos do filme, o verdadeiro protagonista de "A 100 passos de um sonho" é o jovem indiano Hassan Kadam (Manish Dayal), que chega a um vilarejo da França acompanhado do pai (Om Puri) e dos irmãos, disposto a recomeçar a vida depois da morte da mãe e dos problemas políticos locais que destruíram o restaurante da família. Depois de alugar um prédio que já havia abrigado outros estabelecimentos semelhantes, porém, o clã dos Kadam descobre o motivo pelo qual nada dá certo no lugar: exatamente em frente - a contados cem passos - fica o tradicional e respeitadíssimo restaurante "Le Saule Pleurer", comandado com mão de ferro pela dedicada Madame Mallory (Helen Mirren), que tem como objetivo máximo e urgente conseguir uma segunda estrela dos Guias Michelin - o que o colocaria em lugar de destaque na culinária mundial. Sentindo-se ameaçada pela presença dos estrangeiros, a elegante viúva começa, então, um jogo sujo de trapaças que acaba por aproximá-la ainda mais dos rivais. Enquanto isso, Hassan não consegue esconder a paixão que sente por Marguerite (Charlotte De Bon), uma funcionária de Madame Mallory.

Dividido em três atos bem discerníveis - a briga entre os restaurantes, a união entre as duas famílias e o sucesso profissional de Hassan - "A 100 passos de um sonho" sofre uma queda de ritmo em seu terço final, quando abandona sua premissa inicial para focar-se nos desafios de seu protagonista em Paris, mas tem a seu favor um elenco coeso, um roteiro simples e direto (escrito pelo mesmo Steven Knight que pouco depois dirigiria Bradley Cooper em "Pegando fogo", que também utiliza a culinária como pano de fundo) e o melhor trabalho de direção de Lasse Hallstrom desde "Regras da vida" (que lhe deu a segunda indicação ao Oscar da carreira, em 2000). Inspirado talvez pela beleza da cultura indiana ou talvez pela possibilidade de versar sobre a diversidade cultural através de uma arte que ainda não atingiu todo o seu potencial no cinema, o cineasta (que também é o nome por trás de inúmeros videoclipes do grupo pop ABBA) está em seus melhores momentos, deixando de lado o sentimentalismo de seus últimos trabalhos e acrescentando à história - baseada em livro de Richard C. Morais - uma sensibilidade visual própria e delicada, valorizada pelas atuações de Helen Mirren, Om Puri e Manish Dayal, que ilustram com perfeição a guerra cultural proposta pela trama.

Simpático e sem firulas, "A 100 passos de um sonho" é um filme que conquista pela despretensão. Sem apelar para efeitos visuais ou malabarismos narrativos, é uma obra que cativa aos poucos, graças a personagens desenvolvidos com um mínimo de inteligência e sutileza e uma história que mistura, em doses exatas, romance, drama, comédia e um pouquinho de crítica social. Impossível não se deixar envolver, apesar da duração um tanto excessiva - uns quinze minutos a menos e seria ainda melhor. Ainda assim, é uma bela opção para uma sessão descompromissada para os cinéfilos que valorizam uma boa história e um bom elenco - e Helen Mirren sempre vale uma espiada.

domingo

HITCHCOCK

HITCHCOCK (Hitchcock, 2012, 20th Century Fox, 98min) Direção: Sacha Gervasi. Roteiro: John J. McLaughlin, livro "Alfred Hitchcock and the making of 'Psycho'", de Stephen Rebello. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Pamela Martin. Música: Danny Elfman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Robert Gould. Produção executiva: Ali Bell, Richard Middleton. Produção: Alan Barnette, Joe Medjuck, Tom Pollock, Ivan Reitman, Tom Thayer. Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Collette, Danny Huston, James D'Arcy, Jessica Biel, Kurtwood Smith, Michael Stuhlbarg, Ralph Macchio. Estreia: 01/11/12

Indicado ao Oscar de Maquiagem
Todo cinéfilo que se preze já se deixou seduzir ao menos uma vez pela surpreendente e assustadora história do bizarro Norman Bates no inesquecível “Psicose” – o original de 1960 dirigido por Alfred Hitchcock, claro, e não a aberração comandada por Gus Van Sant em 1998. O que talvez nem metade das pessoas que pularam da cadeira com os sustos provocados pelo mestre do suspense sabem, porém, é que, mesmo com todo seu prestígio dentro da indústria, o cineasta inglês teve que lutar com unhas e dentes – e dívidas em cima de dívidas – para conseguir levar o livro de Robert Bloch às telas. Os bastidores da filmagem de um dos maiores clássicos do cinema – tão repletos de dramas e imprevistos quanto o próprio filme em si – serviram de mote para o livro “Hitchcock and the making of ‘Psycho’”, escrito por Stephen Rebello, e que, por sua vez, é a base na qual se sustenta “Hitchcock”, dirigido por Sacha Gervasi. Lançado quase ao mesmo tempo em que o televisivo “The girl” – que acompanhava os bastidores de outro filme essencial na carreira do cineasta, “Os pássaros” – a obra de Gervasi tem a seu favor o interesse que a simples menção do nome de Hitchcock desperta e o elenco formado por nomes conhecidos do grande público (Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Jessica Biel). Porém, carece de foco e, paradoxalmente, tem mais cara de filme para a televisão do que seu rival temático (estrelado por Toby Jones).
Anthony Hopkins, mesmo sendo o grande ator que é, fica aquém do esperado em sua interpretação – talvez culpa da maquiagem que lhe tolhe os movimentos faciais (e mesmo assim foi indicada ao Oscar da categoria), talvez culpa do roteiro um tanto superficial, talvez culpa da direção frouxa de Gervasi. Mesmo que desapareça debaixo da pele do homem que legou ao mundo obras impecáveis como “Janela indiscreta” e “Um corpo que cai” – o ator galês não chega a dar alma a seu personagem, dando a impressão de limitar-se apenas a uma imitação, a uma mera mimese sem maior profundidade. Nem o artifício do roteiro de fazê-lo conversar com Ed Gein – o psicopata real que inspirou o livro de Robert Bloch – dá sustentação a seu trabalho. Na maior parte do tempo, Hitchcock parece apenas uma mimada criança grande, incapaz de lidar ao mesmo tempo com o trabalho, o casamento com sua parceira de todas as horas Alma Reville (Helen Mirren) e as paixões platônicas pelas estrelas de seus filmes (Grace Kelly acima de todas). Pode ser que Hitchcock fosse realmente assim e que o filme faça um retrato fiel de sua personalidade, mas é inegável que em boa parte do tempo essa opção não funciona.
A trama começa quando, procurando material para seu novo filme na Paramount depois do relativo fracasso de “Intriga internacional”, Hitchcock descobre o romance de Bloch, considerado pela crítica e por todo mundo que o rodeia uma subliteratura de mau-gosto. Acontece que, teimoso como ele só, o cineasta resolve ir contra a opinião de todos – inclusive de Alma, que tenta convencê-lo a dar uma chance ao romance de um amigo comum, Whitlock Miller (Danny Huston) – e levar o livro às telas. Começa aí sua via-crúcis: a Paramount se recusa a bancar um produto tão nitidamente fadado à execração pública e, corajosamente, Hitch resolve contrair dívidas pouco saudáveis para levar a ideia adiante – aceitando do estúdio a promessa de distribuir o filme desde que caiba a ele o controle total do resultado final (um trato extremamente arriscado). Dono de um senso de marketing genial, o cineasta faz com que se comprem todos os exemplares disponíveis do livro no país (como forma de manter em segredo as reviravoltas da trama), contrata o roteirista Joseph Estefano (Ralph Macchio, o Karatê Kid em pessoa) para adaptar o material e contrata atores não exatamente comerciais para os papéis centrais: a bela Janet Leigh (Scarlett Johansson), o promissor Anthony Perkins (James D’Arcy) e sua antiga obsessão Vera Miles (Jessica Biel) – a quem não consegue perdoar pelo fato de ter abandonado o projeto de “Um corpo que cai” para engravidar.

Pressionado pelo estúdio, desacreditado pelos executivos e afins do mundo do cinema, temeroso pelo resultado do filme nas bilheterias e sofrendo com as privações alimentares (não exatamente cumpridas) que sua saúde exige, Hitchcock ainda precisa lidar com um problema de nível pessoal: a desconfiança de que sua alma gêmea, a dedicadíssima Alma, possa estar tendo um romance extra-conjugal com o escritor Whittlock Miller. Esse desvio de rota – saindo do estritamente profissional dos sets de filmagens para entrar no âmbito pessoal e matrimonial do cineasta – acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme de Gervasi. Mesmo com a brilhante atuação de Helen Mirren, a trama paralela do possível envolvimento de Reville com outro homem prejudica consideravelmente o ritmo ágil (talvez em demasia, diga-se de passagem) daquele que deveria ser o principal ponto de interesse da história. Toda vez que a câmera deixa de lado as intrigas de bastidores de “Psicose” – as brigas com a censura, o relacionamento difícil entre o diretor e Vera Miles, a construção da genial trilha sonora de Bernard Herrman – para dedicar-se aos devaneios românticos/adúlteros de Alma, há uma perda de foco quase imperdoável.
E isso que nem mesmo depois de estar pronto “Psicose” deixou de dar trabalho a seu criador e sua equipe. Rejeitado pela Paramount para desespero do diretor, o filme voltou à sala de montagem e, com o apoio de Alma – além de alterações sutis mas bastante eficientes em aumentar o nível dos sustos – estreou com uma campanha de marketing das mais astuciosas, de causar inveja às intervenções milionárias das produções atuais. Seguranças contratados especialmente para impedir espectadores de entrarem nas salas de exibição depois do início das sessões, cortinas se fechando logo após o encerramento do filme (“para manter por mais tempo as sensações provocadas pela história”) e pedidos encarecidos do próprio Hitchcock para que o público não revelasse a ninguém o desfecho da trama foram algumas das medidas tomadas para que aquele que era considerado o “suicídio artístico” do mestre do suspense se tornasse o maior sucesso financeiro de sua carreira (além de lhe render uma indicação ao Oscar de melhor diretor). Os detalhes de sua concepção são deliciosos e é um prazer testemunhá-los, mas é inegável que fica no ar, ao fim dos créditos de encerramento, a nítida sensação de um filme que poderia ter sido bem melhor.
E realmente poderia. Tudo em “Hitchcock” é quase. O roteiro é simplista, sem profundidade dramática. A direção é esquemática e sem criatividade. O elenco faz o que pode com um material quase pobre (Helen Mirren é a única que consegue injetar consistência em sua interpretação). E até mesmo momentos que poderiam beirar o sublime (Hitch nos bastidores degustando a reação da plateia diante do assassinato no chuveiro mais famoso da história do cinema) chegam perto do risível. Não fosse “Psicose” a obra-prima que é – e que por consequência chama o interesse dos cinéfilos até mesmo indiretamente – o filme de Gervasi correria o sério risco de passar despercebido. Subaproveitando até mesmo a sempre ótima Toni Colette (aqui na pele da secretária do cineasta), “Hitchcock” é surpreendentemente inferior a seu rival televisivo. É leve, é simpático, mas superficial ao extremo. Hitch merecia algo melhor.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...