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segunda-feira

JOGOS DE ADULTOS

 


JOGOS DE ADULTOS (Consenting adults, 1992, Hollywood Pictures, 99min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Matthew Chapman. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Sam O'Steen. Música: Michael Small. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Gretchen Rau. Produção executiva: Pieter Jan Brugge. Produção: Alan J. Pakula, David Permut. Elenco: Kevin Kline, Mary Elizabeth Mastrantonio, Kevin Spacey, Forest Whitaker, Rebecca Miller. Estreia: 16/10/92

Em 1982, o diretor Alan J. Pakula assinou uma de suas obras-primas, "A escolha de Sofia", que rendeu o Oscar de melhor atriz à Meryl Streep e marcou a estreia de Kevin Kline no cinema. Dez anos depois, cineasta e astro voltaram a se encontrar em "Jogos de adultos" - mas, já com Kline consagrado com uma estatueta de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (1988), o reencontro ficou muito longe de ser memorável. Vindo do sucesso apenas razoável de "Acima de qualquer suspeita" (1990) - que tornou anêmico o romance best-seller de Scott Turow - e antes de unir Julia Roberts e Denzel Washington na versão cinematográfica de "O Dossiê Pelicano", de John Grisham, Pakula decepcionou crítica e público com uma produção insossa que em momento algum lembra o brilhantismo de seus melhores trabalhos. Com um roteiro preguiçoso que praticamente evita qualquer tipo de suspense e uma direção quase mecânica, "Jogos de adultos" falha em todos os quesitos - e nem a presença de um iniciante Kevin Spacey oferece maiores motivos de entusiasmo.

A trama começa de forma promissora: entediados com a vida doméstica e com a solidão a dois imposta pela ida da filha à universidade, o casal formado por Richard e Priscilla Parker (Kevin Kline e Mary Elizabeth Mastrantonio) vê sua rotina alterada pela chegada à vizinhança de outro casal, bem menos convencional. Eddy e Kay Otis (Kevin Spacey e Rebecca Miller) não apenas se tornam amigos próximos mas também apresentam aos vizinhos um estilo de vida mais leve e divertido - e até mesmo quando Eddy demonstra não ser exatamente uma pessoa muito ética profissionalmente isso não atrapalha suas relações. A coisa começa a mudar de figura, porém, quando o simpático e sedutor novo amigo surge com uma ideia ousada: percebendo a atração de Richard por sua mulher e ele próprio encantado por Prsicilla, Eddy propõe uma troca de casais. Depois de muito hesitar, Richard aceita a proposta - mas quando Kay aparece violentamente assassinada, ele passa a ser o principal suspeito. Certo de que Eddy tem responsabilidade pelo crime, o até então pacato compositor de jingles comerciais luta para provar sua inocência e comprovar a culpa de seu carismático vizinho - agora viúvo e apaixonado por Priscilla.

 

Chega a ser inacreditável que um cineasta do porte de Pakula, que dotou produções como "A trama" (1974) e "Todos os homens do presidente" (1976) de um senso impecável de ritmo, seja o mesmo de "Jogos de adultos": com uma direção sem criatividade e uma edição monótona que impede qualquer chance de despertar interesse no espectador, seu filme sofre de uma absoluta falta de energia. Anêmico a ponto de anestesiar até mesmo aos normalmente bons atores que tem em mão - além dos dois Kevins o elenco conta ainda com Forest Whitaker -, o compasso do roteiro de Matthew Chapman (que mais tarde cometeria o problemático "A cor da noite", estrelado por Bruce Willis em 1994) não permite qualquer envolvimento do público, perdido (no pior sentido da palavra) em uma trama cuja reviravolta é previsível ainda no primeiro ato. Sem aprofundar nenhuma das questões levantadas em seu começo - a crise no casamento dos protagonistas, a personalidade dúbia do vilão, as engrenagens da justiça -, sua história peca principalmente ao negar à audiência os principais elementos de um filme de suspense: o mistério e a catarse: fica evidente desde os primeiros minutos que Eddy não é flor que se cheire e que sua insistência em movimentar a vida amorosa dos dois casais tem segundas e terceiras intenções, e o roteiro não faz a menor questão de subverter expectativas ou tomar rumos que não os mais óbvios. E isso sem falar no ato final, de uma pobreza criativa sem tamanho.

É uma pena que a soma de tantos talentos não impeça que "Jogos de adultos" seja uma produção tão esquecível - para não dizer medíocre. Nem mesmo Kevin Kline e Kevin Spacey, conhecidos por seus dotes dramáticos, conseguem oferecer qualquer tipo de energia que amenize a sensação de apatia que perpassa todos os 99 minutos (que parecem ser mais longos do que o normal) de projeção. Uma mancha desnecessária no currículo de todos os envolvidos.

domingo

TUDO POR JUSTIÇA


TUDO PELA JUSTIÇA (Out of the furnace, 2013, Relativity Media/Scott Free Productions, 116min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Scott Cooper, Brad Ingelsby. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Melissa Lombardo. Produção executiva: Riza Aziz, Robbie Brenner, Ron Burkle, Jason Colbeck, Joe Gatta, Joey MacFarland, Christian Mercuri, Tucker Tooley, Jeff Waxman, Brooklyn Weaver. Produção: Michael Costigan, Jeniffer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Ryan Kavanaugh, Ridley Scott. Elenco: Christian Bale, Woody Harrelson, Casey Affleck, Willem Dafoe, Forest Whitaker, Sam Shepard, Zoe Saldana. Estreia: 09/11/13

Em 2009, Scott Cooper dirigiu "Coração louco", que finalmente deu o esperado e merecido Oscar de melhor ator a Jeff Bridges. Com o prestígio em alta, ele foi procurado por ninguém menos que Ridley Scott e Leonardo DiCaprio, que lhe ofereceram o roteiro de um filme que eles queriam produzir - depois de pensarem por um tempo em assumir como diretor e astro, respectivamente. Cooper adorou a história, escrita por Brad Ingelsby, mas achou que poderia fazer alguns ajustes para melhorá-la, incluindo nela alguns elementos de sua própria experiência de vida. Com o ator Christian Bale em mente para o papel principal, ele transformou "The Low Dweller" em "Out of the furnace" e, para sua surpresa, o Batman mais aplaudido do cinema se mostrou muito interessado no projeto. Em Hollywood, porém, agendas são um problema, e Bale, mesmo encantado com a possibilidade de protagonizar o novo filme de Cooper, tinha inúmeros compromissos profissionais a cumprir. Cooper não queria fazer o filme sem seu astro, e somente em abril de 2012 as filmagens começaram - e o que parecia o capricho de um cineasta em começo de carreira mostrou-se um tiro certeiro: na pele de Russell Baze, o trágico protagonista de "Tudo pela justiça", Bale mais uma vez demonstra um talento incomparável e justifica a espera de seu diretor. Uma pena, porém, que pouca gente testemunhou tal revelação.

Lançado sem alardes no final de 2013, em plena temporada de estreias que sonhavam com os tapetes vermelhos das cerimônias de premiação, "Tudo por justiça" passou em brancas nuvens, tantos pelas salas de exibição - que ficavam lotadas com "Frozen" e "Jogos vorazes: em chamas" - quanto pelos eleitores da Academia (que preferiram homenagear Bale por um produto mais vendável e mais festivo, o esquecível "Trapaça"). A falta do devido estardalhaço em relação à sua estreia, porém, é injustificável: não apenas o filme de Cooper é um drama familiar violento e profundamente tocante como é um dos melhores trabalhos de direção de atores do ano, com personagens construídos com extremo cuidado e interpretados por atores em grandes momentos de inspiração. Um mergulho na forma de fazer cinema à moda antiga, "Tudo por justiça" relembra os suspenses cerebrais que fizeram a fama de Robert DeNiro e Al Pacino nos anos 70 - nada de tramas rocambolescas ou efeitos visuais estonteantes, apenas pessoas reais (ainda que douradas pelo verniz da arte) tentando encontrar uma forma de respirar e sobreviver a algo tão difícil quanto a vida. Não foi à toa que Cooper desistiu de usar a trilha sonora composta por Eddie Vedder, considerada potente demais: o que interessa ao jovem diretor são seus personagens e seus dramas, com o mínimo de interferência externa.


O protagonista da história é Russell Baze (Bale, brilhante em seu minimalismo), um homem honesto e batalhador que vive sua vida em função de trabalhar na fábrica de aço de sua pequena cidade do interior, cuidar do pai inválido e doente, namorar a bela Lena (Zoe Saldana) e tentar impedir que seu irmão caçula, Rodney (Casey Affleck), se deixe levar pelo desânimo depois de uma temporada no Iraque. Um exemplo de caráter, Russell tem sua vida virada de cabeça para baixo depois de um trágico acidente de carro, que o leva para a cadeia. Anos mais tarde, voltando ao convívio de todos, ele vê que nada mais é como antes: seu pai morreu, Lena casou-se com o xerife da cidade (Forest Whitaker) e seu irmão está envolvido em um violento submundo de brigas de rua - um universo cruel que o põe em rota de colisão com o psicótico Harlan DeGroat (Woody Harrelson). Quando Rodney desaparece e a justiça parece não se importar com o caso, Russell toma conta da situação e parte para a revanche - mesmo que isso vá contra todos os seus princípios.

Scott Cooper não tem pressa em contar sua história - sua opção em acentuar o drama em detrimento da ação pode não agradar aos fãs de filmes policiais, mas é um grande acerto em termos dramáticos. Ao oferecer ao público personagens verossímeis e repleto de nuances, seu roteiro percorre caminhos menos óbvios do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana. Não que a trama seja ousada ou surpreendente, mas a maneira como o diretor a conduz (com ritmo próprio, sem sobressaltos e com uma violência relativamente moderada) não deixa de ser corajosa. Até mesmo seu desfecho - anticlimático de certa forma, coerente de outra - vai de encontro às regras comerciais do cinema norte-americano. Esse apreço de Cooper pelo desenvolvimento dos personagens e as consequências de seus atos é o maior mérito de seu filme, principalmente porque permite ao elenco - em especial Bale e Woody Harrelson - momentos fascinantes. Se Casey Affleck nem sempre convence no papel do irmão rebelde (Channing Tatum, Max Irons, Garret Hedlund e Taylor Kitsch foram considerados para o papel antes da decisão final, tomada em conjunto por diretor e astro), o restante dos atores dispensa comentários - a não ser que se lastime o pouco tempo em cena de Whitaker e do sempre competente Willem Dafoe. "Tudo pela justiça" pode não ter tido o sucesso que merecia, mas é um filme a ser descoberto e apreciado não pelo que se espera dele (um policial violento), mas sim pelo que ele é (um drama familiar devastador). Um belo programa!

terça-feira

A CHEGADA

A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment,  116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som 

Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.

Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.


Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.

Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!

NOCAUTE

NOCAUTE (Southpaw, 2015, Escape Artists/Fuqua Films, 124min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Kurt Sutter. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Melissa Lombardo. Produção executiva: David Bloomfield, Cary Cheng, Jonathan Garrison, Stuart Parr, David Ranes, Paul Rosenberg, David Schiff, Dylan Sellers, Kurt Sutter, Ezra Swerdlow, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Gillian Zhao. Produção: Todd Black, Jason Blumenthal, Antoine Fuqua, Alan Riche, Peter Riche, Steve Tisch, Jerry Ye. Elenco: Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, Rachel McAdams, Oona Laurence, 50 Cent, Skylan Brooks, Naomie Harris, Victor Ortiz. Estreia: 15/6/15 (Festival de Xangai)

A princípio, a ideia era fazer uma espécie de continuação de "8 mile: rua das ilusões" (2002), com o cantor Eminem reprisando seu papel, dessa vez com uma trama centrada no universo das lutas de boxe. Com o tempo - e a desistência do rapper, que preferiu dedicar-se à carreira musical e abandonar parcialmente o projeto, assinando apenas como produtor executivo da trilha sonora - a história foi sendo modificada, de acordo com as regras de Hollywood e o interesse de atores com razoável poder de atrair as plateias. Antes que Jake Gyllenhaal assumisse a protagonização sob a direção de Antoine Fuqua, por exemplo, nomes como Ryan Gosling, Bradley Cooper e Jeremy Renner (todos potencialmente interessantes sob o ponto de vista comercial e com indicações ao Oscar para comprovar seus méritos artísticos) foram cogitados para enfeitar o cartaz, em uma tentativa em conciliar uma bilheteria polpuda e possíveis indicações à estatueta dourada. Quando finalmente o filme saiu, com Gyllenhaal no papel central, o primeiro objetivo foi atingido em parte, com uma renda de pouco mais de 50 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e quase 90 ao redor do mundo. Já o segundo foi uma decepção: apesar dos rumores que davam como bastante provável a lembrança de Gyllenhaal entre os candidatos ao Oscar, a Academia simplesmente ignorou seu belo trabalho, frustrando fãs e produtores.

A esnobada em Gyllenhaal - indicado ao prêmio de coadjuvante em 2006, por "O segredo de Brokeback Mountain" - não deixou de ser injusta. Ator dedicado e minucioso em suas composições, ele é o pilar de um filme que, apesar da sinceridade impressa em cada cena, jamais consegue escapar das armadilhas de um roteiro clichê e bastante previsível. Antoine Fuqua, o diretor, tem no currículo filmes corretos mas nunca brilhantes - como "Dia de treinamento" (2001), que deu o Oscar a Denzel Washington - e novamente entrega um produto bem embalado, visualmente atraente e de fácil comunicação com a plateia, mas sem personalidade. Da fotografia à edição, passando pela trilha sonora pesada e pela caracterização que deixa Gyllenhaal irreconhecível em determinados momentos, tudo funciona como um relógio. Porém, é inegável que todo o esforço esbarra em uma trama simplista, que, se consegue emocionar, é mérito do talento de seus intérpretes, excelentes atores dando vida a personagens que apenas ocasionalmente ultrapassam a esfera do superficial. Com apenas uma grande surpresa na narrativa - ainda em seu primeiro ato - e uma sucessão de sequências que apesar de bem realizadas não acrescentam nada ao gênero, "Nocaute" é um entretenimento competente e tecnicamente impecável, mas está longe de ser o novo clássico que talvez almejasse ser.


Um esporte querido pelo cinema, o boxe foi responsável por alguns dos mais premiados e queridos filmes realizados por Hollywood, como "Rocky, um lutador", Oscar de filme e direção em 1977, "Touro indomável" (80) - estatueta de melhor ator para Robert DeNiro - e "Menina de ouro" (2004), que deu o segundo Oscar tanto a Clint Eastwood (direção) quanto à Hillary Swank (atriz), além de faturado o prêmio de melhor filme do ano em cima de "O aviador", de Martin Scorsese. O roteiro de "Nocaute" se utiliza de elementos de todos eles (e de vários outros de temática semelhante) para costurar uma história de amor, vingança e superação, sendo o esporte a moldura perfeita para tal, com sua mistura de decadência e glamour mescladas em doses exatas pelo cineasta, que não hesita em fazer sua câmera transitar pelos eventos milionários das redes esportivas de televisão e por academias baratas, refúgio dos menos favorecidos pela sorte. O protagonista, Billy Hope, é um daqueles que tem a possibilidade de experimentar os dois mundos - e sua jornada, graças ao talento de Jake Gyllenhaal, se torna interessante a despeito da falta de novidade que ela apresenta.

Quando o filme começa, Hope é um lutador que está no auge da carreira, vencendo lutas, sendo adulado por imprensa e amigos de ocasião e vivendo um casamento feliz com a bela Maureen (Rachel McAdams), a quem conheceu em um abrigo para crianças sem lar e que hoje administra sua carreira com um misto de rigidez e carinho. O romance deles foi abençoado com uma filha inteligente e amorosa, Leila (Oona Laurence), e o que parecia um sonho dourado torna-se bruscamente um pesadelo quando uma tragédia inesperada se abate sobre a família e faz com que o corajoso e bem-sucedido atleta se veja diante de um desafio cruel e mais pesado que poderia imaginar: juntar os cacos do que ainda restou e tentar uma volta por cima, com a ajuda do veterano Tick Wills (Forest Whitaker fazendo o possível para extrair algo de novo de um personagem dos mais batidos). É admirável como Antoine Fuqua consegue contar sua história (direta, simples, quase banal) sem perder o interesse da plateia diante de uma série de lugares-comuns: com uma edição ágil, momentos dramáticos estrategicamente distribuídos pela narrativa e atuações poderosas, ele consegue facilmente enganar que seu filme tem mais substância do que na verdade tem. É um mérito, mas questionável, uma vez que, assim que a sessão acaba, é bem provável que o espectador esqueça boa parte do que viu. Para alguns sua falta de personalidade como cineasta - e do filme em si como obra de arte - talvez não incomode, já que é entretenimento de qualidade. Mas não resta dúvidas de que um bocado de ousadia e criatividade teria sido providencial para um sucesso maior. Em todo caso, é um passatempo honesto e apresenta uma atuação monstruosa (no bom sentido) de Jake Gyllenhaal, o que é mais do que muitos outros filmes bem mais ambiciosos conseguem.

quinta-feira

O MORDOMO DA CASA BRANCA

O MORDOMO DA CASA BRANCA (Lee Daniels' The Butler, 2013, AI-Film/Follow Through Productions/Salamander Pictures, 132min) Direção: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong, artigo "A butler well served by this election", de Wil Haygood. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Joe Klotz. Música: Rodrigo Leão. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Tim Galvin/Diane Lederman. Produção executiva: Len Blavatnik, James T. Bruce IV, Elizabeth Destro, Michael Finley, Aviv Giladi, Adonis Hadjiantonas, Vince Holden, Brett Johnson, Sheila Johnson, Jordan Kessler, Adam Merims, David Ranes, Matthew Salloway, Hilary Shor, Earl W. Stafford, Danny Strong, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, R. Bryan Wright. Produção: Lee Daniels, Cassian Elwes, Buddy Patrick, Pamela Oas Williams, Laura Ziskin. Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr., Vanessa Redgrave, John Cusack, Jane Fonda, Alan Rickman, James Marsden, Robin Williams, Liev Schreiber, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Alex Pettyfer, Jim Gleeson. Estreia: 05/8/13

Alguns filmes conquistam por seu valor artístico, por sua ousadia, criatividade e técnica impecável. Outros, no entanto, chegam ao coração da audiência por seus méritos emocionais, que prescindem de teorias ou análises mais profundas. Na segunda definição encontra-se "O mordomo da Casa Branca", filme do cineasta Lee Daniels, que já em seu filme de estreia, "Preciosa", arrebatou indicações ao Oscar de filme e direção. Inspirado em uma história real, o novo filme de Daniels retrata, em pouco mais de duas horas de duração, cinco décadas da história dos EUA, concentrando-se na luta pelos direitos civis da população negra - e contrapondo-a à dedicação do protagonista em servir os governantes do país independentemente da situação política.

Interpretado por Forest Whitaker em mais uma atuação esplêndida, Cecil Gaines é um herói silencioso e discreto, que acompanha as transformações sociais dos EUA de camarote: contratado como um dos mordomos da Casa Branca durante o mandato de Eisenhower (Robin Williams), ele segue à risca os conselhos que sempre recebeu durante sua educação como serviçal, mantendo-se invisível e apolítico mesmo quando as decisões políticas afetam diretamente seu povo - e principalmente sua família. Seu filho mais velho (muito bem interpretado por David Oyelowo), revoltado com a submissão a que a população negra é obrigada, junta-se aos ativistas que exigem mudanças - desde o pacifismo de Martin Luther King à violência dos Panteras Negras -, seu caçula, crédulo em seu governo, embarca para o Vietnã, e sua mulher, Gloria (Oprah Winfrey, extraordinária) se entrega à bebida como forma de lidar com a solidão. Muitas vezes incompreendido pelas pessoas que ama - que o julgam conivente com as desigualdades - ele não se furta a manter-se fiel às suas obrigações, o que acaba por torná-lo um homem de confiança de inúmeros presidentes.


A narrativa de Daniels é quadradinha, convencional, quase sem brilho. Porém, se o roteiro muitas vezes não consegue fugir do superficial - consequência inevitável da decisão de se contar tanta coisa em tão pouco tempo - ao menos mantém um ritmo que mantém a atenção do espectador sem fazer muito esforço. Didático na medida certa (para não afugentar aqueles que não conhecem a história americana a ponto de não precisar de legendas explicativas) e emocionante em diversos momentos - principalmente quando não tem medo de mostrar a extrema violência física e psicológica sofrida pelos negros - o filme pode até ser acusado de um certo maniqueísmo, mas tem a coragem de questionar a lealdade do protagonista ao mesmo tempo em que compreende sua ideologia de fidelidade extrema e absoluta: a cena em que pai e filho discutem violentamente sobre a imagem de Sidney Poitier (epítome do negro quase branco, aceito pelo mainstream americano nos anos 60 e renegado pelo ativismo radical justamente por esse motivo) é forte e exemplifica com perfeição a dubiedade dos sentimentos da família Gaines - além de permitir a Whitaker e Winfrey um de seus melhores momentos.

Aliás, se existe um outro grande motivo para se assistir a "O mordomo da Casa Branca" é o elenco reunido por Daniels: além de Mariah Carey (em uma participação mínima) e Lenny Kravitz - que já haviam trabalhado com o diretor em "Preciosa", o filme é um desfile de grandes atores em participações especiais (e muitas vezes com maquiagem que quase os deixa irreconhecíveis). É um prazer à parte ver nomes tão díspares quanto Alan Rickman, James Marsden, Liev Schreiber, John Cusack, Vanessa Redgrave, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e a sumida Jane Fonda em um filme com importância social tão fundamental - e não é difícil imaginar que sua inclusão no elenco tem muito a ver com suas próprias agendas políticas. É importante também perceber que o exagero do filme anterior do cineasta - o polêmico e exagerado "Obessão" - parece ter sido definitivamente enterrado, diante de uma obra tão carinhosa quanto essa.

"O mordomo da Casa Branca", ao contrário do apregoado, não tem nada a ver com "Histórias cruzadas", o superestimado que deu a Octavia Spencer o Oscar de atriz coadjuvante em 2012. Enquanto a obra de Tate Taylor era hipócrita a ponto de ter uma protagonista branca para salvar os negros oprimidos, o filme de Daniels dá aos próprios o poder de mudar sua história, lutando até o fim por seus direitos e enfrentando o sistema estabelecido. E se havia espaço para o humor escatológico e sem graça no primeiro, em "O mordomo" o registro é mais sério e apropriado ao tema. Pode não ser uma obra-prima, mas é comovente, relevante e redondinho. Merece ser apreciado por suas inúmeras qualidades.

domingo

PONTO DE VISTA

PONTO DE VISTA (Vantage point, 2008, Columbia Pictures/Relativity Media, 90min) Direção: Pete Travis. Roteiro: Barry L. Levy. Fotografia: Amir Mokri. Montagem: Stuart Baird. Música: Atli Orvarsson. Figurino: Luca Mosca. Direção de art/cenários: Brigitte Broch/Denise Camargo. Produção executiva: Callum Greene, Tania Landau. Produção: Neal H. Moritz. Elenco: William Hurt, Sigourney Weaver, Forest Whitaker, Dennis Quaid, Matthew Fox, Eduardo Noriega, Bruce McGill, Édgar Ramírez, Said Taghamoui, Zoe Saldana, James Les Gros. Estreia: 13/02/08 (Salamanca)

O presidente dos Estados Unidos está na cidade de Salamanca, na Espanha, para fazer parte de uma conferência que irá ditar novos rumos internacionais para o combate ao terrorismo. Transmitido via satélite para o mundo todo, seu discurso na praça central da cidade acaba por transformar-se em uma inesperada tragédia quando ele é atingido por um tiro, apesar dos esforços de sua equipe de segurança, que irá contar então com as imagens amadoras capturadas por um turista americano, que podem esclarecer uma conspiração envolvendo gente do próprio governo americano. A trama de "Ponto de vista" pode não ser das mais criativas, especialmente depois do 11/9, que recolocou o terrorismo como tema favorito de nove entre dez filmes de ação de Hollywood. O que diferencia o filme de Pete Travis em relação a vários outros da mesma temática é a engenhosidade de sua narrativa: ainda que em alguns momentos soe cansativa e/ou exagerada, é ela que mantém aceso o interesse da plateia até o final, com uma série de reviravoltas que, a despeito de sua inverossimilhança, entretém com bastante dignidade - especialmente com a ajuda de um elenco que conta com nomes de prestígio, como William Hurt, Sigourney Weaver e Forest Whitaker.

Como o próprio título sugere, a trama de "Ponto de vista" é contada sob diferentes ângulos, com informações complementares sendo acrescentadas a cada rodada, como peças de um quebra-cabeças que, aos poucos, vai sendo montado diante do espectador, que muda sua percepção a respeito da história quando as reais motivações de seus personagens se revelam e alteram (ou não) o desenrolar da história. Seguindo a tradição de clássicos como "Z", de Costa-Gavras e de tramas políticas como "JFK", de Oliver Stone - mas logicamente sem a mesma ambição e sem o mesmo resultado perturbador e fascinante - o filme de Travis vai e volta no tempo, sempre recomeçando sua narrativa poucos minutos antes do atentado ao presidente e terminando em um ponto que pode dar respostas às questões levantadas pelo roteiro no momento da tragédia. Somando-se a isso alguns dramas pessoais - traumas profissionais, chantagem e até uma improvável história de amor que pode ou não ser sincera - a atmosfera está criada e o cineasta aproveita o roteiro de Barry L. Levy para explorar todas as possibilidades de suspense. Uma pena, porém, que em seu terço final, ele sucumba à tentação de deixar de lado o tom de urgência de seu começo e assuma sua vocação para o filme de ação descerebrado: quando a intriga dá espaço para perseguições e tiroteios - mesmo que bem realizados - é impossível segurar a frustração.


Se existe um protagonista em "Ponto de vista" ele é Thomas Barnes (Dennis Quaid), segurança do presidente norte-americano (William Hurt) que volta a seu antigo cargo depois de um tempo afastado por ter sido ferido em ação. Seu retorno é visto com insegurança pela maior parte dos colegas, inclusive seu parceiro mais próximo, Kent Taylor (Matthew Fox, no auge do sucesso da série "Lost") - nem mesmo a produtora de telejornal Rex Brooks (Sigourney Weaver) está confiante em sua recuperação total, o que acaba se mostrando um tanto acertado quando o presidente é alvejado em pleno discurso.  Enquanto ele é socorrido - e mesmo assim corre risco de tornar-se vítima de terroristas infiltrados na equipe de socorro - Barnes e Taylor partem em busca de alguma pista a respeito do atirador e dos mentores do atentado, contando com a ajuda do americano Howard Lewis (Forest Whitaker) - que filmou tudo - e do misterioso Enrique (Eduardo Noriega), que alega ser da polícia espanhola mas tem uma relação mal-explicada com a responsável pelo segundo atentado do dia: uma explosão na praça de Salamanca.

Mesmo que explore mal a presença sempre forte de Sigourney Weaver e apresente algumas resoluções simplistas para algumas das questões levantadas em seu começo, "Ponto de vista" é um entretenimento acima da média. Sua edição ágil e inteligente disfarça com competência as falhas de um roteiro bastante superficial no desenho dos personagens e em suas motivações um tanto clichê, assim como impede que o público descubra com antecedência as reviravoltas da história - ainda que, depois de reveladas em sua totalidade, elas não sejam assim tão surpreendentes. No cômputo geral, é um filme que cumpre o que promete e, maior de suas qualidades, se leva a sério e não resvala na autoparódia que é a sentença de morte de grande parte de seus congêneres

quinta-feira

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA


O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The last king of Scotland, 2006, Fox Searchlight, 121min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Peter Morgan, Jeremy Brock, livro de Giles Foden. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Tina Jones. Produção executiva: Andrew Macdonald, Allon Reich, Tessa Ross. Produção: Lisa Bryer, Andrea Calderwood, Charles Steel. Elenco: Forest Whitaker, James McAvoy, Gillian Anderson, Kerry Washington, Simon McBurney. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Forest Whitaker)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Forest Whitaker)

Entre a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1988 pelo sensacional desempenho como o músico Charlie Parker em "Bird" e a consagração com o Oscar por sua interpretação de Idi Amin Dada, ditador de Uganda, o ator Forest Whitaker esperou quase vinte anos. Nesse meio-tempo ele mostrou seu rosto e seu talento em projetos tão díspares quanto os elogiados "Traídos pelo desejo" e "Cortina de fumaça" e os puramente comerciais como "A experiência", "Fenômeno" e "O quarto do pânico", além de aventurar-se também na cadeira de diretor, assinando obras corretas como "Falando de amor" - estrelado por Whitney Houston e Angela Bassett - e "Quando o amor acontece", com Sandra Bullock pré-Oscar. Apesar de sempre apresentar trabalhos dignos e competentes, porém, não deixou de ser uma surpresa das melhores vê-lo em ação em "O último rei da Escócia", dirigido por Kevin MacDonald: na pele de Idi Amin, o ator texano proporciona ao público uma estarrecedora atuação, que merecidamente avocanhou todos os prêmios da temporada, sem dar chance à concorrência.

Se formos levar em consideração as regras dos manuais de roteiro e assemelhados, Whitaker nem é o verdadeiro protagonista do filme de MacDonald: assim como aconteceu com Anthony Hopkins em "O silêncio dos inocentes", sua personagem é a alma da produção, o que a empurra pra frente, mas o ponto de vista da narrativa não é seu, e sim do jovem médico inglês Nicholas Garrigan (o ótimo James McAvoy), que, recém formado e em busca de experiência profissional - e de fugir do jugo de seu pai dominador - parte para Uganda, onde começa a trabalhar com um casal de médicos (Adam Kotz e a eterna Scully, Gillian Anderson). Pouco depois de sua chegada, um imprevisto o coloca frente a frente com o presidente do país, o temido Idi Amin (um assustador Whitaker, oscilando entre a doçura e o terror). Impressionado com o rapaz, o ditador o convence a aceitar o cargo de médico particular - e logo Nicholas estará sendo testemunha ocular dos bastidores do poder, em que atrocidades monstruosas convivem em aparente tranquilidade com uma imagem paradoxal do presidente. Garrigan, atônito, descobre que Amin é o responsável por um legítimo genocídio, mas se vê aprisionado por sua lealdade. Essa lealdade, por outro lado, é posta à prova quando ele se encanta por Kay (Kerry Washington), terceira mulher do mandatário supremo do local. Arriscando a própria vida, ele inicia um intenso romance com ela.



Baseado no livro de Giles Folden - que se utiliza de fatos reais mas é uma obra de ficção - o roteiro de Peter Morgan e Jeremy Brock acerta em optar pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan ao invés de centrar sua trama no polêmico ditador: os olhos de Garrigan são também os olhos da audiência, que vai tomando conhecimento aos poucos de todo o horror que se esconde atrás dos discursos ufanistas do governante, até chegar em suas sequências finais, de uma violência física e psicológica ímpares no cinemão. Kevin MacDonald, estreando em longas-metragens com o pé direito, não tem medo de explicitar a sangrenta forma com que Amin lidava com seus desafetos e isso mantém o suspense sempre em altos níveis, sem nunca deixar de lembrar que está contando uma história política e não se inscrevendo na lista de filmes de terror. O sangue que escorre na tela é real, é humano, é infelizmente derramado sem motivos, o que aumenta a sensação de perigo e indignação. E, sem dúvida, é Forest Whitaker quem comanda tudo com maestria.

Mantendo-se na personagem mesmo quando estava fora de cena, Whitaker construiu um Idi Amin antológico, sem exageros mas extremamente fiel à realidade. Quem lembra do ator na pele de inúmeras outras personagens dóceis e pacatas leva um susto ao vê-lo destilando ódio, fúria e violência, em uma interpretação simplesmente impecável. Mesmo ao lado de atores excelentes como James McAvoy, ele chama todas as cenas para si, com um magnetismo que se equipara ao do próprio Amin, considerado um político carismático e popular até que começou a mostrar sua verdadeira face. Se seu mandato foi trágico e triste, ao menos rendeu um ótimo filme, que não apenas narra episódios grotescos, mas convida o público a compartilhar deles, graças à ótima trilha sonora e à fotografia em cores quentes que dão a nítida sensação de estar em Uganda. Vale a pena conferir.

terça-feira

POR UM FIO

POR UM FIO (Phone booth, 2002, Fox 2000 Pictures, 81min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Larry Cohen. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Gil Netter, David Zucker. Elenco: Colin Farrell, Forest Whitaker, Katie Holmes, Rhada Mitchell, Kiefer Sutherland. Estreia: 10/9/02 (Festival de Toronto)

Em 2001, Joel Schumacher deu ao ator irlandês Colin Farrell sua primeira grande chance no cinema, escolhendo-o para ser o protagonista de "Tigerland, a caminho da guerra", que agradou aos críticos mas foi ignorado pelo público (boa parte devido a sua péssima distribuição nos cinemas americanos). Um ano depois, Farrell retribuiu o favor, estrelando uma produção barata (13 milhões de dólares) dirigida por Schumacher que tornou-se um sucesso inesperado. Depois de ter seu lançamento adiado nos EUA por cinco meses (estreou no Festival de Toronto em setembro de 2002 e só chegou às salas ianques em abril de 2003), "Por um fio" arrecadou quase cem milhões só no mercado americano e, em se tratando de uma obra de Joel Schumacher surpreendeu também por ter uma consistência rara.

Filmado em apenas duas semanas - e em ordem cronológica - "Por um fio" é um one man-show de Farrell, que carrega nas costas todo o suspense e o drama da história criada por Larry Cohen, também autor do roteiro de "Celular", estrelado por Kim Basinger e Chris Evans pouco tempo depois. Substituindo Jim Carrey, Mel Gibson e Will Smith (todos interessados no papel), o jovem ator mostra uma segurança ímpar na pele de Stuart Shepard, um divulgador de entretenimento que mora em Nova York com a esposa Kelly (Radha Mitchell) e que vive de humilhar o assistente, de passar a perna nos clientes e tentar se dar bem sem fazer muito esforço. Sua arrogância e egocentrismo não lhe bastam, porém, quando ele acaba caindo em uma armadilha inesperada: depois de falar com a aspirante a atriz Pam (Katie Holmes) - que ele quer levar para a cama o mais rápido possível com promessas de conseguir-lhe uma chance no cinema - de uma cabine telefônica ele atende o telefone e acaba sendo feito de refém por um misterioso atirador que sabe tudo de sua vida e ameaça matá-lo ou à sua mulher se ele desligar. O que parecia uma brincadeira de péssimo gosto vira um pesadelo quando o atirador (com a voz de Kiefer Sutherland) mata um gigolô na frente de testemunhas e Stu torna-se o principal suspeito do crime. Quando a mídia chega ao local, juntamente com o Capitão Ed Ramey (o sempre competente Forest Whitaker), o circo está armado.



Contado em enxutos 81 minutos - o que elimina cenas supérfluas e dá ao filme um ritmo extremamente ágil mas nunca apressado - "Por um fio" mais uma vez mostra que Joel Schumacher se dá muito melhor quando é menos ambicioso. Assim como em "Tigerland" (que também contava com a mesma equipe técnica), ele foca sua atenção no desempenho dos atores e não em mirabolantes pirotecnias ou marketing excessivo."Por um fio" é tenso na medida certa e surpreende a audiência com uma história que foge do previsível sempre que pode - o que em termos de filme de suspense é um ingrediente cada vez mais difícil de encontrar. O duelo entre Farrell e Sutherland (cuja voz foi acrescentada na pós-produção) é empolgante e muito dessa eletricidade vem do trabalho impecável de Colin, cujo personagem passa da arrogância e da auto-confiança ao desespero e ao medo em um piscar de olhos, sem que seja necessário muito mais do que puro e simples talento.

"Por um fio" não mudou a história do cinema e provavelmente com um ator menos capaz que Farrel seria apenas mais um filme a ser reprisado nas sessões noturnas da TV aberta. Mas graças à força que o ator imprime em sua atuação torna-se um produto acima da média em seu gênero.

O QUARTO DO PÂNICO

O QUARTO DO PÂNICO (Panic room, 2002, Columbia Pictures, 112min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Koepp. Fotografia: Conrad L. Hall, Darius Khondji. Montagem: James Haygood, Angus Wall. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Jon Danniells, Garrett Lewis. Produção: Cean Chaffin, Judy Hofflund, David Koepp, Gavin Polone. Elenco: Jodie Foster, Forest Whitaker, Kristen Stewart, Jared Leto, Dwight Yoakam. Estreia: 29/3/02

É impressionante a diferença que faz um bom diretor! Nas mãos de um operário-padrão qualquer de Hollywood, "O quarto do pânico" seria apenas mais um filme de suspense perfeitamente esquecível depois dos letreiros finais. Porém, sob o comando do sempre competente David Fincher - que tem no currículo as obras-primas "Seven" e "Clube da luta" e o subestimado "Vidas em jogo" - o jogo de gato-e-rato criado pelo roteirista David Koepp em apenas seis dias (o primeiro tratamento, logicamente) não só prende a atenção de seus espectadores como ainda por cima se eleva vários degraus acima de seus congêneres, equilibrando com maestria um clima hitchcockiano e inovações técnicas utilizadas com inteligência e parcimônia.

A trama tem início quando a recém-divorciada Meg Altman (Jodie Foster, grávida durante as filmagens), abandonada pelo marido milionário, compra uma gigantesca casa em Manhattan para morar com a filha pré-adolescente Sarah (Kirsten Stewart pré-"Crepúsculo"). A casa - uma impressionante criação do diretor de arte Arthur Max - tem até mesmo uma espécie de bunker, apelidado pelo antigo morador de "quarto do pânico": o tal quarto tem até mesmo um sistema exclusivo de câmeras de vigilância. O que seria apenas mais um cômodo, no entanto, vira a principal forma de defesa de mãe e filha quando três homens armados, liderados pelo descontrolado Junior (Jared Leto), invadem a casa na madrugada, atrás de milhões de dólares escondidos justamente no quarto onde elas se escondem. Para proteger a filha e a si mesma, Meg tem que usar toda a sua inteligência e força emocional, principalmente quando os criminosos - que incluem o racional Burnham (Forest Whitaker) e o violento Raoul (Dwight Yoakam) - resolvem apelar para a violência para obrigá-las a abandonar o famigerado aposento.


"O quarto do pânico" é um típico produto de sua época. Os criativos movimentos de câmera de Fincher, o desenho de som e as inovações técnicas que ele apresenta são tão ou mais importantes que a história que o diretor conta. Mesmo sem ser exatamente original e/ou empolgante em uma primeira visão, o roteiro de Koepp consegue facilmente envolver e causar tensão durante seu tempo de duração, o que já é bastante raro em um gênero mortalmente previsível quanto o suspense. Fugindo dos clichês das obras mais convencionais, a obra de Fincher cria momentos de tensão genuína, envolvendo o público na jornada de Meg, personificada com força e determinação por um Jodie Foster nunca aquém de excelente. Substituindo Nicole Kidman na última hora (que abandonou o projeto por ter se machucado nas filmagens de "Moulin Rouge"), Foster não deixa de ser uma bênção ao projeto: talvez a fragilidade física de Kidman não combinasse com a protagonista, uma personagem que cabe como uma luva no histórico de mulheres fortes interpretadas por Jodie.

"O quarto do pânico" está longe de ser o melhor trabalho de David Fincher. Ainda assim, é forte, inteligente e jamais previsível, além de tratar seu público com respeito e em nenhum momento apelar para soluções fáceis e triviais. É um excelente programa para quem gosta de suspense e para aqueles que esperam por bons filmes dirigidos com elegância e talento.

segunda-feira

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR (Mr. Holland's Opus, 1995, Hollywood Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 143min) Direção: Stephen Hereck. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Trudy Ship. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: David Nichols/Jan Bergstrom. Produção executiva: Patrick Sheane Duncan, Scott Kroopf. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Michael Nolin. Elenco: Richard Dreyfuss, Glenne Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, William H. Macy, Alicia Witt, Terrence Howard, Forest Whitaker, Joanna Gleason, Joseph Anderson. Estreia: 29/12/95

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)

Não há como subestimar o poder de um grande ator. Mesmo muito tempo depois de ser um dos mais populares astros de Hollywood - o que aconteceu nos anos 70, quando trabalhou com Steven Spielberg em "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau" - Richard Dreyfuss é a principal razão pela qual o drama "Mr. Holland, adorável professor" fez o sucesso que fez nas bilheterias americanas. Mesmo sem ter a seu favor uma beleza estonteante ou fazer parte de qualquer franquia milionária, Dreyfuss tem carisma o bastante para fazer com que o filme de Stephen Herek tenha rendido mais de 80 milhões de dólares somente no mercado americano. Indicado ao Oscar por seu precioso trabalho, ele teve o azar de bater de frente com o ultra-premiado Nicolas Cage. Caso contrário, era bem possível que também tivesse conquistado os eleitores da Academia mais uma vez, quase vinte anos depois de sua primeira vitória, por "A garota do adeus".

Quando a história de "Mr. Holland" começa, em 1965, o protagonista tem 30 anos de idade, enquanto Dreyfuss já estava perto dos cinquenta. Basta alguns minutos, porém, para que esse pequeno problema matemático seja abstraído, graças à atuação gigantesca do ator. Ele vive Glenn Holland, que tem como maior sonho de sua vida compor uma sinfonia para deixá-lo rico e famoso. Buscando tempo suficiente para atingir seu objetivo, ele arruma um trabalho como professor de Apreciação Musical em uma tradicional escola do interior dos EUA. A princípio frustrado com sua falta de vocação, logo ele descobre uma maneira pouco tradicional de conquistar seus alunos: misturando Bach com rock'n'roll, ele choca seus superiores, mas seduz seus estudantes, que passam a admirá-lo incondicionalmente. A cada dia mais e mais empurrado para longe da realização de seu sonho - principalmente por compromissos financeiros domésticos - ele não percebe a passagem dos anos, até que, trinta anos depois, quando a escola decide fechar o departamento de música, ele nota que sua vida girou em torno de influenciar todos os que passaram por suas aulas.



O roteiro de Patrick Sheane Duncan - indicado ao Golden Globe - faz milagres ao compactar trinta anos de movimentos sociais e musicais em pouco mais de duas horas de duração sem soar apressado ou superficial. Seu maior toque de inteligência foi utilizar um sub-gênero hollywoodiano - o filme de professor - para contar uma trama que alterna momentos puramente emocionais com uma disfarçada crítica às instituições de ensino americanas, bem como sua história. Traumas como a guerra do Vietnã e a morte de John Lennon são o pano de fundo para a trajetória de um homem comum, que precisa lidar com problemas pessoais - como a surdez do único filho - ao mesmo tempo em que precisa ser a inspiração para adolescentes em ebulição. E é comovente como ele ajuda a tímida Gertrude Lang (Alicia Witt) a levantar a auto-estima, o problemático Louis Russ (Terrence Howard) a manter-se na escola e a talentosa Rowena Morgan (Jean Louisa Kelly) a buscar suas aspirações - e com quem tem um perigoso flerte. Seus alunos, como bem diz uma personagem na sequência final, são sua sinfonia. E entre eles, em participações não creditadas, estão atores como Forest Whitaker e Balthazar Getty.

E a música é elemento fundamental em "Mr. Holland, adorável professor". Ao acompanhar a evolução rítmica do mundo ocidental, da década de 60 - quando o rock ainda estava em seu período áureo - até a metade dos anos 90, o público é brindado com um apanhado de belas canções, que vão de Gershwin a Beatles. E é justamente a morte de John Lennon a responsável pela mais bela cena do filme, quando Holland faz uma singela homenagem ao filho cantando "Beautiful boy", que o ex-Beatle compôs para o herdeiro Sean. São esses momentos de absoluta ternura que conquistam a plateia, a despeito de estarem perigosamente perto do piegas. E é aí que o talento de seus protagonistas faz toda a diferença.

Richard Dreyfuss é um dos atores mais sensacionais do cinema americano e demonstra isso em cada momento de "Mr. Holland". Dos 30 aos 60 anos de idade, ele convence plenamente, seja como professor dedicado, como compositor frustrado ou marido em crise de meia-idade. Capaz de emocionar e fazer rir, ele encontra em Glenne Headly uma parceira ideal. Na pele de Iris, sua esposa fiel e companheira, a atriz não deixa o astro eclipsar um trabalho sutil e delicado, injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação do ano de 1995. Juntos, o casal conduz o público por um caminho emocionante, agradável e pontuado por uma trilha sonora deliciosa.

O único problema de "Mr. Holland, adorável professor" é que ele é capaz de despertar lágrimas até mesmo no mais empedernido espectador. E nem todo mundo gosta de assumir seu lado sensível...

sábado

TRAÍDOS PELO DESEJO

TRAÍDOS PELO DESEJO (The crying game, 1992, Miramax Films, 112min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Kant Pan. Música: Anne Dudley. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Martin Childs. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Nik Powell. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Stephen Rea, Miranda Richardson, Forest Whitaker, Jaye Davidson, Jim Broadbent. Estreia: 26/9/92

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Neil Jordan), Ator (Stephen Rea), Ator Coadjuvante (Jaye Davidson), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

No biênio 92/93, um dos filmes mais comentados entre os cinéfilos de bom gosto era uma produção irlandesa, realizada com uns trocados, sem astros nos papéis centrais e com uma polêmica reviravolta na sua segunda parte. Dirigido pelo talentoso mas não célebre Neil Jordan, "Traídos pelo desejo" pegou o mundo de surpresa ao provar que, antes de astros musculosos e efeitos visuais, uma história bem contada é o ingrediente mais importante de qualquer produção. Hollywood seria muito mais interessante se seu filme fosse regra e não exceção.


Indicado a 6 importantes Oscar - e vencedor merecido do prêmio de roteiro original - "Traídos pelo desejo" é um dos mais fascinantes estudos sobre lealdade e paixão que o cinema já proporcionou. Imprevisível, forte, adulto e interpretado com garra, o filme de Jordan conduz o público a um labirinto de emoções a que somente um roteiro consistente e um diretor com mão firme conseguem. Tudo começa quando Jody (Forest Whitaker), um soldado inglês, é sequestrado pelo IRA, em represália ao governo. Enquanto espera o desenlace da situação, ele inicia uma espécie de amizade com um dos seus carrascos, o sensível Fergus (Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor ator), e fala a ele sobre sua paixão pela namorada. Depois de um trágico fim para o sequestro, Fergus abandona a luta armada e tenta levar uma vida normal. Consumido pela culpa, ele procura a namorada do soldado, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson) e aos poucos eles iniciam um relacionamento. Depois de uma chocante revelação - que muda totalmente a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta a atormentá-lo: sua colega de exército, Judy (Miranda Richardson, absolutamente fabulosa) o procura e exige que ele faça parte de uma nova ação.



As idas e vindas do roteiro de "Traídos pelo desejo" são absolutamente surpreendentes e não parecem forçadas em momento algum, graças principalmente à inteligência de Neil Jordan em não apressar as situações. Tudo acontece no momento certo, da forma correta, e o elenco escalado por ele não poderia estar em melhores dias. Stephen Rea é um ator extraordinário, que consegue dividir suas cenas com generosidade ímpar: ele joga bem com Whitaker, com Richardson e principalmente com Davidson, em um papel cruel e ingrato, mas que lhe dá a oportunidade de uma carreira. E Miranda Richardson rouba qualquer cena em que aparece, equilibrando um ar psicopata com uma determinação ferrenha de cumprir sua missão - e de quebra reconquistar o amor de Fergus.

Mas e quanto ao grande segredo preparado por Jordan? Apesar de ser o divisor de águas do roteiro - e redirecionar a trama de maneira indelével - a reviravolta na história de amor entre Fergus e Dil é apenas um elemento a mais, ainda que importante, de uma história contada com sutileza e sobriedade. Causou controvérsia, e discussões são sempre saudáveis, mas relegar "Traídos pelo desejo" a um nicho específico de cinema é emburrecer a audiência. "Traídos pelo desejo" é um filme que melhora a cada revisão - e na segunda sessão já não há mais a tal surpresa, o que apenas comprova sua enorme qualidade. Humano, sério e fascinante.Como todo bom cinema!

segunda-feira

PLATOON


PLATOON (Platoon, 1986, Orion Pictures, 120min) Direção e roteiro: Oliver Stone. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Georges Delerue. Direção de arte: Bruno Rubeo. Casting: Pat Golden, Warren McLean, Bob Morones. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe, Keith David, Forest Whitaker, Kevin Dillon, Johnnny Depp. Estreia: 19/12/86

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger, Willem Dafoe), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Montagem, Som
Festival de Berlim: Melhor Diretor (Oliver Stone)
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger)


Até 1986, a visão do público americano frequentador de cinema sobre a guerra do Vietnã havia sido do teor intimista de Michael Cimino e do estilo lisérgico de Francis Ford Coppola. Foi preciso que um ex-combatente de nome Oliver Stone (vencedor de um Oscar de roteiro por "O expresso da meia-noite") comandasse um filme sobre o assunto para que finalmente a plateia tivesse uma visão realista do conflito. Os elogios rasgados da crítica, o sucesso de bilheteria e os 4 Oscar conquistados (inclusive de filme e direção) por seu "Platoon" mostraram que já estava mais do que na hora.

Utilizando de sua experiência em combate e de suas lembranças pessoais, Stone carregou "Platoon" de um humanismo e uma violência física e psicológica que, ao contrário de filmes como "O franco-atirador" e "Apocalypse now" não busca subterfúgios românticos ou psicodélicos: seu ponto de vista da guerra mais vergonhosa perdida pelos EUA é seco e contundente, ainda que não totalmente desprovido de uma espécie de sentimentalismo que fala direto ao coração do público - em especial o americano.

"Platoon" é narrado através do ponto de vista do novato Chris Taylor (Charlie Sheen em papel que ecoa o trabalho de seu pai Martin em "Apocalypse"), um jovem voluntário que, tão logo chega ao Camboja, em setembro de 1967, vê o tamanho da encrenca em que se meteu. A princípio descrevendo o tédio e os horrores que dividem seu tempo em cartas à avó, ele desiste de mantê-la informada da real face da guerra quando percebe que, mais do que um violento conflito entre dois países, ele está testemunhando um drama bem mais pessoal: uma rixa pessoal entre o beligerante Sargento Barnes (Tom Berenger) e o ético Sargento Elias (Willem Dafoe).


O mais inteligente no roteiro de "Platoon" é a sua capacidade de equilibrar a disputa entre Barnes e Elias pela "alma" de Taylor e a maneira com que o rapaz vai tomando contato com toda a truculência e inutilidade da guerra. Cenas de grande impacto visual e emocional são apresentadas por Stone sem sentimentalismo, em tom quase documental, conduzindo o espectador a uma viagem sem escalas rumo a um inferno real e, pior ainda, quase palpável, graças à fotografia de Robert Richardson. A edição, também premiada com um Oscar, dá um ritmo angustiante à narrativa, assim como a trilha sonora escolhida pelo cineasta, que dialoga magistralmente com as imagens ora úmidas ora sufocantes captadas pela câmera nervosa de Stone.

Mas é em seu elenco que "Platoon" brilha ainda mais intensamente. Espertamente, Oliver Stone embaralhou as cartas na hora de escolher seus protagonistas, oferecendo ao galã Tom Berenger o papel mais odioso - um homem raivoso, cheio de cicatrizes e impiedoso - e ao normalmente vilão Willem Dafoe a compreensiva e honrada personagem que retratava o bem. Nitidamente à vontade, os dois conquistaram indicações ao Oscar por seu trabalho, e fascinam a audiência sempre que estão em cena.

"Platoon" é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema - e abriu a trilogia do diretor sobre o Vietnã (completada com "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra"). Feito com o coração mais do que com a técnica, é uma experiência que transcende o gosto da platéia pelo gênero: é cinema da mais alta qualidade.

domingo

A COR DO DINHEIRO


A COR DO DINHEIRO (The color of the money, 1986, Buena Vista Pictures, 119min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price, romance de Walter Tevis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Karen A. O'Hara. Casting: Gretchen Rennell. Produção: Irving Axelrad, Barbara De Fina. Elenco: Paul Newman, Tom Cruise, Mary Elizabeth Mastrantonio, Helen Shaver, John Turturro, Forest Whitaker, Bill Cobbs. Estreia: 08/10/86

4 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Mary Elizabeth Mastrantonio), Roteiro Adaptado, Direção de arte
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Paul Newman)


Filmes sobre sinuca - ou bilhar ou qualquer assemelhado - normalmente não são sucessos de bilheteria nem fascinam as plateias que frequentam as salas de cinema. Por isso não é de se estranhar que "A cor do dinheiro", que deu o merecido Oscar de melhor ator a Paul Newman em 1986 não tenha tido uma brilhante carreira comercial, apesar do apelo jovem de um Tom Cruise ainda em sua fase de ídolo adolescente - status que ele começaria a mudar aqui e em "Rain Man" e confirmaria com "Nascido em 4 de julho". No entanto, rotular "A cor do dinheiro" como um filme de sinuca é o mesmo que restringir "Touro indomável" a um filme sobre boxe. Não é à toa que ambos os filmes sejam dirigidos pelo mesmo Martin Scorsese, que, com seu talento indiscutível, sempre conta histórias de homens lutando contra si mesmos.

Na verdade "A cor do dinheiro" é uma espécie de continuação de "Desafio à corrupção", lançado em 1961 e que também tinha como protagonista o mesmo Eddie Felson que Newman revive aqui. No filme de Scorsese, Felson é um jogador aposentado de uma variação de sinuca chamada "Bola 9", que vive da venda de bebidas alcóolicas. Seu passado de glória no esporte volta a lhe assombrar quando ele conhece o jovem Vincent Lauria (Tom Cruise), dono de um talento inegável, mas também de uma arrogância que apenas a inexperiência é capaz de construir. Empolgado com o rapaz, Eddie propõe a ele e sua ambiciosa namorada, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio) que eles se unam para ganhar muito dinheiro em uma competição em Atlantic City. O trato - Felson entraria com seus meandros e malandragem e Vincent com o talento e a disposição - começa a dar errado quando Vincent passa a não dar ouvidos aos conselhos de seu mentor, julgando-se capaz de vencer sozinho. Logo eles acabam sendo obrigados a jogar um contra o outro.

Conforme dito antes, é característica da obra de Scorsese colocar seus protagonistas diante do pior de seus inimigos: ele mesmo. Em "A cor do dinheiro" ele faz isso duplamente. Eddie Felson precisa lutar contra seu passado, contra o tempo que já não lhe é mais complacente e contra seus próprios princípios. O jovem Vincent necessita aprender a lidar com seu exibicionismo, com a sua efusividade juvenil, com a ambição e a pressa típicas de sua idade. E ambos são forçados também a lutar um contra o outro: como dois espelhos, eles se enxergam no parceiro... e provavelmente não gostam muito do que veem.


Como filme, "A cor do dinheiro" não está no mesmo patamar das obras-primas de Scorsese: tem alguns problemas de ritmo e, deixando de lado a atuação excepcional de Newman, não tem um protagonista carismático e/ou repulsivo como seus melhores trabalhos. No entanto, seduz o espectador com uma imprevisibilidade rara - o roteiro do escritor Richard Price foge dos clichês admiravelmente e ainda tem a ousadia de terminar em aberto - o que, para um filme sem pretensões de tornar-se o primeiro capítulo de uma série é uma temeridade comercial sem tamanho. E é inegável perceber o cuidado do cineasta em filmar cada sequência do esporte da maneira mais empolgante possível - e nessas cenas a edição de sua colaboradora habitual Thelma Schoonmaker é, como sempre, destaque absoluto.

Mas é Paul Newman o dono do filme. Sua interpretação delicada, discreta mas extremamente forte domina cada cena em que ele aparece, dando aulas prestimosas a Cruise, que em seguida tentaria direcionar sua carreira para escolhas de maior prestígio do que "Negócio arriscado" e "A lenda". Mais do que levar um Oscar por respeito a sua carreira sensacional, ele foi premiado pela qualidade altíssima de seu trabalho. Um prêmio absolutamente merecido!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...