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quarta-feira

LENDA URBANA


LENDA URBANA (Urban legend, 1998, TriStar Pictures, 99min) Direção: Jamie Blanks. Roteiro: Silvio Horta. Fotografia: James Chressanthis. Montagem: Jay Cassidy. Música: Christopher Young. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Charles Breen/Carolyn 'Cal' Loucks. Produção executiva: Brad Luff. Produção: Gina Matthews, Michael McDonnell, Neal H. Moritz. Elenco: Jared Leto, Alicia Witt, Rebecca Gayheart, Joshua Jackson, Michael Rosenbaum, Tara Reid, Robert Englund, Brad Dourif, Loretta DeVine, John Neville. Estreia: 25/9/98

O sucesso estrondoso de "Pânico" (1996) não apenas ressuscitou o prestígio de Wes Craven ou catapultou a carreira de Neve Campbell: seu êxito comercial deflagrou uma onda de slasher movies juvenis que raramente conseguiram atingir o mesmo nível de inteligência e frescor do original. Produções como "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" (1997) mostraram que, apesar do forte apelo popular, a fórmula assassinatos violentos/personagens ingênuos/humor sombrio era perigosamente frágil e propensa a inevitáveis armadilhas. Foi o que ocorreu com "Lenda urbana": se utilizando de todos os ingredientes reaproveitados por Craven (mas consagrados desde os cultuados "Halloween" e "Sexta-feira 13"), o filme de Jamie Blanks conquistou uma respeitável bilheteria internacional (mais de 70 milhões de dólares contra um orçamento tímido de aproximadamente 14 milhões), rendeu continuações e agradou aos fãs menos exigentes do gênero, mas esbarrou na reprovação generalizada da crítica, pouco entusiasmada com o excesso de clichês e furos do roteiro, escrito pelo mesmo Silvio Horta que estaria por trás da série "Ugly Betty" (2006).

Dirigido por Jamie Blanks (também compositor de trilhas sonoras e editor, e que voltou ao suspense com "O dia do terror", de 2001), "Lenda urbana" se aproveita de um tema bastante interessante para contar uma história que, apesar de apresentar alguns momentos de tensão genuína, escorrega constantemente na inverossimilhança e falha ao criar personagens capazes de despertar a simpatia do espectador - culpa talvez da apatia de Alicia Witt, escolhida pelos produtores depois da recusa de Jennifer Love Hewitt (que tentava escapar do rótulo de heroína do gênero, depois de "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado") e Reese Witherspoon (antes da fama e da consagração que viria poucos anos depois). Insossa e sem carisma, Witt ainda teve o azar de ficar com uma personagem igualmente sem graça - e até um pouco irritante, como toda boa protagonista de um filme de terror. Sua Natalie Simon é uma jovem introvertida e misteriosa que se envolve, junto com um grupo de colegas de uma universidade da Nova Inglaterra, em uma apavorante caçada humana, onde um violento assassino faz suas vítimas de acordo com histórias contadas através das gerações. Enquanto cadáveres se acumulam, ela se vê apaixonada por Paul Gardener (Jared Leto), repórter do jornal universitário e objeto do desejo de sua melhor amiga, Brenda (Rebecca Gayheart). Com um passado que tenta esconder a todo custo, Natalie não demora a tornar-se alvo do carniceiro - ou não será ela mesma uma suspeita?

 

O roteiro de Silvio Horta até tenta ser criativo na hora de eliminar seus personagens - algumas mortes fazem jus ao sucesso de bilheteria do filme, e a primeira cena (com a participação não creditada de Brad Dourif e da filha de Natalie Wood e Robert Wagner, Natasha Gregson-Wagner) é potente o suficiente para ganhar a plateia de cara. Porém nem mesmo a direção mais inovadora do mundo seria capaz de evitar o senso de decepção com seu terço final - não apenas a resolução do mistério é pouco crível como o assassino parece se tornar imortal (reflexos de Jason, Freddy Kruger e Michael Meyers) sem nenhuma explicação aparente. O elenco também não ajuda: se Alicia Witt não tem a força necessária para assumir o posto de scream queen, seus colegas também não se saem melhor, especialmente Rebecca Gayheart, cujo exagero em cena é mais assustador que os crimes mostrados diante do espectador. Jared Leto tem pouco a fazer como o galã do momento, e Joshua Jackson volta a interpretar o amigo simpático e metido a conquistador (algo que faz com extrema naturalidade desde a série "Dawson's Creek", que, aliás, é lembrada sutilmente na única boa piada do roteiro). Tara Reid, por sua vez, protagoniza uma das melhores sequências do filme (substituindo Sarah Michelle Gellar, que saiu do projeto por conflitos de agenda com a série "Buffy: a caça-vampiros"). Completando o elenco, nomes consagrados do cinema de terror (Brad Douriff, de "Brinquedo assassino", e Robert Englund, o Freddy Kruger em pessoa) e o veterano John Neville - emprestando seu prestígio a um personagem que, como os demais, é subaproveitado no enredo.

No final das contas, "Lenda urbana" atinge a seus objetivos. Pelo tempo que dura prende a atenção do espectador e dá alguns sustos - que é o que se espera de uma produção do gênero. Também faz uso razoável das lendas urbanas que lhe inspiraram e não tem medo em assumir-se um slasher movie com todas os seus prós e contras. É pouco convincente? Sim. Tem um elenco majoritariamente fraco? Sem dúvida. Mas é pouco provável que os fãs do estilo se importem com tais detalhes enquanto a tela é inundada por sangue e gritos juvenis. Não é, nem de longe, um "Pânico". Mas poucos filmes são.

segunda-feira

CLUBE DE COMPRAS DALLAS

CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas Buyers Club, 2013, Truth Entertainment, 117min) Direção: Jean-Marc Vallée. Roteiro: Craig Borten, Melisa Wallack. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Martin Pensa, Jean-Marc Vallée. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: David Bushell, Nicolas Chartier, Cassian Elwes, Xev Foreman, Logan Levy, Joe Newcomb, Tony Notargiacomo, Nathan Ross, Holly Wiersma. Produção: Robbie Brenner, Rachel Winter. Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O'Hare, Steve Zahn, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Michael O'Neill. Estreia: 07/9/13 (Festival de Toronto)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto), Roteiro Adaptado, Montagem, Maquiagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto), Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto)

Levando-se em consideração o quão repleta de elementos dramáticos foi a história do eletricista texano Ron Woodroof e sua batalha contra o sistema de saúde americano que impedia a importação de medicamentos experimentais para a cura da AIDS no início dos anos 80 (no começo da epidemia, portanto), é surpreendente que Hollywood tenha demorado tanto tempo para transformá-la em filme. Tudo bem que o projeto inicial surgiu na metade da década de 90, com Dennis Hopper na direção e Woody Harrelson interessado no papel principal, mas foi somente em 2013 - quase trinta anos depois dos acontecimentos narrados no roteiro aconteceram - que finalmente o que era apenas uma ideia viu a luz das telas... e o brilho do Oscar. Indicado em seis categorias, inclusive melhor filme, "Clube de Compras Dallas" saiu da cerimônia de premiação que consagrou "Gravidade" e "12 anos de escravidão" com três estatuetas debaixo do braço: ator, ator coadjuvante e maquiagem. De certa forma, a Academia acertou em homenagear o que de melhor há no filme de Jean-Marc Vallée, de resto um trabalho apenas razoável e carente de um roteiro mais consistente (ainda que o texto de Craig Borten e Melisa Wallack também tenha tentado uma vitória impossível contra o genial "Ela", de Spike Jonze).

A trama de "Clube de Compras Dallas" começa em 1985, quando Woodroof, heterossexual convicto, machista e homofóbico, descobre ter contraído o vírus HIV, então praticamente uma incógnita até mesmo para a comunidade médica e tratada como uma doença restrita praticamente ao universo gay. Desesperado com a notícia e com a forma como passa a ser tratado por seus amigos - que assim como ele também não tem a menor informação sobre o vírus - ele resolve desafiar a sentença de 30 dias de vida dada por seu médico, Servard (Denis O'Hare) e buscar tratamentos alternativos e ainda ilegais nos EUA. Começando com AZT e passando por drogas testadas em outras partes do mundo, ele cria uma atividade de distribuição de tais medicamentos através de um clube de compras, onde o paciente paga uma taxa de inscrição e passa a receber seus tratamentos. Com a ajuda do travesti Rayon (Jared Leto) e com a anuência de outra médica, Eve (Jennifer Garner), ele desafia a justiça americana enquanto tenta manter-se vivo e na esperança de que encontrem uma cura. Utilizando-se de disfarces variados, ele consegue manter o contrabando por tempo suficiente para incomodar o sistema de saúde do país.


Vindo de um realizador criativo e sensível como o canadense Jean-Marc Vallée, revelado com o ótimo "C.R.A.Z.Y", de 2005, o resultado final de "Clube de Compra Dallas" não deixa de ser uma grande decepção. É quadrado, mecânico e - pecado mortal para um filme que trata de um assunto com tanto potencial dramático - indiferente. Mesmo que fique evidente a entrega de McConaughey e Leto a seus papéis é difícil envolver-se com a narrativa, porque o roteiro não permite a aproximação do espectador, tratando tudo com um distanciamento que, se mirou na neutralidade, acertou apenas na frieza. Por mais que os atores se esforcem em cativar a plateia - especialmente Jared Leto, mostrando que suas ótimas performances em "Réquiem para um sonho" (2000) e "Capítulo 27" (2008), em que interpretava o assassino de John Lennon não eram meros golpes de sorte - a opção do diretor em fugir do sentimentalismo contrasta violentamente com a potência emocional da história verdadeira de Woodroof, que chegou perto de ser interpretado por Brad Pitt e Ryan Gosling, em versões anteriores do projeto. Matthew McConaughey - em uma virada espetacular na carreira, deixando para trás comédias românticas bobas para concentrar-se em papéis mais desafiadores - está bem, mas é quase impossível dissociar seu Oscar de sua impressionante transformação física, que acaba por eclipsar suas tentativas de aprofundar-se em um texto pouco ousado, que jamais escapa do superficial mesmo com um protagonista tão intrigante.

Preconceituoso e sem maiores preparos psicológicos para lidar com sua nova situação, Woodroof é um personagem e tanto, mas McConaughey esbarra frequentemente em um roteiro incapaz de explorar a contento todas as possibilidades de sua personalidade conflituosa. Nesse ponto novamente Leto sai-se melhor, já que seu Rayon consegue ser um pouco (não muito) melhor desenvolvido, apesar do filme jogar fora a promissora relação entre ele - um jovem travesti que se prostitui e é contaminado pelo vírus da AIDS - e seu pai - um homem rico e conservador que não aceita seu modo de vida. Tal conflito é explorado em apenas uma cena rápida, matando um dos poucos focos mais emocionantes do filme. Ainda assim, é do vocalista da banda 30 Seconds To Mars a cena mais impactante da produção: quando ele conversa consigo mesmo diante de um espelho é difícil ficar indiferente, apesar do mérito ser muito mais do ator do que da direção. No final das contas, "Clube de Compras Dallas" cumpriu seu objetivo (ganhar Oscar), mas desperdiça uma boa história e bons personagens em um resultado raso e dinamicamente falho, que encontra espaço até para uma dispersiva relação entre o protagonista e sua médica (a sempre fraca Jennifer Garner) mas não encontra um foco narrativo capaz de cativar ou emocionar a plateia. Um filme muito aquém do que poderia ser.

quinta-feira

CAPÍTULO 27

CAPÍTULO 27 (Chapter 27, 2007, Peace Arch Entertainment Group, 84min) Direção: J.P. Schaefer. Roteiro: J.P. Schaefer, livro "Let me take you down", de Jack Jones. Fotografia: Tom Richmond. Montagem: Andrew Hafitz, Jim Makiev. Música: Anthony Marinelli. Figurino: Ane Crabtree. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Amanda Carroll. Produção executiva: Gilbert Alloul, Rick Chad, John Flock, Gary Howsam, Jared Leto, Lewin Webb. Produção: Naomi Despres, Alexandra Milchan, Robert Salerno. Elenco: Jared Leto, Lindsay Lohan, Ursula Abbott, Brian O'Neill. Estreia: 25/01/07 (Festival de Sundance)

O mundo inteiro parou em prantos em 08 de dezembro de 1980, quando o ex-Beatle e ídolo de várias gerações John Lennon morreu assassinado a tiros em frente ao prédio que morava, em Nova York - o infame Dakota onde Roman Polanski filmou "O bebê de Rosemary" doze anos antes. Seu assassino, preso imediatamente, era um fã chamado Mark David Chapman,  que alegou ter cometido o crime incentivado pela leitura do clássico americano "O apanhador no campo de centeio", de J.D. Salinger. Os três dias imediatamente anteriores ao homicídio, sob o ponto de vista de Chapman, é o tema de "Capítulo 27", filme de J.P. Schaefer baseado no livro "Let me take you down", publicado em 1992 e, apesar de sua estreia no Festival de Sundance e da atuação impressionante de Jared Leto no papel principal, passou praticamente em brancas nuvens junto ao público e à crítica. Leto, um dos produtores executivos do filme, chegou a engordar 30 quilos para dar vida ao torturado Chapman, mas, apesar de seu esforço, não chamou tanta atenção quanto deveria dos membros da Academia - que quase uma década mais tarde, reconheceriam sua dedicação no caminho contrário, ao emagrecer assustadoramente para viver um travesti em "Clube de Compras Dallas", que finalmente lhe rendeu um Oscar.

Enxuto e claustrofóbico, "Capítulo 27" começa com a chegada de Chapman em Nova York, vindo alegadamente do Havaí, onde mora sua mãe. Hospedado em um hotel de quinta categoria - e dividindo espaço com prostitutas, traficantes e homossexuais - ele passa a frequentar com assiduidade a calçada em frente ao prédio onde vive Lennon, Yoko Ono e seu filho pequeno, Sean, com quem ele tem um encontro fortuito em um passeio pelo Central Park ao lado de outra fã dedicada, Jude (Lindsay Lohan). Introvertido e um tanto assustador com seus modos e lapsos de agressividade, ele tenta, sem muito sucesso, fazer amizade com os porteiros do prédio e com as pessoas que rodeiam o cantor, com o objetivo de conseguir com ele um autógrafo na capa de seu disco mais recente, "Double Fantasy". Enquanto discute com os outros fãs assuntos diversos - como a coincidência que envolve o fato de Polanski ter dirigido um filme sobre cultos satânicos no mesmo prédio onde mora o autor da canção "Helter skelter", que o psicótico Charles Manson usou como inspiração para a chacina que vitimou a mulher do diretor, a atriz Sharon Tate - Chapman também não consegue se livrar das palavras do livro de Salinger, com cujo protagonista Holden Caufield ele se identifica às raias da obsessão. Suas intenções - que ficam claras desde as primeiras cenas - é matar Lennon, escrevendo o capítulo final do livro, o de número 27.


Não é difícil entender porque a recepção tão fria ao filme de Schaefer: com um roteiro frágil, sustentado apenas pelos pensamentos doentios e muitas vezes desconexos de seu protagonista, a produção esbarra inevitavelmente no problema de contar uma história cujo final todos conhecem sem acrescentar a ela nenhum dado relevante ou interessante o bastante para sustentar um filme inteiro. Jared Leto está fascinante no papel, conseguindo impressionar com uma interpretação que ultrapassa a simples transformação física para mostrar, através do olhar e da maneira como se movimenta em cena, um turbilhão interno dos mais aterrorizantes: não é à toa que ele engole tudo à sua volta sempre que está em cena, em um tour de force que antecipava em vários anos o quão alto ele poderia subir em termos dramáticos. Seu trabalho é tão avassalador que até mesmo a normalmente carismática Lindsay Lohan fica quase desaparecida em cena, em um papel pequeno que muitas vezes soa apenas como um alívio de normalidade diante dos distúrbios de Chapman.

"Capítulo 27" não é um grande filme, muito pelo contrário: apesar de curto, muitas vezes parece aborrecido e desnecessariamente metido a tentar compreender os meandros psicológicos de seu protagonista. Mesmo assim, vale a pena ser conhecido, já que a atuação de Jared Leto é uma das mais interessantes de seu tempo - e ter como pano de fundo a morte de Lennon, um ídolo extremamente relevante e eterno para a música pop, é um bônus para todos aqueles que tentam entender o que aconteceu naquela fatídica noite de dezembro quando o sonho realmente acabou. Vale uma espiada.

quarta-feira

PSICOPATA AMERICANO

PSICOPATA AMERICANO (American psycho, 2000, Lions Gate Films, 102min ) Direção: Mary Harron. Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner, romance de Brett Easton Ellis. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Andrew Marcus. Música: John Cale. Figurino: Isis Mussenden. Direção de arte/cenários: Gideon Ponte/Jeanne Develle. Produção executiva: Josehph Drake, Michael Paseornek, Jeff Sackmn. Produção: Christian Halsey Solomon, Chris Hanley, Edward R. Pressman. Elenco: Christian Bale, Willem Dafoe, Chloe Sevigny, Reese Witherspoon, Jared Leto, Josh Lucas, Justin Theroux, Cara Seymour, Bill Sage, Samantha Mathis. Estreia: 21/01/00 (Festival de Sundance)

A publicação do romance "Psicopata americano", no início da década de 90, foi cercado de polêmicas, principalmente graças ao que foi tido por seus detratores como "barbárie misógina". Violentamente atacada pelas feministas e discutida amplamente nos meios de comunicação sem ao menos ter chegado às livrarias, a obra de Brett Easton Ellis - também autor de "Abaixo de zero" e "Regras da atração", ambos adaptados para o cinema - parecia fadada à controvérsia, o que ficou provado quase dez anos mais tarde quando Leonardo DiCaprio, fresquinho do sucesso de "Romeu + Julieta", anunciou que estrelaria sua versão para as telas. A gritaria em torno da possibilidade de um ator idolatrado pelas adolescentes protagonizar um filme tão "nefasto" acabou por mais uma vez jogar os holofotes sobre a história de Patrick Bateman, um dos anti-herois mais improváveis do final do século XX. Resultado? O que poderia ter sido apenas mais uma produção independente louvada em festivais e em seguida esquecida pelo grande público transformou-se em um inesperado cult movie - um dos maiores de sua época.

A polêmica que começou antes mesmo que o livro fosse publicado - e que continuou quando ele chegou às livrarias, resultando até mesmo em cadeia para uma de suas mais ferozes críticas, a ativista feminista Tara Baxter, denunciada por subversão da ordem em uma loja no interior dos EUA - começou a atingir níveis internacionais e que ultrapassavam os limites literários quando sua adaptação para as telas foi anunciada, sob a direção de Mary Harron, conhecida no mundo do cinema independente graças ao filme "Um tiro para Andy Wharol", de 1996. Preferindo um ator ao invés de um astro internacional, Harron considerou vários nomes para o papel principal - Billy Crudup, Jared Leto, Ben Chaplin, Robert Sean Leonard entre eles - até chegar a Christian Bale, ainda não consagrado como astro da série "Batman", de Christopher Nolan e mais conhecido como o garotinho inglês de "Império do sol", de Steven Spielberg. Os produtores ainda tentaram empurrar Edward Norton, mas a cineasta bateu pé em sua escolha, aceitando até mesmo a imposição de escalar nomes conhecidos para o elenco coadjuvante - Willem Dafoe e Reese Witherspoon foram os escolhidos para tal. Foi então que tudo mudou de rumo: Leonardo DiCaprio tornou-se um ator "quente" e foi convidado (contra a vontade de Harron) para protagonizar o filme. Indignada, a diretora pulou fora do projeto, deixando-o nas mãos de Oliver Stone, que mudou tudo, do roteiro ao elenco já escalado.


Como se poderia esperar, os problemas começaram: o orçamento inchou, a gritaria contra o conteúdo da obra aumentou, DiCaprio abandonou o projeto para fazer "A praia" - se a pressão popular foi uma das causas de sua deserção ainda não se sabe - e o próprio Oliver Stone desistiu de ficar na cadeira de direção. Sem outra opção disponível, a Lions Gate (o estúdio por trás do filme) voltou atrás e chamou Harron novamente, dessa vez dando-lhe total liberdade artística. Bale retornou ao papel de Patrick Bateman - mesmo contra a vontade de uma das maiores críticas do livro, a feminista Gloria Steinem, que posteriormente se tornaria sua madrasta - e finalmente, depois de muitas idas e vindas, a trama de Ellis estreou no Festival de Cannes de 2000, provocando a dose de controvérsia esperada: a história de um jovem executivo de Wall Street que esconde sua personalidade violenta e homicida por trás de uma aparência saudável e sofisticada dividiu a crítica e confundiu o público, mas transformou-se, imediatamente, em um retrato sério e assustador da superficialidade da América do final do século XX.

Em um tom propositalmente hiperbólico, tanto o romance de Ellis quanto o filme de Harron debatem o extremo niilismo da geração yuppie, retratada com precisão pela trilha sonora recheada de hits dos anos 80 - Bateman mata enquanto discute Phil Collins e Huey Lewis - e pelos diálogos aparentemente ilógicos e surreais disparados por ele e seus colegas, todos vazios e munidos de um egoísmo atroz. Enquanto é investigado pela morte de um executivo tão fútil quanto ele (vivido por Jared Leto), Patrick Bateman preocupa-se apenas em frequentar restaurantes da moda, em vestir-se com os melhores estilistas, em cuidar obsessivamente do corpo e invejar os cartões de visita daqueles a quem julga inferiores. Sua decadência mental rumo ao inferno, portanto, acaba sendo o menor dos seus problemas, principalmente quando o desfecho (ambíguo e desconfortável) lhe mostra que o mundo que o cerca pode ser tão doente quanto ele.

Perturbador e corajoso, "Psicopata americano" tem a seu favor, também, o trabalho insano de Christian Bale, a caminho de se transformar em um dos atores mais competentes de sua geração. Construindo um protagonista desprovido de qualquer traço digo de simpatia ou compaixão, ele acerta em escolher o caminho mais árduo, evitando psicologismos simplistas ou um humor (negro) fácil. Seu desempenho - que conduz todos os outros ao mesmo nível de excelência - é o maior destaque do filme, que com seu tom sombrio e frio não agrada a todos os tipos de público, em especial àquele acostumado com produções mais convencionais. Mesmo assim, é um programa obrigatório para quem quiser compreender o espírito das últimas décadas do século.

quinta-feira

COLCHA DE RETALHOS

COLCHA DE RETALHOS (How to make an american quilt, 1995, Amblin Entertainment/Universal Pictures, 109min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Jane Anderson, romance de Whitney Otto. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Marvin March. Produção executiva: Laurie MacDonald, Deborah Jelin Newmyer, Walter F. Parkes. Produção: Sarah Pilsbury, Midge Sanford. Elenco: Winona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Dermot Mulroney, Kate Nelligan, Alfre Woodard, Claire Danes, Lois Smith, Jean Simmons, Kate Capshaw, Adam Baldwin, Maya Angelou, Dennis Arnt, Rip Torn, Johnathon Schaech, Samantha Mathis, Loren Dean, Melinda Dillon, Richard Jenkins, Jared Leto. Estreia: 06/10/95

Se é que existe um subgênero cinematográfico que se pode chamar "filme de mulher", o drama romântico "Colcha de retalhos" é um perfeito exemplar dele. Dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse com base no romance de Whitney Otto, o filme lembra a estrutura do belo "O clube da felicidade e da sorte", substituindo as gerações de nipo-americanas do filme de Wayne Wang por um grupo de amigas de meia-idade que se utilizam de suas experiências de vida para dar rumo à confusa neta de uma delas, que não se sente preparada para assumir o compromisso de um casamento - ao mesmo tempo em que termina uma tese para a faculdade. Com um invejável elenco feminino e dotado de sensibilidade e delicadeza, o filme de Moorhouse pode não ter feito muito barulho em seu lançamento, mas dentro do que se propõe não deixa de ser um entretenimento agradável, apesar de ser prejudicado por sua estrutura frágil e um tanto previsível.

Finn Todd (Winona Ryder, linda e disfarçando seus defeitos como atriz com carisma e simpatia) é uma jovem de 26 anos que acaba de ser pedida em casamento por seu namorado, o arquiteto Sam (Dermot Mulroney). Com medo das responsabilidades que vem junto com o compromisso, ela pede a ele um tempo e viaja para a fazenda de sua avó, Hy (Ellen Burstyn). Lá, ela espera concluir sua tese de mestrado, enquanto decide os rumos de sua vida. Suas dúvidas aumentam quando ela conhece o sedutor Leon (Johnathon Schaech), que balança seus alicerces com seu ar romântico que contrasta com a praticidade de Sam. No decorrer do verão, Finn - que tem como espelho de relacionamento o casamento frustrado dos pais - passa a conhecer as diversas histórias que circundam as amigas de sua avó e da irmã dela, Glady Joe (Anne Bancroft), que se reunem diariamente para confeccionar uma colcha de retalhos: cada uma delas, incluindo suas familiares, tem dramas e tragédias pessoais em seu passado, que ajudarão a jovem a decidir seu destino.


Apesar de ser a espinha dorsal do filme, a hesitação de Finn em entregar-se a uma vida adulta romanticamente estável é a parte menos interessante do trabalho de Moorhouse, talvez por não ser suficientemente explorada psicologicamente - a protagonista parece mais uma jovem mimada do que uma mulher realmente em busca de estabilidade emocional, apesar dos esforços de Winona Ryder, uma atriz limitada mas aqui razoavelmente convincente. São as tramas paralelas que a envolvem que fazem valer a pena assistir-se a "Colcha de retalhos", principalmente porque sempre é um prazer testemunhar os shows de interpretação de gente como Anne Bancroft e Ellen Burstyn, que, na pele de duas irmãs com um passado traumático, roubam sem muito esforço cada cena em que aparecem. O elenco veterano, aliás, está extremamente à vontade, provando à Hollywood que, se bons papéis para atrizes maduras são raros, não o são intérpretes de talento e carisma. Uma pena, porém, que tais atrizes - Lois Smith, Kate Nelligan, Melinda Dillon - tenham tão pouco tempo em cena.

No final das contas, "Colcha de retalhos" cumpre o que promete. É romântico, sincero, dramático sem exageros e bem interpretado. Não ousa nem surpreende, mas tampouco eram essas as intenções dos produtores e da diretora. Seu público-alvo certamente não tem do que se queixar. É um entretenimento simples e eficiente que tem, entre seus coadjuvantes juvenis, Claire Danes e Jared Leto em início de carreira. Talvez carregue no açúcar em alguns momentos, mas não tem contra-indicações.

ALEXANDRE

ALEXANDRE (Alexander, 2004, Warner Bros, 175min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Christopher Kyle, Laeta Kalogridis. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Yann Hervé, Gladys Joujou, Alex Marquez, Thomas J. Nordberg. Música: Vangelis. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Jim Erickson. Produção executiva: Matthias Deyle, Pierre Grunstein. Produção: Moritz Borman, Jon Kilik, Thomas Schuly, Iain Smith, Oliver Stone. Elenco: Colin Farrell, Angelina Jolie, Val Kilmer, Jared Leto, Anthony Hopkins, Christopher Plummer, Rosario Dawson, Jonathan Rhys Meyers. Estreia: 16/11/04

Em 2004 dois filmes disputavam a primazia de contar a história de Alexandre, O Grande. A versão que seria dirigida por Baz Luhrmann e estrelada por Leonardo DiCaprio e Nicole Kidman, porém, acabou ficando apenas nos planos, enquanto uma outra visão da saga do conquistador macedônio chegou às telas, sob o comando do sempre polêmico Oliver Stone. Sem medo de tocar em assuntos delicados, como a bissexualidade de seu protagonista, Stone assinou um trabalho visualmente espetacular, mas frouxo em suas intenções. Mesmo contando com uma impressionante fotografia de Rodrigo Prieto, uma trilha sonora majestosa do grego Vangelis e uma impecável reconstituição de época, o épico do cineasta que sacudiu Hollywood com sua trilogia sobre a guerra do Vietnã - "Platoon", "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra" - acabou se tornando um retumbante fracasso de bilheteria.


Depois do assassinato de seu pai, o rei Filipe, o Caolho (em surpreendente atuação de Val Kilmer), o jovem Alexandre (Colin Farrell loiro e menos intenso do que de costume) assume o trono da Grécia e, inspirado pelo mito de Aquiles, decide conquistar todo o mundo então conhecido. Incentivado por sua ambiciosa e vingativa mãe, Olímpia (Angelina Jolie, belíssima mesmo na maturidade de sua personagem), ele utiliza seu fiel exército para dominar inclusive a Babilônia, de onde torna-se rei por direito. Controverso e dado a crises de paranoia, ele surpreende a todos quando, ao contrário do que se esperava, casa-se com Roxana (Rosario Dawson), uma mulher considerada de importância política nula. Cercado de traições e motins por todos os lados, Alexandre conta sempre com a presença de Hefestion (Jared Leto), seu grande amor de infância, para tornar-se o rei do mundo.

O roteiro de "Alexandre", escrito pelo próprio Stone - junto com Christopher Kyle e Laeta Kalogridis - passa ao largo de momentos importantes da história do conquistador e, paradoxalmente, narra algumas situações bastante dispensáveis. Cenas grandiloquentes e bem dirigidas não faltam, cortesia de tomadas aéreas deslumbrantes. O que falta no filme, no entanto, são emoções verdadeiras. O irlandês Colin Farrell tira de letra o desafio de encarar um papel com as dimensões de Alexandre, mesmo que esteja mais contido do que o habitual. Angelina Jolie desfila sua beleza impressionante e sua classe pela tela, mas fala com um sotaque inexplicável que diminiu o impacto de sua Olímpia, quase uma Lady Macbeth, ambiciosa e rancorosa. E é uma pena que atores do quilate de Anthony Hopkins estejam em cena como um mero e luxuoso narrador.

É inegável que "Alexandre" é um superespetáculo, um épico de grandes proporções, e como tal, agrada, impressiona e satisfaz. Como história, no entanto, deixa a desejar, em especial por se estender em demasia sem ter muito o que contar - a julgar pelo roteiro fraco. Ainda assim, é muito melhor do que boa parte da crítica americana - que tem enorme prazer em detonar Oliver Stone - quis fazer acreditar na época de seu lançamento.

terça-feira

O QUARTO DO PÂNICO

O QUARTO DO PÂNICO (Panic room, 2002, Columbia Pictures, 112min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Koepp. Fotografia: Conrad L. Hall, Darius Khondji. Montagem: James Haygood, Angus Wall. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Jon Danniells, Garrett Lewis. Produção: Cean Chaffin, Judy Hofflund, David Koepp, Gavin Polone. Elenco: Jodie Foster, Forest Whitaker, Kristen Stewart, Jared Leto, Dwight Yoakam. Estreia: 29/3/02

É impressionante a diferença que faz um bom diretor! Nas mãos de um operário-padrão qualquer de Hollywood, "O quarto do pânico" seria apenas mais um filme de suspense perfeitamente esquecível depois dos letreiros finais. Porém, sob o comando do sempre competente David Fincher - que tem no currículo as obras-primas "Seven" e "Clube da luta" e o subestimado "Vidas em jogo" - o jogo de gato-e-rato criado pelo roteirista David Koepp em apenas seis dias (o primeiro tratamento, logicamente) não só prende a atenção de seus espectadores como ainda por cima se eleva vários degraus acima de seus congêneres, equilibrando com maestria um clima hitchcockiano e inovações técnicas utilizadas com inteligência e parcimônia.

A trama tem início quando a recém-divorciada Meg Altman (Jodie Foster, grávida durante as filmagens), abandonada pelo marido milionário, compra uma gigantesca casa em Manhattan para morar com a filha pré-adolescente Sarah (Kirsten Stewart pré-"Crepúsculo"). A casa - uma impressionante criação do diretor de arte Arthur Max - tem até mesmo uma espécie de bunker, apelidado pelo antigo morador de "quarto do pânico": o tal quarto tem até mesmo um sistema exclusivo de câmeras de vigilância. O que seria apenas mais um cômodo, no entanto, vira a principal forma de defesa de mãe e filha quando três homens armados, liderados pelo descontrolado Junior (Jared Leto), invadem a casa na madrugada, atrás de milhões de dólares escondidos justamente no quarto onde elas se escondem. Para proteger a filha e a si mesma, Meg tem que usar toda a sua inteligência e força emocional, principalmente quando os criminosos - que incluem o racional Burnham (Forest Whitaker) e o violento Raoul (Dwight Yoakam) - resolvem apelar para a violência para obrigá-las a abandonar o famigerado aposento.


"O quarto do pânico" é um típico produto de sua época. Os criativos movimentos de câmera de Fincher, o desenho de som e as inovações técnicas que ele apresenta são tão ou mais importantes que a história que o diretor conta. Mesmo sem ser exatamente original e/ou empolgante em uma primeira visão, o roteiro de Koepp consegue facilmente envolver e causar tensão durante seu tempo de duração, o que já é bastante raro em um gênero mortalmente previsível quanto o suspense. Fugindo dos clichês das obras mais convencionais, a obra de Fincher cria momentos de tensão genuína, envolvendo o público na jornada de Meg, personificada com força e determinação por um Jodie Foster nunca aquém de excelente. Substituindo Nicole Kidman na última hora (que abandonou o projeto por ter se machucado nas filmagens de "Moulin Rouge"), Foster não deixa de ser uma bênção ao projeto: talvez a fragilidade física de Kidman não combinasse com a protagonista, uma personagem que cabe como uma luva no histórico de mulheres fortes interpretadas por Jodie.

"O quarto do pânico" está longe de ser o melhor trabalho de David Fincher. Ainda assim, é forte, inteligente e jamais previsível, além de tratar seu público com respeito e em nenhum momento apelar para soluções fáceis e triviais. É um excelente programa para quem gosta de suspense e para aqueles que esperam por bons filmes dirigidos com elegância e talento.

sexta-feira

RÉQUIEM PARA UM SONHO


RÉQUIEM PARA UM SONHO (Réquiem for a dream, 2000, Artisan Entertainment, 102min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Darren Aronofsky, Hubert Selby Jr., romance de Hubert Selby Jr. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Clint Mansell. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Beau Flynn, Stefan Simchowitz, Nick Wechsler. Produção: Eric Watson, Palmer West. Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Christopher McDonald, Dylan Baker. Estreia: 27/10/00

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn)

Filmes sobre viciados em drogas normalmente acabam resvalando nas situações clichês, cedendo à tentação de chocar, mesmo que para isso os roteiristas e diretores deixem de lado profundidades psicológicas em função do choque visual, normalmente escatológico. A cada gloriosa exceção como o criativo “Trainspotting, sem limites” existe dúzias de bombas como o longínquo mas com status de clássico “Christiane F.”, cujo maior mérito foi alertar a respeito do assunto e contar com a participação de David Bowie. Felizmente, gente com talento se interessa em acrescentar qualidade a temas tão batidos como as tragédias junkies. Um desses nomes de talento é Darren Aronofsky, que foi incensado pela crítica já em seu filme de estreia, o pouco visto “Pi” e colecionou mais elogios ainda com “Réquiem para um sonho”, um petardo cinematográfico poucas vezes registrado na história.

Baseado no romance de Hubert Selby Jr. (que colaborou com o roteiro, escrito em parceria com o diretor), “Réquiem para um sonho” é um dos filmes mais ousados do final do século, uma experiência sensorial e emocional respaldada por um elenco excepcional liderado por uma impressionante Ellen Burstyn, injustamente preterida ao Oscar de melhor atriz em favor de Julia Roberts, no correto e nunca genial “Erin Brockovich, uma mulher de talento”. Burstyn vive Sarah Goldfarb, uma viúva solitária e obesa cujas únicas alegrias na vida são as visitas raras do filho Harry (Jared Leto, macérrimo e bom ator como nunca) e os momentos passados em frente à TV. Sua vida dá uma virada quando ela é selecionada para participar de um de seus programas preferidos. Com o objetivo claro de emagrecer e servir no vestido vermelho que era o favorito de seu marido, ela se entrega a uma dieta delirante de comprimidos inibidores de apetite. Aos poucos as anfetaminas passam a fazer efeito e, além de emagrecer assustadoramente, Sarah começa a delirar, ranger dentes e perder o controle sobre seus sentidos. Enquanto isso, seu filho inicia uma sociedade no tráfico de entorpecentes com seu melhor amigo Tyrone(Marlon Wayans). Sua meta é investir o dinheiro ganho em uma confecção, junto com a namorada Marion (Jennifer Connelly, belíssima como sempre e uma atriz cada vez melhor). O problema é que os três são viciados em drogas e o capital investido logo é insuficiente para suprir suas necessidades, o que os leva a uma crescente história de desespero e privação.


“Réquiem para um sonho” não é um filme fácil, o que sua bilheteria minguada nos EUA apenas comprova. Ao investir pesado em uma trama sem concessões sentimentalóides (apesar de algumas cenas de cortar o coração), Aronofsky não deixa pedra sobre pedra, não poupando nenhuma de suas personagens que encontram apenas frustração e desespero em busca de seus sonhos. As impressionantes edições de imagens repetidas e sons distorcidos ajudam na captura da angústia pelas quais passam Sarah, Harry e Marion, pessoas comuns jogadas em meio a um furacão de dor. A trilha impactante de Clint Mansell, que martela mesmo depois dos créditos finais é forte candidata a inesquecível, mas é a qualidade do elenco que fascina mais do que tudo.

Enquanto Jennifer Connelly comprova seu crescimento como atriz e mulher bonita, são os jovens Jared Leto e Marlon Wayans que surpreendem. Leto, até então sem maiores chances de mostrar trabalho agarra com unhas e dentes a oportunidade de atuar ao lado de colegas mais experientes e consagradas. Wayans, saído diretamente de coisas como “Todo mundo em pânico” acena como uma possibilidade que nunca mais foi devidamente explorada. Mas é a indescritível Ellen Burstyn que é a imagem mais característica do filme. Ao viver uma mulher comum, dona-de-casa, viúva e sem maiores interesses na vida e que de repente afunda em um caminho de dor, Burstyn não apenas passa por uma transformação física apavorante mas também demonstra uma coragem e uma segurança que muitas estrelas de Hollywood nem sequer pensam em tentar. Confiando plenamente no talento de seu diretor (que dez anos depois entregaria ao mundo outra obra-prima, o tocante "Cisne negro"), a atriz premiada com o Oscar de 1974 por "Alice não mora mais aqui" apresenta a maior atuação feminina da década.

 Anfetamínico, impressionante, chocante, deprimente. Todas os adjetivos usados para descrever “Réquiem para um sonho” como um dos mais pesados da história são cabíveis. Mas também o são palavras como genial, criativo, obrigatório. Uma obra-prima em forma de pesadelo.

segunda-feira

GAROTA, INTERROMPIDA

GAROTA, INTERROMPIDA (Girl, interrupted, 1999, Columbia Pictures, 127min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Lisa Loomer, Anna Hamilton Phelan, livro de Susanna Kaysen. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Kevin Tent. Música: Mychael Danna. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Maggie Martin. Produção executiva: Carol Bodie, Winona Ryder. Produção: Cathy Konrad, Douglas Wick. Elenco: Winona Ryder, Angelina Jolie, Whoopi Goldberg, Brittany Murphy, Clea DuVall, Jared Leto, Vanessa Redgrave, Kurtwood Smith, Elisabeth Moss, Jeffrey Tambor. Estreia: 21/12/99

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)

Some em um mesmo pacote a aura angustiada e as dúvidas a respeito do futuro de "A primeira noite de um homem" e o senso de rebeldia indomável de "Um estranho no ninho". Abstraia o fato de que o cineasta James Mangold não tem o mesmo talento visionário de Mike Nichols ou Milos Forman. Substitua Dustin Hoffman e Jack Nicholson por Winona Ryder e Angelina Jolie. Não pense que tudo soa um bocado anacrônico e você gostará de"Garota, interrompida", um filho temporão do cinema da contracultura americana dos anos 60. Mesmo que não tenha tido no final dos anos 90 o mesmo impacto que poderia ter na era da flower power, a adaptação para o cinema das memórias da jovem Susanna Kaysen tem qualidades o bastante para encantar uma geração cujos heróis morreram de overdose.

Publicado em 1993, o livro de Kaysen tornou-se best-seller imediato nos EUA e chamou a atenção da atriz Winona Ryder, que imediatamente decidiu levá-lo para o cinema, tornando-se sua produtora executiva. Reservando para si o papel central, Winona escalou para a direção o competente mas relativamente desconhecido James Mangold, cujo maior mérito até então tinha sido o de arrancar uma atuação decente de Sylvester Stallone em "Copland". No comando do filme, Mangold demonstrou que é um diretor sério e eficiente, mas carece nesse seu segundo grande filme de mais ousadia. "Garota, interrompida" é um filme quadrado, o que, se for levado em consideração dos assuntos que trata, é um paradoxo quase imperdoável. Tivesse sido um pouco mais corajoso certamente teria feito de seu filme um belo drama a respeito da inconformidade juvenil. Como está, é um filme bom e bem realizado - além de muito bem interpretado - mas bem aquém do que poderia ter sido.


Kaysen (vivida por uma Winona Ryder cuja delicadeza mais atrapalha do que ajuda) é uma jovem internada pelos pais em uma instituição mental, depois de aparentemente ter tentado suicídio (ela alega ter sido um acidente, mas um caso amoroso com um professor casado também não a ajuda em sua defesa). Os EUA estão passando por uma fase complicada, com a guerra do Vietnã em seu auge e os hippies buscando seu lugar ao sol. Logo que chega ao hospital, Susanna toma contato com a rotina rígida da instituição e com algumas de suas pacientes, como a mentirosa patológica Georgina (Clea DuVall), a sofrida Polly (Elisabeth Moss), que tem o rosto marcado por queimaduras e a esquisita Daisy (Brittany Murphy), que não come na presença de outras pessoas e esconde um segredo a respeito de sua família. Tratada pela enfermeira Valerie (Whoopi Goldberg), Susanna sente imediata conexão com a sociopata Lisa (Angelina Jolie), com quem passa a dividir a maior parte de seu tempo.

Quando trata sobre as interrelações entre as pacientes (em especial a estranha amizade surgida entre Susanna e Lisa) "Garota, interrompida" se sai bastante bem. O elenco é excelente. Brittany Murphy brilha em suas cenas mais intensas (em especial em seu desfecho trágico que leva o filme a seu clímax). Whoopi Goldberg como a enfermeira Valerie e Vanessa Redgrave como a psiquiatra Sonia Wick ensinam em cada cena como ser grandes atrizes sem levantar a voz ou apelar para exageros. E, se Winona Ryder não faz mais do que normalmente mostra em seus trabalhos, é sua colega de cena quem chama a atenção de forma escancarada. Na pele da maluquete Lisa Rowe, a bela Angelina Jolie está visivelmente à vontade, deitando e rolando com uma personagem aparentemente feita sob medida para seu talento visceral.

Premiada com o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante, Jolie nem parece fazer muita força para impressionar com sua atuação. Macérrima, loura e linda como sempre, ela interpreta uma jovem carismática, agressiva e sincera ao ponto da crueldade que faz o contraponto perfeito à timidez e a inconformidade disfarçada de Susanna. Felizmente o roteiro não tenta inventar um subtexto homoerótico que desviaria a trama de seu foco - o máximo que rola é um selinho inofensivo - e também não dá atenção exagerada aos romances da protagonista (com o jovem soldado vivido por Jared Leto ou com o enfermeiro noturno). Uma pena, porém, que, pelos mesmos motivos, não se detém em examinar a situação sociopolítica do país.

Contando com uma trilha sonora espetacular - em que canções da época se misturam com belas músicas contemporâneas, em especial da banda Wilco - "Garota, interrompida" é um filme que, a despeito de estar deslocado no tempo e no espaço, cumpre seus objetivos e merece ser lembrado por, no mínimo, ter colocado Angelina Jolie em seu merecido lugar de destaque em Hollywood.

CLUBE DA LUTA

CLUBE DA LUTA (Fight club, 1999, Fox 2000 Pictures, 139min) Direção: David Fincher. Roteiro: Jim Uhls, romance de Chuck Palahniuk. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: James Haygood. Música: The Dust Brothers. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Jay R. Hart. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin, Art Linson. Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Jared Leto, Meat Loaf. Estreia: 15/10/99

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

Poucas vezes um filme consegue ser tão fiel à sua origem literária quanto “Clube da luta”, um petardo estilístico dirigido pelo genial David Fincher baseado no livro do ex-mecânico Chuck Palahniuk que deixou meio mundo de queixo caído com suas idéias radicais contra a propriedade, a sociedade e o governo e por essa mesma razão fracassou vergonhosamente nas bilheterias americanas, apesar do apelo do nome Brad Pitt nos cartazes. A vergonha, no caso, não é de Fincher, que forjou uma pequena obra-prima do inconformismo. A vergonha é do público, que mostrou-se medíocre a ponto de deixar passar um dos filmes mais inteligentes dos anos 90, tanto em conteúdo quanto em visual. O filme só não passou totalmente em branco porque acabou sendo acusado de incitar a violência – o que também foi dito de “Laranja mecânica”, no início dos anos 70, diga-se de passagem -, no que não foi ajudado com o fato de que várias pessoas foram assassinadas em um cinema que apresentava o filme. Coincidência ou não, a trágica notícia eclipsou as inúmeras qualidades da obra, de longe um dos melhores trabalhos tanto de Fincher quanto de Brad Pitt.

Na verdade a história é sobre um jovem executivo (vivido com a habitual competência por Edward Norton) que, em crises cada vez mais assustadoras de insônia encontra a solução frequentando sessões de ajuda para doentes (câncer, enfisema e afins). Na mesma época em que conhece outra fraude nas sessões a intrigante Marla Singer (dando um adeus vitorioso aos filmes de época pelos quais ficou conhecida) ele perde seu apartamento, repleto de objetos caros e vai morar com Tyler Durden (um Brad Pitt hilário, sexy e notadamente divertindo-se a cada cena), um misterioso vendedor de sabonetes caseiros que o ensina a não dar valor a coisas materiais. Sua amizade com Durden evolui a ponto de eles juntos criarem o “Clube da Luta”, onde um grupo de homens se reune para brigar entre si. No momento em que o clube toma proporções gigantescas, o rapaz começa a perceber que os planos de Tyler Durden não resumem-se à auto-destruição e podem levar a uma catástrofe econômica e social.



Nada é o que parece em “Clube da luta”. Não é apenas sobre um grupo de homens se espancando mutuamente – pelo menos não é somente sobre isso. Não é a respeito de um homem buscando sua própria identidade – isso é apenas o começo da história. E não fala do amor entre dois seres desajustados, ainda que seja o amor por Marla que balança as estruturas do protagonista. “Clube da luta” é um happening cinematográfico. É um ataque verbal, visual e estilístico contra o establishment – seja ele econômico, cultural ou social. O roteiro de Jim Ulhs, que traduz com precisão cirúrgica a prosa caótica de Palahniuk, não deixa pedra sobre pedra em seu discurso contra a mídia, o governo e Deus. A anarquia controlada de Fincher, que encontra estofo na fotografia de Jeff Cronenweth e na edição espirituosa e criativa de James Haygood, conta ainda com o trabalho mais inspirado da carreira de Brad Pitt, que constrói um Tyler Durden impecável em sua canalhice e falta de respeito com toda e qualquer instituição. Seus diálogos são tão cáusticos, cruéis e por isso mesmo realistas que fica difícil não acreditar neles.

Pode-se dizer, sim, que "Clube da luta" é um filme perigoso. É um filme que faz pensar, que questiona, que choca com sua violência verdadeira. Conectá-lo à crueldade humana é simplificá-lo de maneira burra. Mas um fato é inquestionável: quando as caixas de som começam a tocar Pixies, no final da exibição da história contada por Palanhiuk, Fincher & cia, o público não é o mesmo que era no início da sessão. Ele acaba de testemunhar o cinema em seu melhor.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...