Mostrando postagens com marcador EMILE HIRSCH. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EMILE HIRSCH. Mostrar todas as postagens

terça-feira

ACONTECEU EM WOODSTOCK

 


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock, 2009, Focus Features, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, livro de Elliot Tiber, Tom Monte. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Tim Squyres. Música: Danny Elfman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: David Gropman/Ellen Christiansen De Jonge. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Celia Costas, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Demetri Martin, Emile Hirsch, Imelda Staunton, Henry Goodman, Jonathan Groff, Jeffrey Dean Morgan, Mamie Gummer, Eugene Levy, Dan Fogler, Andy Prosky, Skylar Astin, Paul Dano. Estreia: 16/5/2009 (Festival de Cannes)

As lendas e fatos a respeito do Festival de Woodstock todo mundo já conhece - seus números, seus artistas, seus imprevistos e principalmente seu legado à história da música e da cultura popular (sem falar nos desdobramentos sociais e políticos). O que, então, poderia haver de novo a ser explorado em um filme quarenta anos depois do evento? A resposta surgiu quando o diretor Ang Lee foi interpelado por Elliot Tiber durante a divulgação de seu "Desejo e perigo" (2007): autor de um livro sobre os bastidores da organização do festival, do qual foi parte crucial, Tiber ofereceu ao cineasta a chance de contar a história sob um novo ponto de vista - e com um viés mais humano, comum em sua obra. Com seus colaboradores de confiança (James Schamus no roteiro, Eric Gautier na direção de fotografia e Tim Squyres na edição), o já vencedor de um Oscar (por "O segredo de Brokeback Mountain") lançou, no Festival de Cannes de 2009 o esperado "Aconteceu em Woodstock". O resultado, porém, ficou aquém das expectativas - tanto em termos financeiros quanto artísticos - e acabou se tornando um dos trabalhos menos memoráveis de Lee, a despeito de suas notáveis qualidades

Elliot Tiber, o autor do livro que deu origem ao filme, é interpretado por Demetri Martin, comediante em seu primeiro trabalho no cinema - uma falta de experiência e carisma que atrapalha muito as possibilidades de conexão com o espectador. Em 1969, Tiber abandona uma carreira pouco feliz de design de interiores em Nova York e retorna para a pequena cidade de White Lake com o objetivo de ajudar seus pais (Henry Goodman e Imelda Staunton) a manter vivo seu pequeno e nada convidativo hotel. A missão é complicada, já que nenhum dos dois é exatamente competente nos negócios e nada no lugar chama a atenção dos turistas ocasionais. A salvação da lavoura surge, no entanto, quanto ele menos espera: ao saber que uma cidade vizinha voltou atrás ao permitir a realização de um festival de música para o público hippie, o jovem toma as rédeas da situação e, depois de fazer contato com os produtores, transforma seu pacato lugarejo no cenário de um dos mais importantes acontecimentos culturais da história. Para isso, porém, ele precisa lutar contra o preconceito local, os problemas logísticos que envolvem a realização de algo inesperadamente gigantesco e encarar sua própria sexualidade conflituosa.

 

Fugindo da tentação de fazer do festival seu protagonista, Ang Lee segue mantendo-se fiel à sua marcante característica de priorizar os sentimentos humanos e, com eles, criar um amplo mosaico de personagens interessantes, como a travesti interpretada por Liev Schreiber (que assume o posto de segurança informal do evento), o jovem veterano do Vietnã vivido por Emile Hirsch e a idiossincrática mãe do protagonista (em um show particular de Imelda Staunton). Woodstock, na visão do cineasta, é apenas o pano de fundo (forte) para uma jornada de autodescobrimento, pincelada de momentos clássicos reproduzidos sutilmente pelo desenho de produção caprichado e pelo figurino, que dialogam com o tom onírico impresso pelo roteiro. A opção do filme em não mostrar absolutamente nenhum número musical - o que provavelmente é motivo de frustração para os fãs mais obcecados do festival - é surpreendente, mas condiz com o tom menos documental e mais emotivo da produção, que apesar disso falha em não aprofundar a contento todas as possibilidades que apresenta ao espectador. Tal problema impede que uma de suas maiores qualidades - o belo elenco - seja aproveitado em todo o seu potencial.

Quem começar uma sessão de "Aconteceu em Woodstock" com a intenção de ver Janis Joplin, Joe Cocker ou Jimi Hendrix certamente irá se decepcionar. O filme de Ang Lee é para um público que procura obras sobre pessoas em busca de si mesmas - mesmo que para isso seja preciso fazer parte de um evento de proporções gigantescas que mudou o mundo (ou ao menos a concepção de muita gente sobre ele). Pode não ser uma obra-prima como alguns dos melhores trabalhos do cineasta, mas é simpático e honesto o bastante para não fazer feio em uma filmografia marcada pela sensibilidade e pelo carinho por seus personagens.

quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

quarta-feira

HERÓIS IMAGINÁRIOS

HERÓIS IMAGINÁRIOS (Imaginary heroes, 2004, Signature Pictres, 111min) Direção e roteiro: Dan Harris. Fotografia: Tim Orr. Montagem: James Lyons. Música: Deborah Lurie. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Rick Butler/Mila Khalevich. Produção executiva: Rudy Cohen, Jan Fantl. Produção: Illana Diamant, Moshe Diamant, Frank Hubner, Art Linson, Gina Resnick, Denise Shaw. Elenco: Sigourney Weaver, Jeff Daniels, Emile Hirsch, Michelle Williams, Kip Pardue, Deirde O'Connell, Ryan Donowho, Suzanne Santo. Estreia: 14/9/04 (Festival de Toronto)

A princípio, tem-se a nítida impressão de que "Heróis imaginários" é uma versão modernizada de "Gente como a gente", estreia de Robert Redford como cineasta, que ganhou os Oscar de melhor filme e direção de 1980: uma família já com uma saudável cota de problemas precisa lidar com o suicídio do primogênito enquanto o caçula, ainda adolescente, tenta encontrar o equilíbrio necessário para sobreviver em um mundo pouco hostil. Porém, não precisa-se de muito tempo para perceber, com uma dose de alívio, que o filme de Dan Harris pode até ter se inspirado na produção estrelada por Donald Sutherland e Mary Tyler Moore, mas tem personalidade própria. Em seu primeiro longa-metragem como diretor - em seu currículo já constava o roteiro de "X-Men 2" (2003) - Harris, com 35 anos à época do lançamento do filme, demonstra maturidade surpreendente ao falar de luto, desajuste social e angústias de todo tipo sem cair na armadilha do sentimentalismo barato nem mesmo quando ameaça descambar para o dramalhão.

Apesar de ser Sigourney Weaver o grande nome do elenco, o real protagonista de "Heróis imaginários" é o jovem Emile Hirsch, que quatro anos mais tarde se consagraria no papel central de "Na natureza selvagem", dirigido por Sean Penn. Hirsch interpreta Tim Travis, o filho mais novo de uma família aparentemente normal que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o primogênito, Matt (Kip Pardue), comete suicídio. Exímio nadador e orgulho do pai, Ben (Jeff Daniels), Matt só consegue manifestar sua infelicidade crônica com a vida dando um tiro na cabeça. Sua morte violenta e inesperada joga toda a família em uma espiral de angústia da qual cada um só consegue emergir da própria maneira. Ben, o pai, passa a andar a esmo pelas ruas e faltar ao trabalho. A mãe, Sandy (Sigourney Weaver), apela para pequenas transgressões, como fumar maconha e flertar com rapazes mais jovens. A filha universitária, Penny (Michelle Williams dando início a uma série de filmes dramáticos que passariam a lhe dar prestígio), passa a frequentar cada vez menos o lar. E Tim, que teve o azar de encontrar o corpo do irmão, luta para enfrentar os problemas da adolescência ao mesmo tempo em que procura encaixar-se em um núcleo familiar cada vez menos atraente e significativo.


Emprestando a Tim seu talento em parecer vulnerável e introvertido, Emile Hirsch cabe como uma luva no papel do protagonista, sem carregar nas tintas dramáticas nem quando segredos de família e a verdade sobre sua relação com o irmão surgem com a força de um caminhão desgovernado. Amparado pela atuação sensível e discreta de Sigourney Weaver - responsável por alguns dos melhores momentos do filme - o jovem ator alcança a rara façanha de criar um personagem melancólico na medida certa, sem forçar a compaixão da plateia ou buscar o caminho mais fácil de conquistar sua simpatia. Seu Tim é repleto de nuances - todas exploradas com delicadeza e bom senso, graças ao roteiro do diretor - e é louvável como o cineasta consegue atingir todas as notas de sua trama mesmo quando opta por revelar todos os seus elementos aos poucos, como uma jornada de autodescoberta dolorida mas imprescindível. Como em todos os bons filmes sobre a difícil travessia da infância para a vida adulta, "Heróis imaginários" tem em seu caminho decepções, alegrias e uma bem-vinda dose de otimismo que dá o equilíbrio exato entre a tristeza das perdas e a felicidade de se estar vivo.

Sem pretensões a tornar-se retrato de uma geração, "Heróis imaginários" é o recorte de um ritual de passagem, pura e simplesmente. Torna-se especial graças ao roteiro sensível, à direção inspirada de um cineasta ainda bastante jovem e antenado e a um elenco em estado de graça, capaz de transformar sentimentos comuns em matéria-prima de uma história que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social ou qualquer tipo de família. É a essência de "Gente como a gente", mas tornada mais acessível a uma plateia jovem e com valores um tanto diferentes daqueles revelados por Redford no final da década de 70 - um exemplo disso são as relações de Tim com sua namorada, Steph (Suzanne Santo) e com seu melhor amigo e vizinho, Kyle (Ryan Donowho), bem mais ousadas do que no filme oscarizado. O conteúdo principal ainda é forte e contundente, mas a forma é mais moderna e atraente para as novas plateias. Vale ser descoberto e apreciado por quem procura bons dramas familiares, mas sua despretensão o impede de ser ainda melhor.

segunda-feira

O GRANDE HERÓI

O GRANDE HERÓI (Lone survivor, 2013, Film 44/Emmett/Furla Films, 121min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, livro de Marcus Lutrell, Patrick Robinson. Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Colby Parker Jr.. Música: Explosions in the Sky, Steve Jablonsky. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ron Reiss. Produção executiva: Braden Aftergood, Brandt Andersen, Remington Chase, Grant Cramer, Mark Damon, Simon Fawcett, Kerry Foster, Louis G. Friedman, George Furla, Stepan Martirosyan, Jeff Rice, Steven Saxton, Lauren Selig, Adi Shankar, Jason Shuman, Spencer Silna, Tamara Birkemoe. Produção: Sarah Aubrey, Peter Berg, Randall Emmett, Akiva Goldsman, Vitaly Grigoriants, Norton Herrick, Stephen Levinson, Barry Spikings, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Taylor Kitsch, Emile Hirsch, Ben Foster, Eric Bana, Alexander Ludwig, Rich Ting, Yousuf Azami. Estreia: 12/11/13

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Mixagem de Som

Alguns reclamaram que se trata de mais uma obra que exalta o patriotismo americano - como se o louvado e superestimado "Sniper americano" fosse diferente ou ufanismo alterasse a qualidade de um filme em termos cinematográficos. Mas o fato é que "O grande herói", dirigido pelo ator/cineasta Peter Berg - que já havia demonstrado seu interesse por temas polêmicos em "O reino", de 2007 e comandou o mastodôntico fracasso "Battleship, a batalha dos mares" em 2012 - passa por cima de qualquer ideologia política para criar um poderoso drama de guerra que surpreendeu nas bilheterias americanas (tradicionalmente avesso a produções do gênero, salvo raras exceções) e caindo no gosto da crítica - foi eleito um dos dez melhores filmes de 2013 pela conceituada National Board of Review.

A encenação crua e realista de Berg de uma história real, ocorrida em 2005, durante a guerra no Afeganistão - e que já estava nos planos do diretor desde 2008, quando ele leu o livro que deu origem ao roteiro - remete às duras e violentas cenas de "Falcão negro em perigo", que deu a Ridley Scott uma indicação ao Oscar de diretor em 2002. Porém, enquanto Scott aproveitou a oportunidade para explorar seu virtuosismo técnico, sem focar-se a contento nos dramas de seus inúmeros personagens, Berg segue um caminho quase inverso. Sim, as cenas de conflito físico são dirigidas com segurança invejável e não poupam a audiência de sentir-se dentro da ação - para o que colabora também a maquiagem detalhista e a edição de som (que concorreu a uma merecida estatueta do Oscar) - mas o roteiro também se dá ao trabalho de dedicar boa parte de seu segundo ato ao desenvolvimento de seus protagonistas. Logicamente não há tempo para uma maior profundidade, mas contar com um elenco coadjuvante formado por Emile Hirsch, Eric Bana e Ben Foster (especialmente o último, em mais uma atuação estupenda) já é meio caminho andado para provocar a empatia essencial a uma história que, de outra maneira, seria apenas mais um filme de guerra a preencher as sessões noturnas da televisão.


Também favorável a "O grande herói" - que conta a história de um grupo de fuzileiros americanos que veem falhar sua missão de capturar um líder da Al Qaeda nas montanhas do Afeganistão e precisam lutar pela sobrevivência - é a presença de seu ator central, Mark Wahlberg. Surgido no mundo do entretenimento como modelo de cuecas Calvin Klein e posteriormente como o rapper Marky Mark, Wahlberg se reinventou como ator respeitado, presente em filmes prestigiados como "Boogie nights", "Três reis" e "Os infiltrados", de Martin Scorsese, pelo qual chegou a ser indicado ao Oscar. Na pele de Marcus Luttrell - que lidera a missão e acaba encontrando a salvação onde menos poderia esperar (com a ajuda do grande herói do título nacional) - o ator mostra que sabe escolher boa parte dos projetos dos quais participa (deixemos de lado bobagens como "Sem dor, sem ganho") e se manter sempre em evidência na fugaz fogueira das vaidades hollywoodianas com filmes de visibilidade e qualidade dramática.

Uma das boas surpresas de sua temporada, "O grande herói" ganha o público logo nos créditos de abertura - em cenas que mostram o rígido treinamento dos fuzileiros - e mantém sua atenção durante duas horas de adrenalina nas alturas, que se encerram com uma melancólica versão da clássica "Heroes", de David Bowie, na voz de Peter Gabriel. Escapando com inteligência de ser apenas mais uma obra de patriotismo exarcebado para tornar-se um drama de guerra da melhor estirpe, é também um trabalho impecável de edição, fotografia e técnica. Enfim, um filme imperdível.

terça-feira

KILLER JOE - MATADOR DE ALUGUEL

KILLER JOE, MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011, Voltage Pictures, 98min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de Tracy Letts. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Darrin Navarro. Música: Tyler Bates. Figurino: Peggy Schnitzer. Direção de arte/cenários: Franco Giacomo-Carbone/Alice Baker. Produção executiva: Vicki Cherkas, Molly Conners, Zev Foreman, Roman Viaris, Christopher Woodrow. Produção: Nicolas Chartier, Scott Einbinder. Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Thomas Haden Church, Gina Gershon, Juno Temple. Estreia: 08/9/11 (Festival de Veneza)

William Friedkin tinha 77 anos de idade quando dirigiu "Killer Joe, matador de aluguel", sua segunda incursão no universo teatral do ator e dramaturgo Tracy Letts, de quem já havia adaptado o suspense psicológico "Possuídos", em 2006.  A menção da idade do cineasta não é gratuita: mesmo perto de completar oito décadas de vida - metade dela dedicada à sétima arte - o homem por trás de sucessos de bilheteria e crítica como "Operação França" (71) e "O exorcista" (73) demonstra invejável energia e um mórbido senso de humor em uma trama regada à violência extrema, sensualidade mórbida e uma amoralidade de arrepiar os cabelos dos conservadores de plantão. Não à toa, foi um dos primeiros filmes a empurrar o ator Matthew McConaughey em direção ao prestígio que culminou com seu Oscar por "Clube de compras Dallas", lançado dois anos depois. Na pele de um assassino de aluguel sem vestígios de ética ou moral, o ex-galã de comédias românticas bobas e despretensiosas se despe de qualquer preconceito e entrega uma atuação corajosa e visceral, infelizmente ignorada pelas cerimônias de premiação justamente por sua ousadia.

McConaughey o personagem-título, um detetive de polícia que complementa (e muito) a renda fazendo servicinhos extras, como assassinar pessoas. Ele é procurado pelo desesperado Chris Smith (Emile Hirsch, cada vez melhor e mais intenso), que, acumulando dívidas de jogo com bandidos pouco cerimoniosos na hora de cobrar o que lhes é devido, precisa urgentemente de sua parte no seguro de vida de sua mãe, com quem tem uma relação pouco amistosa. Para contratar Joe, o rapaz convence a fazer parte do plano seu próprio pai, Ansel (Thomas Haden Church) - separado há anos da futura vítima e agora casado com a vulgar Sharla (Gina Gershon) - e sua irmã caçula, Dottie (Juno Temple), a beneficiária do seguro. Sem grana para pagar o adiantamento ao estranho assassino, Chris e Ansel aceitam oferecer-lhe como garantia a ingênua Dottie, por quem ele sente uma irresistível atração quase pedófila, mas as coisas, como se poderia esperar, saem do controle antes mesmo que eles decidam mudar de ideia a respeito do nefasto plano.


Sem poupar a audiência de uma violência rara e realista cada vez mais rara no anêmico cinema comercial americano, Friedkin também mergulha fundo em uma sexualidade perturbadora, explorando o relacionamento doentio entre Joe e Dottie - uma menina que, além de mais jovem tem perceptíveis problemas mentais - em cenas de deixar qualquer espectador mais conservador arrepiado de indignação. Sem hesitação em deixar seus atores vulneráveis (e portanto totalmente entregues a seus personagens), o veterano cineasta arranca de todos performances memoráveis, com um roteiro que abdica de um heroi, elegendo como protagonista um homem que, a despeito de sua profissão e preferências sexuais, tem um código de ética mais rígido do que qualquer integrante da família que o contrata. No entanto, por incrível que pareça, a falta de qualquer limite moral dos personagens criados por Letts - e sua consequente nulidade em conquistar a identificação da plateia - acaba sendo um de seus maiores trunfos: desobrigada de qualquer simpatia com Chris, Joe e demais envolvidos na trama, a audiência acaba por testemunhar suas desventuras com o distanciamento ideal, só rompido com a insistência de Friedkin em encharcar a tela de sangue e uma crueldade que chega às raias do humor negro - constatação que fica ainda mais evidente em seu clímax.

Comentado desde a estreia do filme no Festival de Veneza, o desfecho de "Killer Joe", quando todos os personagens são confrontados com verdades pouco confortáveis que levam a um banho de sangue de dar inveja a Quentin Tarantino e seus seguidores menos talentosos, é, no mínimo, desconfortável. Basta dizer que uma coxinha de frango frita nunca mais será vista da mesma forma depois do final da sessão - não à toa, um dos cartazes do filme estampava uma, em mais uma brincadeira ousada dos realizadores. Sem medo de ferir suscetibilidades e apostando na vontade do público em ser surpreendido e tratado como adulto, o trabalho de Friedkin é um dos policiais mais tensos, brutais e potentes de sua época. Coisa de quem sabe o que está fazendo.

MILK, A VOZ DA IGUALDADE

MILK, A VOZ DA IGUALDADE (Milk, 2008, Focus Features, 128min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Dustin Lance Black. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Elliot Graham. Música: Danny Elfman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Bill Groom/Barbara Munch. Produção executiva: Dustin Lance Black, Barbara A. Hall, William Horberg, Michael London, Bruna Papandrea. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsh, Diego Luna, Alison Pill, Dennis O'Hare, Victor Garber. Estreia: 28/10/08

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Josh Brolin), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Roteiro Original 

Já não era novidade o interesse de Hollywood pela história de Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a se eleger para um cargo público - e isso em plenos anos 70, quando a onda conservadora americana estava no auge com acirradas campanhas que tinham como objetivo acabar com todos os direitos gays. No mínimo desde a estreia de "Os tempos de Harvey Milk", premiado com o Oscar de melhor documentário de 1984 havia projetos para contar a inspiradora trajetória do nova-iorquino que, depois dos 40 anos mudou-se para São Francisco e, munido apenas de carisma e de ideias que desafiavam o preconceito velado (ou não) que grassava no poder público, tornou-se um dos maiores símbolos da luta pelos direitos homossexuais. Depois de várias tentativas frustradas - e de atores como Robin Williams, Richard Gere, Daniel Day-Lewis e James Woods ligados a eles - foi Gus Van Sant (também gay assumido e diretor do polêmico "Garotos de programa" no início dos anos 90) quem finalmente acabou levando às telas seu "Milk, a voz da igualdade", um filme que, elogiado unanimemente pela crítica, chegou à corrida do Oscar com moral bastante para sair da cerimônia com duas importantes estatuetas: roteiro original e ator (o segundo da carreira de Sean Penn).

Segundo consta, quando Penn terminou de filmar sua primeira cena de beijo com James Franco (que vive Scott Smith, o grande amor de Milk, personagem para o qual foram testados Chris Evans e Bradley Cooper), mandou uma mensagem de texto para sua ex-mulher - ninguém menos que Madonna, um dos maiores ícones da cultura gay mundial - contando de sua façanha. A resposta da cantora/atriz/diretora foi lacônica (um mero "Parabéns!"), mas de certa forma não deixa de ser surpreendente que um ator como Penn - que a despeito de seu imenso e já fartamente comprovado talento tem um vasto histórico de violência e agressividade que inclusive o mandou para a cadeia no final dos anos 80 - tenha mergulhado tão fundo em um papel tão diferente de tudo que já fez em sua carreira. Sem medo de críticas ou parecer ridículo, ele entrega uma atuação que equilibra com esplêndida suavidade o lado político do personagem com sua vida particular - especificamente dois relacionamentos marcantes por motivos díspares. Até mesmo a afetação de Milk encontra em Penn um intérprete à altura - às vezes chega a ser inacreditável que ele é o mesmo ator que criou o violento Jimmy Marcus de "Sobre meninos e lobos" (que lhe rendeu sua primeira estatueta) e o  corrupto advogado Weinberg de "O pagamento final" (que deu o pontapé inicial na fase de sua carreira onde seu talento deixou de lado sua controversa personalidade).


Mas nem só de Penn sobrevive "Milk, a voz da igualdade". Com base em um roteiro inteligente do jovem Dustin Lance Black (cuja obsessão pela história do protagonista acabou levando-o a assinar o filme como produtor-executivo), Van Sant deixa de lado qualquer tentativa de ser cult ou estiloso para narrar uma história cuja força já é o suficiente para conquistar o espectador. Mesmo que vez ou outra ele demonstre porque já foi considerado o mais criativo dos cineastas independentes americanos - ao mostrar o resultado de um crime homofóbico através do reflexo do corpo da vítima através de um apito, por exemplo - o diretor de obras notáveis como "Um sonho sem limites" e outras execráveis como a desnecessária refilmagem de "Psicose" nunca tenta chamar mais a atenção do que seus personagens e do contexto histórico e social no qual eles transitam. Essa generosidade com seus atores fica nítida quando entram em cena coadjuvantes essenciais à história, como Dan White, político cuja relação profissional com Milk beirava a esquizofrenia e que é defendido por um impecável Josh Brolin, merecidamente indicado ao Oscar da categoria: Brolin, que engatou uma terceira em sua carreira depois de "Onde os fracos não tem vez" (2008), tem um desempenho exemplar, possibilitando ao público um vislumbre de fragilidade e dubiedade por trás de uma figura séria e impoluta. Seu trabalho faz eco a outras atuações bastante eficazes como a do jovem Emile Hirsh, que foi dirigido por Sean Penn em "Na natureza selvagem". Só quem destoa é Diego Luna, que erra em sua composição como um dos namorados de Milk - e cujo desfecho acentua o tom trágico da trama.

No final das contas, "Milk, a voz da igualdade" é um grande filme, independe da orientação sexual do espectador que se deixar envolver. É emocionante, é historicamente interessante - os créditos de abertura, que mostram cenas reais de homens gays sendo presos nos anos 60 e 70 pelo simples fato de serem gays é quase chocante - e importantíssimo em um momento em que figuras públicas lamentáveis vem destilando sua hipocrisia e preconceito em nome da família e da religião. Coisa que o próprio Milk precisou enfrentar quando bateu de frente com a cantora desaplaudida Anita Bryant - fundamentalista cristã - que tornou-se símbolo da luta contra os direitos dos gays: seu discurso de "eu adoro meus amigos gays" enquanto os trata como marginais soa assustadoramente atual. E é também por isso que o filme de Van Sant é imprescindível.

ALPHA DOG

ALPHA DOG (Alpha dog, 2006, Sidney Kimmel Entertainment, 122min) Direção e roteiro: Nick Cassavetes. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Alan Heim. Música: Aaron Zigman. Figurino: Sarah Jane Slotnick. Direção de arte/cenários: Dominic Watkins/Faince MacCarthy. Produção executiva: Robert Geringer, Marina Grasic, Andreas Grosch, Avram Butch Kaplan, Jan Korbelin, Steve Markoff. Produção: Sidney Kimmel, Chuck Pacheco. Elenco: Bruce Willis, Sharon Stone, Emile Hirsch, Justin Timberlake, Ben Foster, Shawn Hatosy, Anton Yelchin, Dominique Swain, Amanda Seyfried, Harry Dean Stanton, Lukas Haas. Estreia: 27/01/06 (Festival de Sundance)

Em 1994, Larry Clark tornou-se um nome quente dentro de Hollywood graças ao controverso "Kids", que narrava o estilo de vida de um grupo de adolescentes que passava os dias às voltas com drogas pesadas e sexo promíscuo. O filme - que lançou as carreiras de Rosario Dawson e Chloe Sevigny - chocou o público e despertou acaloradas discussões, mas falhava flagrantemente em ser bom cinema, talvez pela vocação de seu diretor, mais propenso ao escândalo do que a uma boa história. Reprovado no teste do tempo, "Kids" é, hoje em dia, no máximo o retrato cru de uma geração perdida. Em oposição a essa sua fragilidade narrativa, outro filme com temática semelhante - e lançado mais de uma década depois - consegue ser muito mais eficaz e impactante: "Alpha dog", escrito e dirigido por Nick Cassavetes, é contundente e tocante na mesma medida, proporcionando ao público tanto um filme policial angustiante quanto um drama familiar potente e dramaticamente sólido.

Baseado em um fato real - do qual Cassavetes foi obrigado a fazer pequenas alterações por motivos judiciais - "Alpha dog" é uma denúncia de grande impacto, sem nunca transformar-se, porém, em uma obra panfletária e vazia. Excepcional diretor de atores (herança de seu pai, o ator e diretor John Cassavetes), Nick arranca de seu elenco - tanto o veterano quanto o jovem - interpretações de grande intensidade, devido em parte ao roteiro realista e repleto de cenas que dão espaço a belos trabalhos de construção de personagens. Ben Foster, por exemplo, brilha como Jake Mazursky, jovem viciado em drogas explosivo e violento que acaba sendo o catalisador da tragédia ao dever dinheiro - e um tanto de respeito - ao traficante Johnny Truelove (Emile Hirsch, sensacional), filho de uma família de classe média desacostumado a ter seus caprichos negados. Furioso com a dívida e com as agressões de Mazursky, Truelove resolve, em um impulso inconsequente, sequestrar seu irmão caçula, Zach (Anton Yelchin, na medida exata de ingenuidade e docilidade), de apenas 15 anos. Enquanto a família do rapaz entra em desespero com seu desaparecimento, o traficante confia a seu melhor amigo, Frankie (Justin Timberlake), a posse do menino. Zach, um garotão virgem e em conflito com a mãe superprotetora (Sharon Stone), vê em Frankie e seu grupo - cercado de belas garotas e uma liberdade com que apenas sonha em sua casa - uma nova forma de vida e nem de longe percebe que, quanto mais o tempo passa, menores ficam suas chances de ser libertado.


Abrindo seu filme com vídeos caseiros de seus atores jovens ao som de "Over the rainbow" - e encerrando com a bela "Wild is the wind", na voz de David Bowie - Nick Cassavetes tem a sensibilidade ideal para contar uma história sufocante, que constrói sua tensão passo a passo, que permite à audiência entender os atos de seus protagonistas por mais equivocados que eles estejam. É certo que a simpatia da plateia fica com Zach, o inocente útil pego no meio de um furacão, mas o carisma de Justin Timberlake e Emile Hirsch consegue amenizar a falta de caráter de seus personagens - em especial de Frankie, criado por Timberlake com um misto de insegurança e compaixão que quase lhe transforma em mais uma vítima da violência que ele mesmo causa - voluntariamente ou não. E é fascinante a maneira como Cassavetes extrai de Sharon Stone seu melhor desempenho desde sua indicação ao Oscar por "Cassino", realizado onze anos antes: a entrevista de sua personagem no desfecho do filme é, provavelmente, uma das cenas mais emocionalmente brutais do cinema americano independente dos últimos anos.

"Alpha dog" é violento, é triste, é chocante. Conquista o público com personagens amorais e pouco simpáticos justamente por sua neutralidade ao falar de um estilo de vida irresponsável e cínico, capaz de destruir vidas sem grandes remorsos. E é o melhor trabalho de um cineasta que gosta de atores e de personagens de carne-e-osso, coisa rara na robotizada Hollywood das grandes bilheterias.

sábado

NA NATUREZA SELVAGEM


NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")

Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.

Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.


Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.

Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.

"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...