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terça-feira

DESEJO PROIBIDO


DESEJO PROIBIDO (If these walls could talk 2, 2000, HBO Films/Team Todd, 96min) Direção: Jane Snderson ("1961"), Martha Coolidge ("1972"), Anne Heche ("2000"). Roteiro: Jane Anderson ("1961"), Sylvia Sichel, estória de Sylvia Sichel e Alex Sichel ("1972"), Anne Heche ("2000"). Fotografia: Peter Deming, Paul Elliott, Robbie Greenberg. Montagem: Margaret Goodspeed. Música: Basil Poledouris. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Nina Ruscio/Susan Mina Eschelnach, K. C. Fox, Mary E. Gullickson. Produção executiva: Ellen DeGeneres, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Produção: Mary Kane. Elenco: Vanessa Redgrave, Michelle Williams, Chloe Sevigny, Sharon Stone, Ellen DeGeneres, Paul Giamatti, Elizabeth Perkins, Marian Seldes, Nia Long, Natasha Lyonne, Heathe McComb, Rashida Jones, Regina King, Kathy Najimy. Estreia: 05/3/2000

Em 1996, a HBO lançou, com enorme sucesso de público e crítica, o polêmico "O preço de uma escolha", que trata, em três histórias distintas, de um assunto bastante controverso na sociedade norte-americana: o aborto. Com um elenco que contava com Demi Moore, Catherine Keener e Cher - também uma das diretoras -, o filme chegou a ser indicado a três Golden Globes e estabeleceu um alto parâmetro para as produções do canal. Quatro anos mais tarde, "Desejo proibido" tentou repetir o êxito, voltando a discutir uma questão delicada (ao menos para a audiência mais conservadora) e seguindo a mesma estrutura do original. Ao retratar a homossexualidade feminina - e a forma como ela é vista - em três tempos e enfoques distintos, a produção manteve o tom sério e respeitoso do primeiro filme, mas como normalmente acontece com antologias, não conseguiu escapar da irregularidade. Potente em sua primeira parte, interessante em sua segunda e leve em seu encerramento, "Desejo proibido" revela um panorama abrangente de seu tema, mas nem sempre consegue atingir todo o seu potencial.

O primeiro (e melhor) capítulo se passa em 1961 e apresenta a triste história de Edith Tree (Vanessa Redgrave), que vê sua vida desmoronar com a morte de Abby Hedley (Marian Seldes), sua parceira há mais de cinquenta anos. A tragédia fica ainda maior quando um sobrinho distante de Abby, o pouco afetivo Ted (Paul Giamatti) surge para reivindicar a propriedade onde elas moravam: sem o amparo legal que poderia lhe dar o direito de ficar com a casa que ajudou a pagar, Edith precisa lidar com questões práticas ao mesmo tempo em que experimenta a impensável dor da perda. A diretora e roteirista Jane Anderson é extremamente feliz em imprimir o tom de melancolia e amor maduro, valorizado pela atuação monstruosa de Vanessa Redgrave. Começando sua história já em grande estilo - com uma citação direta do clássico "Infâmia" (1961), em que Shirley MacLaine e Audrey Hepburn tinham sua escola atacada por insinuações de homossexualidade -, Anderson é elegante e romântica, ao mesmo tempo em que desperta no espectador toda a indignação possível diante da situação absurda. Destaca-se também o belo trabalho de Elizabeth Perkins, na pele de Alice, a fútil e insensível esposa de Ted, e a sutileza do roteiro, que vai apresentando camadas ao tema conforme a trama vai se desenhando: do medo de andar próximas na rua às burocracias médicas, tudo é tratado com delicadeza extrema, que eleva o primeiro episódio do filme ao status de pequena obra-prima.

 

Já o segundo segmento, dirigido por Martha Coolidge, peca por sua incapacidade (ou opção) de aprofundar um questionamento bastante relevante - inclusive dentro da comunidade gay. Em 1972, quando os movimentos feministas e homossexuais estavam em alta dentro da sociedade dos EUA, a jovem Linda (Michelle Williams), um tanto decepcionada com o preconceito que presencia junto às pretensamente liberadas e modernas ativistas, se envolve com Amy (Chloe Sevigny), a quem conhece em um bar frequentado por lésbicas. Apesar de morar com um amigas também gays, ela passa a conhecer a discriminação dentro da própria casa, já que Amy, ao contrário delas, se veste como homem e age de forma masculinizada. Sem saber como lidar com a diferença entre elas - e pressionada pelas colegas, pouco à vontade com sua nova namorada -, Linda passa a questionar até que ponto as aparências podem influir na saúde de seu relacionamento. Coolidge (que assinou o delicado "As noites de Rose", que indicou Laura Dern e Diane Ladd ao Oscar, em 1992) constrói uma obra de textura visual quase palpável, que mergulha o espectador no universo de suas personagens, mas tropeça na superficialidade do roteiro, que não sabe desenvolver a contento todas as possibilidades do tema e ainda surge com um desfecho artificialmente feliz e fácil. Michelle Williams - começando sua trajetória em interpretar mulheres sofridas e atormentadas - está bem, mas Chloe Sevigny - recém vinda de uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por "Meninos não choram" (1999) - já apresenta alguns trejeitos e expressões que seriam comuns à toda a sua carreira posterior.

 

O ato final da produção, por sua vez, aposta na leveza, no bom humor e até no otimismo - como um aceno aos novos tempos que (todos esperavam) estavam por surgir. No ano 2000, um casal bem resolvido, feliz e apaixonado, resolve ter um filho e completar sua família não convencional. A princípio, Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) querem que um amigo seja o pai biológico de seu bebê, mas ao ver sua proposta recusada por Arnold (Mitchell Anderson) e Tom (George Newbern), passam a tentar outros modos de concepção. Para isso, buscam um doador anônimo de esperma (em um site especializado), inseminação artificial (em uma clínica conceituada) e meses de tensão enquanto esperam um resultado positivo. Enquanto isso, questionam (mas não muito) a ideia de por um filho em um mundo preconceituoso, violento e super povoado. Escrito e dirigido por Anne Heche (esposa de Ellen DeGeneres à época), o episódio é bem menos denso do que os primeiros, preferindo um tom positivo que encontra eco no desempenho solar de Sharon Stone e no sarcasmo de DeGeneres. Novamente faz falta um aprofundamento do tema, mas sua opção em seguir um caminho oposto ao drama dos dois primeiros segmentos não deixa de ser acertado, principalmente ao contrapor a dor do preconceito à esperança de um novo e mais tolerante mundo.

No cômputo final, "Desejo proibido" tem mais acertos do que erros. Em uma época em que a televisão ainda engatinhava em tratar de temas polêmicos - ao menos de forma tão explícita -, o filme tem a coragem não apenas de falar sobre a homossexualidade feminina em algumas de suas diversas formas, mas também de não esconder o amor das protagonistas em cenas veladas e/ou falsamente pudicas. Com sequências de sexo dirigidas com bom gosto e delicadeza (mesmo que limitadas pelo veículo) e sem medo de se posicionar ao lado contrário a qualquer tipo de intolerância, a produção posicionou a HBO como um importante aliado na causa gay e deu um passo à frente na caminhada da emissora pelo prestígio de que viria a desfrutar logo em seguida.

 

sexta-feira

AO ENTARDECER

 


AO ENTARDECER (Evening, 2007, Hart Sharp Entertainment/Twins Financing/MBF Erste Filmproduktiongesellschaft, 117min) Direção: Lajos Koltai. Roteiro: Michael Cunningham, Susan Minot, romance de Susan Minot. Fotografia: Gyula Pados. Montagem: Allyson C. Johnson. Música: Jan A. P. Kaczmarek. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Catherine Davis. Produção executiva: Michael Cunningham, Jill Footlick, Michael Hogan, Robert Kessel, Susan Minot. Produção: Jeffrey Sharp. Elenco: Claire Danes, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Vanessa Redgrave, Toni Collette, Natasha Richardson, Meryl Streep, Mamie Gummer, Eileen Atkins, Glenn Close, Barry Bostwick. Estreia: 09/6/2007 (Newport International Film Festival)

Autor dos livros que deram origem ao premiado "As horas" (2002) - vencedor do Oscar de melhor atriz e indicado a outras sete estatuetas - e ao pouco conhecido "Uma casa no fim do mundo" (2004), estrelado por Colin Farrell e Robin Wright -, o norte-americano Michael Cunningham tem predileção por personagens torturados por lembranças do passado e escolhas erradas. Por isso não é surpresa ver seu nome como um dos roteiristas de "Ao entardecer", baseado no romance de Susan Minot: o drama dirigido pelo húngaro Lajos Koltai tem muito da personalidade do escritor e de sua sensibilidade quase feminina, e sua história de amor, renúncia e arrependimentos é o material ideal para emocionar ao público fiel do gênero. Nem sempre a mistura funciona, no entanto, e por mais que sua lista de créditos seja invejável, o filme, lançado sem muito alarde no verão norte-americano de 2007, não chega a ser um marco na carreira de seus envolvidos.

Narrado em dois tempos cronológicos que se intercalam e completam, "Ao entardecer" tem como protagonista Ann Grant, uma mulher que, à beira da morte (e na pele da excelente Vanessa Redgrave), se deixa mergulhar em lembranças de um passado tão romântico quanto dolorido. Suas reminiscências remetem direto a um fim-de-semana em particular, quando (vivida por Claire Danes), compareceu ao casamento da melhor amiga, Lila Wittenborn (Mamie Gummer) em sua mansão litorânea de Newport. Acompanhada do melhor amigo Buddy (Hugh Dancy) - irmão da noiva -, a aspirante a cantora não resiste à beleza natural do local e à atmosfera romântica do evento e acaba por se apaixonar por Harris Arden (Patrick Wilson), um amigo não aristocrático da família. O problema é que não apenas Lila ainda tem fortes sentimentos pelo rapaz - com quem teve um rápido envolvimento no passado -, mas também o inconstante e quase irresponsável Buddy parece nutrir algo mais do que simples amizade por ele. Quando uma tragédia mancha irremediavelmente a festa, cabe a Ann decidir os rumos de sua vida adiante - uma decisão que irá atormentá-la pelo resto de seus dias.

 

Apesar de não apresentar a profundidade que se poderia esperar de uma trama tão repleta de melancolia e culpa, "Ao entardecer" se beneficia - e muito - de um poderoso elenco feminino que se dá ao luxo de ter, em curtas participações especiais, as espetaculares Meryl Streep e Glenn Close. A primeira dá vida à madura Lila, quando, em visita à sua melhor amiga, rememora a dor dos dias trágicos que praticamente as afastaram. Close, por sua vez, surge em cena como a excêntrica mãe de Lila e Buddy - com direito a pelo menos uma cena digna de seus melhores trabalhos. Dividindo o papel de Ann em diferentes fases da vida, Claire Danes e Vanessa Redgrave compartilham, também, a força da sutileza, optando sempre pelo mínimo para transmitir a variada gama de sentimentos de sua personagem. Na pele das filhas adultas de Ann - duas mulheres com visões distintas da vida e que se vêem diante da iminência da morte -, as ótimas Toni Collette e Natasha Richardson (filha de Vanessa Redgrave também na vida real) encontram o tom exato entre a angústia da perda  e a surpresa em descobrir uma história escondida na vida da mãe aparentemente feliz. Ao elenco masculino resta pontuar com correção o brilho das mulheres: Patrick Wilson é o galã ideal, másculo e romântico, e Hugh Dancy (que se apaixonou por Claire Danes durante as filmagens, e foi correspondido) se destaca como o vibrante e pouco ortodoxo Buddy. Premiado diretor de fotografia indicado ao Oscar por "Malena" (2000), Lajos Koltai sai-se relativamente bem no comando de seus atores e brilha na composição visual das cenas - algumas delas dotadas de uma poesia tocante  -, mas nem sempre consegue manter o ritmo de sua narrativa, o que acaba por comprometer o resultado final e amenizar seu impacto emocional. A carreira musical de Ann, por exemplo, é apenas citada em alguns diálogos - apenas no casamento de Lila ela solta a voz, mas sua paixão por Harris muitas vezes soa maior do que pela música, e até mesmo sua história de amor não alcança profundidade o suficiente para que o espectador se importe com ela. Claire Danes é uma atriz fantástica, mas sua química com Patrick Wilson é apenas morna, o que enfraquece o ponto principal de todo o filme.

Pouco lembrado dentro da filmografia de seus atores - todos eles com um vasto e relevante currículo -, "Ao entardecer" é um belo filme, tanto em termos visuais quanto dramáticos, mas carece da força que os grandes possuem. A história pouco memorável é valorizada pelo ótimo elenco, mas por vezes soa como um dèja-vu, misturando elementos de várias outros romances sem grandes critérios. O roteiro - coescrito por Michael Cunningham e pela autora do livro que lhe deu origem, Susan Minot - não apresenta maiores novidades e é quase previsível, com um final tão sutil que priva o espectador da catarse que se espera de uma produção do gênero. Apesar dos pesares, no entanto, tem tudo para comover aos mais sensíveis - e nunca é perda de tempo assistir gente como Claire, Vanessa, Meryl, Toni e Glenn Close.

quarta-feira

O MISTÉRIO DE AGATHA


O MISTÉRIO DE AGATHA (Agatha, 1979, Sweetwall/First Artists/Warner Bros, 105min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Kathleen Tynan, Arthur Hopcraft, estória de Kathleen Tynan. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Jim Clark. Música: Johnny Mandel. Figurino: Shirley Russell. Direção de arte/cenários: Shirley Russell. Produção: Jarvis Astaire, Gavrik Losey. Elenco: Vanessa Redgrave, Dustin Hoffman, Timothy Dalton, Helen Morse, Celia Gregory, Paul Brooke. Estreia: 09/02/79

Em dezembro de 1926, no auge do sucesso de seu primeiro romance policial, "O assassinato de Roger Ackroyd", a escritora inglesa Agatha Christie simplesmente desapareceu por onze dias, dando origem a uma busca cujas respostas, mesmo depois de seu reaparecimento e décadas depois de sua morte, ainda permanecem incógnitas. Fascinada com o incidente, a britânica Kathleen Tynan surgiu com a ideia de um documentário que traria a história às novas gerações - mas viu suas pretensões sucumbirem diante da falta de financiamento. Ainda obcecada, deu asas à imaginação e criou uma obra fictícia, na qual Christie assumia o papel de protagonista em um mistério romântico. O roteiro caiu nas mão David Puttnam, um dos produtores mais poderosos de Hollywood no final dos anos 1970 e não demorou para que outros nomes de prestígio estivessem envolvidos no projeto. O que poderia ser um sonho para Tynan - seu roteiro levado às telas por gente graúda e com visibilidade grande o bastante para chamar a atenção do público de uma forma que um documentário dificilmente conseguiria - logo tornou-se uma tormenta. E o responsável por problemas que complicaram a produção era justamente aquele cuja presença no elenco pareceu, a princípio, uma bênção: Dustin Hoffman.

No final da década de 1970, Hoffman já era um ator consagrado. Em seu currículo apresentava sucessos de público e crítica - além de três indicações ao Oscar de melhor ator. Sua entrada no projeto, então, apontava um caminho de êxito para a produção. O problema era que o papel de Hoffman na trama era praticamente inexistente - e não fazia sentido, na visão dos produtores, contratar uma estrela de seu porte para aparecer na tela por poucos minutos. A solução, então, pareceu óbvia: aumentar sua participação na história e alterar substancialmente o script de Kathleen Tynan. Para isso, Hoffman, a essa altura promovido a produtor, chamou seu amigo Murray Schisgal - que acabou não sendo creditado como roteirista - e passou a expandir consideravelmente sua importância na trama. Tantas modificações acabaram por incomodar Puttnam, que saiu do projeto jurando nunca mais trabalhar com o ator, e levando a produção ao perigoso caminho dos atrasos, estouros de orçamento e processos legais - sim, o espólio de Agatha Christie não ficou nem um pouco feliz com a ideia de relembrar o caso e ameaçou paralisar as filmagens, até que, protegido pela classificação de "obra de ficção", o filme pode finalmente seguir seu curso até sua estreia (adiada em alguns meses), em fevereiro de 1979.

 

Não se sabe exatamente como era o roteiro original de Kathleen Tynan, mas é perceptível que a interferência de Dustin Hoffman levou a trama a um caminho romântico que provavelmente não constava na sinopse - ou ao menos com tanta importância. O filme, dirigido por Michael Apted, não demora a voltar sua atenção não apenas às dúvidas existenciais de Agatha (Vanessa Redgrave, bem mas um tanto deslocada) mas a uma improvável história de amor entre ela e o jornalista Wally Stanton (Hoffman), que descobre seu paradeiro em um spa. Fugindo de um divórcio do marido, o Coronel Archibald Christie (Timothyy Dalton), a escritora se mantém sob pseudônimo na afastada propriedade, mas acaba se deixando seduzir pelo repórter, que finge não tê-la reconhecido para cavar uma história exclusiva. Uma trama inverossímil e pouco criativa que esbarra, também, na falta de química entre Redgrave e Hoffman - dois grandes intérpretes em momento pouco inspirado de suas carreiras - e no ritmo claudicante, que faz seus 105 minutos parecerem três longas horas.

No final das contas, entre mortos e feridos salvaram-se todos. Dustin Hoffman - que ameaçou abandonar as filmagens em determinado ponto, sendo acalmado por Apted - estava realmente em um período difícil na carreira, até então em franca ascensão. Praticamente decidido a abandonar o cinema e dedicar-se apenas ao teatro, mudou de ideia depois de um encontro, ainda durante as filmagens em Londres, com o produtor Stanley R. Jaffe e o diretor Robert Benton, que lhe ofereceram o papel principal de "Kramer vs Kramer" - que lhe renderia seu primeiro Oscar. Vanessa Redgrave, em seu primeiro desempenho pós-Oscar de atriz coadjuvante por "Julia" (1977), foi eclipsada por uma trama sem força o bastante para exigir dela todo o seu potencial, mas logo em seguida apagou a má impressão com seu trabalho irretocável no televisivo "Amara sinfonia de Auschwitz" (1980). E Michael Apted, em pouco tempo se tornou figurinha fácil nas cerimônias da Academia, com filmes de sucesso como "O destino mudou sua vida" (1980) e "Nas montanhas dos gorilas" (1988). Menos marcante do que poderia ter sido - levando-se em conta sua equipe de grandes talentos -, "O mistério de Agatha" pode até ser uma curiosidade para os fãs da escritora, mas fica devendo muito em termos de cinema.

sexta-feira

O AMOR NÃO TEM SEXO

O AMOR NÃO TEM SEXO (Prick up your ears, 1987, Zenith Entertainment, 105min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Alan Bennett, biografia por John Lahr. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Stanley Myers. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyk Wyhowski/Philip Elton. Produção: Andrew Born. Elenco: Gary Oldman, Alfred Molina, Vanessa Redgrave, Wallace Shawn, Lindsay Duncan, Julie Walters, Frances Barber. Estreia: 17/4/87

Vencedor no Festival de Cannes: Melhor Trilha Sonora

Quem começar a assistir à "O amor não tem sexo" pensando tratar-se de mais um filme de temática gay com uma mensagem edificante certamente vai levar um choque ao final da sessão: o título em português de "Prick up your ears" (algo intraduzível mas pouco romântico ou formal) esconde a verdadeira e chocante história de amor, sexo, ciúme, violência e literatura do dramaturgo britânico Joe Orton e seu amante, Kenneth Halliwell, também escritor, mas sem o mesmo prestígio. Baseado em uma biografia de Orton escrita por John Larh, o filme de Stephen Frears (pouco antes de conquistar Hollywood com seu excepcional "Ligações perigosas", lançado em 1988) é seco, frio e um tanto irônico em sua tentativa de retratar não apenas um casal vivendo quase à margem da sociedade, mas também a própria sociedade hipócrita e falsamente liberal dos anos 1960.

Conhecido na Inglaterra como o autor de peças teatrais repletas de humor negro e críticas à sociedade, como "Entertaining Mr. Sloane" e "Loot", Orton chegou a ser chamado para escrever o roteiro de um filme dos Beatles e conhecer pessoalmente Paul McCartney. Enquanto ascendia profissionalmente, porém, sua relação com Halliwell entrava cada vez mais em uma crise sem fim: sete anos mais velho que Orton e sem seu charme, Halliwell sofria com as traições do parceiro - ainda que por vezes fosse chamado por ele para participar - e via sua carreira ser eclipsada pelo sucesso de Orton. A relação, desequilibrada sob todos os aspectos, parece atrair uma atmosfera de urgência e melancolia. Sob a visão de Frears, quase documental, os protagonistas parecem vislumbrar a tragédia, mas, ao mesmo tempo, sabem que não há como evitá-la. O tom de decadência impresso pelo cineasta nas aventuras sexuais de Orton transmitem uma sensação de incômodo e angústia - ainda que justamente essas jornadas pelo lado sombrio do sexo tenham feito dele o dramaturgo visceral que foi.


Um dos grandes trunfos de "O amor não tem sexo" é o elenco escolhido por Stephen Frears - notoriamente conhecido como um excelente diretor de atores. Antes de começar sua bem-sucedida carreira em Hollywood, Gary Oldman assume com perfeição o sotaque e os trejeitos de Joe Orton - um ano antes ele havia encarnado o roqueiro Sid Vicious e cinco anos mais tarde ele faria um Lee Harvey Oswald brilhante em "JFK: a pergunta que não quer calar", de Oliver Stone. Oldman, um ator dedicado e capaz de transformar-se fisicamente de um filme para outro encontra o par ideal em Alfred Molina. No papel, recusado por Ian McKellen (que anos mais tarde assumiu o arrependimento por isso), Molina brilha como o introvertido e apaixonado Halliwell, com um trabalho impressionante que vai se avolumando até o desfecho trágico. Não bastasse o par central, a excelente Vanessa Redgrave faz uma participação especial como a editora de Orton, Peggy Ramsay, em uma interpretação que lhe rendeu um prêmio de coadjuvante pela associação de críticos de Nova York e indicações ao Golden Globe e ao Bafta. É Redgrave quem surge como a voz da razão em um filme que mergulha sem medo no retrato de uma história de amor, sexo, inveja e literatura.

"O amor não tem sexo" não é, definitivamente, um filme que glamoriza a homossexualidade, mas tampouco a condena: é um desenho o mais fiel possível de uma tragédia, contado com imparcialidade e sem artifícios visuais ou melodramáticos. A fotografia crua de Oliver Stapleton e a edição ágil (mas nunca apressada) de Mick Ausdley são fatores cruciais para o sucesso do filme, mas é a direção incisiva de Stephen Frears quem reúne todos os elementos para formarem um único e chocante painel sobre um dos relacionamentos mais doídos da arte britânica dos anos 1960. É um filme desconfortável, mas, ao mesmo tempo, imprescindível!

segunda-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

quarta-feira

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO (Foxcatcher, 2014, Annapurna Pictures/Media Rights Capital, 134min) Direção: Bennet Miller. Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: Jay Cassidy, Stuart Levy, Conor O'Neil. Música: Ron Simonsen. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Kathy Lucas. Produção executiva: Mark Bakshi, Chelsea Barnard, Michael Coleman, John P. Giura, Tom Heller, Ron Schmidt. Produção: Anthony Bregman, Megan Ellison, Jon Kilik, Bennett Miller. Elenco: Steve Carrell, Mark Ruffalo, Channing Tatum, Vanessa Redgrave, Siena Miller, Anthony Michael Hall. Estreia: 19/5/14 (Festival de Cannes)

5 indicações ao Oscar: Diretor (Bennett Miller), Ator (Steve Carrell), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Roteiro Original, Maquiagem
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes (Bennett Miller)

Se existe um caminho para conquistar o coração dos eleitores da Academia, esse caminho deve ser do conhecimento do diretor Bennett Miller. Desde que lançou seu primeiro longa - a cinebiografia "Capote", que contava com a brilhante atuação de Philip Seymour Hoffman como o famoso autor de "À sangue frio" - o cineasta nova-iorquino viu seus três filmes conquistarem importantes indicações ao Oscar: o primeiro e "O homem que mudou o jogo" - estrelado por Brad Pitt e Jonah Hill - chegaram mesmo a concorrer à estatueta de melhor filme, apesar da qualidade apenas razoável do segundo. Seu novo trabalho (e novamente uma história verdadeira) é "Foxcatcher, uma história que chocou o mundo", que, apesar de não ter alcançado a glória de ser indicado na categoria de de melhor filme, chegou ao páreo de direção, ator (um irreconhecível Steve Carrell), ator coadjuvante (Mark Ruffalo) e roteiro original. Tido como um dos favoritos às estatuetas desde que estreou no Festival de Cannes, em maio passado, o filme foi aos poucos perdendo fôlego e, se conseguiu atravessar a cobiçada linha que separa as especulações da realidade é porque conta com um invejável conjunto de atores, todos eles em momento de grande inspiração: no cômputo geral, "Foxcacther" está muito longe de ser o filme memorável que poderia ser.

O subtítulo nacional - "Uma história que chocou o mundo" - já é um exagero desproporcional, uma vez que, antes da estreia mundial, pouca gente sabia a respeito da tragédia que deu origem ao roteiro (ao menos fora dos EUA, onde os personagens eram relativamente famosos), mas não é a pior coisa do filme de Miller, que sofre de uma direção distante e impessoal que lhe dá um equivocado tom de semi-documentário - uma opção discutível que acaba por afastar o envolvimento emocional do espectador com uma história já recheada de personagens ambíguos e frios. Mesmo que em certos momentos crie algumas cenas de inegável impacto visual - que acentuam o viés melancólico e denso da trama - o cineasta incorre no erro de evitar qualquer mudança no ritmo quase letárgico de sua narração, dando a todos os acontecimentos mostrados a mesma importância dramática. O que poderia ser inteligente - ir montando aos poucos um quebra-cabeças de peças aparentemente desconexas - acaba por se mostrar apenas aborrecido quando se percebe, ao final, que todos aqueles momentos silenciosos e repetitivos não ajudaram em nada a entender o principal: o que levou o milionário John Du Pont a tomar a drástica atitude que inspirou o subtítulo em português.


Não saber muito a respeito da trama ajuda a manter o clima de suspense que, de certa forma, é um dos trunfos de "Foxcatcher" - mesmo que não se conheça a história fica claro desde o princípio que algo pouco positivo irá resultar da aproximação dos personagens, principalmente porque, reconheçamos, a trilha sonora e a edição soturna dão dicas a esse respeito. Tudo começa quando o jovem Mark Schultz (Channing Tatum), lutador olímpico que vive de treinos e palestras motivacionais a estudantes enfadados, é convidado a visitar a mansão do milionário John Du Pont (Steve Carrell sem o menor tique cômico), que vive isolado em uma gigantesca propriedade e tem como sonho criar uma vitoriosa equipe norte-americana de lutadores. Ele mesmo um treinador e lutador diletante, Du Pont convence o jovem a juntar-se a outros atletas, dando-lhe um lugar para morar, comida, boas condições de treino e um pagamento generoso. A única pedra em seu caminho é Dave (Mark Ruffalo), irmão mais velho e antigo técnico de Mark, com quem mantém uma forte relação de carinho familiar. A união entre os dois passa a despertar um misto de inveja e admiração no multi-milionário - que não tem o melhor dos relacionamentos com a mãe (Vanessa Redgrave) e leva uma vida solitária - que resolve, então, chamar Dave para juntar-se a eles em seu projeto.

Contando sua história sem pressa e muitas vezes abusando da paciência do público, Bennett Miller tem como maior trunfo sua trinca de atores centrais. Enquanto Mark Ruffalo já é reconhecido por seu talento dramático graças a uma série de bons filmes - que incluem a comédia dramática "Minhas mães e meu pai", que lhe deram sua primeira indicação ao Oscar, em 2011 - a plateia é pega de surpresa principalmente pelo trabalho de Steve Carrell e Channing Tatum. Tatum, mais conhecido por exibir o físico privilegiado em dramas românticos como "Querido John" e comédias bobas como "Anjos da lei", ainda não é um grande ator, mas seu esforço em crescer artisticamente é visível na construção corporal de seu personagem, que foge do estereótipo do galã sedutor com seu andar pesado, seu olhar perdido e sua forma quase anestesiada de falar. E Steve Carrell mereceu, com todo o louvor, sua indicação à estatueta de melhor ator, apresentando um desenvolvimento exemplar de personagem: mesmo que pouco se explique a respeito de sua natureza no roteiro, ele consegue, através do olhar vazio e das expressões faciais destituídas de qualquer emoção, arrepiar e emocionar na medida certa. Em nenhum momento somos lembrados que, por trás da competente maquiagem e da voz monocórdia, existe o genial ator cômico do seriado "The Office" e da refilmagem de "Agente 86". Ponto para ele.

No fim das contas, "Foxcatcher" é um trabalho apenas ok de um diretor que caiu inexplicavelmente nas graças da Academia - e dos jurados do Festival de Cannes, que lhe deram a Palma de Ouro da categoria. A intenção do cineasta em retratar o mundo da luta como uma espécie de culto - um mundo à parte, isolado e cheio de regras - cai no vazio diante de um roteiro que deixa mais à imaginação do público do que deveria e o final anti-climático perde a oportunidade de chocar ou surpreender para parecer apenas mais um acontecimento banal como um treino ou uma corrida matinal. Nem mesmo as possibilidades homoeróticas da história são levantadas, tornando tudo apenas um exercício sonolento e quase arrogante. Ainda bem que tem seus atores.

quinta-feira

O MORDOMO DA CASA BRANCA

O MORDOMO DA CASA BRANCA (Lee Daniels' The Butler, 2013, AI-Film/Follow Through Productions/Salamander Pictures, 132min) Direção: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong, artigo "A butler well served by this election", de Wil Haygood. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Joe Klotz. Música: Rodrigo Leão. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Tim Galvin/Diane Lederman. Produção executiva: Len Blavatnik, James T. Bruce IV, Elizabeth Destro, Michael Finley, Aviv Giladi, Adonis Hadjiantonas, Vince Holden, Brett Johnson, Sheila Johnson, Jordan Kessler, Adam Merims, David Ranes, Matthew Salloway, Hilary Shor, Earl W. Stafford, Danny Strong, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, R. Bryan Wright. Produção: Lee Daniels, Cassian Elwes, Buddy Patrick, Pamela Oas Williams, Laura Ziskin. Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr., Vanessa Redgrave, John Cusack, Jane Fonda, Alan Rickman, James Marsden, Robin Williams, Liev Schreiber, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Alex Pettyfer, Jim Gleeson. Estreia: 05/8/13

Alguns filmes conquistam por seu valor artístico, por sua ousadia, criatividade e técnica impecável. Outros, no entanto, chegam ao coração da audiência por seus méritos emocionais, que prescindem de teorias ou análises mais profundas. Na segunda definição encontra-se "O mordomo da Casa Branca", filme do cineasta Lee Daniels, que já em seu filme de estreia, "Preciosa", arrebatou indicações ao Oscar de filme e direção. Inspirado em uma história real, o novo filme de Daniels retrata, em pouco mais de duas horas de duração, cinco décadas da história dos EUA, concentrando-se na luta pelos direitos civis da população negra - e contrapondo-a à dedicação do protagonista em servir os governantes do país independentemente da situação política.

Interpretado por Forest Whitaker em mais uma atuação esplêndida, Cecil Gaines é um herói silencioso e discreto, que acompanha as transformações sociais dos EUA de camarote: contratado como um dos mordomos da Casa Branca durante o mandato de Eisenhower (Robin Williams), ele segue à risca os conselhos que sempre recebeu durante sua educação como serviçal, mantendo-se invisível e apolítico mesmo quando as decisões políticas afetam diretamente seu povo - e principalmente sua família. Seu filho mais velho (muito bem interpretado por David Oyelowo), revoltado com a submissão a que a população negra é obrigada, junta-se aos ativistas que exigem mudanças - desde o pacifismo de Martin Luther King à violência dos Panteras Negras -, seu caçula, crédulo em seu governo, embarca para o Vietnã, e sua mulher, Gloria (Oprah Winfrey, extraordinária) se entrega à bebida como forma de lidar com a solidão. Muitas vezes incompreendido pelas pessoas que ama - que o julgam conivente com as desigualdades - ele não se furta a manter-se fiel às suas obrigações, o que acaba por torná-lo um homem de confiança de inúmeros presidentes.


A narrativa de Daniels é quadradinha, convencional, quase sem brilho. Porém, se o roteiro muitas vezes não consegue fugir do superficial - consequência inevitável da decisão de se contar tanta coisa em tão pouco tempo - ao menos mantém um ritmo que mantém a atenção do espectador sem fazer muito esforço. Didático na medida certa (para não afugentar aqueles que não conhecem a história americana a ponto de não precisar de legendas explicativas) e emocionante em diversos momentos - principalmente quando não tem medo de mostrar a extrema violência física e psicológica sofrida pelos negros - o filme pode até ser acusado de um certo maniqueísmo, mas tem a coragem de questionar a lealdade do protagonista ao mesmo tempo em que compreende sua ideologia de fidelidade extrema e absoluta: a cena em que pai e filho discutem violentamente sobre a imagem de Sidney Poitier (epítome do negro quase branco, aceito pelo mainstream americano nos anos 60 e renegado pelo ativismo radical justamente por esse motivo) é forte e exemplifica com perfeição a dubiedade dos sentimentos da família Gaines - além de permitir a Whitaker e Winfrey um de seus melhores momentos.

Aliás, se existe um outro grande motivo para se assistir a "O mordomo da Casa Branca" é o elenco reunido por Daniels: além de Mariah Carey (em uma participação mínima) e Lenny Kravitz - que já haviam trabalhado com o diretor em "Preciosa", o filme é um desfile de grandes atores em participações especiais (e muitas vezes com maquiagem que quase os deixa irreconhecíveis). É um prazer à parte ver nomes tão díspares quanto Alan Rickman, James Marsden, Liev Schreiber, John Cusack, Vanessa Redgrave, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e a sumida Jane Fonda em um filme com importância social tão fundamental - e não é difícil imaginar que sua inclusão no elenco tem muito a ver com suas próprias agendas políticas. É importante também perceber que o exagero do filme anterior do cineasta - o polêmico e exagerado "Obessão" - parece ter sido definitivamente enterrado, diante de uma obra tão carinhosa quanto essa.

"O mordomo da Casa Branca", ao contrário do apregoado, não tem nada a ver com "Histórias cruzadas", o superestimado que deu a Octavia Spencer o Oscar de atriz coadjuvante em 2012. Enquanto a obra de Tate Taylor era hipócrita a ponto de ter uma protagonista branca para salvar os negros oprimidos, o filme de Daniels dá aos próprios o poder de mudar sua história, lutando até o fim por seus direitos e enfrentando o sistema estabelecido. E se havia espaço para o humor escatológico e sem graça no primeiro, em "O mordomo" o registro é mais sério e apropriado ao tema. Pode não ser uma obra-prima, mas é comovente, relevante e redondinho. Merece ser apreciado por suas inúmeras qualidades.

domingo

WILDE

WILDE (Wilde, 1997, BBC/Capitol Films, 118min) Direção: Brian Gilbert. Roteiro: Julian Mitchell, livro de Richard Ellman. Fotografia: Martin Fuhrer. Montagem: Michael Bradsell. Música: Debbie Wiseman. Figurino: Nic Ede. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic. Produção executiva: Alex Graham, Alan Howden, Deborah Raffin, Michael Viner, Michiyo Yoshizaki. Produção: Marc Samuelson, Peter Samuelson. Elenco: Stephen Fry, Jude Law, Vanessa Redgrave, Jennifer Ehle, Gemma Jones, Judy Parfitt, Michael Sheen, Tom Wilkinson, Ioan Gruffud, Zoe Wanamaker, Orlando Bloom. Estreia: 01/9/97

Um dos escritores mais respeitados e conhecidos do mundo - especialmente graças à sua obra-prima "O retrato de Dorian Gray" - o irlandês Oscar Wilde era conhecido em sua época também devido a seu estilo de vida pouco recomendado à alta sociedade. Notadamente homossexual - fato que nem mesmo seu casamento e os posteriores filhos conseguiram disfarçar perante a sociedade - ele frequentemente desfilava por Londres com algum jovem rapaz à tiracolo, suscitando todos os tipos de comentários (que naturalmente ficavam restritos a quatro paredes). Um desses rapazes, porém, foi o responsável indireto por jogar o autor de "A importância de ser honesto" em um escândalo de grandes proporções que nem mesmo o respeito público por sua obra literária foi capaz de abafar: condenado à dois anos de trabalhos forçados (a homossexualidade era crime passível de punição na Inglaterra do século XIX), Wilde se viu humilhado e rechaçado pela população, em um dos mais infames casos jurídicos do país. É esse recorte da vida do escritor - que se passa entre a criação de seu maior livro e a condenação que lhe fragilizou a saúde - a base de "Wilde", bela cinebiografia de Brian Gilbert que, apesar das inúmeras qualidades, passou quase despercebido pelos cinemas e pelas cerimônias de premiação.

Sua maior qualidade - e a que mais merecia homenagens nos tapetes vermelhos que tanto aplaudem talentos menores - é a atuação de Stephen Fry no papel central. Além da semelhança física com o Oscar Wilde, o ator inglês entrega um desempenho irretocável, que abrange todas as nuances da complexa personalidade do escritor de forma orgânica e objetiva. Em sua interpretação a plateia pode ver o homem apaixonado, o intelectual sardônico, o pai amoroso, o marido carinhoso, o dândi debochado e finalmente o mártir vencido pelo preconceito e pelo amor incondicional àquele que, de um modo ou outro, foi a faísca que deflagrou sua decadência. Ignorado por todas as cerimônias de premiação, Fry - que parece ter nascido para interpretar Wilde - foi o grande injustiçado de um ano em que a Academia resolveu homenagear a velha guarda de Hollywood (Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Robert Duvall e Peter Fonda foram indicados ao Oscar) e lançar um novo candidato a astro (Matt Damon, que saiu vencedor na categoria de roteiro original ao lado de Ben Affleck mas cuja lembrança no páreo de interpretação masculina soou mais como um incentivo do que como merecimento). Essa esnobada de todos os críticos - somente o Golden Globe lhe indicou no ano seguinte, quando o filme finalmente estreou nos EUA - porém, não tiram o brilho, tanto do ator quanto do filme em si.


A obra de Gilbert começa quando Wilde, voltando à Londres depois de uma temporada nos EUA, se casa com a doce Constance (Jennifer Ehle), com quem tem dois filhos justamente quando começa a tornar-se um dramaturgo de sucesso. É nessa época também que ele passa a exercer mais explicitamente sua homossexualidade, envolvendo-se com homens mais jovens e frequentemente de menos posses, que não se importam em dividir sua cama com outros rapazes na mesma situação - como Robie Ross (Michael Sheen), que se torna amigo íntimo e fiel do escritor. Sua rotina se altera profundamente, porém, quando ele se apaixona perdidamente pelo sedutor e manipulador Alfred 'Bosie' Douglas (Jude Law, antes de ficar famoso com "O talentoso Ripley" mas já demonstrando grande talento e beleza), filho do influente Marquês de Queensbery (Tom Wilkinson). Furioso com a relação entre o filho e aquele a quem considera um "pederasta pervertido", o marquês inicia uma campanha de difamação que resulta em um julgamento que expõe o estilo de vida de Oscar - e consequentemente, na sua ruína financeira e moral.

Construindo sua história sem pressa e estabelecendo com inteligência a relação desigual entre Wilde e Bosie - um rapaz egoísta, irresponsável e imaturo que é incapaz de perceber o estrago que suas atitudes podem causar ao amante - Brian Gilbert também cuida em dotar de personalidade os coadjuvantes de sua história, vividos por atores sensacionais como Tom Wilkinson e Vanessa Redgrave - que interpreta a mãe do protagonista com a personalidade forte de sempre. Dirigindo com elegâncias as cenas de sexo - que nunca ultrapassam o limite do bom-gosto e servem apenas para ilustrar o drama central - o cineasta conduz o roteiro de forma a enfatizar a situação extrema de seus personagens e não apenas de comentá-la como uma testemunha neutra. Nitidamente simpática a Wilde e à causa gay, a produção não se furta a retratar seu personagem principal como uma vítima de uma sociedade preconceituosa e hipócrita, o que confere ao filme ares de uma atualidade pungente. Mesmo que não se aprofunde na psicologia de seus protagonistas - que muitas vezes soam bastante fúteis e volúveis - o roteiro serve com perfeição para apresentar ao público uma das histórias mais tristes e revoltantes dos bastidores da literatura mundial. Um filme que não merecia o pouco-caso com que foi recebido e deve ser descoberto pelos fãs do gênero e de um dos maiores escritores da língua inglesa de todos os tempos.

terça-feira

CARTAS PARA JULIETA

CARTAS PARA JULIETA (Letters for Juliet, 2010, Summit Entertainment, 105min) Direção: Gary Winick. Roteiro: José Rivera, Tim Sullivan. Fotografia: Marco Pontecorvo. Montagem: Bill Pankow. Música: Andrea Guerra. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Alessandra Querzola. Produção executiva: Ron Schmidt. Produção: Ellen Barkin, Mark Canton, Caroline Kaplan. Elenco: Amanda Seyfried, Vanessa Redgrave, Gael Garcia Bernal, Franco Nero, Christopher Egan. Estreia: 25/4/10 (Tribeca Festival)

Escrita no século XVI pelo inglês William Shakespeare, a tragédia romântica “Romeu e Julieta” ainda parece ser, quase quinhentos anos depois, um manancial inesgotável de inspiração para o cinema. Não apenas adaptações fiéis da obra (como a de Franco Zefirelli, lançada em 1968), releituras musicais (“Amor, sublime amor”, vencedor de dez Oscar em 1960) e versões de ousadia visual (a interpretação lisérgica apresentada pelo australiano Baz Luhrmann em 1996) surgem volta e meia para conquistar novas plateias, mas também variações sobre o mesmo tema confirmam a influência indelével à cultura popular do drama adolescente que contrapõe a pureza do amor aos malefícios do ódio cego. Um exemplo claro e inequívoco dessa afirmação é o simpático e doce “Cartas para Julieta”, que, a rigor, não tem nada a ver com o texto do mais famoso bardo do teatro mundial, mas deve a ele seu mote central – e com ele divide o belo cenário italiano.
Dirigido por Gary Winick – especialista em comédias românticas que comandou o divertido “De repente 30” – “Cartas para Julieta” não é exatamente criativo e/ou imprevisível, mas tem a seu favor o carisma de sua atriz central (Amanda Seyfried, a filha de Meryl Streep em “Mamma mia” e estrelinha do açucarado “Querido John”) e o talento sempre impressionante de uma coadjuvante de luxo que valoriza qualquer filme, a intensa Vanessa Redgrave. São as duas atrizes – a juventude contagiante de uma e a competência imponente da outra - que dão consistência a um conto sobre a busca pelo amor e a imortalidade dos sentimentos. Tendo em mãos um roteiro simples e bem-humorado – um de seus autores, José Rivera, concorreu ao Oscar por “Diários de motocicleta” – e o estonteante visual do interior da Itália com suas paisagens deslumbrantes, Winick não tem muito trabalho em conquistar a plateia, especialmente aquela formada pelos românticos de plantão que sempre fazem a glória do gênero. 



A protagonista do filme é Sophie (Amanda Seyfried), que trabalha como pesquisadora na revista New Yorker e tem como maior ambição tornar-se escritora – ainda que não seja levada a sério por seu editor (Oliver Platt) e passe os dias checando fatos para reportagens alheias. Quando o filme começa, Sophie está saindo de férias com o noivo, Victor (Gael García Bernal), para uma espécie de lua-de-mel antecipada, já que o rapaz está em vias de abrir um restaurante e passa os dias dedicado aos preparativos para o evento. O desejo de Sophie de passar uma temporada romântica com Victor em Verona é frustrado logo que o casal chega na Itália: obcecado com trabalho, o rapaz sai de degustações de queijos e vinhos para reuniões e visitas profissionais ao interior do país. Mesmo decepcionada com a situação, a jovem incentiva o amado em suas excursões, mas resolve usar seu tempo em outros programas. Um deles a leva até à Casa de Julieta, um sobrado que há anos serve de cenário para procissões de jovens enamoradas que, inspiradas pela famosa personagem shakespereana, deixam em suas paredes, cartas pedindo conselhos e ajuda em seus dramas amorosos. Curiosa, Sophie descobre que todas as cartas com endereço são respondidas por um grupo de voluntárias e de repente vê-se unindo-se a elas na função. Para sua surpresa, logo ela encontra uma carta escrita em 1951 por uma inglesa desesperada por estar se separando do homem que amava – italiano – por questões familiares. Dotada de um vigoroso espírito romântico, Sophie responde a carta.
Para surpresa de todas as voluntárias, porém, a resposta acaba por acarretar uma inesperada consequência: poucos dias depois, chega ao local a delicada Claire Smith (Vanessa Redgrave), a autora da carta, que, incentivada pelas palavras de Sophie, decidiu voltar à Itália depois de cinquenta anos com a intenção de procurar o homem que deixou para trás, o seu amado Lorenzo. Excitada com a ideia de acompanhar Claire em sua busca – e escrever sua história – Sophie bate de frente com o ranzinza Charlie (Christopher Egan), neto da velha senhora que não vê com bons olhos a ideia da avó correndo atrás de um passado tão remoto. As faíscas que surgem entre Sophie e Charlie não passam despercebidas por Claire, que, mesmo incansável em sua missão de reencontrar Lorenzo – uma missão nada desprezível, já que vários homônimos cercam a região – não deixa de questionar a decisão da jovem amiga em manter o noivado com um homem que não parece dedicar a ela todo o tempo e carinho que deveria.
Não se deve esperar grandes profundidades psicológicas ou debates sérios em “Cartas para Julieta”. O objetivo do filme é unica e simplesmente divertir o espectador, fazendo-o viajar pelas fotogênicas estradas italianas enquanto conta duas histórias de amor simultâneas, capazes de encantar duas gerações distintas da plateia. Em contraponto ao amor imortal e reprimido entre Claire e Lorenzo (interpretado pelo marido de Redgrave na vida real, o ator Franco Nero), o roteiro apresenta o nascente romance entre Sophie e Charlie, que começa com uma certa antipatia – um clichê que sempre funciona às mil maravilhas – e vai se tornando, com o passar do tempo, em uma paixão dócil e suave que contrasta com o relacionamento quase fraterno entre a jovem e Victor. Mesmo que o filme se estenda mais do que o necessário e insista em um ato final que apela para o pouco criativo artifício de um mal-entendido para dificultar o final feliz que todos sabem que virá, é um exemplar digno de um gênero que não costuma produzir obras muito marcantes. O único senão é o sub-aproveitamento de Gael García Bernal, um ótimo ator que não tem muito o que fazer em cena, relegado a um ingrato papel de coadjuvante pouco interessante. De resto, um romance sem contra-indicações para quem acredita no amor.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...