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segunda-feira

BARRY LYNDON


BARRY LYNDON (Barry Lyndon, 1975, Warner Bros,
185min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, romance de William Makepeace Thackeray. Fotografia: John Alcott. Montagem: Tony Lawson. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Roy Walker. Produção executiva: Jan Harlan. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Gay Hamilton, Frank Middlemass, Leonard Rossiter. Estreia: 11/12/75 (Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Conhecido por sua obsessão em termos profissionais, Stanley Kubrick dedicou boa parte de sua vida a pesquisar sobre Napoleão Bonaparte, a quem escolheu como tema de um seus filmes. Depois de ler alegadamente uma centena de livros sobre o líder francês e ter explorado o assunto por todos os ângulos, porém, viu seu projeto ser cancelado pela Warner Bros por problemas de orçamento - o que mostrou-se premonitório, haja visto o fracasso de "Waterloo" (1970), produzido por Dino de Laurentiis. Partiu, então, para a produção do controverso "Laranja mecânica" (1971) - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor - mas jamais abandonou a ideia de dirigir uma história passada no século XVIII e utilizar-se de todo o resultado de seus estudos. Foi então que mirou na obra do escritor William Makepeace Thackeray - mais precisamente em "Feira das vaidades", publicado em 1848. Com o tempo, ciente de que a vasta trama do livro não caberia em apenas três horas de duração, mudou novamente de alvo, mas ainda dentro do universo do autor, nascido na Índia em 1811. Surgia assim "Barry Lyndon", mais um de seus clássicos - e certamente a mais sofisticada de suas produções, premiada com 4 Oscar e celebrada pela crítica como uma obra-prima inquestionável.

Filmado na Inglaterra por longos nove meses - o que empurrou sua estreia para dezembro de 1975, quase dois anos e meio depois do começo da produção -, "Barry Lyndon" custou aos cofres da Warner aproximadamente 11 milhões de dólares, mas não foi um sucesso de bilheteria, para decepção do estúdio e do próprio diretor, que viu-se obrigado pela consciência a fazer de "O iluminado" - um projeto bem mais comercial - seu filme seguinte. Nem a exigência dos engravatados - de escalar um ator popular para o papel central, como forma de garantir seu sucesso financeiro - mostrou-se certeira. O apuro visual, o capricho na direção de atores e o roteiro (irônico e inteligente) não foram suficientes para conquistar a plateia. Sem as elocubrações filosóficas de "2001: uma odisseia no espaço" (1968) e o virtuosismo narrativo de "Laranja mecânica", o filme de Kubrick aposta em uma narrativa linear como forma de contar sua história, uma saga pessoal que satiriza com elegância a aristocracia europeia dos anos 1700. Com uma reconstituição de época impecável e uma fascinante direção de fotografia - que inclui belas sequências filmadas a luz de velas -, "Barry Lyndon" provou que o celebrado cineasta jamais poderia ser chamado de repetitivo.


 

A trama de "Barry Lyndon" começa com a morte do pai do protagonista, que se torna órfão ainda criança e passa a ser o centro das atenções de sua mãe. Vivendo na Irlanda do século XVIII, o rapaz, chamado Redmond Barry (e interpretado por Ryan O'Neal), se apaixona por sua prima, Nora Brady (Gay Hamilton), e tal sentimento é o catalisador de uma série de eventos que irá transformar sua vida pelas próximas décadas. Fugindo de uma acusação de assassinato - forjada por seu rival pelo amor da ambiciosa prima -, Barry acaba se unindo ao exército britânico na Guerra dos Sete Anos. Indolente e pouco honesto, ele deserta mas se vê obrigado a fazer parte do exército prussiano. Depois de salvar a vida de seu capitão, torna-se seu protegido, mas sua lealdade não é exatamente sólida e não demora a associar-se a Chevalier de Balibari (Patrick Magee), um jogador irlandês de quem só se afasta quando resolve dar o golpe do baú na milionária Lady Lindon (Marisa Berenson) - de quem assume também o sobrenome. Seu casamento com a viúva, porém, é destinado à tragédia, graças à rivalidade de Barry com seu enteado.

Talvez a maior ousadia de Stanley Kubrck em "Barry Lyndon" tenha sido a escolha de seu ator central. Um dos dez atores mais populares do cinema em uma pesquisa realizada em 1973 (ano do começo da produção), Ryan O'Neal só perdia, na época, para Clint Eastwood - logicamente velho demais para o papel. Vindo do sucesso de filmes como "Love story: uma história de amor" (1970), "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), O'Neal não era, apesar disso, a primeira opção do cineasta, que preferia Robert Redford, também parte da lista dos grandes astros do momento. Com a recusa de Redford - que logo em seguida voltaria ao topo com "Nosso amor de ontem" e "Golpe de mestre", ambos de 1973 - o futuro marido de Farrah Fawcett entrou no projeto como uma forma de somar prestígio ao sucesso comercial. Por um lado deu certo: mesmo com a direção do perfeccionista Kubrick, o ator que levou multidões aos cinemas com seu drama lacrimoso ao lado de Ali McGraw não teve a mesma sorte com a produção que poderia lhe dar o status de grande intérprete - mas obteve o respeito que tal empreitada oferece. Seu desempenho, porém, acabou eclipsado pela opulência da produção: dotado de um ritmo próprio, cuja lentidão é parte indissociável do tom imposto pelo roteiro e pela direção, "Barry Lyndon" encanta principalmente pela beleza plástica. Suas três horas e cinco minutos de duração - meros doze minutos a menos que "Spartacus" (1960) e com direito a intervalo - passam sem pressa diante dos olhos do espectador, que fascinado com a bela fotografia de John Alcott, o figurino de Milena Canonero e o desenho de produção de Ken Adam, se deixa envolver por uma trama iconoclasta, satírica e quase cínica. Com um protagonista que vive na sociedade do século XVIII com uma mentalidade moderna, "Barry Lyndon" é, a seu modo, também à frente de seu tempo. Pode não ter revolucionado o cinema, mas é mais um filme indispensável na carreira de um dos poucos diretores que podem ser realmente chamados de artista.

 

quinta-feira

DE OLHOS BEM FECHADOS


DE OLHOS BEM FECHADOS (Eyes wide shut, 1999, Warner Bros, 159min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Frederic Raphael, novela "Traumnovelle", de Arthur Schnitzler. Fotografia: Larry Smith. Montagem: Nigel Galt. Música: Jocelyn Pook. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Les Tomkins, Roy Walker/Lisa Leone, Terry Wells Sr.. Produção executiva: Jan Harlan. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, Todd Field, Sky du Mont, Marie Richardson, Thomas Gibson, Julienne Davis, Vinessa Shaw, Leelee Sobieski, Rade Serbedzija. Estreia: 13/7/99

O tempo é um elemento do qual não se é possível fugir ao se falar sobre "De olhos bem fechados", o último filme do celebrado e mítico Stanley Kubrick. Foi em 1960 que o cineasta conheceu o livro "Traumnovelle", de Arthur Schnitzler - durante as sessões de terapia a que foi submetido em conjunto com Kirk Douglas para que resolvessem seus problemas de relacionamento nas filmagens de "Spartacus". Foi em 1971 que o presidente da Warner Bros, John Calley, anunciou que a adaptação da obra seria o próximo trabalho do diretor - uma informação que não revelou-se verdade, uma vez que a honra de suceder "Laranja mecânica" (1971) ficou com "Barry Lyndon" (1975). Foi no começo dos anos 1990 que o lendário homem por trás de "2001: uma odisseia no espaço" (1968) resolveu voltar a seu projeto de estimação quando Steven Spielberg anunciou "A lista de Schindler" (1993) - com tema bastante similar a "Aryan papers", cuja produção estava disposto a começar. Foi em novembro de 1996 que finalmente começaram as filmagens que se estenderiam por 400 dias - um recorde registrado no Guinnes Book, que nem considerou a pós-produção de quase um ano. E foi apenas quatro dias depois de mostrar sua versão do filme aos executivos do estúdio (ainda não completamente finalizada) que o mundo foi pego de surpresa com a notícia de sua inesperada morte - quatro meses antes da estreia oficial de uma mais esperadas produções cinematográficas da década.

Estrelado pelo então casal real de Hollywood - Tom Cruise e Nicole Kidman - e cercado por expectativas estratosféricas (assim como por um mistério que se estendeu até o lançamento), "De olhos bem fechados"se beneficiou do hype em torno do nome do diretor e do reencontro dos protagonistas sete anos depois do esquecível "Um sonho distante": mesmo sem muitas pistas a respeito da trama e das intenções comerciais do filme (nem mesmo o famoso trailer ao som de Chris Isaack entregava qualquer dica), o público correu às salas de exibição para conferir o resultado das cansativas e controversas filmagens que mantiveram Cruise e  Kidman presos na Inglaterra por mais de um ano - a ponto de atrasar outras produções da dupla, como "Da magia à sedução" e"Missão: impossível II" (finalmente lançado em 2000). Primeiro filme de Kubrick a estrear em primeiro lugar nas bilheterias dos EUA, "De olhos bem fechados" terminou sua carreira internacional com mais de 160 milhões de dólares em caixa - nada mal para uma produção adulta e com um tema tão controverso quanto... sexo.

Sim, sexo está na base e na origem de "De olhos bem fechados". Já adaptada anteriormente (para a televisão austríaca, em 1969, e em um filme italiano chamado "Ad un pas dall'aurora"), a novela de Schnitzler - discípulo de Freud - acompanha a obsessiva jornada de um médico, William Harford (Tom Cruise), por uma aventura sexual que o faça esquecer (ao menos momentaneamente) a confissão da bela esposa, Alice (Nicole Kidman), de que quase o traiu em uma viagem romântica. Cego de decepção - afinal sua vida matrimonial parecia sólida e imune a qualquer tipo de traição -, Harford busca um encontro casual, mas acaba envolvido (como penetra) em uma misteriosa orgia com participantes mascarados, senhas e uma atmosfera de perigo constante. Perseguido pela paranoia, ele refaz os passos da noite, o que inclui encontros com uma jovem prostituta e com uma adolescente envolvida com dois homens mais velhos. Nesse meio tempo, passa a desconfiar que está correndo o risco de ser vítima da violência dos organizadores da orgia - como aconteceu com um amigo músico e com uma bela mulher que tentou alertá-lo sobre os perigos da festa.


 A trama de Schnitzler, seguida com razoável fidelidade pelo roteiro do diretor e Frederic Raphael, não é das mais empolgantes em termos de ação. Porém, é fascinante como o cineasta é capaz de cobrir o enredo com uma atmosfera de pesadelo, sublinhada pela trilha sonora de Jocelyn Pook (indicada ao Globo de Ouro) e pela edição quase contemplativa de Nigel Galt. Se Tom Cruise não é um grande ator nem mesmo sob o comando de alguém exigente como Kubrick, o mesmo não pode ser dito de Nicole Kidman - em um de seus papéis mais importantes antes do divórcio do galã, a atriz mostra que beleza e talento podem tranquilamente caminhar juntos, e mesmo sem muita participação na segunda metade do filme, rouba a cena sem cerimônia na primeira parte (cujo desfecho é a cena em que confessa o adultério cogitado). Kubrick - que considerava "De olhos bem fechados" seu melhor filme - conduz seu último trabalho como um maestro, enfatizando aqui e acolá a complexidade de seus personagens com a sutileza de um veterano. É surpreendente que, antes que chegasse à conclusão sobre sua própria visão do enredo, tenha tido ideias tão excêntricas quanto a de tratá-lo como uma comédia.

A ideia de Kubrick de tratar o material de Schnitzler como uma comédia talvez tenha sido a mais inusitada de sua carreira - especialmente quando se pensa que o cineasta desejava ter Woody Allen no papel principal. Depois de Allen, Kubrick pensou em Steve Martin - até que deixou de lado a ousadia de brincar com o sisudo texto original e voltou a cogitar atores mais sérios, como Harrison Ford e Johnny Depp. Depois de conceber a ideia de ter um casal real na pela dos protagonistas, Kubrick chegou a Alec Baldwin e Kim Basinger - mas somente até que Tom Cruise e Nicole Kidman visitaram sua propriedade na Inglaterra (onde Kidman filmava "Retrato de uma mulher") e foram oficialmente convidados para tomar parte em seu ambicioso projeto. A opção por um dos casais mais famosos do mundo agradou aos executivos da Warner - que sugeriam ao diretor a escalação de nomes populares para agradar ao mercado - e deu início a uma série de fofocas de bastidores, que iam de especulações a respeito da trama (eles realmente seriam terapeutas que se envolviam com pacientes?) até substituições no meio das filmagens (Harvey Keitel e Jennifer Jason Leigh chegaram a filmar várias cenas, antes que compromissos os impedissem de voltar ao set para novas gravações e os fizessem perder os papéis para Sidney Pollack e Marie Richardson). O trabalho estendeu-se indefinidamente a ponto de dar uma úlcera a Tom Cruise - que, dizem, teve que fazer 95 takes de uma cena em que tinha que simplesmente atravessar o batente de uma porta -, mas valeu a pena. Com um roteiro que lança mais perguntas que respostas, "De olhos bem fechados" é a obra-prima imperfeita de Kubrick é seu belo canto do cisne - e uma produção digna de figurar em uma filmografia tão ímpar e cultuada.

terça-feira

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA (Dr. Strangelove or: How I learned to stop worrying and love the bomb, 1964, Columbia Pictures Corporation, 95min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, romance "Red alert", de Peter George. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Anthony Harvey. Música: Laurie Johnson. Direção de arte: Ken Adam. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, James Earl Jones. Estreia: 29/01/64

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Ator (Peter Sellers), Roteiro Adaptado

No início dos anos 60, a II Guerra Mundial já era passado para os estúdios de Hollywood, que demorariam algumas décadas até voltarem a utilizá-la como matéria-prima para suas produções mais ambiciosas. A bola da vez no começo da década do flower power era a possibilidade cada vez menos remota de um conflito nuclear, especialmente com o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963 e a Rússia se tornando uma potência mundial. Com esse panorama político à frente, a Columbia Pictures não hesitou em lançar, em 1964, não apenas um, mas dois filmes com temática similar - mas com pontos de vista bastante distintos. Quando "Limite de segurança", dirigido por Sidney Lumet e estrelado por Henry Fonda - um thriller sufocante e tenso - chegou às telas, em setembro, o público e a crítica já haviam visitado o assunto por um viés satírico, exagerado e surreal, dirigido por um cineasta pouco afeito ao convencional: o inglês Stanley Kubrick. Com base no livro "Alerta vermelho", de Peter George, um romance sério a respeito da iminência de uma nova guerra entre americanos e soviéticos, Kubrick virou a trama de pernas para o ar, alterando substancialmente o tom alarmista do original para criar uma comédia alucinada e quase nonsense. O resultado, "Dr. Fantástico: ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba" acabou por transformar-se em um grande sucesso crítico e comercial, a ponto de ser indicado aos Oscar de melhor filme, diretor, ator (Peter Sellers) e roteiro adaptado e passar a ser considerado uma das melhores comédias da história do cinema, graças ao American Film Institute - que o colocou em terceiro lugar entre as maiores do gênero.

A ideia de Kubrick em transformar o livro de Peter George em uma sátira não agradou muito ao autor do original, que, no entanto, não se recusou ao crédito de corroteirista, ao lado do diretor e de Terry Southern, que só entrou no projeto quando o cineasta inglês percebeu o potencial humorístico do material que tinha em mãos. Com um roteiro repleto de humor negro e críticas nada veladas ao governo americano - e às paranoias relacionadas à incipiente Guerra Fria - a Columbia viu que o melhor a fazer seria escalar alguém que pudesse fazer jus a todas as possibilidades da história. Surgia então o nome de Peter Sellers, com quem Kubrick já havia trabalhado - e com grande êxito - na versão cinematográfica de "Lolita" (62), de Vladimir Nabokov. Como já havia acontecido no filme anterior, Sellers voltaria a interpretar múltiplos personagens - mais precisamente três, o que de certa forma contrariava os interesses do estúdio, que sonhava com um quarteto de caracterizações - e, para isso, recebeu um polpudo pagamento de 1 milhão de dólares, o que representava mais da metade do orçamento do filme inteiro. O investimento valeu a pena: não apenas Sellers roubou a cena como recebeu uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - prêmio que perdeu para Rex Harrison, no ultrapremiado "My fair lady".





As ironias de "Dr. Fantástico" já começam na escalação do elenco. Na pele do paranoico General Jack D. Ripper, obcecado por fantasias de uma possível invasão "vermelha" e responsável por enviar um avião norte-americano em direção à Rússia com o objetivo de bombardear o país, está o ator Sterling Hayden, notório militante do Partido Comunista à época das filmagens. É seu personagem que dá início à história, mantendo o oficial da Força Aérea Britânica Lionel Mandrake (Peter Sellers) em seu poder enquanto espera o desfecho de seu ato de rebeldia. Atônito com a situação, o presidente dos EUA, Merkin Muffley (também vivido por Sellers), resolve tentar, de todas as maneiras possíveis, impedir que tal desgraça aconteça, o que poderia causar o início de uma III Guerra Mundial. Para isso, chama à Sala de Guerra do Pentágono - reconstruída em estúdio na Inglaterra, de onde Peter Sellers não poderia sair devido a problemas com seu divórcio - o General Buck Turgidson (George C. Scott), o embaixador soviético Sadesky (Peter Bull) e o exótico cientista Dr. Strangelove (o terceiro personagem de Sellers), que tem ideias próprias a respeito de como resolver o problema. Em uma terceira linha narrativa, a tripulação do avião mandado por Ripper em direção à Rússia encontra dificuldade em comunicar-se tanto com seu comandante quanto com a sala de controle que pode lhe impedir de dar continuidade à missão.


Ao optar pelo exagero em todos os setores da produção - desde a direção de arte claustrofóbica e com tons de pesadelo até a interpretação de seus atores, o que causou estranheza ao veterano George C. Scott, que não compreendia as intenções do diretor até ver o filme finalizado - Stanley Kubrick acabou por criar um dos filmes de guerra mais contundentes da história. Retratando os detentores do poder de criar ou acabar com um conflito mundial não como heróis, mas como poltrões dominados por suas amantes, suas paranoias e seus interesses pessoais, o roteiro joga por terra o patriotismo americano que tanto serviu de base para produções hollywoodianas nas décadas seguintes e, de quebra, ridiculariza os dois lados da questão, com diálogos absurdos e situações visuais que beiram o patético - tombos, brigas, um cientista sem controle da própria mão mecânica. Em uma filmografia que não tinha muito espaço para o humor, Kubrick fez de "Dr. Fantástico" uma obra única e que, de uma forma tortuosa, serviu de alerta para um período de grande tensão política - por uma coincidência macabra, sua exibição-teste estava marcada justamente para o dia da morte de Kennedy, um dos mais importantes eventos na história ocidental do século XX e que muito interferiu no desenrolar da Guerra Fria. Mais uma vez, por obra do acaso, o cinema de Kubrick nunca pareceu tão antenado com sua realidade.

sábado

SPARTACUS

SPARTACUS (Spartacus, 1960, Universal Pictures, 197min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Dalton Trumbo, romance de Howard Fast. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Robert Lawrence. Música: Alex North. Figurino: Valles. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Edward Lewis. Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, Tony Curtis, John Ireland. Estreia: 06/10/60

6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama 

Quando o diretor inglês Stanley Kubrick foi chamado para substituir Anthony Mann no comando do épico "Spartacus", em 1960, ele ainda não havia realizado aquele filme que lhe consagraria e marcaria para sempre seu estilo detalhista ao ponto da obsessão: a ficção científica existencial "2001: uma odisseia no espaço", que só estrearia em 1962. Isso explica porque a história do escravo que se rebela contra o Império Romano quase um século antes de Cristo tem bem menos a ver com sua obra posterior e bem mais com os questionamentos políticos de um roteiro assinado pelo ex-renegado de Hollywood Dalton Trumbo - acusado de colaborar com os comunistas perseguidos pelo governo americano, Trumbo finalmente pode ver nome estampado nos créditos de um filme sem submeter-se a artimanhas intelectuais como a que quase lhe impediu de ganhar o Oscar pela comédia "A princesa e o plebeu". Aproveitando-se da trama criada pelo escritor Howard Fast em seu livro homônimo - por sua vez inspirado em uma história real - Trumbo explorou-lhe ao máximo as nuances políticas, para desgosto do próprio Kubrick, que não concordava com tal viés, e de alguns nomes de Hollywood que não viam com bons olhos a volta do roteirista à atividade normal - caso do ator John Wayne e da colunista Hedda Hopper, que começaram uma campanha contra o filme mesmo antes de sua estreia, com a alegação de que ele era "propaganda marxista". Um problema a mais para seu astro, Kirk Douglas, que via sua tentativa de mostrar à indústria que poderia realizar um épico à altura de "Ben-hur" (59) - papel que ele havia disputado com fervor - mostrar-se bem mais complicada do que parecera em um primeiro olhar.

A deserção de Anthony Mann da cadeira de diretor não foi o único problema da pré-produção. Ainda antes de Mann entrar no projeto outros cineastas já haviam declinado do convite de Douglas. Enquanto Joseph L. Mankiewicz e David Lean simplesmente recusaram a proposta, Laurence Olivier preferiu não misturar duas funções - ele já estava escalado como o grande vilão da história, Marcus Crassus. Mann, no entanto, não permaneceu muito tempo ligado ao filme: apesar de já ter filmado algumas cenas iniciais, logo foi afastado por Douglas, que percebeu nele uma afabilidade excessiva que prejudicava sua forma de lidar com o elenco repleto de grandes atores (e seus respectivos egos). A contratação de Stanley Kubrick, no entanto, acabou por revelar-se não uma solução, mas um problema a mais a ser driblado: dono de uma personalidade forte, o inglês bateu de frente com o diretor de fotografia Russell Metty - que reclamava constantemente das interferências do cineasta em seu trabalho e chegou até a pedir para ter seu nome retirado dos créditos, antes de ser premiado com o Oscar - e com Dalton Trumbo, de quem discordava a respeito da personalidade do protagonista, que considerava puro e sem defeitos demais para ser real. Somados a isso, havia a falta de afinidade entre Laurence Olivier e Charles Laughton - conhecidos desafetos - e os ataques de estrelismo de Laughton, que ameaçava constantemente processar os produtores, já preocupados com o medo da Universal com o teor considerado "subversivo" da história sob o olhar de Trumbo.


De certa forma, os temores da Universal tinham certo fundamento: desafiando o poderoso senador Joseph McCarthy ao recusar-se a delatar colegas com ligações comunistas e impedido de trabalhar em Hollywood por mais de uma década, Dalton Trumbo aproveitou a chance de ouro oferecida por Kirk Douglas para não apenas fazer um retorno triunfal - que coincidiu também com seu trabalho em "Exodus", de Otto Preminger - mas também para fazê-lo com um filme cujo tema combinava perfeitamente com sua ideologia. Porém, enquanto Kirk Douglas via a luta de Spartacus como uma metáfora para a fuga dos judeus do Egito, Trumbo via a ação como um símbolo da Guerra Fria. Não chegou a ser uma questão problemática: de qualquer modo que se veja "Spartacus", o filme de Kubrick é um poderoso drama de ação, repleto de cenas de grande impacto visual e personagens construídos com esmero, que servem facilmente a qualquer leitura ideológica que contraponha opressores e oprimidos.

A história é simples e direta: Spartacus (interpretado com vigor por Kirk Douglas) é um escravo rebelde, que não se conforma com o tratamento que recebe de seus senhores, na Roma pré-era cristã. Quando é vendido e passa a treinar para ser um gladiador, ele se apaixona por outra cativa, Varínia (Jean Simmons, em papel oferecido à Ingrid Bergman e para o qual Kubrick queria Audrey Hepburn) e, depois de matar um dos treinadores, começa a liderar um exército de amotinados que desafia o poder romano - em especial o cruel Marcus Crassus (Laurence Olivier). Perseguido e cada vez mais idolatrado pelos companheiros, ele se torna uma lenda, enquanto não se cansa de bradar contra as injustiças e os desmandos do governo. Indicado a seis Oscar - e premiado em quatro categorias, inclusive ator coadjuvante para Peter Ustinov como o diretor da escola de gladiadores - "Spartacus" fez grande sucesso de bilheteria, mas acabou rejeitado por Stanley Kubrick, famoso posteriormente pelo controle total sobre seus filmes. Em 1991, ocasião em que foi restaurado digitalmente, teve cenas cortadas à época de seu lançamento finalmente incorporadas à metragem original (Laurence Olivier foi dublado por Anthony Hopkins, uma vez que a trilha sonora havia sido perdida), dando novas nuances à relação entre Crassus e seu escravo Antoninus (Tony Curtis), eliminada então por seu teor homoerótico, uma subtrama que enriquece ainda mais o belo trabalho conjunto de Douglas, Kubrick e Trumbo. Um épico legítimo e inquestionável!

quinta-feira

LOLITA

LOLITA (Lolita, 1962, MGM Pictures/Seven Arts Productions,152min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Vladimir Nabokov, romance homônimo de sua autoria. Fotografia: Oswald Morris. Montagem: Anthony Harvey. Música: Nelson Riddle. Direção de arte: Bill Andrews. Produção: James B. Harris. Elenco: James Mason, Peter Sellers, Shelley Winters, Sue Lyon. Estreia: 12/6/62

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Antes de consagrar-se como um dos mais importantes e influentes cineastas norte-americanos de todos os tempos com seus "2001: uma odisséia no espaço" (68) e "Laranja mecânica" (71), Stanley Kubrick brincou com fogo ao adaptar um dos mais polêmicos romances do século XX. Escrita por Vladimir Nabokov e publicado pela primeira vez em 1955, a saga de um homem de meia-idade obcecado por uma menina de 12 anos a ponto de casar-se com a mãe dela para manter-se por perto tornou-se maldita por tocar em um assunto ainda hoje motivo de controvérsia: a pedofilia. Por não julgar seu protagonista e, mais corajosamente ainda, torná-lo também o narrador da história, com direito inclusive a um senso de humor que muitos consideraram inapropriado, Nabokov logo viu seu livro tornar-se um proscrito em países como a Inglaterra e a França. Isso não impediu que Kubrick, vindo do sucesso de crítica de seu "Spartacus" (60), se munisse da ousadia necessária para transferir a trama das páginas de um livro polêmico para as telas de cinema. Chamando o próprio autor do romance para escrever o roteiro - mesmo que depois tenha o modificado bastante - o cineasta partiu atrás de seu elenco, sabendo que seria uma tarefa bastante árdua.

Conscientes do risco que o papel do obssessivo Humbert Humbert poderia representar para uma carreira, vários atores consagrados não tiveram a coragem de aceitar o convite de Kubrick. Foi o caso de Marlon Brando, Cary Grant, Laurence Olivier, Peter Ustinov e David Niven, que por um motivo ou outro, pularam fora do projeto. Até mesmo o outrora galã Errol Flynn chegou a ser cotado, mas morreu antes mesmo que o filme fosse realizado. Sorte de James Mason, primeira escolha do cineasta que, depois de ter sido impedido de aceitar o trabalho por compromissos com o teatro, ficou com um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Sua construção de Humbert é um meio-termo entre o patético e o quase cômico. Ao contrário do que poderia acontecer - tornar-se um protagonista asqueroso e rejeitado pelo público - ele cria um homem tão perdido em uma paixão avassaladora e sem esperanças que só resta ao espectador acompanhar sua trajetória à espera da próxima queda.


Interpretada pela novata Sue Lyon, que bateu 800 candidatas, a Lolita do filme de Kubrick é um pouco mais velha do que a personagem do romance, por razões óbvias (diminuir a sugestão de pedofilia). Esse detalhe, somado ao fato de Lyon aparentar ainda mais idade, atenua bastante o impacto do filme, especialmente nos dias de hoje, onde seu pretenso erotismo velado soa quase pueril. Lolita - diminuitivo de Dolores - é a filha única de Charlotte (Shelley Winters), uma viúva alegre e levemente vulgar que aluga um quarto para o estudioso de literatura Humbert Humbert (James Mason). Ciente do impacto de sua sexualidade latente e no limiar da adolescência na seriedade sóbria do novo hóspede, Lolita não hesita em provocá-lo, até que ele, em um impulso, acaba se casando com sua mãe apenas para ficar por perto. A relação entre eles, porém, ainda vai sofrer muitas reviravoltas, principalmente quando entra em cena outro velho conhecido da menina, o roteirista Clare Quilty (Peter Sellers, brilhante em um papel aumentado no roteiro).

Mesmo que esteja longe do brilhantismo das obras mais famosas de Stanley Kubrick, "Lolita" conquista o espectador graças principalmente a seu clima decadente e às sutilezas impostas pelo diretor no desenrolar de uma trama que tinha todas as possibilidades de escorregar no ridículo. Enquanto Peter Sellers dá um show em cada aparição, James Mason se esforça em arrancar da plateia um mínimo de simpatia para um personagem fadado à repulsa - a opção do roteiro em deixar de lado sua história pregressa, que envolve uma paixão do passado que de certa forma justifica sua obsessão por Lolita, chega a ser questionável nesse ponto. Mas a maneira inteligente com que Kubrick dribla o óbvio - toda a relação entre os protagonistas no segundo ato é mantida propositalmente dúbia - é sensacional, dando ao filme uma densidade que não seria possível se todas as cartas estivessem na mesa.

Refilmado de forma menos feliz por Adrian Lyne em 1997, "Lolita" colocou o fleumático Jeremy Irons no papel de Humbert Humbert e Melanie Griffith como Charlotte Haze, além de ter lançado a carreira da então promissora Dominique Swain. Mesmo com considerável maior liberdade com o tema, no entanto, Lyne não obteve o mesmo resultado de Kubrick, sendo praticamente ignorado por público e crítica.

terça-feira

O ILUMINADO


O ILUMINADO (The shining, 1980, Warner Bros, 143min) Direção e produção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson, romance de Stephen King. Fotografia: John Alcott. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Wendy Carlos, Rachel Elkind. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Les Tomkins. Casting: James Liggat. Produção executiva: Jan Harlan. Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Philip Stone. Estreia: 23/5/80

Stanley Kubrick era definitivamente um sujeito estranho! Interessado em adaptar para o cinema o romance "O iluminado", de Stephen King, ele aproximou-se do escritor de forma bastante bizarra; telefonou para ele certa manhã, cedíssimo, e, depois de identificar-se, começou a conversar sobre histórias de fantasmas e vida após a morte. Tempos depois, ainda envolvido com a feitura do filme, ele mantinha a rotina de ligar para King, vez ou outra, para fazer-lhe perguntas do tipo: "Você acredita em Deus?"

Apesar do contato direto que tinha com o autor de clássicos da literatura de terror como "Carrie,a estranha" e "Cujo", o cineasta inglês não hesitou em afastá-lo de sua versão da apavorante história do escritor Jack Torrance e seus fantasmas. Considerando que o roteiro era fiel demais ao livro - que o desgostava por ser extremamente preso ao gênero terror - ele contratou a mestra em estudos góticos Diane Johnson para reescrevê-lo. King não gostou nada da ideia e quase duas décadas depois foi o autor do roteiro de uma minissérie feita para a TV, onde pode expressar sua própria visão da obra. Entre suas principais reclamações estava a mudança radical na personalidade de Wendy Torrance, a esposa do protagonista; enquanto no livro ela era descrita como uma mulher bela e com a aparência de nunca ter passado dificuldades na vida (e aí se encaixaria Jessica Lange, proposta por Jack Nicholson), na versão cinematográfica o papel ficou com Shelley Duvall, que encarnou uma apavorada e frágil dona-de-casa tendo que lidar com a loucura do marido sem a menor preparação para isso. Os elogios de Nicholson a sua atuação, no entanto, não a impediram de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz do ano. Como se vê, a unanimidade passou longe desse trabalho do autor de "2001, uma odisséia no espaço".

"O iluminado" começa quando o aspirante a escritor Jack Torrance (Jack Nicholson em um dos papéis mais importantes de sua carreira) aceita o emprego de zelador de inverno do Overlook Hotel, hotel de luxo que fica totalmente vazio fora da temporada de férias. Com a intenção de concentrar-se em seu livro, ele se muda com a esposa, Wendy (Shelley Duvall) e o filho pequeno Danny (Danny Lloyd) para a imensa propriedade, isolada da civilização exceto por contatos através de rádio. Enquanto os dias passam, Wendy e o pequeno Danny sentem que Jack começa a afastar-se deles. A princípio julgando que tudo é apenas culpa de um bloqueio criativo, ela não percebe que até mesmo o menino anda passando por maus momentos: dotado de um dom que o faz ser chamado de "iluminado", ele tem visões aterradoras de duas meninas gêmeas que foram assassinadas pelo próprio pai a golpes de machado. Aos poucos, Torrance também começa a demonstrar um comportamento assustador, que o leva a querer matar a mulher e o filho.

Apesar das tentativas de Kubrick em evitar que sua obra ficasse rotulada como "filme de terror" é impossível negar que o resultado final não deixa dúvidas quanto ao seu gênero. Dono de cenas de arrepiar até mesmo os mais escolados fãs do estilo, "O iluminado" tem a seu favor o talento e o senso estético apurado de seu diretor. Em mãos menos criativas, a história de Jack Torrance cairia facilmente na vala comum dos sustos fáceis e matança generalizada (apesar de todo o clima angustiante que vai crescendo no decorrer do filme, apenas uma morte aparece frente aos olhos do espectador...) Comandada pelo perfeccionista Kubrick, no entanto, tudo muda de figura, a começar pela escalação do elenco.

Jack Nicholson, na pele do protagonista encontrou um dos papéis pelos quais ficaria marcado para sempre. Frequentemente exagerado em sua composição - o que é adequado à visão do cineasta -, o ator (na época já oscarizado por "Um estranho no ninho") ficou com o papel depois que o diretor descartou Jon Voight (escolhido por King, mas rejeitado por ser "normal" demais), Robert DeNiro (considerado "psicótico de menos" apesar de sua performance em "Taxi driver") e Robin Williams ("psicótico demais" por sua atuação na série de TV "Mork & Mindy"). Esgotado pela obsessão do diretor em atingir a perfeição - alguns takes foram repetidos nada menos que 148 vezes - o ator nem lia o roteiro do filme a não ser pouco antes das filmagens, já que mudanças eram feitas constantemente. Previsto para durar 17 semanas, o cronograma inicial logo foi deixado de lado: as filmagens duraram quase um ano, o que atrasou o início da produção de filmes como "Reds" e "Caçadores da arca perdida", que teriam cenas filmadas no mesmo estúdio. E isso sem falar em algumas dores de cabeça menores.

Danny Lloyd, que vive o iluminado do título, por exemplo, não tinha idade suficiente nem mesmo para assistir ao que estava fazendo (imaginando-se fazendo um drama, Lloyd só conferiu o filme pronto aos 17 anos de idade, mais de uma década depois). Harry Dean Stanton, que viveria o garçom que conversa com o protagonista, foi substituído porque não conseguiu terminar de fazer "Alien" a tempo. E a mania de perfeição de Kubrick chegou ao extremo de confeccionar, página por página, o "livro" escrito por Torrance em uma das cenas climáticas.

Recebido com duras críticas à época de seu lançamento, "O iluminado" hoje é uma referência quando se fala em filmes de terror (apesar das negativas de seu diretor em classificá-lo dessa maneira). É difícil manter-se totalmente apático ao clima imposto pela direção rígida, pela edição detalhada, pela música assombrosa e principalmente pelo que é muito mais sugerido do que mostrado. Stanley Kubrick pode até não ser o gênio que apregoam aos quatro ventos, mas seu domínio da técnica de contar uma história é de admirar consideravelmente.

LARANJA MECÂNICA


LARANJA MECÂNICA (A clockwork orange, 1971, Warner Bros, 136mi//n) Direção e produção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, baseado no romance de Anthony Burgess. Fotografia: John Alcott. Montagem: Bill Butler. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte: John Barry. Casting: Jimmy Liggat. Produção executiva: Si Litvinoff, Max L. Raab, Bernard Williams. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Philip Stone, Sheila Raynor. Estreia: 19/12/71

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Roteiro Adaptado, Montagem


Um homem que tem tirado de si a capacidade de escolher entre o bem e o mal ainda é um ser humano? O governo, sob pretexto de manter a ordem e a paz, tem o direito de tirar de seus cidadãos o instinto básico de auto-defesa e sobrevivência? A justiça com as próprias mãos é uma forma válida de catarse? O ser humano, afinal, é basicamente bom ou mau? Todas essas perguntas, pertinentes e fundamentais em qualquer discussão sobre os instintos humanos estão espalhadas por "Laranja mecânica", o mais polêmico e perturbador filme do cineasta inglês Stanley Kubrick. Adaptado com bastante fidelidade de um romance de Anthony Burgess (só o que ficou de fora foi o capítulo final do livro que foi cortado na edição americana), o filme de Kubrick não apenas escandalizou a plateia: também hipnotizou a crítica e foi o segundo filme classificado com o selo "X" - dado a filmes pornográficos - a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Filme (o outro foi "Perdidos na noite", que teve mais sorte e converteu a indicação em estatueta).

"Laranja mecânica" se passa em um futuro próximo mas não identificado. A distópica Inglaterra mostrada no filme passa por sérios problemas com o aumento da delinquência juvenil e um dos maiores exemplos disso é o adolescente Alex (Malcom McDowell, aos 27 anos vivendo uma personagem de 15, segundo o livro). Ao lado de seu grupo de amigos, ele passa os dias bebendo leite misturado com várias drogas e cometendo o que ele mesmo descreve, em sua narração irônica, como "atos de ultraviolência". Espancando velhos mendigos, invadindo residências e estuprando mulheres, eles são o retrato de uma juventude transviada e totalmente indiferente ao sofrimento alheio. Fã incondicional de Beethoven, Alex - que se trata com um psicólogo como forma de escapar de uma punição maior por seus atos - acaba sendo preso e condenado a 14 anos de prisão por assassinato. Com o objetivo de diminuir sua pena, no entanto, ele se oferece para ser a cobaia de um tratamento criado pelo governo para diminuir o índice de violência e a superlotação dos presídios. Com o final do tratamento, ele volta às ruas: sempre que sequer pensa em agir - ou reagir violentamente contra alguém, ele sofre de enjôos extremos. O problema é que, vivendo nas ruas depois de sair da casa dos pais, ele tem grandes probabilidades de reencontrar suas antigas vítimas.


"Laranja mecânica" é, definitivamente, um filme pelo qual se é impossível ser indiferente, como qualquer trabalho de Stanley Kubrick. O que incomoda em "Laranja" nem é tanto a sua violência, uma vez que o cinema ultrapassou esses limites há algum tempo sem as intenções questionadoras mostradas aqui. O que causa o desconforto na audiência é a sua crueza em retratar uma juventude hedonista e cruel sem que haja o menor resquício de julgamentos morais nesse retrato. O que faz a diferença nesse trabalho do diretor que ainda seria considerado pela crítica um dos maiores gênios do cinema - opinião um tanto questionável, mas ainda assim impressionante - é sua preocupação com todos os detalhes do filme, por menor que eles sejam. A cena final, por exemplo, foi filmada exaustivas 74 vezes antes que o cineasta se desse por satisfeito.

Essa obsessão pelo visual de seus filmes fica evidente em cada sequência de "Laranja mecânica". A direção de arte que usa e abusa da art-deco em voga no final dos anos 60/início dos 60 ampliando sua tendência ao kitsch é tão desconcertante quanto as inúmeras referências fálicas espalhadas pelo filme. A trilha sonora - que mistura Beethoven (chamado de Ludwig Van por Alex) e Gene Kelly - é propositalmente heterogênea, refletindo a insanidade de seu protagonista de forma mais eficiente do que horas de discurso fariam. E até mesmo a linguagem falada por Alex e seus companheiros de farra (uma linguagem criada por Burgess e que mistura inglês britânico, russo e gírias) retiram o filme da vala comum das produções pseudo-intelectuais que grassavam no cinema à época do seu lançamento.

Mas apesar de seu visual estarrecedor, sua parte técnica impecável e seu roteiro imaginativo e vívido, é por causa de suas ideias que "Laranja mecânica" ainda é impactante. Ao levantar as questões que levanta, ele demonstra uma preocupação com um estado de violência e manipulação que, se parecia exagerado em 1971, hoje é uma realidade óbvia e assustadora. Se o público que assistiu a "Laranja mecânica" em seu lançamento ficou apavorado com o que ele previa, quem o assiste hoje se surpreende é em ver como eles (Kubrick e Burgess) estavam certos - ou pior ainda, otimistas...

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...