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segunda-feira

ROCKETMAN

 


ROCKETMAN (Rocketman, 2019, Paramount Pictures/New Republic Pictures/Marv Films, 121min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: George Richmond. Montagem: Chris Dickens. Música: Matthew Margeson. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Judy Farr. Produção executiva: Michael Gracey, Elton John, Karine Martin, Tommaso Marzotto, Brian Oliver, Claudia Vaughn, Steve Hamilton Shaw, Danny Zamost. Produção: Adam Bohling, David Furnish, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Stephen Graham, Steven Mackintosh, Tom Bennett. Estreia: 16/5/2019 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Canção Original ("I'm gonna love me again")

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Taron Egerton), Canção Original ("I'm gonna love me again")

É inacreditável, mas um ano depois de ter homenageado o sofrível "Bohemian Rhapsody" com quatro (!!!) Oscar - incluindo para o desempenho medonho de Rami Malek -, a Academia de Hollywood simplesmente ignorou aquele que realmente merecia todos os elogios e estatuetas possíveis. Cinebiografia do cantor e compositor Elton John (também um dos produtores executivos do filme e autor de sua canção-tema), "Rocketman" é não apenas a tradução para as telas de sua vida caótica, mas principalmente uma celebração energética, empolgante e emocionante de uma das obras mais importantes da música popular do século XX. Sem medo de tocar em pontos polêmicos de Elton - sua sexualidade, o abuso de drogas e álcool, a relação conflituosa com os pais - e amparada em uma atuação nunca aquém de espetacular de Taron Egerton, a produção dirigida por Dexter Fletcher não cai nas armadilhas tão frequentes em filmes do gênero ao optar por uma visão mais lúdica e não naturalista, que permite a ruptura narrativa tradicional. Em tom ópera-rock (valorizada pelos figurinos excêntricos que recriam o visual do cantor desde a década de 1960), "Rocketman" é absurdamente bom. E, apesar dos Golden Globes (ator e canção original), extremamente subestimado. 

Escrito pelo mesmo Lee Hall do excelente "Billy Elliot" (2000), "Rocketman" já começa quebrando toda e qualquer expectativa de se ver uma cinebiografia tradicional: vestido em um de seus exuberantes e clássicos trajes - recriados com excelência por Julian Day -, o cantor Elton John entra em uma reunião onde anônimos trocam experiências a respeito de seu vício em drogas. Cansado de viver em negação e sofrendo com os problemas inerentes a adicção, o cantor começa a relembrar toda a sua vida, desde sua infância nos anos 1950 em uma pequena cidade do interior da Inglaterra. Ainda com o nome de Reginald Dwight (e interpretado pelo ótimo ator mirim Matthew Illesley), o futuro astro vivia no meio da relação inconstante entre um pai distante, Stanley (Steven Macintosh), e uma mãe pouco afeita a atos de carinho, a quase fria Sheila (Bryce Dallas Howard). Contando com o apoio da avó, Ivy (Gemma Jones), e sentindo-se deslocado, ele encontra um caminho na música e, com o passar do tempo, passa dos estudos na Royal Academy of Music para os palcos de pubs noturnos. Descoberto por um empresário mais dedicado ao dinheiro do que à arte em si, Dick James (Stephen Graham), Elton assume um nome artístico, conhece o jovem compositor Bernie Taupin (Jamie Bell) e inicia uma das carreiras mais longevas e populares da história. Misturando sua vida profissional com a pessoal, se envolve amorosamente com outro empresário, John Reid (Richard Madden) e mergulha nas drogas e no álcool.

 

Assumindo com coragem e quase orgulho todas as nuances que fazem de Elton John um dos mais longevos e influentes ícones pop da história, "Rocketman" abraça o exagero e o camp como forma de traduzir, em duas horas de duração, o consagrado estilo do cantor, famoso por suas roupas, seus óculos, seus sapatos e principalmente por suas atitudes no palco, que incendiava com apresentações nunca menos que antológicas. O roteiro, ágil e informativo na medida certa, se utiliza com perfeição das canções de Elton e Taupin, que ilustram cada momento com humor, emoção e uma energia que ultrapassa a tela. A direção de Dexter Fletcher - que assinou também o subestimado "Voando alto" (2015) - usa e abusa de cores e texturas, aproximando o espectador do universo alucinante e alucinado de seu protagonista, vivido com dedicação e gosto por Taron Egerton. Egerton, aliás, é provavelmente a melhor escolha da produção: carismático e talentoso, o jovem ator britânico tem um desempenho exemplar, funcionando à perfeição como ator, cantor e dançarino, oferecendo um show particular que justifica plenamente seu Golden Globe e deixa ainda mais injusta sua esnobada junto à Academia. Ficando com um papel para o qual estavam cotados James McAvoy, Daniel Radcliffe e Justin Timberlake - preferido de Elton John desde sua participação no videoclipe de "This train don't stop here anymore", de 2001 -, Egerton se transforma no cantor sem deixar-se levar pelo caminho fácil da imitação e/ou caricatura.

Sem querer esconder do público os pontos mais polêmicos da vida e da carreira de Elton John, "Rocketman" mescla os elementos tradicionais das cinebiografias com a irreverência típica do músico. Ao contar sua história através de canções e números musicais - bem coreografados e produzidos com extrema competência -, Dexter Fletcher demonstra uma segurança ímpar em um gênero difícil, em que qualquer excesso (ou carência) pode por tudo a perder. Repleto de canções icônicas em momentos emocionantes e sem pesar a mão mesmo quando se encaminha para uma fase menos colorida na trajetória pessoal do protagonista, o filme de Fletcher é um programa sem contraindicações, ideal para os fãs e para quem ainda não conhece a potência de um ídolo atemporal.

terça-feira

À BEIRA DO ABISMO

 


À BEIRA DO ABISMO (Man on a ledge, 2012, Summit Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 102min) Direção: Asger Leth. Roteiro: Pablo F. Fenjves. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Kevin Stitt. Música: Henry Jackman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Alec Hammond/Chryss Hionis. Produção executiva: Jane Myers, David Ready. Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian. Elenco: Sam Worthington, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Edward Burns, Ed Harris, Kyra Sedgwick, Anthony Mackie, William Sadler, Genesis Rodriguez, Titus Welliver. Estreia: 26/01/2012

Às vezes tudo que um fã de filmes policiais precisa é de uma trama despretensiosa, com um bom ponto de partida, um elenco de bons atores e, se possível, uma ou mais reviravoltas (que nem precisam fazer todo o sentido do mundo).  "À beira do abismo" oferece tudo isso, e, mesmo sem ter feito muito barulho nas bilheterias, cumpre exatamente o que promete. Mesmo que o roteiro não se esquive de clichês e a direção do dinamarquês Asger Leth nunca ultrapasse o status de correta, o resultado final não decepciona a quem procura uma sessão descompromissada e que prescinde de efeitos visuais milionários para envolver as plateias. Estrelado pelo então ascendente Sam Worthington - saído do sucesso de "Avatar" (2009) e a meses de liderar o elenco do remake de "Fúria de titãs" (2012) -, "À beira do abismo" é a prova de que o trivial frequentemente pode ser bastante eficaz.

A primeira cena do filme mostra um homem de cerca de 30 anos, chamado Walker, se hospedando no 21º andar de um hotel de Nova York. Depois de pedir uma farta - e cara - refeição, ele limpa todas as impressões digitais do quarto e simplesmente se dirige ao parapeito, com o claro objetivo de se jogar. Para que isso não aconteça (ou ao menos que seja adiado), ele pede a presença de Lydia Mercer (Elizabeth Banks), experiente em negociar com suicidas, que acaba de sair de uma situação traumática com vítimas. O que nem Lydia nem o encarregado do caso, Jack Dougherty (Edward Burns), sabem é que o tal homem se chama, na verdade, Nick Cassidy, e é um ex-policial que, condenado pelo roubo de um valiosíssimo diamante, fugiu do presídio depois do funeral do pai e tem o objetivo de provar sua inocência. Mais do que isso, durante o processo de negociação, acontece o roubo a uma joalheria de propriedade do milionário David Englander (Ed Harris), que também está em vias de apresentar à cidade um ambicioso projeto imobiliário. Será que os três fatos tem relação? Por que Cassidy escolheu justamente Mercer para tentar impedí-lo de jogar-se do prédio? E qual o plano do jovem Joey (Jamie Bell) para invadir silenciosamente a joalheria de Englander?

 

As respostas vão surgindo aos poucos, nem sempre de forma sutil, mas sempre de modo a empurrar adiante a história, como manda o manual dos roteiros de Hollywood. Boa parte dos segredos são desvelados antes mesmo da metade da sessão, que se dedica então a cenas de ação dirigidas com certa competência pelo dinamarquês Asger Leth, cujo currículo contava apenas com o documentário "Os fantasmas de Cité Soleil" (2006): nessa segunda fase, o filme abandona a narrativa fragmentada que havia adotado (com interessantes e empolgantes flashbacks) para abraçar com vontade o subgênero "filmes de golpe". Nem tudo funciona - o personagem de Ed Harris por vezes soa deslocado -, mas consegue manter o ritmo de forma admirável. Ecoando situações de "Um dia de cão" (1975) - as testemunhas populares como parte da ação, a cobertura midiática - e do clássico "Horas intermináveis" (1951), de Howard Hawks - a ideia central, tirada de uma reportagem sobre um caso de suicídio ocorrido em 1938 -, "À beira do abismo" ganha pontos ao não cair na armadilha de tentar ser engraçado (ainda que as interações entre Jamie Bell e Genesis Rodriguez sejam recheadas de falas de duplo sentido) e conquistar o público com um tom adulto que tampouco apela à violência tão comum no cinema policial.

A discrição da direção de Leth também é responsável por extrair de seu elenco desempenhos firmes - ainda que não exatamente memoráveis. Sam Worthington sai-se bem com um protagonista que não depende de efeitos digitais, mesclando força e fragilidade nas medidas adequadas, enquanto o jovem Jamie Bell destaca-se em um papel de anti-herói e Elizabeth Banks (em papel que quase ficou com Amy Adams) tem o carisma necessário para segurar dividir as principais cenas com Worthington sem parecer coadjuvante. É de lamentar apenas a forma como Ed Harris e Kyra Sedgwick (como a repórter Suzie Morales) são subaproveitados - especialmente Kyra, cuja personagem poderia ter rendido ótimos momentos. Tais pequenos problemas, no entanto, não chegam a atrapalhar a diversão. "À beira do abismo" é um entretenimento bastante decente, que deixa claro o potencial de seu ator central para além dos limites de Pandora.

quinta-feira

NINFOMANÍACA, VOLUME 2

NINFOMANÍACA: VOLUME 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2013, Zentropa Entertainment, 123min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Direção de arte: Alexander Scherer. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Marie Cecilie Gade, Peter Aalbaek Jensen, Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Jamie Bell, Willem Dafoe, Jean-Marc Barr, Udo Kier. Estreia: 25/12/13

Enquanto o primeiro capítulo do mais polêmico filme de Lars Von Trier tratava de apresentar Joe e sua infância e adolescência - origens de sua autodiagnosticada doença - "Ninfomaníaca, volume 2" se aprofunda ainda mais em sua busca inglória pelo Santo Graal do prazer a todo custo e nas consequências dramáticas de suas escolhas - nem sempre tomadas de forma totalmente racional. Sem mais dividir o papel de protagonista com Stacy Martin, a atriz Charlotte Gainsbourg mostra mais uma vez porque é uma das preferidas do cineasta, com uma performance intensa e corajosa. Finalizando com coerência e ainda mais controvérsia uma obra explosiva e que despertou discussões incansáveis ao redor do planeta, o segundo volume da história de Joe acrescenta ao já variado menu sexual da protagonista sadomasoquismo, lesbianismo, sexo grupal e, para seu desespero, até uma dose de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmos). O resultado é uma narrativa que equilibra com sensibilidade uma série de sequências bastante quentes - interpretadas por dublês de corpo - e alguns momentos de partir o coração.

Começando exatamente de onde acabou a primeira parte - quando, casada e apaixonada, Joe se descobre incapaz de ter prazer com o marido, Jerôme (Shia LaBeouf), também pai de seu filho - o filme mostra o desespero da protagonista diante de uma encruzilhada que a obriga a tomar decisões cruéis e revoltantes como forma de sustentar seu estilo particular de vida, regado a sexo compulsivo e por vezes (ao menos na visão tradicional) degradante. Se dando até mesmo ao luxo da auto-citação - com uma sequência que lembra um dos momentos mais fortes de seu "Anticristo" - Lars Von Trier conduz Joe e a plateia por um caminho sombrio e desprovido de glamour, onde o sexo surge não como uma forma de prazer absoluto, mas como uma espécie de inferno particular. Ao não conseguir fugir de sua "doença", Joe se afunda cada vez mais em situações de perigo - sexo a três com desconhecidos, encontros secretos com um jovem cujo fetiche é espancar mulheres e até mesmo um emprego como "cobradora informal" ao lado de criminosos violentos - como forma de expiar seus pecados (nem mesmo a ajuda de um grupo de apoio é capaz de livrá-la do que considera parte de seu ser). Mas, ao contrário do primeiro volume, dessa vez o cineasta deixa a trama perder o foco em algum lugar da estrada.


Mesmo sendo visualmente mais ousado do que o primeiro filme em termos de cenas de sexo e até mesmo em teorias polêmicas (em determinado ponto Joe defende os pedófilos que nunca ultrapassaram a linha do desejo e os classifica como heróis), "Ninfomaníaca, volume 2" perde parte de seu ritmo quando cria uma subtrama desnecessária e quase deslocada, que envolve Joe e um empresário (Willem Dafoe) que a contrata para cobrar dívidas de mau-pagadores. Ok, existe um motivo dramaticamente explicável para tal desvio quase surpreendente da narrativa (e que inclui mais uma história de amor frustrada da protagonista e que acaba por ser a responsável pela situação em que ela se encontra no começo do capítulo inicial), mas é inegável que, depois da avalanche de situações empolgantes/temerárias/controversas discutidas pelo filme, esse desvio de percurso compromete o ritmo do filme e quase o transforma em uma obra de narrativa convencional - impressão que seu final anti-climático (ainda que com uma certa dose de ironia) apenas ajuda a reforçar. A questão que fica, porém, é uma só: "Ninfomaníaca" (os dois volumes juntos) é, afinal um filme misógino ou feminista?

Nem uma coisa nem outra. Lars Von Trier é um cineasta conhecido por colocar suas personagens femininas em situações extremas de humilhação e sofrimento, mas daí a considerá-lo misógino por causa disso é exagero - afinal, ótimas atrizes, como Emily Watson Nicole Kidman, Kirsten Dunst e a própria Charlotte Gainsbourg não iriam sujeitar-se a um diretor com tendências exclusivamente sádicas e sem (boas) histórias para contar. Além do mais, basta examinar com mais cuidado seus filmes anteriores para perceber que, apesar das via-crucis pelas quais passam suas protagonistas, elas não deixam de ser mulheres fortes e determinadas. Joe, por exemplo, pode ser vista tanto como uma vítima das circunstâncias quanto uma senhora de seu destino, por fazer escolhas (muitas delas erradas, mas coerentes com sua personalidade) e pagar o preço por elas estoicamente. Uma mulher ser capaz de entregar-se a uma vida sexual rica e submeter-se aos caprichos masculinos por vontade própria pode soar como uma afronta às feministas, mas não deixa de ser também revolucionário e corajoso. Talvez isso tenha incomodado algumas mulheres e provocado a discussão a respeito das intenções de Von Trier, mas até mesmo essa dubiedade é fascinante e transforma o que poderia ser apenas mais um filme disposto a chamar a atenção pelo comércio do sexo puro e simples em uma obra passível de permanecer por bons anos na berlinda. Afinal de contas, não é isso que se espera de um bom cineasta?

Quanto às virtudes artísticas, é preciso mais uma vez louvar o desempenho de Charlotte Gainsbourg - não à toa integrante da Trilogia da Depressão do cineasta ("Anticristo", "Melancolia" e estes volumes de "Ninfomaníaca" - no papel central. Entregue de corpo e alma a um papel difícil e desafiador, a filha da cantora Jane Birkin e do músico Serge Gainsbourg se mostra uma das mais ousadas atrizes de sua geração e uma parceira à altura dos devaneios de Von Trier. Merecem destaque também as participações de Jamie Bell - o menino revelado em "Billy Elliot", aqui crescido e bem desenvolvido - e Stellan Skarsgard, em uma atuação contida que só vai explodir ao final, quando finalmente revela quem é seu personagem. Resumindo, "Ninfomaníaca, volume 2" é o desfecho impactante de um filme por si só capaz de despertar todos os tipos de sentimento no espectador que procura mais no cinema do que simples diversão. Altamente recomendável - nem que seja para falar mal com argumentos.

quarta-feira

JANE EYRE

JANE EYRE (Jane Eyre, 2011, Focus Features/BBC Films, 120min) Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Moira Buffini, romance de Charlotte Bronte. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Will Hughes-Jones/Tina Jones, Greer Whitewick. Produção executiva: Peter Hampden, Christine Langan. Produção: Alison Owen, Paul Trijbits. Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell, Sally Hawkings. Estreia: 09/3/11

Indicado ao Oscar de Figurino

Desde que assumiu o papel-título da versão milionária de Tim Burton para "Alice no país das maravilhas", a australiana Mia Wasikowska tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de sua geração, estrelando desde histórias de amor contemporâneas ("Inquietos", de Gus Van Sant) até produções de prestígio ("Albert Nobbs", ao lado de Glenn Close e "Um ato de liberdade", com Daniel Craig). O entusiasmo com que crítica e indústria a receberam, porém, não deixa de ser um tanto exagerado: apesar de seu rosto servir a diferentes épocas e gêneros, não é difícil perceber que seu alcance dramático não é dos maiores, o que fica patente sempre que lhe é exigido um pouco mais de intensidade. Tal característica - disfarçada pela tendência ao exagero de Burton e aos papéis secundários nos filmes de Rodrigo Garcia e Edward Zwick citados acima - fica óbvia quando Wasikowska é confrontada com um papel de densidade maior, como a protagonista de "Jane Eyre", oitava adaptação do clássico romance de Charlotte Bronte para as telas (contando cinema e televisão): sem conseguir evitar as mesmas caras e bocas de sempre, ela é o elo fraco do filme de Cary Joji Fukunaga, especialmente quando contracena com atores de recursos muito maiores.

Segunda escolha para o papel - em substituição à Ellen Page - Wasikowska não consegue transmitir toda a intensidade que a história (repleta de segredos, tragédias e romances impossíveis) pede, mas não chega a comprometer o resultado final, graças à direção sensível de Fukunaga, que evita que o roteiro se transforme em um dramalhão inconsequente ou excessivamente sombrio. Sem o senso de humor das obras de Jane Austen - com quem dialoga em temática e ambientação - o romance de Bronte (irmã de Emily, autora de "O morro dos ventos uivantes") é um convite quase irresistível à uma adaptação pomposa e pesada, mas felizmente escapa de tal destino ao optar por uma narrativa clássica, sim, mas jamais enfadonha ou desprovida de intensidade. O roteiro, bastante fiel a seu material de origem, sabe brincar com o interesse da plateia ao revelar aos poucos seus trunfos - desde os dramáticos até os artísticos, que atendem pelos nomes de Judi Dench e Michael Fassbender.


A trama, para quem não conhece é simples e quase pueril em um primeiro olhar: tudo começa quando o jovem pastor St. John Rivers (Jamie Bell, o garotinho de "Billy Elliot") encontra, debaixo de chuva e em condições precárias de saúde, uma moça desconhecida que, depois de socorrida, se apresenta como Jane Eyre. Agradecida ao rapaz e suas duas prestativas irmãs, Eyre conta a eles sua sofrida história de privações e solidão, iniciadas no orfanato para onde foi mandada por sua tia, Mrs. Reed (Sally Hawkings). Empregada como professora dos filhos dos camponeses da comunidade do pastor, a jovem esconde dele, porém, os motivos que a levaram até a situação em que se encontra: o amor impossível que nutre por Mr. Rochester (Michael Fassbender), dono da mansão onde ela trabalhava como preceptora de uma menina francesa adotada por ele. Sua história, que envolve segredos e desilusão, acaba vindo à tona, porém, quando ela é pedida em casamento por seu honrado novo patrão.

A bela fotografia de Adriano Goldman, que deixa de lado as paisagens lúdicas e ensolaradas para retratar uma Inglaterra bucólica sombria e intimidante é fator primordial da qualidade de "Jane Eyre", que reflete em seu visual os tormentos pelos quais passam seus personagens. Michael Fassbender mais uma vez entrega uma performance acima da média, transmitindo em apenas um olhar todo o turbilhão emocional de seu complexo Mr. Rochester e, se em alguns momentos a trama soa como uma novela mexicana - em especial as revelações que impedem a consumação do romance entre o casal central - a sofisticação do diretor impede que o resultado final se torne apenas um dramalhão clássico a mais. Indicado ao Oscar de figurino - perdeu para "O artista" - o filme de Cary Joji Fukunaga é uma adaptação digna e admirável, que não é prejudicada nem mesmo pela apatia de sua atriz central.

sexta-feira

UM ATO DE LIBERDADE

UM ATO DE LIBERDADE (Defiance, 2008, Paramount Vantage, 137min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Clayton Frohman, Edward Zwick, livro "Defiance: the Bielski Partisans", de Nechama Tec. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Veronique Melery. Produção executiva: Marshall Herskovitz. Produção: Pieter Jan Brugge, Edward Zwick. Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Mark Feuerstein, Mia Wasikowska, Alexa Davalos, Allan Corduner. Estreia: 31/12/08

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Levando-se em conta de que trata-se de uma história real que retrata um período muitas vezes destacado pela Academia de Hollywood com um punhado de estatuetas - a saber, a luta dos judeus pela sobrevivência durante os trágicos anos da dominação nazista na II Guerra Mundial - foi uma surpresa que "Um ato de liberdade", dirigido pelo experiente Edward Zwick, tenha passado quase em branco no Oscar 2009, tendo sido lembrado apenas pela trilha sonora de James Newton Howard. Realizado com a competência habitual do cineasta e estrelado por um Daniel Craig no auge da popularidade graças a seu trabalho como James Bond em "Cassino Royale" e "Quantum of Solace", o filme também não agradou nas bilheterias, tornando-se mais uma obra a amargar o injusto título de fracasso apesar de suas inúmeras qualidades. Porém, quem passar por cima desses dois pontos negativos em seu currículo, encontrará todos os elementos que constroem um belo filme: sensibilidade, ritmo, ótimos atores e uma história das mais poderosas.

Inspirado em fatos reais, "Um ato de liberdade" começa em 1941, quando os alemães invadem um vilarejo da Bielorússia e dizimam parte da população, como parte da ocupação nazista. Sobreviventes do ataque, quatro irmãos resolvem manter-se escondidos na floresta, mesmo sabendo que comida e armas são artigos de luxo. Aos poucos, o irmão mais velho, Tulvia (Daniel Craig) passa a liderar um grupo cada vez maior de foragidos que, como eles, também procuram proteção na densidade da mata. Ponderado e cerebral, ele bate de frente com seu irmão Zus (Liev Schrieber), passional e de sangue quente, que propõe que eles se unam em armas contra o exército germânico. Nesse meio tempo, a comunidade de refugiados começa a formar suas próprias regras, inclusive com casamentos e novas lideranças - o que aproxima outro dos irmãos, Asael (Jamie Bell), da tímida Chaya (Mia Wasikowska).

Dotado de um ritmo que equilibra com talento cenas de grande suspense e violência com outras de registro mais sutil e delicado, "Um ato de liberdade" pode causar estranheza ao grande público justamente por essa aparente indecisão de enfoque. No entanto, o roteiro co-escrito pelo diretor tenta aprofundar com o máximo de clareza possível as personalidades dissonantes dos irmãos protagonistas, cujas diferenças acabam se tornando o maior dos conflitos da trama: é essa disputa nem sempre sutil pela liderança do grupo cada vez maior de sobreviventes do holocausto que empurra a narrativa e mantém o suspense, além de gerar a grande questão do filme: até que ponto o ser humano pode tolerar a violência sem que também apele para o sangue? Essa dúvida, lançada já no primeiro encontro entre Tulvia e Zus, é o cerne do filme de Zwick e, apesar de não ser respondida satisfatoriamente - afinal, não há uma resposta definitiva para isso - dá margem a interpretações acima da média de seu excelente elenco.

Longe da pressão de segurar uma superprodução de Hollywood, Daniel Craig está sensacional como Tulvia Bielski, um homem dividido entre o desejo de vingança e a responsabilidade de liderar um grupo cada vez maior de pessoas - de todos os sexos, idades e classes sociais. Zwick foi inteligente em entregar a ele - ligado a filmes de ação - o personagem mais reflexivo da trama, e deixar que Liev Schrieber, um ator de amplos recursos mas ainda não devidamente louvado por isso, ficasse com o impulsivo e vingativo Zus dono de algumas das cenas mais empolgantes do filme. No meio deles, o ótimo Jamie Bell - que estreou com o pé direito no papel título de "Billy Elliot", de Stephen Daldry - e a ainda iniciante Mia Wasikowska se destacam como par romântico e alívio à tanto sofrimento e dor fotografados com extrema competência por Eduardo Serra, que mantém do início ao fim o tom escuro, úmido e quase sem esperanças dos personagens no visual realista e cru, valorizado também pelo figurino e pela direção de arte discreta e eficiente, que desaparece diante da força da história.

"Um ato de liberdade" é, no fim das contas, um belo filme que equilibra com maestria ação, drama e história, oferecendo ao público duas horas de uma narrativa séria e clássica. Pode não marcar ou surpreender, mas é, acima de tudo, uma produção caprichada e com algo a dizer.

segunda-feira

A CONQUISTA DA HONRA

A CONQUISTA DA HONRA (Flags of our fathers, 2006, Warner Bros/DreamWorks Pictures, 135min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: William Broyles Jr., Paul Haggis, livro de James Bradley, Ron Powers. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox. Música: Clint Eastwood. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Richard Goddard. Produção: Clint Eastwood, Robert Lorenz, Steven Spielberg. Elenco: Ryan Philippe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, Paul Walker, Barry Pepper, John Slattery, Jamie Bell, Robert Patrick, Melanie Linskey, Neal McDonough, Judith Ivey. Estreia: 20/10/06

2 indicações ao Oscar: Montagem de Som, Mixagem de Som

Publicado em maio de 2000, o livro "Flags of our fathers", de James Bradley e Ron Powers imediatamente chamou a atenção de um dos monstros sagrados do cinema americano, o eterno cowboy Clint Eastwood, sempre em busca de matéria-prima para seus filmes - de preferência quando existe a possibilidade de transformar as tramas em estatuetas douradas. Para sua decepção, porém, Eastwood descobriu que os direitos de filmagem do livro já não estavam mais disponíveis e estavam já em desenvolvimento sob o comando de outro mago do cinema, Steven Spielberg - que já tinha inclusive contratado roteirista para a adaptação. Mas como nem sempre as coisas caminham rapidamente em Hollywood, Eastwood viu a chance de assumir as rédeas do projeto quando, ao encontrar Spielberg em uma festa pós-Oscar 2004, soube que o autor de "A lista de Schindler" estava insatisfeito com os rumos da produção e em vias de abandonar seus planos de dirigí-la. Surgia, então, uma parceria inédita entre dois dos mais bem-sucedidos cineastas do cinemão americano: com Spielberg na produção e Eastwood na direção, "A conquista da honra" tornou-se metade de um ambicioso projeto do eterno Dirty Harry, que resolveu lançar praticamente ao mesmo tempo, um filme sobre a II Guerra Mundial sob o ponto de vista dos soldados japoneses, chamado "Cartas de Iwo Jima".

Com o enorme sucesso de crítica de "Iwo Jima", que chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme do ano - mas perdeu para "Os infiltrados", de Martin Scorsese - a história dos três jovens soldados que tem suas vidas transformadas quando se tornam ícones da campanha americana no campo de batalha acabou sendo deixada de lado e quase passou em brancas nuvens junto aos eleitores da Academia - aliás, a não ser que meras duas indicações na área de som podem ser consideradas relevantes, na verdade ela FOI sumariamente ignorada. Uma injustiça, já que, além de ser tecnicamente impecável, apresenta a ressonância dramática e sentimental sutil que é a marca registrada de Eastwood em seus melhores momentos - caso de "As pontes de Madison" e "Menina de ouro". Narrado de forma minimalista e delicada, "A conquista da honra" é um dos grandes filmes do cineasta, equilibrando sequências de guerra dirigidas com extrema competência com cenas que exploram de maneira discreta os traumas de um conflito bélico violento e arrasador.


A base do filme é a famosa fotografia tirada em 23 de fevereiro de 1945 por Joe Rosenthal na ilha de Iwo Jima e que mostra seis soldados americanos içando um bandeira dos EUA - uma imagem que, por sua força dramática, acaba sendo usada pelo governo como forma de levantar a moral do povo (combalida por vários anos de guerra) e realçar o heroísmo dos combatentes (muitos deles há muito tempo longe de seus lares). Como sempre acontece em situações como essa, porém, nem sempre a verdade chega inteira até o público: isso fica claro quando três dos jovens fotografados (os três que sobreviveram a várias batalhas posteriores à imagem) são retirados do front para participarem de uma excursão pelo país, com o objetivo de incrementar as vendas dos bônus de guerra. Sendo assim, o enfermeiro John 'Doc' Bradley (Ryan Philippe), o austero Rene Gagnon (Jesse Bradford) e o indígena Ira Hayes (Adam Beach) tornam-se ídolos de todo o país, mesmo escondendo dentro de si segredos e pesadelos que somente aqueles que testemunharam os confrontos são capazes de manter. Além disso, Hayes sente-se discriminado por sua origem indígena e Bradley sente-se profundamente incomodado com tamanha popularidade - fato que, conforme Gagnon irá descobrir bem cedo, não lhes trará a segurança que eles precisam.

Fugindo da tradicional estrutura dos filmes sobre a II Guerra e inserindo flashbacks na narrativa de forma a informar o público sobre os acontecimentos que levaram os protagonistas ao posto de heróis da nação - e frequentemente deixando bem claro que nem sempre a ética e a verdade andam juntas com os interesses da propaganda de guerra - "A conquista da honra" faz parte do conjunto de filmes revisionistas sobre o conflito, substituindo o tradicional orgulho da vitória pelo desconforto a respeito de suas consequências. Para isso, conta com um trabalho inspirado do grande elenco, onde destaca-se o ótimo Adam Beach, que constroi um Ira Hayes complexo e turbulento em seus confrontos pessoais (muitos dos quais advindos do fato de sua origem e do preconceito que ela acarreta em sua vida mesmo depois de sua "consagração" como herói). Até mesmo Ryan Philippe, normalmente um ator apático e sem carisma, consegue uma interpretação satisfatória, o que comprova o talento de Eastwood na direção de atores.

Sem o ranço patriótico que normalmente acompanha os filmes americanos sobre a II Guerra, "A conquista da honra", apesar do título, é um filme melancólico, triste e bem longe de ser uma apologia disfarçada à violência nacionalista. É um dos grandes filmes da carreira de Eastwood, um cineasta de extrema competência - mesmo que muitas vezes não consiga esconder um lado reacionário e conservador em excesso que o faz cometer barbaridades como "Sniper americano".

terça-feira

BILLY ELLIOT

BILLY ELLIOT (Billy Elliot, 2000, BBC Films/Studio Canal, 110min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: John Wilson. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Stewart Meacham. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana Lund. Produção executiva: Charles Brand, Tessa Ross, David M. Thompson, Natascha Wharton. Produção: Greg Brenman, Jon Finn. Elenco:Jamie Bell, Julie Walters, Gary Lewis, Jamie Draven. Estreia EUA: 12/10/00

3 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Daldry), Atriz Coadjuvante (Julie Walters), Roteiro Original

A primeira cena já conquista o público. Ao som de "Cosmic Dancer", da banda T-Rex, um menino de onze anos de idade pula em sua cama, transmitindo uma alegria de viver que é uma lembrança viva da infância do próprio roteirista Lee Hall. O menino, vivido com graça e competência pelo estreante Jamie Bell, é o protagonista de "Billy Elliot", um dos maiores sucessos do cinema inglês do início do século XXI e o belo filme de estreia de Stephen Daldry, merecidamente indicado ao Oscar já em seu primeiro trabalho. Um perfeito exemplo de como um filme pode ser encantador e comovente sem gastar fábulas ou apelar para lágrimas fáceis, "Billy Elliot" seduz a audiência pela sensibilidade e pela honestidade.

Billy é o filho caçula de Jackie Elliot (Gary Lewis), um viúvo que trabalha arduamente para sustentar a sogra doente e os dois filhos. É o ano de 1984, e a família vive em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, inflamada por uma polêmica greve dos trabalhadores das minas de carvão. Um dos líderes trabalhistasé justamente o irmão de Billy, Tony (Jamie Draven), que não aceita diálogo e luta por melhores condições de trabalho no governo de Margaret Tatcher. Billy, aos onze anos de idade cuja única diversão é frequentar suas aulas de boxe, as quais encara sem muito entusiasmo. Sua vida dá uma virada inesperada quando ele conhece a Sra. Wilkinson (Julie Walters), que dá aulas de balé no mesmo ginásio onde ele treina - e tem suas aulas pagas com muito suor por seu pai. Encantado com o mundo da dança, Billy desperta a atenção da veterana professora, que o incentiva então a ir embora para Londres, tentar a sorte como bailarino profissional. Para isso, porém, o menino terá que enfrentar o preconceito da cidade e as dificuldades financeiras da própria família, sofrendo com a crise econômica do país.



Conquistando o papel principal ao deixar para trás mais de dois mil candidatos, Jamie Bell provou ser a melhor escolha do diretor Stephen Daldry. Seu físico mirrado, seu olhar que alterna timidez com fúria e seu passado como dançarino (quando era frequentemente vítima de deboche dos colegas) fazem dele o ator ideal para viver Billy Elliot, um dos protagonistas mais encantadores de sua temporada. Mesmo que muitas vezes soe agressivo - em especial em sua relação quase materna com sua professora - o jovem Elliot jamais afasta o público de si, envolvendo-o com sua paixão nascente pela dança. É especialmente tocante a cena em que ele tenta convencer seu pai a respeito de seu talento simplesmente dançando, sem dizer uma única palavra, assim como é necessário aplaudir de pé o resto do elenco escolhido por Daldry.

A escolada Julie Walters arrebatou uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por sua performance como a Sra. Wilkinson, uma mulher que vê no pré-adolescente arredio uma chance de compensar sua frustração profissional - ao contrário do clichê, no entanto, ela não é nem recalcada nem invejosa e sim uma espécie de mãe que é tão necessária na vida de seu aluno. Mas é Gary Lewis, na pele do pai do protagonista quem quase rouba todas as cenas em que aparece, em uma atuação nunca aquém de soberba. Discreto e econômico, Lewis merecia também ser lembrado pelo Oscar por jamais deixar de transmitir toda a extensão de sentimentos de sua personagem sem que, para isso, precise discursar ao público. A cena final, por exemplo, é um primor de sutileza e emoção: ele nem precisa falar para despertar a empatia, a solidariedade e a emoção de sua audiência. Se é nos pés de Billy que Daldry concentra o corpo de seu filme, é no olhar orgulhoso e marejado de Jackie Elliot que o filme encontra sua alma.

Um dos filmes mais humanos a surgir nas telas em 2000, "Billy Elliot" é, acima de tudo, uma ode à paixão pela arte, à família e à fé nos próprios desejos. É uma pequena obra-prima embalada por uma bela trilha sonora e um roteiro delicioso como uma obra de Tchaikovsky.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

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