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terça-feira

SEM DESTINO

 


SEM DESTINO (Easy rider, 1969, Columbia Pictures, 95min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper, Terry Southern. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Donn Cambern. Direção de arte: Jerry Kay. Produção executiva: Bert Schneider. Produção: Peter Fonda. Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Karen Black, Toni Basil. Estreia: 12/5/69 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Original

Se metade das histórias sobre sua produção são verdadeiras, é um milagre que "Sem destino" tenha chegado às telas, e, mais ainda, que tenha se tornado um dos filmes mais icônicos da história do cinema norte-americano. Considerado um marco inicial do que se convencionou chamar de Nova Hollywood - uma série de produções que iam de encontro à formalidade narrativa e estética da era dos estúdios -, o filme estrelado por Peter Fonda e Dennis Hooper custou uma ninharia (pouco mais de 350 mil dólares) e quase imediatamente adquiriu o status de cult, conquistando um público sedento por ver, nas salas escuras, um reflexo mais realista e menos dourado da sociedade do final dos anos 1960, onde drogas, violência e sexo livre conviviam - nem sempre pacificamente - com a hipocrisia do american way of life. Lançado no Festival de Cannes de 1969, depois de um longo processo de edição que condensou mais de três horas e meia  em palatáveis noventa e cinco minutos, "Sem destino" é um retrato cru e surpreendentemente pessimista de um dos períodos de maior ebulição social dos EUA.

Tendo como protagonistas dois anti-heróis que destoavam dos mocinhos românticos e éticos que povoavam (e limitavam) o cinema de então, "Sem destino" é um road movie no sentido mais literal do termo, ao conduzir o espectador por uma viagem que, mais do que simplesmente ter um objetivo concreto, serve como uma metáfora da liberdade, tão ansiada especialmente pelos jovens, revoltados pela escalada da violência na Guerra do Vietnã e ativos nas lutas pelos direitos civis. Utilizando moradores locais como atores e subvertendo as regras da indústria - a maioria das cenas externas foram filmadas com luz natural e os diálogos eram improvisados conforme orientações básicas -, o filme (que Roger Corman declinou de produzir, para seu arrependimento posterior) é surpreendentemente coeso e consistente, ao menos dentro de seus objetivos artísticos e ideológicos. Dirigido por um Dennis Hopper no auge de seu problema com drogas - o que causava constantes conflitos com a equipe e com o próprio colega de cena e produtor Peter Fonda -, "Sem destino" também inovou na construção de sua trilha sonora: ao contrário de usar música original, os comentários à ação surgiam de canções já consagradas de gente como Steppenwolf, The Byrds e The Band, cujo som remetiam imediatamente à atmosfera de liberdade proposta pelo roteiro, que aliás, também fugia do tradicional.

 

Há versões diferentes quando se trata de falar sobre o processo de escrita de "Sem destino": uma delas afirma que Fonda e Hopper escreveram um rascunho de aproximadamente doze páginas e improvisaram os diálogos durante as filmagens; em outra versão, o roteirista Terry Southern juntou-se aos dois protagonistas em um porão e, sob o efeito de maconha, ditaram o texto para um gravador; e por fim, Southern declarou que escreveu tudo sozinho e acrescentou o nome dos atores a pedido deles, encantados com o resultado final. O fato é que, apesar de uma inesperada indicação ao Oscar da categoria, o roteiro é mero pretexto para uma declaração de amor à liberdade. Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) são dois amigos hippies que, depois de vender uma partida de cocaína, resolvem empreender uma viagem de moto pelas estradas dos EUA, com o objetivo de chegar a Nova Orleans a tempo do Mardi Gras. Pelo caminho, eles encontram um país dividido entre pessoas ainda herméticas a estilos de vida alternativos e grupos buscando novas maneiras de encarara e realidade. É nesse segundo grupo que se encontra o jovem advogado George Hanson (Jack Nicholson, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), a quem conhecem em uma noite na cadeia.

Um indiscutível clássico da contracultura - e fundamental na história do cinema do século XX -, "Sem destino" se beneficiou, além de sua precisão cronológica, de uma dupla de atores centrais que são a cara de sua época. Foi um acerto de Peter Fonda em convencer Dennis Hopper a voltar a atuar, prometendo-lhe a cadeira de diretor se ele desistisse da ideia de abandonar o cinema para tornar-se professor: mesmo conduzindo os trabalhos de forma errática, o rebelde veterano (com 36 anos de idade durante as filmagens) desafiou chefes de estúdio, membros da equipe e até mesmo seu amigo/colega/produtor para imprimir sua personalidade ao produto acabado. Mesmo que talvez boa parte tenha sido sorte de principiante, é inegável que, com outro diretor, a história não teria sido a mesma.

quarta-feira

TRATAMENTO DE CHOQUE

 


TRATAMENTO DE CHOQUE (Anger management, 2003, Revolution Studios, 106min) Direção: Peter Segal. Roteiro: David Dorfman. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jeff Gourson. Música: Teddy Castellucci. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Alan Au/Brad Davis, Chris Spellman. Produção executiva: Allen Covert, Todd Garner, Tim Herlihy, John Jacobs, Adam Sandler. Produção: Barry Bernardi, Jack Giarraputo. Elenco: Jack Nicholson, Adam Sandler, Marisa Tomei, John Turturro, Woody Harrelson, John C. Reilly, Luis Guzman, Alen Covert, January Jones. Estreia: 11/4/2003

Um tem doze indicações ao Oscar e três estatuetas para chamar de suas. O outro é frequentemente criticado por seus méritos artísticos ainda que de vez em quando surpreenda ao trabalhar com cineastas de prestígio. Um deles é um ícone absoluto do cinema hollywoodiano desde o final dos anos 1960. O outro entrou no imaginário popular somente a partir da década de 1990. Um deles passeou por todos os gêneros possíveis - começando com os filmes de horror de Roger Corman - e fez personagens tão díspares quanto um lobisomem quanto um escritor com TOC. O outro especializou-se em tipos comuns e dividiu-se entre comédias (românticas ou debochadas). Ambos tiveram filmes com bilheterias expressivas e tem uma legião de fãs - nem sempre os mesmos, mas em número considerável. Por mais diferentes que possam ser e por mais incompatíveis que pareçam, Jack Nicholson e Adam Sandler acabaram por revelar uma insuspeita química em "Tratamento de choque", uma comédia inofensiva que explora o melhor de cada um de seus protagonistas e conquista justamente pelo inusitado encontro de gerações.

Sem medo de apostar em algumas piadas fora do politicamente correto - mas sem os exageros dos irmãos Farrelly - e brincando com a febre dos coachs que assolava os EUA (e posteriormente se espalhou pelo mundo), o roteiro de "Tratamento de choque" mescla, com sucesso na maior parte do tempo, um filme sobre parceiros de personalidades opostas (subgênero popularíssimo e querido pelo público em geral) e uma comédia romântica com todos os ingredientes já conhecidos. Depois de uma breve introdução em que oferece à plateia um flashback explicativo sobre o trauma do protagonista em demonstrar carinho em lugares públicos, o filme começa com o jovem Dave Buznik (Adam Sandler) embarcando em uma viagem de negócios. O que deveria ser um voo tranquilo, no entanto, torna-se o começo de um pesadelo quando um pequeno mal-entendido o leva a ser expulso do voo e condenado a uma série de sessões de terapia para tratar de sua suposta agressividade. O médico escolhido pela juíza é o renomado Buddy Rydell (Jack Nicholson) - justamente o homem cujo comportamento deu início ao transtorno na viagem - e o atônito Dave se vê obrigado a um tratamento intensivo que inclui 24 horas por dia a seu lado. Dono de um estilo heterodoxo de cuidar de seus pacientes, Rydell se intromete em todos os setores da vida do rapaz - o que parece mais atrapalhar do que ajudar em suas questões profissionais e amorosas. Nem mesmo sua namorada, Linda (Marisa Tomei), parece estar imune aos arroubos pouco normais do médico, famoso por realizar milagres mesmo com seus métodos excêntricos.

 

Buddy Rydell parece um personagem sob medida para Jack Nicholson, que oferece ao público tudo aquilo que faz dele um dos mais queridos atores de sua geração - olhares insanos, a risada debochada, a sensação de perigo constante e um charme à toda prova. Porém, Nicholson não foi a primeira opção para o papel, que aceitou a conselhos de Kathy Bates, colega de Adam Sandler em "O rei da água" (1998): o primeiro ator pensado para interpretar o tresloucado terapeuta foi o de Eddie Murphy, e até que o veterano ator de "Um estranho no ninho" (1975) entrasse em cena, nomes como os de Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Bill Murray e Steve Martin chegaram a ser considerados pelos produtores, cientes de que era imprescindível um astro de peso para dividir a cena com Sandler. Sem apresentar grandes novidades a seu repertório como intérprete - coisa que provavelmente nem era algo esperado por seu fiel séquito de fãs -, Sandler surpreende apenas em apostar em uma bem-vinda sutileza que se contrapõe à atuação a um passo do exagero (proposital) de seu veterano parceiro de cena. Os dois combinam tão bem que o filme se dá ao luxo de contar com participações especiais de gente como John C. Reilly e Woody Harrelson sem sair do foco central, que é sua conflituosa (e quase perversa) relação. O único senão é explorar tão pouco o talento da ótima Marisa Tomei, que pouco tem a fazer como o interesse romântico do protagonista.

"Tratamento de choque" é uma daquelas comédias que cumpre exatamente o que promete - e até chega a surpreender com uma reviravolta final que justifica alguns excessos cometidos no meio do caminho. O encontro entre Nicholson e Sandler é certeiro, boa parte das piadas funciona e a direção de Peter Segal não tenta sobressair-se ao real destaque da produção, que é o encontro de seus atores centrais. Pode não ser o melhor filme de suas carreiras e nem um trabalho para entrar na história do cinema, mas é divertido o bastante para arrancar gargalhadas sinceras e mostrar que Jack Nicholson é um dos raros atores capazes de transformar qualquer roteiro, por mais banal que seja, em uma experiência satisfatória. Coisa de quem sabe!

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

quinta-feira

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT


AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (About Schmidt, 2002, New Line Cinema, 125min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Louis Begley. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Teresa Visinare. Produção executiva: Bill Badalato, Rachel Horovitz. Produção: Michael Besman, Harry Gittes. Elenco: Jack Nicholson, Hope Davis, Dermot Mulroney, Kathy Bates, June Squibb. Estreia: 22/5/2002 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Kathy Bates)

Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro 

Quando Jack Nicholson subiu ao palco na cerimônia de entrega dos Golden Globes 2003 para receber sua estatueta não conseguiu esconder certa surpresa: segundo ele, foi inesperado ser eleito o melhor ator dramático do ano por um filme que ele considerava uma comédia. Parte da responsabilidade de tal confusão, na verdade, é do diretor Alexander Payne: assim como acontece em toda a sua filmografia, o cineasta não hesita, em "As confissões de Schmidt", em borrar as fronteiras que separam o riso das lágrimas, criando um adorável híbrido que aproxima, como raramente acontece, o espectador de seus personagens - quase todos críveis e humanos apesar de suas idiossincrasias. É um bálsamo para seus elencos - não à toa seus intérpretes chegam à corrida do Oscar - e um oásis para seu público, exposto a tramas e situações que, corriqueiras ou não, soam refrescantes diante de uma dieta abarrotada de blockbusters com personagens rasos e enredos indigentes. Frequentemente encontrando material na literatura, Payne é, também, um roteirista excepcional, capaz de extrair o melhor de suas fontes originais - ou, em alguns casos, alterá-las para que melhor caibam em seu universo. Baseado no primeiro livro de uma trilogia de Louis Begley, "As confissões de Schmidt" tem mudanças substanciais em sua história - feitas com o objetivo de encaixá-las em um argumento original do diretor e aliviar um pouco a personalidade talvez polêmica em excesso do personagem principal -, mas mantém o tom irônico do autor do romance e permite a Nicholson que exercite uma persona quase rara em sua carreira: um homem comum.

Primeira e única opção de Payne para o papel de Warren Schmidt, um homem confrontado com a solidão e a relação difícil com a filha única, Nicholson apresenta à plateia um lado frágil que lhe permite exercitar a comédia e o drama com iguais medidas. Enquanto o roteiro não se furta a apelar para momentos de humor - a briga com um colchão d'água e um encontro inesperado em uma jacuzzi, por exemplo, são sensacionais - tampouco foge de revelar os sentimentos mais sinceros do personagem em cenas cruciais. À vontade como há muito não conseguia estar, Nicholson encontra em Kathy Bates a parceira ideal para um embate dos mais fascinantes - não por acaso Bates arrebatou uma indicação ao Oscar de coadjuvante e protagoniza uma das cenas mais memoráveis do filme (aquela que conta com a jacuzzi). Construindo seu Schmidt com detalhes sutis e sem implorar pela empatia do público - pelo contrário, o personagem soa até desagradável em algumas situações -, o ator volta a encantar aos fãs com um desempenho irretocável, em que disfarça até mesmo os tiques que colecionou em sua longa carreira. No fim das contas, apesar de todos os defeitos - e principalmente por causa do carisma de Nicholson - é fácil simpatizar com o protagonista, um homem com quem se pode cruzar em qualquer supermercado.

 

Funcionário dedicado de uma seguradora, Warren Schmidt não sabe exatamente o que fazer com a chegada da aposentadoria. Sua vida tediosa consiste em trabalhar e conviver com a esposa, Helen (June Squibb) - em quem, segundo confessa, não reconhece a mulher com que se casou quase quarenta anos antes. Sua filha, Jeannie (Hope Davis) há muito não mora com os pais e está de casamento marcado com Randall Hertzel (Dermot Mulroney), de quem Warren não tem a melhor opinião. Quando Helen morre subitamente, Schmidt precisa lidar não apenas com a solidão inesperada e com o descaso da filha - ele precisa encontrar um novo motivo para seguir seus dias, algo além da adoção à distância de um pequeno órfão africano, com quem se corresponde com surpreendente sinceridade. Viajando do Nebraska até o Colorado para o casamento de Jeannie, ele vai encontrar no caminho pessoas que vão lhe abrir os olhos em relação a tudo que o cerca - especialmente Roberta (Kathy Bates), a personalíssima mãe de Randall, uma mulher cuja independência chega a assustar seu conservadorismo.

Ignorando os dois últimos livros da trilogia de Louis Begley, Alexander Payne faz de "As confissões de Schmidt" um filme coerente com sua obra, tanto em termos temáticos quanto visuais. Explorando personagens distantes de qualquer glamour e demonstrando por eles um carinho disfarçado de ironia, o cineasta convida o espectador a uma visita à vida de gente comum, com problemas ordinários e nem sempre com soluções perfeitas para eles. O final agridoce sublinha o tom melancólico da narrativa, mas jamais força o público à emoção barata. Seu estilo distante pode soar seco, mas no fundo Payne é um humanista, um autor que consegue enxergar a beleza e a generosidade até mesmo no mais impenitente misantropo. Os fãs de histórias sobre gente como a gente só podem agradecer seus presentes ao cinema.

terça-feira

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA

HOFFA: UM HOMEM, UMA LENDA (Hoffa, 1992, 20th Century Fox, 140min) Direção: Danny De Vito. Roteiro: David Mamet. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman, Ronald Roose. Música: David Newman. Figurino: Deborah Lynn Scott. Direção de arte/cenários: Ida Random/Brian Savegar. Produção executiva: Joseph Isgro. Produção: Caldecot Chubb, Danny De Vito, Edward R. Pressman. Elenco: Jack Nicholson, Danny De Vito, Armand Assante, J.T. Walsh, John C. Reilly, Robert Prosky, Frank Whaley, Bruno Kirby, Kevin Anderson, Paul Guilfoyle. Estreia: 25/12/92

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Maquiagem

Para o público brasileiro, o nome de Jimmy Hoffa pode não significar muita coisa, mas para os norte-americanos sua importância é fundamental. Líder do poderoso sindicato dos caminhoneiros entre 1958 e 1971, ele bateu de frente com o então senador Robert Kennedy quando foi acusado de ligações com o crime organizado, foi condenado à prisão e até hoje seu desaparecimento, em 1975, é considerado um dos maiores mistérios policiais dos EUA. Motivo tanto de admiração quanto de desconfiança por suas intenções e métodos pouco ortodoxos, Hoffa acabou sendo tema do filme mais sério do ator/diretor Danny De Vito - que fracassou nas bilheterias e foi praticamente ignorado nas cerimônias de premiação (assim como concorreu ao Golden Globe de melhor ator em drama também recebeu indicações ao Framboesa de Ouro de melhor ator e diretor). Retratado com respeito e sobriedade por De Vito, "Hoffa: um homem, uma lenda" se beneficia do roteiro de David Mamet, da atuação gigantesca de Jack Nicholson e de sua suntuosa fotografia (indicada ao Oscar) para contar uma história que, a despeito de não ser de muito interesse fora dos EUA, é contada de forma correta e inteligente.

Um projeto inicialmente cobiçado por Oliver Stone e Barry Levinson, "Hoffa" custou cerca de 35 milhões de dólares à 20th Century Fox e rendeu pouco mais de 20 milhões no mercado doméstico - o que não chega a ser uma surpresa, haja visto a rejeição do público a filmes com temática política.  A maior surpresa vem do fato de ser dirigido por Danny De Vito, até então o nome por trás de duas comédias de humor negro, "Joga a mamãe do trem" (87) e "A guerra dos Roses" (89): muito mais ambicioso e sério do que em suas incursões anteriores na direção, De Vito demonstra segurança ímpar em desenvolver uma trama repleta de idas e vindas temporais e detalhes a respeito de política americana sem perder o ritmo - ainda que o roteiro de Mamet demore um pouco mais do que deveria para finalmente envolver o espectador e exija da plateia um prévio conhecimento de seus personagens. Com uma maquiagem indicada ao Oscar para transformar-lhe no protagonista, Jack Nicholson está em um grande momento da carreira, engolindo cada cena com os discursos inflamados do sindicalista - seus confrontos com Kennedy (Kevin Anderson) são o ponto alto do filme, oferecendo ao público a dramatização quase literal de um dos duelos políticos mais tensos dos anos 60.





Por incrível que pareça, é o roteiro de David Mamet, um dos mais respeitados dramaturgos americanos de sua geração, um dos problemas de "Hoffa": quando o filme começa, demora a deixar claro para os neófitos quem é o protagonista, quais suas intenções e as circunstâncias de seu relacionamento com o caminhoneiro Bobby Ciaro (Danny De Vito), que acaba por se tornar seu homem de confiança com o passar dos anos. Intercalando passado e presente - quando Hoffa e Ciaro estão em um restaurante à beira da estrada esperando por um encontro de negócios e relembrando sua história -, o roteiro especula sobre o destino do personagem central com um desfecho cru e violento que contrasta com o tom sóbrio e elegante adotado até então. Discordando da versão oficial divulgada pelo FBI, De Vito e Mamet criam um clímax dramaticamente mais envolvente, que surpreende pelo inesperado e pela direção competente. Infelizmente o filme se estende desnecessariamente por duas horas e meia - uma edição mais enxuta, especialmente na primeira parte do filme, faria muito bem ao resultado final e evitaria alguns momentos menos interessantes.

A seu favor, "Hoffa: um homem, uma lenda" tem alguns trunfos redentores: a fotografia de Stephen H. Burum (que perdeu o Oscar para "Nada é para sempre", de Robert Redford) é impecável, em cenas construídas milimetricamente para encher os olhos do espectador; a reconstituição de época também é extremosa e a trilha sonora de Thomas Newman é discreta e pouco invasiva, ajudando a estabelecer o clima de tensão que perpassa todo o filme. No entanto, é a presença de Jack Nicholson que torna a obra de Danny De Vito especial: não à toa, o veterano ator considera Jimmy Hoffa um de seus melhores personagens e uma de suas melhores interpretações. No final das contas, mesmo que tenha seus defeitos de ritmo e seja de interesse restrito, "Hoffa" é um filme acima da média sobre uma das personalidades fundamentais da política norte-americana do século XX.

quarta-feira

REDS

REDS (Reds, 1981, Paramount Pictures, 195min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Warren Beatty, Trevor Griffiths. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Dede Allen, Craig McKay. Música: Stephen Sondheim. Figurino: Shirley Russell. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Simon Holland. Produção executiva: Dede Allen, Simon Relph. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Gene Hackman, Edward Herrman, Paul Sorvino. Estreia: 03/12/81

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Warren Beatty), Ator (Warren Beatty), Atriz (Diane Keaton), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Warren Beatty), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Warren Beatty) 

A concepção de um projeto cinematográfico é uma ciência inexata. Nunca se sabe em que circunstâncias uma ideia pode surgir - e que motivos inusitados podem levá-la a ver a luz dos refletores. Um exemplo claro dessa afirmação é "Reds", o milionário épico estrelado, dirigido, produzido e roteirizado por Warren Beatty: a história de um dos jornalistas mais importantes de sua época, John Reed, e de como ele testemunhou a Revolução Russa de 1917 começou a fervilhar na mente de seu criador por volta de 1966, quando, em viagem à Rússia, ele conheceu uma mulher que alegava ter tido um romance com Reed e lhe contou a história de sua vida. Alguns anos depois, aprendendo o idioma russo para conquistar a bailarina Maya Plisetskaya, Beatty aprofundou-se nos detalhes sobre seu protagonista e, em 1969, escreveu o primeiro esboço de um filme que só começaria a tomar forma de verdade dez anos depois - e que fez com que o astro recusasse o convite do cineasta soviético Sergey Bondarchuck de viver o jornalista em um outro filme. Ambicioso, caro (35 milhões de dólares), longo e arriscado, "Reds" chegou às telas americanas no final de 1981, mais de dois anos depois do começo de suas filmagens e, por incrível que pareça em relação a um filme com ideais claramente esquerdistas em uma Hollywood ainda torturada pelos anos do macarthismo, tornou-se um sucesso, especialmente de crítica e prêmios: indicado a 12 Oscar, levou três estatuetas para casa (direção, atriz coadjuvante e fotografia) e rendeu à Beatty láureas de direção do Golden Globe, da Associação de Diretores, dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review. Nada mal para um filme que parecia que jamais iria estrear.

Quando Warren Beatty deu o pontapé inicial às filmagens de "Reds", em agosto de 1979, o cronograma previa quinze ou dezesseis semanas de trabalho. Quando finalmente o perfeccionista diretor se deu por satisfeito, seis meses já haviam se passado e o material filmado era suficiente para nada menos que duas semanas e meia de projeção. A própria Paramount Pictures, financiadora do projeto, só teve acesso ao filme pronto um mês antes de sua estreia - e. logicamente, tinha reservas em relação a como o tema (delicado e talvez político demais para o público médio) iria ser tratado por Beatty, já então um ator politicamente ativo. O resultado foi mais que positivo: ao contrário do que se poderia esperar, o roteiro de "Reds" não se detém na Revolução Russa, passando por ela apenas como uma das vastas experiências de seu protagonista junto a seu trabalho como repórter político e sua relação conturbada com outra jornalista, a independente Louise Bryant (Diane Keaton). Mais uma história de amor do que uma história política, "Reds" conquista pelo tom épico, pela fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro e por um elenco coadjuvante onde se destacam Jack Nicholson e Maureen Stapleton, ambos indicados ao Oscar, assim como Beatty e Keaton.


O filme começa em novembro de 1915, quando John Reed, um repórter da revista de esquerda The Masses conhece a inteligente e liberada Louise, que não hesita em abandonar o marido para se entregar à paixão que sente pelo experiente e sedutor jornalista. O romance entre os dois é atrapalhado somente pelo excesso de viagens de Reed e por seus pontos de vista distintos em relação à fidelidade matrimonial: enquanto ele não nega os romances passageiros que vive enquanto está fora de casa, ela se tortura psicologicamente por seu envolvimento com um amigo do casal, o dramatugo Eugene O'Neil (Jack Nicholson), completamente apaixonado por ela. A entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial serve como estopim para novas crises em seu relacionamento: depois de uma separação traumática, ele a convence a acompanhá-lo para uma viagem à Rússia, onde ele acredita que está se preparando uma grande revolução comunista que irá mudar o mundo. As consequências da revolução, porém, acaba ameaçando sua relação quando Reed se vê preso no país e Louise resolve, mesmo correndo riscos, procurar uma maneira de resgatá-lo. Nesse meio-tempo, Reed tenta também encontrar um modo de fazer com que seus conterrâneos abracem a causa comunista como forma de igualdade social.

Intercalando sua história com depoimentos reais de pessoas que conheceram os protagonistas (em entrevistas filmadas desde o começo dos anos 70), Warren Beatty constrói sua narrativa de forma quase documental, contando com a ajuda providencial da fotografia espetacular de Vittorio Storaro, que por pouco não abandonou o projeto devido às temidas "diferenças artísticas", devidamente solucionadas de forma a equilibrar os planos estáticos desejados por Beatty e os movimentos fluidos e ágeis de câmera propostos por Storaro - merecidamente premiado com um Oscar por seu trabalho. Boa parte do fascínio de "Reds" vem justamente do visual impresso na tela, com paisagens de tirar o fôlego entremeadas por longas cenas de diálogos inteligentes e dramaticamente consistentes: são nesses momentos que brilha Diane Keaton (então namorada do diretor e astro), que transforma sua Louise Bryant na verdadeira protagonista do filme, uma mulher decidida e forte que vê sua vida completamente transformada por amor a um homem e a uma causa. Beatty, galã de prestígio e um dos homens mais poderosos da indústria de então (foi indicado em quatro categorias do Oscar, por "Reds", seguindo outras quatro por "O céu pode esperar", de 1978) quase fica em segundo plano diante da potência do desempenho e Keaton, provando de vez que sua carreira não dependia de sua sociedade artística com Woody Allen. Talvez justamente sua performance tão sensacional dê a impressão de que "Reds" é mais uma história romântica - algo como "Doutor Jivago" (65) - do que uma história política. Melhor assim: sua ideologia não assustou ao público, foi bem aceita pela crítica e legou ao filme a fama de ser um dos épicos mais importantes de sua época. Poderia ser menos longo e mais focado, mas ainda assim é um belo e memorável espetáculo, prejudicado apenas pelo egocentrismo de seu ator principal - não é difícil perceber o quanto o filme fica mais interessante quando ele não está em cena!

segunda-feira

IRONWEED

IRONWEED (Ironweed, 1987, TriStar Pictures, 143min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: William Kennedy, romance de sua autoria. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Anne Goursaud. Música: John Morris. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Leslie Pope. Produção executiva: Denis Blouin, Rob Cohen, Joseph H. Canter. Produção: Keith Barish, Marcia Nasatir. Elenco: Jack Nicholson, Meryl Streep, Tom Waits, Carroll Baker, Diane Venora, Frank Whaley. Estreia: 18/12/87

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Meryl Streep)

O primeiro encontro entre Meryl Streep e Jack Nicholson nas telas foi em 1986, com "A difícil arte de amar", de Mike Nichols, que retratava o conturbado casamento entre a roteirista Nora Ephron e o jornalista Carl Bernstein (ele mesmo, um dos responsáveis pelas reportagens que derrubaram o presidente Nixon pelo escândalo Watergate). No ano seguinte, a dupla de grandes atores voltaria a se encontrar, sob as mãos do brasileiro/argentino Hector Babenco (em alta devido ao prestígio de "O beijo da mulher-aranha") em uma obra bem mais densa e complicada comercialmente. Baseado no romance de William Kennedy vencedor do Prêmio Pulitzer, "Ironweed" é, segundo seu diretor, "sobre o amor, a coragem e a beleza de pessoas de quem não costumamos pensar que podem ter emoções complexas e profundas". Tais pessoas, no caso, são aquelas cujo passado trágico/dramático/sofrido as empurraram para as ruas - sem-tetos, viciados em álcool e relembrando com melancólica nostalgia seus dias junto às famílias e a uma vida estável. Situado em plena Grande Depressão Americana (consequência da quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929) e passando longe dos cartões postais que fazem dos EUA a terra das oportunidades, "Ironweed" é um filme pesado, mas consegue o milagre de extrair poesia e até uma pontinha de otimismo de uma trama centrada basicamente em dor, perda e culpa.

Fotografado com precisão cirúrgica por Lauro Escorel, "Ironweed" não tenta embelezar a vida de tristeza de seus personagens - muito pelo contrário, ilustra de forma visual o cinzento de seu dia-a-dia como uma testemunha silenciosa e compreensiva. O ano é 1938, e o feriado de Halloween leva os dois amantes Francis Pheelan (Jack Nicholson) e Helen Archer (Meryl Streep) à cidade natal dele, Albany, no estado de Nova York. Seu passado é repleto de traumas, sendo o maior a morte de seu filho pequeno, que ele deixou cair no chão ainda bebê - um acontecimento que o afastou da família e o jogou na rua e nos braços do álcool. Helen, por sua vez, era uma cantora talentosa que deixou seus dias de glória no passado e luta contra uma doença incurável, enquanto permanece fiel e leal a Francis e seu grupo de amigos, que inclui o também doente Rudy (Tom Waits) - "tenho câncer e é a primeira vez que eu tenho algo!". Entre abrigos, bares e sarjetas, o casal e seus ocasionais parceiros de copo e de cruz tentam encontrar luz para seus dias tristes, de vez em quando iluminados por momentos de beleza efêmera.


Fugindo bravamente do sentimentalismo barato e da tentação de banalizar ou enfeitar uma camada de seres quase invisíveis da sociedade americana (e por que não universal?), o roteiro de William Kennedy - adaptando seu próprio romance com lances de genialidade - não facilita para o público, tornando seus protagonistas personagens adoráveis e/ou simpáticos. Se existe empatia é graças aos desempenhos extraordinários de seus intérpretes, como sempre impecáveis. Jack Nicholson empresta a seu Francis Pheelan um toque de humanidade e fragilidade poucas vezes visto em sua carreira recheada de tipos excêntricos e arrogantes - seu monólogo frente ao túmulo do filho, logo no início do filme, é uma pérola das mais valiosas (não por acaso, ele foi eleito o melhor ator do ano pelos críticos de Nova York e Los Angeles). Já Meryl Streep brilha sem fazer muito esforço, construindo uma Helen Archer cuja dor de viver está estampada em cada close, em cada sorriso forjado - e principalmente em seu momento-solo, quando sobe ao palco de uma espelunca qualquer para relembrar seus dias de estrela. Ambos foram indicados ao Oscar - e provavelmente perderam as estatuetas devido ao status de "difícil" do filme e seu fraco desempenho na bilheteria: mesmo tendo relativamente poucas cenas juntos, eles elevam o patamar do filme a um nível muito acima da média - e o estabelece como um dos melhores trabalhos de Babenco, um cineasta cuja carreira é marcada por uma série de altos e baixos.

Lançado quatro anos depois da publicação do livro que lhe deu origem - e que está na lista dos 100 melhores romances em língua inglesa do século XX segundo a "The Modern's Library" -, "Ironweed" é um filme único, que trata de pessoas reais e críveis, dotadas de alma e sensibilidade. Jack Nicholson - o ator que William Kennedy tinha em mente desde o começo, apesar de nomes fortes como Gene Hackman, Jason Robards, Paul Newman, Robert Duvall e Sam Shepard terem flertado com o projeto - nunca esteve tão vulnerável em cena, oferecendo ao papel uma delicadeza ímpar, que contrasta com a aridez do cenário, a dureza do tema e a melancolia que perpassa cada minuto. "Ironweed" é uma bela canção sobre dor, luto, perda, desespero. Mas é, também, um filme excepcional, que abraça calorosamente o espectador enquanto lhe mostra um lado feio, sujo e malvado da vida. Um trabalho irretocável de roteiro, direção e elenco, que fica na mente e no coração em iguais medidas. É a obra-prima de Hector Babenco.

terça-feira

O DESTINO BATE À SUA PORTA

O DESTINO BATE À SUA PORTA (The postman always rings twice, 1981, MGM, 122min) Direção: Bob Rafelson. Roteiro: David Mamet, romance de James M. Cain. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Graeme Clifford. Música: Michael Small. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Robert Gould. Produção executiva: Andrew Braunsberg. Produção: Charles Mulvehill, Bob Rafelson. Elenco: Jack Nicholson, Jessica Lange, John Colicos, Michael Lerner, Christopher Lloyd, Anjelica Huston. Estreia: 20/3/81

Publicado em 1934 pelo norte-americano James M. Cain, o romance "The postman always rings twice" sempre foi bastante atraente para o cinema. Já em 1939, o francês "Paixão criminosa", de Pierre Chenal traduzia para a tela a história de luxúria, ambição e paranoia criada por Cain. Quatro anos mais tarde, foi a vez da Itália apresentar a sua versão da trama, em "Obsessão", dirigido por Luchino Visconti - uma produção que só chegou aos cinemas dos EUA em 1976 (segundo consta, por imposição dos editores do autor). Mas foi somente em 1946 que Hollywood rendeu-se à tentação de adaptar a obra, com direção de Tay Garnett e Lana Turner no papel central feminino - uma demora explicada pela dificuldade de transformar uma obra com alto teor sexual em algo palatável ao gosto dos famigerados responsáveis pelo Código Hayes, que mandava nas produções da época e implicava até mesmo com beijos que durassem mais do que alguns segundos. Foi preciso mais trinta e cinco anos, porém, para que um cineasta americano chegasse perto da amoralidade e da sensualidade retratadas pelo escritor. Mais afeito a rebeldias temáticas do que ao cinemão promovido por Hollywood - vide títulos como "Os Monkees estão à solta" e "Cada um vive como quer", retratos nítidos da contracultura dos anos 60 - o cineasta Bob Rafelson é quem teve a coragem de tirar o pó de um livro com quase meio século de idade, distanciar-se do tom noir imposto pelo filme de 1946 e enfatizar o lado mundano de seus personagens. Com um roteiro seco e incisivo do dramaturgo David Mamet (estreando no cinema), "O destino bate à sua porta" versão 1981 pegou de surpresa o puritano público norte-americano e provou, entre uma cena mais quente e outra, que a bela Jessica Lange , ainda desacreditada pela crítica, era uma atriz de grande potencial dramático - o que ficou provado no ano seguinte, quando ela arrebatou indicações ao Oscar de atriz e atriz coadjuvante por dois filmes totalmente opostos (e ganhou a estatueta da segunda categoria pela comédia "Tootsie").

Enfatizando a sexualidade quase animal dos protagonistas e tornando-os mais humanos (e portanto mais suscetíveis a falhas de caráter e incoerências), o roteiro de Mamet transformou o romance de Cain em um pesadelo claustrofóbico e sufocante, tanto pelo visual árido oferecido pela fotografia do sueco Sven Nykvist - colaborador habitual de Ingmar Bergman - quanto pela atmosfera de tensão criada por Rafelson. Substituindo o visual elaborado de luz e sombra dos filmes americanos da década de 40 por um tom naturalista que sublinha a sordidez das situações da história, Nykvist aproxima seus personagens da plateia, impelindo-a a mergulhar em seu emaranhado de circunstâncias cruéis e trágicas sem a proteção de qualquer tipo de glamour. Quando Jack Nicholson e Jessica Lange cedem ao desejo e fazem da mesa da cozinha como palco de seu amor - em meio à farinha e outros ingredientes - o público sabe que está testemunhando o início de um romance que não tem como dar certo, mas compreende completamente suas ações. No auge da beleza, Lange é impossível de se resistir - e Nicholson, em sua quarta parceria com Bob Rafelson, surge em sua vida como alternativa a um mundo sem perspectivas. É um caminho de paixão desmedida e avassaladora conduzido com um senso absoluto de urgência e melancolia - e, paradoxalmente, de uma elegância ímpar mesmo em seu desolador cenário.


A história se passa durante a Grande Depressão americana ocorrida logo após a queda da bolsa de Nova York em 1929. À beira de uma estrada da Califórnia, o grego Nick Papadakis (John Colicos em papel que foi oferecido ao cineasta Elia Kazan) vive com a esposa bem mais jovem, Cora (Jessica Lange) e dirige um restaurante e um posto de gasolina. É lá que vai parar Frank Chambers (Jack Nicholson), um andarilho sem passado - e logicamente sem futuro - que não demora em conquistar a confiança do proprietário do local e convencê-lo a lhe dar um emprego. Surge então, entre ele e Cora, uma tensão sexual que é rapidamente transformada em um caso tórrido e irresponsável. Apaixonados, os dois resolvem fugir juntos, mas quando percebem que lhes será impossível manter o relacionamento sem uma boa base financeira, decidem matar Nick e fazer parecer um acidente. Como não são exatamente gênios do crime, porém, as coisas começam a sair muito erradas - o que coloca a polícia em seu encalço e o remorso em sua rotina como amantes. Em pouco tempo, sua história de amor vira uma história de angústia e desespero.

Acostumado a filmar histórias com anti-heróis e personagens que não se encaixam em uma sociedade convencional, Bob Rafelson faz dos protagonistas de "O destino bate à sua porta" pessoas de carne e osso, uma visão mais perto da obra de Visconti do que da adaptação estrelada por Lana Turner - de certa forma presa à estética noir. Ao dotá-los de características mais humanas, o cineasta (e o roteirista David Mamet) acaba por oferecer a seus atores centrais um material rico e complexo. Em seu ponto de vista, Frank Chambers e Cora Papadakis não são simplesmente dois amantes sórdidos e ambiciosos - como sugere o romance original e suas adaptações anteriores: são pessoas lutando desesperadamente por uma vida menos triste e sem sentido. É lógico que o fazem da maneira errada, mas sua incapacidade até mesmo de lidar com suas escolhas os aproxima do público com grande sucesso, mesmo que seja para serem rejeitados por ele. Nesse ponto é Jessica Lange quem se sai melhor, dotando sua Cora de subtextos e nuances que expandem a compreensão de sua personagem até o limite da compaixão. Jack Nicholson se mantém como o sedutor mau-caráter que sempre lhe cai bem, mas é Lange quem brilha, justificando a escolha de Rafelson e pavimentando um caminho que lhe traria ainda muitas glórias. Tenso e cortante, "O destino bate à sua porta" é uma das adaptações mais certeiras da obra de Cain, ainda que, por incrível que pareça, tente se distanciar das versões cinematográficas anteriores.

A HONRA DO PODEROSO PRIZZI

A HONRA DO PODEROSO PRIZZI (Prizzi's honor, 1985, ABC Motion Pictures, 130min) Direção: John Huston. Roteiro: Richard Condon, Janet Roach, romance de Richard Condon. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Kaja Fehr, Rudi Fehr. Música: Alex North. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Weintraub. Produção: John Foreman. Elenco: Jack Nicholson, Kathleen Turner, Robert Loggia, John Randolph, William Hickey, Anjelica Huston, Lawrence Tierney, Lee Richardson. Estreia: 13/6/85

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner) 

Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.

Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.


Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato

"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.

domingo

A DIFÍCIL ARTE DE AMAR

A DIFÍCIL ARTE DE AMAR (Heartburn, 1986, Paramount Pictures, 108min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, livro de Nora Ephron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Sam O'Steen. Música: Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Susan Bode. Produção: Robert Greenhut, Mike Nichols. Elenco: Jack Nicholson, Meryl Streep, Jeff Daniels, Maureen Stapleton, Stockard Channing, Richard Masur, Catherine O'Hara, Kevin Spacey, Joanna Gleason, Mercedes Ruehl. Estreia: 25/7/86

Segundo trabalho de Meryl Streep sob o comando de Mike Nichols e um roteiro de Nora Ephron - o primeiro foi "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), que lhe deu uma indicação ao Oscar - "A difícil arte de amar" é a adaptação de um livro da própria Ephron, que pôs no papel, em forma de ficção, a real história de seu casamento com o jornalista Carl Bernstein, o mesmo que, junto com Bob Woodward, expôs o escândalo Watergate e obrigou a renúncia do presidente Richard Nixon (e foi vivido por Dustin Hoffman no filme "Todos os homens do presidente" (86)). Mais conhecido pela bela canção-tema de Carly Simon, "Coming around again", o filme de Nichols é uma amarga e cínica análise de um relacionamento pouco saudável, que aposta no texto ácido de Ephron e no talento de Streep e Jack Nicholson para transformar o que poderia facilmente se tornar uma longa diatribe contra a instituição do casamento em um drama realista, ainda que com a mordacidade típica da roteirista e a elegância de sempre da direção de Nichols.

Quando o filme começa, a escritora nova-iorquina Rachel Samstat (Meryl Streep) e o jornalista Mark Formn (Jack Nicholson, substituindo Mandy Patinkin depois de dois dias de filmagens) se conhecem no casamento de um amigo em comum. Mesmo já tendo passado por relacionamentos não muito felizes, ambos acabam se apaixonando e, depois de deixar as reservas a respeito do assunto de lado, resolvem também subir ao altar. Como todo casal apaixonado, eles compram uma casa - que mais os estressa do que os deixa felizes, graças à sua interminável reforma - e tentam administrar a relação, já que ele continua trabalhando, mas ela abandonou o emprego para mudar-se com ele para Washington. A familia não demora a aumentar, mas nem mesmo a filha pequena impede Mark de embarcar em um caso extraconjugal que ameaça jogar tudo por terra. Traída, Rachel acaba por perdoar o marido, mas a confiança abalada mostra-se cada vez mais ameaçadora à tranquilidade do casal, especialmente com uma segunda gravidez na jogada.


Não é de surpreender que o roteiro de Ephron, assim como o livro que lhe deu origem, ponha a maior parcela de culpa no fracasso do casamento entre Rachel e Mark no jornalista, uma vez que a trama é contada quase do ponto de vista da personagem de Streep (que, mais uma vez, está soberba), mas é preciso admirar a forma como Nichols tenta fugir da tentação de apontar qualquer dedo, mostrando que em qualquer relação existe dois lados a considerar. Ter Jack Nicholson como a segunda metade do casal não atrapalha em nada, apesar do eterno ar cínico do ator complicar quando seu personagem tenta convencer Rachel - e por contrapartida a audiência inteira - de seu arrependimento. Mark Forman não é um papel simpático, e Nicholson faz o que pode para que a alta dose de maniqueísmo imposta pelo roteiro não prejudique sua comunicação com o público - não foi à toa que Dustin Hoffman recusou o papel, talvez também para não reviver com Meryl Streep um casamento fracasso como o que viveram em "Kramer x Kramer" (79). Segundo o roteiro, não existe algoz mais fatal para uma relação do que o adultério, mesmo que o tédio, a frutração profissional e a falta de tesão também estejam na equação, e esse quase simplismo acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme.

Com o talento de Ephron em tirar humor das mais trágicas e sérias situações - talento esse que ficaria patente com o sucesso de suas comédias românticas "Sintonia de amor" (93) e "Mensagem pra você" (98) - seria de esperar que "A difícil arte de amar" fosse um tanto menos pessimista. No entanto, como forma de catarse, é inegável que a radiografia da relação estragada entre Rachel e Mark funciona às mil maravilhas. Com diálogos escritos com extrema fluência - característica de Ephron - e interpretados por um elenco de sonhos que inclui ainda Jeff Daniels, Stockard Channing, o cineasta Milos Forman e um estreante Kevin Spacey em uma ponta impagável, o roteiro tem ritmo, consistência e um senso de verdade que somente uma história real que não apela para o sentimentalismo de doenças terminais consegue, o filme de Mike Nichols ainda por cima tem a luxuosa participação da trilha sonora charmosa de Carly Simon, que comenta a história com sua voz inconfundível e delicia o espectador. É ela um dos principais motivos para se assistir ao filme - se é que preciso motivos além de Meryl Streep e Jack Nicholson.

terça-feira

CHINATOWN

CHINATOWN (Chinatown, 1974, Paramount Pictures, 130min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Robert Towne. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Sam O'Steen. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthea Sylbert. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Ruby Levitt. Produção: Robert Evans. Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Diane Ladd. Estreia: 20/6/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roman Polanski), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Faye Dunaway), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Roman Polanski), Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro

Um detetive incorruptível com seu próprio código de honra. Uma femme fatale glamourosa. Uma trama intrincada com ramificações muito além das aparências. Reviravoltas inesperadas e chocantes. Todos os elementos que fizeram a glória do cinema noir americano dos anos 40 estão presentes em "Chinatown", o charmoso e incensado último filme do cineasta Roman Polanski antes de sua fuga dos EUA, após ter mantido relações sexuais com uma menor de idade. Emulando os clássicos policiais da época em que se passa a história - 1937 - e tendo como influência os romances de Dashiel Hammet e Raymond Chandler, o roteirista Robert Towne construiu um dos mais elogiados scripts da história, vencedor do Oscar e exemplo em qualquer curso de roteiro - ainda que seu final, amargo e marcante, tenha sido escrito pelo diretor.

Para o público acostumado à rapidez dos filmes policiais pós- anos 80 - quando a violência e a ação incessante substituíram o cérebro e a sutileza - talvez seja complicado entrar no jogo de "Chinatown". É preciso quase uma hora de projeção para que a trama de Towne realmente comece a empolgar - até então o que mais chama a atenção é a preciosa reconstituição de época e a excelência da atuação de Jack Nicholson, amigo do roteirista e para quem o protagonista foi especialmente criado. A trama, que seguindo os padrões do cinema noir é quase uma desculpa para um exercício de estilo e tensão, só começa a delinear-se quando as peças do quebra-cabeça finalmente parecem fazer sentido - e é aí que o público percebe, juntamente com o detetive vivido por Nicholson, que estava seguindo um caminho totalmente equivocado e o que parecia importante passa a segundo plano.


Tudo começa quando o detetive particular J.J. Gittes (Nicholson) é procurado por uma mulher, Evelyn Mulwray (Diane Ladd), que desconfia estar sendo traída por seu marido, Hollis Mulwray (Darrell Zerling) diretor-chefe do Departamento de Água de Los Angeles. Ele aceita o caso, mas logo em seguida descobre que foi enganado e que a verdadeira Evelyn (Faye Dunaway) está em vias de processá-lo. Quando Hollis é encontrado morto, Gittes se vê envolvido em uma trama que mistura corrupção, adultério e incesto - e se descobre apaixonado por Evelyn, que parece esconder muito mais do que revela.

A atmosfera de "Chinatown" e a forma inteligente de conduzir o roteiro preciso de Towne - em que cada detalhe tem suma importância para o desfecho - é responsabilidade de Roman Polanski, que, muito provavelmente devido à sua trágica história de vida, não é exatamente um entusiasta do ser humano. Sua direção é seca, sem espaço para floreios românticos e até mesmo as cenas de amor entre Gittes e Evelyn são cercadas de uma aura trágica. A química entre Nicholson e Dunaway (que ficou com o papel depois que Ali McGraw separou-se do produtor Robert Evans e Jane Fonda o recusou) é precisa, em boa parte graças ao talento da dupla. O uso econômico da trilha sonora e até mesmo a opção por uma paleta de cores neutras também dão ao filme a elegância que contrasta com a imundície que se esconde por trás das descobertas de Gittes.

"Chinatown" talvez seja superestimado em excesso. Mas é, inegavelmente, um filme de personalidade, inteligência e charme, qualidades essas cada vez mais raras no cinemão americano.

sábado

OS INFILTRADOS

OS INFILTRADOS (The departed, 2006, Warner Bros, 151min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: William Monahan, roteiro original de Alan Mak, Felix Chong. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Leslie Rollins. Produção executiva: G. Mac Brown, Doug Davison, Kristin Hahn, Roy Lee, Gianni Nunnari. Produção: Brad Grey, Graham King, Brad Pitt. Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Martin Sheen, Mark Wahlberg, Vera Farmiga, Ray Winstone, Alec Baldwin, James Badge Dale. Estreia: 26/9/06

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator Coadjuvante (Mark Wahlberg), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Martin Scorsese)

Tudo bem que Martin Scorsese sempre mereceu o Oscar, desde seus tempos de "Taxi driver" e "Touro indomável". Mas foi somente a partir de 1990, quando sua obra-prima "Os bons companheiros" perdeu a estatueta para o soporífero "Dança com lobos" que a injustiça começou a ficar constrangedora. A partir de 2003, então, com o lançamento do aguardado "Gangues de Nova York", qualquer projeto do cineasta era tido como "o filme que vai dar o Oscar a Scorsese". As expectativas foram frustradas tanto no ambicioso retrato do surgimento da capital do mundo - que dividiu a crítica - quanto em seu filme seguinte, "O aviador", biografia do empresário/cineasta/mulherengo Howard Hughes, que chegou à cerimônia cheio de moral mas saiu basicamente com prêmios técnicos (com exceção da merecida premiação de Cate Blanchett como coadjuvante), nocautedo por "Menina de ouro", de Clint Eastwood. Foi preciso que o velho e bom Marty voltasse ao que melhor sabe fazer - estilizar a violência - para que finalmente o feitiço fosse quebrado. "Os infiltrados", refilmagem de um original de Hong Kong que encontrou nele seu diretor ideal, ganhou 4 estatuetas douradas: filme, diretor, roteiro adaptado e montagem. Não é preciso dizer que mereceu todas.

Depois de flertar com os mais variados gêneros - o suspense "Cabo do medo", o romântico "A época da inocência" e até o budista "Kundun" - Scorsese percebeu que pertence mesmo ao universo dos gângsters, personagens que influenciaram sua carreira desde sempre. E por mais genial que ele seja em qualquer tipo de produção, fica patente em cada cena de "Os infiltrados" seu gosto pelo estilo, sua paixão por personagens à margem da sociedade, por complexidades psicológicas e éticas. Assim como suas mais famosas personagens - o Travis Bickle de "Taxi driver" e o autodestrutivo Jake La Motta de "Touro indomável", duas criações impecáveis de Robert De Niro - os protagonistas de seu filme estão exauridos emocionalmente, à beira de um ataque de nervos, fugindo da própria alma. E é nesse vão entre a verdade e a violência que se esconde a perfeição da obra do cineasta.


Leonardo DiCaprio - queridinho de Scorsese desde "Gangues" - é mais do mesmo em sua atuação como Billy Costigan, um jovem oriundo de uma família de criminosos que é infiltrado pela polícia de Boston na quadrilha do mafioso Frank Costello (Jack Nicholson) para que ele encontre provas que o levem à prisão. Ao mesmo tempo, o próprio Costello tem ideia semelhante, empurrando Colin Sullivan (Matt Damon), homem de sua confiança, para servir como policial e lhe passar informações que podem lhe ser úteis. Não demora muito para que tanto a força policial quanto a gangue de Costello descubram que traidores estão entre seus homens, e uma caçada sangrenta tem início.

Se a trama de "Os infiltrados" já é empolgante no papel, na tela ela é nunca menos que eletrizante, graças principalmente ao roteiro extraordinário de William Monaghan - que expande as ideias do filme original - e à edição caprichada de Thelma Schoonmaker, que não é a profissional mais fiel do cineasta à toa. Transformando a trajetória de Billy e Colin em um jogo de gato e rato claustrofóbico e tenso, Monaghan ainda consegue inserir elementos de humor (em especial quando entra em cena Mark Whalberg como um policial nada simpático à personagem de DiCaprio) e uma densidade psicológica muito interessante a seus protagonistas, principalmente quando ambos se envolvem com a mesma mulher, a psicóloga da polícia vivida com apatia por Vera Farmiga (talvez o único senão do filme). Utilizando a violência de maneira exemplar - sem medo da censura de plateias mais suscetíveis a ela - e sem nunca deixar de explorá-la das maneiras mais eficazes, Scorsese também demonstra uma segurança gigantesca na direção de atores. Até mesmo Jack Nicholson consegue estar mais contido - mesmo que escorregue vez ou outra em uma deliciosa interpretação de si mesmo - e o elenco coadjuvante nunca fica atrás (e sobrou inclusive para Mark Whalberg, indicado ao Oscar de coadjuvante).

Empolgante, inteligente e avassalador, "Os infiltrados" também converteu-se na maior bilheteria da carreira de Martin Scorsese, um dos mais geniais cineastas americanos em atividade. Nada mais justo e admirável.

quinta-feira

ALGUÉM TEM QUE CEDER


ALGUÉM TEM QUE CEDER (Something's gotta give, 2003, Columbia Pictures/Warner Bros, 128min) Direção e roteiro: Nancy Meyers. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Joe Hutsching. Música: Hans Zimmer. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth Rubino. Produção: Bruce A. Block. Elenco: Diane Keaton, Jack Nicholson, Keanu Reeves, Amanda Peet, Frances McDormand, Jon Favreau, Paul Michael Glaser, Rachel Ticotin. Estreia: 12/12/03

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Keaton)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Diane Keaton)

Em 2000, a diretora/roteirista Nancy Meyers agradou o público - em especial o feminino - com a comédia "Do que as mulheres gostam", na qual fez o machão Mel Gibson adentrar o pensamento da mulher do século XXI depois de um choque elétrico (??). Três anos depois ela voltava às telas com uma comédia bastante superior e mais madura, novamente encarando um tema pouco explorado pelo cinemão americano: o amor depois dos 50 anos. Em uma época em que apenas as plateias adolescentes parecem ser levadas em conta na hora em que novos projetos são aprovados, "Alguém tem que ceder" provou - à Fox, por exemplo, que não se interessou pelo filme justamente pela idade de seus protagonistas - que inteligência e bom-gosto sempre tem seus fãs: mais de 120 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias e uma surpreendente - mas justa - indicação de sua estrela, Diane Keaton, ao Oscar de melhor atriz.

O protagonista masculino da estória é o empresário musical Harry Sanborn (Jack Nicholson), que tem um fraco por mulheres mais jovens: sua faixa etária preferida é cerca de metade de sua idade. Sua nova conquista é a bela Marin (Amanda Peet), filha da bem-sucedida dramaturga Erica Barry (Diane Keaton). Durante um final de semana na belíssima propriedade da família, em Hamptons, Harry tem um enfarte e se vê obrigado a conviver com a “sogra”, com quem não tem um relacionamento dos mais agradáveis e gentis. Erica, no processo de começar um novo trabalho também não fica muito feliz com a possibilidade de ter que ser enfermeira do arrogante e auto-suficiente namorado da filha única, mas vê a situação ficar mais agradável quando conhece o jovem médico do empresário (Keanu Reeves), que cai de amores por ela. Toda a estranha situação fica ainda mais complicada quando Harry, que até então nem pensava em olhar para uma mulher com mais de 30 anos descobre-se interessado em Erica.

        

Escrito com um frescor e uma inteligência ímpares, o roteiro de “Alguém tem que ceder” brinca com a idade dos personagens de maneira engraçada sem ser boba, irônica sem ser complacente e principalmente, romântica sem ser piegas. Os diálogos entre Keaton e Nicholson (ainda sendo o mesmo Jack Nicholson de sempre, mas menos irritante) estão entre os mais sensíveis e cômicos de sua época, e recitados por dois dos melhores atores que se poderia encontrar. Keaton principalmente. A complexa mudança de sua personagem, que redescobre o amor depois de muito tempo enterrado em uma vitoriosa carreira não poderia ser entregue a qualquer atriz. Mas Diane já fez vários filmes com seu ex-marido Woody Allen e sabe como ninguém mergulhar em neuroses inteligentes e bem-humoradas. Não é de se julgar Meyers, que já escreveu o roteiro com seu par de atores em mente e recusou quaisquer outras possibilidades de elenco - e felizmente Nicholsou preferiu estar aqui do que em "Papai Noel às avessas", que deu a Billy Bob Thornton um de seus melhores papéis.
    
 “Alguém tem que ceder” é uma das melhores comédias românticas da década. Sabe ser engraçada, romântica, sensível e arrancar gargalhadas e lágrimas. Mesmo que se arraste um bocado em seu terço final, alongando-se demais, jamais chega a ser cansativa ou aborrecida - principalmente por contar também com a excelente Frances McDormand como a irmã de Erica, dona de momentos impagáveis. E se não fosse só isso, ainda é um prazer dos maiores ver a casa de praia da personagem principal. Mais do que apenas cenário, é uma festa para os olhos, fotografada com precisão pela lente do veterano Michael Balhaus.

terça-feira

MELHOR É IMPOSSÍVEL


MELHOR É IMPOSSÍVEL (As good as it gets, 1997, TriStar Pictures/Gracie Films, 139min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, Mark Andrus, história de Mark Andrus. Fotografia: John Bailey. Montagem: Richard Marks. Música: Hans Zimmer. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Bill Brzeski/Clay A. Griffith. Produção executiva: Laura Ziskin, Laurence Mark, Richard Sakai. Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson. Kristi Zea. Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Shirley Knight, Harold Ramis, Timothy Olyphant, Jamie Kennedy. Estreia: 25/12/97

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt), Ator Coadjuvante (Greg Kinnear), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Jack Nicholson), Atriz/Comédia ou Musical (Helen Hunt)

Em 1983, o cineasta James L. Brooks fez a festa na cerimônia do Oscar com "Laços de ternura", um misto de comédia de costumes com melodrama familiar que arrancou elogios da crítica e lágrimas do público. Em 1988, ele falhou em conseguir um bicampeonato com "Nos bastidores da notícia", uma comédia romântica ácida que criticava a falta de ética nos telejornais. Levou quase uma década - período em que criou a mega bem-sucedida série de TV "Os Simpsons" - até que Brooks voltasse a ver um filho seu na disputa pela estatueta mais cobiçada de Hollywood. E quando isso aconteceu, não poderia ter sido de melhor forma. "Melhor é impossível" é um filme adorável, que mais uma vez mostra o dom de seu diretor/roteirista/produtor em equilibrar drama e comédia em histórias humanas com personagens extremamente próximas da realidade. Indicado a 6 Oscar - incluindo Melhor Filme mas não Melhor Diretor - o ... longa de Brooks bateu de frente com "Titanic", mas ainda assim seus intérpretes não podem se queixar da recepção que tiveram junto aos membros da Academia. Tanto Jack Nicholson quanto Helen Hunt, seus protagonistas, foram (merecidamente) oscarizados.

"Melhor é impossível" segue o estilo elegante e simples de Brooks, que faz rir de situações cotidianas sem forçar gargalhadas e cria personagens que falam ao público de maneira simples. Os diálogos inteligentes/engraçados/dramáticos nunca soam como diálogos de filme e sim como conversas de gente normal. As personagens parecem pessoas comuns (ainda que entre elas encontre-se um escritor famoso e um artista plástico gay). E as situações, mesmo que pareçam um tanto forçadas, funcionam perfeitamente a seus objetivos dramáticos.

 

Melvin Udall (Jack Nicholson em mais um papel antológico de sua carreira) é um escritor bem-sucedido profissionalmente mas com sérios problemas em relação à convivência com outros seres humanos. Sofrendo de transtorno obsessivo-compulsivo, ele vive recluso em seu apartamento luxuoso, vivendo em constante conflito com os vizinhos, em especial Simon (Greg Kinnear, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), artista plástico homossexual por quem ele nutre uma antipatia gratuita. Dono de rígidas regras de comportamento, Melvin lava as mãos com água fervendo, pula as rachaduras das ruas de Nova York e tranca a porta de casa dezenas de vezes antes de dar-se por satisfeito e leva sua vida confortavelmente. Sua rotina necessária é quebrada quando, ao frequentar o mesmo restaurante de sempre e sentar-se à mesma mesa de sempre, ele descobre que sua garçonete preferida, a doce Carol (Helen Hunt) faltou ao trabalho para cuidar do filho pequeno, portador de uma doença crônica. Para não perder seu hábito adquirido, Melvin resolve pagar o tratamento da criança e se descobre apaixonado por Carol, uma mulher batalhadora que esconde sua carência e seu romantismo por trás de uma máscara de força e estoicismo. Depois que Simon é violentamente espancado por um grupo de drogados, Carol convence Melvin a viajar com ele até a casa de sua família e um real relacionamento de amizade e carinho surge entre eles, aproximando-o da mulher que ama.

Ainda que a trama acene com a possibilidade de um forte melodrama ou situações forçadas por um roteiro necessitado de emoções, "Melhor é impossível" paira acima dos clichês por uma razão muito simples: tem um diálogo direto com o espectador, não tenta falar bonito nem busca complexidades psicológicas. A doença de Melvin - que tornou-se bem mais conhecida após o filme - é apenas um elemento a mais na trama, não ocupando mais espaço do que o necessário (assim como os problemas de saúde do filho de Carol e das relações familiares de Simon). O que interessa a Brooks é a interrelação entre as personagens, como suas vidas podem ser transformadas quando em contato com outras. E nisso o roteiro é pródigo, ainda que muitos considerem um tanto "simples demais". Na verdade, essa simplicidade é que faz dele tão especial. O público se identifica com as personagens e é aí que reside seu charme maior. E ter um elenco como o escalado pelo diretor ajuda bastante.
 
Em mais uma prova de que segundas opções podem ser extremamente benéficas em termos hollywoodianos, o elenco de "Melhor é impossível" que encantou público e crítica poderia não ter feito o filme. Melvin Udall, que acabou tornando-se um dos papéis mais representativos da carreira de Jack Nicholson (que levou um terceiro e justo Oscar), foi oferecido inicialmente a John Travolta. Carol, que elevou o status de Helen Hunt (em uma atuação delicada e sutil) de atriz de TV a estrela de cinema, poderia ter ido parar nas mãos de Holly Hunter ou (Deus nos proteja!) Courtney Love. E Simon, que fez de Greg Kinnear um ator respeitado depois de bombas com a refilmagem de "Sabrina", com Julia Ormond, quase esteve nas mãos de John Cusack, que saiu do projeto devido a seus compromissos com a comédia de humor negro "Matador em conflito". Juntos, os três apresentam uma química invejável, o que reitera a teoria de que certos filmes tem a hora certa de acontecer.

"Melhor é impossível" é um filme delicioso, sofisticado e que se pode assistir com prazer diversas vezes. Seu alto-astral e sua inteligência, aliados à inconfundível música de Hans Zimmer e a seu elenco impecável fazem dele um clássico dos anos 90. Poucas vezes um título soou tão adequado.

domingo

QUESTÃO DE HONRA

QUESTÃO DE HONRA (A few good men, 1992, Columbia Pictures/Castle Rock Entertainment, 138min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Aaron Sorkin, peça teatral de Aaron Sorkin. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Robert Leighton, Steve Nevius. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Michael Taylor. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: William Gilmore, Rachel Pfeffer. Produção: David Brown, Rob Reiner, Andrew Scheinman. Elenco: Tom Cruise, Jack Nicholson, Demi Moore, Kiefer Sutherland, Kevin Bacon, Kevin Pollack, Noah Wyle, Xander Berkeley, Cuba Gooding Jr., James Marshall, J.T. Walsh. Estreia: 11/12/92

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Som

Não deixa de ser interessante e sintomático notar que, no mesmo ano em que Quentin Tarantino fazia sua estreia nas telas com o agressivo e inovador "Cães de aluguel", a Academia de Hollywood tenha indicado para seu Oscar de Melhor Filme uma produção tão quadradinha quanto "Questão de honra". Baseado em uma peça de teatro de Aaron Sorkin (também autor do roteiro), o filme de Rob Reiner é extremamente bem realizado, bem dirigido e feito com uma competência assustadora. Mas, é, ao mesmo tempo, tão clássico, tão correto e tão tecnicamente admirável - a ponto de acabar com um vintage "The end" - que parece de plástico. Apesar disso - ou talvez por isso - é um filme de tribunal empolgante e que, se não chega a ser uma obra-prima, é um dos trabalhos mais interessantes de Tom Cruise.

Ainda em sua tentativa de fugir do estereótipo de galã, Cruise interpreta aqui, o jovem advogado da marinha Daniel Kaefe, que recebe a incumbência de defender, nos tribunais, dois soldados acusados de matar um colega. Acostumado a resolver todos os seus casos com acordos, logo ele passa a ser pressionado por sua superior, a Tenente JoAnne Galloway (Demi Moore) a insistir em uma defesa mais aguerrida. Certos de que os dois réus cometeram o crime cumprindo ordens superiores - um tal "código vermelho" comum na Marinha americana - eles resolvem arriscar suas carreiras ao chamar para depor como testemunha o poderoso Coronel Nathan Jessep (Jack Nicholson).

É difícil encontrar um defeito técnico em "Questão de honra". A música grandiloquente de Marc Shaiman, a edição concisa de Robert Leighton e o roteiro de Aaron Sorkin não deixam espaço para críticas. O elenco é o melhor que se poderia reunir na época: Cruise e Demi Moore eram astros quentíssimos e Jack Nicholson dispensa comentários (sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Oscar). A direção de Rob Reiner é correta, discreta e eficaz, e o clímax é poderoso e interpretado com garra. Por que então "Questão de honra" - apesar do sucesso de bilheteria e das indicações ao Oscar - não é lembrado hoje como o excelente filme que é? Justamente por seu medo de ousar.


Na sua tentativa de agradar a todas as fatias de público possíveis - opção esta que a gorda bilheteria mostrou acertada - Reiner construiu um filme meticulosamente fotografado, com um script escrito com a precisão de um relógio cuco e um visual caprichado, em que desde as primeiras sequências fica evidente o cuidado com a produção. Também é elogiável a escolha em não criar um desnecessário romance entre as personagens de Cruise e Demi Moore, o que enfraqueceria a história e mataria o ritmo cadenciado proposto por Sorkin. Mas, mais do que tudo, o que "Questão de honra" tem de melhor é seu elenco.

Se Cruise convence no papel de Daniel Kaffe e Demi Moore entrega uma atuação correta - sem ter que apelar para sua extrema beleza - são os coadjuvantes que definitivamente roubam a cena. Como um dos vilões Kiefer Sutherland exercita sua veia cruel, e Kevin Bacon se mostra um ator versátil e competente como o promotor que luta contra o protagonista no tribunal. E Jack Nicholson, em um dos desempenhos mais assustadores de sua carreira, engole todos à sua volta, com um trabalho excepcional. E o fato de Tom Cruise ter encarado sem medo o veterano ator em uma sequência empolgante, no capítulo final, reitera a afirmação de que, quando bem dirigido, o galã de "Top Gun" tem seu valor dramático.

Deixando de lado os preconceitos contra filmes "certinhos", é possível se encantar com todas as qualidades de "Questão de honra". Não muda a vida de ninguém, mas prende a atenção e é feito com uma inteligência acima da média.

sábado

NOS BASTIDORES DA NOTÍCIA


NOS BASTIDORES DA NOTÍCIA (Broadcast news, 1987, 20th Century Fox, 133min) Direção e roteiro: James L. Brooks. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Richard Marks. Música: Bill Conti. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Jane Bogart. Casting: Ellen Chenoweth. Produção executiva: Polly Platt. Produção: James L. Brooks. Elenco: William Hurt, Holly Hunter, Albert Brooks, Lois Chiles, Joan Cusack, Jack Nicholson, Robert Prosky. Estreia: 16/12/87

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (William Hurt), Atriz (Holly Hunter), Ator Coadjuvante (Albert Brooks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem

Tudo bem que o Oscar de 1987 já tinha dono desde o início, com "O último imperador", de Bernardo Bertolucci sendo o favorito desde sempre. Mas é difícil entender os motivos que levaram a Academia a escolher "Nos bastidores da notícia" como um dos cinco indicados a seu prêmio máximo. Ainda que bastante correto, com diálogos inteligentes e um elenco adequado, o filme de James L. Brooks não encanta em momento algum, longe das grandes emoções de seu trabalho anterior - e este sim multi-oscarizado - "Laços de ternura".

"Nos bastidores da notícia" usa o mundo dos telejornais como pano de fundo para uma comédia romântica e uma crítica ácida às pessoas obcecadas com o sucesso profissional - além de também cutucar sem muita delicadeza a superficialidade que ronda o por trás das câmeras de uma emissora de televisão. A protagonista é Jane Craig (vivida com delicadeza por Holly Hunter, que substituiu Debra Winger poucos dias antes do início das filmagens e concorreu a seu primeiro Oscar), a talentosa e dedicada produtora de um programa jornalístico de Washington. Dada a choros repentinos e incontroláveis, Jane é uma control-freak absoluta que nem desconfia que desperta a paixão enlouquecida de Aaron Altman (Albert Brooks), seu colega de trabalho, um homem inteligente, culto e sensível que sofre por não ter o visual apropriado para ser âncora de telejornal. "O mundo não seria perfeito se insegurança e desespero nos tornassem atraentes?", dispara ele em uma de suas conversas íntimas com ela.

A relação amigável entre Jane e Aaron sofre um abalo quando entra em cena Tom Granick (William Hurt), um jornalista galã que tem tudo que Aaron deseja: sucesso, mulheres e uma aparência que lhe abre todas as portas. Apesar de não ser exatamente um gênio, Tom acaba conquistando o amor de Jane, e o triângulo amoroso formado por eles acaba chegando à sua vida profissional.


Assim como já havia feito em "Laços de ternura", em "Nos bastidores da notícia" James L. Brooks aposta todas as suas fichas nas relações inter-humanas entre seus protagonistas, que, mais uma vez são extremamente verossímeis, repletos de qualidades e defeitos. Incoerentes como boa parte das pessoas reais, as personagens criadas por Brooks encontram nos atores escalados por ele intérpretes à altura da responsabilidade. Não foi à toa que não apenas Hunter concorreu ao Oscar, mas também William Hurt e Albert Brooks. Hurt deita e rola na pele do sedutor Tom Granick e Brooks entrega uma atuação perfeita em sua insegurança como o sensível Aaron. Juntos, os três valem a sessão do filme. No entanto, não deixa de ser um exagero as suas generosas sete indicações ao Oscar.

Inteligente e simpático, "Nos bastidores da notícia" ainda conta com a participação especialíssima de Jack Nicholson (em atuação não-creditada) e a inspirada atuação da ótima Joan Cusack. Pode não ser uma obra-prima, mas é acima da média.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...